PSICOPATOLOGIA
ESPECIAL
Transtornos da
Personalidade
Michele Aparecida Cerqueira Rodrigues
Transtornos da
Personalidade
Introdução
Os transtornos da personalidade constituem padrões persistentes de experiência
interna e de comportamento que se desviam das expectativas culturais, impactando
significativamente a vida do indivíduo. Neste estudo, serão apresentados os principais
modelos de compreensão da personalidade e as bases nosológicas que sustentam
sua classificação contemporânea.
A partir da organização em Clusters A, B e C, serão discutidos os núcleos
psicopatológicos, os critérios diagnósticos e os desafios do diagnóstico diferencial. O
conteúdo também enfatiza a distinção entre transtornos da personalidade e alterações
de personalidade decorrentes de condições médicas, fortalecendo uma prática clínica
ética e fundamentada.
Objetivos da Aprendizagem
Ao final do conteúdo, esperamos que você seja capaz de:
• Compreender os padrões rígidos e invasivos de comportamento nos grupos
excêntricos e dramáticos da personalidade.
• Identificar os traços de ansiedade e dependência na personalidade e realizar o
diagnóstico diferencial entre traços de caráter e transtornos mentais agudos.
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Modelos de Compreensão e Clusters A e B
A psicopatologia contemporânea atravessa um período de refinamento nosológico,
migrando de uma perspectiva puramente descritiva para uma compreensão mais
aprofundada dos mecanismos que sustentam a personalidade.
A avaliação da personalidade exige que o clínico transcenda a mera observação
de comportamentos isolados, compreendendo-os como padrões persistentes de
percepção, relação e pensamento acerca de si e do mundo (APA, 2014).
Personalidade
Fonte: Magnific (2026).
Essa transição é estratégica para a prática clínica, pois permite que o diagnóstico
deixe de ser um rótulo estático e passe a funcionar como um guia para o planejamento
terapêutico individualizado, fundamentado na compreensão de que os limites entre
normalidade e patologia são fluidos ao longo do curso da vida (APA, 2014).
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O modelo Categorial vs. O Modelo Dimensional
da Personalidade
O modelo categorial apresenta limitações, uma vez que frequentemente falha
em capturar a complexidade clínica, resultando em altas taxas de comorbidade e
no uso excessivo de diagnósticos sem outra especificação, o que compromete a
especificidade das intervenções e a validade diagnóstica (APA, 2014).
Uma alternativa a essa abordagem categórica é a perspectiva dimensional
de que os transtornos da personalidade representam variantes mal-
adaptativas de traços de personalidade que se fundem imperceptivelmente
com a normalidade e entre si (APA, 2014, p. 690).
A proposta do modelo híbrido ou dimensional surge para suprir as lacunas do
modelo categorial.
Modelos de diagnóstico
Fonte: Magnific (2026).
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A análise do funcionamento da personalidade através de traços patológicos permite
uma compreensão mais precisa da heterogeneidade individual, com foco em domínios
como afetividade negativa, desapego e psicoticismo, enriquecendo a formulação
de caso (APA, 2014; OMS, 2026). Para compreender essas diferenças, observe a
comparação entre os modelos categorial e dimensional na avaliação da personalidade:
Quadro comparativo
Unidade de análise Modelo categorial Modelo dimensional
Presença ou ausência de Graduação de traços e
Definição sintomas (checklist) funcionamento
Flexibilidade clínica Rígida; limites demarcados Elevada; captura o continuum
Comunicação e Planejamento terapêutico
Utilidade diagnóstica codificação oficial e pesquisa
Fonte: elaborada pela autora (2026).
Essa dualidade de modelos prepara o terreno para a classificação em Clusters, que
organiza as manifestações da personalidade em grupos baseados em similaridades
fenomenológicas e correlações biológicas (Barlow; Durand; Hofmann, 2021;
Dalgalarrondo, 2019; APA, 2014).
Cluster A (Excêntricos): Paranoide, Esquizoide e Esquizotípica
Caracteriza-se por um núcleo comum de estranheza e distanciamento social, em que
os indivíduos frequentemente se situam em uma zona de contiguidade com o espectro
da esquizofrenia, compartilhando vulnerabilidades genéticas e substratos neuronais
(Dalgalarrondo, 2019; APA, 2014; Freud, 2010).
Para compreender esse núcleo de características, observe os principais transtornos
de personalidade relacionados ao espectro da estranheza e do distanciamento social:
Transtorno da Personalidade Paranoide
Caracteriza-se por desconfiança e suspeita persistentes, com interpretação das
intenções alheias como maliciosas, mesmo sem evidências. Hipervigilância,
defensividade e rancor são manifestações comuns, sem presença de delírios
ou perda significativa do contato com a realidade.
Transtorno da Personalidade Esquizoide
Caracteriza-se por distanciamento social, expressão emocional restrita e pouco
interesse em vínculos íntimos, com preferência por atividades solitárias.
Transtorno da Personalidade Esquizotípica
Caracteriza-se por déficits interpessoais, distorções cognitivas e
comportamentos excêntricos, associados a ideias de referência, crenças
incomuns e discurso vago.
Diferentemente das psicoses plenamente desenvolvidas, os transtornos do Grupo
A mantêm as alterações do pensamento e da percepção abaixo do limiar psicótico,
embora apresentem relação de espectro com a esquizofrenia. Nesse contexto,
a organização dos transtornos de personalidade em grupos busca facilitar sua
compreensão clínica, conforme destaca o DSM-5:
Os transtornos da personalidade estão reunidos em três grupos [A, B e
C], com base em semelhanças descritivas. [...] Deve-se observar que esse
sistema de agrupamento, embora útil em algumas pesquisas e situações
educacionais, apresenta sérias limitações e não foi consistentemente
validado (APA, 2014, p. 646).
Frequentemente, esses pacientes buscam tratamento para sintomas secundários,
como ansiedade ou depressão, e não para os traços de personalidade em si
(Dalgalarrondo, 2019; APA, 2014).
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Cluster B (Dramáticos): Antissocial, Borderline, Histriônica e Narcisista
A identificação do Cluster B é uma prioridade estratégica, dada sua associação
com comportamentos de risco e instabilidade interpessoal. Na prática clínica,
esses transtornos desafiam a aliança terapêutica e exigem do clínico um manejo
especializado da contratransferência e da desregulação emocional (Dalgalarrondo,
2019; APA, 2014).
Para compreender as principais características do Cluster B, observe os transtornos
marcados por impulsividade, instabilidade emocional e dificuldades interpessoais:
Transtorno da Personalidade Antissocial
Caracteriza-se por baixa inibição comportamental
e vulnerabilidade biológica central, fatores que
dificultam a conformação às normas sociais.
Violação de regras e impulsividade
Fonte: Magnific (2026).
Transtorno da Personalidade Borderline
Caracteriza-se por reatividade emocional intensa,
impulsividade e esforços desesperados para evitar
abandono real ou imaginado.
Instabilidade emocional e relacional
Fonte: @freepik, Magnific (2026).
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Transtornos da Personalidade Histriônica
e Narcisista
O transtorno histriônico caracteriza-se pela busca
excessiva por atenção, teatralidade emocional,
comportamento sedutor e afetos superficiais. O
transtorno narcisista distingue-se pela grandiosidade,
necessidade de admiração e ausência de empatia.
Busca de admiração e validação
Fonte: Magnific (2026).
A exploração interpessoal é frequente, pois o indivíduo acredita que seus desejos
possuem prioridade absoluta. O desafio clínico reside em abordar a fragilidade
subjacente sem reforçar as defesas grandiosas que impedem conexões autênticas
(Dalgalarrondo, 2019; APA, 2014; Freud, 2010).
Nesse sentido, “o Grupo B inclui os transtornos da personalidade antissocial,
borderline, histriônica e narcisista. Indivíduos com esses transtornos costumam
parecer dramáticos, emotivos ou erráticos” (APA, 2014, p. 646). A dramaticidade do
Cluster B contrasta marcadamente com a necessidade de controle e a ansiedade que
organizam o comportamento dos indivíduos do Cluster C (APA, 2014).
Cluster C e Diagnóstico Diferencial
No Cluster C, o medo e a ansiedade funcionam como os organizadores centrais do
comportamento. Diferentemente da estranheza do Cluster A ou do caos do Cluster B,
o indivíduo busca segurança através da esquiva ou da rigidez extrema para lidar com
a incerteza existencial (APA, 2014).
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Diagnóstico
Fonte: Magnific (2026).
A avaliação deve considerar a estabilidade temporal dos traços, uma vez que episódios
de transtorno mental podem deixar marcas duradouras que alteram permanentemente
o modo de sentir e reagir do sujeito.
Nesse sentido, “o Grupo C inclui os transtornos da personalidade evitativa, dependente
e obsessivo-compulsiva. Indivíduos com esses transtornos com frequência parecem
ansiosos ou medrosos” (APA, 2014, p. 646).
Além disso, fatores culturais podem influenciar a percepção do que é considerado
retração ou dependência aceitável em diferentes sociedades (Dalgalarrondo, 2019;
APA, 2014; Freud, 2010).
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Cluster C (Ansiosos): Evitativa, Dependente e Obsessivo-
compulsiva (Anancástica)
O Grupo C engloba indivíduos que vivem em constante estado de apreensão, seja pelo
medo da rejeição (transtorno da personalidade evitativa), pela insegurança em relação
à autonomia (transtorno da personalidade dependente) ou pela necessidade rígida
de ordem e perfeccionismo (transtorno da personalidade obsessivo-compulsiva)
(Dalgalarrondo, 2019; APA, 2014; Freud, 2010).
Dramática
Fonte: Magnific (2026).
Esses perfis frequentemente buscam segurança física ou psíquica através da restrição
da vida diária e da evitação de riscos (Dalgalarrondo, 2019; APA, 2014; Freud, 2010).
Após a compreensão das bases ontológicas da personalidade, torna-se imprescindível
avançar para a análise de alterações decorrentes de insultos fisiológicos:
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Transtorno da Personalidade Evitativa
Caracteriza-se por inibição social persistente, sentimentos de inadequação
e hipersensibilidade à crítica; o medo relaciona-se a uma autoimagem de
incompetência social.
Transtorno da Personalidade Dependente
Caracteriza-se por uma necessidade generalizada e excessiva de ser cuidado,
conduzindo a comportamentos submissos, dependentes e a intensos medos
de separação.
Transtorno da Personalidade Obsessivo-Compulsiva
Caracteriza-se por preocupação excessiva com ordem, perfeccionismo
e controle mental e interpessoal, em detrimento da flexibilidade, da
espontaneidade e do lazer.
Dessa forma, no Cluster C, o medo e a ansiedade funcionam como organizadores
centrais do comportamento.
Mudança de Personalidade (Tipo Lábil, Desinibido, Agressivo,
Apático, Paranoide, Combinado)
A diferenciação entre transtornos da personalidade de base ontológica, consolidados
desde a adolescência, e alterações decorrentes de insultos fisiológicos é um imperativo
diagnóstico (Dalgalarrondo, 2019; APA, 2014; Freud, 2010). Nesse contexto, destaca-
se que:
A característica essencial de mudança de personalidade devido a outra
condição médica é uma perturbação persistente da personalidade que
é considerada decorrente dos efeitos fisiopatológicos diretos de uma
condição médica (APA, 2014, p. 683).
Quando a alteração do caráter surge de forma abrupta, especialmente após o início
da vida adulta, a investigação de uma etiologia médica direta deve ser prioridade
clínica absoluta (Dalgalarrondo, 2019; Associação de Psiquiatria Americana, 2014;
Freud, 2010).
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Tipos lábil e desinibido
A labilidade afetiva provoca oscilações emocionais
intensas e rápidas, desproporcionais aos estímulos
desencadeadores. Na desinibição, o controle
deficiente dos impulsos conduz a comportamentos
socialmente inadequados.
Labilidade emocional e desinibição comportamental
Fonte: Magnific (2026).
Tipos agressivo e apático
O tipo agressivo caracteriza-se por comportamento
agressivo persistente, enquanto o tipo apático
exibe redução da iniciativa, da motivação e da
responsividade emocional.
Agressividade e apatia como alterações do comportamento
Fonte: Magnific (2026).
Tipos paranoide e combinado
O tipo paranoide caracteriza-se por desconfiança e
suspeição sem a presença de delírio estruturado. O
tipo combinado reúne dois ou mais aspectos, como
labilidade afetiva e agressividade, exigindo maior
atenção à complexidade do quadro clínico.
Desconfiança, heterogeneidade e combinação de sintomas
Fonte: Magnific (2026).
O reconhecimento desses quadros orienta a investigação clínica, exigindo que o
profissional descarte a presença de delirium e demência. A manifestação de um padrão
agressivo ou lábil após um trauma craniano, por exemplo, deve ser compreendida
como uma sequela neurológica, e não como um transtorno da personalidade primário
(APA, 2014).
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Critérios Gerais para o Diagnóstico de Transtorno de Personalidade
Deve-se observar um padrão persistente que se desvie acentuadamente das
expectativas culturais, manifestando-se em áreas como cognição, afetividade,
funcionamento interpessoal ou controle dos impulsos, resultando em sofrimento
clinicamente significativo (Dalgalarrondo, 2019; APA, 2014). Nesse contexto, destaca-
se que:
Um transtorno da personalidade é um padrão persistente de experiência
interna e comportamento que se desvia acentuadamente das expectativas
da cultura do indivíduo, é difuso e inflexível, começa na adolescência ou
no início da fase adulta, é estável ao longo do tempo e leva a sofrimento
ou prejuízo (APA, 2014, p. 646).
Esse padrão deve ser estável e duradouro, com início na adolescência ou no início da
idade adulta. O uso correto destas diretrizes nosológicas fundamenta uma prática
ética que reduz o estigma através da precisão diagnóstica e promove intervenções
verdadeiramente eficazes (Barlow; Durand; Hofmann, 2021; Dalgalarrondo, 2019;
APA, 2014).
Atenção
A avaliação técnica dos transtornos da personalidade exige
uma articulação precisa entre a observação categorial e a
análise dimensional.
Sem o cumprimento dos critérios de persistência e impacto funcional, não é possível
estabelecer um diagnóstico nosológico de transtorno da personalidade, diferenciando-o
de episódios transitórios associados a outros transtornos mentais (Dalgalarrondo,
2019; APA, 2014).
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Conclusão
O estudo possibilitou a compreensão dos transtornos da personalidade a partir dos
modelos categorial e dimensional, destacando os Clusters A, B e C e seus respectivos
núcleos psicopatológicos. A análise dos padrões persistentes de cognição, afetividade,
comportamento e funcionamento interpessoal evidenciou a complexidade desses
quadros, bem como a importância dos critérios de estabilidade temporal e impacto
funcional para o diagnóstico.
Além disso, enfatizou-se a distinção entre transtornos da personalidade de base
ontológica e alterações de personalidade decorrentes de condições médicas,
reforçando a necessidade de uma avaliação diferencial criteriosa. A integração entre a
descrição fenomenológica e a compreensão dimensional sustenta uma prática clínica
ética, precisa e orientada para intervenções mais eficazes e menos estigmatizantes.
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Referências
ASSOCIAÇÃO DE PSIQUIATRIA AMERICANA. Manual Diagnóstico e Estatístico de
Transtornos Mentais – DSM-5. Porto Alegre: Artmed, 2014.
BARLOW, D. H.; DURAND, V. M.; HOFMANN, S. G. Psicopatologia: uma abordagem
integrada. São Paulo: Cengage Learning, 2021.
DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. 3. ed.
Porto Alegre: Artmed, 2019.
FREUD, S. Neurose, psicose e perversão. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
OLIVEIRA, N. P. O modelo diagnóstico de transtornos da personalidade da CID-11:
estudos psicométricos. 2021. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica e Cultura) —
Instituto de Psicologia, Universidade de Brasília, Brasília, DF, 2021. Disponível em: http://
[Link]/bitstream/10482/43228/1/2021_NeidsoneiPereiradeOliveira.
pdf. Acesso em: 29 abr. 2026.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Classificação Internacional de Doenças – CID-
11. Genebra: OMS, 2026. Disponível em: [Link]
Acesso em: 17 mar. 2026.
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