PSICODIAGNÓSTICO
INTERVENTIVO
(PRÁTICA
SUPERVISIONADA)
Entrevista como
Dispositivo de Mudança
Michele Aparecida Cerqueira Rodrigues
Entrevista como Dispositivo
de Mudança
Introdução
A entrevista clínica constitui o primeiro espaço de encontro entre o profissional e o
sujeito em sofrimento psíquico. Mais do que um procedimento técnico destinado à
coleta de informações, a entrevista configura-se como um campo relacional no qual
se estabelecem o enquadre, o contrato terapêutico e as bases da aliança de trabalho.
Desde os contatos iniciais, a maneira como o psicólogo escuta, acolhe e formula
intervenções influencia diretamente a mobilização subjetiva do paciente e a qualidade
das hipóteses diagnósticas construídas.
Nessa perspectiva, a entrevista é compreendida como um dispositivo potencialmente
terapêutico, no qual escuta clínica, demanda, transferência, contratransferência e
resistência se articulam dinamicamente. Ao longo dos conteúdos, convidamos você a
compreender como a entrevista, quando bem conduzida, contribui para uma avaliação
pluridimensional e para a promoção de mudanças significativas desde o início do
processo psicodiagnóstico.
Objetivos da Aprendizagem
Ao final do conteúdo, esperamos que você seja capaz de:
• Desenvolver competências de entrevista que permitam a colheita de dados
biográficos integrada à mobilização subjetiva e ao acolhimento da demanda.
• Identificar e manejar os aspectos transferenciais envolvidos na relação clínica,
utilizando o campo relacional como ferramenta de compreensão diagnóstica.
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Entrevistas Iniciais e Anamnese
No modelo interventivo, as entrevistas iniciais superam a mera coleta de dados
biográficos. Elas constituem o primeiro contato clínico no qual se estabelecem o
contrato terapêutico e o enquadre, definindo objetivos, sigilo e papéis
Anamnese
Fonte: ©DrazenZigic, Freepik (2026).
A anamnese, embora estruturada para investigar o histórico do sujeito e
marcos do desenvolvimento, já opera como um espaço de acolhimento e
compreensão pluridimensional.
Escuta Clínica
Diz-se que o eixo que sustenta a relação entre o profissional e o sujeito, permitindo que
a subjetividade do paciente emerja para além dos sintomas manifestos, denomina-se
escuta clínica. No modelo interventivo, essa escuta é orientada pela compreensão
de que o diagnóstico é um processo dinâmico e potencialmente terapêutico
desde o início.
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Saiba mais
Para aprofundar a compreensão da entrevista clínica, acesse
o artigo “Anamnese na prática clínica: uma revisão sobre suas
aplicações e importância”.
Diferente de uma conversa informal, a escuta clínica exige o que se denomina atenção
flutuante e seletiva, na qual o profissional observa tanto o conteúdo verbal quanto
as comunicações não verbais. Conforme aponta Dalgalarrondo (2019), o exame do
estado mental e a compreensão do paciente dependem da qualidade dessa interação.
Por sua vez, Barlow, Durand e Hofmann (2021, p. 74) destacam que:
A entrevista clínica é o cerne da maioria dos trabalhos clínicos, é utilizada
pelos psicólogos, psiquiatras e outros profissionais da área da saúde
mental. A entrevista fornece informações sobre o comportamento atual e
passado, atitudes e emoções, bem como um histórico detalhado da vida
do indivíduo e sobre o problema que se apresenta.
A construção de um contato empático, ou rapport, é essencial para que o paciente sinta
a segurança necessária para expor sua história de forma plena. A escuta qualificada
valida a experiência do outro, permitindo que o psicólogo atue como mediador entre
os achados técnicos e a realidade vivida pelo paciente.
Terapia de casal
Fonte: Freepik (2026).
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Nesse sentido, a literatura reforça que a avaliação não deve ser um processo mecânico
de aplicação de instrumentos. Segundo Malloy-Diniz et al. (2018), a interpretação
adequada de comportamentos e a integração de dados dependem essencialmente
do treinamento clínico e da sensibilidade do avaliador inserido no contexto de uma
prática supervisionada. A escuta clínica também é regida por um compromisso ético
com a não patologização. O profissional utiliza a escuta para identificar necessidades
e potencialidades e transformar o diagnóstico em um recurso estratégico para a
promoção da saúde.
Identificação da Demanda Cristalizada vs. Demanda Latente
Frequentemente, a demanda inicial apresentada pelo paciente ou por seus familiares,
denominada demanda cristalizada ou manifesta, não coincide com os verdadeiros
conflitos subjacentes. Freud (2016) ilustra que um indivíduo pode buscar tratamento
por pressão de terceiros, e afirma uma necessidade de mudança que mascara
uma posição subjetiva de desafio ou vingança, caracterizando a demanda latente.
Entende-se que
[...] o sonho, enquanto uma manifestação do inconsciente, insere-se
em uma rede associativa na qual os conteúdos latentes e manifestos
se vinculam. O mesmo se faz possível mediante a escuta analítica do
sofrimento psíquico que se manifesta, por exemplo, numa demanda por
psicoterapia – igualmente rica de aspectos inconscientes – pela qual o
terapeuta pode, da mesma forma, identificar os conteúdos latentes a ela
relacionados (Silva et al., 2019, p. 81).
Para compreender melhor, explore os conceitos a seguir e observe de que modo a
atenção à palavra, ao silêncio e ao contexto relacional qualifica a compreensão
do sujeito:
Escuta Clínica como Fundamento do Psicodiagnóstico
Permite acessar a subjetividade do sujeito para além do sintoma, constituindo-
se como eixo central do diagnóstico interventivo desde o primeiro contato.
Atenção Flutuante e Comunicação não Verbal
O psicólogo observa conteúdos verbais, os silêncios, os afetos e as expressões
corporais, integrando dados objetivos e relacionais na compreensão clínica.
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Escuta Ética e não Patologizante
Orienta-se pela ética do cuidado, reconhecendo sofrimento, potencialidades e
contextos, evitando reduções diagnósticas ou interpretações apressadas.
Por exemplo, uma pessoa pode declarar-se disposta a colaborar com o tratamento
por amor aos pais, enquanto, inconscientemente, se mantém no sintoma como forma
de boicotar os esforços da equipe de saúde. O diagnóstico psicopatológico deve,
portanto, ser pluridimensional, buscando identificar tanto a queixa principal quanto os
conflitos inconscientes e o padrão relacional do sujeito.
A Técnica de Devoluções Parciais Durante a Investigação
A técnica de fornecer devoluções clínicas ou construções parciais serve para que
o paciente se familiarize com os resultados da investigação e possa confirmá-
los ou corrigi-los. Essas intervenções funcionam como um preparativo para a
mudança, permitindo que o sujeito saia de uma posição de indiferença para uma
participação ativa no processo. Freud (2016, p. 119) explica que, na primeira fase da
análise, o terapeuta
[...] consegue do paciente os conhecimentos necessários, familiariza-o
com as premissas e os postulados da análise e desenvolve diante dele
a construção da origem do seu sofrimento, para a qual se acredita
autorizado a partir do material oferecido pela análise. Em uma segunda
fase, é o próprio paciente que se apossa do material que lhe foi exposto,
trabalha nele, recorda o que consegue daquilo que nele está aparentemente
recalcado e tenta repetir o material restante, de certa forma revivendo-o.
A demanda apresentada pelo paciente nem sempre expressa os conflitos que
sustentam o sofrimento psíquico. Explore, a seguir, a diferença entre a queixa
manifesta e a demanda latente e compreenda como a escuta clínica articula esses
níveis na formulação diagnóstica.
Demanda Cristalizada
Refere-se à queixa manifesta apresentada pelo paciente ou familiares,
geralmente formulada de modo racionalizado ou socialmente aceitável.
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Demanda Latente
Corresponde aos conflitos inconscientes que sustentam o sofrimento psíquico
e que nem sempre coincidem com a queixa inicial apresentada.
Papel da Escuta Clínica
A escuta qualificada permite articular demanda manifesta e latente, promovendo
uma compreensão diagnóstica pluridimensional.
Embora o clínico deva evitar interpretações precoces e apressadas que impeçam a
compreensão adequada do paciente, a exposição de aspectos teóricos relacionados
ao caso pode testar tanto a força das resistências quanto a tranquilidade emocional
do analisando. A partir desse campo relacional, constituído no encontro inicial, torna-
se possível organizar e comunicar os achados da avaliação de forma compreensível
ao paciente.
O campo Relacional na Entrevista Clínica Inicial
Elementos do
Descrição Clínica
Campo Relacional
Momento em que se constitui o primeiro contato entre psicólogo
Encontro inicial e paciente, marcado por expectativas, ansiedades e
projeções recíprocas.
Conjunto de regras explícitas e implícitas que organizam o
Enquadre clínico atendimento, incluindo setting, papéis, limites, sigilo e
objetivos da avaliação.
Acordo estabelecido quanto à finalidade do psicodiagnóstico,
Contrato terapêutico número de sessões, responsabilidades e condições do
trabalho clínico.
Postura que permite acolher a narrativa do sujeito, integrando
Escuta clínica conteúdos verbais e não verbais, afetos, silêncios e
manifestações corporais.
Vínculo construído a partir da confiança, do reconhecimento da
Aliança de trabalho demanda e da compreensão compartilhada dos
objetivos do processo.
Fonte: elaborado pela autora (2026).
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Esses elementos sustentam o manejo técnico da entrevista devolutiva, favorecendo
a participação do paciente na compreensão dos achados avaliativos. Segundo
Malloy-Diniz et al. (2018), a entrevista devolutiva é o elo de transição essencial para
a reabilitação, pois traduz achados técnicos em orientações práticas que auxiliam o
paciente na compreensão da origem de seus comportamentos.
Manejo da Transferência e Contratransferência
No contexto avaliativo, a transferência não é um obstáculo, mas a base da aliança de
trabalho. Ela envolve a projeção inconsciente de sentimentos e atitudes provenientes
de relações passadas do paciente para o contexto atual do atendimento.
Contratransferência
Fonte: Freepik (2026).
O manejo clínico exige que o profissional identifique essas projeções para assegurar
que a investigação ocorra em um ambiente de confiança, pautado pela ética.
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Percepção de Fenômenos Relacionais no Setting de Avaliação
Freud (2016, p. 128) explica que “algum tipo de relação com o médico precisa se
estabelecer, e esta é, na maioria das vezes, transferida de uma relação infantil”. A
percepção desses fenômenos no setting exige que o profissional atue como um perito
no campo das relações interpessoais, compreendendo que os dados essenciais
da clínica emergem da observação participativa e da interação intensa entre
paciente e profissional.
O setting
Fonte: Freepik (2026).
Essa repetição inconsciente exige que o profissional identifique quando está sendo
colocado no lugar de figuras parentais, permitindo que ele maneje a relação de forma
técnica e ética (Dalgalarrondo, 2019). O desafio reside em “levar o analisando a
compreender justamente essa sintomatologia muda e fazer com que tome consciência
dessa animosidade latente e muitas vezes excessivamente forte, sem colocar o
tratamento em perigo” (Freud, 2016, p. 129).
Assim, o terapeuta deve estar atento ao modo como o paciente projeta afetos básicos,
já que a análise dessas atitudes é o que permite entender o indivíduo de modo menos
ingênuo e mais profundo e sensível. Essa sensibilidade clínica é indispensável para
captar a “sintomatologia muda” e a “animosidade latente” que podem surgir logo nos
primeiros contatos.
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Uso dos Sentimentos do Terapeuta como Bússola Diagnóstica
O uso dos sentimentos do terapeuta como bússola diagnóstica manifesta-se quando
o profissional avalia o impacto emocional que o paciente lhe causa, monitorando se
experimenta sentimentos como, por exemplo, pena e medo. Segundo Dalgalarrondo
(2019, p. 102), “os dados essenciais da clínica psicopatológica emergem basicamente
de uma observação participativa, da interação intensa entre paciente e profissional”.
Os sentimentos despertados no profissional durante a entrevista não são fortuitos.
Para entender como a contratransferência pode ser transformada em um recurso
técnico relevante para a avaliação clínica, acompanhe:
Contratransferência como Fonte de Informação Clínica
Reações emocionais do terapeuta podem indicar aspectos da dinâmica psíquica
do paciente e do campo relacional estabelecido na avaliação.
Observação Participativa no Setting
O impacto afetivo causado pelo paciente no entrevistador integra os dados
clínicos, desde que analisado com rigor técnico e supervisão.
Transformação da Reação Subjetiva em Instrumento Técnico
Discriminar sentimentos próprios e induzidos pela relação permite ao psicólogo
utilizar a contratransferência como recurso diagnóstico e interventivo.
Ademais, Freud (2016) ilustra que uma ligeira impressão subjetiva pode alertar o
clínico sobre a possível inconsistência ou incongruência de certas comunicações
do paciente, funcionando como um guia técnico para a interpretação. Ao identificar
que tais sentimentos contratransferenciais pertencem aos seus próprios conflitos ou
à dinâmica do paciente, o clínico pode transformar essas reações em um recurso
técnico no trabalho clínico.
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Resistências Comuns no Início do Processo Psicodiagnóstico
No início do processo, as resistências podem se manifestar por meio de uma decidida
negação em recordar eventos traumáticos, atuando como um mecanismo de defesa
intencional para evitar o sofrimento psíquico. Freud (2016) descreve que a resistência
pode obedecer a uma tática russa, na qual o paciente permite grandes progressos na
compreensão intelectual, mas mantém os sintomas protegidos por uma barreira de
dúvida ou indiferença.
Perguntar a si mesmo se o indivíduo é repulsivo ou atraente, simpático
ou antipático, produz o desejo de ajudá-lo ou de não querer mais vê-lo,
etc. [...] Lembrar-se de que é necessário, na entrevista, utilizar linguagem e
vocabulário compatíveis com o nível intelectual do paciente, adequados ao
seu universo cultural e aos seus valores morais e religiosos (Dalgalarrondo,
2019, p. 112).
As resistências são manifestações esperadas no início da avaliação e cumprem
função defensiva. A seguir, são apresentadas as principais formas de resistência e
reflexões sobre seu manejo técnico no setting psicodiagnóstico.
Negação e Racionalização
Manifestam-se quando o paciente evita conteúdos mobilizadores por meio da
negação, da dúvida excessiva ou da explicação intelectualizada.
Resistência pela negação
Fonte: Freepik (2026).
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Colaboração Aparente
O paciente demonstra adesão superficial ao processo, mas mantém seus
sintomas como forma de resistência inconsciente.
Colaboração aparente no setting clínico
Fonte: ©zinkevych, Freepik (2026).
Função Defensiva da Resistência
A resistência atua como mecanismo de proteção psíquica frente ao desprazer
e deve ser manejada com cautela técnica.
Resistência como defesa psíquica
Fonte: Freepik (2026).
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Outras formas comuns incluem o uso de sonhos de forma defensiva para enganar o
terapeuta ou a tentativa de ganhar o interesse e a boa opinião do clínico apenas para
posteriormente decepcioná-lo. Em última análise, a resistência serve-se de “todos os
motivos de defesa possíveis” para boicotar os esforços de cura e manter o indivíduo
fixado em sua condição de doente.
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Conclusão
A partir deste estudo, compreendeu-se que a entrevista clínica no psicodiagnóstico
interventivo vai além da coleta de dados, atuando como instrumento de mudança
desde o início, por meio de uma escuta ética e não patologizante.
A anamnese e as entrevistas iniciais favorecem o vínculo, o enquadre e a formulação
de hipóteses diagnósticas. O manejo da transferência, da contratransferência e
das resistências, aliado às devoluções parciais, amplia a compreensão clínica e a
participação do paciente. Assim, o psicodiagnóstico interventivo configura-se como
um processo ético e pluridimensional, integrando investigação e intervenção na
promoção da saúde mental.
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Referências
BARLOW, D. H.; DURAND, V. M.; HOFMANN, S. G. Psicopatologia: uma abordagem
integrada. São Paulo: Cengage Learning, 2021.
DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. 3.
ed. Porto Alegre: Artmed, 2019.
FREUD, S. Neurose, psicose e perversão: obras completas de Sigmund Freud. São
Paulo: Autêntica, 2016.
MALLOY-DINIZ, L. F. et al. Avaliação neuropsicológica. Porto Alegre: Artmed, 2018.
SILVA, A. C. de M. et al. Incidência da escuta psicanalítica no processo de triagem no
âmbito do serviço-escola de psicologia: um relato de experiência. Revista Brasileira
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YEHIA, A. C.; et al. Anamnese na prática clínica: uma revisão sobre suas aplicações
e importância. Revista da Sociedade Brasileira de Clínica Médica, São Paulo, v. 22,
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