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Anabel

O documento é um relato íntimo e reflexivo de uma mulher de 72 anos que explora suas memórias, traumas e a complexidade do amor e das decepções. A autora expressa sua luta interna entre o desejo de esquecer e a necessidade de registrar suas experiências, buscando significado e conexão em suas relações passadas. A escrita é apresentada como um rito de expulsão, uma tentativa de libertar-se de dores e arrependimentos que a acompanham ao longo da vida.
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Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Anabel

O documento é um relato íntimo e reflexivo de uma mulher de 72 anos que explora suas memórias, traumas e a complexidade do amor e das decepções. A autora expressa sua luta interna entre o desejo de esquecer e a necessidade de registrar suas experiências, buscando significado e conexão em suas relações passadas. A escrita é apresentada como um rito de expulsão, uma tentativa de libertar-se de dores e arrependimentos que a acompanham ao longo da vida.
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(...

)
Prólogo
Sei que esse trauma é cíclico, e também sei que aquilo que não é
expurgado tende a se repetir. Compreendo que o não dito, o não
fechado, o não falado se infiltra nos afetos futuros... e escrever é
minha tentativa desesperada de impedir que a dor se torne um
fantasma permanente. Isso não foi minha história, foi um pedaço
arrancado da minha memória que será compartilhado para que eu
finalmente me livre do meu maior arrependimento. Isso não é uma
simples narrativa crônica; é mais como um rito de expulsão. Não
busco respostas, eu busco vazão.

Há em mim a tensão constante entre o desejo de esquecer e a


necessidade de registrar... entre o impulso de seguir em frente e o
vício da lembrança. Guardar tudo o que sinto seria permitir que o
meu passado permanecesse contaminando o meu presente. E, sendo
sincera, acho que já me contaminou por tempo demais.

Felizmente ou não, eu sempre vi através da escrita uma forma


de interromper esse ciclo da repetição, de evitar que esse tormento
continue existindo por meio dos outros, de maneira indireta.

Oscilo demais entre o desejo de esquecer e a necessidade de


ser lembrada. Por isso, aquilo que um dia chamei de amor já não
sobrevive em forma pura... se transfigura em ressentimento; e bota
ressentimento nisso. Eu desejo de verdade que essa raiva seja
apenas o verniz que cobre a carência de permanecer viva na
memória alheia. Não quero retorno. Quero significado. Quero
acreditar que o que o meu viver marcou a vida das pessoas, assim
como muitos me marcaram.

Eu não quero sentir mais esse peso do abandono... eu não


quero sentir que todas as coisas que abdiquei foram à toa, porque
não foi nada fácil me reerguer sozinha sob tanto julgamento. Não
posso mentir que dói ter desejado tanto alguém que só esteve
comigo para ter uma nova experiência, para sentir como é viver o
amor que uma mulher pode proporcionar a outra, sem que esta seja a
que te deu a vida. Dói confessar essas inseguranças depois de tanto
tempo que as guardando dentro do peito.

Não cheguei a conversar nem com minhas filhas sobre isso,


acho que se soubessem me perguntariam o porquê desse passado
ainda doer tanto... e, infelizmente, a única coisa que poderia dizer é
que ainda dói porque eu nunca tive tanto tempo para pensar em
como tenho vivido, como estou tendo ultimamente. Eu sempre soube
que envelhecer era isso, mas não me imaginava tão sozinha e imersa
em mim como estou nesses últimos dias. A perda realmente te
destrói e me fez confessar que além de velha, venho me sentindo
cada vez mais perdida e solitária no mundo.
A vida não acaba depois dos vinte ou dos quarenta, muito
menos se encerra após a passagem dos setenta anos. Eu sempre
acreditei que a vida era um fluxo de contante mudança e que só
acabava quando você, o redentor de sua própria vitalidade, morre. O
destino, no entanto, é metódico e te cobre com a ilusão, já que para
mim lidar com a morte de alguém que me ensinou sobre amor,
paciência e essencialmente sobre a vivência é o mesmo que perder
minha vida.

Espero que abrir os meus sentimentos não doa tanto quanto


guarda-los e espero, de verdade e com muito receio, que minha
sinceridade seja respeitada ao ser exposta nesse espaço de diálogo e
velhice onde todos nos encontramos.

Escrito por: Marília de Aquino França Góes


Ocupação: Docente
Idade: 72 anos
Nascimento: 1954, Vale da Garoa.

{
Ela estava no meio daquele tanto de gente e não se destacava entre
os demais. Exalava o cheiro de uma ninguém, que tenta em vão
disfarçar o pouco que resta do alguém que tanto desejava ser. Sobre
a cabeça, fios negros e pesados caíam num rabo de cavalo malfeito e
torto, deixando as entradas ainda mais aparentes.

Ela? Pouco se importava com os olhares alheios, sempre cheios


de maldade ao se permitirem encarar suas características. Talvez
fosse justamente isso que chamasse minha atenção ou pelo menos
deve ter sido isso.

Aquela garota que sorria o tempo todo, sem forçar o riso nem
esconder aqueles dentes cor de farinha, presos a uma gengiva rosa-
vivo como bala de iogurte mexeu comigo. Eu a admirei antes mesmo
de entender que também a amava. Apenas eu podia ver beleza nela,
caso me atentasse aos detalhes de sua figura desleixada e
estranhamente encantadora.

E não foi em um dia frio nem durante um fim de tarde. Na


verdade, o dia que a conheci estava bem quente e foi em uma
manhã. O foco e toda a atenção daquela garota estava voltada para
os copos americanos alinhados sobre o balcão do refeitório, onde o pó
escuro de café fresco começava a ser misturado ao leite fervente do
grande bule de alumínio. Do corredor se ouvia os suspiros satisfeitos
dos colegas, seguidos por uma chuva de elogios ao tal pingado
perfeito que a turma do último ano preparava no seu café da manhã
coletivo, organizado e exclusivo.

Eu não fazia ideia de quem eram aquelas pessoas e também


não a conhecia, mas descobri que tínhamos um bom número de
conhecidos em comum.

Por exemplo, uma de suas colegas estudava comigo em algum


curso que fazia e minha amiga a conhecia, já que as duas treinavam
vôlei juntas no colégio. Aproveitei aquela proximidade inventada que
mal existia e olhei para Beatriz, que de imediato entendeu o recado,
chamando o grupo para pedir humilde e gentilmente um copo do tal
café para dividirmos.

Quando ela me entregou o copo americano, nossos dedos se


roçaram; um toque lento que fez minha pele se arrepiar. Pela
primeira vez que nos encaramos, eu procurei em seus olhos um
vislumbre de quem era aquela garota na minha frente, mas a única
coisa que vi foi meu próprio reflexo. Não me conformei com aquilo,
porque ela parecia ser mais do que aparentava. Ao redor, o som dos
seus amigos zombando do seu jeito distante, me trouxe de volta a
realidade. Eles riam de como estava "quieta e educada demais" perto
de mim, sem ter a menor ideia do que aquela quietude escondia.
Acompanhei a risada da minha amiga apenas para disfarçar o calor
repentino que subiu pelo meu pescoço.

Saímos do refeitório, mas o magnetismo daquele instante se


recusava a me deixar. Durante toda a aula, meu corpo ainda reagia à
lembrança do toque dela. Consumida pelos meus pensamentos,
arranquei uma folha do meu caderno de rascunhos. Minha caligrafia
saiu quase trêmula enquanto escrevia um pequeno bilhete, decidida a
entregá-la já que não sabia qual era seu armário.

Confesso que não foi por interesse genuíno nem para descobrir
se o seu jeito de ficar sem jeito era apenas na frente dos amigos. Na
verdade, foi por curiosidade... no feminino, nas relações entre
mulheres e nas possibilidades de explorar a dúvida que aquele
pequeno encontro provocou.

Na época eu acreditava não ser, mas hoje eu admito que era


sim por curiosidade em outras garotas e também no ato de guiar uma
possível relação que viesse a existir entre nós duas. Tenho certeza de
que não foi um flerte de desejo. Aquilo foi um enaltecimento do meu
ego. Escrevi aquele bilhete porque, pela primeira vez, senti que
poderia ter alguém nas minhas mãos e não me orgulho de dizer isso,
só que agora pouco me importa o pretérito que um dia muito desejei
ser eterno.
Então, antes mesmo de sair da sala, esbarrei com ela
derrubando seu material e pus o bilhete na sua agenda de bolso. Nele
estava meu endereço e o número do telefone fixo da minha casa
além da seguinte mensagem: o café é realmente muito bom.
Adoraria ter a chance de provar mais um pouco, a sós com você. Por
esse motivo, vou dizer que as minhas decepções sobre as temidas
paixões começaram quando acreditei estar apaixonada por ela e a
idealização disso.

Eu estava curiosa, mas sei que foi para alimentar o meu ego.
Queria me sentir desejada. Talvez tenha sido mais do que vaidade, é
bem capaz de estar no mesmo patamar da necessidade de afirmar
que aquilo que vivi com ela não foi fruto de amor. Acho de verdade
que posso até ter a amado, mas sou incapaz de dizer que o que
vivemos foi amor.

Eu o conheci... e não é porque as sensações que ele provoca se


assemelham com o ardor do álcool na ferida aberta. É que o amor é
muito mais do que o ato, ele é processo contínuo. Parece mais como
a pomada que se passa sobre o machucado, a atadura que impede o
sangue de vazar bem como o dedo que se enfia no buraco da bala de
veneno que perfura a carne da pessoa que amamos.

Também é a agonia na busca incansável da bala, pois é preciso


encontrá-la antes que o veneno se espalhe pelo corpo da pessoa
amada. Acredito com toda sinceridade que o amor é nobre, mas
simples. Já o amar é a sutil ardência da pomada ao encostar na
ferida, a pressão da atadura que sufoca tanto quanto estanca; amar é
o dedo dentro do buraco da bala, tateando no desespero da carne
rasgada, sentindo o pulso acelerado daquela pessoa enquanto somos
bombardeados pelo receio do fracasso antes mesmo que ele
aconteça. Para impedir essa insegurança, o corpo de quem amamos
passa a ser carne da nossa carne; deixando o adjetivo e para assumir
o substantivo próprio: Amante.

Eu sempre preferi acreditar que o amor, o amar e as decepções,


se movem, se cessam e se estabelecem pelas mesmas virtudes.
Rumam à sua maneira, uma sequência única em cada encontro,
desencontro, reencontros.

Para o amor, acima de tudo, é preciso enxergar quem se ama...


não como alguém que ocupe um espaço qualquer na sua vida, mas
como alguém que é complemento singular, sim, alguém que o olhar
não é capaz de simplesmente atravessar. Ser presente no amor
também é essencial na vida dessa pessoa a quem direcionamos o eu
amo você. Pois quando se ama não importa a distância, sempre há
frações de segundos para lembrar do outro e saber que a vida dele é
um pouco mais bonita, pelo fato de se estar, ou melhor, de se fazer
presente nela. Algo que poucos sabem, mas que também é essencial
ao amor, é o singelo, porém incompreensível, fato de se sentir amado
por alguém a quem muito estimamos.

No amor, existe um padrão parecido com esse, pois quando nos


sentimos amado pelo outro, somos tomados pela certeza de que algo
além do sexo embriaga os sentidos da forma mais absurda possível.
Só que, quando se fala sobre o amar como ação (esta que difere o
ato), essa ordem se embaralha. Virtudes acabam se multiplicando e
só tendem a ficar mais e mais confusas; acredito que o amar seja um
fenômeno metamorfo, visto que ele acompanha a emocionalidade
humana em toda sua bruta, contida e incompleta essência.

Enquanto as decepções, tornam-se a subclasse inevitável da


vida, surgindo na forma mais ordinária e previsível que conseguem:
em pessoas. Não de qualquer uma, jamais seria de qualquer pessoa.
Sempre será daquelas que passam a carregar significados pesados
em nossa existência medíocre. Transformam o reflexo dos olhos que
nos roubaram a atenção num primeiro momento, nos mesmos que te
fazem de estúpidos pelo tempo que der.

As decepções que marcam a membrana do sentir, do


revestimento da alma... nasceram do nome que força a boca a se
alargar em um sorriso invertido e logo se abre levemente para liberar
um sopro de ar que pesa nos pulmões, para que somente depois se
possa unir os lábios mais uma vez e deixando a voz se transformar
em um suspiro que agora mais incomoda a memória que conforta.

Surgem quando o cérebro já sabe o que precisa ser dito, mas


ainda há recusa na ação. É quando o ar percorre as cordas vocais,
correndo numa loucura indescritível que beira necessidade de fuga e
traça toda extensão da língua em virtude da maldita lembrança...
então, num último suspiro que escapa ociosamente da boca, as
minhas decepções ressurgem quando eu digo o nome seu nome,
Anabel.

...
Eu me arrependo de tudo que vivi ao lado dela. Não sinto falta de
nada que tivemos. Tudo que faz me lembrar dela, remete a uma
visita em um pequeno cômodo, que costumava ser aconchegante,
mas que hoje não passa de um quarto na residência da memória,
trancado a sete chaves, é claro, sendo lentamente tomado pelo mofo
e inundado pelo mar cinza da poeira. E se não fosse pelo terceiro
período, esse parágrafo seria uma grande mentira.
Não é que eu sinta falta dela, talvez eu sinta falta das poucas
coisas boas que ela era capaz de provocar em mim. Mas é custoso se
(re)acostumar a ficar sozinho. Afinal, nem toda companhia é de valor,
assim como nem toda pessoa que aparece na sua vida é antônimo de
dor.

Acho que trazer à tona esses pensamentos é algo que está me


fazendo provar do vômito de emoções que não queria sentir
novamente. Esses sentimentos que sempre fazia questão de engolir
em pedaços fartos, pedaços estes que percorriam meu esôfago,
tomando todo o espaço que lhes fosse conveniente, sufocando até
chegar ao esfíncter e finalmente ir de encontro ao depósito de ácidos
que digere não só o alimento, mas também o bolo decepcionar de
todo o dia. Sempre que a memória visita o paladar da angústia, eu
sinto o sabor amargo da ilusão com toques doces da acidez que o te
amar provocou em mim.

Maldita seja ela... não! Maldita seja eu, a puta que amou.

No começo tudo parecia perfeito até porque nenhum começo é


troncho e, se for, é quase impossível de perceber sua tronchisse. O
que é fácil de notar, na maioria das vezes, são os pequenos indícios
de provocação nas falas e também nas atitudes que nos fazem sentir
um desconforto sutil, mas bem evidente.

O dia depois ao que coloquei o bilhete na sua agenda, ela


faltou... e mesmo assim no meu armário havia um bilhete com o que
suspeitei ser seu endereço e seu número de telefone. Descobri que
morávamos três cidades de distância uma da outra. Ela em Baixa do
Lajeiro e eu em Jardins, que é do lado do Vale da Garoa, onde ficava o
colégio que estudávamos.

No começo, conversávamos sobre tantas coisas e, se faltava


assunto quando não tínhamos mais o que saber uma sobre a outra,
ela me mandava alguns pedaços cortados de filme cromo com os
registros dos seus gatos sempre acompanhados de alguma carta
curta dizendo um fato engraçado que me fazia sorrir. A adolescência
nos faz perder bons instantes de vida... e eu gostava de como ela
parecia se interessar por mim, pelos meus gostos, pelos meus
pensamentos e pelas informações mais nada a ver sobre mim; sem
deixar de falar também na emoção que era receber uma carta sua.

Não demorou muito para que eu perguntasse quando iríamos


sair para nos ver, sugeri até mesmo uma das cafeterias do Vale da
Garoa. Mas minha única exigência é que levássemos três livros do
momento e trocaríamos, apenas para nos conhecermos um pouco
mais através daquilo que cada uma gostava de ler. Em sua carta, ela
concordou dizendo que iríamos onde eu quisesse ir e o que importava
era estarmos juntas. Até hoje lembro como fiquei vermelha ao ler
aquela frase. No mesmo dia, às seis da noite, ela me ligou dizendo
que sairíamos na quinta-feira da próxima sema, uns minutos depois
que seu treino acabasse.

Eu fazia o segundo grau e fazia parte do grupo de estudos


complementar de literatura do colégio, então era rotineiro ficar um ou
dois dias da semana no período da tarde. Claro, era um problema ela
vir atrás de mim perto do meu horário de estudos, mas eu falava para
mim mesma que mais valia sua companhia que a infelicidade de
cultivar e remoer meus pensamentos naquela sala. Então, cabulei as
atividades do grupo para ter um momento a sós com ela.

Posso dizer que no momento em que Anabel passou a fazer


parte da minha vida, as coisas pareciam bem mais empolgantes e,
talvez, me arrumar para fazer parte da minúscula porcentagem de
estudantes com interesse no grupo de literatura do colégio não era
um mais tão entediante, porque eu sabia que ela estaria no colégio
também. Ela fazia questão de deixar bilhetes no meu armário
comentando algo muito específico que achou bonito em mim e eu
ficava tão contente em encontrá-los. Sempre tive receios de falar
sobre eles pessoalmente porque tinha medo de parecer muito
desesperada para uma amiga de correspondência, e um suposto
amor de conveniências.

Então, quando ela passou no salão de estudos, perguntando por


mim, eu estava sentada em uma das mesas rabiscando meu caderno,
fingindo fazer algo de importante. Lembro de sorrir antes de deixar a
sala e me assustar ao ver que ela já caminhava mais à frente sem ao
menos me olhar, quando a alcancei, a ouvi dizer que era melhor
fazermos o que tínhamos para fazer fora do colégio para não sermos
vistas por ninguém. Pois além de sermos duas garotas, ela ainda
tinha um esquema com um dos rapazes do time de futsal e não
queria levantar nenhuma confusão que pudesse sujar tanto a sua
imagem quanto a dele.

O meu estômago embrulhou e eu estava tão nervosa que nem


fazia questão de olhá-la, que dirá retrucar. Só recordo de estar me
contendo para parecer mais calma do que certamente não estava.

Admito que criei muitas expectativas e talvez esse tenha sido


meu erro. Eu imaginei que iriamos para a cafeteria que sugeri ou para
o parque que fazia divisão com outros dois municípios; ou seja,
lugares reservados para podermos conversar. Mas o lugar mais
reservado que Anabel me levou foi o banheiro do mercado próximo à
estrada principal, somente alguns quarteirões do colégio.

Antes de entrarmos em uma das cabines do banheiro feminino,


pedi que trocássemos os livros e, assim que ajeitei a mochila nos
ombros, ela segurou meu braço me puxando para dentro de uma das
cabines, temendo que alguém tivesse visto adentrá-lo juntas. A
primeira coisa que senti, estando lá com ela, não foi um gostoso frio
na barriga como dizem que é comum sentir perto daquele alguém
que passa a maior parte do tempo ocupando nossa cabeça.

Senti uma grande pontada de decepção me rasgar quando


engoli minha própria saliva, era como se eu tivesse engolido a
espinha de um peixe. Fiz o máximo que pude para não transparecer
minha decepção, pois eu estava muito decepcionada... mas,
contornando meus próprios pensamentos, a empurrei para que se
sentasse no vaso e fiquei sobre seu colo. Não sei qual pecado tomou
conta de mim, só sei que teve muita maldade nas minhas ações que
também expressavam certa tensão e nervosismo.

Meus dedos com um evidente tremor afastaram os fios de


cabelo negros e grossos dela, deixando o pescoço à mostra, mas
antes de beijá-lo, cheirei como se minha fome fosse saciada pelo
perfume que ela usava. Lembrava baunilha com notas suaves de
jasmim, e é tão angustiante associar agora um cheiro tão puro, doce
e jovem a uma pessoa como ela.

Fui distribuindo beijos até chegar no lóbulo da sua orelha,


passando a língua sobre a extensão daquela cartilagem mole...
lembro até mesmo de como eu sorri de nervoso quando, numa
tentativa de se conter, Anabel decidiu aplicar certa pressão na minha
cintura. Ergui sua cabeça e a encarei antes de selar nossos lábios
com calma. E, pela primeira vez durante um beijo, acreditei que
poderia deixar meus receios, desconfianças e inseguranças de lado
para provar o pecaminoso sabor da excitação. A questão é que eu
não devia ter o feito, não com ela. Anabel não é alguém a quem se dá
o respeito. Anabel não merece nada de bom que pode vir a aparecer
no seu caminho, digo isso não só porque me decepcionei com o que
vivi, mas também porque a conheci o suficiente para ir embora de
sua vida. Também sei da pessoa sem nenhuma disposição para
deixar de lado o conforto e correr atrás da própria felicidade que ela
é, e sempre será.

Parece idiota dizer ela foi a primeira pessoa que deixei por as
mãos nos meus seios durante um momento de desejo. Ainda mais
idiota é falar que aquele toque teve um impacto significativo em mim;
eu não havia sido tocada daquela forma... e não deveria ter deixado
que fizesse isso comigo logo quando estávamos sentadas sobre um
vaso sanitário, na cabine de um banheiro que cheirava a água
sanitária e desinfetante.

Eu não deveria ter dado corda para Anabel entrar na minha vida
e fazer dela o que quisesse. Tolerei a escassez do seu afeto e perdi a
chance de ir embora quando o óbvio já estava desenhado: ela nunca
fez questão de me ter por perto. Talvez tudo isso continue sendo, no
fim das contas, sobre a solidão que eu sentia na presença dela, e não
sobre ela própria.
Nosso primeiro beijo teve fim quando ela me pediu para que
saísse de cima dela porque já devia estar atrasada para pegar o
ônibus. Deixamos a cabine, e seu sorriso desapareceu ao ver as
marcas que ficaram no seu pescoço sendo refletido naquele espelho
manchado. Seu semblante esboçava insatisfação com muita
preocupação, ela com certeza se perguntava como ia esconder os
roxos que deixei sobre sua pele. Tanto que só me encarou pelo
espelho do banheiro e foi embora sem dizer nada, sem ao menos
virar para me olhar.

Quando eu me recordo desses momentos, vejo o quanto nós


duas sempre fomos isso que nunca deixaremos de ser uma à outra.
Uma relação de intervalos e isso foi algo que perpassou no que
tivemos. Anabel nem deve ter noção disso, mas eu tenho... pois no
fundo sempre soube que nunca iríamos ter algo além do que os
espaços pequenos e escuros nos reservavam.

Alguns dias depois, acredito que numa segunda-feira, eu recebi


uma ligação dela. Dizia que nunca havia beijado uma vampira nem ao
menos sabia que era possível demorar tanto para aquele tipo de
marca sair de sua pele. De primeira, não tive reação. Mas depois sorri
feliz em saber que ela ainda me queria mesmo tendo feito algo que a
fez passar dias escondendo o pescoço, coisa que me fez ganhar um
apelido, coisa que nunca me ocorreu antes.

Tanto me pareceu carinhoso, em níveis de portar certa


atenciosidade, quanto me pareceu estranho, como ver uma visita
chegar na minha casa do nada e agir de forma invasiva; sentando no
sofá com os pés apoiados na mesa de centro. Agora, vejo apelidos
como algo completamente dispensável na minha vida, principalmente
porque depois dela, eu passei a odiar qualquer tipo de apelido, afinal,
não existe absolutamente nada mais íntimo do que chamar alguém
pelo nome. Anabel nunca me chamou pelo meu nome e eu me
pergunto se ela o sabe de fato.

Você ainda sabe meu nome, Anabel? Você já soube meu nome,
Anabel? Sabia que eu ainda sei seu nome completo, Anabel? Ana
Isabel de Oliveira Brasil.

Sempre adorei falar seu nome em voz alta, a fonética dele


sempre me foi agradável e eu gostava de sussurra-lo deitada na
cama até pegar no sono. Acreditava que repetindo seu nome poderia
te trazer para os meus sonhos, sei que eu era tola demais quando
mais nova, mas amor é como crença. É preciso acreditar em alguma
coisa para parecer bem e se manter bem. Também gostava de
imaginar que ela fazia o mesmo com o meu nome... que o repetia até
pegar no sono, que se tocava murmurando meu nome baixinho. Mas
ela nunca me chamou pelo nome, sempre foi por algum apelido. No
final, tudo acaba sendo como está no velho poema de alguém que
não receberá crédito, pois não foi lembrado: eu sei que tu me amas
quando clamas meu nome.

Anabel nunca chamou pelo meu nome. Sempre foi um: essa
menina, hoje eu não posso. Nunca foi ou nunca pôde ser um: (...),
hoje eu não posso. Essa ausência, esse receio que ela tinha em falar
meu nome, nada mais era que um símbolo da sua falta de
compromisso e de reconhecimento profundo comigo. Sei que era isso,
porque foi o que essa atitude sua sempre se apresentou para mim.
Por esse motivo, também sei que ela não me amou.

“ ”
Como se ler fosse uma maneira de matar a saudade de estar perto de
Anabel, passei a consolar o desejo de tê-la por perto devorando
páginas e mais páginas dos livros que me foram emprestados.

Comecei por um dos que mais me surpreendeu: Chapeuzinho


Amarelo, de Chico Buarque.

Nas cartas, Anabel me garantiu que eu iria gostar. Acredito que


ela sempre teve uma paixão quase visceral por História e, acima de
tudo, pelo universo das crianças. Para ela, a literatura infantil não
servia apenas para entreter. Era uma forma bonita de ensinar os
pequenos a enfrentarem os próprios medos em tempos tão sombrios.
E, assim que mergulhei na narrativa, compreendi o entusiasmo dela.
É um livro belíssimo.

Depois passamos para O Santo e a Porca e A Hora da Estrela.

Sendo duas obras nordestinas, o contraste era fascinante: de


um lado, a comédia e a avareza sertaneja de Suassuna; do outro, há
o mergulho doloroso e poético de Clarice na alma de uma ninguém.
Não sei se gostei mais do humor brincante ou daquela introspecção
profunda, mas ambos possuíam uma força acolhedora, perfeita para
preencher o vazio que fica depois de terminar um livro bom. Eram
páginas cheias de lindos aforismos, desses que parecem crescer
dentro da cabeça da gente depois da leitura.

Claro que pedi sua permissão para marcar algumas passagens,


como fazia nos meus. Durante uma ligação que tivemos, ela disse
que não se importava se eu riscasse ou não as páginas daqueles
livros, só queria que eu continuasse lendo o que tinha escrito para ela
sobre o nosso primeiro beijo.
Acredito que à medida que me rendia aos enredos, eu me
tornava insuportável. Pois minha vontade era conversar sobre cada
detalhe com ela, eu mandava cartas sobre o que mais achava
interessante nos livros e, embora as respondesse, algo parecia
diferente. Talvez fosse paranoia, mas havia algo mudando nas suas
atitudes.

Logo fui tomada por um pressentimento incômodo, que


começou pequeno e cresceu dentro de mim. Anabel já não parecia ter
a mesma ânsia para falar comigo. Pensei que o segundo semestre
estivesse mais puxado e fosse apenas eu sendo eu. Mas por que tive
a impressão de que, quanto mais nos conhecíamos, mais
desinteressante eu me tornava para ela?

Acho que meu erro foi não falar sobre o que sentia ou talvez
tenha sido o medo da minha sinceridade acabar esquecida num
canto, como quase tudo que vinha de mim e chegava para os outros.
Talvez tenha sido querer caber na vida dela, mesmo sabendo que, se
um dia houvesse espaço, eu jamais seria sua prioridade. Confesso
que ainda não entendo como fui tão estúpida e tola ao ponto de
desejar ser para ela aquilo que ela já era para mim... um alguém.

No mês dos namorados, eu realmente achei que não fôssemos


ter um momento juntas, e aquilo me fez sentir estranhamente mal.
Anabel saiu com o rapaz do time de futsal e recebeu até mesmo
flores. Eram flores pálidas, dessas que costumam rodear caixões em
velórios de cidade pequena. Não eram girassóis nem margaridas, as
suas favoritas. Ainda assim, ela parecia feliz; muito mais feliz do que
eu poderia tentar proporcionar. Como a boa atriz que sou, fingi que
estava feliz por ela, mesmo sabendo que a verdade é que eu estava
incomodada com a forma como o garoto a tratava, e porque ele podia
simplesmente existir ao lado dela sem incomodar ninguém, apenas
por ser quem era.

O grude dos dois no pátio me incomodou tanto que saí de lá


para guardar minhas coisas no corredor. Mas a surpresa veio ao abrir
o armário: havia um bilhete dela, pedindo para que eu a encontrasse
no dia seguinte na estufa de gardênias, perto do galpão. O aperto no
meu peito sumiu na mesma hora, dando lugar a uma felicidade boba.

Aquele bilhete significava alguma coisa. Eu acreditei que


significava. Achei de verdade que, depois daquilo, as coisas
mudariam de sentido entre nós duas, mas não mudaram. Meu erro foi
acreditar que eu era importante para ela. Até porque, sendo o mês do
padroeiro do amor, foi impossível não imaginar que caminhávamos
para algo mais sério. Era um dia depois do Dia dos Namorados e ela
queria me encontrar para trocar presentes comigo; então, sim, eu
acreditei que aquilo que fazíamos significava algo para ela tanto
quanto significou para mim abrir meu armário e encontrar um bilhete
seu lá dentro.
O dia seguinte chegou e, assim que minhas aulas terminaram,
caminhei apressada para a estufa. O cheiro do lugar mostrava que os
botões em breve iam desabrochar. Saí e me sentei nos blocos de
pedra perto do galpão para esperá-la.

Eu fiquei encostei ali e fechei os olhos para sentir a brisa fria


soprar forte, até que acabei cochilando. Ao acordar, me deparei com
uma sacola de papel kraft ao meu lado. Quando a abri, vi que havia
várias pétalas de rosas, muitos chocolates e um bilhete dizendo que
eu ficava bonita dormindo. Soltei até uma risada, me perguntando
para onde ela tinha ido para me deixar ali. Mas, quando estava me
levantando e arrumando minha mochila para ir embora, Anabel
apareceu e me arrastou para o galpão.

Sorri a chamando para sentar e conversar sobre as leituras. Ela


deitou no meu colo e pediu que eu fizesse carinho no seu cabelo.
Enquanto eu falava sobre um dos livros e meus dedos percorriam
seus fios escuros, ela acabou cochilando. Fiquei a encarando ali
dormindo e reparei em como Anabel era normal. Por que a sua apatia
e sua normalidade me atraíam tanto? Ninguém parecia questioná-la
por nada; sua vida no colégio era cheia de colegas, amigos e um
certo destaque acadêmico. Pensei tanto sobre isso que acabei
esquecendo das carícias, até que ela despertou e, levemente
sonolenta, se sentou no meu colo, sorriu e me beijou.

Mesmo me beijando com vontade, mesmo parecendo se


importar comigo, eu não conseguia ignorar o lugar em que o meu
sentimento por ela poderia ser expressado. Suas demonstrações de
afeto estavam sempre restritas a lugares pequenos, apertados e
escuros demais para que eu pudesse vê-la direito; ou para que ela
pudesse me ver. Não era apenas sobre evitar que nos vissem juntas.
Ela temia isso. E, pouco a pouco, aquele medo passou a ser meu
também.

Anabel dizia que não gostava de demonstrações públicas de


afeto, mesmo que fôssemos apenas amigas com algumas coisinhas a
mais, e eu sabia que era pelo medo de alguém nos ver. O medo é um
péssimo professor, porque depois de conhecer esse medo dela, eu
também passei a me sentir desconfortável com qualquer
possibilidade de carinho perto de outras pessoas. No entanto, eu sei
que não era só isso. Não havia espaço para diálogos na nossa
relação; sequer tinha abertura para dizer o quanto me machucava
viver nossa relação apenas em lugares abafados, escondidos e com
mau cheiro. Mas a culpa por não falar o que me frustrava não era
dela, era minha. Sempre tive medo de que, se falasse, ela se
afastasse de mim. Não só isso, eu também tinha medo de confirmar o
que meu inconsciente já suspeitava: que, para Anabel, eu era alguém
que não merecia sequer ser mostrada como colega.
Depois de nos beijarmos, quando ela já se arrumava para ir
embora, tirou da mochila uma caixinha fina de madeira e me
entregou. Parecia aquelas lembrancinhas de festa junina; e a
semelhança não era coincidência. Na tampa, havia um adesivo mal
arrancado da decoração de uma festa escolar em Lajeiro. Quando
abri, encontrei escrito no fundo, numa caligrafia redonda típica de
professora primária, o nome: Rafael O. Brasil. Era uma lembrança da
festa junina do sobrinho dela que agora guardava o meu presente.
Anabel despediu-se e foi embora, cruzando a porta e me deixando
sozinha no silêncio daquele galpão.

Fiquei ali estática por alguns minutos, olhando para o objeto.


Talvez tenha sido bobagem me sentir estranha ao perceber que ela
sequer tentou cobrir o nome ou transformar aquilo em algo
minimamente pensado para mim. Só que alguém me ensinou que o
amor mora nos pequenos detalhes; e, se você tenta se convencer de
que uma pessoa apenas não encontrou tempo de fazer algo para
você, talvez essa pessoa não te dê o devido valor. Também me
ensinou que o que importava de fato não era a intenção; o carinho
também mora no esforço. Pode ser idiotice, mas aquela caixa, com o
nome do sobrinho dela ainda marcado na tampa, parecia menos um
presente e mais uma sobra.

Penso que se Anabel tivesse me dado aquela lembrança


decorada pelas próprias mãos, escolhendo cores e detalhes pensando
em mim, talvez eu tivesse sentido algo diferente. Mas aquela caixinha
genérica de festa junina me fez sentir apenas conveniente, como se
eu fosse alguém fácil demais de agradar. Minha reação na hora foi a
de sempre: sorri e agradeci. Não queria parecer ingrata nem
dramaticamente sensível, embora talvez fosse exatamente isso que
eu era e nunca deixarei de ser. Ainda assim, foi inevitável sentir meu
apreço por ela se retrair numa decepção silenciosa. Talvez tenha sido
naquele instante, sozinha ali dentro, que meu subconsciente
finalmente gritou aquilo que eu tentava ignorar havia meses. No
fundo, eu queria me sentir especial para Anabel. Eu enxerguei nela, e
no que tínhamos, muito mais do que realmente existia entre nós.

Minutos depois, saí do galpão. Fui direto para casa da minha


madrinha que morava no Vale da Garoa, assim que cheguei fui ler
suas cartinhas. Eram três, só me lembro do conteúdo de duas. Uma
trazia a indicação de duas músicas; enquanto na outra, havia um sol
e uma lua desenhados, tingidos com giz de cera, acompanhados da
frase: Feliz Dia dos Namorados, vampirinha. Eu achei fofo. Da terceira
cartinha, eu não lembro... ou talvez me recuse a lembrar do
conteúdo. Havia também uma pulseira e aqueles papeis para dar
volume a lembrancinha.

Fiquei toda boba, deitada de bruços no sofá, devorando os


doces da sacola enquanto lia e relia aqueles papéis. Estava tão
entretida que meus pés se roçavam um no outro, balançando no ar,
num ciclo quase infantil, porque assim que terminava a última carta,
eu voltava à primeira, repetindo tudo de novo e de novo até pegar no
sono.

Como seria a reação da minha eu do passado ao saber que um


dia queimaria todas essas lembranças, assim como queimei todas as
cartas que ela me deu?

Eu tenho medo de confiar nas pessoas e elas se aproveitarem


de mim, pelo fato de não ter vergonha por se entregar, só que chega
um momento da sua vida em que você percebe que é idiotice ceder
sem se impor para alguém... e sempre cedi por Anabel. Hoje, tento
não me criticar tanto e enxergar o quanto fui apenas uma
adolescente à procura de amor. Não me culpo por querer que ela
ficasse por perto porque eu gostaria de fazer parte da vida dela de
alguma forma, mas ela sempre pareceu não se importar.

Eu sentia que minha presença era mais uma conveniência do


que um desejo genuíno. Nos momentos em que mais precisava, ela
sabia que eu estaria ao seu alcance, por perto... apenas esperando
pelo seu chamado. Afinal, as primeiras vezes são assim, te iludem até
depois de cada um seguir seu caminho.

Acho que não tinha limites até conhecê-la e meu erro foi me
jogar de cabeça naquilo que acreditava ser uma relação. Nas
ligações, dizia que o cuidado que eu tinha com as palavras mostrava
meu receio de me entregar por completo. Amaciava meus
sentimentos ao sussurrar na chamada que meu adorar já era
sinônimo de um suposto amor que crescia mutuamente, mas era
mentira. Era tudo mentira. Foi tudo uma grande e linda mentira.

O amor nasce sem que a gente perceba. O que existiu entre nós
duas não passava de uma paixão disfarçada de amor adolescente.

Por puro ego, me sinto menos afetada por saber que não fui eu
quem disse eu te amo primeiro. Ao menos nesse ponto, não cedi
primeiro. Mesmo tendo a amado, eu tinha medo de que, ao dizer para
Anabel, ela me achasse tola e começasse a agir como agiu nos
últimos dias em que estivemos juntas.

Ainda em junho onde estudávamos, teve a festinha de São João


do colégio. Foi quando iniciei a leitura do livro de Ariano Suassuna e
quando a beijei em um lugar diferente do habitual. Beatriz estava
comigo na sala de estudos antes de um pessoal aparecer e a levar,
pedi que chamasse Anabel. Não disse o motivo; já sabia que era para
entregar o presente de Dia dos Namorados.

É tão frustrante perceber que a única coisa que alguém que


ama quer é fazer parte da mediocridade do cotidiano da pessoa que
amamos e isso não deveria ser assim. Não lembro a ordem exata dos
eventos desse dia, sei que entreguei uma caixinha de metal com duas
cartas dentro e alguns docinhos, na tampa havia uma pintura de
girassóis e margaridas que fiz. Quando ela chegou à sala de estudos e
se sentou ao meu lado, eu não consegui evitar o grande sorriso que
rasgou meu rosto. Olhou ao redor para se certificar de que não havia
ninguém por perto e, quando minhas amigas saíram, ela me beijou.
Estávamos encostadas num canto da parede, perto o suficiente para
que nossas bocas se tocassem e distantes o bastante para
conseguirmos nos separar discretamente caso alguém aparecesse. Só
que, dessa vez, o ambiente tinha luz e eu podia vê-la perfeitamente.
Foi o melhor beijo que tivemos.

Lembro de pensar que, a partir daquele momento, as coisas


ficariam mais sérias entre nós. Mas a única coisa que ela me
perguntou enquanto sua mão descia pelo meio das minhas pernas foi
se eu tinha alguém além dela. Respondi que não. Foi então que
Anabel segurou meu rosto, me encarou por alguns segundos e disse
que eu não poderia ficar com mais ninguém. Foi ali que conheci o tal
compromisso. Só que eu acabei não cumprindo com o acordo, porque
fiquei com outra pessoa. Eu fiquei com um homem.

O nosso primeiro beijo

A forma com que fui tocada. Suas carícias sobre minha pele... suas
atitudes exalavam confiança e me transmitiam uma sensação de
segurança. Sentir suas mãos apertarem minha perna, cintura,
abdômen e os seios, me fez arrepiar. Eu ainda sinto o gosto do teu
beijo.

Sinto sua mão em meu pescoço, e a outra em minha nuca,


onde arranhou e segurou com firmeza meu cabelo, isso enquanto
meu lábio inferior era chupado, mordido com uma pressão indelicada
para ser finalmente solto. Você encarou minha boca, ergueu o olhar
para mim, sorriu, e suas mãos voltaram para minha cintura. Selei
nossos lábios rapidamente, beijei teu queixo, mandíbula, passei a
língua pela extensão de sua orelha e sussurrei que você estava me
deixando muito excitada.

Chegando no seu pescoço, chupei cada ponto... com intuito de


deixar marcas. Minhas mãos passearam pelas suas costas e logo
encontraram seu sutiã, o desabotoei. Pude te ouvir suspirar. Elas
rodearam teu dorso até pararem nos teus seios. Pressionei. Acariciei
e apertei. Senti seu corpo tremer abaixo de mim. Sua cabeça estava
em meu ombro e foi inevitável não me surpreender ao perceber que
meu cabelo fora afastado para que sua boca fosse ao encontro de
minha pele.

Mordendo ou sugando, fazendo questão de machucar de


verdade. Suas mãos, em contrapartida, acariciavam minha cintura,
mas logo subiram para os seios. Um tanto assustada, mas claramente
excitada, eu... eu deixei que minha cabeça pendesse para trás e
permiti que você os tocasse. Sua mão voltou para meu pescoço, me
puxando para falar que eu ficava linda quando estava corada. Então,
nos beijamos mais uma vez... e que beijo. Foi tudo tão novo, tão
intenso... tão ousado. Foi tudo tão o que você me parece ser.

Junho de 1971


No mês de julho, não vi e evitei propositalmente Anabel. Posso dizer
que foi mais ou menos por aí que começaram os meus silêncios, as
minhas respostas secas e diretas. Foi o rompimento do meu
comprometimento com ela. Foi quando tivemos nossa primeira
discussão por causa de uma saída para um pub com minhas amigas e
um rapaz que se tornou um bom amigo e parceiro de dança.

Conheci Diogo no início das férias, em um final de semana que


dormi na casa de Beatriz. Ainda lembro do jeito como ele descia as
escadas, vindo para a cozinha se apresentar e jogar conversa fora
com a gente. Ele tinha aquele ar de quem tem síndrome de
protagonista. Andava despreocupado, mas aparentava estar
calculando seus passos, e a primeira coisa que achei estranhamente
atraente nele foi o modo como deslizava as mãos pelos bolsos da
jaqueta de couro marrom desgastada, à procura da carteira de
cigarros e do isqueiro de metal. Não havia nada demais na forma
como acendeu o cigarro, mas a visão dele o fazendo exalava um
certo erotismo. Não sei explicar as razões, só achei... interessante.

Seus lábios grossos, tingidos pela cor roxo-hibisco, amassaram


aquele filtro, e a chama do isqueiro fez a palma pálida de sua mão
contrastar com a tonalidade negra e uniforme de sua pele. Diogo foi
um dos poucos homens por quem fui atraída sem me sentir naquela
obrigação de performar feminilidade, como eu sentia e ainda sinto na
presença de alguns homens. Não me sentia forçada a manter um
diálogo com ele, porque estava confortável o suficiente para deixar o
silêncio reinar a qualquer instante. Eu não tinha receios de encará-lo
nem de ser encarada por ele, porque via uma semelhança
transbordando de seus olhos que só era possível notar quando se
prestava muita atenção.

Acho que pela forma como me olhava, Diogo podia ver o


mesmo vazio dos seus olhos estampado também nos meus. Devia ter
sido essa oca semelhança que nos aproximou, que fez com que
criássemos um ritual, junto de Beatriz e Alicia, onde sempre que fosse
possível sentaríamos naquela mesma mesa da cozinha e
conversaríamos até que a garrafa de vinho esvaziasse e as bitucas no
cinzeiro não tivessem mais o resto de tabaco que tragávamos. E foi
ali, em meio ao álcool e à nicotina, que nossa íntima amizade surgiu.

Foi em um sábado à noite que fomos conhecer um


estabelecimento recém-inaugurado no Vale da Garoa: o Pub-Jazz. Até
bate uma saudade daquele ambiente, porque lá era uma verdadeira
imersão boêmia.

O espaço se assemelhava a um salão e o que se ouvia desde a


entrada eram as vozes negras imortais que embalaram não somente
essa como diversas outras madrugadas que passamos lá. As músicas
iam da genialidade de Ray Charles aos sopros de Louis Armstrong, do
lamento visceral de Billie Holiday à potência de Ella Fitzgerald, até
desaguar no romantismo inconfundível de Ben E. King. Confesso que
me surpreendi comigo mesma, já que sempre evitei lugares com
música alta e multidões. Mas lá dancei com as meninas, com o
próprio Diogo e até com desconhecidos que dividiam o mesmo ar
esfumaçado. E, em meio a tudo isso, acabei a minha exceção. Havia
uma embriaguez diferente ali que ia além da bebida; foi libertador
rodopiar pela pista e jogar conversa fora com pessoas cujos nomes eu
sequer sabia.

Mas a bolha de suor, fumaça, liberdade e anonimato estava


fadada a estourar. A ilusão de que eu poderia simplesmente
desaparecer entre o som alto da música e os rostos desconhecidos
durou pouco. Minha madrinha sempre me dizia que a noite tem olhos;
e, aparentemente, o boca a boca correu rápido. Alguém nos viu.
Suspeito que tenha sido alguém que conhecia tanto a Beatriz, quanto
a ela, até porque ninguém do círculo social dela sabia sobre nós.

Em pouco tempo, alguém grita meu nome e uma moça me


avisou que tinha uma ligação para mim no telefone do balcão. Era
Anabel, perguntando o que eu estava fazendo naquele lugar e queria
saber quem era o rapaz com que estava dançando, coisa que me
preocupou e me fez olhar ao meu redor procurando por algum rosto
familiar do colégio. Quando ouvi a voz dela suspirei, desconversei até
onde deu, disse que não podia falar mais e desliguei, a ignorando. Ela
continuou ligando mais algumas vezes para o telefone do Pub-Jazz,
mas eu me recusei a ir atender e decidi sair para tomar um ar.

Diogo veio atrás de mim em silêncio. Tirou um cigarro da


carteira, acendeu e me ofereceu. Quando fiz menção de aceitar, ele
me surpreendeu: tragou fundo e aproximou o rosto, parando a
milímetros da minha boca. Com o dedão, entreabriu meus lábios com
delicadeza e soprou a fumaça diretamente ali. Fechei os olhos,
recebendo o calor daquele trago, e deixei que o ar esfumaçado
escapasse devagar pelo meu nariz. Ele sorriu de canto, deu meia-
volta e entrou novamente no pub, avisando que chamaria as meninas
para irmos embora.
Ele nos acompanhou até a casa de Alicia, já era tarde e as
meninas disseram que, como homem, ele tinha a obrigação de fingir
cavalheirismo. Diogo gargalhou e concordou em nos levar.

Durante todo o percurso, conversávamos um bocado de


bobagem. Eu vinha ao lado de Alicia, enquanto Beatriz estava
agarrada a ele, sussurrando coisas em seu ouvido ou tomando o
cigarro da sua boca apenas para, depois de um trago lento e muito
sensual, jogá-lo no chão da calçada e ouvi-lo reclamar, entre
gargalhadas, que estava caro e não era certo desperdiçar. Olhei para
Alicia com a pergunta estampada no meu rosto. Ela me olhou de
volta, deu de ombros e disse que eles já namoraram. Não fiquei
surpresa, só sorri vendo os dois agirem como um casal, percebendo
que ainda se gostavam ou, pelo menos, tinham um grande carinho
um pelo outro.

Já na casa de Alicia, sentei no corredor e usei o telefone fixo


para retornar a ligação de Anabel. Disse que só estava saindo com as
minhas amigas para aproveitar a noite e o início das férias. Ela
perguntou por que demorei tanto para ligar de novo ou por que não a
respondi direito lá no pub. E eu só respondia qualquer coisa, porque
estava cansada e ela se irritou pelas minhas justificativas serem
monossilábicas, então desejei um boa noite e desliguei.

Na tarde do outro dia, após ajudar a mãe de Alicia com almoço


nos deitamos na varanda e acordamos assustadas com o telefone que
estava tocando. Quem ligou foi ela. Dessa vez bêbada, dizendo que
eu não gostava mais dela e que agora só queria saber de sair de noite
com as minhas amigas e o rapaz misterioso com quem dancei. É
certo que deveria ter visto isso como um problema e não como uma
crise de ciúmes boba.

Mas eu fiquei contente por vê-la não só enciumada como


também incomodada pelo fato de que eu tinha sido vista com um
homem. Naquele instante, tive a sensação de que ela estava sob o
meu controle, à minha mercê; assim como eu sempre estive à mercê
dela. Só que eu não controlava nada. Anabel passava pelos
corredores da escola e fazia questão de ignorar minha sombra. Além
de Beatriz e Alicia, que sequer estudava no colégio, ninguém sabia
sobre a gente. Viver nessa clandestinidade me fazia crer que o seu
distanciamento era puro fruto do preconceito, mas a verdade sempre
é mais complexa. Ela não temia a vergonha de descobrirem. Não era
só o medo de ser julgada pelos olhares alheios, tão cruéis da época.
Acho que ela temia não apenas ser vista comigo, mas também que eu
fosse vista com alguém que pudesse me levar para um lugar onde ela
acreditava não poder me levar.

Não era apenas sobre a homofobia que internalizávamos na


época, esta proporcional ao desenvolvimento da pessoa que, assim
como respira, come e bebe, passa a enxergar o próprio amor como
algo à beira da substituição. Era sobre a dor inconfessável de crescer
acreditando que a presença de um homem teria sempre uma
credibilidade maior do que a de uma mulher. Era sobre crer e
internalizar veementemente que, por mais que eu gostasse dela, por
mais que qualquer mulher gostasse, a pressão da sociedade inteira
caía sobre seus ombros; e era possível que não fosse demorar para
que, um dia, eu colocasse um homem no seu lugar. Isso é um vice e
versa, tanto eu quanto ela.

Anabel não queria apenas me esconder do mundo. Queria se


esconder de uma verdade que corrói a todas as mulheres que se
relacionam com mulheres: a de que, mesmo dentro do nosso amor, a
sombra dos homens ainda paira e pesa sobre as relações. Talvez ela
acreditasse que nosso afeto nunca teria a mesma validade ou
fundamentalidade que um namoro tradicional acaba por ter. Meninas
são ensinadas desde pequenas a enxergar os homens como figuras
inevitáveis nas suas vidas e a aceitar que, muitas vezes, suas
presenças serão mais do que uma mera inconveniência.

E eu, escrota como fui (e continuo sendo, já que me recuso a


sair por baixo de qualquer situação), vi naquela insegurança um
reflexo cru e sincero. Foi como se, de repente, as linhas da marionete
que antes me manipulavam estivessem agora presas, meio
desajeitadas, aos meus próprios dedos. Achei que tinha encontrado
um jeito de fazê-la se interessar por mim de novo. Na época, pensei
até em devolver na mesma moeda, com os picos de afeto e os vales
de indiferença que ela me fazia atravessar. Mas eu estava enganada.
No fundo, o único sentimento que eu conseguiria provocar nela seria
o de perda, a sensação de que algo que lhe pertencia podia ser
tomado em breve.

Aquilo não era ciúmes. Anabel me via como algo, não como
alguém. E é essa a minha justificativa por ter feito e escondido o que
fiz, sem me arrepender.

A respondi assim que ouvi seus absurdos no telefone. Disse que


não a trocaria por ninguém, porque eu estava apaixonada por ela e
houve um silêncio no telefone que me fez ouvir meus batimentos
cardíacos aceleraram a cada terrível segundo. Ela respondeu que não
devia ter ligado nem ter falado nada daquilo que falou. Não pediu
desculpas, só disse que a gente precisava de um tempo para pensar
se valia a pena continuar tentando manter aquilo que, até então, eu
chamava de relacionamento.

Anabel fez questão de enaltecer que era apenas minha pessoa


que chamava aquilo de relacionamento. Essa fala me irritou
profundamente. Poucos dias antes, tinha sido ela quem disse que não
poderíamos ficar com mais ninguém. E agora vinha com essa
conversa de dar um tempo. Foi naquele momento de raiva que eu
comecei a pensar que talvez ela não tivesse medo de me perder;
tinha medo de ser trocada e espelhava as inseguranças em mim
como forma de me manter por perto, de me controlar mesmo que
indiretamente.

Naquele mesmo dia, combinei com as meninas que iríamos


comer besteiras, beber e fumar enquanto assistíamos a algum
programa na televisão. Nos arrumamos e fomos para o apartamento
dos avós de Alicia; um lugar silencioso, que não guardava nada além
das memórias deixadas pelos falecidos. Antes de subir, passamos no
mercado para comprar algumas coisas para o almoço e o essencial:
cachaça. Ao chegarmos, preparamos a comida e jogamos conversa
fora até o fim da tarde. Foi quando Beatriz levantou-se do sofá,
perguntou se o telefone fixo dali funcionava e, para testar a linha,
ligou para Diogo. Ele logo se convidou para aparecer, e nós aceitamos
sob uma única condição, a de que ele pagasse a pizza para
comermos.

Eu já estava alterada pelo álcool quando ele chegou com mais


bebida e duas carteiras de cigarro. Mas o que me surpreendeu foi
como ele foi recebido: Beatriz pegou a garrafa da mão dele, largou na
mesinha de centro da sala e o puxou para um beijo de língua.
Imediatamente, olhei para Alicia, esperando encontrar algum
vislumbre de surpresa nos seus olhos. Em vez disso, ela soltou uma
gargalhada, virou-se para mim e segurou o meu queixo com firmeza.

— Por que só os dois vão se divertir?

Antes que eu pudesse formular qualquer resposta


monossilábica, Alicia colou seus lábios nos meus e eu fiquei em
completo choque, pois não foi um selinho bobo de fim de festa. Aquilo
foi um beijo de verdade, rápido, quente e com gosto de bebida
barata, que me fez segurar em seus ombros por puro reflexo. Só que
ela não parou por ali. Assim que separou a boca da minha com um
estalo, virou para Diogo, deu um passo à frente, envolveu o pescoço
dele e cravou alguns selares em sua boca. Enquanto ele sorria com
aquele ar cínico de quem estava adorando a atenção, a mão de Alicia
deslizou com uma agilidade impressionante para dentro do bolso da
calça dele, pescando sua carteira.

Ela se afastou exibindo o troféu no ar e, num movimento rápido,


agarrou Beatriz pelo braço.

— Vamos buscar a pizza antes que o cavalheiro perceba o


golpe. — Anunciou entre risos, enquanto Diogo tateava os bolsos
vazios, fingindo indignação.

As duas saíram batendo a porta, e o som dos passos delas foi


sumindo pelas escadas do prédio. Como eu não estava em condições
de caminhar até a rua sem cambalear, e Diogo havia se recusado a ir,
o silêncio do apartamento de repente nos isolou do resto do mundo.
Fiquei sentada no canto do sofá perto da sacola com os
cigarros. Peguei uma das carteiras e fumei dois seguidos. Diogo se
sentou ao meu lado, rindo e negando com a cabeça enquanto me
observava. Perguntei o porquê da risada. Ele disse que eu não sabia
fumar e eu pedi que me ensinasse.

Ele colocou o cigarro na boca, virou-se para mim.

— Eu digo que só sabe fumar quem traga e você não sabe


tragar. Vê só, você vai deixar a fumaça meio que encher sua boca. —
Fez uma pausa para acender o cigarro e me pediu para sentar direito
no sofá. — Quando puxar a fumaça, meio que você engole e solta o ar
de levinho pela boca ou pelo nariz. O caminho passa pela boca... —
Ele desenhou uma espiral na minha bochecha com o dedo indicador.
— Depois você engole... — Passou o dedo pela minha garganta e
subiu até meu nariz e desceu ao meus lábios. — E solta pelo nariz ou
pela boca, entendeu?

Assenti. Ele demonstrou e me entregou o cigarro. Repeti os


movimentos, sentindo a fumaça queimar no meu peito e trazer um
alívio no meu corpo enquanto soltava a fumaça entre os lábios.

— Conseguiu! Fez certinho e nem tossiu.

Ele acendeu outro cigarro para ele e nós ficamos fumando


juntos, ele olhando para a janela e eu para ele. Me perdi observando
os detalhes da sua boca; o sorriso de canto, o jeito como chupava os
dentes, como umedecia os lábios. Nem percebi que estava tão
próxima até notar que o espaço entre nós no sofá havia sumido. Eu
estava no colo dele. Suas mãos acariciavam minhas pernas e subiam
até minha cintura, apertando com firmeza. Quando ele se ajeitou
mais perto, mudei minha postura e escondi o rosto na curva do seu
pescoço. Cheirava a cigarro encardido e cardamomo. Beijei seu
pescoço, lambi, mordi, chupei e deixei mais um beijo antes de
encará-lo.

— Posso fazer uma coisa?

Assenti, e ele puxou outro cigarro. Tragou, segurou meu rosto e


aproximou nossas bocas. Seu polegar separou meus lábios e, como
na noite anterior, não me beijou. Apenas olhou para minha boca. A
fumaça escapava dos lábios dele, e eu a puxei para mim, dessa vez
colando nossas bocas. Nos afastamos, e soltei a fumaça devagar pelo
nariz.

Ele umedeceu os lábios e segurou meu pescoço, puxando-me


para perto de novo. Achei que agora me beijaria, mas não o fez. Sua
língua apenas passeava pelos meus lábios, provocando sensações
diferentes por todo o meu corpo. Entendi que, se quisesse ser
beijada, teria que tomar a iniciativa. Acabei fazendo o mesmo com os
lábios dele, mas mordi seu lábio inferior antes de soltá-lo devagar,
sentindo-o roçar contra meus dentes. Talvez aquilo tenha mexido
com Diogo, porque ele respirou fundo e suas mãos pressionaram meu
corpo no seu em busca de mais contato. Levei as minhas até a barra
de sua camisa de botões e a abri alguns. Então, finalmente, ele colou
o corpo ao meu, me obrigando a ajustar ainda mais a postura no
estofado. O toque de sua língua no meu pescoço transformou-se em
um beijo carregado de desejo; um desejo que eu nunca havia
experimentado antes: o de ser desejada por alguém.

Quando nossas bocas se separaram, permanecemos com os


rostos próximos, respirando de forma afobada um contra o outro.
Logo ele me deitou no sofá, ficando sobre mim, beijando-me e
pressionando o peso do corpo contra o meu em um ritmo que
acompanhava a ansiedade da nossa respiração. Eu arranhava suas
costas por cima da camisa e levava a mão até sua nuca, puxando-o
para mais perto, enquanto ele me envolvia por inteiro, mantendo a
tensão acesa entre nós.

Não fomos até o fim. Não transamos, mas ainda me pergunto se


isso teria acontecido caso não tivéssemos ouvido os passos na escada
e as risadas delas.

De mim à Anabel

Anabel, eu penso tanto em você. Acho-te linda, divertida e única.


Contigo, é como se eu fosse capaz de sonhar acordada.

Passo a maior parte do meu dia memorizando cada detalhe do


teu corpo que já toquei. Amo-te tanto, Anabel. Mas tenho tanto medo
de te perder para nossas inseguranças. É tolice minha dizer que não
quero te perder? Não sei... talvez seja. Mas estou tão cansada de não
dizer o que sinto.

Neste momento, estou abatida, vulnerável, decepcionada... e


com saudade de você. Pensei que você só me fizesse sentir coisas
boas, mas parece que eu me enganei. Estou receosa, ansiosa,
angustiada; e tudo isso porque ainda não te vi, ainda não conversei
com você. Não gosto de me sentir assim. Na verdade, eu detesto.

Dói. Machuca. Invade. Revira tudo. Inunda meus pensamentos,


tira minha fome, aperta meu peito, me faz pensar demais e eu não
posso pensar demais, sou capaz de enlouquecer.

Você diz que tem medo de me perder, mas por que sempre me
deixa de lado? É irônico. Quase cômico. E está tudo bem. Faça o que
quiser comigo. Pegue-me. Beije-me. Morda-me. Chupe-me. Aperte-
me. Bata-me. Foda-me... diga que sou sua. Mas, por favor, me deixe
te conhecer. Deixe que eu cuide, invada e ame você, Anabel.

Eu sei que sou só uma apaixonada tola. Mas quando você me


olha e diz que sou bons momentos, sinto vontade de ser tudo isso e
muito mais. Porque te amo como nunca amei alguém na minha vida.
Julho de 1971

,
O que aconteceu ficou apenas entre Diogo e eu. Não contei para
ninguém, nem mesmo para as meninas. Sentia muita culpa por ter
feito aquilo com Anabel, mas, ao mesmo tempo, não conseguia me
arrepender de absolutamente nada.

Ela não voltou a me procurar. Então escrevi para ela. Achei que
uma carta daria o tom certo às minhas palavras. Perguntei se
poderíamos conversar pessoalmente sobre o que havia acontecido
entre nós, sobre aquele mal dos ciúmes que, por mais destrutivo que
fosse, também despertava em mim uma estranha sensação de
pertencimento. Por dias, esperei uma resposta. Quando já começava
a acreditar que qualquer esperança de contato havia morrido, uma
pequena faísca renascia sempre que o carteiro aparecia na rua ou o
telefone tocava. Mas nunca era ela.

Então aceitei a solidão das férias e me entreguei às mágoas da


minha cama, que me depreciavam tanto quanto eu já me depreciava.
Acabei me abandonando à situação em que eu mesma havia me
colocado. Passei muito tempo pensando em algo que pudesse
consertar o que nem ela parecia querer manter. Minha luz surgiu
quando minha madrinha entrou no quarto, animada, para contar que
uma cantora regional faria uma apresentação no Pub-Jazz, ela
trabalhava com organização de eventos na época e disse que não
teria opção se não ir.

A tal cantora era bastante conhecida na região, e Anabel


gostava muito de suas músicas. Inclusive, tinha sido ela quem me
apresentou algumas de suas canções. Por isso, aquela parecia a
oportunidade perfeita para vê-la e conversar, não no pub, claro, antes
dele. Imaginei que poderíamos jantar em alguma cafeteria, caminhar
pelo parque antes da apresentação e, quem sabe, conversar de
verdade. Só nós duas. Sem ruídos na chamada, sem distrações, sem
interrupções, sem tempo para ensaiar as falas.

Decidi ligar, torcendo para que atendesse e aceitasse meu


convite. Anabel me atendeu e pareceu gostar da ideia. No entanto,
disse que não poderia ir porque o evento aconteceria à noite e ela
não teria como voltar para casa depois. Foi então que sugeri que
passássemos a noite na casa da minha madrinha. Ela respondeu que
não queria incomodar e que, mesmo assim, não poderia ir.

Fiquei péssima com a recusa, mas compreendi que talvez


aquele ainda não fosse o momento certo para conversarmos sobre
tudo aquilo. O que me restou foi organizar minhas coisas e
acompanhar minha madrinha para o Vale da Garoa. Não lembro
muito daquele dia, mas eu me recordo perfeitamente daquela noite.

Já passava das dez quando minha madrinha e eu fomos para o


Pub-Jazz. Havia a parte das mesas, onde acabei ficando, e a parte do
salão onde o público podia dançar livremente próximo ao pequeno
palco. O lugar estava cheio e a apresentação da cantora já tinha
começado. Minha madrinha logo foi convidada para dançar e eu
acabei ficando sozinha por lá. Resolvi ir até o balcão pegar algo para
ficar beliscando, quando uma moça se sentou ao meu lado e começou
a puxar conversa.

Seu rosto era familiar, mas eu não sabia de onde. Seu nome era
Eleonora. Comecei a prestar atenção nela e ela era muito bonita,
tinha os olhos enormes e gentis, o nariz reto e o sorriso lindo com um
diastema bem marcante entre os dentes. O cabelo de Eleonora
estava preso em um coque frouxo proposital, bem arrumado, que
deixava alguns cachos caídos e ela vestia uma jaqueta jeans com
uma blusa roxa curta e uma calça jeans bem justa.

A cantora começou a cantar uma canção muito linda. Eleonora


começou a cantar e me puxou para dançar. Ela com certeza me
guiava, pois eu não sabia o que estava fazendo, apenas sentia meu
corpo esquentar com a aproximação do corpo dela ao meu e me
arrepiei quando ela segurou no meu pescoço para me rodopiar. Só
que, com pouco tempo, a música acabou e ela sumiu no meio das
pessoas e eu só a vi adentrar o banheiro acompanhada de um rapaz.
Já sabendo o que poderia acontecer, sorri negando com a cabeça e fui
me sentar no balcão, esperando que ela saísse para me fazer rir
ainda mais com a decisão absurda de dar uns amassos no garoto em
um lugar como aquele.

Mas o que me chocou de verdade foi sentir alguém me cutucar


no ombro. Quando olhei para o lado, vi Eleonora se sentando ali
comigo. Olhei confusa de volta para o banheiro e vi o rapaz saindo;
poucos minutos depois, Anabel também saiu de lá. Ela estava com os
lábios inchados e os olhos lacrimejantes, e eu sabia que não era de
tristeza, até porque a sua blusa exibia uma marca úmida, um rastro
do líquido que ela tinha acabado de tentar limpar às pressas. Céus,
ver aquilo revirou meu estômago.
De repente, foi como se todo aquele barulho alto sumisse. O
estômago subiu à boca de uma vez. Abri caminho pela multidão às
pressas, sufocada, correndo desesperada para o lado de fora do Pub-
Jazz. Mal pisei na rua e meu corpo cedeu. Eleonora veio logo atrás.
Sem dizer uma única palavra, ela recolheu meu cabelo em suas mãos
enquanto eu vomitava. Quando o estômago finalmente esvaziou,
minhas pernas enfraqueceram e eu desabei sentada na calçada fria,
escondi o rosto entre as palmas das mãos, sentindo o peito começar
a chacoalhar. Eu ia chorar. Merda, eu sabia que ia chorar.

Eleonora se sentou ao meu lado na calçada, mantendo uma


distância discreta e respeitável. Ela não me encheu de perguntas e
nem tentou me sufocar com frases feitas; apenas ficou ali em
silêncio, me dando todo o espaço do mundo para falar alguma coisa
se eu quisesse ou desabafar. Como continuei imóvel, com o rosto
enfiado nas palmas das mãos, ela tomou a iniciativa. Com um jeito
calmo, mas muito firme, ela envolveu meus pulsos com os dedos.
Sem usar força, Eleonora puxou minhas mãos para longe do meu
rosto, me obrigando a encarar o ar frio da noite e a olhar para ela.

Ela me encarou com uma seriedade protetora e algo nela me


era familiar, talvez fosse a sensibilidade com que ela me enxergava.

— Não esconda os seus olhos assim. — Disse ela, em um tom


manso, acolhedor e gentil. — A calçada está suja e aqui fora já está
ficando frio demais, a gente vai acabar adoecendo. Deixe eu te ajudar
a ficar de pé.

Eleonora me ajudou a levantar e segurou meu olhar de um jeito


quase hipnótico, impossível de desviar.

— O que quer que tenha acontecido lá dentro, não é digno do


seu choro aqui fora.

Então ela me acolheu em um abraço, e eu a apertei de volta,


descarregando um pouco daquele peso. Quando nos afastamos, senti
as mãos dela tocarem nos meus braços, a ouvi murmurar que eu
estava muito gelada; no mesmo instante, ela tirou a sua jaqueta e me
cobriu.

Antes que eu pudesse protestar, vi minha madrinha surgir na


porta do pub, me procurando com um olhar preocupado. Eu me
despedi de Eleonora com um aceno rápido e caminhei em direção ao
carro. No caminho, enfiei as mãos nos bolsos da jaqueta para me
proteger do vento e meus dedos tocaram um pedaço de papel
dobrado. Era um bilhete com o telefone e o endereço dela, deixados
ali de propósito.

Quando cheguei na casa da minha madrinha, eu chorei. Chorei


muito. Chorei demais. Passei o resto daquela noite em claro, me
desmanchando, me perguntando o que havia de errado comigo para
ela mentir daquela forma, para me evitar tanto. Perguntei os motivos
para ser tratada daquele jeito, mas quando você procura respostas
imediatas para sua dor, a tristeza vira ódio tão rápido quanto as asas
de um beija-flor. Eu estava inconformada. Queria pegar Anabel pelos
ombros, sacudir com força e gritar bem no meio da cara dela para
decidir, de uma vez por todas, se ela me queria ou não ao seu lado.

Fazia tempo que eu estava exausta de tudo. Cansada de pisar


em ovos, medir as palavras, repensar cada bobagem que comentava.
Também já não aguentava mais tentar pagar na mesma moeda,
tentar agir com o mesmo desdém que ela usava comigo. Eu não sei e
nunca soube fazer esses jogos de indiferença, não sei fazer ser seca,
muito menos sucinta. E, para completar, eu era uma tremenda
hipócrita; afinal, eu também tinha me envolvido com outra pessoa.
Na minha cabeça, ela só tinha me traído porque eu mesma dei a
abertura para que tudo desandasse daquela forma.

A verdade é que estas anotações... nada disso é sobre ela.

Sempre será sobre como eu me apartei da minha dignidade


para assumir esse papel de ser uma puta particular: uma vítima
mansa, conformada e sem um pingo de brio para sumir de sua vida.
Foi escolha minha passar por isso. Eu colhi e ainda colho as
consequências disso. Não foi apenas o banheiro do pub. No fundo, eu
já sabia que ela se envolvia com outros rapazes.

O meu problema é... passar a vida fabricando pretextos,


inventando cenários na minha cabeça para justificar as minhas
próprias fraquezas. É fato que sempre existiram inúmeras coisas que
me incomodavam nela. Mas havia uma, em específico, que me
irritava profundamente: a sua total falta de ânsia. E a culpa de me
afetar com isso é unicamente minha.

Eu poderia ter ido embora antes, só que não consigo partir. É


essa a razão de continuar retornando aqui, a esse passado com ela,
apenas para tentar me convencer de que já superei. Cansei de me
imaginar discutindo com Anabel, criando brigas teatrais na minha
cabeça que sempre terminavam com ela me tomando nos braços e
dizendo que não estava disposta a me perder.

Uma das minhas ilusões favoritas era a de confrontá-la sobre o


pub. Eu me imaginava cobrando explicações sobre o que ela tinha
feito naquele banheiro, perguntando por que tinha ido sem me dizer
nada. Eu era tão louca que rascunhava as respostas dela nos meus
cadernos. No começo da briga, ela tentaria se esquivar; diria que não
queria sair comigo porque, dependendo do rumo da nossa conversa,
eu estragaria o desenrolar da noite dela.
Eu alimentava essa crueldade porque precisava de um motivo
para machucá-la de volta. Então, na minha cabeça, eu jogaria na cara
dela o que aconteceu entre Diogo e eu. E era aí que a mágica do meu
delírio acontecia.

Diante da provocação, Anabel finalmente reagiria. Eu a


imaginava desabando, chorando e jurando que não tinha gostado de
nada do que fez com o rapaz no pub. Eu a inventava louca de ciúmes,
gritando que eu sempre a fazia passar por louca quando ela dizia que
odiava me ver perto do Diogo. Ela exigiria saber quando aquilo tinha
acontecido, berrando que eu a deixava insegura, que a matava de
ciúmes ver que eu não me afastava daquele cara. Então, ela
avançaria para cima de mim. Seguraria meu rosto com força, olhando
no fundo dos meus olhos, e diria que eu estava agindo feito uma
branquela malcriada que escondia as coisas dela; coisas que ela já
tinha me perguntado mil vezes.

E quando eu tentasse abrir a boca para me defender, Anabel


me mandaria calar a boca e escutar direito porque ainda não tinha
acabado. Diria que, ao menos ela, tinha tido a coragem de assumir as
próprias merdas; que sim, tinha ficado com um sujeito no banheiro do
bar, mas que pelo menos tinha sido mulher para me contar. Quanto a
mim... ela diria que eu nunca confessaria a verdade por orgulho e
ego, pois ela me conhece e sabe que me recuso a sair por baixo e
precisava dar o troco o quanto antes.

Eu realmente gostaria que ela fosse alguém capaz de fazer de


tudo por mim, de se humilhar, de disputar o meu espaço no grito.

É problemático romantizar a violência, eu sei. Mas no fundo eu


só queria que alguém me mostrasse que eu valia a pena, do mesmo
jeito que meu pai mostrava para a minha mãe. Quando ele corria
atrás dela, quando chorava de um orelhão após surtar e partir para
cima do colega de trabalho que tinha lhe dado carona, ou quando
entrava bêbado em casa quebrando tudo. Minha mãe gritava, batia
nele com os punhos fechados, e a única coisa que ele fazia era sorrir.
Porque sabia que tinha algum valor para ela enquanto ela fizesse
aquele barulho todo, enquanto ela ainda o enxergasse como alguém
por quem valia a pena esperar a mudança.

Eu cresci aprendendo que o amor tinha esse ar de desespero. E,


desde o nascimento das minhas filhas até hoje, sempre tentei ser
sincera... o máximo que pude. Porque quando você põe a sua dor
sobre as costas dos seus filhos, você entende que algumas coisas não
podem ser repetidas. Elas condenam e amaldiçoam toda relação que
pode surgir entre vocês.

Mas a verdade sobre tudo isso é que Anabel nunca moveria


uma palha por mim. Ela não tinha febre, não tinha senso de urgência
nem receio de perdas, não tinha estômago para se debater. Enquanto
eu ardia em ciúmes e vomitava a minha miséria na calçada daquele
pub, ela simplesmente continuava existindo, perfeitamente intocável
e inalcançável. Ela me deixaria ir embora sem pressa, sem drama e
sem nenhum remorso. No fim das contas, o que me matava não era o
flagra no banheiro; era saber que, se eu sumisse da vida dela no
outro dia, ela apenas daria de ombros.

Preciso me sentir amada, Anabel


A excitação me consome ao recordar-me do que fizemos; eu gosto de viajar pelo teu
físico, provar do teu prazer quando desmanchas sobre meus dedos ou boca.
É como se ali, naquele instante selássemos a nossa essência, nossa alma, nosso âmago
em uma conexão ainda mais abissal, intrínseca, íntima — diria até que visceral.
Mas é complicado descrever sua significância emotiva na minha vida, Anabel. Acho que
te amo, mesmo sabendo que há falta de expectativas — principalmente da sua parte — de viver
um nós... digo um você e eu. Talvez o nosso problema seja de fato a idade bem como a distância,
minha imaturidade e até mesmo suspeito do medo que temos da felicidade.
Sinto que existe em mim, uma profunda desregulação afetiva acompanhada dessa grande
incerteza que tenho da minha própria identidade, a famosa oscilação do ser que mais precisa
mostrar que é do que realmente ser.
Eu sinto que vivo desses picos de oscilação, porque adoro tudo em você e ao mesmo
tempo detesto ter a impressão de que isso não é real.
Gosto da sua voz, gosto dos seus lábios, dos seus dentes. Gosto desse nariz empinado,
adoro esse seu olhar estranhamente distante e cansado. Eu tenho certeza que gosto de você e
mais ainda de que amo você, Anabel. Não sei se você gosta de mim, você mesma disse que não é
muito de demonstrar, mas sei lá, queria saber as razões que te fazem me tratar bem e de uma
para outra fingir que não me conhece.
Mas eu não sinto que você gosta de mim, pelo menos não o bastante para eu me sentir
amada. E eu preciso me sentir [Link] medo de conversar com você sobre isso, medo da
sua reação, na verdade. Às vezes, tenho até mesmo medo daquilo que coloco em jogo quando
abro minha boca para conversar com você, Anabel.
Agosto de 197

[ ]
O retorno às aulas foi o teste definitivo da minha insignificância. Eu
passei dias ensaiando o que diria, blindando o peito para os gritos ou
para o choro que viriam quando cruzássemos o corredor. Mas Anabel
não me deu sequer o luxo da atenção.

Na primeira semana, ela não apareceu no colégio. Mas na


quarta-feira da outra semana eu a vi na biblioteca fazendo carinho
nos cabelos do mesmo rapaz do pub. Na mão direita dela, um fino
brilho prateado brilhava contra a luz do fim da tarde que atravessava
a janela e batia propositalmente em sua mão. Eles estavam
namorando. O namoro era o ponto final que ela tinha colocado na
nossa história sem precisar gastar uma única palavra comigo. Eu me
sentei mais afastados deles e quando ela passou por mim, seus olhos
me atravessaram como se eu fosse feita de fumaça. Não havia ódio,
não havia culpa. Havia apenas o nada. A minha raiva secou e deu
lugar a um sentimento muito pior: o abandono puro, frio e absoluto.
Eu não era ninguém para ela e aquilo acabou comigo.

No dia seguinte, eu fui atravessada mais uma vez pela


esperança quando encontrei um papel dobrado no meu armário. Não
tinha assinatura, apenas um endereço escrito com uma caligrafia
familiar e um horário. Encontre-me no Guarani amanhã, às quatro.

Pensei em não ir, mas depois de conversar com as meninas e


elas jogarem na minha cara que ficar em casa afundando na minha
própria miséria e poço de autodepreciação com certeza era melhor
do que encontrá-la e dar um ponto final na nossa situação. Então sim,
eu resolvi que iria. Admito que estava tão receosa quanto ansiosa, o
medo de saber o que ela tinha a me dizer me destruía por completo.
Pois eu sabia que Anabel não havia me chamado ali para dizer que
iria fugir e me levar com ela para qualquer lugar que fosse; ela não
teria a ambição sequer o desejo de viajar o mundo ao meu lado. Mas
eu também sabia que ela não me procuraria sem um motivo.

Demorei tanto a pegar no sono aquela noite que quando


acordei, percebi que já tinha perdido a maioria das aulas e nem se eu
quisesse conseguiria chegar na hora de assistir as últimas aulas. O
que fiz foi me arrumar e preparar algumas coisas para dormir na casa
da minha madrinha, estava com o pressentimento de que não seria
uma conversa curta e fácil. Saí de casa e fui até a praça da minha
cidade para pegar um carro da linha, não demorou a completar e
quando dei por mim já estava em frente ao Guarani.

O lugar era monumental. Mais do que uma biblioteca, aquele


complexo; erguido sobre as ruínas de uma catedral que nunca
aconteceu, parecia um manifesto de luto e arte. Por uma dessas
ironias do destino, foi projetado pela esposa do primeiro prefeito do
Vale da Garoa.

Caminhar por ali era como atravessar o luto de outra pessoa. A


cada passo, a transição das curvas exageradas para formas mais
contidas e pesarosas me fazia pensar em como a dor nos molda; o
Guarani não era só um complexo, era o desespero de Leonardo Filho
tentando manter Elisa viva entre colunas e afrescos.

Passei pelo pátio interno e me detive por um instante diante do


ipê-amarelo gigantesco. Ao olhar o lago em sua base, o nado calmo
das tartarugas contrastando com a pressa dos peixes pequenos,
fiquei me perguntando sobre o tempo de cada um ali dentro. Subi e
desci pelo lugar, tentando afastar o pensamento sufocante de que,
suspenso acima de todos nós, pulsava o coração daquela linhagem.

Avancei sob a sombra das torres e ergui os olhos para as


janelas invariavelmente fechadas do casarão superior. Era o ponto
cego da cidade, o ninho onde a única filha do casal crescera em
completo anonimato. Olhar para aquele topo intocável, de onde vidas
inteiras ditavam as regras sem nunca mostrar o rosto, só me trazia
uma inquietação: como alguém suporta existir dentro de uma bolha?
Você se esconde do mundo para tentar ser livre, mas no fim, que
marca de verdade você deixa quando morre?

Embalada por essas perguntas sem resposta, caminhei até a


cafeteria, buscando no barulho das xícaras e no cheiro de café um
refúgio para afastar os mistérios e o vazio daquele casarão. Mas a
fuga era uma ilusão. O bilhete que eu encontrara no armário parecia
queimar contra a minha perna, pesado dentro do bolso. Era um
lembrete físico de que eu também estava presa a um fantasma. Uma
parte de mim; a parte idiota, humilhada, que ainda se recusava a
aceitar o fim; insistia em acreditar que ela viria. Tinha que haver uma
conversa, uma explicação tardia, qualquer coisa capaz de preencher
o abismo que me corroía por dentro.

Eu decidi me sentar em uma mesa de canto, esperando um


tanto ansiosa ver Anabel cruzar aquela porta. Pedi uma xícara que
acabou esfriando, intocada, sobre a mesa. Deu quatro horas. Depois
cinco e seis. Às sete da noite, a minha ilusão desmoronou. O peso da
rejeição me esmagou com força total. Ela não vinha. A humilhação de
ter sido deixada esperando por Anabel, de ter sido trouxa o bastante
para acreditar que ela se importava, subiu amarga e quente pela
minha garganta. Recolhi minha bolsa com os dedos trêmulos,
empurrei a cadeira e me virei para ir embora, engolindo o choro.

Foi quando um chamado discreto, sincero e suave me fez travar


antes do primeiro passo. Não por um ruído qualquer da cafeteria, mas
pelo som da minha própria existência sendo resgatada por alguém.
Senti uma batida forte no peito.

— Marília...

Eu me virei num sobressalto, com o coração na boca, esperando


encontrar Anabel. Em vez disso, dei de cara com Eleonora. Minha
respiração ficou afobada de repente e o nervosismo tomou conta,
mas veio junto com uma felicidade genuína em vê-la ali.

— Me perdoe por deixá-la esperando, acabou que meu horário


de trabalho terminou somente agora. — Ela sorriu para mim, e eu
senti meu rosto esquentar na mesma hora.
O motivo com certeza era o quão fofa ela estava com aquele
avental por cima da roupa, e ela tinha acabado de desfazer o coque,
deixando os cabelos caírem meio bagunçados pelos ombros.

Foi ela , e não Anabel. O bilhete não era um último


espasmo do meu passado; era o início de outra coisa. Olhando para o
cansaço honesto nos olhos de Eleonora e para o sorriso discreto que
ela me deu, algo que estava rígido e quebrado dentro de mim
finalmente cedeu. Eleonora estava ali, pedindo perdão por me fazer
esperar tanto tempo, me lembrando de que eu finalmente precisava
viver no presente.

— O que foi? Está surpresa em me ver? — Ela pareceu ficar um


pouco sem jeito. Acho que passei tempo demais paralisada, só
olhando para ela.

Eu sorri, negando com a cabeça:

— Não. Na verdade, eu estou muito feliz em te ver aqui,


Eleonora.

Foi a vez dela de corar, e meu sorriso só aumentou.

Enquanto ela puxava uma cadeira para se sentar comigo, o


calor da presença dela parecia finalmente expulsar o frio que me
acompanhava há meses. Olhar para Eleonora me deu a dimensão
exata do tempo que perdi tentando consertar o inaceitável. Hoje, se
eu pudesse me aconselhar, diria a mim mesma para nunca mais
acreditar que posso ser a mudança na vida de alguém. As pessoas
não mudam; elas fingem, disfarçam quem são só para te atrair.

Eu acreditei que seria diferente com a Anabel, mas quebrei a


cara da forma mais ridícula. E a verdade é que não foi por falta de
aviso, foi por pura expectativa. Não posso falar demais, porque um
erro pode acontecer mais de uma vez... e, sinceramente, acho que
tenho uma tara por gente escrota e que nunca faz nada para me ter
por perto.

A última vez que nos vimos foi na parte de trás da biblioteca do


colégio. Ela estava sentada na grama com um grupo de amigos e foi
completamente apática comigo. Mas eu gosto de fantasiar esse
momento de outra forma; de imaginar que Anabel estaria sozinha
vestindo alguma peça de roupa minha, um casaco, por exemplo,
folheando as páginas de um dos livros que lhe emprestei e fingiria
surpresa ao me ver. Não diríamos nada, só ficaríamos nos olhando ali
por um bom tempo. Depois ela daria batidinhas do seu lado, me
chamando para sentar, e eu iria.

Passaríamos mais tempo em silêncio e, quando eu fosse falar,


Anabel encostaria a cabeça no meu ombro. Meu coração disparava só
de imaginar isso. Eu não hesitaria quando ela entrelaçasse os dedos
nos meus, nem quando me empurrasse para deitar na grama úmida e
aconchegasse seu corpo no meu. O encaixe dela em mim era bom,
mesmo que a lembrança dele fosse a única coisa que me restasse. Eu
queria que fosse real, queria me sentir capaz de receber o amor de
alguém ao menos uma vez. Por isso, ela diria:

— Eu te amo, me perdoa...

E então, ela iria chorar baixinho no meu pescoço. Talvez eu a


abraçasse forte e não dissesse nada; esse seria o seu perdão.

Mas havia muito mais coisas que eu fantasiava. Eu sempre


enviei minhas cartas para ela em envelopes brancos, mas a minha
fantasia favorita era imaginar que eu enviava a carta do envelope
amarelo e esperava seu retorno. Anabel me ligaria chorando alto,
dizendo que se sentia péssima, e eu só pediria que desconsiderasse
tudo o que ali havia escrito, porque eu já não sentia mais nada
daquilo. Falaria que já tínhamos nos resolvido. Seria uma linda
mentira de se dizer, e mais belo ainda seria viver tudo isso. Acho que
só aceitei aquele pouco afeto que ela tinha para me dar porque, aos
poucos, eu a afogava no mar de esperanças disfarçadas de amor em
que sempre quis mergulhar.

E sabe o que eu faria depois de todo o drama da carta do


envelope amarelo? Compraria doces, um buquê de girassóis e a
pediria em namoro no dia 12 do mesmo mês.

Mas os girassóis só existiam na minha cabeça.

Na vida real, minha noite terminou no apartamento de


Eleonora, um espaço pequeno e aquecido no centro do Vale da Garoa,
perfumado com incenso de baunilha. A garrafa de cachaça que
abrimos na mesa da cozinha evaporou sem que percebêssemos,
acompanhada por conversas arrastadas e risadas soltas. Quando dei
por mim, a tontura do álcool já tinha pesado nas minhas pálpebras, e
o tapete da sala parecia confortável demais para nos deixar sair dali.

Eleonora me puxou pela mão até o quarto. A luz da rua


atravessava a cortina fina, desenhando linhas prateadas na pele dela
quando me ajeitei sobre seu corpo no colchão. Subi na cama ficando
por cima dela, deixando que nossos lábios se encontrassem num
beijo quente, demorado e lento, onde a textura dos seus cachos
soltos roçava nas minhas bochechas a cada movimento. Ficamos ali
nos beijando por um tempo, sentindo o calor das nossas respirações
se misturarem e a embriaguez deixar tudo mais denso.

Mas, quando sua mão começou a descer devagar até a barra da


minha calça, interrompi os beijos. Segurei seus pulsos com uma força
desmedida, parando seu movimento. Olhei para baixo, sentindo meu
peito subir e descer devagar, assim como o seu. Ela também parecia
tomada pelo nervosismo, mas não parou de me olhar sorrindo em
nenhum momento, não era malícia. Era uma mistura de preocupação
sincera e um desejo de me trazer conforto.

— Nós não precisamos fazer nada que você não queira — disse
ela, num tom brando.

Assim que ouvi suas palavras, aliviei a pressão em seus pulsos.


Eleonora se sentou na cama e me ajeitou em seu colo, abraçando
minha cintura com cuidado. Ficou me olhando, os olhos escuros me
estudando na penumbra, antes de soltar um riso soprado e beijar a
ponta do meu nariz.

— Não é que eu não queira... — murmurei, sentindo as


bochechas queimarem.

Eu estava tão nervosa que nem mesmo a cachaça conseguia se


sobressair, o que era ridículo, já que nem de longe aquela seria a
minha primeira vez. Mas ter alguém me olhando com tanto cuidado
me desarmava de um jeito estranho.

— Marília, está tudo bem? — Perguntou, inclinando o rosto com


uma ansiedade contida, como se temesse ter dado qualquer passo
em falso.

— Está sim... me desculpe, é que eu nunca fui tocada antes —


confessei, soltando o ar de uma vez só, sentindo o peso daquela
entrega. — Eu costumo fazer... desculpa, acho que me assustei, só
isso. Mas eu quero sentir isso.

Eleonora sorriu, um sorriso calmo e devagar que pareceu


iluminar o quarto escuro. Suas mãos subiram pelas minhas costas
com um carinho quase venerativo.

— Não precisa pedir desculpas por isso. — Sorriu, deixando um


beijo em meu pescoço. — Nós podemos fazer isso juntas, ao mesmo
tempo, tudo bem? — Sussurrou, roçando os lábios no canto da minha
boca. — Sem pressa. Eu quero te tocar, quero sentir você, ver até
onde podemos ir juntas... e depois vou te sentir e você pode me
sentir também, faremos nosso próprio ritmo.

Aquelas palavras me desmontaram por completo. Nos despimos


sem pressa e em meio as carícias, deixando as roupas caírem ao lado
da cama. Eleonora me puxou suavemente, ajeitando nossas pernas
entrelaçadas até que nossos corpos se encaixassem perfeitamente de
lado. Ela assumiu o controle do movimento, ditando o ritmo lento e
compassado do roçar de nossas peles. Era algo completamente novo,
macio e delicado.
Enquanto ela me guiava um pensamento incômodo e doloroso
me atravessou: Anabel nunca se importou com o que eu sentia.
Anabel apenas deixava ser tocada, como quem concede um favor frio
e distante, sem jamais se preocupar em me dar nada em troca. Com
Eleonora era o oposto. Havia uma troca viva, um desejo de
exploração mútua onde ela ditava a pressão exata do nosso contato,
subindo a intensidade aos poucos.

Nossos corpos se moviam num ritmo sincronizado, denso,


quente e molhado. Suas mãos seguravam firme a minha cintura
enquanto ela ditava o atrito, e o som das nossas respirações
descontroladas preenchiam o quarto de um jeito quase hipnótico, me
fazendo esquecer onde eu estava e quem eu tinha sido até poucas
horas atrás. Quando o topo da entrega fez nossos corpos tremerem e
se contraírem juntos contra o colchão, ela puxou meus cabelos com
força, trazendo meu rosto para junto do seu. Nossos lábios se colaram
num beijo desajeitado. Foi no meio desse suspiro entrecortado,
enquanto recuperava o fôlego com a cabeça afundada no meu
pescoço, que a voz dela saiu frouxa, quase em um sussurro sem
travas:

— Marília... eu fiz tudo por você, sabia?

Eu me deitei para olhá-la e nos deitamos cara a cara.

— Fui eu que arrumei aquele cara para ficar com ela no


banheiro. Eu sabia que se você visse aquilo com os próprios olhos,
você finalmente a largaria...

O tempo parou por um segundo e olhei para o rosto de Eleonora


ali, a centímetros do meu, com os olhos entreabertos e o sorriso
satisfeito de quem tinha acabado de me confessar um segredo
sórdido em meio a embriagues.

Mas eu senti raiva alguma dela. Não houve nojo muito menos
remorso, nem mesmo um susto moral para me abalar de alguma. Na
verdade, o que se acendeu no meu peito foi uma euforia obscura,
quente e absoluta que fez eu me sentir estranhamente bem. Era isso.
Era aquilo que eu sempre tinha buscado sem saber dar nome: alguém
capaz de fazer qualquer coisa por mim, alguém sem escrúpulos, sem
limites, disposta a manipular o mundo inteiro só para me ter nos
braços. Anabel me oferecia a miséria da hesitação; Eleonora me
entregou uma bandeja de devoção. Eu sabia que Anabel era uma
desgraçada que não se importava comigo e, naquele momento,
descobri que Eleonora não devia estar em sua melhor faculdade
mental, mas sentir o gosto do esforço de alguém para me ter
acendeu uma onda de tesão e fascínio me tomar por inteiro. Mesmo
sabendo que era errado continuar ali, eu queria ser consumida.
Sentei no seu colo, puxei o cabelo dela pela raiz com uma força
que fez a cabeça de Eleonora tombar para trás e um arfar surpreso
escapar de sua garganta. Ela não era mais a garota doce de avental;
estava mais para uma cumplice na obsessão.

— O que você acabou de dizer?

Eu tinha ouvido perfeitamente, mas não poderia evitar a


retórica colando minha boca na orelha dela enquanto minha outra
mão ia para o meio de sua perna. Ela sorriu, abrindo mais a perna e
sussurrou:

— Você ouviu muito bem o que eu disse.

Depois me beijou e o que se seguiu nas horas seguintes foi um


delírio físico, bruto e desesperado. Ainda havia delicadeza em meio a
fome de dois corpos que se reconheciam na mesma falta de limites.
Eu a usava e me deixava ser usada, afundando as unhas na pele das
suas costas para arranhá-la, puxando seu corpo contra o meu num
ritmo avassalador, apertá-la sem nenhum medo de machucar. Era
tenso, improvisado ao melhor modo e, acima de tudo, estava sendo
alimentado pelo êxtase de ver o quão longe alguém poderia ir por
mim.

Quando a primeira luz da manhã começou a invadir as frestas


da janela, o cansaço finalmente venceu. Eleonora adormeceu
pesadamente, me puxando para seus braços com força, deixando um
beijo no topo da minha cabeça. Fiquei encarando a janela por longos
minutos, sentindo a respiração dela contra a minha pele que me
arrepiava. O fascínio ainda estava ali, vibrando sob a pele. Saber do
que Eleonora era capaz me fazia senti-la como a coisa mais tentadora
e perigosa que já havia cruzado meu caminho.

E foi exatamente por isso que decidi ir embora.

Desvencilhei-me de seu braço com um cuidado para não


acordá-la. Levantei em silêncio, me vesti sem pressa e recolhi minhas
coisas pelo chão do quarto.

Antes de fechar a porta do apartamento, olhei para ela uma


última vez, dormindo tranquila entre os lençóis bagunçados. Eu tinha
encontrado o que sempre quis, mas sabia que viver dentro daquela
obsessão acabaria me destruindo por completo. Sorri fraco para a
imagem dela na cama, fechei a porta devagar e caminhei sozinha
para a rua, suspirei levando comigo o segredo e a decisão de nunca
mais voltar nem para ela tampouco Anabel.
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A verdade é que, depois de tudo isso, não sobrou muita coisa. Só um
cansaço que não grita, mas que me corrói por inteira. Um silêncio que
não é ausência de palavras e, sim, ausência de reciprocidade. Passei
dias tentando entender onde foi que eu me perdi de mim mesma, se
foi um episódio à parte ou uma temporada de gatilhos que me
motivou a buscar ajuda para me entender, algo que nunca havia feito
antes.

A raiva de mim mesma veio antes de qualquer outra coisa, eu


sei disso porque foi o sentimento que me atingiu primeiro. Mas,
depois dela, veio um vazio maior ainda. E foi dentro dele que algumas
coisas começaram a doer de verdade.

Foi quando eu percebi que aquilo tudo, o que Anabel e eu


tivemos, já havia se tornado uma peça emendada que se partia
frequentemente nos mesmos pontos; algo que por si só já partia
outros mais pontos, sendo eles próximos ou não, e não tinha mais
como colar uma peça de cerâmica tão frágil como o que eu
acreditava e até mesmo chamava de amor, porque em algum
momento a nossa relação de cerâmica fria virou apenas pó e
memória.

E mesmo assim, com o pó do que fomos na palma de minhas


mãos, eu ainda conseguia ver beleza no que acreditava estar
construindo com ela. Eu queria acreditar que tinha algo na nossa
relação que de fato valia a pena. Mas a verdade, garimpeira da
beleza, é que não te encontrei quando mais precisava — te achei
justo na beira de você me achar. Clamei e gritei por teu amor,
supliquei: por favor, me segura e jura que não vai soltar.

Aceitei o que você tinha para me oferecer, murmurei um mero:


vem, mesmo que seja me partindo ao meio, pois eu prometo e juro
que não vou te esquecer. Eu, que não sabia nada sobre nenhum
tipo de relacionamento e que certamente não sei quase nada
sobre o amor; e talvez ainda menos sobre você, descobri também
que não sei nada de mim. Tenho medo de saber quem fomos e
o que somos agora. Por isso, me agarrei nas suas palavras para não
me afogar, na esperança de que o mero dizer fosse capaz de nos
sustentar.

Sabe, uma vez me disseram que certas relações duram apenas


o tempo necessário para se tornarem inesquecíveis, exclusivamente a
quem amou dentro daquela relação. Talvez isso seja verdade; ou
talvez seja só o tipo de coisa que dizem quando estamos tentando
sobrevivi a um término difícil e complicado, pois muito teve
significado em nossa vida.

Pode até ter sido da boca para fora, mas houve algo que pesou
na minha consciência, em simplesmente ouvir aquilo ser dito em voz
alta, durante a minha primeira aula de psicologia social na faculdade.
Foi algo que realmente me mudou como uma mulher.

Eu ainda não sei o que aconteceu, nem como tudo se


desenrolou para chegar no fim que teve. Só sei que ouvir aquela
frase, provocou algo dentro de mim. Pois, depois disso, muita coisa
começou a se esclarecer, como se as emoções que eu sentia há
tempos tivessem sido enfim encaixotadas e empurradas para algum
canto da mente, permitindo que, aos poucos, minha consciência
voltasse e assumisse o controle. Só que, mesmo assim, tem dias em
que ainda me pego revivendo momentos com Anabel, mas os mais
frequentes são com Eleonora.

Tenho a plena noção de que não é por saudades, está mais


para as tentativas de decifrar um enigma ou algum tipo de quebra-
cabeça, que, no fundo, eu já sabia que estava incompleto, eu sentia
que não tinha solução. No começo do fim, revivia minhas memórias
ao ler suas cartas para me lembrar de que a dor era e foi real, tão
real quanto a minha vontade de permanecer. Meu esforço era e foi
real bem como minha angústia de não querer que ir embora. O amor
que eu sentia por Anabel... era real, mas real também era o meu
cansaço de estar vivendo aquilo com ela.

Acredito que exista algo profundamente violento em amar


alguém que responde com ironia à sua vulnerabilidade e tem algo
ainda mais cruel no silêncio vindo justamente de quem você mais
queria ouvir.

No fim, acho que é isso que mais me marcou: a sensação de


falar com alguém que, o tempo todo, estava com o corpo
parcialmente para fora de onde eu já estava submersa. Sempre estive
ali, me agarrando em qualquer sinal de permanência que ela pudesse
demonstrar, mesmo quando tudo já indicava que não teríamos o
melhor dos fins.

Quanto ao nosso meio? Ele não importa. Já passou e nada


sustenta um bom meio quando seu ponto de origem e destino foram
de encontro com o chão.
Houve poucos momentos em que eu senti que ela estava me
dando o amor que eu gostaria de receber, mas essa minoria não pode
ultrapassar a grande parte das vezes em que me senti uma escora,
uma conveniência, alguém que é dispensável na sua vida. Precisei
aprender a gostar de mim o suficiente para ir embora... só que não
consegui fazer isso e é por isso que tanto fingi quanto ainda finjo
manter esse valor que deveria me dar e que certamente não me dou.
Depois de tudo é tão fácil encarar o tanto e o quanto fui estúpida, o
tanto e o quanto que vivi de possibilidades de permanecer ao lado
dela.

E então veio Eleonora.

Eleonora foi o terremoto que sacudiu as ruínas daquela


cerâmica quebrada e o sopro que levou todo pó. No começo, achei
que ela era a calmaria que eu merecia, o abraço morno no fim de
uma tempestade que durou menos de dois anos. Mas a verdade é que
ela era o reflexo mais nítido e perigoso das minhas próprias frestas.
Quando ela sussurrou olhando nos meus olhos o que tinha feito;
quando confessou ter orquestrado a cena no banheiro, arrumando
alguém para destruir a pouca ilusão que me restava de Anabel, não
senti asco. Senti uma descarga elétrica.

Gostei mesmo daquilo. A verdade visceral e crua é que eu


adorei saber disso. Era a primeira vez que alguém cruzava qualquer
linha ética ou moral por mim, a primeira vez que alguém
demonstrava uma obsessão desmedida a ponto de arquitetar o
mundo só para me ter. Pela primeira vez, eu não era a única disposta
a me afogar; havia outra pessoa disposta a atear fogo ao redor para
garantir que eu não olhasse para mais ninguém.

Entendi ali que eu também carregava um lado escuro, uma


sede torpe por dinâmicas intensas que flertavam com o perigo. Mas ir
embora do apartamento dela naquela manhã não foi um ato de
repulsa; foi um ato de autopreservação, gostaria de chamar também
de resquícios do que deveria ser amor próprio. Tive medo do quanto
eu poderia gostar daquela loucura. Tive medo do quanto a obsessão
de Eleonora poderia me devorar se eu decidisse ficar. Eu vi a
gravidade daquele poço e escolhi recuar antes de cair sem volta.

No meio de todas essas ruínas entre a negligência fria de


Anabel e a devoção doentia de Eleonora, algo finalmente se acendeu
com uma clareza que não posso mais ignorar.

Parei de me punir por quem eu sou. O problema nunca esteve


no fato de amar mulheres, nem na intensidade com que meu peito se
abre para as que me provocam desejos. Minha dor nunca veio das
minhas vontades, da forma como me entrego, da delicadeza de
segurar outra mão ou de me perder em alguém. O erro esteve apenas
nos lugares em que aceitei depositar esse amor. Eu me submeti à
escassez de Anabel porque achava que era o único afeto que me
cabia, e quase me deixei levar pelo abismo de Eleonora porque ela
era obcecada por mim.

Compreender isso não apaga o estrago, mas muda todo o


percurso. Sou uma mulher que ama se relacionar com outras
mulheres e não há culpa nem vergonha nisso. Há uma beleza imensa
na forma como pertenço a este mundo e como desejo existir nele. O
afeto que tenho para dar é grande demais para ser desperdiçado em
trocados por quem só me quer pela metade, e visceral demais para
ser aprisionado por quem quer me moldar ao seu próprio caos.

Mas, naquele dia ao fechar aquela porta e caminhar sozinha


pela rua fria do Vale da Garoa, entendi que o meu recomeço não
depende de Anabel, nem de Eleonora, nem de nenhuma fantasia que
criei para não encarar a solidão. Pela primeira vez na vida, estava me
amando.

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