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A RUBRICA

O documento é um roteiro de uma peça teatral chamada 'A Rubrica', que apresenta um diálogo entre os personagens Valério, Cleide e a Rubrica, em um quarto durante uma festa. A trama gira em torno da busca de Valério pela 'rubrica' do pai de Cleide, que gera tensão e conflitos entre os personagens. A peça explora temas como amor, interesses pessoais e a pressão social em torno de convenções familiares.
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A RUBRICA

O documento é um roteiro de uma peça teatral chamada 'A Rubrica', que apresenta um diálogo entre os personagens Valério, Cleide e a Rubrica, em um quarto durante uma festa. A trama gira em torno da busca de Valério pela 'rubrica' do pai de Cleide, que gera tensão e conflitos entre os personagens. A peça explora temas como amor, interesses pessoais e a pressão social em torno de convenções familiares.
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31/12/2012

DE:
FERNANDO A RUBRICA
LIRA

Contatos flira@[Link]
31 de
dezembro A RUBRICA
de 2012

A RUBRICA

Personagens:

Rubrica

Valério

Cleide

A rubrica entra ,e senta-se em um banco, que se encontra à esquerda do palco. Ao lado,


acontece a cena entre Valério e Cleide. As ações acontecem conforme os comandos da Rubrica.

RUBRICA: A Rubrica. Personagens: Rubrica, Valério, Cleide, esposa de Valério. Cena única.
Quarto de Valério e Cleide. É meia noite. Entra Valério (Valério entra calmamente, trajando
fraque, cartola e luvas, estilo século XIX). Agitado, anda da esquerda para direita, pára
bruscamente, vira-se para platéia com o olhar perdido (Cleide entra, normalmente, também
vestida no estilo do século XIX). Cleide entra sem que Valério perceba.

RUBRICA: Formal.

CLEIDE: Os convidados já foram...

RUBRICA: Numa transição inesperada para uma alegria evidente.

CLEIDE: A festa estava linda?

RUBRICA: Ele apenas balança cabeça, afirmativamente.

RUBRICA:Com irritação.

CLEIDE: Por que vós não falais nada?

RUBRICA: Ele dá dois passos em direção a ela, pára, a olha fixamente, e volta-se três passos à
direita... à direita.

RUBRICA:Desapontamento infantil.

CLEIDE: Deveras, não tendes nada a me dizer?

RUBRICA: Com voz lenta e velada.

VALÉRIO: Vós conseguistes a rubrica?

RUBRICA: Engole seco.

CLEIDE: A de minha mãe.

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31 de
dezembro A RUBRICA
de 2012

RUBRICA: Tomando coragem, hesitante.

CLEIDE: O meu pai negou-se a conceder a rubrica, naquele momento.

RUBRICA: Sardônico.

VALÉRIO: Não acreditais que ele está adiando muito?

CLEIDE: O que quereis, vós?

RUBRICA: Tem um riso entrecortado, histérico.

CLEIDE: Que diante de todos os convidados ele vós desse a rubrica?

RUBRICA: Retirando a luvas, visivelmente perturbado.

VALÉRIO: E qual o problema, se todos o fizeram? Por que somente ele recusa-se a dar a
rubrica?

RUBRICA: Com uma amabilidade nervosa.

CLEIDE: Ora, meu esposo, sabeis perfeitamente como meu pai se diferencia dos demais!

RUBRICA: Com raiva concentrada.

VALÉRIO: Diferencia como? Pensais, então, que eu posso dar a minha rubrica, vós podeis dar a
vossa, até a cozinheira deu a rubrica dela...

RUBRICA: Surpresa, fingida.

CLEIDE: A cozinheira, também?

RUBRICA: Triunfante.

VALÉRIO: Claro, que sim! Sem que a pedisse, ela deu-me!

RUBRICA: Indignada.

CLEIDE: Oh!

RUBRICA: Cortante.

VALÉRIO: Cleide, vós sabeis que é necessário!

RUBRICA: Abrupta.

CLEIDE: E o marido dela sabe?

RUBRICA: Sussurrante, cansado.

VALÉRIO: Sabe.

RUBRICA: Enfurecida.
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dezembro A RUBRICA
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CLEIDE: Oh!

RUBRICA: Virando-se de costas, sonhador.

VALÉRIO: Ele também deu-me a rubrica.

RUBRICA: Cleide, à parte.

CLEIDE: Ah! traidor!

RUBRICA: Ríspido.

VALÉRIO: O que dissestes?

RUBRICA: Displicente.

CLEIDE: Ai que dor!

VALÉRIO: Eu não compreendo por que o senhor vosso pai vem ludibriando-me este tempo
todo. Agora há pouco, conversávamos, baixinho, no canto da sala, sobre a possibilidade de,
hoje à noite mesmo, ele dar-me a rubrica.

RUBRICA: Em devaneios.

VALÉRIO: Senti-o animadíssimo e convencido de que, apesar de todos os anos de hostilidades


para com a minha pessoa, finalmente estava ele confiante e totalmente à vontade em dar-me
a referida rubrica.

RUBRICA:Aumentando a velocidade das palavras com sofreguidão.

VALÉRIO:Esperançoso, imediatamente dirigi-me a este quarto, com o propósito de esperá-lo.


Ansioso eu estava, que ele adentrasse por aquela porta e, por fim, desse-me a tão desejada
rubrica...

RUBRICA: Olhar no infinito, visivelmente perturbado.

VALÉRIO: O que o fez mudar de idéia? Já sei foi, o Senhor Adalbeto.

RUBRICA: Com o dedo indicador em riste.

CLEIDE: Não deveis colocar o nome do Senhor Adalberto nesta história!

RUBRICA: Distante.

VALÉRIO: Eu sei que foi aquele pústula! O vosso pai sempre preferiu o Senhor Adalberto a
mim. Fontes confiáveis informaram-me de que o senhor vosso pai, ao Senhor Adalberto, já
havia oferecido a rubrica.

RUBRICA: Riso, sardônico, crescendo.

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dezembro A RUBRICA
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CLEIDE: Que ultraje, meu marido! É de conhecimento de toda sociedade que o Senhor
Adalberto não desperta o mínimo interesse por rubricas!

RUBRICA: Desconfiado.

VALÉRIO: Não sei, não! Aquele trejeitinho nunca me convenceu!

RUBRICA: Pausa, prolongada de cinco segundos.

VALÉRIO: Ele deve ser um rubriqueiro enrustido!

RUBRICA: Com dentes cerrados.

CLEIDE: Com todo respeito, meu marido, agora vós fostes abjeto! O senhor Adalberto lhe
dispõe a mais alta consideração! Ele faria qualquer coisa por vós! Se vos interessasse, ele até
vos daria a rubrica.

RUBRICA: Pronunciando abertamente as palavras.

VALÉRIO: A rubrica do Senhor Adalberto não tem para mim nenhum valor... Agora, interessa-
me apenas a rubrica do senhor vosso pai! Somente com a rubrica de vosso pai é que meu
negócio manter-se-á em pé...

RUBRICA: Olhando para platéia.

CLEIDE: Eu fico questionando-me: aonde toda esta história de rubrica nos levará?

RUBRICA: Para o público.

VALÉRIO: Uma coisa é certa: isto há de ter um final!

RUBRICA: Decidida.

CLEIDE: Mas quando, meu Deus? Vós estais obcecado por rubricas. É rubrica de manhã, tarde
e noite. Eu não agüento mais. Urge que se ponha um ponto final.

VALÉRIO: Caminha ao redor de Cleide, que permanece imóvel. E de costas, Valério sussurra no
ouvido dela

VALÉRIO: Ainda, não! Enquanto vosso pai não me der a rubrica, esta história não acaba.

CLEIDE: Virando bruscamente e, dando-lhe dois empurrões, fala-lhe com os olhos marejados
de lágrimas.

CLEIDE: Então é isso? É pela rubrica de meu pai que vós casastes comigo!

RUBRICA: Com fingida verdade.

VALÉRIO: Vós estais confundindo as coisas!

RUBRICA: Perdidamente segura.

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dezembro A RUBRICA
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CLEIDE: Quando namorávamos, preveniam-me: Cleide, o Senhor Valério só está com vós pela
rubrica de vosso pai...

RUBRICA: Decididamente vacilante

VALÉRIO: Cleide...

RUBRICA: Interrompendo-o, com a mão direita. Direita.

CLEIDE: Esperei, deveis ouvir-me...Todos estes anos...

RUBRICA: Malíflua. (Cleide olha para Rubrica como se não entendesse). Suave, doce, branda,
harmoniosa.

CLEIDE: No começo, antes de casarmos, vos costumáveis dizer que bastava a minha rubrica
para vos fazerdes feliz. Eu tentava vos convencer que era pouco e se caso vós quiserdes,
poderíeis ter a rubrica da vovó, que o vovô não se oporia. Vos recusastes! Por este ato,
convenceis-me de vossos nobres sentimentos.

RUBRICA: Céptico. (ele olha para Rubrica) Descrente.

VALÉRIO: Estáveis testando-me?

RUBRICA: Aparentemente envergonhada.

CLEIDE: Era tanta maledicência, acusando-vos de só quereis saber de rubricas, que eu


precisava saber.

RUBRICA: Cospe no chão.

VALÉRIO: Como pudestes?

RUBRICA: Esfregando o pé no cuspe.

CLEIDE: Cínico! Nos casamos e, tão logo, ao retornamos da lua de mel, vós pegastes a rubrica
da vovó!

RUBRICA: Voz alterada.

VALÉRIO: Ela que insistiu!

RUBRICA: Voz baixa.

CLEIDE: Que tivésseis recusado!

RUBRICA: Palavras pronunciadas num crescente e descrente alternadamente.

VALÉRIO: Recusar? Ah! Minha cara esposa, eu acabara de entrar na vossa família. Vilipendiar a
rubrica da senhora vossa a avó seria uma desconsideração ultrajante! Como eu poderia
encarar o senhor vosso pai, sabendo que o genro recusara a rubrica da mãe?

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dezembro A RUBRICA
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RUBRICA: Em soluços.

CLEIDE: Tudo bem, aceito esta justificativa como explicação. Mas vós não parastes por
aí!Pegaste a rubrica da minha irmã, do meu irmão, de todas as minhas amigas...até da tia
Judite...

RUBRICA: Grita exultante, crispado.

(Ele vacila, com dúvidas, a Rubrica faz gestos, ele a imita).

VALÉRIO: Por que até da tia Judite?

RUBRICA: Naturalmente chocada

CLEIDE: Senhor Valério, a tia Judite é tetraplégica! Como vós conseguistes a rubrica dela?

RUBRICA: Num gesto, visivelmente caricatural, trêmulo na voz.

VALÉRIO: Ora... perguntai a ela! Que eu sabia, a vossa tia Judite ainda consegue usar a boca!

RUBRICA: De costa para o público. Passando a sua indignação apenas com a cabeça.

CLEIDE: Quê! Ah! Meu Deus! Que abjeto!

RUBRICA: De costas para o público. Falando com os ombros.

VALÉRIO: Minha esposa, não é o que vós estais pensando...

RUBRICA: Virando-se, dando três passos de lado esquerdo e um para frente. Com voz
embargada.

CLEIDE: Por isto que toda a sociedade olha-me com certo sorrisinho no canto da boca... Como
fui tola!

RUBRICA: Aproximando dela pausadamente. Súbita irritação.

VALÉRIO: Quem se importa com a sociedade? O que são três ou quatro rubricas que as
pessoas oferecem uma às outras. Por que temos que viver sobre fachadas, escondendo nossos
desejos, quando o que queremos é dar as nossas rubricas para quem bem nos convier?

RUBRICA: Vitoriosa.

CLEIDE: Mas meu pai, nunca deu a dele!

RUBRICA: Desafiadora esperança.

VALÉRIO: Hoje ele há de dar-me! Ele prometeu...

RUBRICA: Sacudindo-o de uma lado a outro.

VALÉRIO: Onde está ele agora?... Eu perguntei onde está ele agora, minha esposa?

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dezembro A RUBRICA
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CLEIDE: No quarto dele!

RUBRICA: Sacudindo-a para frente e para trás.

VALÉRIO: E a vossa mãe?

CLEIDE: No quarto dela!

RUBRICA: Jogando-a ao chão.

VALÉRIO: Perfeito, ele me aguarda!

RUBRICA: Valério caminha para porta do quarto. Cleide rasteja aos pés de Valério, suplicante.

CLEIDE: Por favor, meu esposo, imploro-vos, tudo menos a rubrica de meu pai!

RUBRICA: Valério olha bem no fundo dos olhos de Cleide, respira e sussurra (ele apenas
gesticula, enquanto a Rubrica sussurra). É preciso! E tenta safar das mãos de Cleide. Uma,
duas, três... Cleide solta. Cleide chora copiosamente dizendo: A rubrica de papai não! E como
tomada de uma resolução repentina, levanta-se. E vai até o proscênio... Ajeita o cabelo, limpa
as lágrimas, põe batom. Um foco de luz fecha-se sobre ela. (Rubrica passa da postura neutra
para interpretativa). Cleide, em sua solidão de mulher abandonada, tenta transmitir por
imagens, apenas com olhar, o passado de fingida felicidade. Aquela mulher tão ingênua estava
evidentemente agitada, um quê de constrangimento e mesmo de cólera, alterava aquela
expressão de serenidade profunda, e como acima de todos os interesses vulgares da vida, dava
tantos encantos àquele semblante celeste. Ah! Então isto é a vida? Questiona-se com as
sobrancelhas. Viver é achar-se de repente tendo que ser e existir num imprevisto. Subjugada
por uma voz desconhecida, a comandar-nos como títeres, forçando-nos as diversas
possibilidades que nos apresentam e não temos outro remédio senão obedecer? Cleide com a
mão esquerda nas costas, e a mão direita apontando para o infinito. (dramaticamente) Assim,
a vida é prisão na realidade circunstancial. (pausa, por alguns segundos. Rubrica e Cleide
paralisadas. Cleide pigarreia. Rubrica se recompõe). Por fim, Cleide acorda de seu devaneio,
lembra-se de seu marido e, visivelmente consternada, filosofa.

CLEIDE: Ah! Meu Deus! Qual sentido para tanta rubrica?

RUBRICA: A luz diminui em resistência sobre Cleide. Ouve-se uma música suave de piano
(toca-se uma música forte de percussão) De piano (música de piano forte)... Suave. Tudo
escuro.

OFF: Luz Geral. Os atores caminham para o centro do palco (eles não estão na ordem) Rubrica
à esquerda, Valério ao centro (Cleide está no centro) Valério ao centro... Cumprimentam o
público que os aplaude... Aplaude muito... de pé... de pé... Alguns gritam: Uuuh arrasou...
Outros: bravos! Os atores esperam o público parar de aplaudir. A rubrica apresenta cada um.

RUBRICA: Como Cleide (diz o nome da atriz )

OFF: O público aplaude.

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RUBRICA: (Nome do ator) No papel de Valério.

OFF: O público aplaude.

O CASAL: E como Rubrica (diz o nome da atriz).

OFF: O público aplaude mais forte... Mais forte. Os outros dois fingem não sentir despeito.
Rubrica faz os agradecimentos

RUBRICA: (agradece a equipe técnica).

OFF: Os atores saem tranqüilamente (eles saem em debandada)... Tranquilamente.

Entra um som, que vai aumentando, e voz de OFF diminuindo. A luz apaga-se. Luz geral. Palco
vazio. A música pára.

OFF: Os atores não retornam.

FIM

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