Itinerários
Itinerários
SILVA CAMPOS, B.; SODRÉ, F.; WANDEKOKEN, K. D.; ROCCON, P. C. Compreendendo os itinerários de
pessoas com transtorno mental em conflito com a lei: invisibilidade e vulnerabilidade. Aceno –
Bruno da Silva Campos1
Francis Sodré2
Revista de Antropologia do Centro-Oeste, 10 (22): 95-112, janeiro a abril de 2023. ISSN: 2358-5587
Kallen Dettmann Wandekoken3
Universidade Federal do Espírito Santo
Resumo: Nesta pesquisa consideramos itinerário como o curso de ação que a pes-
soa com transtorno mental em conflito com a lei percorre ao ingressar no sistema de
justiça criminal através da Audiência de Custódia (AC), além dos caminhos desen-
volvidos em busca de cuidados para o seu sofrimento psíquico no contexto que en-
volve saúde e justiça. Tendo em vista a multiplicidade de caminhos possíveis dentro
de um itinerário, esse estudo, de caráter qualitativo, buscou analisar os procedimen-
tos adotados pelos atores do judiciário para lidar com os casos. A pesquisa foi reali-
zada com três pessoas em sofrimento psíquico que foram autuadas em flagrante de-
lito e levadas até a audiência de custódia na região metropolitana de Vitória (Espírito
Santo/Brasil). Os resultados/discussão foram descritos a partir dos três casos envol-
vendo os autuados e denominados: Maradona e o pedido inusitado ao juiz; Zico en-
tre o ambíguo registro no auto de prisão em flagrante – APFD e o apoio familiar, e,
por fim, Garrincha e seu irmão advogando pela sua prisão. Conclui-se que a utiliza-
ção dos itinerários como ferramenta avaliativa permite um novo olhar diante ao pro-
blema envolvendo saúde e justiça, dando lugar de fala aos autuados, buscando iden-
tificar as reais e mais urgentes necessidades dessas pessoas.
1 Doutorando em Saúde Coletiva e Mestre em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Psicólogo e
professor universitário. Atuou por dez anos no sistema prisional do Espírito Santo, onde três deles foram dedicados ao
trabalho na audiência de custódia.
2 Doutora em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Professora do Departamento de
Serviço Social e do Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).
3 Graduada em Enfermagem pela EMESCAM (2005-2008). Mestre e Doutora em Saúde Coletiva pela Universidade Fe-
Abstract: in this research, we consider an itinerary as the course of action that the
person with a mental disorder in conflict with the law takes when entering the crim-
inal justice system through the Custody Hearing (AC), in addition to the paths de-
veloped in search of care for their psychological suffering context involving health
and justice. In view of the multiplicity of possible paths within an itinerary, this
study, of a qualitative nature, sought to analyze the procedures adopted by actors of
the judiciary to deal with cases. The research was carried out with 03 people in psy-
chological distress who were charged in flagrante delicto and taken to the custody
hearing in the metropolitan region of Vitória (Espírito Santo/Brazil). The re-
sults/discussion were described from the three cases involving the accused and
named: Maradona and the unusual request to the judge; Zico between the ambigu-
ous record of arrest in flagrante delicto – APFD and family support, and, finally,
Garrincha and his brother advocating for his arrest. It is concluded that the use of
itineraries as an evaluative tool allows a new look at the problem involving health
and justice, giving voice to the accused, seeking to identify the real and most urgent
needs of these people.
tres casos que involucran a los acusados y se nombraron: Maradona y la insólita so-
licitud al juez; Zico entre el ambiguo expediente de detención en flagrancia – APFD
y apoyo familiar- y, finalmente, Garrincha y su hermano abogando por su detención.
Se concluye que el uso de itinerarios como herramienta evaluativa permite una
nueva mirada sobre el problema que involucra la salud y la justicia, dando voz a los
imputados, buscando identificar las necesidades reales y más urgentes de estas per-
sonas.
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M
aradona possui 45 anos, Zico tem 20 e Garrincha tem 36 anos. Todos
eles foram presos em flagrante delito e apresentados ao juiz, por meio
do plantão da Audiência de Custódia (ACs) na região metropolitana de
Vitória (ES). Vale ressaltar que eles também foram atendidos por outros atores
nas ACs, entre eles defensor público, advogado, assistente social e psicólogo. No
entanto, as convergências de percurso entre eles ficam por aqui, visto que a expe-
riência vivida por cada um assume um caminho totalmente distinto.
Segundo consta nos autos da prisão em flagrante, Maradona foi autuado por
uma agressão/desentendimento ao seu pai já idoso, sendo este crime tipificado
um filho de 11 anos, fruto de uma antiga união, e que pagava uma pensão mensal
para ele no valor aproximado de 450 reais. Garrincha negou o uso de medicação
controlada, porém, assumiu o consumo de substâncias psicoativas (crack) há
aproximadamente 10 anos, considerando-se dependente químico. Também in-
formou sobre algumas internações em clínicas psiquiátricas, por vontade de sua
família.
Entretanto, o caso Garrincha parece destoar de outros casos recebidos coti-
dianamente dentro do sistema de justiça criminal. Tratava-se de uma pessoa le-
trada, de boa aparência, proveniente de uma família de classe média/alta, com
ensino superior completo em turismo e proprietário de um negócio próprio,
tendo uma renda mensal em torno de R$ 7.000,00.
Esses três pequenos relatos apresentados falam dos Itinerários de acesso de
Maradona, Zico e Garrincha ao sistema de justiça criminal, onde foram apresen-
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É também dever da autoridade judicial a análise de possíveis ocorrências de
tortura, maus-tratos e/ou outras irregularidades praticadas por agentes da segu-
rança pública, objetivando evitar prisões arbitrárias. Como resultado da audiên-
cia, o juiz decidirá se a pessoa presa pode sair mediante fiança, se a prisão deve
ser mantida, ou até mesmo se deve continuar em liberdade, por não ter a prisão
justificada. Poderá ainda fazer encaminhamentos para a rede educacional e de
saúde (CNJ, 2015).
Como vimos nos casos de Maradona, Zico e Garrincha, os caminhos traçados
podem ser bem diferentes mesmo diante de um procedimento em comum. Assim,
algumas perguntas se colocam: estando diante de um dispositivo da justiça,
houve a busca de algum caminho de cuidado para o sofrimento psíquico eviden-
ciado? Quais são os caminhos abordados e quais fatores contribuíram para as de-
cisões judiciais?
Para Barros-Brisset (2010), a atuação do sistema de Justiça deve abranger
conflitos de competências e saberes que envolvam não somente Justiça, mas que
também tenham uma abrangência na Saúde.
A tarefa agora consiste em abrir as portas, para fazer com que a vida passe a circular
com ares de liberdade, arejando os espaços abafados da segregação. Se quisermos ten-
tar alcançar alguma saída deste sistema antigo e obscuro, devemos buscar desenhá-la
no acompanhamento das biografias e para isto precisamos dispensar o isolamento e
Por fim, para essa pesquisa, descrevemos os itinerários dos autuados, tendo
como objetivo contribuir para a melhor compreensão do curso de ação que a pes-
soa com transtorno mental em conflito com a lei percorre ao ingressar no sistema
de justiça criminal através da Audiência de Custódia (AC), além da disponibili-
dade dos serviços de saúde e do padrão de escolha, avaliação e utilização pelos
Campos et al. (2021) e CNJ (2020) estão de acordo ao afirmar que os profis-
sionais da equipe não devem atuar pela lógica manicomial e segregacionista. De-
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direta com os atores do sistema de justiça (juízes, promotores, defensores, advo-
gados), os psicólogos e assistentes sociais presentes na AC assumem um papel
mais propositivo nas questões, não respondendo somente à quesitos específicos,
previamente formulados pelos magistrados.
Já os profissionais psicólogos e assistentes sociais atuantes nas varas de fa-
mília exercem a função de assistente técnico e/ou perito. Neste caso, geralmente,
a pessoa autuada já foi condenada e já responde pelo crime cometido. As pessoas
atendidas na audiência de custódia acabaram de ser presas e o juiz não adentrará
ao mérito do caso, pautando-se em saber sobre a legalidade da prisão, dentre ou-
tras coisas. O que não é condizente com a solicitação de peritagem.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa com abordagem qualitativa, cuja base de dados se
deu através de uma pesquisa documental. Para Oliveira (2007: 28), “a análise
documental tem por finalidade obter informações em prol da compreensão de
fatos e relações, possibilitando assim, conhecermos o período histórico e social
das ações e reconstruir os fatos e seus antecedentes”.
Tal investigação se fez pertinente para auxiliar na compreensão de como o
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Resultados/discussão
Maradona e o pedido inusitado ao juiz
Nos documentos sobre a passagem de Maradona pela AC, consta o registro
de um telefonema dado pela equipe psicossocial para sua irmã. Nele há o relato
de um drama familiar que a equipe pensou ser importante levantar para auxiliar
a decisão do magistrado. Ela informa que, no passado, seu irmão fez tratamento
psiquiátrico, sendo inclusive internado, mas que na atualidade ele tem um com-
portamento de recusa. Contou ainda que seus pais já são idosos, e que seu pai
também sofre com alguns transtornos psíquicos. Acerca das brigas, informa que,
infelizmente, são corriqueiras, e que geralmente se iniciam devido à implicância
de seu pai com Maradona. No dia da prisão, Maradona estava cuidando de sua
horta, no quintal de casa, e seu pai foi até lá e começou a urinar nas hortaliças. Ao
ver aquilo, Maradona se indispôs com ele e os dois acabaram brigando. Os vizi-
nhos chamaram o Centro Integrado Operacional de Defesa Social (CIODES), o
que culminou na prisão de Maradona.
Tais informações foram incluídas em um relatório de atendimento e anexa-
das aos autos pela equipe psicossocial presente na audiência de custódia, que foi
levado horas depois até o juiz de plantão, que iria proferir a decisão sobre o caso.
O juiz em questão possuía longos anos de magistrado, porém, sua experiência era
na execução penal, e não em audiências de custódia, uma vez que havia realizado
apenas duas AC anteriormente. Esse fato é importante, uma vez que a execução
penal se difere da AC: enquanto a primeira analisa o mérito da questão, decidindo
se o acusado é inocente ou culpado, na Audiência de Custódia é papel do juiz ana-
lisar a legalidade ou não da prisão, não sendo foco o mérito.
Nas anotações da equipe psicossocial, ainda consta o registro de uma con-
versa de um dos membros com o juiz plantonista, alguns minutos antes da audi-
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Juiz: Boa tarde, o senhor foi preso ontem e está gostando de ficar preso? Acha legal
ser preso?
Maradona: Sim! (nesse momento o juiz que estava olhando para o papel em sua mesa,
dá um pulo na cadeira e passa a prestar a atenção na fala dele) Estão me tratando
muito bem aqui. Não fui desrespeitado hora nenhuma, não ganhei tapa na cara, che-
guei cedo aqui e tomei café, agora a pouco almocei, está tudo bom.
Juiz: (interrompendo o discurso de Maradona) Quer dizer que o senhor gostou então
de ser preso? De ficar preso? Acho que vou manter então a prisão do senhor.
Maradona: Se precisar eu fico sim, estou sendo muito bem tratado. Mas antes eu
posso fazer uma pergunta?
Juiz: Sim, faça.
Maradona: Hoje quando cheguei aqui mais cedo eu ganhei um chinelo, queria saber
se posso ficar com ele, pois não tenho chinelo. Estava descalço e agora estou feliz com
esse chinelo que ganhei.
Figura 1 – Termo de audiência com decisão judicial concedendo a liberdade provisória ao autuado, e determinando o seu
encaminhamento ao CAPS. Fonte: Audiência de Custódia (ES).
5Dizemos “tentar” uma vez que em sempre é possível reaver seus pertences, visto que é necessário que, no momento da
prisão, o delegado ou escrivão de polícia tenha realizado uma espécie de check list, contendo todos os pertences
104 apreendidos. Contudo, nem sempre esse procedimento é realizado. O processo de retorno é mais complicado para os
autuados que passam por audiência de custódia em Viana/ES, mas vivem municípios do interior: caso a família não
consiga vir ao encontro deles, podem ficar perdidos na grande Vitória/ES.
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encontrado disparidade entre o relato da testemunha 01 e da testemunha 02, evi-
denciando uma duplicação do relato. Isso torna todo o procedimento muito frágil
e passível de abusos.
Na APFD da prisão de Zico, os policiais/testemunhas relatam que:
Prosseguimos a bordo da guarnição 3906 para a rua (endereço do autuado), para averiguar
uma denúncia de Lei Maria da Penha e o descumprimento de medida protetiva; que ao chegar
ao local, já era de conhecimento da guarnição situações envolvendo tal família, e de imediato
foi visualizado o cidadão (nome do autuado), 20 anos, que neste dia agrediu novamente sua
mãe, de nome (citam o nome da vítima), 41 anos; que a vítima informou que diversas vezes foi
agredida por seu filho, e que possui uma medida protetiva contra o mesmo, e que neste dia o seu
filho pulou o muro de sua casa e agrediu tanto a ela quanto a sua outra filha; que no momento
em que a viatura policial chegou ao local, o conduzido demonstrou nervosismo e tentou resistir
a prisão, tendo que ser utilizado imediatamente a força, contudo não causando nele nenhuma
lesão e também nos militares.
Ele é usuário de ‘todas’ as drogas; que quando está sob o efeito de drogas (nome do
autuado) se torna agressivo e muito violento e agride a declarante de forma recor-
rente; que no mês de janeiro do corrente ano a declarante esteve nesta delegacia de
plantão e solicitou medidas protetivas de urgência contra (nome do autuado), sendo
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Diante a esse impasse, um membro da equipe psicossocial fez contato telefô-
nico com a mãe de Zico, através do número fornecido por ela na delegacia e re-
gistrado nos autos. A partir do contato, ela se mostrou preocupada com a situação
do filho e disse que vem se esforçando para que ele tenha acompanhamento psi-
quiátrico e psicológico. Informou ainda que Zico tem problemas com o uso de
drogas e que no final do ano de 2018 chegou a ser internado no Hospital Estadual
de Atenção Clínica (HEAC) por três dias após um surto psicótico. Desde então,
Zico vem fazendo uso de medicação controlada, mas que resistente quanto a ade-
são ao tratamento. A equipe indagou a ela porque Zico não residia em sua casa,
conforme ele havia relatado no atendimento inicial, ela prontamente afirmou que
ele residia sim. Que ela está separada do pai dele, mas que os dois tentam buscar
ajudar Zico da melhor forma. Afirma que esse discurso se tratava de mais um
delírio do filho, e por esse motivo ela temia que ele ficasse preso.
Ela solicitou que Zico fosse liberado, pois disse que ele precisa de tratamento
e sabia que se permanecesse preso o seu quadro iria se agravar. Por fim, a equipe
perguntou, se ela pretendia manter a medida protetiva, colocada pelo delegado
na esfera policial. Ela afirmou não querer manter, pois não poderá ajudar seu
filho se ele juridicamente estiver impedido de se aproximar dela.
O relato da genitora de Zico foi esclarecedor e forneceu subsídios para que a
equipe pudesse elaborar o relatório que seria direcionado ao magistrado de plan-
tão. Como sugestão, a equipe destacou que caso o autuado recebesse a liberdade
provisória, deveria ser encaminhado para acompanhamento e tratamento junto
ao CAPS da região onde reside. Acerca da abordagem à pessoa com indícios de
transtorno mental, Dalgalarrondo (2000: 59), pontua que “muitas vezes faz-se
necessária a informação de familiares, amigos, conhecidos e outros”. Principal-
mente, quando envolve pacientes com quadro demencial, déficit cognitivo, em
estado psicótico grave.
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Figura 2 – Termo de audiência com decisão judicial concedendo a liberdade provisória ao autuado, e determinando a
sua internação compulsória. Fonte: Audiência de Custódia (ES).
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As medidas cautelares estão descritas no artigo 319 do código de processo penal, havendo ainda a possibilidade de
aplicação de medidas genéricas. Ou seja, não previstas em lei, mas que são necessárias para segurar o processo e não
segregar a liberdade do processado. Na Lei Maria da Penha 11.340/06, as medidas cautelares estão descritas no artigo 22.
Contudo, ela é só uma sugestão, estando o magistrado livre para aplicar outras medidas que entender necessárias, desde
que estejam em harmonia com o código de processo penal, com a constituição e com a declaração dos direitos humanos.
106 Este último envolve a discussão da segregação por razões de sofrimento psíquico. Elas podem ter duração de até seis
meses, e após esse período passam para validação de outro juiz, ou até que dure o processo penal. Isso quer dizer que ela
não tem prazo fixado.
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Após a audiência, um membro da equipe atendeu novamente Zico para co-
municar a decisão judicial e explicar a ele as medidas cautelares impostas pelo
juiz. Zico não foi liberado imediatamente, uma vez que aguardou até o final do
dia a expedição de seu alvará. Esse procedimento é rotineiro e de praxe, ocor-
rendo a liberação entre às 19h e 21horas, independentemente da hora em que a
audiência é finalizada. A equipe também fez contato com a genitora de Zico para
repassar as mesmas informações, e para que os familiares pudessem ir ao encon-
tro do filho na porta do complexo penitenciário.
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outro advogado. Os outros membros presentes na sala ficam em silêncio, inclu-
indo o ministério público. O juiz então defere o resultado e o termo de audiência7
é lançado no sistema.
Contudo, nesta decisão é possível perceber algumas contrariedades. Pri-
meiro, a decisão ocorre após a gravação da audiência, com o autuado fora da sala.
Segundo, de acordo com a Resolução 213, de 15 de dezembro de 2015, que dispõe
sobre a apresentação de toda pessoa presa à autoridade judicial no prazo de 24
horas, em seu o art. 9º, parágrafos 1º e 3º, pontua que:
De posse da resolução 213, de 2015, o profissional informa que seria mais pru-
dente o magistrado não deixar no termo o nome da clínica particular para inter-
nação, pois agindo assim, estariam parecendo um “açougue, vendendo carnes”, o
juiz concorda e diz: - Você tem razão, obrigado por comunicar, sempre que tiver
algo assim pode me falar.
Em seguida, o profissional pede para que a magistrada alterasse o termo “in-
ternação” e colocasse “tratamento”, pois dessa forma estariam firmando o com-
promisso com o tratamento ambulatorial, conforme preconiza a lei 10.216/2001
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Esse é uma segunda via do termo, originalmente ele constava o nome da clínica particular.
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e a regulamentação 213/2015. Porém, sobre esse pedido o juiz foi enfático e disse:
Não, esse rapaz precisa sair daqui internado!
Nos corredores da audiência o advogado/irmão de Garrincha, comemorava:
- Viu só, vocês disseram que não era possível pedir internação compulsória aqui,
e aí, vai me dizer o que agora? Consegui, está vendo!
Alguns dias depois, o processo seguiu para a vara em que Garrincha respon-
deria até seu julgamento. Nesse ínterim, mesmo de posse de seu alvará, ele per-
maneceu preso no centro de triagem. Doze dias após essa audiência, outro juiz, já
na vara criminal, agora analisando a culpabilidade ou não do autuado, julga como
improcedente a decisão do juiz em audiência de custódia, uma vez que não com-
petia a ele tal pedido de internação, ainda mais da forma em que foi feita. Deter-
minou a imediata soltura de Garrincha, considerando que a família estava sendo
onerada ao custear a internação de Garrincha em uma clínica particular. Garrin-
cha havia ganho o benefício da liberdade provisória, porém, já estava em seu dé-
cimo segundo dia de prisão no centro de triagem de Viana (ES), aguardando a
internação.
Considerações finais
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minhos a serem adotados, ficando estes a cargo de uma tratativa de alguns funci-
onários. O processo de adoecimento, muitas vezes evidente, é desconsiderado em
virtude de outros interesses. Assim, a loucura parece não ser pensada como pos-
sibilidade de desencarceramento dentro das ACs.
Referências
ALMEIDA PINA DE OLIVEIRA, Alfredo. Análise documental do processo de ca-
pacitação dos multiplicadores do projeto “Nossas crianças: Janelas de oportu-
nidades” no município de São Paulo à luz da Promoção da Saúde. Dissertação
(Mestrado em Enfermagem em Saúde Coletiva), Escola de Enfermagem, Univer-
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CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA (CNJ). Resolução 213, de 15 de dezembro
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