Manifesto Contra a Burocratização do
Download
Uma análise profundamente desnecessária sobre a
necessidade de compartilhar cinco documentos para
obter aquilo que o ser humano já queria desde o início: um
documento.
Existe uma pergunta que, em algum momento da história da humanidade, alguém
deveria ter feito:
Por que eu preciso entregar cinco documentos para baixar um documento?
Essa pergunta parece simples.
É curta.
É objetiva.
Possui sujeito, verbo, complemento e uma dose saudável de incredulidade.
Infelizmente, perguntas simples são perigosas em sistemas burocráticos, porque
podem revelar que determinada coisa poderia ser muito mais simples.
E aparentemente simplicidade é uma ameaça.
O Scribd, plataforma que se apresenta como uma enorme biblioteca digital
alimentada pela contribuição de seus usuários, encontrou uma maneira
particularmente criativa de transformar um download em uma pequena peregrinação
administrativa. Em vez de simplesmente permitir que uma pessoa clique em “baixar” e
obtenha o arquivo que deseja, o sistema pode pedir que ela primeiro envie cinco
documentos próprios para desbloquear o download gratuito. Há também a
alternativa de assinar o serviço, naturalmente.
E aqui chegamos à primeira grande obra-prima do sistema.
Você quer um PDF.
O Scribd responde:
“Claro.”
Você pensa:
“Excelente.”
O Scribd continua:
“Só precisamos de cinco PDFs.”
Você pergunta:
“Para quê?”
O Scribd responde:
“Porque sim.”
Eis a essência da civilização digital.
I. O Grande Mercado de Trocas
Documentais
Vamos imaginar uma situação hipotética.
Você encontrou um documento.
Ele possui exatamente aquilo que você precisa.
Talvez seja um trabalho acadêmico.
Talvez seja uma apostila.
Talvez seja uma apresentação.
Talvez seja um documento antigo que alguém digitalizou às três da manhã em 2009.
Não importa.
Você quer o arquivo.
Você clica no botão.
E então surge diante de você uma proposta comercial tão peculiar que parece ter sido
concebida por um economista que passou três dias sem dormir:
Envie cinco documentos para baixar este.
Cinco.
Não quatro.
Não três.
Cinco.
O número cinco aparece diante do usuário com a solenidade de uma exigência ritual.
É como se o download dissesse:
“Você deseja este PDF?”
“Sim.”
“Então prove seu valor.”
“Como?”
“Traga cinco pergaminhos.”
II. O Usuário Como Fornecedor Não
Remunerado de Conteúdo
Existe algo particularmente interessante nessa lógica.
O usuário entra no Scribd procurando conteúdo.
Sai sendo convidado a produzir conteúdo.
Isso cria uma inversão curiosa.
A pessoa chega como consumidora.
Subitamente, ela se encontra na posição de fornecedora.
É quase como entrar numa padaria para comprar pão e ouvir:
“Claro. Para levar este pão, primeiro precisamos que você asse cinco pães para os
próximos clientes.”
Você pergunta:
“Mas eu vim comprar.”
“Sim.”
“Eu não quero produzir.”
“Entendemos.”
“Então por que preciso produzir?”
“Porque você quer o pão.”
Silêncio.
Essa pequena parábola talvez seja exagerada.
Mas o princípio é deliciosamente absurdo.
O Scribd não está simplesmente oferecendo um arquivo.
Está transformando o acesso em uma troca.
Você fornece.
A plataforma recebe.
Outro usuário eventualmente encontra.
A biblioteca cresce.
O sistema ganha mais conteúdo.
E você, depois de contribuir com cinco documentos, finalmente recebe aquilo que
queria desde o primeiro segundo.
Um PDF.
III. A Economia do “Você Só Precisa Fazer
Mais Cinco Coisinhas”
A expressão “só” merece uma investigação especial.
“SÓ envie cinco documentos.”
O “só” é uma palavra extremamente perigosa.
“Só cinco.”
“Só preencher este formulário.”
“Só confirmar seus dados.”
“Só criar uma conta.”
“Só verificar seu e-mail.”
“Só cadastrar um cartão.”
“Só fazer uma assinatura.”
“Só cancelar antes da cobrança.”
A civilização moderna foi construída em grande parte sobre o uso estratégico da
palavra “só”.
Cinco documentos não são necessariamente muito.
Mas cinco documentos são muito quando você entrou no site querendo baixar um
documento específico.
A diferença está no contexto.
Se alguém disser:
“Você pode me enviar cinco documentos?”
Talvez.
Se alguém disser:
“Você precisa escrever cinco documentos para obter o documento que já está diante
de você?”
A questão muda.
Agora estamos diante de um pequeno monumento à burocracia.
IV. O Problema Filosófico do Primeiro
Documento
Existe ainda uma questão extremamente interessante.
Suponhamos que o usuário aceite.
Ele decide colaborar.
Envia o primeiro documento.
O Scribd registra:
1 de 5.
Uma pequena barra de progresso começa a existir.
O usuário olha para ela.
Ainda faltam quatro.
Ele envia o segundo.
2 de 5.
Terceiro.
3 de 5.
Quarto.
4 de 5.
Agora falta apenas um.
A essa altura, a pessoa já não está mais baixando um PDF.
Ela está completando uma missão.
O download tornou-se uma conquista.
O usuário já percorreu uma árvore de habilidades inteira para chegar ao botão que
poderia simplesmente ter sido clicado desde o início.
Finalmente:
5 de 5.
Parabéns.
Você desbloqueou a capacidade de baixar um documento.
Depois de produzir cinco documentos.
O arquivo está disponível.
Você clica.
E então, finalmente, consegue aquilo que queria.
Um PDF.
Um.
V. A Gloriosa Conquista do PDF
Existem grandes conquistas na história humana.
A chegada à Lua.
A invenção da imprensa.
A descoberta da eletricidade.
A criação da internet.
E agora:
baixar um PDF do Scribd depois de enviar cinco documentos.
É difícil não admirar a proporção épica do processo.
Você atravessou dificuldades.
Você enviou arquivos.
Você preencheu títulos.
Você escreveu descrições.
Você confirmou uploads.
Você enfrentou documentos duplicados.
Você verificou se os arquivos eram originais.
Você sobreviveu.
E, no fim, recebeu:
[Link]
Provavelmente com 3,7 MB.
É lindo.
É quase espiritual.
VI. A Ironia do Conteúdo Original
Existe ainda uma ironia particularmente saborosa.
O Scribd enfatiza que os documentos enviados devem ser originais e que o usuário
deve possuir os direitos necessários para compartilhá-los.
Isso é perfeitamente razoável.
Aliás, é uma política necessária.
O problema aparece quando pensamos no contexto em que essa exigência surge.
O usuário está sendo incentivado a fornecer conteúdo para obter acesso a outro
conteúdo.
Mas não pode simplesmente pegar qualquer coisa que tenha encontrado por aí.
Precisa ter algo legítimo para oferecer.
Então imaginemos o cidadão comum:
“Eu só queria baixar uma apostila.”
O sistema:
“Você tem cinco documentos originais?”
“Não.”
“Tem trabalhos acadêmicos seus?”
“Não.”
“Apresentações?”
“Não.”
“Anotações?”
“Algumas.”
“Perfeitas.”
E nasce uma nova profissão:
produtor de documentos para desbloqueio de documentos.
VII. A Ascensão do PDF Desnecessário
Nesse ponto, uma consequência inevitável aparece.
Se o objetivo é fornecer cinco documentos, surge uma pergunta:
O que exatamente as pessoas vão enviar?
Talvez textos úteis.
Talvez trabalhos.
Talvez pesquisas.
Talvez apresentações.
Talvez anotações.
Mas existe uma possibilidade ainda mais fascinante.
Documentos criados exclusivamente para preencher a exigência.
E aqui a criatividade humana entra em ação.
O indivíduo pode produzir:
“Documento 1: Considerações Gerais Sobre a Importância da Consideração.”
Depois:
“Documento 2: Relatório Complementar Sobre Considerações Gerais.”
Depois:
“Documento 3: Considerações Complementares Sobre o Relatório de Considerações.”
Depois:
“Documento 4: Análise das Considerações Relativas às Considerações Anteriores.”
E finalmente:
“Documento 5: Considerações Finais Sobre a Necessidade de Considerar as
Considerações.”
O Scribd olha para aquilo.
O sistema registra:
5/5.
O usuário sorri.
A humanidade perdeu aproximadamente vinte minutos.
Mas o PDF foi desbloqueado.
Vitória.
VIII. A Máquina de Produzir Linguiça
Existe, portanto, uma consequência quase literária nesse sistema.
Para obter um documento, você precisa produzir documentos.
Para produzir documentos, você precisa preencher páginas.
Para preencher páginas, você precisa escrever.
Para escrever, você precisa de palavras.
E quando você não possui nada a dizer, começa a escrever coisas como:
“Este documento apresenta considerações importantes sobre o tema em questão.”
Excelente.
O tema em questão é o tema em questão.
Uma frase monumental.
Depois:
“É importante destacar que diversos aspectos devem ser considerados.”
Quais aspectos?
Não importa.
Eles devem ser considerados.
Isso é suficiente.
Depois:
“Além disso, deve-se levar em consideração que a questão possui características
próprias.”
Naturalmente.
Todas as questões possuem características próprias.
Inclusive esta.
E assim nasce o documento inútil.
Não porque o autor seja incompetente.
Mas porque o sistema criou uma pequena demanda por volume.
O conteúdo deixou de ser o objetivo.
O preenchimento tornou-se o objetivo.
IX. O Documento Como Moeda
Talvez a maneira mais interessante de interpretar o sistema seja pensar no
documento como uma espécie de moeda.
Você possui cinco unidades documentais.
Entrega cinco.
Recebe um download.
É uma economia curiosa.
Em uma economia tradicional, alguém poderia dizer:
“Eu tenho dinheiro e quero comprar algo.”
Aqui:
“Eu tenho documentos e quero baixar algo.”
A moeda é estranha.
Ela possui páginas.
Possui títulos.
Possui descrições.
Pode ter PDF no final.
E talvez seja justamente por isso que o sistema tenha uma beleza involuntária.
O Scribd transformou papelada em capital.
Você não possui dinheiro?
Tudo bem.
Você possui documentos?
Melhor ainda.
X. O Pequeno Detalhe Que Torna Tudo
Ainda Mais Engraçado
Existe um detalhe particularmente maravilhoso.
A própria documentação do Scribd informa que o programa de benefícios por upload
está sujeito a alterações sem aviso prévio.
Isso significa que toda esta crítica pode estar discutindo um mecanismo que amanhã
poderá ser diferente.
E isso é perfeito.
Porque estamos agora escrevendo um documento enorme sobre um sistema cuja
própria estrutura pode mudar.
Ou seja:
este texto também é potencialmente obsoleto.
Magnífico.
Estamos criticando a burocracia utilizando uma obra que poderá virar documentação
histórica da burocracia.
Em algum futuro distante, alguém poderá encontrar este arquivo e perguntar:
“Por que esse sujeito escreveu tantas páginas sobre cinco PDFs?”
E a resposta será:
“Porque ele precisava baixar um PDF.”
Silêncio.
“E funcionou?”
“Provavelmente.”
XI. O Usuário Que Só Queria Ler
Talvez seja esse o ponto mais importante.
A maioria das pessoas não acorda de manhã pensando:
“Hoje gostaria de contribuir voluntariamente para uma biblioteca digital global.”
Às vezes elas só querem um arquivo.
Querem estudar.
Querem pesquisar.
Querem consultar.
Querem ler.
Querem imprimir.
Querem guardar.
Querem terminar aquilo que estavam fazendo.
O download é um meio.
Não é o objetivo da vida.
E, no entanto, sistemas digitais conseguem transformar meios em pequenas jornadas
administrativas.
O usuário não queria uma experiência.
Queria um PDF.
É uma diferença brutal.
Quando alguém pede um copo d'água, entregar uma palestra sobre a importância da
hidratação pode ser intelectualmente interessante.
Mas continua não sendo água.
XII. A Grande Conclusão
Depois de toda essa análise, chegamos finalmente à conclusão.
O sistema de exigir cinco documentos para liberar um download pode ser
compreendido como uma forma de incentivo à participação na biblioteca.
Essa é a justificativa racional.
Usuários fornecem conteúdo.
A biblioteca cresce.
Outras pessoas encontram materiais.
O ecossistema se alimenta.
Tudo isso possui alguma lógica.
Mas existe uma diferença entre uma lógica ser compreensível e uma experiência ser
agradável.
Você pode compreender perfeitamente por que algo funciona de determinada
maneira e ainda assim olhar para aquilo e pensar:
“Meu Deus, eu só queria baixar o PDF.”
E essa frase talvez seja a síntese perfeita de toda a experiência.
Não existe necessidade de transformar cada ação digital em uma pequena prova de
comprometimento.
Nem todo clique precisa possuir uma missão secundária.
Nem todo download precisa exigir uma contribuição editorial.
Nem todo arquivo precisa ser adquirido depois de uma peregrinação pelo deserto
administrativo.
Às vezes, um botão deveria fazer aquilo que está escrito nele.
Baixar.
Não:
“Baixar, mas antes contribuir com cinco documentos, refletir sobre sua relação com a
economia de conteúdo, considerar uma assinatura, preencher metadados, garantir
que possui direitos autorais, aguardar o processamento, enfrentar a possibilidade de o
arquivo já existir e, depois de tudo isso, talvez descobrir que o botão não está
disponível porque o uploader decidiu não permitir downloads.”
Não.
Baixar.
Que conceito radical.
Que ideia perigosa.
Que inovação tecnológica.
XIII. Encerramento Definitivo, Porque Agora
Já Chega
Este documento começou com uma pergunta simples:
Por que eu preciso compartilhar cinco PDFs para baixar um PDF?
Terminamos com aproximadamente milhares de palavras tentando responder.
A resposta curta poderia ter sido:
“Porque o Scribd oferece essa modalidade como forma de incentivar uploads,
enquanto também oferece assinatura como alternativa.”
Pronto.
Duas linhas.
Informação suficiente.
Objetiva.
Racional.
Economicamente compreensível.
Mas então este documento não existiria.
E, pior ainda, você provavelmente ainda estaria olhando para aquele botão de
download.
Portanto, em nome da tradição, da burocracia, da papelada, dos PDFs, das barras de
progresso e de todos os indivíduos que já encararam uma tela dizendo “envie 5
documentos para baixar” com a expressão vazia de quem acaba de perceber que a
vida poderia ter sido mais simples:
que este documento seja registrado.
Que seja arquivado.
Que seja contabilizado.
Que seja transformado em PDF.
Que seja enviado.
Que cumpra sua função.
Que ocupe espaço.
E, principalmente:
que ajude alguém a baixar um maldito PDF.
Fim.
Definitivamente.
Agora sim.
Provavelmente.