► CAPÍTULO 2
Medicina de família e comunidade
como especialidade médica e
profissão
Gustavo Gusso
João Werner Falk
José Mauro Ceratti Lopes
Aspectos-chave
► A medicina de família e comunidade (MFC) tem suas origens, no
Brasil, na década de 1970.
► A MFC se chamava medicina geral comunitária até 2002.
► A história da MFC no Brasil é sustentada por programas de residência
até os anos 2000; em seguida, a Estratégia Saúde da Família (ESF)
impulsiona com o mercado de trabalho.
► A Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade
(SBMFC) passou por períodos de inatividade, tendo sido reativada
definitivamente em 2001.
► A MFC é uma especialidade reconhecida pela Comissão Nacional de
Residência Médica (CNRM), pelo Conselho Federal de Medicina
(CFM) e pela Associação Médica Brasileira (AMB).
Primeiros projetos
Pode-se dizer que o Brasil é um país vocacionado à prática da medicina
comunitária. Desde antes da conferência de Alma Ata, que ocorreu em 1978,1
algumas iniciativas já possuíam muitos princípios da atenção primária à saúde
(APS) como são conhecidos hoje.
As instituições começaram a organizar-se no Brasil em 1808, com a vinda do
rei Dom João VI,2 que fugia do cerco perpetrado por Napoleão. No Brasil, já
existiam as santas casas, que, oriundas de Portugal, eram ligadas à igreja católica
e focavam no tratamento dos miseráveis e inválidos. Com a instalação da corte
real no Brasil, iniciou-se um processo de regulação oficial da prática médica.
Dado o tamanho do país, desde o início, houve alguma tensão e uma alternância
entre ações centralizadoras e descentralizadoras. Outra preocupação central era
com ações de prevenção de doenças tropicais: assim, em 1900, foi fundado o
Instituto Soroterápico Federal, cuja responsabilidade era fabricar soros e vacinas,
e que, em 1918, passou a se chamar Instituto Oswaldo Cruz (hoje, Fundação
Oswaldo Cruz [FIOCRUZ]) em homenagem ao seu fundador, o sanitarista
Oswaldo Cruz, precursor das campanhas de vacinação em massa no Brasil.
Essas campanhas sanitárias levaram, em 1904, à Revolta da Vacina, quando uma
parte da população não queria ser vacinada pelas brigadas sanitárias, que
contavam com policiais, além de profissionais da saúde.
No primeiro período republicano, em 1923, foram constituídas as Caixas de
Aposentadorias e Pensões (CAPs), em que o trabalhador usava uma rede de
serviços de acordo com a empresa a qual estava vinculado. Era o embrião de um
sistema de saúde inspirado no modelo bismarckiano (ver Cap. 7, Organização da
atenção primária à saúde em outros países). Na década de 1930 em um período
conturbado governado por Getúlio Vargas, foi instituído o Ministério da
Educação e Saúde, e as CAPs foram unidas em Institutos de Aposentadorias e
Pensões (IAPs), sendo que os trabalhadores não usavam os serviços de acordo
com a companhia a que eram vinculados, mas sim de acordo com a categoria
profissional. O Ministério da Saúde (MS) só foi constituído e separado do
Ministério da Educação em 1953, quando o presidente era novamente Getúlio
Vargas, agora eleito pelo voto direto. Da década de 1950 até a constituição de
1988, o MS era responsável pelas ações de prevenção, ao passo que o Ministério
do Trabalho e da Previdência Social era responsável pela assistência. Os IAPs
ficaram sob a responsabilidade desse segundo Ministério e, na década de 1960,
foram fundidos em um único órgão, chamado Instituto Nacional de Previdência
Social (INPS), ainda de inspiração bismarckiana, que marcou o período da
ditadura militar entre 1964 e 1985. Essa instituição arrecadava recursos (uma
contribuição específica) junto aos empregadores e trabalhadores e pagava os
hospitais e municípios que faziam a assistência por produção (fee for service),
por meio do Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social
(INAMPS) – um dos vários órgãos do Ministério da Previdência e que tinha
sempre orçamento muito maior do que todo o MS. Foi um período marcado por
muitas suspeitas e histórias de corrupção. Os que não contribuíam com a
previdência, como trabalhadores rurais, desempregados e inválidos, não tinham
direito ao acesso aos serviços remunerados pelo INAMPS, ou seja, tinham de
recorrer às santas casas e demais organizações religiosas para se tratarem, nos
raros municípios onde existiam.
A separação das ações de prevenção de doenças e promoção à saúde das ações
de assistência e tratamento marca a história sanitária brasileira e tem reflexos até
os dias atuais. Em 1988, a Constituição,3 vigente hoje, mudou o modelo de
financiamento para impostos gerais (de inspiração beveridgiana) e, finalmente,
tanto a atenção à saúde quanto as ações de prevenção e promoção ficaram sob a
responsabilidade do MS.
Na década de 1970, em plena ditadura militar, os primeiros embriões de um
sistema de saúde universal e territorial, como posteriormente integrado à
Constituição de 1988, começaram a aparecer. Em nível macro, várias iniciativas
visavam à integração das ações para algo mais próximo, o que passou a ser
conhecido como Distritos Sanitários Inseridos em um Sistema Nacional de
Saúde (1975), Programa de Interiorização das Ações de Saúde (PIAS, 1976),
Programa Nacional de Serviços Básicos de Saúde (PREV-SAÚDE, 1980), Plano
de Reorientação de Assistência à Saúde no Âmbito da Previdência Social (Plano
CONASP, 1982), Programa das Ações Integradas de Saúde (PAIS, 1983) e
Ações Integradas de Saúde (AIS, 1984).4
Na década de 1970, muitos movimentos locais ajudaram a impulsionar o que
se passava no nível macro. Um dos que merecem destaque é o Projeto Montes
Claros, que ocorreu na região da cidade de mesmo nome e confluiu diversas
iniciativas e pessoas, como um casal de missionários americanos e inúmeros
profissionais de saúde pública que começavam suas carreiras. Além de receber
apoio dos programas de saúde nacionais vigentes, também foi incentivado por
instituições americanas, como a Fundação Kellogs, ou mesmo a Organização
Pan-Americana de Saúde (OPAS). Outros projetos com foco em saúde
comunitária aconteciam ao mesmo tempo em Vitória de Santo Antão (PE), Natal
(RN), Porto Alegre (RS), Rio de Janeiro (UERJ), Vale do Ribeira (SP), Paulínia
(SP) e Londrina (PR)5 – muitos deles também incentivados por fundações
americanas, como Kellogs e Rockfeller.
Nessa mesma época, na segunda metade da década de 1970, começou um
movimento de estruturação das residências médicas no Brasil, que acontecia em
hospitais de forma não regulada desde a década de 1940. Residências em
medicina comunitária começaram a tomar forma em alguns desses projetos,
como em Vitória de Santo Antão (UFPE), Rio de Janeiro (UERJ) e em Porto
Alegre (São José do Murialdo). As iniciativas não foram coordenadas por uma
ação central, mas tinham relação com o movimento de medicina comunitária que
acontecia nos EUA e também com o pioneirismo de alguns professores idealistas
que vinham de diversas áreas. Uma das primeiras lideranças a destacar é a do
professor Ellis Busnello, que, como psiquiatra, tinha interesse pela área da
Psiquiatra Comunitária e Social e ingressou, em 1966, no grupo do Centro
Médico São José do Murialdo, posteriormente Unidade Sanitária Escola
Murialdo (desde lá conhecido como “Murialdo”). A OPAS observou essa
iniciativa e apoiou o projeto, oferecendo um curso de mestrado para o professor
Busnello na School of Hygiene and Public Health, da John Hopkins University.
Nos EUA, teve a oportunidade de estagiar em diversos centros de saúde mental
comunitária, como Harvard, Yale e Albert Einstein. De volta ao Brasil, em 1972,
Busnelllo passou a dirigir o Murialdo e, entre 1972 e 1974, coordenou a
elaboração do chamado “Projeto de um Sistema de Saúde Comunitária”, que
tinha 11 objetivos básicos, consequentemente, 11 grupos de trabalho
responsáveis. O objetivo geral era “elevar os níveis de saúde da população da
área geográfica de abrangência do centro com o atendimento integral
(preventivo, curativo e reabilitador), continuado, personalizado e participativo”.6
O público-alvo estava estimado em 28.850 pessoas, e o projeto passou a se
chamar “Modelo de Sistema de Saúde Comunitária”. Os 11 objetivos eram:7,8
1. Organizar cinco equipes primárias, cada uma composta por dois médicos
comunitários, quatro auxiliares de saúde em tempo integral e número
variável de voluntários da saúde (pessoas da comunidade treinadas em
serviço).
2. Delimitar cinco áreas geográficas, com população de cerca de 5 a 6 mil
habitantes, a serem servidas por uma equipe primária (aproximadamente
1.200 famílias).
3. Transferir as equipes primárias para Postos Avançados no interior de cada
uma das cinco áreas.
4. Promover a interação das equipes primárias por meio de visita domiciliar,
participação em reuniões comunitárias e levantamento das necessidades e
dos recursos da área.
5. Modificar os objetivos dos Serviços Especializados do Murialdo,
integrando algumas das suas funções às das equipes primárias, evitando o
atendimento direto dos pacientes pelas equipes especializadas; iniciar a
assessoria técnica e o treinamento pelas equipes especializadas para as
equipes primárias.
6. Reorganizar administrativamente o Murialdo para se adequar à nova
filosofia de trabalho: delegação da autoridade, do processo decisório, do
controle e implementação do sistema e da avaliação.
7. Estabelecer um Sistema de Treinamento em Serviço por meio da
organização de um Estágio de Treinamento Unificado (estágio
multiprofissional) permanente e global para as equipes primárias e para as
equipes especializadas, com base na avaliação do seu desempenho e na
solução dos problemas de saúde considerados prioritários para aquelas
populações da sua área de abrangência.
8. Organizar um estágio multiprofissional para estudantes de cursos de
graduação nas áreas da saúde e afins, com base no treinamento em
serviço, aproximando os diversos profissionais da saúde.
9. Desenvolver um Programa de Residência em Saúde Comunitária,
sobretudo para profissionais da saúde, com ênfase nos médicos.
10. Promover a realização e divulgar estudos e pesquisas sobre a realidade
médico-social da área de atendimento do sistema.
11. Promover o estabelecimento de um Hospital Comunitário, como
retaguarda aos postos de saúde e ao centro de saúde.
Um dos objetivos era a subdivisão da área em cinco subáreas, cada uma sob a
responsabilidade de uma equipe multiprofissional, que seria chamada “equipe
primária”. Cada subárea deveria abrigar um Posto Avançado de Saúde, que seria
construído ou alugado, e o Centro de Saúde original serviria de apoio ou
gradativamente se tornaria um centro secundário. Este também passou a abrigar
a parte administrativa, bem como as atividades de ensino e pesquisa. A partir de
1976, foi instituído o Programa de Residência Médica em Saúde Comunitária,
que aconteceria paralelamente aos cursos de especialização das outras categorias
profissionais. Os líderes do projeto eram Ellis Busnello, Isaac Levin, Sérgio
Rushel e Patrícia Bradley, com a assessoria de Jorge Carbajal, os quais
convidaram Carlos Grossman, internista renomado e com grande vínculo com os
pacientes, para assumir a residência médica. Grossman precisou recorrer à
Cooperativa Tritícola de Ijuí (COTRIJUI), e Busnello, ao Serviço Social da
Indústria (SESI), para o pagamento das bolsas da residência do Murialdo por
alguns anos, até conseguirem o financiamento da Secretaria Estadual da Saúde
do Rio Grande do Sul. O projeto determinava que o Programa de Residência
Médica completasse a formação do médico, em termos de conhecimentos, de
atitudes e de habilidades necessários para que este profissional:9,10
● Utilizasse métodos clínicos, epidemiológicos, administrativos e sociais.
● Proporcionasse cuidados personalizados, contínuos e integrais à saúde
física, mental e social de uma população numérica e geograficamente
definida, por meio de medidas de prevenção primária, secundária e
terciária dirigidas a pessoas, famílias e comunidade.
● Atendesse diretamente a maior parte (90%) da demanda de serviços de
saúde da população, com a colaboração de uma equipe primária de saúde.
● Estimulasse o atendimento do restante da demanda (10%) por meio do
referenciamento a outros níveis do sistema de saúde ou a outros setores,
mantendo a responsabilidade pela execução e pela avaliação dos serviços
prestados.
● Promovesse a identificação de problemas de saúde, o estabelecimento de
prioridades, a programação de atividades e a avaliação dos resultados,
colaborando com a comunidade para essas ações.
Nessa mesma época, outras instituições, como a Universidade Federal de
Pernambuco (UFPE), em Vitória de Santo Antão, e a Universidade Estadual do
Rio de Janeiro (UERJ), no próprio Rio de Janeiro, começaram programas
semelhantes com nomes diferentes, como medicina comunitária e medicina
integral, respectivamente, sob a liderança de Guilherme Montenegro Abath e
Ricardo Donato Rodrigues. Desse momento em diante, além de Pernambuco,
Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, foram surgindo, no Brasil, muitas
experiências localizadas e não articuladas entre si, como em Petrópolis (RJ),
Vitória (ES), Natal (RN), Cotia (SP), Teresina (PI), São Luiz (MA), Pelotas
(RS), Sete Lagoas (MG), Joinville (SC), entre outros.
Embora ocorresse desde a década de 1940, a residência médica no Brasil só
seria regulamentada a partir de 1977 por meio de um decreto presidencial que
instituía a CNRM e definia como prioritárias as residências de clínica médica
(medicina interna), cirurgia geral, pediatria, ginecologia e obstetrícia e medicina
preventiva e social.11 A regulamentação foi complementada em 1981 com uma
lei específica, que definia carga horária máxima de 60 horas semanais, sendo
que, dessas, no máximo 24 horas poderiam ser de plantão.12 Essa legislação era
uma reinvindicação também do movimento de residentes dentro do contexto da
ditadura militar e do desrespeito aos direitos humanos e dos trabalhadores. Em
1981, a CNRM reconheceria uma série de especialidades, entre elas a medicina
geral comunitária,13 o nome usado para a especialidade até 2002.
Tais iniciativas antecederam a Conferência de Alma Ata, que foi importante
para agregar experiências e divulgar a necessidade de se estruturar a APS. No
início da década de 1980, muitos grupos e instituições começaram a implementar
residências de medicina geral comunitária. Algumas deram sequência, com
muita dificuldade, como o programa da Universidade Federal do Rio Grande do
Norte (UFRN), ao passo que outras não seguiram adiante, como a experiência de
Cotia, próxima a São Paulo, que formou inúmeras lideranças enquanto esteve
ativa. A iniciativa de maior destaque, que começou um pouco antes da
regulamentação da residência médica, em 1981, com o nome medicina geral e
logo adotou o nome oficial medicina geral comunitária, foi feita pelo Grupo
Hospitalar Conceição (GHC), em Porto Alegre. Era um hospital privado que foi
federalizado em 1975 pelo governo militar devido às dívidas com o então
INAMPS. Um dos dirigentes do GHC na ocasião era Carlos Grossman, que
havia participado da estruturação da residência no Murialdo. Grossman tinha
feito residência em medicina interna em Washington, na década de 1950, sendo
um médico de enorme reputação. Atendia inúmeros políticos e tinha um forte
vínculo com as pessoas que atendia, passando boa parte do seu tempo no
consultório, no hospital ou ao telefone com pacientes. Ele começou a planejar a
residência em medicina geral do GHC tentando equilibrar a faceta clínica
(focada no indivíduo) com a comunitária (focada na saúde populacional).
Uma provável chave do sucesso do Serviço de Saúde Comunitária (SSC) do
GHC foi que, desde o início, Carlos Grossman, sem um planejamento bem
definido, foi abrindo unidades de saúde com apoio da comunidade e
imediatamente incorporou os egressos da residência. Os primeiros egressos são
preceptores até hoje. Como Grossman atendia a elite e os políticos, ele recebeu
muito apoio nessa fase inicial. Um dos políticos que deu suporte foi Pedro
Simon, paciente de Grossman, governador do Rio Grande do Sul, ainda na
década de 1980.
Uma história
Há histórias interessantes contadas pelos primeiros egressos, mas
que carecem de referências. Entre o final da década de 1970 e
início de 1980, os residentes organizavam diversas greves e
manifestações cobrando melhores condições de trabalho e a
regulamentação da residência médica. Todo sistema de saúde
público era, na época, de base bismarckiana e gerido pelo INAMPS
– que também financiava as bolsas de residência do país todo. O
INAMPS estava sob a responsabilidade do Ministério da
Previdência Social e o ministro era o gaúcho Jair Soares, que havia
sido secretário estadual da saúde e depois viria a ser governador
do Rio Grande do Sul. Certa vez, ele foi de avião a Porto Alegre,
onde foi recebido por um enorme protesto de residentes que
haviam fundado a Associação Nacional de Médicos Residentes
(ANMR). Eles não permitiram a saída do ministro, que teve de
pegar uma Kombi ainda na pista de pouso para sair pelos fundos.
Grossman conseguiu entrar nessa Kombi, e após o ministro
ameaçar que cancelaria todas as bolsas de residência (era o
período militar), Grossman propôs que ele mantivesse ao menos as
de medicina geral, que estavam começando. Finalmente, o ministro
concordou e, naquele ano (1981), no GHC, só teve vagas para
medicina geral (que no mesmo ano passou a ser chamada
medicina geral comunitária [MGC]).
Em dezembro de 1982, foi implantada a primeira Unidade de Medicina de
Família do GHC em Porto Alegre, quebrando alguns paradigmas: era localizada
dentro de instituição hospitalar tradicionalmente centrada em especialidades,
fornecia atendimento universal para uma população geograficamente delimitada
e circunvizinha ao hospital e dispunha de área de internação sob a
responsabilidade dos médicos gerais comunitários. Sua concepção foi resultado
de projeto elaborado por Carlos Grossman, Carlos Francisco Correa Dora e José
Mauro Ceratti Lopes, estes dois últimos egressos da primeira turma de
residência. O professor José Mauro ficou na mesma unidade desde que cursou a
residência no início da década de 1980 até sua morte em 2017, sendo que
também vivia na região em que trabalhava.
A criação de mais 12 unidades nos anos seguintes, por demanda da
comunidade, originou o atual SSC do GHC.14 Durante esses mais de 30 anos, o
SSC do GHC teve de superar muitas dificuldades. No início do projeto, Carlos
Grossman pediu a colaboração do British Council, que enviou alguns destacados
médicos de família britânicos. O que provavelmente mais se envolveu com o
projeto foi Andy Haines, que anos mais tarde viria a ser reitor da London School
of Hygiene and Tropical Medicine. Alguns general practitioners britânicos que
colaboraram foram Anita Berlim e Cecil Helman – que se tornou um renomado
médico-antropólogo. Eles orientaram a criação de listas de pacientes e a praticar
o que viria a ser chamado medicina centrada na pessoa, ou seja, com o paciente
no centro do cuidado.
Na segunda metade da década de 1980, já se discutia sobre se a formação do
generalista seria pela graduação, por uma residência específica ou ainda por
meio da residência de medicina preventiva e social.15,16 Essa discussão ainda
sobrevive, em especial no âmbito da Associação Brasileira de Educação Médica
(ABEM). Os sanitaristas lideravam o processo de reforma do sistema de saúde e
ao final da ditadura tinham angariado muito poder político. De certa forma, viam
a medicina geral comunitária como uma concorrente. O primeiro Congresso
Brasileiro de MGC, realizado em Sete Lagoas (MG) em 1986 (mesmo ano da
emblemática 8a Conferência Nacional de Saúde que decidiu mudar o sistema de
saúde brasileiro de bismarckiano para beveridgiano inspirado nos Sistemas
Nacionais de Saúde), foi especialmente conflituoso. Muitos sanitaristas
estiveram presentes e rejeitavam a ideia de uma especialidade médica que
visasse à formação do generalista por meio da residência.17 Esse conflito levou o
INAMPS, cuja presidência era ligada à Associação Brasileira de Pós-graduação
em Saúde Coletiva (ABRASCO), a cancelar as bolsas de residência em medicina
geral comunitária no país, na época uma especialidade em franca expansão, para
se concentrar nas residências de medicina preventiva e social, que tinham um
enfoque mais populacional.18 Nessa época, as universidades haviam criado os
departamentos de medicina preventiva e social, com diferentes denominações,
impulsionadas pela Lei da Reforma Universitária de 1968. Os únicos programas
em medicina geral comunitária que conseguiram sobreviver foram aqueles que
não dependiam totalmente do INAMPS, como os com bolsas de secretarias
estaduais de saúde (como o Murialdo) e raros de universidades federais. Porém,
muitas residências e experiências exitosas, como Cotia, em São Paulo, não
conseguiram manter-se e descontinuaram seus projetos; outras mudaram o nome
e o foco para medicina preventiva e social. A disputa e a confusão conceitual
entre medicina preventiva e medicina de família, e uma falsa dicotomia entre
saúde coletiva e saúde individual, se mantiveram até os anos 2000, sendo que,
apenas a partir dessa época, passou a ser mais bem definida por meio da
produção científica conduzida pela Sociedade Brasileira de Medicina de Família
e Comunidade (SBMFC).
Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade
A Sociedade Brasileira de Medicina Geral Comunitária (SBMGC) foi fundada
em 1981, ano do reconhecimento da especialidade. O primeiro presidente foi
Ellis Busnello, e os tesoureiros, Guilherme Abath e Kurt Kloetzel. Houve
inúmeras ativações e reativações,19 sendo que nos primeiros 20 anos de
existência aconteceram cinco congressos nacionais, e alguns números da revista
científica foram publicados. Uma das reativações ocorreu durante a 8a
Conferência Nacional de Saúde, em março de 1986, em Brasília,20,21 sendo
eleita a nova diretoria, pela primeira vez composta só por médicos gerais
comunitários e presidida por João Werner Falk, passando a sede para Porto
Alegre.22
No mesmo ano, foi fundada a Sociedade Gaúcha de Medicina Geral e
Comunitária (SGMGC), que passou a ajudar a SBMGC em tarefas e eventos.
Outras sociedades estaduais dessa especialidade também foram organizadas, mas
não chegaram a ser registradas. No ano de 1987, foi criada a Revista Brasileira
de Medicina Geral Comunitária, que nessa ocasião publicou um só número,23
pois foi desativada meses depois.
Dando sequência às atividades científicas e aos debates intensos, a SBMGC
promoveu o 2o e o 3o Congresso Brasileiro de Medicina Geral Comunitária,
respectivamente em Florianópolis (SC), em 1987, e em Ouro Preto (MG), em
1988.24,25
Nessa fase, intensificaram-se as críticas à MGC, tanto de grande parte da
“corporação médica” e da “direita” (considerando-a como “medicina de
comunista” estatizante) quanto da ABRASCO, de muitos sanitaristas e da
“esquerda” (entendendo a MGC como “medicina de família americana
disfarçada” ou como “medicina pobre para gente pobre” ou, ainda, como
“tampão social”).
Em 1988, a diretoria da SBMGC saiu de Porto Alegre e foi para Belo
Horizonte (MG), mas enfrentou dificuldades operacionais e, em seguida, foi de
novo desativada. Em 1990, ocorreu uma segunda reativação da SBMGC, por
iniciativa da Sociedade Gaúcha de MGC, e a diretoria nacional voltou a Porto
Alegre. Em 1991, a SBMFC promoveu o 4o Congresso Brasileiro de MGC e o
1o Congresso Brasileiro Multiprofissional em Saúde Comunitária, em Porto
Alegre, com grande sucesso em número de participantes e no nível dos
debates.26,27
Em 1994, o MS – gestão de Henrique Santillo, do governo de Itamar Franco –
criou o Programa Saúde da Família (PSF), que só cresceu, de fato, a partir de
1998, quando se tornou ESF. O então presidente da SBMGC, Airton Stein, foi o
primeiro a assinar o documento técnico que estabeleceu o PSF.28 Ainda em
1994, provavelmente como consequência da falta de motivação e de mercado de
trabalho, já que o PSF era incipiente, a SBMFC foi novamente desativada por
não haver pessoas dispostas a assumir sua próxima diretoria.
Entre 1998 e 2002, a ESF teve sua mais intensa expansão e passou a constituir
um mercado de trabalho cada vez mais consistente. Essa expansão se deu em
uma velocidade maior do que a capacidade de formação de pessoal. Buscando
minimizar esses problemas, o MS e outros órgãos criaram especializações,
cursos de curta duração, polos de capacitação, entre outras ações, nem sempre
com a qualidade desejada. Além disso, foram incrementados estímulos a
mudanças no ensino de graduação nas áreas de saúde.
Com o apoio importante de colegas e associações profissionais de Portugal,
em outubro de 2000, ocorreu o 1o Encontro Luso-brasileiro de Medicina Geral,
Familiar e Comunitária, no Rio de Janeiro (RJ). Na assembleia final, foi
aprovada a proposta de “reaglutinação” da categoria, por meio da reativação da
SBMGC.29 Também ficou decidido que deveria ser intensificado o debate sobre
a conveniência da mudança de nome da especialidade.
Em março de 2001, pela terceira vez na sua história, a SBMGC foi reativada
e, como nas outras vezes, sua nova diretoria foi eleita, tendo como presidente
João Werner Falk, e sua sede foi estabelecida novamente em Porto Alegre.30
Em agosto de 2001, após longos debates31 em eventos e também por meio de
grupo de discussão, seguido de votação em dois turnos pela Internet, decidiu-se
mudar o nome dessa especialidade médica para medicina de família e
comunidade.32 Com isso, a já então denominada SBMFC conseguiu estabelecer
oficialmente esse novo nome na CNRM e no CFM no ano seguinte.33,34,35 Todos
os profissionais que tinham diploma de médico geral comunitário passaram
automaticamente a serem reconhecidos como médicos de família e comunidade.
Em novembro de 2001, a SBMFC promoveu o 5o Congresso Brasileiro de
Medicina de Família e Comunidade, em Curitiba (PR), um evento
multiprofissional em saúde da família, com grande participação.36
Em 2002, a SBMFC filiou-se à:
● Confederação Ibero-americana de Medicina Familiar (CIMF).
● Organização Mundial dos Médicos de Família (WONCA).
● Associação Médica Brasileira (AMB) – homologado pelo Conselho
Científico da AMB em novembro de 2003.37
Os anos 2000 foram marcados pela rápida expansão da ESF e também pela
consolidação da SBMFC, que cresceu em número de afiliados em todo o país.38
Em 2003, a SBMFC chegou à sua 9a Sociedade Estadual filiada e, em dezembro
de 2005, à sua 11a – na ordem de filiação: RS, PR, SC, RJ, SP, MG, CE, GO,
AL, MS e BA. Atualmente, quase todos os estados contam com uma associação
regional filiada à SBMFC.
Nessa época, início dos anos 2000, estava sendo constituída a Comissão Mista
de Especialidades (CME), que unificaria as listas de especialidades da AMB,
entidade de caráter mais científico, do CFM – que zela pela ética e pelo exercício
profissional – e da CNRM, vinculada ao Ministério da Educação, que regula as
residências. A MGC já era reconhecida pela CNRM desde 1981 e pelo CFM
desde 1986 (por meio de parecer assinado pelo então presidente do CFM,
Gabriel Oselka, renomado pediatra e professor de ética).39 A AMB,
tradicionalmente liderada por especialidades mais focais, (como radiologia,
ginecologia e cirurgia), relutou em reconhecer a especialidade, mas, com a
junção das listas, foi obrigada, uma vez que a MFC era reconhecida pelas outras
duas entidades que constituíram a CME. Nessa comissão, há dois assentos para
cada entidade, e até hoje, para uma nova especialidade ser reconhecida, é
necessário que todos os seis integrantes decidam por unanimidade (uma das
últimas especialidades reconhecidas foi a emergência, em 2015).
Havia mais uma etapa a ser vencida. A especialidade já havia sido
reconhecida pelos outros dois órgãos da CME, e a AMB, quando reconhece uma
especialidade, abre para que uma entidade científica represente essa
especialidade. Na ocasião, além da SBMFC, outra entidade também se
candidatou. Houve um debate na AMB, e as sociedades científicas presentes
optaram pela SBMFC por 22 votos a zero. A partir desse momento, novembro de
2003, a SBMFC passou a ficar habilitada a emitir título de especialista seguindo
as regras da AMB. Na realidade, as primeiras tentativas de filiação à AMB
foram feitas em 1986 e 1987, mas, na época, houve resistência político-
ideológica dessa associação contra a filiação, sendo necessária a espera de 17
anos para obtê-la.18
No Brasil, é possível ser especialista por meio de residência médica
reconhecida pela CNRM ou por meio de título de especialista reconhecido pela
AMB. Para obter o título, o candidato deve comprovar que trabalhou o dobro de
anos do previsto na residência médica da área (como a residência de medicina de
família dura 2 anos, portanto, para se candidatar ao título, precisa comprovar 4
anos de trabalho na área) e se submeter a uma prova. No estudo da demografia
médica, que contabiliza títulos registrados nos CRMs, havia 5.486 médicos de
família e comunidade no Brasil até 2017 para um universo de 451.777 médicos,
sendo que 40% desses não têm nenhum título.
No mês seguinte à filiação, em dezembro de 2003, a AMB aprovou os dois
Editais de Concurso para Título de Especialista em Medicina de Família e
Comunidade (TEMFC), que foram elaborados pela SBMFC, autorizando-a a
publicá-los.40,41 O Concurso do Edital 1 para o TEMFC foi voltado para titular
uma porcentagem muito pequeno de médicos, que comprovassem ser os mais
capacitados na especialidade, a fim de estes constituírem a banca de avaliação
para o Concurso do Edital 2, que foi o primeiro a incluir análise de currículo e
prova escrita para 271 candidatos, ocorrida no dia 3 de abril de 2004, no Rio de
Janeiro, antes da abertura do 6o Congresso Brasileiro de Medicina de Família e
Comunidade e Congresso Mercosul da CIMF. Esse congresso foi um enorme
sucesso, com cerca de 1.700 participantes muito ativos e programação de alto
nível. O evento ajudou a consolidar ainda mais a SBMFC e a especialidade no
Brasil.42
O concurso para TEMFC do Edital 3 teve sua prova escrita aplicada para 228
candidatos, no dia 29 de maio de 2005, em Belo Horizonte (MG), um dia após o
encerramento do 7o Congresso Brasileiro de MFC, ocorrido na mesma cidade e
com cerca de 1.500 participantes, atingindo também um alto grau de sucesso.43
Em novembro de 2005, a SBMFC realizou pela primeira vez uma prova
policêntrica para título de Especialista. Ela foi aplicada em 10 capitais estaduais
simultaneamente e envolveu quase 400 candidatos.18
Em 2005, a SBMFC filiou-se à Associação Brasileira de Educação Médica
(ABEM) e passou a dedicar-se ainda mais aos vários aspectos relacionados à
educação médica, em especial à participação da MFC nos cursos de graduação
em medicina. Ela ampliou os debates sobre a criação de programas de pós-
graduação stricto sensu em APS e/ou em MFC, fomentou o desenvolvimento de
pesquisas nessas áreas e estimulou publicações em revistas científicas, incluindo
a própria Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade.
Os demais Congressos Brasileiros de MFC foram realizados em 2006 (o 8o,
em São Paulo [SP]), em 2008 (o 9o, em Fortaleza [CE]), em 2009 (o 10o, em
Florianópolis [SC]), em 2011 (o 11o, em Brasília [DF]), em 2013 (o 12o, em
Belém [PA]), em 2015 (o 13o, em Natal [RN]) e em 2017 (o 14o, em Curitiba
[PR]). Os eventos são bienais, para que os estaduais organizem os regionais
também bienalmente, intercalando com os nacionais. Todos os congressos a
partir de 2006 passaram a ter mais de três mil participantes, e nunca foi aceito
qualquer incentivo da indústria farmacêutica. Em 2014, o Grupo de Trabalho de
Medicina Rural da SBMFC organizou o Congresso Mundial de Medicina Rural
em Gramado (RS), e em 2016, a SBMFC foi a responsável pela 21a Conferência
Mundial dos Médicos de Família da WONCA.
Em 2004, a professora Maria Inez Padula Anderson assumiu a presidência da
SBMFC após o bem-sucedido 6o Congresso Brasileiro de Medicina de Família e
Comunidade. Sob a sua administração, a SBMFC continuou a se estruturar
administrativamente, além de organizar congressos para três a quatro mil
pessoas. Durante todo esse período, a colaboração da Associação Portuguesa de
Medicina Geral e Familiar (APMGF), sob a liderança do seu ex-presidente Luís
Pisco, foi fundamental. Além de grandes eventos e provas de título, foi criado o
primeiro site profissional, contratada uma secretária, instituída uma sede física e
estruturadas diversas associações estaduais. O novo estatuto foi oficializado, e a
SBMFC passou a contar com uma diretoria e um conselho formado pelos
representantes das associações estaduais. Foram firmados os primeiros
convênios com o MS, que passou a apoiar cursos, eventos e publicações da
SBMFC.
Nos anos seguintes, foram destaques a tradução e a publicação dos livros[NA]
McWhinney’s text book of family medicine, Patient centered medicine,
International classification of primary care, Strategy of preventive medicine,
entre outros. Foram mais de 10 publicações entre 2008 e 2012. O apoio do MS,
em especial entre 2006 e 2010, foi fundamental. Desde a reativação definitiva
em 2001, a SBMFC tem crescido de forma consistente, sendo que hoje é
reconhecida como a entidade que representa cientificamente os médicos de
família titulados e também os mais de 50 mil médicos que trabalham como
médicos de família, mesmo sem ter cursado residência ou passado na prova de
título.
CONCLUSÃO
A história nunca é linear. Apesar das dificuldades, é possível dizer que o Brasil é
um exemplo de políticas de saúde para um país “emergente”. Um dos principais
obstáculos para que a APS seja de fato estruturante em países onde o gasto per
capita não é elevado é que a APS tende ao equilíbrio do sistema, provocando
resistências em setores que ganham com a desorganização.
De fato, o que está em jogo é o posicionamento das diversas especialidades
médicas que, muitas vezes, se veem dependentes da demanda de pacientes que
não deveriam estar naquele [Link] parte da insatisfação da categoria
médica e a desesperada disputa por pacientes por meio da mercantilização da
doença (ver Cap. 33, Mercantilização da doença) se dá pelo posicionamento
incorreto do especialista em um sistema caótico. Parte considerável da potencial
iatrogenia e desperdício é responsabilidade de um sistema desordenado desde a
formação até a alocação dos recursos, e não tanto pela atitude individual de
diferentes especialistas. A APS e a MFC promovem o paciente correto, no lugar
correto com o médico correto, ou, como escreveu um lendário médico inglês,
John Fry, “[...] os médicos de família devem proteger seus pacientes dos
especialistas inapropriados, e os especialistas, de pacientes inapropriados”.44