FILOSOFIA POLÍTICA
1. Conceito de Filosofia Política
A Filosofia Política é o ramo da filosofia que se dedica à reflexão crítica sobre a
organização da sociedade, o exercício do poder, o Estado, o governo, as leis, a justiça, a
liberdade, a igualdade, os direitos e os deveres dos indivíduos.
A palavra política deriva do grego polis, que significa cidade-Estado. Na Grécia Antiga,
a polis constituía o espaço onde os cidadãos participavam da vida colectiva, discutindo
assuntos relacionados com a administração da cidade, as leis e o bem comum.
A Filosofia Política, portanto, não se limita ao estudo dos governos ou dos políticos. O
seu objectivo é procurar compreender como a sociedade deve ser organizada, quem
deve exercer o poder, quais são os limites desse poder e que princípios devem
orientar a convivência entre os indivíduos.
Ela possui uma dimensão essencialmente crítica e normativa. É crítica porque
questiona as estruturas políticas existentes, procurando identificar injustiças,
contradições e formas de dominação. É normativa porque procura estabelecer
princípios sobre aquilo que deveria ser uma sociedade justa.
2. Objecto de estudo da Filosofia Política
O objecto central da Filosofia Política é a vida política do ser humano em sociedade.
Entre os seus principais objectos de estudo encontram-se:
2.1. O Estado
Estuda-se a origem, a natureza, a finalidade e os limites do Estado.
Perguntas fundamentais:
Por que existe o Estado?
Como surgiu?
Qual deve ser a sua função?
O Estado deve controlar a vida dos cidadãos?
Existem limites ao poder estatal?
2.2. O poder
A Filosofia Política procura compreender:
O que é o poder?
Quem possui o poder?
Como o poder é conquistado?
Como é legitimado?
Como pode ser limitado?
Quando o exercício do poder se transforma em dominação?
2.3. A justiça
A justiça constitui uma das preocupações centrais da Filosofia Política.
Procura-se determinar:
O que é uma sociedade justa?
Como devem ser distribuídos os recursos?
As pessoas devem ser iguais em tudo?
Como devem ser tratados os mais vulneráveis?
É legítima a existência de desigualdades sociais e económicas?
2.4. A liberdade
Analisa-se até que ponto o indivíduo pode agir livremente e quais limitações podem
ser impostas pelo Estado e pela sociedade.
2.5. A igualdade
Investiga-se a igualdade jurídica, política, social e económica entre os indivíduos.
2.6. Os direitos humanos
A Filosofia Política procura fundamentar racionalmente direitos como:
direito à vida;
liberdade;
propriedade;
participação política;
liberdade de expressão;
igualdade perante a lei;
liberdade religiosa;
segurança.
3. Origem da Filosofia Política
A Filosofia Política surgiu na Grécia Antiga, sobretudo a partir do século V a.C., no
contexto de desenvolvimento das cidades-Estado, particularmente Atenas.
Antes do desenvolvimento da filosofia, as explicações sobre a organização da
sociedade eram frequentemente fundamentadas na tradição, nos costumes e nos
mitos.
Com o desenvolvimento da filosofia, os pensadores começaram a procurar explicações
racionais para a organização da sociedade.
A pergunta deixou de ser apenas:
"Quem deve governar porque os deuses ou a tradição assim determinaram?"
e passou a ser:
"Por que razão alguém deve governar e qual é a melhor forma de governo?"
Essa mudança representa uma transformação fundamental no pensamento político.
4. Filosofia Política na Antiguidade
4.1. Sócrates
Sócrates não deixou obras escritas, mas exerceu enorme influência sobre a filosofia
política através do seu método de questionamento.
Sócrates defendia a importância do conhecimento, da virtude e da reflexão racional.
Para ele, uma pessoa que exerce funções públicas deve possuir conhecimento sobre o
bem e a justiça.
A sua postura crítica perante a sociedade e as instituições políticas de Atenas acabou
por contribuir para a sua condenação à morte.
A importância política de Sócrates encontra-se principalmente na ideia de que o
cidadão deve questionar criticamente as normas e decisões da sociedade, em vez de
simplesmente aceitá-las.
5. Platão e a Filosofia Política
Platão é um dos principais fundadores da Filosofia Política ocidental.
A sua principal obra política é A República.
Platão procurou responder à seguinte questão:
Como construir uma sociedade justa?
Para responder, estabeleceu uma relação entre justiça, educação e organização do
Estado.
5.1. A sociedade ideal de Platão
Platão dividia a sociedade ideal em três grupos:
1. Governantes-filósofos
2. Guardiões ou guerreiros
3. Produtores
Os governantes deveriam ser filósofos porque, segundo Platão, aqueles que possuem
conhecimento verdadeiro estariam mais preparados para governar visando o bem
comum.
Os guerreiros seriam responsáveis pela defesa da cidade.
Os produtores seriam responsáveis pelas actividades económicas e pela produção dos
bens necessários à sociedade.
5.2. Justiça em Platão
Para Platão, uma sociedade é justa quando cada grupo desempenha adequadamente
a sua função, sem interferir indevidamente nas funções dos outros.
Assim, justiça significa essencialmente harmonia entre as diferentes partes da
sociedade.
5.3. Crítica à democracia
Platão apresentou críticas à democracia ateniense.
Na sua perspectiva, permitir que todos governem sem possuir conhecimento
adequado poderia conduzir a decisões inadequadas.
Por isso, defendia que o governo deveria estar nas mãos daqueles que possuíssem
conhecimento e virtude.
6. Aristóteles e a Filosofia Política
Aristóteles desenvolveu uma concepção política diferente da de Platão.
A sua principal obra política é Política.
Uma das suas afirmações mais conhecidas é:
"O homem é, por natureza, um animal político."
Isso significa que o ser humano possui uma tendência natural para viver em
comunidade e organizar-se politicamente.
6.1. A origem da comunidade política
Segundo Aristóteles, a organização social desenvolve-se progressivamente:
Família → aldeia → cidade-Estado (polis)
A polis representa a forma mais completa de comunidade porque permite ao ser
humano alcançar uma vida considerada boa e virtuosa.
6.2. Finalidade do Estado
Para Aristóteles, o Estado não deveria existir apenas para garantir a sobrevivência.
A sua finalidade deveria ser possibilitar uma vida boa, orientada pela virtude e pelo
bem comum.
6.3. Formas de governo
Aristóteles classificou os regimes políticos segundo dois critérios:
número de governantes;
finalidade do governo.
Número de
Forma correcta Forma desviada
governantes
Um Monarquia Tirania
Poucos Aristocracia Oligarquia
Governo Democracia, na classificação
Muitos
constitucional/Politia aristotélica
Para Aristóteles, um regime é correcto quando governa visando o bem comum.
Quando governa visando apenas os interesses dos governantes, transforma-se numa
forma desviada.
7. Filosofia Política Medieval
Durante a Idade Média, a Filosofia Política esteve profundamente relacionada com a
religião cristã.
A questão central passou a envolver a relação entre:
Deus → Igreja → Estado → indivíduo
Um dos principais pensadores desse período foi Santo Agostinho.
7.1. Santo Agostinho
Na obra A Cidade de Deus, Agostinho distinguiu simbolicamente duas realidades:
Cidade de Deus
Cidade dos Homens
A primeira representa a orientação do ser humano para Deus; a segunda representa a
realidade política e temporal marcada pelas limitações e imperfeições humanas.
Para Agostinho, o poder político pode ser necessário para manter a ordem numa
sociedade marcada pelo pecado e pela imperfeição humana.
8. Tomás de Aquino
Tomás de Aquino procurou conciliar o pensamento cristão com a filosofia de
Aristóteles.
Defendeu a existência de uma lei natural, acessível à razão humana.
Segundo essa perspectiva, existem princípios morais que não dependem simplesmente
da vontade dos governantes.
Assim, uma lei humana que contradiga profundamente a justiça e a lei natural pode ser
considerada moralmente problemática.
Para Tomás de Aquino, o Estado deve procurar o bem comum.
9. Filosofia Política Moderna
A Filosofia Política Moderna representou uma grande transformação.
O pensamento político começou progressivamente a afastar-se das explicações
exclusivamente religiosas e a concentrar-se no:
indivíduo;
Estado;
soberania;
contrato social;
direitos naturais;
liberdade;
poder político.
Entre os principais pensadores encontram-se:
Maquiavel;
Hobbes;
Locke;
Rousseau;
Montesquieu.
10. Maquiavel
Nicolau Maquiavel é considerado um dos fundadores do pensamento político
moderno.
A sua principal obra política é O Príncipe.
Maquiavel introduziu uma abordagem mais realista da política.
Em vez de perguntar apenas como o governante deveria ser moralmente, procurou
compreender como o poder político realmente funciona.
10.1. Política e realidade
Maquiavel reconheceu que os governantes frequentemente precisam de tomar
decisões difíceis para preservar o Estado.
Por isso, separou parcialmente a análise política das exigências da moral tradicional.
A sua preocupação central era a manutenção do poder e a estabilidade do Estado.
10.2. Virtù e fortuna
Dois conceitos importantes em Maquiavel são:
Virtù – capacidade política, inteligência, coragem, prudência e habilidade do
governante.
Fortuna – circunstâncias, acontecimentos e factores que escapam ao controlo humano.
Um bom governante deveria possuir capacidade suficiente para lidar com as
circunstâncias imprevisíveis.
11. Thomas Hobbes
Thomas Hobbes desenvolveu uma teoria do contrato social.
A sua principal obra é Leviatã.
11.1. Estado de natureza
Hobbes imaginou uma situação anterior à existência do Estado chamada estado de
natureza.
Nesse estado, não existiria uma autoridade política comum capaz de impor regras.
Consequentemente, os indivíduos viveriam numa situação de insegurança e conflito.
A famosa ideia de Hobbes é que, sem uma autoridade comum, a vida humana seria
marcada pela insegurança e pelo medo.
11.2. Contrato social
Para escapar dessa situação, os indivíduos concordariam em estabelecer uma
autoridade política.
Assim:
Estado de natureza → Contrato social → Estado
O Estado recebe grande autoridade porque a sua principal função é garantir a
segurança e a paz.
12. John Locke
John Locke também desenvolveu uma teoria do contrato social, mas chegou a
conclusões diferentes das de Hobbes.
Para Locke, os indivíduos possuem direitos naturais, especialmente:
vida;
liberdade;
propriedade.
12.1. Governo limitado
O Estado existe para proteger os direitos dos indivíduos.
Por isso, o poder político não é absoluto.
Se o governo viola sistematicamente os direitos dos cidadãos, o povo possui
legitimidade para resistir a esse governo.
Locke exerceu enorme influência sobre o liberalismo político e sobre o
desenvolvimento do constitucionalismo moderno.
13. Montesquieu
Montesquieu destacou a importância da separação dos poderes.
Na sua obra O Espírito das Leis, defendeu a divisão do poder político em:
1. Poder Legislativo – cria as leis;
2. Poder Executivo – executa as leis e administra o Estado;
3. Poder Judicial – interpreta e aplica as leis.
A finalidade dessa separação é impedir a concentração excessiva do poder.
A ideia pode ser resumida assim:
Poder dividido → controlo recíproco → redução do abuso de poder
Esse princípio tornou-se fundamental para muitos Estados constitucionais modernos.
14. Jean-Jacques Rousseau
Jean-Jacques Rousseau desenvolveu uma das teorias mais influentes sobre a soberania
popular.
A sua obra mais importante neste campo é Do Contrato Social.
Para Rousseau, a legitimidade política deve resultar da vontade geral.
14.1. Vontade geral
A vontade geral não significa simplesmente a soma das vontades individuais.
Ela representa aquilo que deve ser considerado como interesse comum da
comunidade.
14.2. Soberania popular
Rousseau defendeu que a soberania pertence ao povo.
Portanto:
Povo → soberania → legitimidade política
Essa concepção influenciou profundamente o pensamento democrático moderno.
15. Contratualismo
As teorias de Hobbes, Locke e Rousseau são frequentemente agrupadas sob o conceito
de contratualismo, embora apresentem diferenças importantes.
Principal
Filósofo Estado de natureza Contrato
preocupação
Hobbes Conflito e insegurança Cria autoridade forte Segurança
Liberdade e direitos
Locke Cria governo limitado Direitos
naturais
Cria comunidade política
Rousseau Liberdade natural Soberania popular
legítima
O ponto comum é a ideia de que a autoridade política pode ser explicada através de
algum tipo de acordo ou consentimento dos indivíduos.
16. Filosofia Política Contemporânea
A Filosofia Política Contemporânea passou a abordar questões cada vez mais
complexas, como:
democracia;
capitalismo;
socialismo;
marxismo;
desigualdade;
direitos humanos;
feminismo;
multiculturalismo;
justiça social;
globalização;
poder;
colonialismo;
liberdade individual.
Entre os principais pensadores encontram-se:
Karl Marx;
John Rawls;
Robert Nozick;
Hannah Arendt;
Michel Foucault;
Jürgen Habermas.
17. Karl Marx
Karl Marx desenvolveu uma crítica profunda ao capitalismo e às relações de classe.
Para Marx, a organização política não pode ser compreendida separadamente da
estrutura económica da sociedade.
17.1. Classes sociais
Marx identificou, no capitalismo, principalmente:
Burguesia → proprietária dos meios de produção
Proletariado → trabalhadores que vendem a sua força de trabalho
A relação entre essas classes seria marcada por conflitos de interesses.
17.2. Estado e classe
Na análise marxista, o Estado não deve ser visto simplesmente como uma instituição
neutra.
As estruturas políticas podem estar relacionadas com as relações económicas e com os
interesses das classes dominantes.
17.3. Luta de classes
A luta de classes constitui um elemento fundamental da concepção histórica de Marx.
A transformação social estaria relacionada com os conflitos entre classes e com as
mudanças nas relações de produção.
18. John Rawls
John Rawls tornou-se uma das figuras centrais da Filosofia Política contemporânea.
Na obra Uma Teoria da Justiça, procurou responder à questão:
Quais princípios deveriam organizar uma sociedade justa?
18.1. Posição original
Rawls propôs uma situação hipotética chamada posição original.
Nela, os indivíduos escolheriam os princípios de justiça sem saber qual seria a sua
posição futura na sociedade.
Esse desconhecimento é denominado:
véu de ignorância.
A ideia é evitar que uma pessoa escolha regras simplesmente porque sabe que será
rica, pobre, poderosa, saudável ou pertencente a determinado grupo.
19. Robert Nozick
Robert Nozick apresentou uma posição diferente da de Rawls.
Na obra Anarquia, Estado e Utopia, defendeu um Estado mínimo.
Para Nozick, o Estado deve ter funções limitadas, principalmente relacionadas com:
protecção contra violência;
defesa;
cumprimento de contratos;
protecção dos direitos individuais.
Nozick atribuiu grande importância à liberdade individual e aos direitos de
propriedade.
20. Hannah Arendt
Hannah Arendt analisou temas como:
poder;
autoridade;
totalitarismo;
liberdade;
participação política;
espaço público.
Para Arendt, o poder está relacionado com a capacidade das pessoas de agir
conjuntamente.
A política não deve ser entendida apenas como dominação. Ela também envolve
participação, diálogo e acção colectiva no espaço público.
21. Michel Foucault
Michel Foucault apresentou uma concepção mais ampla do poder.
Em vez de considerar que o poder está apenas concentrado no Estado, Foucault
analisou o poder como algo que circula através de diferentes relações sociais e
instituições.
O poder pode manifestar-se através de:
escolas;
hospitais;
prisões;
instituições administrativas;
discursos;
normas sociais.
Assim, o poder não se encontra somente no governo.
Ele também está presente nas relações quotidianas.