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Artigos • Rev. Adm. Pública 42 (1) • Fev 2008 • [Link]
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Administração
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pública
comparada: uma avaliação das
reformas administrativas do Brasil,
EUA e União Européialink
Comparative public administration: an
assessment of the administrative reforms in
Brazil, USA and the European Union
Autoria SCIMAGO INSTITUTIONS RANKINGS
Resumo
Este artigo aprofunda o debate, no âmbito da ciência da administração pública -
sob o enfoque da administração pública comparada -, sobre a evolução e os
problemas recentes na gestão da administração pública no Brasil, EUA e União
Européia. A análise revela que as reformas administrativas chegaram à maioria
dos países do mundo impelidas pelo Consenso de Washington. Distintos estudos
constatam que, a new public management (NPM - nova gestão pública) pode ter
afetado muitos países, mas o teria feito em alguns de forma mais profunda.
Observa-se que, tanto no Brasil quanto nos países selecionados, fortes elementos
de continuidade podem ser identificados, depois de mais de 20 anos de reforma,
demonstrando que as reformas colaboraram muito pouco em termos de
estabilidade ou satisfação.
administração pública; reforma administrativa; modelos comparados (EUA, União
Européia e Brasil)
Abstract
This article deepens the discussion, within the public administration science and
from the comparative public administration perspective, about the recent evolution
and problems in the management of the public administration in Brazil, USA and
the European Union. The analysis reveals that administrative reforms have arrived
to most countries impelled by the Washington Consensus. Distinct studies evidence
that the New Public Management (NPM) may have affected many countries, but it
had a deeper effect in some than in others. Both in Brazil and in the selected
countries in this article strong elements of continuity can be identified after over 20
years of reform, showing that the reforms have helped very little in terms of stability
or satisfaction.
public administration; administrative reform; compared models (USA, European
Union, and Brazil)
ARTIGOS
Administração pública comparada: uma avaliação das reformas
administrativas do Brasil, EUA e União Européia
Comparative public administration: an assessment of the administrative
reforms in Brazil, USA and the European Union
José Matias-Pereira
Professor e pesquisador do programa de Pós-Graduação em Administração da
Universidade de Brasília. Pós-doutor em administração pela Faculdade de
Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo
(FEA/USP). Doutor em ciência política área de governo e administração pública
pela Faculdade de Ciências Políticas e Sociologia da Universidade Complutense
de Madri, Espanha. Endereço: Campus da UnB, ICC Norte, Subsolo, Programa de
Pós-Graduação em Administração Campus da UnB, Asa Norte CEP 70910-970,
Brasília, DF, Brasil. E-mail: matias@[Link]
RESUMO
Este artigo aprofunda o debate, no âmbito da ciência da administração pública
sob o enfoque da administração pública comparada , sobre a evolução e os
problemas recentes na gestão da administração pública no Brasil, EUA e União
Européia. A análise revela que as reformas administrativas chegaram à maioria
dos países do mundo impelidas pelo Consenso de Washington. Distintos estudos
constatam que, a new public management (NPM nova gestão pública) pode ter
afetado muitos países, mas o teria feito em alguns de forma mais profunda.
Observa-se que, tanto no Brasil quanto nos países selecionados, fortes elementos
de continuidade podem ser identificados, depois de mais de 20 anos de reforma,
demonstrando que as reformas colaboraram muito pouco em termos de
estabilidade ou satisfação.
Palavras-chave: administração pública; reforma administrativa; modelos
comparados (EUA, União Européia e Brasil).
ABSTRACT
This article deepens the discussion, within the public administration science and
from the comparative public administration perspective, about the recent evolution
and problems in the management of the public administration in Brazil, USA and
the European Union. The analysis reveals that administrative reforms have arrived
to most countries impelled by the Washington Consensus. Distinct studies evidence
that the New Public Management (NPM) may have affected many countries, but it
had a deeper effect in some than in others. Both in Brazil and in the selected
countries in this article strong elements of continuity can be identified after over 20
years of reform, showing that the reforms have helped very little in terms of stability
or satisfaction.
Keywords: public administration; administrative reform; compared models (USA,
European Union, and Brazil).
1. Introdução
A existência de uma profunda diversidade cultural, regimes políticos diferentes e
formações históricas específicas que existem de país para país imprime em cada
um deles uma feição única, o que explica as variações sobre os objetivos, estilos
administrativos, funções e papel da administração pública no mundo. Observa-se
que na administração empresarial busca-se de forma incessante modelos
considerados universalmente válidos, enquanto no estudo da administração
pública ocorre, em geral, uma perspectiva comparada. Desde o parlamentarismo
ao presidencialismo, dos modelos de funcionários de confiança aos modelos de
burocracia plena e permanente, culturas e sociedades diferentes propiciam opções
e estratégias institucionais diferenciadas de organização política e de ação pública.
As reformas administrativas chegaram à maioria dos países do mundo impelidas
pelo Consenso de Washington. Nessa orientação, em especial para os países em
desenvolvimento latino-americanos, o Banco Mundial, em 1997, já ressaltava a
importância das capacidades burocráticas para o desenvolvimento. A implantação
dessas reformas foi realizada por etapas. Para a teoria da path-dependent
(dependência de caminhos), os processos passados tendem a influenciar o
presente. Assim, instituições herdadas condicionam fortemente os caminhos a
serem tomados, determinando, inclusive, a persistência de arranjos institucionais
pouco eficientes.
O neo-institucionalismo, por sua vez, na busca de entender a cooperação
voluntária, afirma a importância das instituições para o funcionamento da
economia, visto que as imperfeições do mercado requerem o estabelecimento de
regras que organizem a ação coletiva. Para North (1991), as instituições são
definidas como regras, formais ou informais, idealizadas pelos homens para criar
ordem ou reduzir a incerteza nas trocas. Assim, instituições e organizações
respectivamente, as regras do jogo e a divisão de tarefas entre os agentes que
participam afetam o desempenho da economia à medida que, ao dar forma e
estruturar as interações humanas, reduzem as incertezas e induzem a cooperação,
diminuindo os custos das transações.
Tendo esse quadro como pano de fundo, aprofundamos neste artigo o debate, no
âmbito da ciência da administração pública, sob o enfoque da administração
pública comparada, a evolução e problemas recentes na gestão da administração
pública no Brasil, EUA e União Européia.
2. As bases teóricas do surgimento e desenvolvimento do Estado-
providência
O surgimento do Estado do bem-estar está relacionado a três elementos
essenciais: a existência de excedentes econômicos passíveis de serem realocados
pelo Estado para atender às necessidades sociais; o pensamento keynesiano, que
estruturou a sua base teórica; e a experiência de centralização governamental
durante a II Guerra Mundial, que fomentou o crescimento da capacidade
administrativa do Estado. Apoiado nesses elementos básicos foram desenvolvidas
distintas teorias para explicar o surgimento e o desenvolvimento do Estado de
bem-estar social. Destacam-se, entre elas, além da teoria neo-institucional, a teoria
da convergência ou lógica da industrialização; a teoria da cidadania; e, a teoria
marxista.
A partir dessas considerações, torna-se possível avançar, a seguir, nos aspectos
essenciais das reformas administrativas implementadas no mundo contemporâneo,
que chegaram à maioria dos países do mundo, especialmente nos países em
desenvolvimento, impelidas pelo Consenso de Washington. Nessa orientação se
ressaltava a importância das capacidades burocráticas para o desenvolvimento.
Deve-se ressaltar que, sua implantação se realizou por etapas. A pergunta inicial
neste artigo é: quais foram os resultados das reformas gerenciais no Brasil, nos
EUA e na União Européia, partindo de uma perspectiva comparada?
Este artigo é qualitativo e essencialmente bibliográfico. Possui diversas limitações.
A principal é decorrente da amplitude e complexidade dos problemas que nele são
abordados e debatidos. Apesar disso, esperamos que as reflexões e observações
feitas encorajem a realização de outras discussões e avaliações úteis, que não
foram aqui tratadas.
A middle-range theory é o principal referencial teórico deste artigo, entendida aqui
como a "nova administração pública". Registre-se que a middle-range theory busca
encontrar respostas para enfrentar as questões decorrentes das profundas
mudanças que afetam a administração no mundo contemporâneo. Entre os
autores que cuidam do tema administração pública comparada destacamos os
trabalhos de Dwivedi e Henderson (1990); Khator e Garcia-Zamor (1994); Guess
(1998); Welch e Wong (1998); Pollitt e Bouckaert (2000); e Brans (2003).
3. As molas impulsoras da nova administração pública
Observa-se, tendo como divisor a década de 1980, que o mundo caminhou de uma
administração pública comparada clássica ou tradicional para uma nova
administração pública. Esta última, apoiada na denominada middle-range theory foi
estimulada pela necessidade de encontrar respostas para problemas como:
eficiência, eficácia, efetividade, legitimidade democrática, impacto das tecnologias
da informação na administração, entre outros e por avanços em uma série de
disciplinas ligadas à teoria organizacional, ciência política e economia (neo-
institucionalismo e public choice). A partir dessas novas idéias procurou-se
abandonar a generalização e aproveitar o grande número de informação publicada
sobre a administração pública dos mais diferentes países no mundo.
A administração pública comparada deve ser entendida aqui como o domínio do
saber que compara padrões de administração pública entre diferentes Estados-
nação. Nesse sentido, busca estudar as semelhanças e diferenças entre várias
unidades de análise, nos níveis da organização, da gestão e da política (no sentido
dado ao termo anglo-saxônico policy), com o propósito de se criar uma base de
conhecimento institucionalizado que possa auxiliar a tomada de decisão (Guess,
1998:535; Heredia e Schneider, 2003).
Observa-se que os teóricos da administração pública, no passado, se
preocupavam em focar os seus estudos nos fenômenos administrativos dentro do
seu próprio país, no quadro do seu sistema político-administrativo específico. Esse
contexto foi profundamente alterado com a globalização, que trouxe no seu bojo
uma maior discussão dos problemas administrativos e das soluções encontradas,
bem como uma ampla difusão dos estudos sobre o tema, em especial, os
relatórios e trabalhos elaborados pela OCDE, FMI, BIRD, American Society for
Public Administration e European Group for Public Administration. A globalização
fomentou as mudanças na teoria e na prática da administração pública,
abandonando as tendências paroquiais que têm permeado a ciência da
administração nos diferentes países (Khator e Garcia-Zamor, 1994:10).
Para alguns autores, como por exemplo, Caiden (1994:45), essa tendência a olhar
para outras realidades traz ainda vantagens científicas já que, ao se adotar uma
perspectiva comparativa e global, evita-se o erro de tecer generalizações apenas
com base no estudo de uma realidade administrativa restrita (a administração
pública dos EUA, por exemplo). Registre-se que existe uma tendência de que os
problemas que muitos países possuem são comuns aos demais, para os quais
também se poderão encontrar soluções semelhantes. Assim, despesa pública
elevada na economia, baixo nível de eficiência, eficácia e efetividade na
administração pública, o crescente nível de insatisfação dos cidadãos com a
qualidade dos serviços prestados pela administração pública, são problemas
inerentes a quase todos os países. Nesse sentido, a utilização do método
comparativo nos estudos que visam à resolução desses problemas poderá ser
bastante útil na busca de resolver esses problemas comuns.
4. Os distintos modelos de reformas sociais da Europa
O "modelo europeu" vem sofrendo significativos impactos provocados pelos
reflexos das mudanças implementadas na administração pública da Grã-Bretanha,
nos últimos 25 anos. A constatação de que o liberalismo anglo-saxão,
supostamente selvagem, está atropelando a civilizada economia européia é
bastante perceptível para uma boa parte dos estudiosos do tema.
Observa-se que os efeitos provocados pela economia moderna na Europa são
distintos do que ocorreu nos EUA. Se nos EUA os efeitos benéficos provocados
pelos imigrantes entusiasmados são evidentes, na Europa conviveu-se com
camponeses desconfiados. Após uma sucessão de catástrofes, os europeus
conseguiram alcançar um adequado equilíbrio entre esforço individual e
responsabilidade coletiva depois da II Guerra Mundial. Todos os europeus
ocidentais compartilham um compromisso em relação ao que é, em comparação
com padrões mundiais, um generoso Estado de bem-estar social.
Essas constatações não significam, por sua vez, que a Europa tenha um único
modelo de reformas sociais. Ao contrário, é perceptível que a Europa convive com
distintos modelos de reformas sociais. Sapir (2005), ao tratar desse tema, ressalta
que:
1. O "modelo nórdico" (Dinamarca, Finlândia, Suécia e Holanda) tem os mais
elevados gastos públicos aplicados em proteção social e provisão de bem-
estar universal. Os mercados de trabalho são relativamente
desregulamentados, mas existem políticas "ativas" visando ao mercado de
trabalho, enquanto sindicatos fortes proporcionam um grau elevado de
igualdade salarial.
2. O modelo "anglo-saxão" (Irlanda e Reino Unido) proporciona uma
assistência social de última instância bastante generosa, com transferências
de dinheiro destinadas principalmente a pessoas em idade economicamente
ativa. Os sindicatos são frágeis e o mercado de trabalho é relativamente
desregulamentado.
3. O "modelo renano" (Áustria, Bélgica, França, Alemanha e Luxemburgo)
baseia-se em seguro social para os desempregados e na provisão de
aposentadorias. A proteção ao emprego é mais forte do que nos países
nórdicos. Os sindicatos também são poderosos ou desfrutam de apoio legal
para a extensão de resultados de negociação coletiva.
4. O "modelo mediterrâneo" (Grécia, Itália, Portugal e Espanha) concentra
gastos públicos no pagamento de aposentadoria de idosos. Forte
regulamentação protege (e diminui) o emprego, ao passo que generoso
apoio a aposentadorias antecipadas busca reduzir o número de pessoas em
busca de trabalho.
Essas distinções não são absolutas, mas a tipologia é reveladora. Os países
europeus adotam níveis elevados de proteção ao emprego (no modelo
mediterrâneo), e uma elevada cobertura de seguro-desemprego (nos modelos
anglo-saxão e nórdico), sendo o modelo renano um meio-termo. Em termos
comparativos, verificamos que a posição dos EUA é totalmente diferenciada em
relação a essas questões.
Numa avaliação preliminar, Sapir (2005) afirma que essas diferentes políticas
funcionam adequadamente na consecução de dois objetivos europeus
fundamentais: elevados níveis de emprego e eliminação da pobreza relativa.
Observa-se que, em relação ao primeiro objetivo, o modelo nórdico e o anglo-
saxão podem ser bem avaliados. O desempenho dos modelos renano e
mediterrâneo apresenta um funcionamento precário. Quanto ao segundo objetivo,
os modelos renano e nórdico têm bom desempenho e os mediterrâneo e anglo-
saxão funcionam de forma insatisfatória. Para Sapir a principal razão para o
desempenho insatisfatório do modelo anglo-saxão na redução da pobreza não é a
insuficiência de redistribuição fiscal, mas padrões educacionais insatisfatórios na
base.
O modelo nórdico é bom tanto para o emprego como para reduzir a pobreza, e o
modelo mediterrâneo é mau. Por outro lado, o modelo anglo-saxão é bom para o
emprego e mau para a redução da pobreza, ao passo que com o modelo renano
ocorre o contrário. Os modelos anglo-saxão e nórdico são eficientes (pelo menos
para o mercado de trabalho), ao passo que os modelos renano e nórdico são
igualitários.
Os modelos ineficientes podem também ser insustentáveis. Nesse sentido,
argumenta o autor que os países renanos e mediterrâneos têm proporções mais
elevadas de dívida pública em relação ao PIB, de 73% e 81%, respectivamente,
contra 36% no grupo anglo-saxão e 49% entre os nórdicos.
Registre-se que a importância dos países renanos e mediterrâneos é muito
grande: eles geram dois terços do PIB de toda a União Européia (UE) ampliada e
90% do PIB, em comparação com a zona do euro. Para Sapir, eles deveriam
tornar-se ou mais nórdicos ou mais anglo-saxões. A essência da mudança estaria
na eliminação da proteção explícita ao emprego. Proteção rigorosa do emprego é
particularmente inadequada em um período de rápidas mudanças econômicas,
quando velhas funções e práticas tradicionais já não predominam. É melhor
promover a empregabilidade do que proteger o emprego e, simultaneamente,
proporcionar seguro contra o impacto de curto prazo do desemprego.
Por sua vez, não existem dúvidas sobre o êxito dos países nórdicos. Mas todos
esses países (relativamente pequenos) têm populações com alto nível de
escolaridade e um comprometimento compartilhado com níveis excepcionalmente
elevados de bem-estar social provido pelo Estado. Na Dinamarca, Finlândia e
Suécia, a proporção de gastos públicos em relação ao PIB é superior a 50%.
Assim, em primeiro lugar, é perceptível que o modelo pode ser relevante para a
Alemanha ou para a França, mas sua aplicabilidade aos países mediterrâneos é
discutível. Em segundo lugar, o objetivo (implícito) dos modelos de bem-estar
social renano e mediterrâneo é proteger os empregos e rendas dos chefes de
família. O modelo anglo-saxão não alcança tal objetivo devido a desigualdades de
renda bastante maiores. As evidências indicam, em terceiro lugar, que a UE é, em
larga medida, irrelevante quanto a essas decisões, porque a estrutura dos Estados
de bem-estar social e as regulamentações dos mercados de trabalho continuam,
em maioria esmagadora, nas esferas nacionais.
Conclui-se, dessa forma, que a Europa tem modelos de política econômica que
parecem funcionar toleravelmente bem e oferecem algo bastante distinto de
"capitalismo selvagem". Isso é significativamente verdadeiro para o modelo
nórdico. A questão é em que medida outros países europeus podem adotar
quaisquer das alternativas aparentemente superiores. Uma questão parece
evidente, simplesmente opor resistência a mudanças é dos pontos de vista
econômicos e político uma atitude inadequada. Pode ser difícil para os europeus
aprenderem uns com os outros. Deixar de fazê-lo poderá revelar-se ainda mais
doloroso (Sapir, 2005).
5. Avaliando as reformas da gestão pública: uma perspectiva internacional
Para Pollitt e Bouckaert (2000), a tarefa de avaliar as reformas da gestão pública
numa perspectiva internacional é um exercício científico difícil e problemático. Para
os autores cinco problemas parecem emergir: a unidade de análise para uma
comparação internacional é menos óbvia do que parece. Níveis de governo são
diferentes de setores e de instrumentos e processos específicos. A unidade de
sentido é o segundo problema, pois pode ser que uma agência não seja uma
agência. A ausência e a qualidade dos dados, além das séries temporais
constituem outro conjunto de problemas. A multiplicidade de critérios para se
definir a reforma e a imponderabilidade da mudança é um outro problema
metodológico. Por fim, desenham um quadro rústico e classificam os esforços de
reforma em termos de quatro estratégias principais (quatro Ms): manter,
modernizar, "mercadificar" e minimizar.
Pollitt e Bouckaert (2001) argumentam que a intenção de avaliar as reformas de
gestão em todo o mundo é, por várias razões, uma tarefa quase impossível. Para
eles é compreensível que ela tenha sido tentada, por tão poucas vezes, e
geralmente por pessoas, como políticos, consultores em gestão e gurus, que se
sentem livres das inibições científicas da academia. Argumentam que a simples
frase "comparações internacionais" parece pressupor que Estados nacionais sejam
a unidade de análise mais apropriada para uma avaliação das reformas de gestão
pública.
No estudo que fizeram sobre 10 países, Pollitt e Bouckaert (2000) encontraram
fortes evidências das diferenças nacionais. Constatam que a new public
management (NPM) pode ter afetado muitos países, mas alguns teriam sido
afetados de forma mais profunda. Observa-se que mesmo aqueles países que
estão bastante influenciados por ela tendem a adaptá-la de forma quase individual,
para produzir receitas nacionais diversas. Essas diferenças são preocupantes, pois
países distintos têm diferentes pontos de partida, com histórias diversas, e seguem
trajetórias distintas.
Uma maneira de classificar os esforços de reforma é pensar em termos das quatro
principais estratégias que qualquer um pode usar. Elas são:
manter conservar a máquina administrativa tal como ela é, mas ajustar
e equilibrar sempre que possível;
modernizar realizar as mudanças mais fundamentais nas estruturas e
processos, por exemplo, mudando a orientação do processo orçamentário
de insumo para produto; criando novos tipos de organização do setor
público, como agências autônomas; modificando o contrato de trabalho dos
servidores públicos etc.;
mercantilizar introduzir mecanismos de mercado (market-type
mechanisms MTMs) no setor público, acreditando que eles vão gerar
eficiência e melhor desempenho (OCDE, 1993);
minimizar reduzir o setor estatal tanto quanto possível, fazendo o
máximo uso da privatização e da contratação externa. Os ativos públicos são
vendidos, e as atividades anteriormente desempenhadas por servidores
públicos são oferecidas aos setores comerciais e voluntários.
6. Formas de operacionalização das reformas
Na Grã-Bretanha os governos conservadores dos anos 1990 introduziram um
"mercado interno" para o Serviço Nacional de Saúde, de modo que os hospitais
tivessem que competir pelos pacientes em termos de preço e qualidade dos
serviços. Dessa forma, as atividades continuam dentro do setor estatal, mas as
organizações estatais são obrigadas a se comportar cada vez mais como
empresas do setor privado. Essa estratégia reflete a atitude pessimista com
relação ao potencial do setor público para a boa gestão e a legitimidade da
propriedade estatal.
Em termos gerais, os países "anglo-saxões" (Austrália, Estados Unidos, Nova
Zelândia e Reino Unido) foram além desses parâmetros e de forma mais rápida
pelos dois últimos caminhos (mercantilizar e minimizar) do que a maioria dos
países da Europa continental.
Verifica-se que ambas as estratégias tendem a criar maior resistência por parte
das organizações do setor público e sindicatos. A mercantilização e a minimização
são mais radicais e mais conflituosas do que a manutenção e a modernização. Os
ganhos possíveis são divulgados por seus proponentes como maiores, mas os
riscos de fracasso e de resistência são significativamente altos. Os países da
Europa continental preferiram um impulso central rumo à modernização,
temperado com uma pitada ocasional de mercantilização e privatização.
As reformas não-estruturais do modelo de proteção social europeu
O modelo europeu de proteção social (Solorio, 1998), baseado em princípios
pregados pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e pela Associação
Internacional de Seguridade Social (AISS), preconiza as reformas não-estruturais
que operam principalmente dentro dos sistemas gerais de seguridade social dos
países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Essas reformas não-estruturais baseiam-se em sete características principais:
redução das prestações gerais ou específicas, como forma de
compatibilizar os custos crescentes com redução da relação de
dependência. Em geral, atingem as aposentadorias de mais altos valores;
modificação na fórmula para o cálculo das prestações, geralmente
aumentando os anos necessários para a aposentadoria;
aumento da idade de aposentadoria, em combinação com aposentadoria
parcial, antecipada;
reajuste das prestações pelo índice do custo de vida ou outros índices;
taumento das alíquotas de contribuição, geralmente de um modo
progressivo; tigualdade de tratamento entre homens e mulheres;
aumento dos regimes complementares nos sistemas de seguridade
social.
As reformas, em geral, são implantadas progressivamente, em médio ou no longo
prazo (por exemplo, na Alemanha, o processo está previsto até 2030), ou de modo
consensual, com um pacto entre diversos setores sociais (por exemplo, na
Espanha, o Pacto de Toledo). O esforço que vem sendo desenvolvido é para
manter o sistema de bem-estar social estabelecido na Europa desde o final da II
Guerra Mundial. A certeza é que terá que ser reformado pelas condições impostas
pela globalização e pelas tendências demográficas.
Avaliação da previdência social na União Européia
As projeções indicam que os países da Europa (UE), em 2030, contarão com 20
milhões de pessoas a menos na sua força de trabalho. Os cálculos atuariais
mostram que o sistema previdenciário, mantida essa tendência, não poderá
suportar os gastos decorrentes dessas mudanças demográficas. Para as
autoridades da União Européia não existe alternativa: trabalhar até mais tarde, ou
redução no valor das aposentadorias. Será preciso, ainda, gerar estímulos para
aumentar a natalidade.
A Holanda, Áustria e Dinamarca reformaram seus sistemas de previdência, com
corte de alguns benefícios, mas mantiveram os direitos fundamentais e têm na
atualidade taxas baixas de desemprego e déficit. Entre os 15 países-membros
mais antigos da UE, os gastos médios variam de 25% a 30% do PIB com
benefícios sociais. A preocupação é com a qualidade do gasto.
7. O sistema de previdência social nos EUA
Nos EUA a "previdência social" é apenas um pilar do sistema de aposentadoria de
"três pilares", os outros dois são as previdências fornecidas pelas empresas e as
poupanças privadas. A utilização do termo "previdência social" na maioria dos
países latino-americanos bem como nos países europeus tem uma conotação
de assistência médica. Muitos sistemas de aposentadoria fora dos EUA oferecem
seguro-saúde nacional, pensões por invalidez e seguro-desemprego.
O trabalhador, nos EUA, aplica o seu dinheiro em um plano de previdência, a
empresa patrocinadora para qual ele trabalha costuma desenvolver o plano e
depois lhe dizer quais são suas opções de investimento. Nesse sentido, os
empregadores americanos assumem uma enorme responsabilidade ao traçar os
planos. É sabido que um sistema previdenciário bem estruturado deve ofertar
contas de baixo custo diversificadas e indexadas, além de uma administração
pouco dispendiosa. É a melhor proteção para o participante. A questão nos EUA,
em especial recentemente, tem sido como se proteger contra os denominados
"canalhas" do mercado.
8. As motivações da reforma da administração pública em Portugal
Portugal é um dos países da União Européia que aplica mais recursos na sua
administração pública, sem que sejam visíveis, em termos de eficiência e eficácia,
os resultados correspondentes. Apoiado nessa constatação é que o governo
português está propondo reformas na administração pública do país. A elaboração
de um diagnóstico recente foi o ponto de partida para a reforma que tem de ser
feita. Ele condensa o conjunto das grandes orientações que presidirão a reforma
da administração pública em Portugal.
A reforma visa prestigiar a missão da administração pública e os seus agentes, na
busca da exigência e da excelência; delimitar as funções que o Estado deve
assumir diretamente, com vantagem para o cidadão; promover a modernização
dos organismos, qualificando e estimulando os funcionários, inovando processos e
introduzindo novas práticas de gestão; introduzir uma nova idéia de avaliação dos
desempenhos, seja dos serviços, seja dos funcionários; apostar na formação e na
valorização dos funcionários públicos. Em síntese, o que se pretende é uma
administração ao serviço do cidadão, uma administração amiga da economia, uma
administração motivadora de todos quantos nela trabalham.
Portugal 2010: acelerar o crescimento da produtividade em Portugal
O objetivo do estudo "Portugal 2010" foi identificar as principais barreiras à
produtividade com base em uma análise aprofundada de nove setores
selecionados. A principal barreira identificada é a da informalidade, descrita como o
não-cumprimento das obrigações por parte dos agentes econômicos. Ela
representa perto de 28% do diferencial global de produtividade identificado como
"atacável", produzindo impactos muito significativos não apenas ao nível de
setores não-transacionáveis como a construção civil, mas também em setores
transacionáveis como a indústria automobilística.
A informalidade deve ser entendida como o conjunto de distorções ao
enquadramento competitivo e empresarial da economia resultantes da evasão por
parte de empresas e agentes econômicos a um conjunto de obrigações. Não se
trata apenas da existência de fenômenos de "economia paralela", mas de um
conjunto mais amplo de comportamentos freqüentemente verificados, como os
seguintes:
evasão fiscal, principalmente a impostos sobre o rendimento das
empresas e particulares (IRC e IRS) e ao imposto sobre o valor adicionado
(IVA);
evasão a obrigações sociais, como o não-cumprimento dos pagamentos
devidos à Segurança Social ou o não-pagamento de níveis de salário
mínimo;
evasão a normas de mercado, designadamente o não-cumprimento de
exigências de níveis mínimos de qualidade dos produtos, de normas de
segurança, de restrições ambientais, de direitos de propriedade etc.
Esta barreira tem impactos profundos na economia, muito para além dos
habitualmente discutidos nas receitas do Estado e da Segurança Social:
trabalho retido em atividades pouco produtivas. Agentes econômicos
menos eficientes detêm uma presença de mercado (quota de mercado)
superior à que obteriam se não se beneficiassem das vantagens de preço e
margem permitidas pela evasão fiscal e às obrigações sociais. Por exemplo,
no setor do varejo alimentar, os varejistas informais beneficiam-se de seis
pontos percentuais (cerca de 50% da margem) suplementares em termos de
rentabilidade das vendas face aos seus concorrentes formais;
maior produtividade do trabalho, resultando da distorção no custo relativo
dos fatores (tornando-se o fator trabalho mais barato pela evasão às normas
laborais e aos compromissos de Segurança Social);
distanciamento das melhores práticas domésticas e internacionais por
receio ou incapacidade de convivência dos agentes econômicos
internacionais com as práticas de informalidade e com a falta de
transparência vigente no mercado. Por exemplo, no setor da construção civil,
os players internacionais detêm uma quota de mercado residual,
representando menos de 3% do total do mercado;
dificuldade em estabelecer as condições e dimensões necessárias à
inovação e disseminação de melhores práticas, uma vez que os agentes
informais evitam o crescimento ou relacionamentos profundos com parceiros
ou financiadores, como forma de mais facilmente evitarem o escrutínio
externo de práticas de informalidade.
9. Experiência de redução da informalidade na Espanha
Na Espanha os níveis de informalidade eram significativamente elevados na
década de 1990. O governo espanhol desenvolveu um intenso programa de
redução da informalidade nas pequenas e médias empresas. Dessa forma
conseguiu aumentar de 75% a 100% a arrecadação dos tributos dessas pequenas
e médias empresas.
A criação do programa integrado espanhol de combate à informalidade teve como
base o seguinte conjunto de iniciativas:
racionalização do sistema fiscal, mediante simplificação do Código Fiscal,
facilitando a sua implementação e reduzindo os custos do seu cumprimento;
reforço dos mecanismos de auditoria (fiscal, segurança social, laboral
etc.), assegurando a integração das fontes de informação, e automatizando
os processos de verificação e referenciação cruzada de dados;
aplicação de penalidades acrescidas (monetárias e não-monetárias) nos
casos de evasão;
reforço da conscientização da opinião pública e empresarial para a
importância do cumprimento;
redesenho organizativo da administração pública, com vista a uma maior
especialização e integração das atividades de fiscalização e prevenção,
particularmente em setores com maior peso de informalidade.
10. Avanços e distorções na administração pública do Brasil
O processo de modernização da administração pública no Brasil, entre as décadas
de 1930 e 1990, seguiu alguns padrões, entre eles a fragmentação institucional e a
separação entre a formulação e a implementação política. A retórica da reforma
dos anos 1990 avançou do ponto de vista da utilização do conceito de governança
e dos princípios políticos que orientaram as propostas, quais sejam: participação,
accountability, controle social.
Apesar de ter ocorrido a transposição de técnicas de gestão do setor privado para
o setor público, a agenda mostrou-se bastante restrita, uma vez que a lógica do
processo decisório, que inclui formulação e implementação, não foi objeto da
reflexão política. A forma como a reforma foi idealizada e conduzida mostrou-se
falha, em especial pela insuficiência de mecanismos de coordenação política. Isso
contribuiu para manter a fragmentação de ações no campo da gestão pública.
A reforma do Estado brasileiro deflagrada em 1995 teve como objetivo tendo
parte integrante a reforma administrativa manter equilibradas as contas públicas
e, ao mesmo tempo, elevar a capacidade da ação estatal. A reforma propõe uma
reconfiguração das estruturas estatais baseada na substituição do modelo
burocrático de administração pública por um modelo gerencial.
Por tratar-se de um modelo pós-burocrático, buscou importar ferramentas de
gestão provenientes do setor privado, bem como a aplicação da lógica de mercado
dentro do setor público, focalizando o aumento da eficiência econômica do Estado.
Em harmonia com as experiências internacionais que estavam em curso, inicia-se,
assim, um amplo processo de revisão das formas de prestação dos serviços
públicos no Brasil.
A reforma gerencial no Brasil, inspirada no gerencialismo britânico, também
recebeu influência dos princípios da new public management (NPM). Assim, o
Plano Diretor de Reforma do Aparelho do Estado, coordenado pelo Ministério da
Administração e Reforma do Estado (Brasil, 1995), fortemente apoiado na new
public management e na progressive governance, incorporou muitos elementos do
paradigma neodesenvolvimentista. A implantação da NPM no Brasil procurou
delinear um novo padrão de gestão pública, a denominada "administração
gerencial", apoiada nos princípios da flexibilidade, ênfase em resultados, foco no
cliente e controle social.
Observa-se que no processo de transformação institucional no setor público
brasileiro, orientado nos últimos 15 anos, prevalece a visão do paradigma
neoliberal, tendo como referência a preocupação com o "ajuste fiscal". A face
pouco visível dessas recomendações é a geração de estímulos para promover o
desmantelamento do Estado brasileiro. Esse quadro evidencia, de forma
preocupante, as enormes dificuldades para encontrar novas alternativas e corrigir
disfunções de um Estado de direito inacabado. Esse Estado de direito, sobre o
qual se erigiram nossas instituições republicanas, federativas e democráticas,
apresenta enormes imperfeições estruturais, especialmente nos âmbitos da
Justiça, das instituições políticas, da forma e regime de governo, e em especial no
campo social, onde não tem sido capaz de reduzir as desigualdades e promover a
inclusão social.
O efetivo exercício do poder no Brasil depende da capacidade do Poder Executivo
de propor e implementar uma agenda de governo. No Brasil a paralisia do
Executivo diferente do que ocorre no parlamentarismo tipicamente europeu, no
âmbito do qual a integração Executivo-Parlamento é patente; e diferentemente do
presidencialismo norte-americano, onde o Legislativo compete com o Executivo na
formulação e supervisão da implementação das políticas públicas conduz ao
vácuo ou à predação política.
Na gestão pública, o país nunca chegou a ter um modelo de burocracia pública
consolidada. Constata-se a existência de um padrão híbrido de burocracia
patrimonial. Há uma trajetória de construção burocrática e outra de construção
democrática, mas ambas parecem reciprocamente disfuncionais (Martins, 1997). É
perceptível que o Estado patrimonialista está fortemente presente na cultura
política brasileira e se manifesta no clientelismo, no corporativismo, no fisiologismo
e na corrupção.
A crise da burocracia pública brasileira permeia as dimensões da estratégia (foco e
convergência de programas e ações), da estrutura (lenta, excessiva em alguns
setores, escassa em outros), dos processos (sujeitos às regras padronizadas
altamente burocratizadas), das pessoas (com inúmeras distorções relativas à
distribuição, carência, qualificação e remuneração), dos recursos (inadequados,
desde os logísticos e instalações à tecnologia da informação, embora haja focos
de excelência) e da cultura (excessivamente burocrática e permeável às práticas
patrimonialistas).
O processo de formulação e implementação de políticas públicas
A capacidade da administração pública de realizar e obter resultados em benefício
da sociedade depende, em geral, do modo como se encontra estruturada. É sabido
que a organização é o ponto de partida para o sucesso da administração pública.
Nesse esforço de se organizar está implícita a necessidade de definir com clareza
a dimensão, o papel e as funções do Estado. Um Estado com dimensões
excessivas e que interfere em todas as áreas tende a não cumprir adequadamente
as suas funções. Nesse contexto, um Estado moderno é aquele que tem a
capacidade de distinguir as funções essenciais que somente cabe ao Estado
executar, das funções acessórias, que podem ser exercidas por outras entidades,
sob a supervisão do Estado, bem como as funções inúteis que, como tal, não faz
sentido nem têm razão de ser executadas (Matias-Pereira, 2003).
Na análise de políticas de gestão pública é essencial levar em consideração o
exame do processo de formulação e de implementação de políticas. Os aspectos
que envolvem a fragmentação e a formação de consensos para reformas da
gestão pública tendem a conduzir à preocupação com a racionalidade que permeia
o processo de formulação e de implementação de políticas.
Os temas que integram a agenda da gestão como, por exemplo, recursos
humanos, logística, planejamento e orçamento, são entendidos como de domínios
técnicos especializados. Essa especialização, por sua vez, vem sendo reproduzida
na definição de funções e na estrutura organizacional que apóia o processo de
decisão política nesse campo. É sabido que a especialização do conhecimento não
é obstáculo a uma ação articulada de diversos atores individuais, portadores de
conhecimentos especializados. Uma enorme rede de atores e de organizações
integra os esforços de implementação do processo de políticas. Isso é salutar no
âmbito da gestão pública, visto que a definição de problemas e as aplicações de
soluções resultam de uma ação coletiva. À medida que aumenta o número de
atores, maior será a complexidade do processo político e o desafio de
coordenação das ações.
Observa-se que o tema "reforma da administração pública no Brasil" tem estado
presente, especialmente após 1995, nos debates e na agenda política do país.
Essas reformas, que deixaram muito a desejar, retomam com maior intensidade na
primeira década do século XXI, visto que uma nova sociedade e uma nova
economia exigem uma administração pública mais competitiva, eficiente e
transparente.
Tendo como base de apoio uma estrutura pesada, burocrática e centralizada, a
administração pública brasileira não tem sido capaz de responder, como
organização, às demandas e aos desafios da modernidade. As evidências
disponíveis sinalizam como resultado dessas deficiências e distorções:
uma reconhecida incapacidade de satisfazer, de forma eficaz e
tempestiva, as necessidades dos cidadãos;
uma forma de funcionamento que prejudica a concorrência e a
competitividade internacional do país e das empresas;
falta de coerência do modelo de organização global;
processos de decisão demasiado longos e complexos, que impedem a
resolução, em tempo útil, dos problemas dos cidadãos e que criam
desconfiança em matéria de transparência e de legalidade;
falta de motivação dos funcionários e desvalorização do próprio conceito
de missão de serviço público.
Choque de gestão na administração pública: diagnóstico
É perceptível, na atualidade, que a intenção do governo federal de implementar um
novo processo de planejamento, com participação social, não conseguiu atingir os
seus propósitos de estimular a modernização da administração pública. Na medida
em que essa modernização não se efetivou, e na tentativa de retirar o governo da
inércia instalada no governo federal em grande parte provocada por inúmeras
denúncias de corrupção , destaca-se a proposta de realizar um choque de gestão
na administração pública.
Por sua vez, observa-se que o governo federal encontra-se num dilema, diante de
suas próprias contradições e ineficiências. Tomar decisões corretas, principalmente
sobre assuntos técnicos, exige uma administração pública profissional. Os sinais
de que isso não ocorre na atualidade está evidenciado em: debates estéreis,
criação sistemática de grupos de trabalho, conselhos e disputas políticas
localizadas, que são divulgados pela mídia diuturnamente. Evidencia-se que a
decisão do governo de nomear seletivamente os dirigentes sindicalistas e os
membros do Partido dos Trabalhadores para ocupar a maioria dos cargos de
direção na máquina pública do Estado com 34 ministérios, 189 órgãos da
administração indireta, 11 agências e 11 bancos, e 1,8 milhão de servidores civis e
militares , sem levar em consideração a competência técnica, foi uma decisão
política equivocada. É sabido que qualquer governo, para atender adequadamente
às demandas da sociedade, necessita contar com uma administração pública
profissional. Com a politização da administração pública direta e indireta brasileira
verifica-se que o desempenho governamental foi prejudicado.
As avaliações recentes sobre o desempenho da administração pública no Brasil
indicam que o ponto de estrangulamento do governo federal encontra-se no campo
operacional, visto que a administração pública para obter sucesso nas suas
políticas públicas depende da competência de seus funcionários. Programas e
projetos com deficiências de "gestão" tendem a dificultar o alcance dos objetivos
das políticas públicas, além de propiciar a geração de corrupção. Um choque de
gestão na administração pública deve ter como propósito a modernização do
Estado, para torná-lo menos burocrático e mais competitivo. Por meio da eficiência
na administração dos recursos públicos, buscará o governo solucionar um maior
número de demandas da sociedade, que devem estar traduzidas nas suas
políticas públicas contidas no orçamento da União.
Assim, o propósito do governo federal de realizar um "choque de gestão" em curto
prazo não é uma medida factível. A complexidade e extensão de ações que serão
necessárias para viabilizar um projeto dessa envergadura, que necessita ser
discutido intensamente com a sociedade organizada, somente irão produzir
resultados em médio e longo prazos. Um choque de gestão no Brasil exige que
sejam reexaminadas as distorções provocadas pelos custos de uma carga
tributária próxima de 40% do PIB nos três níveis de governo: federal, estados e
municípios , com baixo retorno dessa arrecadação para a sociedade. Exige,
também, que sejam adotadas medidas para reduzir as dificuldades na vida dos
cidadãos, com imposições burocráticas perversas e injustificadas.
A demora de quase seis meses para a abertura de uma empresa ou a cobrança de
61 diferentes espécies de tributos fatores que prejudicam o funcionamento da
economia evidenciam que o Estado brasileiro não está contribuindo de forma
adequada para estimular o país a avançar rumo à modernidade econômica. É
irreal imaginar que um "choque de gestão", apoiado apenas na imposição de
seletividade nos gastos públicos e na definição de metas fiscais como o aumento
do superávit primário para 4,75% do PIB nos próximos três anos , será suficiente
para viabilizar um programa de estabilização e crescimento. Não se pode ignorar
que a busca de um Estado moderno e inteligente, menos burocrático e que
incentive a competitividade, passa pela continuidade da reforma do Estado,
redução drástica da burocracia e realização de reformas estruturais nos campos:
tributário, previdenciário, judiciário e político, entre outros. Essa é uma tarefa
permanente, que perpassa vários governos.
11. Conclusões
Este artigo buscou responder a questão: quais foram os resultados das reformas
gerenciais no Brasil, nos EUA e na União Européia, partindo de uma perspectiva
comparada? Existem evidências de que o modelo de reforma administrativa
implementado nos países selecionados neste artigo, sob a ótica neoliberal, não se
mostrou capaz de resolver adequadamente os problemas da administração
pública.
A experiência da reforma administrativa que vem sendo implementada na Grã-
Bretanha mostra que a reforma naquele país não tem fim. Apesar da intensa
reforma gerencial realizada nas duas últimas décadas, os resultados não podem
ser aceitos como satisfatórios. Isso fica explícito nas declarações do governo
trabalhista de Tony Blair, que tem sinalizado que é necessário mensurar mais,
desenhar melhor as metas, mais avaliação, mais tecnologia da informação, mais
mudança cultural para o servidor público (White Paper). Por sua vez, as inúmeras
reformas administrativas implementadas na França evidenciam que houve
mudanças, mas os elementos de continuidade, como a centralização dos grands
corps e seu tipo particular de profissionalização tecnocrata, ou a força política dos
sindicatos do serviço público, continuam presentes. A mudança negociada, seja
incremental ou gradual, tem sido a norma na Alemanha, nos Países Baixos e nos
Estados nórdicos.
Existem indícios de que a NPM, na prática, tenha sido prejudicada pelo
amadorismo dos seus proponentes no seu próprio campo de desempenho. Em
teoria, a NPM está totalmente ligada à melhoria do desempenho fazer os
governos mais conscientes em relação a custos, eficientes, eficazes,
compreensivos, voltados à satisfação do cliente, flexíveis e transparentes. Na
prática, porém, os esforços orientados para mensurar se realmente houve melhoria
no desempenho ficaram muito abaixo do esperado. Isso pode ser constatado no
caso britânico, onde o governo não realizou diversas avaliações no conjunto de
reformas orientadas por desempenho.
Uma avaliação, sob um prisma mais amplo, evidencia que houve mudança
estrutural e uma evolução cultural nos países que deram mais impulso às idéias da
NPM Austrália, Nova Zelândia e Reino Unido. Mesmo neles, fortes elementos de
continuidade podem ser identificados, depois de mais de 20 anos de reforma,
demonstrando que colaboraram muito pouco em termos de estabilidade ou
satisfação. A especulação sobre a existência de uma nova cultura ainda não está
comprovada.
No que se refere ao Brasil, podemos argumentar que o modelo de reforma do
Estado dual e linear , implementado sob a ótica neoliberal, não se mostrou
capaz de resolver adequadamente os problemas socioeconômicos do país. Ficou
evidenciado que, em geral, além da ausência de vontade política dos governantes,
as reformas apoiadas em decisões pontuais e casuísticas se apresentaram
desarticuladas e incoerentes. Os custos dessas distorções se refletem na
capacidade de competitividade do país, na vida dos cidadãos e na motivação dos
funcionários públicos.
Artigo recebido em nov. 2005 e aceito em set. 2006.
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Datas de Publicação
Publicação nesta coleção
08 Abr 2008
Data do Fascículo
Fev 2008
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Aceito
Set 2006
Recebido
Nov 2005
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