Rev. Enferm.
UFSM - REUFSM
Santa Maria, RS, v. 11, e22, p. 1-22, 2021
DOI: 10.5902/2179769243719
ISSN 2179-7692
Artigo Original Submissão: 22/04/2020 Aprovação: 08/10/2020 Publicação: 09/03/2021
Consulta de enfermagem na Atenção Primária à Saúde: cuidado às pessoas com
doenças crônicas cardiometabólicas
Nursing Consultation in Primary Health Care: Care for people with chronic cardiometabolic diseases
Consulta de enfermería en la Atención Primaria de Salud: el cuidado a los individuos con enfermedades
crónicas cardiometabólicas
Maria Clara Moreira MatiasI, Uiara Aline de Oliveira KaizerII, Thaís Moreira São-
São-JoãoIII
Resumo:
Resumo: Objetivo: desenvolver um instrumento para Consulta de Enfermagem às pessoas com hipertensão
arterial e/ou diabetes mellitus tipo 2 em seguimento na Atenção Primária à saúde. Método: estudo metodológico,
composto por duas etapas, desenvolvido em Unidade Básica de Saúde (UBS) no interior do Estado de São Paulo. A
Etapa 1 correspondeu à Construção do Instrumento e à Validação de Conteúdo por cinco juízes. A Etapa 2
correspondeu ao pré-teste e à avaliação de suas propriedades de medida. O questionário foi pré-testado com 30
pessoas com hipertensão arterial e/ou debates mellitus usuárias da UBS. Resultados: o questionário apresentou alto
índice de validade de conteúdo (IVC = 0,96) e moderada aplicabilidade (pelo tempo de aplicação). Conclusão: o
instrumento se apresentou adequado à realidade e à necessidade da Atenção Primária em termos de conteúdo.
Descritores: Enfermagem; Diabetes mellitus; Hipertensão; Inquéritos e questionários; Estudos de validação
Abstract: Objective:
Objective to design a nursing consultation instrument for people with high blood pressure and/or type
2 diabetes mellitus being followed up in Primary Health Care. Method:
Method methodological study comprising two
stages developed in a Basic Health Unit (BHS) in the interior of the state of São Paulo. Stage 1 was related to
designing the instrument and validating its content with five judges. Stage 2 was related to pre-testing and
evaluation of its measurement properties. The questionnaire was pre-tested with 30 people with high blood
pressure and/or diabetes mellitus that attended the UBS. Results:
Results the questionnaire had a high content validity
index (CVI = 0,96) and moderate feasibility (considering the administration time). Conclusion:
Conclusion the instrument was
adequate to the reality and need of primary health care in terms of content..
Keywords:
Keywords: Nursing; Diabetes mellitus; High blood pressure; Surveys and questionnaires; Validation study
I
Enfermeira. Residente em Cardiologia pela Universidade de São Paulo. São Paulo, São Paulo, Brasil. E-mail: mariacmmatias@[Link] Orcid:
[Link]
II Enfermeira. Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Faculdade de Enfermagem da Universidade Estadual de
Campinas. Campinas, São Paulo, Brasil. E-mail: uiara_oliveira@[Link] Orcid: [Link]
III Enfermeira. Docente da Faculdade de Enfermagem da Universidade Estadual de Campinas. Campinas, São Paulo, Brasil. E-mail:
thaisms@[Link] Orcid: [Link]
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Resumen: Objetivo:
Objetivo desarrollar un instrumento para la Consulta de Enfermería a los individuos con hipertensión
arterial y/o con diabetes mellitus tipo 2 en monitoreo en la Atención Primaria de Salud. Método:
Método estudio
metodológico dividido en dos etapas y llevado a cabo en una Unidad Básica de Salud (UBS) en el estado de São
Paulo. La Etapa 1 consistió en la Elaboración del Instrumento y la Validez de Contenido por cinco expertos. La
Etapa 2 correspondió a la prueba previa y a la evaluación de sus propiedades de medida. El cuestionario se aplicó
previamente a 30 individuos con hipertensión arterial y/o con diabetes mellitus, todos usuarios de la UBS.
Resultados: el cuestionario reveló alto índice de validez de contenido (IVC = 0,96) y moderada aplicabilidad (por el
tiempo de aplicación). Conclusión: el instrumento fue adecuado a la realidad y la necesidad de la Atención Primaria
en cuanto al contenido..
Descriptores: Enfermería; Diabetes mellitus; Hipertensión; Encuestas y cuestionarios; Estudio de validación
Introdução
A hipertensão arterial (HA) e o diabetes mellitus tipo 2 (DM2) são consideradas doenças
crônicas não transmissíveis (DCNT) e possuem considerável custo financeiro e de mão de obra
para o Sistema Único de Saúde (SUS), além de serem de difícil enfrentamento e cuidado para a
família e para o indivíduo afetado. Em 2015, os gastos do Brasil com o DM se aproximaram de
R$ 4 bilhões, dada sua cronicidade, ou seja, o tratamento contínuo.1 Em 2018, a HA foi
responsável por 59% do custo direto relacionado ao tratamento medicamentoso; ou seja, ela
representa relevante impacto financeiro (mais de R$ 2 bilhões por ano) no Brasil.2 Já os gastos
estimados de doenças cardiovasculares aumentaram em 17%, de 2010 a 2015, alcançando R$ 37,1
bilhões no ano de 2015.3
Diante do impacto que a HA tem no cenário em saúde é importante reconhecer que a
doença se caracteriza por aumento e persistência dos níveis de pressão arterial (PA) sistólica ≥
140 e diastólica ≥ 90 mmHg, causado principalmente pelo enrijecimento das artérias, e,
consequentemente, por aumento da resistência vascular periférica (RVP), muitas vezes causado
pelo alto consumo de sódio, sendo agravada por fatores de risco, como a obesidade.4
O DM2 corresponde a 90 a 95% de todos os casos de DM; por sua vez, é caracterizado por
diminuição da secreção de insulina pelas células β do pâncreas e/ou pela resistência à insulina e,
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consequentemente, pelo maior nível de glicose circulante na corrente sanguínea. É um
parâmetro de positividade, para diagnóstico da doença, a taxa de glicose em jejum ≥ 126mg/dl ou
o percentual de hemoglobina glicada ≥ 6,5%. 1
É possível assumir que as duas patologias (HA e DM) se interligam por meio de seus
agravos e fatores de risco, somando-se a dislipidemia, síndrome metabólica, hereditariedade, má
alimentação e significativo uso de sal, fumo, além da inatividade física estão ligados ao aumento
de morte por causa cardíaca.5 Em 2016, a HA estava ligada diretamente a 45% das mortes por
causas cardíacas, enquanto apenas 54,1% dos pacientes diagnosticados com HA a mantiveram
controlada.6 O DM, por sua vez, está presente na vida de 1 a cada 10 adultos norte-americanos e
possui prevalência do tipo 2.1
Em 2019, cerca de 17 milhões de pessoas foram acometidas por DM, sendo que o Brasil
ocupava a quinta posição entre os países com maior número de afetados. Estima-se que, em
2045, mais de 20 milhões de pessoas terão DM, sendo que o Brasil registrará a metade das
mortes decorrentes de DM estimadas para o conjunto de países da América do Sul e da América
Central.7 Assim, evidencia-se a necessidade de maior conhecimento dos custos das DCNT, com
vistas ao melhor investimento financeiro e pessoal na Atenção Primária à Saúde (APS) e
objetivando a priorização das políticas integradas e intersetoriais de prevenção, enfrentamento
e controle da hipertensão e do diabetes, visto que um tratamento preventivo traria maiores
benefícios para o paciente e diminuiria os custos do SUS.2
Levando em consideração a cronicidade e a necessidade de tratamento contínuo da HA e
do DM2 na APS, é preciso ressaltar o papel do enfermeiro. Por meio de intervenções e
acompanhamento, ele está presente nas etapas de diagnóstico médico, adesão e compreensão do
tratamento medicamentoso, prescrição e indicação de tratamentos não medicamentosos,
atuação nos fatores de risco, acompanhamento de sinais e sintomas e intervenções nos aspectos
sociais da pessoa – como contexto familiar em que vive e qual a rede de apoio que constitui.
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Nessa perspectiva, um dos seus principais instrumentos de trabalho é a consulta de enfermagem
(CE).
A CE é uma atividade privativa do enfermeiro, na qual é realizado o processo de
enfermagem (PE) em cinco etapas: levantamento de possíveis problemas de enfermagem e
necessidades de saúde a se intervir, por meio de histórico e relato verbal; observação clínica de
possíveis alterações, sinais e sintomas durante o exame físico (histórico de enfermagem);
diagnóstico de enfermagem (DE), para estabelecimento de prioridades de cuidado; planejamento
de intervenções e implementação; avaliação dos processos e seus resultados; e registro das
atividades, sendo principalmente o DE e as condutas anexadas ao prontuário e ao histórico do
paciente. Assim, por meio da CE, é possível que o enfermeiro atue junto a pessoa com HA e
DM2, principalmente quanto à adesão aos tratamentos medicamentoso e não medicamentoso.8
Para se estabelecer um DE sistematizado, para melhor promover a ação e a assistência
unificadas do enfermeiro, haja vista a premente necessidade dessa atuação em APS no SUS,
destaca-se o uso da Classificação Internacional para a Prática de Enfermagem (CIPE). A CIPE
foi proposta com vistas a unificar a nomenclatura utilizada pelos profissionais, o que seria um
facilitador para o planejamento da assistência – por meio da organização dos dados do paciente
– possibilitando uma classificação padronizada.9
Considerando a necessidade de assistência contínua, por conta da cronicidade da HA e
do DM2, e considerando o papel do enfermeiro na prevenção de agravos e na promoção da
saúde, o PE deve ser realizado de forma sistematizada e registrado adequadamente. Dessa
maneira, é possível promover a melhor evolução e o acompanhamento da situação de saúde da
pessoa com HA e DM – visto que são doenças silenciosas e que requerem diversos cuidados.
Assim, faz-se necessário um instrumento de DE para as pessoas com HA e DM2, a fim de
facilitar e estimular a realização do PE na CE, buscando a melhor evolução e o adequado
acompanhamento do seu estado de saúde. Portanto, este estudo teve como objetivo desenvolver
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um instrumento para Consulta de Enfermagem às pessoas com HA e/ou DM2 em seguimento na
Atenção Primária à Saúde.
Método
Trata-se de estudo com abordagem metodológica,10 para criação de instrumento para a
CE na APS, composto por duas etapas e desenvolvido em uma Unidade Básica de Saúde (UBS)
no interior do Estado de São Paulo. Essa UBS pertence à região sul de um distrito de saúde.
Compõe a equipe de enfermagem: três enfermeiras e dez técnicos de enfermagem. A unidade
constitui campo de atividade prática e estágio curricular para os discentes dos cursos de
graduação em enfermagem e medicina. A população da área de abrangência da UBS é de 42.467
habitantes. Desses, 1.275 (3,0%) são cadastrados com HA e 715 (1,7%) com DM2. A comparação
entre os dados locais da UBS e os parâmetros nacionais para DM e HA sugere fortemente a
evidência de subnotificação, uma vez que parâmetros populacionais11 estabelecem que 21,4% da
população maior de 18 anos apresentam HA e que 6,9% têm DM – o que corresponderia, nesse
cenário, a 9.088 habitantes e 2.930 habitantes, respectivamente.
A seguir, está descrito o percurso metodológico realizado.
Etapa 1: Construção do Instrumento e Validação
Validação de Conteúdo
Para construir um instrumento ou um questionário, é preconizado internacionalmente
que o pesquisador defina as variáveis de interesse e suas dimensões, por meio de pesquisa
bibliográfica, além de consulta a estudiosos da área e a representantes da população de
interesse.12 Assim, foi realizado levantamento na literatura nacional e internacional, bem como
levantamento documental junto a prontuários da UBS, a fim de levantar dados que permitam a
construção de itens que avaliem de forma holística o paciente com HA e/ou DM2.
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Quadro teórico
A Teoria do Autocuidado sinaliza a necessidade de intervenção quando há prejuízo no
autocuidado de uma pessoa, ou seja, quando esta pessoa não progride sozinha na execução de
medidas para o seu próprio bem-estar. Por meio do processo de enfermagem, a consulta deve
direcionar o enfermeiro para observar e construir o cuidado, por meio de ações que visem o agir,
o guiar, o apoiar, o ensinar e o manter-se junto à pessoa, sensibilizando-a sobre a manutenção
do próprio bem-estar.13 Assim, a consulta de enfermagem guiada pelo instrumento em questão
auxilia a organização do cuidado ofertado à pessoa hipertensa e∕ou com diabetes, para que ela
desenvolva o autocuidado em suas possibilidades pessoais, familiares e sociais, contando com a
intervenção profissional.
Destaca-se que a consulta proposta atende ao Modelo de Atenção às Condições Crônicas,
proposto pela Organização Pan-Americana da Saúde,12 que visa reorganizar a atuação na APS
junto às pessoas com condições crônicas, adotando, como uma de suas premissas, o autocuidado
apoiado. Nesse modelo, a consulta de enfermagem, guiada pelo autocuidado apoiado, orienta a
prática assistencial – por meio do manejo clínico adequado da doença crônica, das mudanças
necessárias no estilo de vida e da valorização de aspectos emocionais do paciente.
O referencial teórico selecionado para ser empregado nessa etapa foi a CIPE,
desenvolvida pelo Conselho Internacional de Enfermeiros.9 A CIPE foi criada para permitir uma
linguagem científica e unificada, comum à enfermagem mundial. Esta classificação permite ao
enfermeiro identificar diagnósticos de enfermagem por meio de fenômenos de enfermagem.
Validação de conteúdo
A validação de conteúdo é uma das etapas fundamentais para a elaboração de
instrumentos e depende majoritariamente de uma avaliação por especialistas. Os especialistas
ou juízes devem avaliar o instrumento como um todo, determinando sua abrangência (o quanto
cada conceito foi coberto pelos itens e se todas as suas dimensões foram incluídas), sua clareza
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(redação dos itens e se foram redigidos de forma compreensível e adequada) e sua pertinência
(ou representatividade – se os itens refletem os conceitos – e se são relevantes e adequados para
os objetivos).14
Nessa fase, os especialistas podem sugerir a inclusão ou a eliminação de itens. A
avaliação pelos juízes é composta por dois tipos distintos: avaliação qualitativa e avaliação
quantitativa.
Para a avaliação quantitativa, foi usado o Índice de Validade de Conteúdo (IVC), que
mede a proporção de juízes que estão em concordância sobre o instrumento e seus itens, sendo
considerado aceitável um nível de concordância mínima de 0,80 (ou 80%).1 Este método utiliza
uma escala tipo Likert com pontuação de um a quatro. Assim, para cada item, as respostas
incluem: 1 = não relevante ou não representativo, 2 = item necessita de grande revisão para ser
representativo, 3 = item necessita de pequena revisão para ser representativo, 4 = item relevante
ou representativo. O índice é calculado por meio da soma de concordância dos itens que foram
marcados por “3” ou “4” pelos juízes. Os itens que receberam pontuação “1” ou “2” devem ser
revisados ou eliminados. Sua fórmula corresponde a: [IVC = Número de respostas “3” ou “4” /
Número total de respostas.
A avaliação qualitativa também pode ser realizada pelos juízes, por meio de sugestões de
modificação ou revisão no texto ou no layout do documento, por exemplo. Assim, essa avaliação
foi feita de forma individual e independente, pelos juízes, por meio de um processo interativo
entre as pesquisadoras e os membros do comitê, no qual os juízes sugeriram quais pontos do
instrumento poderiam ser melhorados a fim de clarificar os pontos controversos do instrumento
final.
No presente estudo, foram selecionados cinco juízes, todos enfermeiros, que atenderam a
pelo menos um dos seguintes critérios de seleção: ter experiência na APS e/ou ser pesquisador
com conhecimento em desenvolvimento e validação de instrumentos. Os juízes, convidados por
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e-mail, receberam uma versão do instrumento e cada juiz também recebeu um questionário
específico para realizar a avaliação.
Etapa 2: Pré-
Pré-teste e avaliação das propriedades de medida
Ao final da Etapa 1, a versão preliminar do instrumento foi submetida à etapa de pré-
testagem. Nesta etapa, o instrumento deve ser aplicado a um tamanho amostral que varia de
trinta a quarenta sujeitos, de acordo com recomendações internacionais.15 Também nesta etapa,
a praticabilidade do instrumento pode ser avaliada, neste caso, usando-se o tempo despendido
no seu preenchimento, cronometrado em minutos.10
População, amostra e procedimento de amostragem
Na fase de construção do instrumento, não houve recrutamento de participantes; apenas
na etapa 2 foram recrutadas pessoas com HA e/ou DM2, em seguimento clínico no referido
serviço, que atenderam aos critérios de seleção: pessoas com diagnóstico médico prévio de HA
e/ou DM2 e que eram capazes de estabelecer comunicação efetiva, demonstrando orientação e
cognição aceitáveis para serem incluídas no estudo. Assim, para a etapa de pré-teste, foram
incluídos, nesta pesquisa, 30 participantes.
Procedimento de coleta de dados
A coleta dos dados se deu no período de setembro de 2018 a fevereiro de 2019 e aconteceu
apenas na etapa de pré-teste, com o instrumento já na versão final, após a sugestão dos juízes.
Foi conduzida pela pesquisadora, de forma individual, em ambiente privativo, por meio de
entrevista. A entrevista foi baseada nas recomendações para realização de consulta de
enfermagem em Atenção Primária, com duração média de uma hora, a depender da necessidade
do usuário. Nessa ocasião, também se deu a consulta ao prontuário de saúde, no referido campo
de pesquisa.
Análise dos dados
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O IVC foi avaliado pelos cálculos já demonstrados, sendo considerado valor aceitável o
IVC maior ou igual 0,80. A praticabilidade foi avaliada pelo tempo despendido na entrevista,
cronometrado em minutos.
Aspectos éticos
O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição, sob Parecer
2.338.122/2018, em 19 de outubro de 2017, de acordo com a Resolução 466/2012, do Conselho
Nacional de Saúde. Os participantes formalizaram sua anuência por meio da assinatura do
Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
Resultados
A 1ª. etapa consistiu na criação e na validação do conteúdo do instrumento. O processo
de criação se baseou na consulta às literaturas nacional e internacional – quanto aos principais
aspectos a serem avaliados durante uma CE e quanto aos fenômenos de saúde mais observados
nos pacientes em seguimento.
Após a criação do instrumento, ele foi submetido à apreciação de cinco juízes quanto aos
aspectos de pertinência e clareza dos itens. O comitê de juízes foi composto por cinco
enfermeiras, descritas a seguir: uma enfermeira com ampla experiência em atendimento
ambulatorial em DM, doutoranda; duas enfermeiras da Estratégia da Saúde da Família, sendo
uma mestra e uma doutoranda; uma enfermeira atuante na gestão do serviço; e uma enfermeira
docente em enfermagem, com ampla experiência em manejo e pesquisas envolvendo a CIPE.
Foram levantados os principais DE elencados em consultas de enfermagem na UBS nos
meses de janeiro de 2017 a fevereiro de 2018. Durante o levantamento de DE junto aos 30
prontuários das pessoas selecionadas, que estavam em seguimento na Atenção Primária na UBS
em apreço, foi notada a ausência do registro das etapas de diagnóstico e planejamento do PE,
mesmo tendo sido realizada a CE.
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O quadro 1 demonstra os DE selecionados. Destaca-se que, com a confluência das
doenças – HA e DM2 – os DE encontrados foram observados tanto em pessoas com DM2, como
nas com HA e também naquelas que apresentava as doenças simultaneamente – o que é
considerado frequente, por sua cronicidade, suas similaridades e seus fatores de risco.
Quadro 1 - Diagnósticos de enfermagem para pessoas com HA e DM selecionadas e incluídas na
Classificação Internacional para a Prática de Enfermagem (CIPE) 2017.
Abuso de álcool (ou alcoolismo) Hipoglicemia
Abuso de tabaco (ou de fumo) Ingestão de alimentos prejudicada
Adesão ao regime terapêutico eficaz Integridade da pele eficaz
Adesão ao regime terapêutico prejudicado Nível de glicose sanguínea nos limites normais
Apoio familiar positivo Percepção tátil prejudicada
Baixo conhecimento sobre o regime de terapêutico Polifármacos (ou polifarmácia)
Comportamento de busca de saúde Pressão arterial alterada
Comportamento de exercício físico prejudicado Pressão arterial nos limites normais
Condição psicológica prejudicada Problema com a aquisição da medicação
Dispneia Resposta à terapia eficaz
Dor isquêmica Risco de função cardíaca prejudicada
Dor neurogênica Risco de função neurovascular periférica prejudicada
Dor vascular Risco de úlcera em pé ou perna
Edema periférico Sobrepeso
Efeito colateral da medicação Tabagismo pregresso
Falta de apoio familiar Úlcera em pé ou perna
Hiperglicemia Visão prejudicada
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Após a criação do instrumento, a apreciação dos juízes apresentou um IVC de 0,96. O
instrumento preliminarmente construído possuía páginas frente e verso (para coleta de dados) e
outra página, com os diagnósticos e o planejamento de enfermagem, os quais abrangiam os
principais dados a serem coletados e os aspectos a serem avaliados. Os itens compreendiam
dados de caracterização sociodemográfica e clínica, hábitos e estilo de vida, exame físico e
dados laboratoriais.
Os juízes dispuseram de 15 dias para fazer suas considerações sobre o instrumento, de
forma individual e remota. Ao final desse período, enviaram suas avaliações por e-mail. A
equipe de pesquisa reuniu-se, a fim de acatar as sugestões e obter a versão final. Ao final da
Etapa 1, obteve-se a versão final do instrumento (Apêndice 1).
Assim, após as duas etapas, foi formado um instrumento com três laudas: duas delas
destinadas à coleta estruturada de dados e uma destinada aos diagnósticos e ao planejamento de
enfermagem. O instrumento final foi submetido ao pré-teste, pela pesquisadora, para avaliação
de sua praticabilidade, a uma amostra de 30 pessoas com HA e/ou DM2 que frequentavam a
UBS. Nessa ocasião, as pessoas foram informadas de que participariam de uma etapa de uma
pesquisa e, as que quiseram participar, assinaram o TCLE. No que tange à praticabilidade do
instrumento, observou-se que a média de tempo dispensado para sua aplicação foi de
aproximadamente 50 minutos.
Discussão
Discussão
A enfermagem, enquanto ciência utiliza-se de um corpo de conhecimento exclusivo e
afirma-se como uma disciplina, utilizando o pensamento teórico num percurso de grande
evolução conceitual, baseando-se em teorias com valores próprios para a profissão.13 Para tal,
utiliza-se da CE que, além de ser uma importante ferramenta de educação em saúde, propicia
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um vínculo entre o profissional e a pessoa que utiliza o serviço, além de possibilitar o
desenvolvimento da autonomia e da independência profissional.16
Para isso, a utilização de padronização é necessária, com vistas à criação e à validação de
instrumentos com propriedades de medida válidas. Dessa maneira, buscou-se a validação de
conteúdo do instrumento de CE aplicado à pessoa com DM2 e/ou HA. Essa validade foi
alcançada pela concordância entre os juízes, representada pelo valor de IVC = 0,96. O
instrumento foi considerado adequado em relação aquilo que ele se propõe a medir, já que, para
se verificar a validade de novos instrumentos, a literatura sugere e utiliza, frequentemente, o
valor de IVC = 0,80 para o instrumento no geral.14
Durante o processo de validade de conteúdo do instrumento, as diferentes experiências e
conhecimentos profissionais do comitê de especialistas mostraram-se oportunas, pois diferentes
saberes teórico-práticos foram agregados para avaliação das pessoas com DM2 e/ou HA. Outra
contribuição que se destaca em estudos de validação é a possibilidade de validar um
instrumento de acordo com a demanda, atendendo às necessidades de saúde da população e
sendo importante para o cuidado de enfermagem.16
Os aspectos a serem avaliados em uma pessoa com HA e/ou DM2 em seguimento na APS
são diversos e se referem, em boa parte, aos comportamentos relacionados à saúde, como a
medida ambulatorial e residencial da pressão arterial e/ou da glicemia capilar; a adesão e
manutenção de uma dieta saudável, hipossódica e/ou com baixo consumo de carboidratos; a
prática regular de atividade física; o comparecimento a consultas médicas e de enfermagem; a
adesão ao tratamento medicamentoso; o monitoramento dos sintomas relacionados à
descompensação das doenças; a manutenção ou a perda ponderal de peso, quando indicada;
dentre outros.17 Entretanto, é conhecida a necessidade de sintetização de uma coleta de dados
durante uma CE, para melhor direcionamento dos dados a serem coletados e, posteriormente,
avaliados pelo enfermeiro – inclusive por conta da otimização do tempo de trabalho.
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Durante o levantamento de DE em prontuários de pessoas com DM2 e/ou HA em
seguimento na APS, notou-se a ausência do registro das etapas de diagnósticos e planejamento
do PE. Essa percepção corrobora os achados de outro estudo, realizado no mesmo município,
em que a ausência da execução e do registro é atribuída a fatores extrínsecos, como a falta de
recursos humanos, a falta de estrutura física para atendimento e a própria cultura institucional –
na qual o enfermeiro responsável não possui oportunidade de delimitação de quantidade de
pessoas a serem acompanhadas, seja pela própria CE ou pelo acolhimento, por exemplo.18
O desvio de função, a falta de espaço físico, o trabalho multifacetado do enfermeiro e a
burocratização do cuidado são elementos deteriorantes.15 Um estudo discutiu as fragilidades e
os aspectos limitantes para a execução da CE no contexto da Estratégia Saúde da Família de um
distrito sanitário do Sul do país e, apesar do reconhecimento do papel da consulta na práxis dos
enfermeiros, ainda se verificam entraves para sua execução como a falta de incentivo para
realização, a falta de compreensão acerca da importância da CE para a melhor execução do
trabalho do enfermeiro e a falta de apropriação do processo de enfermagem.16,18
A etapa de coleta de dados do instrumento elaborado auxilia no conhecimento mais
aprofundado da situação econômica e social do indivíduo, uma vez que, após seu preenchimento
e sua indexação ao prontuário, possibilita a redução de dados a serem levantados em
acompanhamentos seguintes. Além disso, tal etapa do instrumento se torna um guia dos
aspectos mais relevantes a serem observados pelo enfermeiro, mas não inibe a realização de
anamnese e exame físico guiados conforme a demanda conhecida pelo profissional.
Já a segunda parte do instrumento, compreendida pelo conjunto de Diagnósticos e
Planejamento de Enfermagem, pode ser utilizada independentemente da forma de coleta de
dados elencada, facilitando a execução do processo de enfermagem de forma sistematizada e
conforme a taxonomia da CIPE.9 Além disso, possui espaço aberto para a inclusão de outros
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diagnósticos, além dos pré-selecionados e validados para tal grupo, e também para definição de
resultados e intervenções conforme a realidade compreendida pelo enfermeiro.
Mesmo com a sintetização de diversos aspectos, nesta pesquisa, obteve-se um
instrumento considerado extenso, com tempo médio de aplicação de 50 minutos. Porém, há de
se considerar que boa parte das informações não serão coletadas em todas as consultas, por
exemplo, a caracterização sociodemográfica e clínica, que poderá ser preenchida alterando
alguns dados ou incluindo informações da condição de saúde pré-existentes, o que promoveria
redução desse tempo. Também a CE teria uma periodicidade e o enfermeiro poderia agendar
essa avaliação conforme a disponibilidade do tempo de trabalho e levando em conta a demanda
e a prioridade das pessoas, conforme grau de avaliação.
A questão do tempo dispendido para a execução e o registro do PE sugere ser um fator
limitante para sua execução. Assim, a praticabilidade do instrumento pode ser considerada
moderada em relação à realidade de trabalho dos enfermeiros atuantes na APS – o que pode ser
entendido como uma limitação para sua aplicabilidade. A literatura aponta que a quantidade de
atividades administrativas desenvolvidas pelos enfermeiros parece ser um entrave para
realização de atividades assistenciais e privativas, como a CE.19
Entretanto, a forma de construção do instrumento permitiu a utilização adequada às
necessidades de atendimento do profissional, pois, por meio da CE, o enfermeiro consegue
maior resolutividade dos problemas da população, favorecendo a qualidade do cuidado prestado
por ele, que se torna, muitas vezes, o profissional de referência para as pessoas na APS.16 Vale
destacar a utilização da Teoria do Autocuidado durante essas etapas, sendo que, para utilização
de qualquer teoria de enfermagem, sobretudo as grandes teorias, é necessário compreender a
natureza das pessoas e a sua interação com o meio em que vivem, a fim de ajudar a definir quais
as intervenções que melhoram sua saúde e seu bem-estar.
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A melhoria do cuidado deve ser o principal objetivo e tem-se revelado útil para a
expansão da profissão enquanto ciência.12 Além disso, a integralidade do cuidado, pautado na
assistência sistematizada e com toda fundamentação teórica, é essencial para o enfermeiro.
Conclusão
Conclui-se que o instrumento para CE na APS a pessoas com DM2 e HA tem validade de
conteúdo e praticabilidade. Após todas as etapas de construção e validação, o instrumento
construído se mostrou efetivo para sua utilização na APS, pelo seu conteúdo coerente com a
realidade e a necessidade de saúde, elencando os principais aspectos a serem visualizados pelo
enfermeiro e facilitando o processo de raciocínio clínico no levantamento dos diagnósticos, dos
resultados e das ações de enfermagem.
No pré-teste, o instrumento também se mostrou adequado para auxílio na evolução e na
avaliação do estado de saúde posterior da pessoa com DM2 ou HA, o que sugere sua utilização
para um mais acurado seguimento de saúde da população. O instrumento proposto constitui
uma ferramenta que pode ser reproduzida nos diversos serviços de saúde que prestam
atendimento às pessoas com essas condições de saúde e pode também ajudar na organização do
processo de trabalho dos enfermeiros e na evolução da categoria enquanto ciência.
Destaca-se como limitação desta pesquisa a subjetividade da avaliação do comitê de
juízes, sendo necessárias outras aplicações de validade adicionais, como a validação estatística
dos parâmetros de praticabilidade e reprodutibilidade, para maiores consistência e
representatividade na prática assistencial de enfermagem. Novas pesquisas são recomendadas,
com maior tamanho amostral, com vistas a demonstrar a robustez do instrumento, que pode ser
aplicado a outros contextos de doenças crônicas. Estratégias como essa são de baixo custo,
podendo ser associadas ao cuidado usual e implementadas no atendimento à pessoa com DM ou
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HA. O enfoque no autoconhecimento e no autocuidado pode se constituir em ferramenta eficaz
para a construção do vínculo do usuário com a unidade e para o estímulo à sua autonomia.
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Apêndice 1 – Instrumento final para consulta de enfermagem às pessoas com hipertensão
arterial e/ou diabetes mellitus tipo 2 na atenção primária – versão apresentada aos juízes.
Campinas, 2018.
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Editora Científica Chefe:
Chefe: Cristiane Cardoso de Paula
Editora associada: Graciela Dutra Sehnem
Fomento / Agradecimento
Agradecimento:
gradecimento: Este estudo recebeu auxílio financeiro oriundo do Programa de
Iniciação Científica e Tecnológica da Universidade Estadual de Campinas, por meio de bolsa de
iniciação científica por meio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico (CNPq).
Autor correspondente
Uiara Aline de Oliveira Kaizer
E-mail: uiara_oliveira@[Link]
Endereço: Tessália Vieira de Camargo, 126. Cidade Universitária. Faculdade de Enfermagem
CEP:13083887
Contribuições de Autoria
1 – Maria Clara Moreira
Moreira Matias
concepção ou desenho do estudo/pesquisa, análise e/ou interpretação dos dados, revisão final com participação
crítica e intelectual no manuscrito.
2 – Uiara Aline
Aline de Oliveira Kaizer
Revisão final com participação crítica e intelectual no manuscrito.
3 – Thais Moreira São-
São-João
concepção ou desenho do estudo/pesquisa, análise e/ou interpretação dos dados, revisão final com participação
crítica e intelectual no manuscrito.
Como citar este artigo
Matias MCM, Kaizer UAO, São-João TM. Consulta de enfermagem na Atenção Primária à Saúde: cuidado às
pessoas com doenças crônicas cardiometabólicas. Rev. Enferm. UFSM. 2021 [Acesso em: Anos Mês Dia]; vol.11 e22:
P1-22. DOI: [Link]
Rev. Enferm. UFSM, Santa Maria, v11, p. 1-22, 2021