YURI E A CIDADE QUE ESQUECIA
OS NOMES
Existia uma cidade onde ninguém tinha
sobrenome.
As pessoas possuíam apenas nomes simples.
Ana.
Pedro.
Lucas.
Marina.
Yuri.
Era uma cidade aparentemente normal.
Havia escolas, mercados, hospitais, praças,
prédios, casas antigas e ruas movimentadas.
As pessoas trabalhavam.
Estudavam.
Casavam.
Tinham filhos.
Discutiam.
Faziam as pazes.
Viviam como qualquer outra população.
Mas existia uma diferença.
Toda noite, exatamente às 03:12, a cidade
esquecia um nome.
Não importava quem fosse.
Podia ser uma criança.
Um professor.
Um médico.
Um policial.
Um padeiro.
Um desconhecido.
Até mesmo alguém que todos amavam.
Às 03:12...
O nome desaparecia.
Não da boca.
Não dos documentos.
Não das placas.
Desaparecia da memória.
───
Yuri descobriu isso aos dezessete anos.
Seu melhor amigo se chamava Daniel.
Eles haviam crescido juntos.
Frequentavam a mesma escola.
Jogavam videogame.
Andavam de bicicleta.
Conheciam os segredos um do outro.
Daniel era a pessoa em quem Yuri mais confiava.
Até uma manhã...
Yuri acordou e não conseguiu lembrar quem era
Daniel.
───
Ele abriu o celular.
Havia dezenas de mensagens.
Todas de um contato chamado Daniel.
"Você vai hoje?"
"Mano, não esquece o trabalho."
"Vai ter partida mais tarde."
Yuri olhou para as mensagens.
Sabia que conhecia aquela pessoa.
Mas não conseguia lembrar do rosto.
Nem da voz.
Nem de como haviam se conhecido.
───
Na escola, perguntou aos colegas:
— Vocês conhecem o Daniel?
Todos olharam confusos.
— Quem?
— Daniel.
— Que Daniel?
Yuri começou a ficar nervoso.
Foi até a sala onde costumavam estudar.
Havia uma carteira vazia.
Na parede existiam fotografias de turmas
antigas.
Em uma delas...
Yuri estava ao lado de um espaço vazio.
Como se alguém tivesse sido removido da
imagem.
───
No intervalo, encontrou um professor antigo.
— Professor, o senhor lembra do Daniel?
O professor franziu a testa.
— Daniel?
— Meu amigo.
— Yuri, você não tem nenhum amigo chamado
Daniel.
— Tenho sim!
O professor sorriu.
— Você sempre foi sozinho.
───
Yuri saiu da escola correndo.
Foi até a casa de Daniel.
A casa estava lá.
Mas ninguém morava nela.
A placa com o número ainda estava na porta.
A bicicleta continuava no quintal.
Na garagem havia dois controles de videogame.
Um deles tinha o nome de Yuri escrito.
O outro...
Não tinha nome.
───
Ele entrou.
No quarto encontrou centenas de fotografias.
Em todas aparecia Yuri.
Sempre sozinho.
Sempre olhando para o espaço onde alguém
deveria estar.
No fundo de uma gaveta havia um caderno.
Na primeira página estava escrito:
"Se você ainda lembra de mim, significa que
está começando."
Yuri virou a página.
Havia uma lista.
Nomes.
Centenas.
Alguns riscados.
Outros circulados.
No topo:
PESSOAS ESQUECIDAS.
───
Yuri começou a ler.
Maria.
João.
Samuel.
Helena.
Carlos.
Bianca.
Daniel.
Seu coração acelerou.
Ao lado do nome Daniel havia uma anotação:
"Esquecido em 17 de agosto."
Mas abaixo havia outra frase.
"Ainda lembrado por Yuri."
───
Na última página havia uma instrução:
"Não durma antes das 03:12."
───
Yuri olhou para o relógio.
02:47.
Faltavam vinte e cinco minutos.
Decidiu permanecer acordado.
Sentou-se no quarto.
Esperou.
02:55.
03:00.
03:07.
03:11.
Então...
Todas as luzes da cidade se apagaram.
───
Às 03:12...
Yuri ouviu milhares de vozes.
Não vinham da rua.
Vinham das paredes.
Dos móveis.
Do chão.
Do teto.
Milhares de pessoas dizendo seus próprios
nomes.
Uma vez.
Duas vezes.
Três vezes.
Depois...
Silêncio.
───
Yuri olhou para o caderno.
Um dos nomes havia desaparecido.
Não estava mais escrito.
A página estava completamente branca.
Ele virou.
Outro nome desapareceu.
Depois outro.
Então percebeu.
As palavras estavam sendo apagadas diante de
seus olhos.
───
Ele segurou a caneta.
Escreveu:
DANIEL.
A tinta desapareceu.
Escreveu novamente.
DANIEL.
Desapareceu.
Escreveu mais uma vez.
DANIEL.
Dessa vez...
A página começou a sangrar tinta.
As letras ficaram pretas.
E uma frase apareceu abaixo:
"VOCÊ NÃO DEVERIA CONSEGUIR."
───
A porta do quarto se abriu.
Havia alguém no corredor.
Um homem muito alto.
Vestia uma roupa completamente preta.
Não possuía rosto.
Apenas uma superfície lisa onde deveria haver
olhos, nariz e boca.
Yuri recuou.
O homem apontou para o caderno.
Depois apontou para Yuri.
Então escreveu no chão com o dedo:
"VOCÊ ESTÁ ATRASADO."
───
Yuri perguntou:
— Quem é você?
O homem respondeu.
Não com voz.
A palavra apareceu na parede.
"O ÚLTIMO."
───
— Último o quê?
Outra palavra surgiu.
"NOME."
───
O homem caminhou lentamente até Yuri.
O garoto tentou fugir.
A porta bateu.
O quarto começou a mudar.
As paredes desapareceram.
O chão ficou branco.
O teto sumiu.
Yuri estava em um espaço infinito.
Ao redor dele existiam milhões de portas.
Cada uma possuía um nome.
Algumas estavam abertas.
Outras fechadas.
Muitas haviam sido destruídas.
O homem apontou para uma porta.
Nela estava escrito:
DANIEL.
───
Yuri correu até ela.
Tentou abrir.
Estava trancada.
— Como eu entro?
O homem escreveu:
"LEMBRE."
Yuri fechou os olhos.
Tentou lembrar.
O primeiro dia em que conhecera Daniel.
A escola.
A bicicleta.
O videogame.
As brincadeiras.
As discussões.
A primeira vez que Daniel dormira em sua casa.
O aniversário.
O último abraço.
Tudo voltou.
Por alguns segundos...
Yuri conseguiu lembrar de tudo.
───
A porta abriu.
Do outro lado havia uma praia.
Daniel estava sentado na areia.
Yuri correu até ele.
— Daniel!
O garoto virou.
Sorriu.
— Demorou.
Yuri começou a chorar.
— Eu achei que você tinha desaparecido.
— Eu não desapareci.
— Então onde você estava?
Daniel apontou para o mar.
— Aqui.
───
Yuri olhou.
O oceano estava cheio de pessoas.
Milhares.
Talvez milhões.
Todas caminhavam sobre a água.
Algumas crianças.
Alguns idosos.
Algumas pessoas que pareciam ter vivido há
centenas de anos.
Cada uma carregava uma pequena placa com
seu nome.
───
— Quem são eles?
Daniel respondeu:
— Todo mundo que a cidade esqueceu.
— Por quê?
— Porque a cidade não consegue esquecer
completamente.
— Então o que acontece?
Daniel apontou para o horizonte.
— Ela manda para cá.
───
O céu ficou escuro.
Uma lua enorme surgiu.
Na superfície dela havia milhares de nomes.
Yuri reconheceu alguns.
Pessoas da escola.
Vizinhos.
Professores.
Desconhecidos.
Todos esquecidos.
───
— Então por que eu ainda lembro?
Daniel olhou para ele.
— Porque alguém precisa lembrar.
— Quem?
Daniel ficou em silêncio.
— Você.
───
Yuri sentiu um arrepio.
— Eu?
— Você é diferente.
— Por quê?
— Porque seu nome não pode ser apagado.
───
Yuri olhou para as mãos.
Havia pequenas letras aparecendo na pele.
Seu nome.
YURI.
As letras brilhavam.
───
Daniel explicou que, muito tempo atrás, a cidade
havia feito um pacto.
Não com uma criatura.
Não com um deus.
Mas com uma ideia.
O esquecimento.
A cidade precisava esquecer algumas coisas
para continuar existindo.
Cada lembrança dolorosa.
Cada morte.
Cada perda.
Cada guerra.
Cada erro.
Era mais fácil apagar.
E, durante séculos, a população alimentou
aquela força com nomes.
Primeiro nomes de pessoas mortas.
Depois pessoas desaparecidas.
Depois pessoas que simplesmente não eram
mais necessárias.
Até que o sistema ficou grande demais.
───
— E agora?
— Agora a cidade está ficando sem nomes.
— O que acontece quando acabar?
Daniel respondeu:
— Ela vai começar a esquecer os vivos.
───
Yuri ficou em silêncio.
— Quanto tempo?
Daniel olhou para o céu.
— Pouco.
───
Naquela mesma noite...
Na cidade...
As pessoas começaram a esquecer.
Primeiro nomes de ruas.
Depois nomes de lojas.
Depois profissões.
Depois palavras comuns.
Uma mulher tentou dizer "janela".
Não conseguiu.
Um homem tentou dizer "mãe".
A palavra não existia mais.
Uma criança tentou chamar o pai.
Abriu a boca.
Nenhum som saiu.
───
Às 03:12...
Mais nomes desapareceram.
Centenas.
Depois milhares.
───
Yuri percebeu que precisava voltar.
— Como eu faço?
Daniel apontou para uma porta que surgira na
areia.
Nela estava escrito:
03:12.
— Entre.
— E você?
Daniel sorriu.
— Eu já estou onde preciso estar.
Yuri segurou o braço dele.
— Não vou deixar você aqui.
Daniel respondeu:
— Você não precisa me levar.
Você só precisa lembrar.
───
Yuri entrou.
───
Acordou em sua cama.
Era manhã.
O sol entrava pela janela.
A cidade parecia normal.
Mas algo estava errado.
Não havia nomes.
As pessoas se reconheciam.
Mas não sabiam como se chamar.
As placas estavam vazias.
Os documentos não possuíam letras.
Os celulares mostravam apenas números.
Até os livros haviam perdido os nomes dos
personagens.
───
Yuri correu para a praça.
No centro havia uma multidão.
Todos estavam olhando para uma enorme torre.
No topo dela havia um relógio.
Os ponteiros marcavam:
03:11.
Faltava um minuto.
───
Yuri entendeu.
Se o relógio chegasse a 03:12...
O resto dos nomes desapareceria.
Ele correu até a torre.
Subiu as escadas.
Primeiro andar.
Segundo.
Terceiro.
Quarto.
Quinto.
Quanto mais subia...
Mais vozes ouvia.
Todas chamavam por nomes.
Alguns conhecidos.
Outros completamente estranhos.
───
No último andar encontrou uma sala circular.
No centro havia uma máquina.
Parecia um enorme coração.
Centenas de tubos saíam dela.
Cada tubo possuía um nome.
E todos levavam para o relógio.
───
Yuri encontrou um painel.
Havia uma única pergunta:
"O QUE VOCÊ ESTÁ DISPOSTO A LEMBRAR?"
Ele respondeu:
— Tudo.
───
A máquina começou a funcionar.
O relógio marcou:
03:11:30.
Yuri colocou as mãos no painel.
Pensou em Daniel.
Depois em todos os nomes que havia lido.
Começou a falar.
— Maria.
Um tubo acendeu.
— João.
Outro.
— Samuel.
Outro.
— Helena.
Outro.
— Carlos.
Outro.
— Bianca.
Outro.
───
Quanto mais nomes dizia...
Mais luz surgia na máquina.
Ele continuou.
Nomes de desconhecidos.
Nomes de pessoas esquecidas.
Nomes de crianças.
Nomes de idosos.
Nomes de pessoas que nunca conhecera.
Mas que alguém, em algum lugar, um dia havia
amado.
───
O relógio chegou a:
03:11:59.
Yuri respirou fundo.
Restava um segundo.
Uma última palavra.
Ele não sabia qual.
Então ouviu uma voz atrás dele.
— Meu nome é Daniel.
Yuri se virou.
O amigo estava ali.
Sorrindo.
— E o seu?
Yuri respondeu:
— Yuri.
───
O relógio marcou 03:12.
Nada aconteceu.
───
Depois...
Todos os relógios da cidade voltaram a
funcionar.
As placas recuperaram as palavras.
Os livros recuperaram os nomes.
As pessoas começaram a lembrar.
Primeiro de pequenas coisas.
Depois de pessoas.
Depois de histórias.
Depois de tudo.
───
Yuri saiu da torre.
A cidade estava diferente.
Havia gente chorando nas ruas.
Pessoas abraçando desconhecidos.
Famílias procurando fotografias antigas.
Pais lembrando filhos.
Filhos lembrando pais.
Amigos lembrando amigos.
E, no meio da praça...
Daniel estava esperando.
───
Yuri correu até ele.
Os dois se abraçaram.
— Você voltou.
Daniel respondeu:
— Você lembrou.
───
Durante os meses seguintes, a cidade começou
a reconstruir sua história.
Criaram monumentos.
Museus.
Livros.
Fotografias.
Todos os nomes foram registrados.
Para que ninguém pudesse ser apagado
novamente.
Mas havia uma coisa que Yuri nunca contou.
Todas as noites, quando dormia...
Sonhava com aquela praia.
E com milhões de pessoas caminhando sobre o
mar.
Todas segurando pequenas placas.
Todas sorrindo.
───
Certa madrugada...
Yuri acordou às 03:12.
O quarto estava escuro.
Na parede havia uma palavra escrita.
"OBRIGADO."
Ele sorriu.
Mas então percebeu outra coisa.
Havia uma segunda palavra.
"AINDA."
Yuri acendeu a luz.
A parede estava vazia.
───
Na manhã seguinte, encontrou uma pequena
placa de madeira sobre sua mesa.
Não havia nome nela.
Apenas uma frase:
"Enquanto alguém lembrar, ninguém desaparece
completamente."
Yuri guardou a placa.
Anos depois, quando ficou velho, começou a
escrever um livro.
Não sobre a cidade.
Não sobre a torre.
Não sobre o esquecimento.
Escreveu sobre pessoas.
Cada capítulo carregava um nome.
Cada nome carregava uma história.
Cada história carregava uma lembrança.
E, quando alguém perguntava por que ele fazia
aquilo...
Yuri respondia:
— Porque esquecer alguém é fácil.
Difícil é lembrar.
───
No último dia de sua vida...
Yuri sentou-se diante da janela.
A cidade estava tranquila.
As ruas estavam cheias.
Crianças brincavam.
Pessoas conversavam.
A torre marcava 18:42.
Nada de estranho.
Nada sobrenatural.
Apenas uma cidade vivendo.
Daniel estava sentado ao lado dele.
Agora também velho.
Os dois ficaram em silêncio durante alguns
minutos.
Então Daniel perguntou:
— Você acha que funcionou?
Yuri sorriu.
— O quê?
— A cidade.
Yuri olhou para as ruas.
Centenas de pessoas caminhavam.
Todas tinham nomes.
Todos tinham histórias.
Todos seriam lembrados por alguém.
— Funcionou.
───
Às 03:12 daquela madrugada...
A cidade inteira dormia.
Nenhum nome desapareceu.
Nenhuma memória foi apagada.
Nenhuma luz estranha surgiu.
Nenhuma porta apareceu.
Pela primeira vez em centenas de anos...
O esquecimento ficou em silêncio.
Mas, muito longe dali...
Em uma praia que não existia em nenhum
mapa...
Milhões de pequenas placas começaram a
brilhar.
Uma por uma.
Até que uma última placa apareceu.
Era simples.
Feita de madeira.
Nela estava escrito:
YURI.
Ao lado dela surgiu outra.
DANIEL.
Depois outra.
E outra.
E outra.
Até que toda a praia estivesse iluminada.
Porque algumas pessoas passam pela nossa
vida.
Algumas permanecem.
Algumas desaparecem.
Algumas são esquecidas.
Mas existe uma coisa que o tempo nunca
consegue apagar completamente:
a marca que alguém deixou quando foi
lembrado de verdade.
E talvez seja por isso que, em algumas noites,
quando a cidade está silenciosa e os relógios
marcam exatamente 03:12, certas pessoas
acordam sem saber por quê.
Sentam-se na cama.
Olham para o escuro.
E, por um breve instante...
Lembram de alguém que nunca conheceram.
Um rosto que não conseguem identificar.
Uma voz que não conseguem reconhecer.
Um nome que não sabem de onde veio.
Então sentem uma vontade inexplicável de sorrir.
E dizem baixinho:
— Eu lembro.
Mesmo sem saber exatamente do quê.
Mesmo sem saber de quem.
Porque, em algum lugar além do tempo, existe
uma cidade que nunca deixou ninguém
desaparecer completamente.
E, enquanto houver alguém capaz de pronunciar
um nome...
Aquela pessoa continuará existindo.
Nem que seja por mais um segundo.
Nem que seja em uma lembrança.
Nem que seja no coração de alguém que nunca
soube por que começou a lembrar.