ATO 1 — A MESA VAZIA
[CENÁRIO]
Uma mesa posta no centro do palco. Casa simples, aconchegante, mas cansada. A mesa
é bonita, mas parece pouco usada emocionalmente. Luz quente de jantar. A mãe entra
primeiro. Carrega pratos. Arruma cadeiras. Ajeita tudo milimetricamente. A mãe
cansada, mas tentando manter a família unida. Enquanto arruma, mexe distraidamente
nos bolsos ou numa gaveta. Como quem procura algo.
MÃE:
(baixinho, pra si)
Hoje vai dar certo…
(Pausa)
Hoje a gente janta junto.
(Olha a mesa)
Sem briga. Sem celular. Sem pressa.
(Sorri sozinha)
Hoje vai.
(Ela procura algo)
Ué… Estranho. Não… Eu tinha deixado aqui.
(Procura discretamente)
Depois eu vejo isso.
MÃE:
(gritando da cozinha)
Gente! A comida tá pronta!
(Silêncio)
MÃE:
mais alto
Meninos!
(Silêncio)
FILHA!
[ENTRA O IRMÃO]
Livro/caderno na mão.
Mochila.
Responsável.
Já parece cansado da casa.
Senta.
IRMÃO:
Já tô aqui.
(Olha ao redor)
Ela ainda não veio?
MÃE:
Quem?
IRMÃO:
A favorita do caos.
(Pequeno humor)
MÃE:
Não começa.
IRMÃO:
Tô brincando.
(ou nem tanto)
MÃE:
Como foi o dia?
IRMÃO:
Normal.
Tirei nota boa na prova.
(Ela abre um sorriso sincero)
MÃE:
Sério?!
Filho, parabéns!
Eu sabia!
Qual foi a nota?
IRMÃO:
9,5.
MÃE:
Meu Deus!
Eu sempre soube que você—
[ENTRA A FILHA]
Celular na mão.
Fone em um ouvido.
Cara de cansada.
Mas querendo parecer forte.
Nem olha direito.
Senta.
FILHA:
Tem comida?
MÃE:
Boa noite pra você também.
FILHA:
Boa noite.
Tem comida?
(Pequeno humor)
IRMÃO:
Educação passou longe.
FILHA:
Igual sua simpatia.
MÃE:
Já começou?
Nem sentaram ainda.
MÃE:
Filha…
Guarda o celular só no jantar?
FILHA:
aham... (mexendo no celular), só vou responder um boy aqui. Mas to te ouvindo pode
falar.
MÃE:
Mas não tá presente.
FILHA:
Mesma coisa.
IRMÃO:
Não é não.
FILHA:
Nossa.
Fiscal de comportamento agora?
MÃE:
Chega vocês dois.
(Pausa)
Filha…
Como foi seu dia?
FILHA:
Normal.
MÃE:
Só normal?
FILHA:
Mãe.
Tô cansada. Não to muito pra conversa, ok?
MÃE:
Tá bom. Mas no celular...
(Pausa, respira fundo)
Vocês viram uma coisa minha?
IRMÃO:
O quê?
MÃE:
Ah…
Não sei explicar.
Eu to com a sensação que perdi alguma coisa, não sei se foi uma moeda ou um pingente
do colar, no último jantar eu ouvi algo caindo no chão mas eu não vi o que era.
Acho que perdi.
FILHA:
Se perdeu dentro de casa…
Nem devia ser tão importante ou ainda tá aqui né?
(Pequeno silêncio)
MÃE:
Às vezes…
A gente perde coisa importante sem perceber.
[BARULHO DE CHAVE]
PAI entra.
Cansado.
Bolsa do trabalho.
Afrouxa a camisa.
Mas tentando ser leve.
PAI:
Ué.
Esqueceram de mim?
Começaram sem o trabalhador dessa casa?
(Pequeno humor)
MÃE:
A comida tava esfriando.
PAI:
Mas eu tava esquentando o bolso de vocês.
(Pequeno humor de pai)
IRMÃO:
Essa BEM foi ruim.
FILHA:
Horrível.
PAI:
Ah, vocês me amam.
(Senta)
E aí?
Como foi o dia dos herdeiros?
IRMÃO:
Foi tranquilo.
PAI:
E aquela prova?
IRMÃO:
Fui bem.
9,5.
PAI:
Aí sim!
Sabia! Quase 10, hein? Poderia se esforçar mais.
(Bate no ombro dele)
Mas...Parabéns.
(A filha abaixa os olhos discretamente)
PAI:
(olha pra filha)
E você?
Milagre largar o celular hoje?
FILHA:
Eu tava no celular faz literalmente dois segundos.
PAI:
Dois segundos desde que eu cheguei.
FILHA:
Você acabou de chegar e já ta implicando comigo?
(Silêncio leve)
PAI:
Não começa.
MÃE:
Vamos só jantar em paz hoje?
PAI:
Aliás…
Viram o jogo ontem?
IRMÃO:
Vi.
O juiz roubou muito.
PAI:
FINALMENTE alguém inteligente nessa casa.
(Pequeno humor)
FILHA:
Ou alguém que quer sua aprovação.
(Silêncio)
PAI:
O que foi isso?
FILHA:
Nada.
IRMÃO:
Lá vem.
FILHA:
Você fica quieto.
O perfeitão da família.
IRMÃO:
Pelo menos eu me esforço né?
FILHA:
Ah claro.
Você nasceu pronto né?
Nota boa. Responsável. Filho exemplo. Parabéns.
Quer palmas? (bate palmas)... toma! Quer um troféu também?
IRMÃO:
Pelo menos eu não vivo reclamando da vida, não faz nada e fica cansada. Pior, fica aí
andando com esses moleques na rua. Num vai dar em nada.
FILHA:
Pelo menos eles me entendem e eu to vivendo né? To no meu auge. Você não, fica aí
tentando provar algo o tempo todo.
Você sobrevive tentando agradar.
🔥🔥
PAI:
Chega!
Todo jantar é isso agora?
FILHA:
Que jantar?
Isso aqui nem parece uma família.
PAI:
Enquanto você morar nessa casa—
FILHA:
Essa casa?
(Pausa)
Você nem tá nela. Você só aparece aqui pra comer, assistir porcaria de futebol e
mandar.
😭🔥
Silêncio ABSURDO.
MÃE:
Filha—
FILHA:
Não mãe.
(Pausa)
Todo mundo aqui sabe que o Sr. Perfeição aqui surpreende vocês, meu pai é
extremamente ausente e você...vive ocupada demais. Todo mundo tem o seu lugar nessa
casa.
(Pausa)
Menos eu.
PAI:
Você tá exagerando.
FILHA:
Tô?
Você sabe o time do meu irmão. A nota. O que ele gosta. Até a ordem do café dele.
(Pausa)
Mas você nem percebe quando eu tô mal.
😭🔥
PAI:
Isso não é verdade.
FILHA:
É sim.
(Pausa)
Eu cansei.
(Ela sai.)
IRMÃO:
Ih, tem alguém de TPM.
(Sai também.)
PAI:
Depois eu converso com ela.
(Sai irritado.)
Silêncio.
Só a mãe.
A mesa bagunçada.
Pratos.
Cadeiras vazias.
Ela começa a recolher.
Respira fundo.
Tenta não chorar.
Procura algo outra vez.
Debaixo dos pratos.
Na toalha.
Na gaveta.
[IRMÃO VOLTA]
IRMÃO:
Mãe… Quer ajuda?
MÃE:
Sem olhar pra ele.
Não.
IRMÃO:
Mas—
MÃE:
Eu já disse que não. Se eu quisesse eu tinha pedido.
(Pausa, respira fundo)
Olha, esquece. Eu dou conta aqui. Vai descansar.
IRMÃO:
Tá.
(Ele sai magoado.)
Silêncio.
Ela senta sozinha.
Olha pra mesa.
Olhos marejados.
Baixinho:
MÃE:
Eu sei que perdi alguma coisa…
(Pausa)
Só não sei quando. Não sei o que. Na igreja o Pastor falou algo sobre Dracma, e desde
então to pensativa e com a sensação de perda. Será que Deus me ve? Me sinto tao
sozinha...
Canta: Deus do secreto (Mas parece que um furacão me alcançou...Deus eu não podia
imaginar, perdi meu chão. Olha como chora o meu coração...)
LUZ APAGA.
ATO 2 — DISTÂNCIAS
[CENÁRIO]
Luzes baixas. A mesa continua no centro. Mas agora parece mais fria. Uma cadeira
levemente torta do jantar anterior. O ambiente parece pesado.
Cada personagem em um canto do palco:
O PAI trabalhando no notebook ou mexendo em papéis.
A MÃE organizando a casa mecanicamente.
O IRMÃO estudando.
A FILHA sentada no quarto (ou canto do palco), mexendo no celular.
Silêncio.
O NARRADOR entra lentamente.
NARRADOR:
Tem gente que se perde indo embora.
Tem gente que se perde ficando.
Tem gente que se perde tentando manter tudo de pé.
(Pausa)
E tem mesas…
que continuam postas…
mesmo quando ninguém mais quer sentar.
(Luz muda para a FILHA)
CENA 1 — A FILHA
(A filha joga algumas roupas numa mochila.)
Fone no ouvido. Mas claramente chorou. Ela limpa o rosto rápido quando ouve passos.
A mãe entra.
Para.
Observa.
MÃE:
O que é isso?
FILHA:
Nada.
MÃE:
Isso é mochila de “nada”? Olha o tanto de coisa que tem aí...
(Pequeno humor)
FILHA:
Só tô arrumando umas coisas.
MÃE:
Pra onde?
FILHA:
Não sei. Qualquer lugar.
MÃE:
Filha…
FILHA:
Mãe, por favor. Não começa.
MÃE:
Eu só quero entender.
FILHA:
(entala)
Vocês sempre querem entender quando já deu errado.
MÃE:
Ninguém tá contra você.
FILHA:
Não?
(Pausa)
Porque parece. O pai me olha como se eu fosse um problema. Meu irmão parece
competir comigo até respirando. E você…
MÃE:
Eu o quê?
FILHA:
Você tenta resolver tudo. Mas nunca pergunta se eu tô bem de verdade.
(Silêncio)
A mãe sente.
Mas não sabe responder.
MÃE:
Eu tô perguntando agora.
FILHA:
(baixa a guarda por um segundo)
Eu tô cansada.
(Pausa)
Cansada de me sentir errada. Cansada de parecer a filha difícil. Cansada de achar que…
talvez ninguém ia sentir tanta falta assim.
😭😭
MÃE:
(aproxima)
Nunca fala isso. Nunca.
FILHA:
Você fala isso porque é mãe. Mas o pai?
(Pausa)
Você já viu ele me olhar igual olha pro meu irmão?
🔥😭
MÃE:
Seu pai ama você. Só não sabe mostrar.
FILHA:
Então ele aprenda. Porque eu cansei de esperar.
(Silêncio pesado)
MÃE:
Filha…
fica.
Amanhã a gente conversa.
FILHA:
Amanhã nunca muda nada nessa casa.
(Ela fecha a mochila.)
MÃE:
Você vai pra onde?
FILHA:
Ah, vou pra casa da Maria pra gente estudar um pouco... Vocês nem vão sentir minha
falta. Volto na segunda, talvez. Pode continuar a vidinha de vocês, almocem juntos no
domingo, tudo em família. Vcs não precisam de mim.
(Ela sai.)
A mãe fica parada. Sem reação. Olhos marejados.
CENA 2 — O IRMÃO
(O irmão apareceu sem a mãe perceber. Ouviu parte da conversa.)
IRMÃO:
Ela não vai fazer isso. Maria? A Maria confirmou que vai numa festa esse fim de
semana. Essa menina só quer aprontar.
MÃE:
Seu pai falou a mesma coisa ontem. Mas eu vou fazer o que?
IRMÃO:
Ela sempre exagera. E vcs passam a mão na cabeça.
MÃE:
Filho…
ela tá machucada.
IRMÃO:
E eu não tô? Viu como o pai reagiu a minha nota?
(Silêncio)
IRMÃO:
Todo mundo só olha pra ela. Sempre ela. O drama dela. O problema dela. A dor dela.
(Pausa)
Mas eu fiquei. Poderia ter confirmado também pra essa festa. Mas vou ficar aqui com
você.
IRMÃO:
Quando pai não tava, eu fiquei. Quando você chorava escondido, eu fiquei. Quando
tudo tava ruim…eu fiquei.
MÃE:
Filho…
IRMÃO:
Mas ninguém pergunta se eu tô cansado.
MÃE:
Eu sei.
IRMÃO:
Não sabe.
(Pausa)
Porque se soubesse… não olhava pra mim como “o forte”.
(Ele sai.)
A mãe desmonta um pouco.
CENA 3 — O PAI
(O pai entra.)
PAI:
Cadê ela?
MÃE:
Saiu.
PAI:
Saiu? Disse onde ia?
MÃE:
Não.
(Pausa)
Acho que dessa vez ela foi mesmo.
PAI:
Você tá exagerando.
MÃE:
Não tô.
(Pausa)
Ela já disse que queria ir várias vezes.
🔥😭
PAI:
Ela é impulsiva. Vai quebrar a cara e voltar.
MÃE:
Você ouviu o que acabou de dizer?
PAI:
O quê?
MÃE:
Você falou da sua filha como se ela fosse um problema esperando solução.
PAI:
Eu trabalho o dia inteiro por essa casa!
MÃE:
Mas não vive nela!
(Silêncio absurdo)
PAI:
Isso é injusto.
MÃE:
Sabe o que é injusto?
Uma menina implorando atenção sem saber pedir.
(Pausa)
Ela só queria colo.
(O pai trava.)
Essa frase pega.
PAI:
Ela acha mesmo que eu não amo ela?
MÃE:
Não.
(Pausa)
Ela acha que nunca foi suficiente pra você.
(Longo silêncio.)
O pai senta.
Sem reação.
Pela primeira vez…
culpado.
CENA 4 — A DRACMA
(A mãe sozinha.)
Ela procura algo novamente.
Mais desesperada agora.
Nas gavetas.
Debaixo da mesa.
Nos bolsos.
Na bolsa.
MÃE:
Meu Deus…
onde foi parar?
Eu sei que tava aqui…
😭
NARRADOR:
Havia uma mulher…
que perdeu uma dracma.
E procurou.
Virou a casa.
Acendeu a luz.
Não desistiu até encontrar.
(Pausa)
Mas talvez…
existam perdas mais difíceis.
NARRADOR:
Porque há pessoas…
que passam tanto tempo tentando não perder os outros…
que acabam perdendo a si mesmas.
TRANSIÇÃO MUSICAL
(Luz do outro lado do palco.)
A filha sozinha. Sentada. Mochila do lado. Talvez na casa do namorado. Ou num banco.
Ou na rua. O celular na mão. Ninguém mandou mensagem.
Silêncio.
Ela olha uma foto da família. Da mesa. Da mãe. Fecha rápido. Não quer sentir.
FILHA:
(baixinho)
Achei que sair ia doer menos.
LUZ APAGA.
ATO 3 — LONGE DA MESA
[CENÁRIO]
Luzes frias. A mesa continua no centro. Mas agora parece ainda mais vazia. Uma
cadeira continua sem ninguém. O clima da casa mudou. Tudo parece funcionar… mas
sem vida. O silêncio virou rotina.
NARRADOR:
Tem gente que acha…
que se perder acontece de uma vez.
(Pausa)
Mas quase sempre… é um caminho. Você vai se afastando. Mais um pouco. Mais um
pouco. Até que um dia…já não sabe mais como voltar.
CENA 1 — A CASA SEM ELA
(O pai entra cansado.)
Olha automaticamente para a cadeira da filha.
Ela está vazia.
Ele tenta fingir normalidade.
PAI:
Ela mandou mensagem?
MÃE:
Não.
PAI:
Ligou?
MÃE:
Não.
PAI:
Visualizou?
MÃE:
Não.
(Silêncio)
PAI:
Ela tá brava.
Vai passar.
MÃE:
(olhando a cadeira)
Acho que você ainda não entendeu.
PAI:
O quê?
MÃE:
Ela não saiu ontem.
(Pausa)
Ela saiu faz muito tempo.
(Silêncio)
CENA 2 — O IRMÃO
(O irmão entra.)
Senta. Come sozinho. Mecânico. Silêncio.
PAI:
Falou com sua irmã?
IRMÃO:
Não.
PAI:
Nem respondeu?
IRMÃO:
Não.
PAI:
Você não tá preocupado?
(Pausa)
IRMÃO:
Ela quis ir embora. O que eu posso fazer?
MÃE:
Filho…
IRMÃO:
Sempre isso. Sempre ela. Agora a casa para?
IRMÃO:
Eu fiquei. Quando tudo tava ruim…eu fiquei. Eu to aqui, sabia?
(Pausa)
Mas ninguém faz drama por mim.
PAI:
Não fala assim.
IRMÃO:
Por quê?
(Pausa)
Alguém perguntou como eu tô?
(Silêncio)
IRMÃO:
Talvez eu só tenha aprendido… que nessa casa quem faz tudo certo…ninguém percebe
(Ele sai.)
CENA 3 — A FILHA / TERRA DISTANTE
(Luz muda.)
A filha em outro ambiente.
Talvez sofá.
Mochila no chão.
Casa do namorado.
No começo parece confortável.
Mas há vazio.
Ela manda mensagem.
Espera.
Visualizado.
Sem resposta.
FILHA:
(sorri sem graça)
Legal🔥
(Silêncio)
Celular toca.
Ela se anima.
Mas não é quem esperava.
FILHA:
Oi…
(Pausa)
Ah.
Você tá ocupado de novo?
(Pausa)
Tá.
Tudo bem.
😭
(Desliga.)
Silêncio.
Ela percebe.
Está sozinha.
FILHA:
(baixo)
Achei que alguém finalmente ia me escolher.
😭🔥
(Silêncio longo)
Ela pega uma blusa da mãe na mochila.
Cheira.
Começa a chorar.
FILHA:
Mãe…
(Pausa)
FILHA:
Pai…
(Pausa)
Você percebeu que eu fui embora?
😭🔥
CENA 4 — O PAI SOZINHO
(O pai sozinho na mesa.)
Noite.
A casa dormiu.
Ele mexe no celular.
Abre conversa da filha.
Digita.
Apaga.
Digita.
Apaga.
PAI:
(baixo)
“Filha, volta.”
(Pausa)
Não.
(Deleta)
“Filha, precisamos conversar.”
(Deleta)
“Você tá bem?”
(Deleta)
(Pausa longa)
PAI:
Eu não faço ideia de como falar com ela.
(Mãe entra sem ele perceber.)
MÃE:
Então fala com Deus.
(Silêncio)
PAI:
Você acha que ela tá bem?
MÃE:
Não.
(Pausa)
Mas acho que ela tá descobrindo…
que às vezes a gente procura amor…
nos lugares errados.
PAI:
Eu falhei com ela né?
MÃE:
(Pausa longa)
Você amou.
(Pausa)
Mas talvez…
do jeito que sabia.
PAI:
E não foi suficiente.
(Mãe segura a mão dele.)
Silêncio.
CENA 5 — A DRACMA
(A mãe sozinha depois.)
Ela procura a moeda de novo.
Mais intensa.
Abre gavetas.
Olha debaixo da mesa.
Varre o chão.
Quase obsessiva.
MÃE:
Meu Deus…
Onde foi parar?
Eu sei que perdi alguma coisa…
😭
NARRADOR:
Há perdas…
que não cabem numa gaveta.
Nem embaixo da mesa.
Há perdas…
que moram dentro da casa.
NARRADOR:
E há pessoas…
que passam tanto tempo tentando juntar os pedaços dos outros…
que esquecem dos próprios.
TRANSIÇÃO MUSICAL
Aqui entra:
Imperfeito
(A filha canta / ou alguém canta por ela.)
Enquanto isso:
ela é ignorada pelo namorado,
se sente usada,
percebe que “liberdade” não curou sua dor,
olha fotos da família,
lembra da mesa.
No final da música…
Ela desaba.
No chão.
Chorando.
FILHA:
(chorando)
Achei que tava fugindo deles…
(Pausa)
Mas acho…
que tava fugindo de mim.
LUZ APAGA.