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A MESA

A peça 'A Mesa Vazia' retrata a dinâmica familiar de uma mãe que tenta reunir a família para um jantar, mas enfrenta a indiferença e a falta de comunicação entre os membros. A filha se sente negligenciada e não ouvida, enquanto o irmão também expressa seu cansaço em ser o 'forte' da família. A história explora temas de perda emocional e a busca por conexão em meio a conflitos e distâncias crescentes.
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A MESA

A peça 'A Mesa Vazia' retrata a dinâmica familiar de uma mãe que tenta reunir a família para um jantar, mas enfrenta a indiferença e a falta de comunicação entre os membros. A filha se sente negligenciada e não ouvida, enquanto o irmão também expressa seu cansaço em ser o 'forte' da família. A história explora temas de perda emocional e a busca por conexão em meio a conflitos e distâncias crescentes.
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ATO 1 — A MESA VAZIA

[CENÁRIO]

Uma mesa posta no centro do palco. Casa simples, aconchegante, mas cansada. A mesa
é bonita, mas parece pouco usada emocionalmente. Luz quente de jantar. A mãe entra
primeiro. Carrega pratos. Arruma cadeiras. Ajeita tudo milimetricamente. A mãe
cansada, mas tentando manter a família unida. Enquanto arruma, mexe distraidamente
nos bolsos ou numa gaveta. Como quem procura algo.

MÃE:
(baixinho, pra si)

Hoje vai dar certo…

(Pausa)

Hoje a gente janta junto.

(Olha a mesa)

Sem briga. Sem celular. Sem pressa.

(Sorri sozinha)

Hoje vai.

(Ela procura algo)

Ué… Estranho. Não… Eu tinha deixado aqui.

(Procura discretamente)

Depois eu vejo isso.

MÃE:
(gritando da cozinha)

Gente! A comida tá pronta!

(Silêncio)
MÃE:
mais alto

Meninos!

(Silêncio)

FILHA!

[ENTRA O IRMÃO]

Livro/caderno na mão.

Mochila.

Responsável.

Já parece cansado da casa.

Senta.

IRMÃO:
Já tô aqui.

(Olha ao redor)

Ela ainda não veio?

MÃE:
Quem?

IRMÃO:
A favorita do caos.

(Pequeno humor)

MÃE:
Não começa.
IRMÃO:
Tô brincando.

(ou nem tanto)

MÃE:
Como foi o dia?

IRMÃO:
Normal.

Tirei nota boa na prova.

(Ela abre um sorriso sincero)

MÃE:
Sério?!

Filho, parabéns!

Eu sabia!

Qual foi a nota?

IRMÃO:
9,5.

MÃE:
Meu Deus!

Eu sempre soube que você—

[ENTRA A FILHA]

Celular na mão.

Fone em um ouvido.
Cara de cansada.

Mas querendo parecer forte.

Nem olha direito.

Senta.

FILHA:
Tem comida?

MÃE:
Boa noite pra você também.

FILHA:
Boa noite.

Tem comida?

(Pequeno humor)

IRMÃO:
Educação passou longe.

FILHA:
Igual sua simpatia.

MÃE:
Já começou?

Nem sentaram ainda.

MÃE:
Filha…
Guarda o celular só no jantar?

FILHA:
aham... (mexendo no celular), só vou responder um boy aqui. Mas to te ouvindo pode
falar.

MÃE:
Mas não tá presente.

FILHA:
Mesma coisa.

IRMÃO:
Não é não.

FILHA:
Nossa.

Fiscal de comportamento agora?

MÃE:
Chega vocês dois.

(Pausa)

Filha…

Como foi seu dia?

FILHA:
Normal.
MÃE:
Só normal?

FILHA:
Mãe.

Tô cansada. Não to muito pra conversa, ok?

MÃE:
Tá bom. Mas no celular...

(Pausa, respira fundo)

Vocês viram uma coisa minha?

IRMÃO:
O quê?

MÃE:
Ah…

Não sei explicar.

Eu to com a sensação que perdi alguma coisa, não sei se foi uma moeda ou um pingente
do colar, no último jantar eu ouvi algo caindo no chão mas eu não vi o que era.

Acho que perdi.

FILHA:
Se perdeu dentro de casa…

Nem devia ser tão importante ou ainda tá aqui né?

(Pequeno silêncio)
MÃE:
Às vezes…

A gente perde coisa importante sem perceber.

[BARULHO DE CHAVE]

PAI entra.

Cansado.

Bolsa do trabalho.

Afrouxa a camisa.

Mas tentando ser leve.

PAI:
Ué.

Esqueceram de mim?

Começaram sem o trabalhador dessa casa?

(Pequeno humor)

MÃE:
A comida tava esfriando.

PAI:
Mas eu tava esquentando o bolso de vocês.

(Pequeno humor de pai)

IRMÃO:
Essa BEM foi ruim.
FILHA:
Horrível.

PAI:
Ah, vocês me amam.

(Senta)

E aí?

Como foi o dia dos herdeiros?

IRMÃO:
Foi tranquilo.

PAI:
E aquela prova?

IRMÃO:
Fui bem.

9,5.

PAI:
Aí sim!

Sabia! Quase 10, hein? Poderia se esforçar mais.

(Bate no ombro dele)

Mas...Parabéns.

(A filha abaixa os olhos discretamente)


PAI:
(olha pra filha)

E você?

Milagre largar o celular hoje?

FILHA:
Eu tava no celular faz literalmente dois segundos.

PAI:
Dois segundos desde que eu cheguei.

FILHA:
Você acabou de chegar e já ta implicando comigo?

(Silêncio leve)

PAI:
Não começa.

MÃE:
Vamos só jantar em paz hoje?

PAI:
Aliás…

Viram o jogo ontem?

IRMÃO:
Vi.

O juiz roubou muito.


PAI:
FINALMENTE alguém inteligente nessa casa.

(Pequeno humor)

FILHA:
Ou alguém que quer sua aprovação.

(Silêncio)

PAI:
O que foi isso?

FILHA:
Nada.

IRMÃO:
Lá vem.

FILHA:
Você fica quieto.

O perfeitão da família.

IRMÃO:
Pelo menos eu me esforço né?

FILHA:
Ah claro.
Você nasceu pronto né?

Nota boa. Responsável. Filho exemplo. Parabéns.

Quer palmas? (bate palmas)... toma! Quer um troféu também?

IRMÃO:
Pelo menos eu não vivo reclamando da vida, não faz nada e fica cansada. Pior, fica aí
andando com esses moleques na rua. Num vai dar em nada.

FILHA:
Pelo menos eles me entendem e eu to vivendo né? To no meu auge. Você não, fica aí
tentando provar algo o tempo todo.

Você sobrevive tentando agradar.

🔥🔥

PAI:
Chega!

Todo jantar é isso agora?

FILHA:
Que jantar?

Isso aqui nem parece uma família.

PAI:
Enquanto você morar nessa casa—

FILHA:
Essa casa?
(Pausa)

Você nem tá nela. Você só aparece aqui pra comer, assistir porcaria de futebol e
mandar.

😭🔥

Silêncio ABSURDO.

MÃE:
Filha—

FILHA:
Não mãe.

(Pausa)

Todo mundo aqui sabe que o Sr. Perfeição aqui surpreende vocês, meu pai é
extremamente ausente e você...vive ocupada demais. Todo mundo tem o seu lugar nessa
casa.

(Pausa)

Menos eu.

PAI:
Você tá exagerando.

FILHA:
Tô?

Você sabe o time do meu irmão. A nota. O que ele gosta. Até a ordem do café dele.

(Pausa)

Mas você nem percebe quando eu tô mal.

😭🔥
PAI:
Isso não é verdade.

FILHA:
É sim.

(Pausa)

Eu cansei.

(Ela sai.)

IRMÃO:
Ih, tem alguém de TPM.

(Sai também.)

PAI:
Depois eu converso com ela.

(Sai irritado.)

Silêncio.

Só a mãe.

A mesa bagunçada.

Pratos.

Cadeiras vazias.

Ela começa a recolher.

Respira fundo.

Tenta não chorar.

Procura algo outra vez.


Debaixo dos pratos.

Na toalha.

Na gaveta.

[IRMÃO VOLTA]

IRMÃO:
Mãe… Quer ajuda?

MÃE:
Sem olhar pra ele.

Não.

IRMÃO:
Mas—

MÃE:
Eu já disse que não. Se eu quisesse eu tinha pedido.

(Pausa, respira fundo)

Olha, esquece. Eu dou conta aqui. Vai descansar.

IRMÃO:
Tá.

(Ele sai magoado.)

Silêncio.

Ela senta sozinha.

Olha pra mesa.

Olhos marejados.
Baixinho:

MÃE:
Eu sei que perdi alguma coisa…

(Pausa)

Só não sei quando. Não sei o que. Na igreja o Pastor falou algo sobre Dracma, e desde
então to pensativa e com a sensação de perda. Será que Deus me ve? Me sinto tao
sozinha...

Canta: Deus do secreto (Mas parece que um furacão me alcançou...Deus eu não podia
imaginar, perdi meu chão. Olha como chora o meu coração...)

LUZ APAGA.

ATO 2 — DISTÂNCIAS
[CENÁRIO]

Luzes baixas. A mesa continua no centro. Mas agora parece mais fria. Uma cadeira
levemente torta do jantar anterior. O ambiente parece pesado.

Cada personagem em um canto do palco:

 O PAI trabalhando no notebook ou mexendo em papéis.


 A MÃE organizando a casa mecanicamente.
 O IRMÃO estudando.
 A FILHA sentada no quarto (ou canto do palco), mexendo no celular.

Silêncio.

O NARRADOR entra lentamente.

NARRADOR:
Tem gente que se perde indo embora.

Tem gente que se perde ficando.

Tem gente que se perde tentando manter tudo de pé.

(Pausa)

E tem mesas…
que continuam postas…

mesmo quando ninguém mais quer sentar.

(Luz muda para a FILHA)

CENA 1 — A FILHA

(A filha joga algumas roupas numa mochila.)

Fone no ouvido. Mas claramente chorou. Ela limpa o rosto rápido quando ouve passos.

A mãe entra.

Para.

Observa.

MÃE:
O que é isso?

FILHA:
Nada.

MÃE:
Isso é mochila de “nada”? Olha o tanto de coisa que tem aí...

(Pequeno humor)

FILHA:
Só tô arrumando umas coisas.

MÃE:
Pra onde?
FILHA:
Não sei. Qualquer lugar.

MÃE:
Filha…

FILHA:
Mãe, por favor. Não começa.

MÃE:
Eu só quero entender.

FILHA:
(entala)

Vocês sempre querem entender quando já deu errado.

MÃE:
Ninguém tá contra você.

FILHA:
Não?

(Pausa)

Porque parece. O pai me olha como se eu fosse um problema. Meu irmão parece
competir comigo até respirando. E você…

MÃE:
Eu o quê?
FILHA:
Você tenta resolver tudo. Mas nunca pergunta se eu tô bem de verdade.

(Silêncio)

A mãe sente.

Mas não sabe responder.

MÃE:
Eu tô perguntando agora.

FILHA:
(baixa a guarda por um segundo)

Eu tô cansada.

(Pausa)

Cansada de me sentir errada. Cansada de parecer a filha difícil. Cansada de achar que…
talvez ninguém ia sentir tanta falta assim.

😭😭

MÃE:
(aproxima)

Nunca fala isso. Nunca.

FILHA:
Você fala isso porque é mãe. Mas o pai?

(Pausa)

Você já viu ele me olhar igual olha pro meu irmão?

🔥😭
MÃE:
Seu pai ama você. Só não sabe mostrar.

FILHA:
Então ele aprenda. Porque eu cansei de esperar.

(Silêncio pesado)

MÃE:
Filha…

fica.

Amanhã a gente conversa.

FILHA:
Amanhã nunca muda nada nessa casa.

(Ela fecha a mochila.)

MÃE:
Você vai pra onde?

FILHA:
Ah, vou pra casa da Maria pra gente estudar um pouco... Vocês nem vão sentir minha
falta. Volto na segunda, talvez. Pode continuar a vidinha de vocês, almocem juntos no
domingo, tudo em família. Vcs não precisam de mim.

(Ela sai.)

A mãe fica parada. Sem reação. Olhos marejados.


CENA 2 — O IRMÃO

(O irmão apareceu sem a mãe perceber. Ouviu parte da conversa.)

IRMÃO:
Ela não vai fazer isso. Maria? A Maria confirmou que vai numa festa esse fim de
semana. Essa menina só quer aprontar.

MÃE:
Seu pai falou a mesma coisa ontem. Mas eu vou fazer o que?

IRMÃO:
Ela sempre exagera. E vcs passam a mão na cabeça.

MÃE:
Filho…

ela tá machucada.

IRMÃO:
E eu não tô? Viu como o pai reagiu a minha nota?

(Silêncio)

IRMÃO:
Todo mundo só olha pra ela. Sempre ela. O drama dela. O problema dela. A dor dela.

(Pausa)

Mas eu fiquei. Poderia ter confirmado também pra essa festa. Mas vou ficar aqui com
você.
IRMÃO:
Quando pai não tava, eu fiquei. Quando você chorava escondido, eu fiquei. Quando
tudo tava ruim…eu fiquei.

MÃE:
Filho…

IRMÃO:
Mas ninguém pergunta se eu tô cansado.

MÃE:
Eu sei.

IRMÃO:
Não sabe.

(Pausa)

Porque se soubesse… não olhava pra mim como “o forte”.

(Ele sai.)

A mãe desmonta um pouco.

CENA 3 — O PAI

(O pai entra.)

PAI:
Cadê ela?
MÃE:
Saiu.

PAI:
Saiu? Disse onde ia?

MÃE:
Não.

(Pausa)

Acho que dessa vez ela foi mesmo.

PAI:
Você tá exagerando.

MÃE:
Não tô.

(Pausa)

Ela já disse que queria ir várias vezes.

🔥😭

PAI:
Ela é impulsiva. Vai quebrar a cara e voltar.

MÃE:
Você ouviu o que acabou de dizer?
PAI:
O quê?

MÃE:
Você falou da sua filha como se ela fosse um problema esperando solução.

PAI:
Eu trabalho o dia inteiro por essa casa!

MÃE:
Mas não vive nela!

(Silêncio absurdo)

PAI:
Isso é injusto.

MÃE:
Sabe o que é injusto?

Uma menina implorando atenção sem saber pedir.

(Pausa)

Ela só queria colo.

(O pai trava.)

Essa frase pega.

PAI:
Ela acha mesmo que eu não amo ela?
MÃE:
Não.

(Pausa)

Ela acha que nunca foi suficiente pra você.

(Longo silêncio.)

O pai senta.

Sem reação.

Pela primeira vez…

culpado.

CENA 4 — A DRACMA

(A mãe sozinha.)

Ela procura algo novamente.

Mais desesperada agora.

Nas gavetas.

Debaixo da mesa.

Nos bolsos.

Na bolsa.

MÃE:
Meu Deus…

onde foi parar?

Eu sei que tava aqui…

😭
NARRADOR:
Havia uma mulher…

que perdeu uma dracma.

E procurou.

Virou a casa.

Acendeu a luz.

Não desistiu até encontrar.

(Pausa)

Mas talvez…

existam perdas mais difíceis.

NARRADOR:
Porque há pessoas…

que passam tanto tempo tentando não perder os outros…

que acabam perdendo a si mesmas.

TRANSIÇÃO MUSICAL

(Luz do outro lado do palco.)

A filha sozinha. Sentada. Mochila do lado. Talvez na casa do namorado. Ou num banco.
Ou na rua. O celular na mão. Ninguém mandou mensagem.

Silêncio.

Ela olha uma foto da família. Da mesa. Da mãe. Fecha rápido. Não quer sentir.

FILHA:
(baixinho)

Achei que sair ia doer menos.


LUZ APAGA.

ATO 3 — LONGE DA MESA


[CENÁRIO]

Luzes frias. A mesa continua no centro. Mas agora parece ainda mais vazia. Uma
cadeira continua sem ninguém. O clima da casa mudou. Tudo parece funcionar… mas
sem vida. O silêncio virou rotina.

NARRADOR:
Tem gente que acha…

que se perder acontece de uma vez.

(Pausa)

Mas quase sempre… é um caminho. Você vai se afastando. Mais um pouco. Mais um
pouco. Até que um dia…já não sabe mais como voltar.

CENA 1 — A CASA SEM ELA

(O pai entra cansado.)

Olha automaticamente para a cadeira da filha.

Ela está vazia.

Ele tenta fingir normalidade.

PAI:
Ela mandou mensagem?

MÃE:
Não.

PAI:
Ligou?
MÃE:
Não.

PAI:
Visualizou?

MÃE:
Não.

(Silêncio)

PAI:
Ela tá brava.

Vai passar.

MÃE:
(olhando a cadeira)

Acho que você ainda não entendeu.

PAI:
O quê?

MÃE:
Ela não saiu ontem.

(Pausa)

Ela saiu faz muito tempo.

(Silêncio)
CENA 2 — O IRMÃO

(O irmão entra.)

Senta. Come sozinho. Mecânico. Silêncio.

PAI:
Falou com sua irmã?

IRMÃO:
Não.

PAI:
Nem respondeu?

IRMÃO:
Não.

PAI:
Você não tá preocupado?

(Pausa)

IRMÃO:
Ela quis ir embora. O que eu posso fazer?

MÃE:
Filho…
IRMÃO:
Sempre isso. Sempre ela. Agora a casa para?

IRMÃO:

Eu fiquei. Quando tudo tava ruim…eu fiquei. Eu to aqui, sabia?

(Pausa)

Mas ninguém faz drama por mim.

PAI:
Não fala assim.

IRMÃO:
Por quê?

(Pausa)

Alguém perguntou como eu tô?

(Silêncio)

IRMÃO:
Talvez eu só tenha aprendido… que nessa casa quem faz tudo certo…ninguém percebe

(Ele sai.)

CENA 3 — A FILHA / TERRA DISTANTE

(Luz muda.)

A filha em outro ambiente.

Talvez sofá.

Mochila no chão.
Casa do namorado.

No começo parece confortável.

Mas há vazio.

Ela manda mensagem.

Espera.

Visualizado.

Sem resposta.

FILHA:
(sorri sem graça)

Legal🔥

(Silêncio)

Celular toca.

Ela se anima.

Mas não é quem esperava.

FILHA:
Oi…

(Pausa)

Ah.

Você tá ocupado de novo?

(Pausa)

Tá.

Tudo bem.

😭
(Desliga.)

Silêncio.

Ela percebe.

Está sozinha.

FILHA:
(baixo)

Achei que alguém finalmente ia me escolher.

😭🔥

(Silêncio longo)

Ela pega uma blusa da mãe na mochila.

Cheira.

Começa a chorar.

FILHA:
Mãe…

(Pausa)

FILHA:
Pai…

(Pausa)

Você percebeu que eu fui embora?

😭🔥
CENA 4 — O PAI SOZINHO

(O pai sozinho na mesa.)

Noite.

A casa dormiu.

Ele mexe no celular.

Abre conversa da filha.

Digita.

Apaga.

Digita.

Apaga.

PAI:
(baixo)

“Filha, volta.”

(Pausa)

Não.

(Deleta)

“Filha, precisamos conversar.”

(Deleta)

“Você tá bem?”

(Deleta)

(Pausa longa)
PAI:
Eu não faço ideia de como falar com ela.

(Mãe entra sem ele perceber.)

MÃE:
Então fala com Deus.

(Silêncio)

PAI:
Você acha que ela tá bem?

MÃE:
Não.

(Pausa)

Mas acho que ela tá descobrindo…

que às vezes a gente procura amor…

nos lugares errados.

PAI:
Eu falhei com ela né?

MÃE:
(Pausa longa)
Você amou.

(Pausa)

Mas talvez…

do jeito que sabia.

PAI:
E não foi suficiente.

(Mãe segura a mão dele.)

Silêncio.

CENA 5 — A DRACMA

(A mãe sozinha depois.)

Ela procura a moeda de novo.

Mais intensa.

Abre gavetas.

Olha debaixo da mesa.

Varre o chão.

Quase obsessiva.

MÃE:
Meu Deus…

Onde foi parar?

Eu sei que perdi alguma coisa…


😭

NARRADOR:
Há perdas…

que não cabem numa gaveta.

Nem embaixo da mesa.

Há perdas…

que moram dentro da casa.

NARRADOR:
E há pessoas…

que passam tanto tempo tentando juntar os pedaços dos outros…

que esquecem dos próprios.

TRANSIÇÃO MUSICAL

Aqui entra:

Imperfeito

(A filha canta / ou alguém canta por ela.)

Enquanto isso:

 ela é ignorada pelo namorado,


 se sente usada,
 percebe que “liberdade” não curou sua dor,
 olha fotos da família,
 lembra da mesa.

No final da música…

Ela desaba.
No chão.

Chorando.

FILHA:
(chorando)

Achei que tava fugindo deles…

(Pausa)

Mas acho…

que tava fugindo de mim.

LUZ APAGA.

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