O OBSERVATÓRIO QUE OLHAVA
PARA BAIXO
Durante quase um século, existiu uma
construção no topo de uma montanha que não
aparecia em nenhum mapa oficial.
Era uma torre branca.
Muito alta.
Muito estreita.
Com uma cúpula de metal no topo.
Os moradores das cidades próximas chamavam
o lugar simplesmente de observatório.
Mas ninguém sabia quem o construíra.
Não havia estrada até lá.
Nenhuma linha de energia.
Nenhum sistema de abastecimento.
Mesmo assim...
Todas as noites, exatamente às 00:47, uma luz
se acendia no alto da torre.
Durante alguns minutos, permanecia imóvel.
Depois desaparecia.
Os moradores diziam que era um telescópio.
Até que um professor aposentado percebeu
uma coisa.
A luz nunca apontava para o céu.
Ela apontava para baixo.
───
Otávio era astrônomo.
Passara boa parte da vida estudando estrelas,
planetas e fenômenos distantes.
Não acreditava em lendas.
Quando ouviu falar do observatório, achou que
poderia ser uma antiga estação científica
abandonada.
Decidiu subir a montanha.
Levou equipamentos de medição, uma câmera,
um rádio e um pequeno telescópio.
A caminhada levou quase seis horas.
Quando finalmente chegou ao topo...
Encontrou a torre.
A porta estava aberta.
───
O interior era surpreendentemente bem
conservado.
Não havia poeira.
Não havia ferrugem.
Os corredores eram iluminados por pequenas
lâmpadas amarelas.
Nas paredes existiam fotografias antigas.
Algumas mostravam a própria montanha.
Outras mostravam cidades.
Algumas mostravam lugares que Otávio
reconhecia.
Mas havia algo errado.
As fotografias eram datadas de anos diferentes.
E todas mostravam exatamente a mesma torre.
Sem envelhecer.
Sem mudar.
───
Otávio chegou ao último andar.
Encontrou uma enorme sala circular.
No centro havia um telescópio gigantesco.
Era maior do que qualquer equipamento
astronômico que já tinha visto.
O tubo metálico apontava diretamente para o
chão.
Otávio franziu a testa.
Aquilo não fazia sentido.
Aproximou-se da lente.
Olhou.
───
Não viu pedras.
Nem terra.
Nem raízes.
Viu uma cidade.
Uma cidade gigantesca.
Cheia de prédios.
Rodovias.
Luzes.
Milhões de pessoas.
Parecia estar muito abaixo da montanha.
Mas aquela cidade não existia.
Otávio aumentou a ampliação.
Conseguiu ler placas.
Reconheceu nomes de ruas da própria cidade
onde morava.
Mas havia algo diferente.
Os prédios eram muito mais altos.
Os carros não possuíam rodas.
E as pessoas caminhavam usando roupas que
pareciam futuristas.
No canto do equipamento apareceu uma data.
17 DE MARÇO DE 2184.
───
Otávio afastou o rosto.
Seu coração acelerou.
Tentou encontrar alguma explicação.
Talvez fosse uma projeção.
Uma simulação.
Algum tipo de equipamento experimental.
Então ouviu uma voz atrás dele.
— Você não deveria ter olhado.
Otávio virou-se.
Havia uma mulher na porta.
Cabelos grisalhos.
Uniforme escuro.
Um crachá sem nome.
Apenas uma letra:
O.
— Quem é você?
Ela respondeu:
— A pessoa que mantém o observatório
apontado para o lugar certo.
— Isso é o futuro?
— Não.
— Então o que é?
Ela olhou para o telescópio.
— É o que está abaixo.
───
Otávio não entendeu.
— Abaixo de nós está a terra.
— Hoje.
A mulher caminhou até o equipamento.
Girou lentamente uma manivela.
A imagem mudou.
Agora mostrava outra cidade.
Mais antiga.
Prédios baixos.
Carruagens.
Pessoas usando roupas do século XIX.
Depois outra.
Uma vila.
Depois outra.
Uma floresta.
Depois...
Nada.
Apenas uma imensa escuridão.
───
— O telescópio não olha para o futuro — disse a
mulher.
— Ele olha para o passado.
Otávio ficou em silêncio.
— Mas por que tudo parece estar debaixo da
montanha?
— Porque está.
───
Ela explicou que a montanha não era uma
montanha comum.
Era uma espécie de arquivo natural.
Tudo que acontecia na superfície deixava uma
marca.
Uma espécie de impressão.
Como uma fotografia gravada na própria
realidade.
Com o passar dos séculos, essas camadas se
acumulavam.
Uma cidade construída sobre outra.
Uma floresta sobre uma cidade.
Uma civilização sobre outra.
O observatório conseguia enxergar essas
camadas.
Não através da terra.
Mas através do tempo.
───
Otávio perguntou:
— Então posso ver qualquer época?
A mulher assentiu.
— Se souber onde olhar.
Ele sorriu.
— Posso ver dinossauros?
— Sim.
— A construção das pirâmides?
— Sim.
— O nascimento das primeiras cidades?
— Sim.
Ela fez uma pausa.
— Mas não recomendo.
— Por quê?
— Porque algumas coisas olham de volta.
───
Otávio riu.
Achou que fosse uma piada.
Até olhar novamente.
A imagem mostrava uma floresta extremamente
antiga.
Árvores enormes.
Animais desconhecidos.
O mundo parecia completamente diferente.
Então...
Uma criatura parou.
Levantou a cabeça.
Olhou diretamente para a lente.
Otávio congelou.
A criatura não poderia saber que estava sendo
observada.
Não naquela época.
Mas ela sabia.
───
A mulher desligou o equipamento.
— É por isso que não observamos qualquer
período.
— O que era aquilo?
— Não sabemos.
— E por que continua aqui?
— Porque foi aqui que começou.
───
Otávio perguntou:
— O quê?
A mulher apontou para o chão.
— A observação.
───
Ela abriu uma porta escondida atrás de uma
estante.
Havia uma escada descendo.
— Venha.
Desceram.
A escada parecia não terminar.
Andaram por vários minutos.
Depois por horas.
A temperatura caiu.
As paredes ficaram úmidas.
Até que chegaram a uma enorme câmara
subterrânea.
No centro havia uma esfera de pedra.
Perfeitamente lisa.
Coberta por pequenas marcas.
Pareciam estrelas.
───
— O que é isso?
A mulher respondeu:
— O primeiro observatório.
Otávio se aproximou.
— Mas ele não tem telescópio.
— Não precisa.
Ela colocou a mão sobre a esfera.
As marcas começaram a brilhar.
Então uma imagem surgiu no ar.
Era a mesma criatura que Otávio havia visto.
Só que agora estava muito mais próxima.
A criatura possuía quatro olhos.
Nenhum rosto reconhecível.
E parecia estar olhando diretamente para eles.
───
Otávio deu um passo para trás.
— Isso estava aqui antes da humanidade?
— Sim.
— Então quem construiu o observatório?
A mulher respondeu:
— Eles.
───
O chão tremeu.
As luzes apagaram.
A esfera começou a emitir um som baixo.
Parecia uma respiração.
Depois uma segunda.
Depois uma terceira.
Otávio olhou para a mulher.
— Quantos existem?
Ela respondeu:
— Não sabemos.
— Eles estão vivos?
— Essa é a pergunta errada.
— Qual é a certa?
Ela olhou para a esfera.
— Eles estão acordados?
───
A resposta veio imediatamente.
A esfera rachou.
Uma pequena abertura apareceu.
De dentro surgiu uma luz branca.
A mesma luz que aparecia no topo da torre
todas as noites.
Otávio percebeu.
A luz não era um sinal.
Era um olho.
O observatório não estava olhando para baixo.
Estava sendo observado de baixo.
───
A mulher puxou Otávio pelo braço.
— Precisamos subir.
— Por quê?
— Porque se eles perceberem que estamos
olhando...
Param de dormir.
───
Subiram a escada.
Atrás deles, o som da esfera aumentava.
Toc.
Toc.
Toc.
Como um coração.
Quando chegaram à sala principal, o telescópio
começou a se mover sozinho.
Girou lentamente.
Apontou para uma janela.
Depois para o céu.
Depois para o chão.
Depois diretamente para Otávio.
A lente abriu.
Dentro dela havia um olho.
───
Otávio ficou imóvel.
A mulher fechou os olhos.
— Não olhe.
Tarde demais.
Ele viu.
Não através do telescópio.
Dentro da própria mente.
Viu cidades sendo construídas.
Civilizações surgindo.
Guerras.
Extinções.
Continentes mudando.
Oceanos desaparecendo.
Estrelas nascendo.
Estrelas morrendo.
E, em todas as épocas...
A mesma criatura.
Observando.
Esperando.
───
Então viu algo diferente.
Uma cidade muito distante.
Não conhecia aquele lugar.
Mas reconheceu a torre.
O observatório estava lá.
Só que não no topo de uma montanha.
Estava no meio de uma cidade gigantesca.
Pessoas passavam por ele.
Crianças brincavam.
E no alto...
A luz permanecia acesa.
───
A imagem mudou.
Agora mostrava o próprio observatório.
Exatamente onde estava.
Mas a câmera estava do lado de fora.
Filmando a torre.
Otávio viu a si mesmo entrando pela porta.
Depois viu a mulher.
Depois viu os dois subindo.
Tudo acontecia exatamente como naquela noite.
Mas então...
A câmera se afastou.
Subiu.
Subiu.
Até mostrar a montanha inteira.
Depois o continente.
Depois o planeta.
Depois o sistema solar.
Depois...
Uma coisa gigantesca apareceu ao fundo.
Não era uma nave.
Não era uma estrela.
Era algo muito maior.
Algo que parecia estar segurando o universo.
───
Otávio gritou.
A visão terminou.
Ele caiu de joelhos.
A mulher o ajudou a levantar.
— O que você viu?
Otávio demorou para responder.
— Nós não estamos observando o universo.
Ela permaneceu em silêncio.
— O universo está observando a gente.
───
A mulher assentiu.
— Finalmente você entendeu.
───
Ela caminhou até o painel.
Desligou todos os equipamentos.
Uma luz vermelha acendeu.
OBSERVAÇÃO ENCERRADA.
O relógio marcou 00:47.
A torre inteira ficou em silêncio.
───
— O que acontece agora?
A mulher respondeu:
— Nada.
— Nada?
— É isso que esperamos.
— E se eles acordarem?
Ela olhou para a janela.
— Então o observatório deixa de ser necessário.
───
Otávio deixou a montanha ao amanhecer.
Nunca contou exatamente o que havia visto.
Quando voltou à cidade, descobriu que ninguém
acreditava que existia uma torre no topo
daquela montanha.
Pesquisou mapas.
Nada.
Pesquisou registros históricos.
Nada.
Pesquisou fotografias.
Nada.
Era como se o observatório nunca tivesse
existido.
───
Durante meses, tentou seguir a vida
normalmente.
Até uma noite.
Estava observando as estrelas no quintal
quando percebeu uma coisa.
Havia uma estrela nova.
Muito brilhante.
Não constava em nenhum catálogo.
Otávio pegou seu telescópio.
Aproximou o rosto.
A estrela parecia pulsar.
Uma vez.
Duas.
Três.
Então...
Escureceu.
───
No lugar dela surgiu um ponto vermelho.
Depois outro.
Depois outro.
Milhares.
Como olhos.
Otávio afastou-se imediatamente.
Pegou o celular.
Tentou fotografar.
A câmera não registrou nada.
Mas, quando olhou novamente para o céu...
Todos os pontos haviam desaparecido.
Restava apenas uma pequena luz.
Muito distante.
Piscando em intervalos regulares.
───
Uma semana depois, recebeu uma carta.
Não havia endereço de remetente.
Dentro havia apenas uma fotografia.
Era antiga.
Muito antiga.
Mostrava o observatório.
Na imagem, havia uma pessoa em frente à porta.
Otávio reconheceu imediatamente.
Era ele.
Mas estava usando roupas diferentes.
Mais antigas.
A fotografia possuía uma data.
1842.
No verso havia uma frase:
"Você já esteve aqui antes."
───
Otávio passou a noite inteira olhando para
aquela fotografia.
Na manhã seguinte...
Tentou queimá-la.
O papel não pegou fogo.
Tentou rasgá-la.
O papel não rasgou.
Tentou molhá-la.
A tinta não escorreu.
Então percebeu que havia uma segunda imagem
escondida no verso.
Colocou a fotografia contra a luz.
Apareceu uma torre.
Mas não era o observatório.
Era algo muito maior.
Uma estrutura circular construída ao redor da
Terra.
Como uma espécie de olho.
───
Na parte inferior da imagem havia uma inscrição:
"PRÓXIMA OBSERVAÇÃO: 00:47."
───
Naquela noite, Otávio decidiu não olhar para o
céu.
Fechou todas as cortinas.
Desligou todas as luzes.
Sentou-se no chão da sala.
Esperou.
00:40.
00:45.
00:46.
Então...
00:47.
Uma luz atravessou a cortina.
Mesmo com todas as janelas fechadas.
A casa ficou completamente iluminada.
Otávio ouviu uma voz.
Não vinha de fora.
Vinha de dentro.
Uma voz que parecia pertencer a milhares de
pessoas ao mesmo tempo.
— Observação iniciada.
Ele fechou os olhos.
A voz continuou.
— Sujeito identificado.
Seu coração disparou.
— Memórias recuperadas.
Otávio tentou se levantar.
Não conseguiu.
— Observador número 1.
Silêncio.
Depois:
— Bem-vindo de volta.
───
As luzes desapareceram.
A casa voltou ao normal.
Otávio abriu os olhos.
Na parede à sua frente havia uma pequena
marca.
Parecia uma porta.
Ele tocou.
A parede ficou transparente.
Do outro lado havia uma escada.
A mesma escada do observatório.
Descendo.
Descendo.
Descendo.
Até a escuridão.
Otávio sabia que não deveria entrar.
Mas também sabia que já tinha entrado antes.
Talvez muitas vezes.
Talvez em outras vidas.
Talvez em outras épocas.
Porque algumas portas não levam a lugares.
Elas levam a lembranças que ainda não
aconteceram.
───
Ele respirou fundo.
Abriu a porta.
Desceu o primeiro degrau.
Depois o segundo.
No terceiro...
Ouviu novamente aquele som.
Toc.
Toc.
Toc.
O coração da esfera.
───
E, muito abaixo da Terra...
Alguma coisa abriu os olhos.
Não um.
Nem dois.
Milhares.
Talvez milhões.
O mundo inteiro pareceu prender a respiração.
Então uma última mensagem surgiu na parede.
Não estava escrita em nenhuma língua
conhecida.
Mesmo assim...
Otávio conseguiu entender.
"O céu nunca foi o lugar que vocês deveriam
observar."
A frase desapareceu.
Outra surgiu.
"Olhem para baixo."
E, pela primeira vez desde que a humanidade
começou a olhar para as estrelas...
Otávio percebeu que talvez o maior mistério do
universo não estivesse distante.
Talvez estivesse exatamente sob seus pés.
Esperando.
Dormindo.
Observando.
E contando os segundos até que alguém tivesse
coragem suficiente para olhar de volta.