31/12/2012
DE:
FERNANDO A RUBRICA
LIRA
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31 de
dezembro A RUBRICA
de 2012
A RUBRICA
Personagens:
Rubrica
Valério
Cleide
A rubrica entra ,e senta-se em um banco, que se encontra à esquerda do palco. Ao lado,
acontece a cena entre Valério e Cleide. As ações acontecem conforme os comandos da Rubrica.
RUBRICA: A Rubrica. Personagens: Rubrica, Valério, Cleide, esposa de Valério. Cena única.
Quarto de Valério e Cleide. É meia noite. Entra Valério (Valério entra calmamente, trajando
fraque, cartola e luvas, estilo século XIX). Agitado, anda da esquerda para direita, pára
bruscamente, vira-se para platéia com o olhar perdido (Cleide entra, normalmente, também
vestida no estilo do século XIX). Cleide entra sem que Valério perceba.
RUBRICA: Formal.
CLEIDE: Os convidados já foram...
RUBRICA: Numa transição inesperada para uma alegria evidente.
CLEIDE: A festa estava linda?
RUBRICA: Ele apenas balança cabeça, afirmativamente.
RUBRICA:Com irritação.
CLEIDE: Por que vós não falais nada?
RUBRICA: Ele dá dois passos em direção a ela, pára, a olha fixamente, e volta-se três passos à
direita... à direita.
RUBRICA:Desapontamento infantil.
CLEIDE: Deveras, não tendes nada a me dizer?
RUBRICA: Com voz lenta e velada.
VALÉRIO: Vós conseguistes a rubrica?
RUBRICA: Engole seco.
CLEIDE: A de minha mãe.
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RUBRICA: Tomando coragem, hesitante.
CLEIDE: O meu pai negou-se a conceder a rubrica, naquele momento.
RUBRICA: Sardônico.
VALÉRIO: Não acreditais que ele está adiando muito?
CLEIDE: O que quereis, vós?
RUBRICA: Tem um riso entrecortado, histérico.
CLEIDE: Que diante de todos os convidados ele vós desse a rubrica?
RUBRICA: Retirando a luvas, visivelmente perturbado.
VALÉRIO: E qual o problema, se todos o fizeram? Por que somente ele recusa-se a dar a
rubrica?
RUBRICA: Com uma amabilidade nervosa.
CLEIDE: Ora, meu esposo, sabeis perfeitamente como meu pai se diferencia dos demais!
RUBRICA: Com raiva concentrada.
VALÉRIO: Diferencia como? Pensais, então, que eu posso dar a minha rubrica, vós podeis dar a
vossa, até a cozinheira deu a rubrica dela...
RUBRICA: Surpresa, fingida.
CLEIDE: A cozinheira, também?
RUBRICA: Triunfante.
VALÉRIO: Claro, que sim! Sem que a pedisse, ela deu-me!
RUBRICA: Indignada.
CLEIDE: Oh!
RUBRICA: Cortante.
VALÉRIO: Cleide, vós sabeis que é necessário!
RUBRICA: Abrupta.
CLEIDE: E o marido dela sabe?
RUBRICA: Sussurrante, cansado.
VALÉRIO: Sabe.
RUBRICA: Enfurecida.
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CLEIDE: Oh!
RUBRICA: Virando-se de costas, sonhador.
VALÉRIO: Ele também deu-me a rubrica.
RUBRICA: Cleide, à parte.
CLEIDE: Ah! traidor!
RUBRICA: Ríspido.
VALÉRIO: O que dissestes?
RUBRICA: Displicente.
CLEIDE: Ai que dor!
VALÉRIO: Eu não compreendo por que o senhor vosso pai vem ludibriando-me este tempo
todo. Agora há pouco, conversávamos, baixinho, no canto da sala, sobre a possibilidade de,
hoje à noite mesmo, ele dar-me a rubrica.
RUBRICA: Em devaneios.
VALÉRIO: Senti-o animadíssimo e convencido de que, apesar de todos os anos de hostilidades
para com a minha pessoa, finalmente estava ele confiante e totalmente à vontade em dar-me
a referida rubrica.
RUBRICA:Aumentando a velocidade das palavras com sofreguidão.
VALÉRIO:Esperançoso, imediatamente dirigi-me a este quarto, com o propósito de esperá-lo.
Ansioso eu estava, que ele adentrasse por aquela porta e, por fim, desse-me a tão desejada
rubrica...
RUBRICA: Olhar no infinito, visivelmente perturbado.
VALÉRIO: O que o fez mudar de idéia? Já sei foi, o Senhor Adalbeto.
RUBRICA: Com o dedo indicador em riste.
CLEIDE: Não deveis colocar o nome do Senhor Adalberto nesta história!
RUBRICA: Distante.
VALÉRIO: Eu sei que foi aquele pústula! O vosso pai sempre preferiu o Senhor Adalberto a
mim. Fontes confiáveis informaram-me de que o senhor vosso pai, ao Senhor Adalberto, já
havia oferecido a rubrica.
RUBRICA: Riso, sardônico, crescendo.
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CLEIDE: Que ultraje, meu marido! É de conhecimento de toda sociedade que o Senhor
Adalberto não desperta o mínimo interesse por rubricas!
RUBRICA: Desconfiado.
VALÉRIO: Não sei, não! Aquele trejeitinho nunca me convenceu!
RUBRICA: Pausa, prolongada de cinco segundos.
VALÉRIO: Ele deve ser um rubriqueiro enrustido!
RUBRICA: Com dentes cerrados.
CLEIDE: Com todo respeito, meu marido, agora vós fostes abjeto! O senhor Adalberto lhe
dispõe a mais alta consideração! Ele faria qualquer coisa por vós! Se vos interessasse, ele até
vos daria a rubrica.
RUBRICA: Pronunciando abertamente as palavras.
VALÉRIO: A rubrica do Senhor Adalberto não tem para mim nenhum valor... Agora, interessa-
me apenas a rubrica do senhor vosso pai! Somente com a rubrica de vosso pai é que meu
negócio manter-se-á em pé...
RUBRICA: Olhando para platéia.
CLEIDE: Eu fico questionando-me: aonde toda esta história de rubrica nos levará?
RUBRICA: Para o público.
VALÉRIO: Uma coisa é certa: isto há de ter um final!
RUBRICA: Decidida.
CLEIDE: Mas quando, meu Deus? Vós estais obcecado por rubricas. É rubrica de manhã, tarde
e noite. Eu não agüento mais. Urge que se ponha um ponto final.
VALÉRIO: Caminha ao redor de Cleide, que permanece imóvel. E de costas, Valério sussurra no
ouvido dela
VALÉRIO: Ainda, não! Enquanto vosso pai não me der a rubrica, esta história não acaba.
CLEIDE: Virando bruscamente e, dando-lhe dois empurrões, fala-lhe com os olhos marejados
de lágrimas.
CLEIDE: Então é isso? É pela rubrica de meu pai que vós casastes comigo!
RUBRICA: Com fingida verdade.
VALÉRIO: Vós estais confundindo as coisas!
RUBRICA: Perdidamente segura.
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CLEIDE: Quando namorávamos, preveniam-me: Cleide, o Senhor Valério só está com vós pela
rubrica de vosso pai...
RUBRICA: Decididamente vacilante
VALÉRIO: Cleide...
RUBRICA: Interrompendo-o, com a mão direita. Direita.
CLEIDE: Esperei, deveis ouvir-me...Todos estes anos...
RUBRICA: Malíflua. (Cleide olha para Rubrica como se não entendesse). Suave, doce, branda,
harmoniosa.
CLEIDE: No começo, antes de casarmos, vos costumáveis dizer que bastava a minha rubrica
para vos fazerdes feliz. Eu tentava vos convencer que era pouco e se caso vós quiserdes,
poderíeis ter a rubrica da vovó, que o vovô não se oporia. Vos recusastes! Por este ato,
convenceis-me de vossos nobres sentimentos.
RUBRICA: Céptico. (ele olha para Rubrica) Descrente.
VALÉRIO: Estáveis testando-me?
RUBRICA: Aparentemente envergonhada.
CLEIDE: Era tanta maledicência, acusando-vos de só quereis saber de rubricas, que eu
precisava saber.
RUBRICA: Cospe no chão.
VALÉRIO: Como pudestes?
RUBRICA: Esfregando o pé no cuspe.
CLEIDE: Cínico! Nos casamos e, tão logo, ao retornamos da lua de mel, vós pegastes a rubrica
da vovó!
RUBRICA: Voz alterada.
VALÉRIO: Ela que insistiu!
RUBRICA: Voz baixa.
CLEIDE: Que tivésseis recusado!
RUBRICA: Palavras pronunciadas num crescente e descrente alternadamente.
VALÉRIO: Recusar? Ah! Minha cara esposa, eu acabara de entrar na vossa família. Vilipendiar a
rubrica da senhora vossa a avó seria uma desconsideração ultrajante! Como eu poderia
encarar o senhor vosso pai, sabendo que o genro recusara a rubrica da mãe?
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RUBRICA: Em soluços.
CLEIDE: Tudo bem, aceito esta justificativa como explicação. Mas vós não parastes por
aí!Pegaste a rubrica da minha irmã, do meu irmão, de todas as minhas amigas...até da tia
Judite...
RUBRICA: Grita exultante, crispado.
(Ele vacila, com dúvidas, a Rubrica faz gestos, ele a imita).
VALÉRIO: Por que até da tia Judite?
RUBRICA: Naturalmente chocada
CLEIDE: Senhor Valério, a tia Judite é tetraplégica! Como vós conseguistes a rubrica dela?
RUBRICA: Num gesto, visivelmente caricatural, trêmulo na voz.
VALÉRIO: Ora... perguntai a ela! Que eu sabia, a vossa tia Judite ainda consegue usar a boca!
RUBRICA: De costa para o público. Passando a sua indignação apenas com a cabeça.
CLEIDE: Quê! Ah! Meu Deus! Que abjeto!
RUBRICA: De costas para o público. Falando com os ombros.
VALÉRIO: Minha esposa, não é o que vós estais pensando...
RUBRICA: Virando-se, dando três passos de lado esquerdo e um para frente. Com voz
embargada.
CLEIDE: Por isto que toda a sociedade olha-me com certo sorrisinho no canto da boca... Como
fui tola!
RUBRICA: Aproximando dela pausadamente. Súbita irritação.
VALÉRIO: Quem se importa com a sociedade? O que são três ou quatro rubricas que as
pessoas oferecem uma às outras. Por que temos que viver sobre fachadas, escondendo nossos
desejos, quando o que queremos é dar as nossas rubricas para quem bem nos convier?
RUBRICA: Vitoriosa.
CLEIDE: Mas meu pai, nunca deu a dele!
RUBRICA: Desafiadora esperança.
VALÉRIO: Hoje ele há de dar-me! Ele prometeu...
RUBRICA: Sacudindo-o de uma lado a outro.
VALÉRIO: Onde está ele agora?... Eu perguntei onde está ele agora, minha esposa?
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CLEIDE: No quarto dele!
RUBRICA: Sacudindo-a para frente e para trás.
VALÉRIO: E a vossa mãe?
CLEIDE: No quarto dela!
RUBRICA: Jogando-a ao chão.
VALÉRIO: Perfeito, ele me aguarda!
RUBRICA: Valério caminha para porta do quarto. Cleide rasteja aos pés de Valério, suplicante.
CLEIDE: Por favor, meu esposo, imploro-vos, tudo menos a rubrica de meu pai!
RUBRICA: Valério olha bem no fundo dos olhos de Cleide, respira e sussurra (ele apenas
gesticula, enquanto a Rubrica sussurra). É preciso! E tenta safar das mãos de Cleide. Uma,
duas, três... Cleide solta. Cleide chora copiosamente dizendo: A rubrica de papai não! E como
tomada de uma resolução repentina, levanta-se. E vai até o proscênio... Ajeita o cabelo, limpa
as lágrimas, põe batom. Um foco de luz fecha-se sobre ela. (Rubrica passa da postura neutra
para interpretativa). Cleide, em sua solidão de mulher abandonada, tenta transmitir por
imagens, apenas com olhar, o passado de fingida felicidade. Aquela mulher tão ingênua estava
evidentemente agitada, um quê de constrangimento e mesmo de cólera, alterava aquela
expressão de serenidade profunda, e como acima de todos os interesses vulgares da vida, dava
tantos encantos àquele semblante celeste. Ah! Então isto é a vida? Questiona-se com as
sobrancelhas. Viver é achar-se de repente tendo que ser e existir num imprevisto. Subjugada
por uma voz desconhecida, a comandar-nos como títeres, forçando-nos as diversas
possibilidades que nos apresentam e não temos outro remédio senão obedecer? Cleide com a
mão esquerda nas costas, e a mão direita apontando para o infinito. (dramaticamente) Assim,
a vida é prisão na realidade circunstancial. (pausa, por alguns segundos. Rubrica e Cleide
paralisadas. Cleide pigarreia. Rubrica se recompõe). Por fim, Cleide acorda de seu devaneio,
lembra-se de seu marido e, visivelmente consternada, filosofa.
CLEIDE: Ah! Meu Deus! Qual sentido para tanta rubrica?
RUBRICA: A luz diminui em resistência sobre Cleide. Ouve-se uma música suave de piano
(toca-se uma música forte de percussão) De piano (música de piano forte)... Suave. Tudo
escuro.
OFF: Luz Geral. Os atores caminham para o centro do palco (eles não estão na ordem) Rubrica
à esquerda, Valério ao centro (Cleide está no centro) Valério ao centro... Cumprimentam o
público que os aplaude... Aplaude muito... de pé... de pé... Alguns gritam: Uuuh arrasou...
Outros: bravos! Os atores esperam o público parar de aplaudir. A rubrica apresenta cada um.
RUBRICA: Como Cleide (diz o nome da atriz )
OFF: O público aplaude.
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RUBRICA: (Nome do ator) No papel de Valério.
OFF: O público aplaude.
O CASAL: E como Rubrica (diz o nome da atriz).
OFF: O público aplaude mais forte... Mais forte. Os outros dois fingem não sentir despeito.
Rubrica faz os agradecimentos
RUBRICA: (agradece a equipe técnica).
OFF: Os atores saem tranqüilamente (eles saem em debandada)... Tranquilamente.
Entra um som, que vai aumentando, e voz de OFF diminuindo. A luz apaga-se. Luz geral. Palco
vazio. A música pára.
OFF: Os atores não retornam.
FIM
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