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Itinerários

O estudo analisa os itinerários de pessoas com transtorno mental que entram no sistema de justiça criminal, focando nas Audiências de Custódia e nos caminhos em busca de cuidados para seu sofrimento psíquico. A pesquisa qualitativa envolveu três casos distintos, revelando a diversidade de experiências e a importância de dar voz aos autuados para identificar suas necessidades. Conclui-se que o uso de itinerários como ferramenta avaliativa oferece uma nova perspectiva sobre a interseção entre saúde e justiça.
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Itinerários

O estudo analisa os itinerários de pessoas com transtorno mental que entram no sistema de justiça criminal, focando nas Audiências de Custódia e nos caminhos em busca de cuidados para seu sofrimento psíquico. A pesquisa qualitativa envolveu três casos distintos, revelando a diversidade de experiências e a importância de dar voz aos autuados para identificar suas necessidades. Conclui-se que o uso de itinerários como ferramenta avaliativa oferece uma nova perspectiva sobre a interseção entre saúde e justiça.
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Compreendendo os itinerários de

pessoas com transtorno mental


em conflito com a lei:
invisibilidade e vulnerabilidade

SILVA CAMPOS, B.; SODRÉ, F.; WANDEKOKEN, K. D.; ROCCON, P. C. Compreendendo os itinerários de
pessoas com transtorno mental em conflito com a lei: invisibilidade e vulnerabilidade. Aceno –
Bruno da Silva Campos1
Francis Sodré2

Revista de Antropologia do Centro-Oeste, 10 (22): 95-112, janeiro a abril de 2023. ISSN: 2358-5587
Kallen Dettmann Wandekoken3
Universidade Federal do Espírito Santo

Pablo Cardozo Roccon4


Universidade Federal de Mato Grosso

Resumo: Nesta pesquisa consideramos itinerário como o curso de ação que a pes-
soa com transtorno mental em conflito com a lei percorre ao ingressar no sistema de
justiça criminal através da Audiência de Custódia (AC), além dos caminhos desen-
volvidos em busca de cuidados para o seu sofrimento psíquico no contexto que en-
volve saúde e justiça. Tendo em vista a multiplicidade de caminhos possíveis dentro
de um itinerário, esse estudo, de caráter qualitativo, buscou analisar os procedimen-
tos adotados pelos atores do judiciário para lidar com os casos. A pesquisa foi reali-
zada com três pessoas em sofrimento psíquico que foram autuadas em flagrante de-
lito e levadas até a audiência de custódia na região metropolitana de Vitória (Espírito
Santo/Brasil). Os resultados/discussão foram descritos a partir dos três casos envol-
vendo os autuados e denominados: Maradona e o pedido inusitado ao juiz; Zico en-
tre o ambíguo registro no auto de prisão em flagrante – APFD e o apoio familiar, e,
por fim, Garrincha e seu irmão advogando pela sua prisão. Conclui-se que a utiliza-
ção dos itinerários como ferramenta avaliativa permite um novo olhar diante ao pro-
blema envolvendo saúde e justiça, dando lugar de fala aos autuados, buscando iden-
tificar as reais e mais urgentes necessidades dessas pessoas.

Palavras-chave: itinerários; presos com transtorno mental; audiência de custó-


dia; saúde mental; saúde coletiva.

1 Doutorando em Saúde Coletiva e Mestre em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Psicólogo e
professor universitário. Atuou por dez anos no sistema prisional do Espírito Santo, onde três deles foram dedicados ao
trabalho na audiência de custódia.
2 Doutora em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Professora do Departamento de

Serviço Social e do Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).
3 Graduada em Enfermagem pela EMESCAM (2005-2008). Mestre e Doutora em Saúde Coletiva pela Universidade Fe-

deral do Espírito Santo (UFES). Professora Adjunta do Departamento de Enfermagem da UFES.


4 Doutor em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Professor do Instituto de Saúde Coletiva e da

Pós-graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT).


_____________________________
DOI: 10.48074/aceno.v10i22.14497
Understanding the itineraries of people with
mental disorders in conflict with the law:
invisibility and vulnerability

Abstract: in this research, we consider an itinerary as the course of action that the
person with a mental disorder in conflict with the law takes when entering the crim-
inal justice system through the Custody Hearing (AC), in addition to the paths de-
veloped in search of care for their psychological suffering context involving health
and justice. In view of the multiplicity of possible paths within an itinerary, this
study, of a qualitative nature, sought to analyze the procedures adopted by actors of
the judiciary to deal with cases. The research was carried out with 03 people in psy-
chological distress who were charged in flagrante delicto and taken to the custody
hearing in the metropolitan region of Vitória (Espírito Santo/Brazil). The re-
sults/discussion were described from the three cases involving the accused and
named: Maradona and the unusual request to the judge; Zico between the ambigu-
ous record of arrest in flagrante delicto – APFD and family support, and, finally,
Garrincha and his brother advocating for his arrest. It is concluded that the use of
itineraries as an evaluative tool allows a new look at the problem involving health
and justice, giving voice to the accused, seeking to identify the real and most urgent
needs of these people.

Keywords: itineraries; prisoners with mental disorder; custody hearing; mental


health; collective health.

Comprender los itinerarios de las personas


ACENO, 10 (22): 95-112, janeiro a abril de 2023. ISSN: 2358-5587

con trastornos mentales en conflicto con la ley:


invisibilidad y vulnerabilidad

Resumen: en esta investigación consideramos un itinerario como el curso de ac-


ción que realiza la persona con un trastorno mental en conflicto con la ley al ingresar
al sistema de justicia penal a través de la Audiencia de Custodia (AC), además de los
caminos desarrollados en busca de atención. por su contexto de sufrimiento psíquico
que involucra la salud y la justicia. En vista de la multiplicidad de caminos posibles
dentro de un itinerario, este estudio, de carácter cualitativo, buscó analizar los pro-
cedimientos adoptados por los actores del poder judicial para tratar los casos. La
investigación fue realizada con 03 personas en sufrimiento psíquico que fueron pro-
cesadas en flagrancia y llevadas a la audiencia de tutela en la región metropolitana
de Vitória (Espírito Santo/Brasil). Se describieron los resultados/discusión de los
Artigos Livres

tres casos que involucran a los acusados y se nombraron: Maradona y la insólita so-
licitud al juez; Zico entre el ambiguo expediente de detención en flagrancia – APFD
y apoyo familiar- y, finalmente, Garrincha y su hermano abogando por su detención.
Se concluye que el uso de itinerarios como herramienta evaluativa permite una
nueva mirada sobre el problema que involucra la salud y la justicia, dando voz a los
imputados, buscando identificar las necesidades reales y más urgentes de estas per-
sonas.

Palabras clave: itinerarios; prisioneros con trastorno mental; audiencia de custo-


dia; salud mental.
96

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DOI: 10.48074/aceno.v10i22.14497
M
aradona possui 45 anos, Zico tem 20 e Garrincha tem 36 anos. Todos
eles foram presos em flagrante delito e apresentados ao juiz, por meio
do plantão da Audiência de Custódia (ACs) na região metropolitana de
Vitória (ES). Vale ressaltar que eles também foram atendidos por outros atores
nas ACs, entre eles defensor público, advogado, assistente social e psicólogo. No
entanto, as convergências de percurso entre eles ficam por aqui, visto que a expe-
riência vivida por cada um assume um caminho totalmente distinto.
Segundo consta nos autos da prisão em flagrante, Maradona foi autuado por
uma agressão/desentendimento ao seu pai já idoso, sendo este crime tipificado

Compreendendo os itinerários de pessoas com transtorno mental em conflito com a lei


no Art. 129, § 1º, II, C/C § 10º do CP. Durante o período em que permaneceu no
prédio da audiência, sempre algemado, apresentou um comportamento bastante
simplório e humilde, sempre pedindo licença antes de entrar em alguma sala ou
cela e agradecendo quando se despedia. No registro do atendimento psicológico
constam tiques e maneirismos, como piscar os olhos de forma mais forte e rápida
e olhar no entorno como se procurasse algo, aparentando desconfiança e estra-
nhamento do local que se encontrava. Ainda segundo esse registro, Maradona

SILVA CAMPOS, B.; SODRÉ, F.; WANDEKOKEN, K. D.; ROCCON, P. C.


não demostrou preocupação com o fato de estar preso, sugerindo uma apatia que
não parecia, à primeira vista, ser proveniente de alguém que está acostumado
com aquele ambiente inóspito, mas que se ligava à ordem da subserviência, do
adestramento, da aceitação sem questionamentos dos acontecimentos e rumos
impostos à sua vida. Para Coyle (2002), em seu primeiro contato com a prisão,
os detentos geralmente se mostram confusos e inseguros quanto a sua situação e
o novo ambiente.
De acordo com os registros de atendimento, Maradona agiu de forma cordata
e colaborativa. Contou que aquela era a sua primeira prisão e que é iletrado, pos-
suindo somente o ensino fundamental incompleto (3ª série). Mencionou que
abandonou os estudos devido às dificuldades de aprendizagem e às reprovações
em sua infância. Informou que estava desempregado e que sobrevivia financeira-
mente com a ajuda de seus pais, com quem residia. Negou o uso de medicação
controlada, contudo, disse que no passado já usou diazepan e outras medicações
que não se recordava do nome. Afirmou também que não faz uso de drogas ilíci-
tas, e assumiu o uso de álcool no passado. Revelou ainda que estava solteiro e que
não possuía filhos. Possui documentos, que estavam sob os cuidados de uma
irmã.
Zico foi preso por agredir sua mãe e sua irmã, sendo autuado pela prática do
crime tipificado no Artigo 21, do Decreto Lei nº 3.688/41, e art. 140, caput, do
Código Penal Brasileiro - CPB, na forma da lei 11.340/06. Trata-se de uma agres-
são proferida em desfavor de dois familiares, e, neste caso, também tipificada pela
Lei Maria da Penha. Quando perguntado sobre a motivação de praticar tal fato, 97
segundo os autos ele relata:
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DOI: 10.48074/aceno.v10i22.14497
Hoje pela manhã acordei e meu pai me mandou ir para a casa de minha mãe comer
algo. Quando cheguei à casa de minha mãe ela me mandou embora e não quis me dar
nada para comer. Isso me deixou nervoso e acabei brigando com minha mãe e com
minha irmã, em quem dei um empurrão. (Zico)

Nos registros da passagem de Zico pela equipe psicossocial da ACs, encontra-


mos anotações pontuando que ele se apresentou de forma retraída e desconfiada.
Seu discurso era objetivo e tranquilo, parecendo não se incomodar com o fato de
estar preso. No entanto, indicava rigidez e um leve comprometimento no curso
do pensamento. Durante o atendimento informou que possuía o ensino médio
incompleto (2º ano) e que abandonou os estudos por desinteresse, afirmando que
não gostava de estudar. Disse que, naquele momento, não exercia nenhuma ati-
vidade laborativa, sobrevivendo financeiramente com a ajuda de seu pai. Negou
o uso de medicação controlada e o consumo de outras drogas. Contou que estava
solteiro e que não possuía filhos.
Garrincha foi autuado por acusação de prática do crime tipificado no Art. 150,
§1º do Código Penal, n/f da Lei 11.340/06 (Lei Maria da Penha). Segundo consta
nos autos, por determinação do Centro Integrado Operacional de Defesa Social -
CIODES, policiais prosseguiram até o domicílio da mãe de Garrincha, onde ela
relatou que seu filho é usuário de drogas, que e por diversas vezes invade e furta
objetos em sua residência. Na ocasião, após arrombar a porta de sua casa, Gar-
rincha a empurrou e jogou uma botija de gás em suas pernas e furtou um aparelho
de DVD. A vítima requereu medidas protetivas de urgência e que Garrincha fosse
preso.
Já em atendimento realizado na AC, conforme consta nos registros, ele infor-
mou que essa era sua primeira prisão. Destacou que possuía os vínculos familia-
res preservados e que foi criado durante a infância e adolescência por seus geni-
tores. Disse ainda que possuía um irmão e que é casado há 04 anos. Relatou ter
ACENO, 10 (22): 95-112, janeiro a abril de 2023. ISSN: 2358-5587

um filho de 11 anos, fruto de uma antiga união, e que pagava uma pensão mensal
para ele no valor aproximado de 450 reais. Garrincha negou o uso de medicação
controlada, porém, assumiu o consumo de substâncias psicoativas (crack) há
aproximadamente 10 anos, considerando-se dependente químico. Também in-
formou sobre algumas internações em clínicas psiquiátricas, por vontade de sua
família.
Entretanto, o caso Garrincha parece destoar de outros casos recebidos coti-
dianamente dentro do sistema de justiça criminal. Tratava-se de uma pessoa le-
trada, de boa aparência, proveniente de uma família de classe média/alta, com
ensino superior completo em turismo e proprietário de um negócio próprio,
tendo uma renda mensal em torno de R$ 7.000,00.
Esses três pequenos relatos apresentados falam dos Itinerários de acesso de
Maradona, Zico e Garrincha ao sistema de justiça criminal, onde foram apresen-
Artigos Livres

tados ao juiz na Audiência de Custódia. As Audiências de Custódias (AC) consis-


tem em um projeto de afirmação do direito à apresentação a uma autoridade ju-
dicial em um prazo de até 24 horas para que se avalie a legalidade e necessidade
de manutenção ou não de uma prisão (CNJ, 2015). Nas ACs cabe a autoridade
judicial entrevistar a pessoa presa em flagrante, objetivando:
Averiguar, por perguntas e visualmente, hipóteses de gravidez, existência de filhos ou
dependentes sob cuidados da pessoa presa em flagrante delito, histórico de doença
grave, incluídos os transtornos mentais e a dependência química, para analisar o cabi-
mento de encaminhamento assistencial e da concessão da liberdade provisória, sem ou
98 com a imposição de medida cautelar. (CNJ, 2015)

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DOI: 10.48074/aceno.v10i22.14497
É também dever da autoridade judicial a análise de possíveis ocorrências de
tortura, maus-tratos e/ou outras irregularidades praticadas por agentes da segu-
rança pública, objetivando evitar prisões arbitrárias. Como resultado da audiên-
cia, o juiz decidirá se a pessoa presa pode sair mediante fiança, se a prisão deve
ser mantida, ou até mesmo se deve continuar em liberdade, por não ter a prisão
justificada. Poderá ainda fazer encaminhamentos para a rede educacional e de
saúde (CNJ, 2015).
Como vimos nos casos de Maradona, Zico e Garrincha, os caminhos traçados
podem ser bem diferentes mesmo diante de um procedimento em comum. Assim,
algumas perguntas se colocam: estando diante de um dispositivo da justiça,
houve a busca de algum caminho de cuidado para o sofrimento psíquico eviden-
ciado? Quais são os caminhos abordados e quais fatores contribuíram para as de-
cisões judiciais?
Para Barros-Brisset (2010), a atuação do sistema de Justiça deve abranger
conflitos de competências e saberes que envolvam não somente Justiça, mas que
também tenham uma abrangência na Saúde.
A tarefa agora consiste em abrir as portas, para fazer com que a vida passe a circular
com ares de liberdade, arejando os espaços abafados da segregação. Se quisermos ten-
tar alcançar alguma saída deste sistema antigo e obscuro, devemos buscar desenhá-la
no acompanhamento das biografias e para isto precisamos dispensar o isolamento e

Compreendendo os itinerários de pessoas com transtorno mental em conflito com a lei


investir na convivência, no acompanhamento, nas soluções de sujeito, suas pequenas
invenções para tratar seu sofrimento mental. (BARROS-BRISSET, 2010: 85)

Por fim, para essa pesquisa, descrevemos os itinerários dos autuados, tendo
como objetivo contribuir para a melhor compreensão do curso de ação que a pes-
soa com transtorno mental em conflito com a lei percorre ao ingressar no sistema
de justiça criminal através da Audiência de Custódia (AC), além da disponibili-
dade dos serviços de saúde e do padrão de escolha, avaliação e utilização pelos

SILVA CAMPOS, B.; SODRÉ, F.; WANDEKOKEN, K. D.; ROCCON, P. C.


diversos atores implicados nesse serviço.

O papel da equipe psicossocial nas audiências de custódia


A equipe psicossocial presente na AC da região da grande Vitória é constitu-
ída por dois profissionais da área da psicologia e dois da área de serviço social,
que intercalam em regime de plantão. Campos et al. (2021) pontuam que dentre
as atribuições dessa equipe estão:
1) Atender e fornecer informações aos familiares dos autuados presencialmente, ou por
meio de contato telefônico; 2) Ler os processos nos autos de prisão e coletar dados
sobre a historicidade dos sujeitos autuados ou outros fatores que considerar necessá-
rios, a exemplo (situação socioeconômica, histórico familiar, estado habitacional, situ-
ação trabalhista, condição de saúde e previdenciária, nível de escolarização e etc.), com
o intuito de elaborar estratégias de intervenção; 3) Assessorar autoridades judiciais,
quando necessário, no encaminhamento dos (as) autuados (as) à rede socioassisten-
cial, saúde, educacional e outras. 4) dentre outras. (CAMPOS et al., 2021: 22-23)

Os atendimentos psicossociais são realizados em dois momentos distintos no


mesmo dia: o primeiro momento, Acolhimento ou Entrevista Preliminar; o se-
gundo é denominado de Atendimento pós audiência. Vejamos as definições:
Acolhimento ou Entrevista preliminar – É realizado atendimento ao atuado antes de
começar as audiências. Neste, a equipe psicossocial deverá identificar os aspectos per-
tinentes a historicidade do autuado (a), bem como a situação que o levou até o mo-
mento da apreensão, elencando as demandas (sociais, familiares, habitacionais, psí-
quicas, dentre outras). Após a coleta das demandas, estas, serão sistematizadas e re- 99
gistradas através do relatório de atendimento contendo parecer técnico.
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DOI: 10.48074/aceno.v10i22.14497
Atendimento pós audiência – É realizado atendimento após a ocorrência da audiência.
Nesta etapa, a equipe deverá fornecer orientações para o (a) autuado (a) que recebeu a
liberdade provisória, realizará também, se necessário, encaminhamentos para a rede
socioassistencial do município ou Estado de residência do (a) autuado (a), realizará
contato telefônico com o familiar, se o autuado (a) não possui advogado particular ou
nos casos onde a liberdade foi condicionada ao pagamento de fiança. (CAMPOS et al.,
2021: 24-5)

Nos casos envolvendo pessoas com indícios de transtorno mental, também


encontramos algumas orientações específicas para a equipe, dentre os quais se
destacam: a análise prévia dos autos de prisão antes das audiências; realização de
contato telefônico com familiares e equipes de saúde ou psicossociais presentes
nas instituições ou serviços; realização de entrevista de triagem com o autuado e
elaboração de um relatório de atendimento endereçado ao juiz de plantão. Após
a realização da audiência, de acordo com Campos (2021: 30), a equipe ainda faz
orientações sobre o que foi decidido pelo magistrado, viabilizando encaminha-
mentos para a rede de saúde e/ou assistencial. Também articula caminhos junto
aos familiares ou outros membros do serviço, tendo em vista a garantia de direi-
tos e assistência aos autuados conforme o seu estado de saúde.
Outro ponto importante sobre o atendimento a essa parcela da população
dentro da AC é trazido pelo Manual de proteção social na audiência de custódia:
Parâmetros para o serviço de atendimento à pessoa custodiada, em que afirma:
Dada a complexidade do fenômeno dos portadores de transtornos mentais em conflito
com a lei, a dinâmica e momento processual das audiências de custódia, não caberá ao
Serviço de Atendimento à Pessoa Custodiada a elaboração de diagnósticos e laudos de
periculosidade ou mesmo o encaminhamento a hospitais psiquiátricos. (CNJ, 2020:
71)

Outra orientação importante trazida por esse documento:


ACENO, 10 (22): 95-112, janeiro a abril de 2023. ISSN: 2358-5587

Sinais e sintomas de transtornos mentais (alucinações, desorientação tempo espacial,


delírios e outros) ao serem identificados em atendimento social prévio, devem ser per-
cebidos como uma crise em saúde mental, o que se configura como uma urgência em
saúde, e, conforme diretrizes expressas na Resolução CNJ nº 213/2015, à equipe do
Serviço de Atendimento à Pessoa Custodiada caberá sugerir ao juízo, de imediato, en-
caminhamento para a rede de atenção à urgência e emergência em saúde em hospitais
gerais ou CAPS III, cabendo também ao juiz decidir sobre a suspensão da audiência de
custódia até momento posterior à alta médica. Ademais, é possível também sugerir os
cuidados em saúde mental, mesmo não sendo um quadro de crise, nos serviços ambu-
latoriais que compõem a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) disponíveis no territó-
rio, tais como Centro de Atenção Psicossocial - CAPS, Ambulatórios de Saúde Mental,
Estratégia Saúde da Família (ESF) e Unidade Básica de Saúde (UBS), priorizando nas
sugestões o cuidado em espaços adequados para questões d saúde mental relatadas ou
identificadas no atendimento social. (CNJ, 2020: 72)

Campos et al. (2021) e CNJ (2020) estão de acordo ao afirmar que os profis-
sionais da equipe não devem atuar pela lógica manicomial e segregacionista. De-
Artigos Livres

vem garantir o acesso e a qualidade dos serviços, ofertando cuidado integral e


assistência multiprofissional sob a lógica interdisciplinar; com ênfase em serviços
de base territorial e comunitária, diversificando as estratégias de cuidado, com
participação e controle social dos usuários e de seus familiares. Assim como tra-
balhar para o “desenvolvimento da lógica do cuidado centrado nas necessidades
das pessoas com transtornos mentais, incluídos os decorrentes do uso de subs-
tâncias psicoativas; buscando a construção de serviço diferentes para as diferen-
tes necessidades” (BRASIL, 2011).
Ademais, o trabalho da equipe psicossocial presente na AC se difere do tra-
100 balho da equipe que atua dentro dos fóruns e varas de família. Apesar da atuação

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DOI: 10.48074/aceno.v10i22.14497
direta com os atores do sistema de justiça (juízes, promotores, defensores, advo-
gados), os psicólogos e assistentes sociais presentes na AC assumem um papel
mais propositivo nas questões, não respondendo somente à quesitos específicos,
previamente formulados pelos magistrados.
Já os profissionais psicólogos e assistentes sociais atuantes nas varas de fa-
mília exercem a função de assistente técnico e/ou perito. Neste caso, geralmente,
a pessoa autuada já foi condenada e já responde pelo crime cometido. As pessoas
atendidas na audiência de custódia acabaram de ser presas e o juiz não adentrará
ao mérito do caso, pautando-se em saber sobre a legalidade da prisão, dentre ou-
tras coisas. O que não é condizente com a solicitação de peritagem.

Metodologia
Trata-se de uma pesquisa com abordagem qualitativa, cuja base de dados se
deu através de uma pesquisa documental. Para Oliveira (2007: 28), “a análise
documental tem por finalidade obter informações em prol da compreensão de
fatos e relações, possibilitando assim, conhecermos o período histórico e social
das ações e reconstruir os fatos e seus antecedentes”.
Tal investigação se fez pertinente para auxiliar na compreensão de como o

Compreendendo os itinerários de pessoas com transtorno mental em conflito com a lei


sistema de justiça criminal atua em relação aos sujeitos com transtorno mental,
bem como descrever os itinerários desses sujeitos através dos registros de aten-
dimentos realizados. Para tanto, foram analisados documentos oficiais, laudos,
pareceres emitidos, receituários, prontuários e demais documentos que se mos-
traram pertinentes nesse contexto. Alguns registros comportamentais dos autu-
ados, descritos em algumas falas, foram colhidos após visualização dos vídeos
gravados das audiências.
O pesquisador teve acesso aos documentos de cinco autuados, previamente

SILVA CAMPOS, B.; SODRÉ, F.; WANDEKOKEN, K. D.; ROCCON, P. C.


escolhidos pela equipe psicossocial que atua na AC. A escolha dos três relatos pre-
sentes nessa pesquisa se deu pela riqueza de detalhes contidos nos registros e
pertinência de como o caso foi tratado pelos diversos atores envolvidos. Corro-
borando com essa afirmativa, Moreira (2005: 37) pontua que, “a análise docu-
mental deve extrair um reflexo objetivo da fonte original, permitir a localização,
identificação, organização e avaliação das informações contidas no documento,
além da contextualização dos fatos em determinados momentos”. Os nomes atri-
buídos aos participantes da pesquisa são fictícios, visando preservar o sigilo sobre
a identidade dos entrevistados. Ainda sobre esses itinerários, concordamos com
a afirmação de Tavares (2017: 18), que afirma: “o itinerário ocorre sempre de
forma processual, permitindo hesitações, indefinições e mudanças de escolha te-
rapêuticas durante o curso de uma experiência de enfermidade e tratamento”.
O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa, sob
parecer 3.504.492 e CAAE 09693419.0.0000.5060 Todas as participações foram
mediadas pelo preenchimento de um Termo de Consentimento Livre e Esclare-
cido (TCLE). Informações que possam categorizar a amostra, bem como nomes,
não serão apresentadas como forma de garantia de anonimato.

101

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DOI: 10.48074/aceno.v10i22.14497
Resultados/discussão
Maradona e o pedido inusitado ao juiz
Nos documentos sobre a passagem de Maradona pela AC, consta o registro
de um telefonema dado pela equipe psicossocial para sua irmã. Nele há o relato
de um drama familiar que a equipe pensou ser importante levantar para auxiliar
a decisão do magistrado. Ela informa que, no passado, seu irmão fez tratamento
psiquiátrico, sendo inclusive internado, mas que na atualidade ele tem um com-
portamento de recusa. Contou ainda que seus pais já são idosos, e que seu pai
também sofre com alguns transtornos psíquicos. Acerca das brigas, informa que,
infelizmente, são corriqueiras, e que geralmente se iniciam devido à implicância
de seu pai com Maradona. No dia da prisão, Maradona estava cuidando de sua
horta, no quintal de casa, e seu pai foi até lá e começou a urinar nas hortaliças. Ao
ver aquilo, Maradona se indispôs com ele e os dois acabaram brigando. Os vizi-
nhos chamaram o Centro Integrado Operacional de Defesa Social (CIODES), o
que culminou na prisão de Maradona.
Tais informações foram incluídas em um relatório de atendimento e anexa-
das aos autos pela equipe psicossocial presente na audiência de custódia, que foi
levado horas depois até o juiz de plantão, que iria proferir a decisão sobre o caso.
O juiz em questão possuía longos anos de magistrado, porém, sua experiência era
na execução penal, e não em audiências de custódia, uma vez que havia realizado
apenas duas AC anteriormente. Esse fato é importante, uma vez que a execução
penal se difere da AC: enquanto a primeira analisa o mérito da questão, decidindo
se o acusado é inocente ou culpado, na Audiência de Custódia é papel do juiz ana-
lisar a legalidade ou não da prisão, não sendo foco o mérito.
Nas anotações da equipe psicossocial, ainda consta o registro de uma con-
versa de um dos membros com o juiz plantonista, alguns minutos antes da audi-
ACENO, 10 (22): 95-112, janeiro a abril de 2023. ISSN: 2358-5587

ência de Maradona. Abaixo seguem trechos dessa anotação:


O juiz encontrava-se sozinho lendo alguns Autos de Prisão em Flagrante - APFD. Com
o relatório em mãos, me apresentei a ele perguntei se poderia trocar uma palavrinha.
Ele sinalizou com a cabeça que sim, e eu agindo um pouco na defensiva, já achando
que não seria muito ouvido, comecei a falar sobre o caso de Maradona. Em suma,
contei a ele que se tratava de um caso de uma pessoa com transtorno mental em con-
flito com a lei, sobre a relação de Maradona com sua família, do apoio que recebe por
parte de sua irmã, da relação conturbada com o pai e sugeri como alternativa a pri-
são, que ele encaminhasse Maradona para tratamento junto ao Caps de sua região.
Ele permaneceu calado durante todo o tempo de minha fala e ao final enquanto eu
anexava o relatório nos autos, ele disse: “- Vamos aguardar para ouvi-lo e analisar
o caso.

Na sala de audiência, Maradona é ouvido pelo juiz. Um dos membros da


equipe psicossocial acompanha a audiência e registra que antes de começar a gra-
Artigos Livres

vação de vídeo e a audiência propriamente dita, o juiz inicia um pequeno diálogo


com Maradona, que na visão dele, foi fundamental para o resultado do caso. Se-
gundo Souza (2014), na medida em que nos narra sua história, cada pessoa dis-
corre sobre si, expõe sua identidade, sua situação social, sua perspectiva na sa-
úde-doença, seus modos de ver o mundo, sua interpretação sobre sua condição,
seus movimentos, sua posição frente aos valores sociais, bem como sua aproxi-
mação e seus distanciamentos a eles, além de suas decisões, revelando sua bio-
grafia, sua singularidade frente ao contexto social e cultural.
O diálogo do juiz com Maradona pode ser acompanhado na sequência:
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Juiz: Boa tarde, o senhor foi preso ontem e está gostando de ficar preso? Acha legal
ser preso?
Maradona: Sim! (nesse momento o juiz que estava olhando para o papel em sua mesa,
dá um pulo na cadeira e passa a prestar a atenção na fala dele) Estão me tratando
muito bem aqui. Não fui desrespeitado hora nenhuma, não ganhei tapa na cara, che-
guei cedo aqui e tomei café, agora a pouco almocei, está tudo bom.
Juiz: (interrompendo o discurso de Maradona) Quer dizer que o senhor gostou então
de ser preso? De ficar preso? Acho que vou manter então a prisão do senhor.
Maradona: Se precisar eu fico sim, estou sendo muito bem tratado. Mas antes eu
posso fazer uma pergunta?
Juiz: Sim, faça.
Maradona: Hoje quando cheguei aqui mais cedo eu ganhei um chinelo, queria saber
se posso ficar com ele, pois não tenho chinelo. Estava descalço e agora estou feliz com
esse chinelo que ganhei.

Após um momento de silêncio o juiz resolveu iniciar a audiência e a gravação


do vídeo como de praxe. Na visão da equipe que acompanhava, até aquele mo-
mento havia uma incógnita sobre a sua decisão a respeito do caso. A audiência
termina, o vídeo cessa e o juiz volta a falar em off com Maradona:
Juiz: Deixa-me te perguntar uma coisa, pode bater no papai e na mamãe? Pode bater
nos outros?
Maradona: Não... Não, é errado.
Juiz: Se eu liberar o senhor, o senhor vai voltar a fazer isso? Vai voltar a brigar em
casa?

Compreendendo os itinerários de pessoas com transtorno mental em conflito com a lei


Maradona: (nesse momento ele ficou calado, mas balançava a cabeça como forma de
negação).
Juiz: Vou deixar o senhor responder ao processo em liberdade, mas vou encaminhar
para o tratamento, ein, tem que fazer o tratamento. Senão será preso de novo.

Maradona deixou a sala de audiência um pouco emotivo e o juiz profere a sua


decisão, concedendo a liberdade provisória mediante ao cumprimento de medi-
das cautelares.

SILVA CAMPOS, B.; SODRÉ, F.; WANDEKOKEN, K. D.; ROCCON, P. C.

Figura 1 – Termo de audiência com decisão judicial concedendo a liberdade provisória ao autuado, e determinando o seu
encaminhamento ao CAPS. Fonte: Audiência de Custódia (ES).

Após a audiência, o membro da equipe psicossocial que acompanhou o caso


volta a conversar com Maradona para comunicar a decisão judicial e explicar a
ele as medidas cautelares impostas pelo juiz e sobre o encaminhamento para tra-
tamento. Maradona teve que aguardar a sua liberação até o final do dia, uma vez
que aguardava a expedição de seu alvará.
A equipe psicossocial também fez contato com a irmã de Maradona para re-
103
passar as informações e para que ela pudesse o auxiliar no retorno para casa.
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DOI: 10.48074/aceno.v10i22.14497
Contudo, ela informou que não possuía carro e condições de ir até o complexo
penitenciário para buscá-lo. Dentro de toda a fragilidade do momento, a equipe
instruiu Maradona para que ele entendesse os procedimentos que deveriam ser
feitos, incluindo a sua volta para casa.
Uma vez que os internos que passam por audiência têm seus pertences apre-
endidos e guardados na instância policial (delegacia), eles chegam ao centro de
triagem - CTV somente com a roupa do corpo. No CTV eles vestem os uniformes
cedidos pela SEJUS e são conduzidos até o prédio em que são realizadas as audi-
ências. Os que recebem o alvará na audiência, voltam para o CTV no aguardo da
expedição do documento em uma cela separada. Como não possuem pertences
pessoais ali guardados, recebem somente uma “muda de roupas” e são conduzi-
dos até a portaria do complexo, onde devem esperar a vinda de algum familiar ou
conhecido para buscá-los; eles também podem apresentar o alvará no ônibus do
sistema Transcol, o que lhes dá acesso gratuito a viagem até sua casa ou ao ter-
minal mais próximo. Com esse mesmo alvará em mãos, devem procurar a dele-
gacia onde foram autuados para “tentar”5 reaver seus pertences.

Zico entre o ambíguo registro no auto de prisão em fla-


grante – APFD e o apoio familiar
Em um registro de atendimento realizado a Zico na AC, foi perguntado com
quem ele reside, diante a essa indagação, ele se contradiz: ora dizia que morava
com seu pai há seis anos, logo em seguida dizia que são quatro anos, enquanto
outras vezes afirmava que já morava há dez anos. Outra pergunta de destaque são
os motivos de não residir mais com sua mãe. Diante a esse questionamento, disse
que não sabe explicar ao certo o motivo que o levou a não residir mais ela, pare-
cendo não nutrir nenhum sentimento de raiva ou rancor para com sua genitora,
ACENO, 10 (22): 95-112, janeiro a abril de 2023. ISSN: 2358-5587

mesmo sabendo que fora ela que chamou a polícia.


As duas respostas de Zico descritas no parágrafo acima apontam para um
empobrecimento cognitivo e afetivo com os familiares, levando a crer que ao
longo de sua trajetória de vida os vínculos foram ficando cada vez mais frágeis,
não passíveis de serem recordados e recontados com exatidão.
Sobre a confiabilidade dos dados obtidos em uma entrevista em saúde men-
tal, simulação e dissimulação, Dalgalarrondo (2000: 56) afirma que “os dados
obtidos em uma entrevista podem estar subestimados ou superestimados” De-
vendo o profissional “exercer toda a sua habilidade para buscar diferenciar as in-
formações verdadeiras, confiáveis e consistentes das falsas e inconsistentes” e
principalmente, não exercer pré-julgamentos ou análises infundadas.
Outro fato que merece destaque na trajetória de Zico até a AC são os registros
encontrados no Auto de Prisão em Flagrante Delito - APFD. Algumas declarações
Artigos Livres

contidas neste documento chamam atenção, como o relato dos policiais/testemu-


nhas que efetuaram a prisão. Policiais e testemunhas são aqui colocadas juntos
por se tratar de uma prática comum nos autos de prisão: os mesmos policiais que
efetuam a prisão são os que respondem como testemunha do fato. Em geral, de-
vem ser ouvidas duas testemunhas, todavia, ao analisar tal documento, não foi

5Dizemos “tentar” uma vez que em sempre é possível reaver seus pertences, visto que é necessário que, no momento da
prisão, o delegado ou escrivão de polícia tenha realizado uma espécie de check list, contendo todos os pertences
104 apreendidos. Contudo, nem sempre esse procedimento é realizado. O processo de retorno é mais complicado para os
autuados que passam por audiência de custódia em Viana/ES, mas vivem municípios do interior: caso a família não
consiga vir ao encontro deles, podem ficar perdidos na grande Vitória/ES.
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DOI: 10.48074/aceno.v10i22.14497
encontrado disparidade entre o relato da testemunha 01 e da testemunha 02, evi-
denciando uma duplicação do relato. Isso torna todo o procedimento muito frágil
e passível de abusos.
Na APFD da prisão de Zico, os policiais/testemunhas relatam que:
Prosseguimos a bordo da guarnição 3906 para a rua (endereço do autuado), para averiguar
uma denúncia de Lei Maria da Penha e o descumprimento de medida protetiva; que ao chegar
ao local, já era de conhecimento da guarnição situações envolvendo tal família, e de imediato
foi visualizado o cidadão (nome do autuado), 20 anos, que neste dia agrediu novamente sua
mãe, de nome (citam o nome da vítima), 41 anos; que a vítima informou que diversas vezes foi
agredida por seu filho, e que possui uma medida protetiva contra o mesmo, e que neste dia o seu
filho pulou o muro de sua casa e agrediu tanto a ela quanto a sua outra filha; que no momento
em que a viatura policial chegou ao local, o conduzido demonstrou nervosismo e tentou resistir
a prisão, tendo que ser utilizado imediatamente a força, contudo não causando nele nenhuma
lesão e também nos militares.

No mesmo APFD, consta um termo de declaração que presta, com o depoi-


mento da mãe de Zico, ainda na delegacia especializada da mulher. Nesse depoi-
mento ela informa que:

Ele é usuário de ‘todas’ as drogas; que quando está sob o efeito de drogas (nome do
autuado) se torna agressivo e muito violento e agride a declarante de forma recor-
rente; que no mês de janeiro do corrente ano a declarante esteve nesta delegacia de
plantão e solicitou medidas protetivas de urgência contra (nome do autuado), sendo

Compreendendo os itinerários de pessoas com transtorno mental em conflito com a lei


que a declarante foi intimada na ordem judicial mas seu filho não foi encontrado para
a devida intimação; que atualmente (nome do autuado) mora na casa do pai dele;
que na data de hoje a declarante estava em casa quando (nome do autuado) chegou
querendo várias coisas ao mesmo tempo e ela mandou que ele saísse de casa; que
(nome do autuado) agrediu sua irmã mais nova de quatorze anos e deixou lesões
aparentes; que a declarante acionou o CIODES e que ela manifestava o desejo de re-
presentar criminalmente em desfavor de (nome do autuado), bem como requerer
medidas protetivas de urgência.

No entanto, diante aos relatos e estando presencialmente com Zico, a equipe

SILVA CAMPOS, B.; SODRÉ, F.; WANDEKOKEN, K. D.; ROCCON, P. C.


psicossocial aponta para uma disparidade nos discursos e na leitura feita do au-
tuado. Eles destacam que a figura que se apresenta nos relatos policiais e na des-
crição da vítima fornecida à polícia civil é de uma pessoa “agressiva” e “fora de
controle”, postura que não corresponde com as impressões que tiveram ao
atendê-lo na AC.
Essa disparidade apontada pela equipe evidencia mais uma vez a fragilidade
com que os relatos policiais são construídos, indicando ainda uma parcialidade
ou pré-julgamento, ainda na esfera policial, sobre os fatos. Os relatos parecem
incitar o aprisionamento, ligando o consumo de drogas a uma postura incorrigí-
vel e agressiva do autuado, que necessita ser “contido”. A palavra tratamento não
aparece em nenhum momento.
Jesus (2016: 20), realizou uma pesquisa com alguns atores da AC paulista e
se debruçou sobre a crença deles na narrativa policial em caso de prisões em fla-
grante. Nesse estudo ela observou que “a fala dos policiais é frequentemente
aceita por juízes e promotores sem questionamentos, além de ser apresentada por
promotores e juízes como necessária para o próprio funcionamento do sistema
de justiça”. Com isso, segundo a autora,
práticas de violência, tortura ou ameaça raramente são averiguadas, já que não consi-
deram verdadeiras as narrativas das pessoas presas, sobretudo aquelas acusadas por
tráfico de drogas, expressões como violência policial, extorsão, flagrante forjado não
aparecem nas deliberações de promotores e juízes.

105

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Diante a esse impasse, um membro da equipe psicossocial fez contato telefô-
nico com a mãe de Zico, através do número fornecido por ela na delegacia e re-
gistrado nos autos. A partir do contato, ela se mostrou preocupada com a situação
do filho e disse que vem se esforçando para que ele tenha acompanhamento psi-
quiátrico e psicológico. Informou ainda que Zico tem problemas com o uso de
drogas e que no final do ano de 2018 chegou a ser internado no Hospital Estadual
de Atenção Clínica (HEAC) por três dias após um surto psicótico. Desde então,
Zico vem fazendo uso de medicação controlada, mas que resistente quanto a ade-
são ao tratamento. A equipe indagou a ela porque Zico não residia em sua casa,
conforme ele havia relatado no atendimento inicial, ela prontamente afirmou que
ele residia sim. Que ela está separada do pai dele, mas que os dois tentam buscar
ajudar Zico da melhor forma. Afirma que esse discurso se tratava de mais um
delírio do filho, e por esse motivo ela temia que ele ficasse preso.
Ela solicitou que Zico fosse liberado, pois disse que ele precisa de tratamento
e sabia que se permanecesse preso o seu quadro iria se agravar. Por fim, a equipe
perguntou, se ela pretendia manter a medida protetiva, colocada pelo delegado
na esfera policial. Ela afirmou não querer manter, pois não poderá ajudar seu
filho se ele juridicamente estiver impedido de se aproximar dela.
O relato da genitora de Zico foi esclarecedor e forneceu subsídios para que a
equipe pudesse elaborar o relatório que seria direcionado ao magistrado de plan-
tão. Como sugestão, a equipe destacou que caso o autuado recebesse a liberdade
provisória, deveria ser encaminhado para acompanhamento e tratamento junto
ao CAPS da região onde reside. Acerca da abordagem à pessoa com indícios de
transtorno mental, Dalgalarrondo (2000: 59), pontua que “muitas vezes faz-se
necessária a informação de familiares, amigos, conhecidos e outros”. Principal-
mente, quando envolve pacientes com quadro demencial, déficit cognitivo, em
estado psicótico grave.
ACENO, 10 (22): 95-112, janeiro a abril de 2023. ISSN: 2358-5587

O magistrado realizou a audiência com Zico e ao final concedeu a liberdade


provisória, com o cumprimento de medidas cautelares6 e encaminhamento para
o CAPS.
Artigos Livres

Figura 2 – Termo de audiência com decisão judicial concedendo a liberdade provisória ao autuado, e determinando a
sua internação compulsória. Fonte: Audiência de Custódia (ES).

6
As medidas cautelares estão descritas no artigo 319 do código de processo penal, havendo ainda a possibilidade de
aplicação de medidas genéricas. Ou seja, não previstas em lei, mas que são necessárias para segurar o processo e não
segregar a liberdade do processado. Na Lei Maria da Penha 11.340/06, as medidas cautelares estão descritas no artigo 22.
Contudo, ela é só uma sugestão, estando o magistrado livre para aplicar outras medidas que entender necessárias, desde
que estejam em harmonia com o código de processo penal, com a constituição e com a declaração dos direitos humanos.
106 Este último envolve a discussão da segregação por razões de sofrimento psíquico. Elas podem ter duração de até seis
meses, e após esse período passam para validação de outro juiz, ou até que dure o processo penal. Isso quer dizer que ela
não tem prazo fixado.
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Após a audiência, um membro da equipe atendeu novamente Zico para co-
municar a decisão judicial e explicar a ele as medidas cautelares impostas pelo
juiz. Zico não foi liberado imediatamente, uma vez que aguardou até o final do
dia a expedição de seu alvará. Esse procedimento é rotineiro e de praxe, ocor-
rendo a liberação entre às 19h e 21horas, independentemente da hora em que a
audiência é finalizada. A equipe também fez contato com a genitora de Zico para
repassar as mesmas informações, e para que os familiares pudessem ir ao encon-
tro do filho na porta do complexo penitenciário.

Garrincha e seu irmão advogando pela sua prisão


A prisão em flagrante de Garrincha e sua passagem pela AC trouxe algumas
situações infrequentes. A primeira delas é o fato de dois advogados se apresenta-
rem para trabalhar no caso. Além do advogado que se apresentou para a defesa
de Garrincha, outro se apresentou como representante da vítima (mãe de Garrin-
cha), sendo este o seu próprio irmão.
De acordo com os registros encontrados, o caso se mostrou também incomum
depois que esse advogado/irmão, pediu para falar com um membro da equipe
psicossocial da AC. Nessa conversa, ele solicitou que o membro da equipe psicos-

Compreendendo os itinerários de pessoas com transtorno mental em conflito com a lei


social colocasse em seu relatório de atendimento prévio à audiência um pedido
de internação compulsória, alegando que seu irmão é usuário de drogas e que sua
mãe não quer mais que ele volte para casa. O profissional declina o pedido, di-
zendo a ele que naquela instância judicial não caberia tal solicitação. O advo-
gado/irmão insatisfeito, saiu da sala e voltou para o corredor, onde aguardava ser
chamado para a audiência.
Quando a audiência teve início, na sala estavam presentes: Garrincha, o juiz,
um membro do ministério público, um assessor jurídico que redige os termos no

SILVA CAMPOS, B.; SODRÉ, F.; WANDEKOKEN, K. D.; ROCCON, P. C.


computador, o advogado particular de Garrincha e o advogado/irmão.
Garrincha começa a responder as perguntas feitas pelo juiz.
“Juiz: – O senhor já fez tratamento?
Garrincha: - Sim, já fui internado.
Juiz: - deu certo não?
Garrincha: - Eu acabei recaindo de novo, agora nessa última vez.
Juiz: – Pois é, não estou aqui para te julgar, nem para criticar seus atos, se você é
dependente ou se não é dependente, mas sim seus atos em decorrência da dependên-
cia. Essa tortura psicológica à sua genitora que te criou com carinho, e no momento
em que o senhor deveria protegê-la, o senhor traz à ela vários transtornos. Provavel-
mente ela sofre mais ainda, por fazê-lo sofrer. (Garrincha só balança a cabeça, con-
cordando). Então diante disso, o senhor está trazendo um dano sério para ela.
Juiz: – Vamos ouvir o requerimento dos advogados.
Advogado: - Excelência, meu autuado foi preso por invasão de domicilio na residên-
cia de sua genitora nessa madrugada e responde uma ocorrência por violência do-
méstica, a vítima deseja manter a medida protetiva. A prisão é legal e em se tratando
pelos bons antecedentes do autuado solicito a liberdade provisória do mesmo, medi-
ante fiança e medidas cautelares diversas da prisão.
Advogado/irmão: - Não tenho muito o que manifestar, mas quero dizer que concordo
com o pedido do senhor advogado. (Nesse momento, Garrincha que olhava para
frente, passou a fazer contato visual com seu irmão)”.

A audiência termina e em off, após o término da gravação da mesma, o advo-


gado/irmão solicita a internação compulsória de Garrincha, que é endossado pelo

107

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outro advogado. Os outros membros presentes na sala ficam em silêncio, inclu-
indo o ministério público. O juiz então defere o resultado e o termo de audiência7
é lançado no sistema.
Contudo, nesta decisão é possível perceber algumas contrariedades. Pri-
meiro, a decisão ocorre após a gravação da audiência, com o autuado fora da sala.
Segundo, de acordo com a Resolução 213, de 15 de dezembro de 2015, que dispõe
sobre a apresentação de toda pessoa presa à autoridade judicial no prazo de 24
horas, em seu o art. 9º, parágrafos 1º e 3º, pontua que:

Art. 9º A aplicação de medidas cautelares diversas da prisão previstas no art. 319 do


CPP deverá compreender a avaliação da real adequação e necessidade das medidas,
com estipulação de prazos para seu cumprimento e para a reavaliação de sua manu-
tenção, observando-se o Protocolo I desta Resolução.
§ 1º O acompanhamento das medidas cautelares diversas da prisão determinadas ju-
dicialmente ficará a cargo dos serviços de acompanhamento de alternativas penais, de-
nominados Centrais Integradas de Alternativas Penais, estruturados preferencial-
mente no âmbito do Poder Executivo estadual, contando com equipes multidisciplina-
res, responsáveis, ainda, pela realização dos encaminhamentos necessários à Rede de
Atenção à Saúde do Sistema Único de Saúde (SUS) e à rede de assistência social do
Sistema Único de Assistência Social (SUAS), bem como a outras políticas e programas
ofertados pelo Poder Público, sendo os resultados do atendimento e do acompanha-
mento comunicados regularmente ao juízo ao qual for distribuído o auto de prisão em
flagrante após a realização da audiência de custódia.
§ 3° O juiz deve buscar garantir às pessoas presas em flagrante delito o direito à atenção
médica e psicossocial eventualmente necessária, resguardada a natureza voluntária
desses serviços, a partir do encaminhamento ao serviço de acompanhamento de alter-
nativas penais, não sendo cabível a aplicação de medidas cautelares para tratamento
ou internação compulsória de pessoas autuadas em flagrante que apresentem quadro
de transtorno mental ou de dependência química, em desconformidade com o previsto
no art. 4º da Lei 10.216, de 6 de abril de 2001, e no art. 319, inciso VII, do CPP. (BRA-
SIL, 2015, online, grifo nosso)

Deste modo, o magistrado deveria encaminhar o autuado para tratamento,


ACENO, 10 (22): 95-112, janeiro a abril de 2023. ISSN: 2358-5587

caso julgasse necessário, e não determinar a sua internação compulsória, tendo


em vista que naquela instância não cabia tal protocolo, além de que para a inter-
nação seria necessária a avaliação pericial de um especialista da área da saúde.
Nas palavras de Zamora (2008), essa lógica perpetua os “Desejos de manicômio”,
como uma dinâmica que está presente “em toda e qualquer forma de expressão
que se sustente numa racionalidade carcerária, explicativa e despótica” (MA-
CHADO; LAVRADOR, 2001: 46). São os “Manicômios S. A. o paradigma do mo-
delo institucional que propõe a submissão, que funciona sobre codificando todos
os discursos, que esmaga toda produção desejante, produzindo em lugar dela
uma subjetividade desapaixonada, descompromissada com a vida, desimplicada
com o mundo” (VEGA, 2000: 33), “trocando a experimentação pelo desejo de
classificar e hierarquizar” (ZAMORA, 2008: 7).
Posteriormente, um dos membros da equipe psicossocial conversa com o juiz.
Artigos Livres

De posse da resolução 213, de 2015, o profissional informa que seria mais pru-
dente o magistrado não deixar no termo o nome da clínica particular para inter-
nação, pois agindo assim, estariam parecendo um “açougue, vendendo carnes”, o
juiz concorda e diz: - Você tem razão, obrigado por comunicar, sempre que tiver
algo assim pode me falar.
Em seguida, o profissional pede para que a magistrada alterasse o termo “in-
ternação” e colocasse “tratamento”, pois dessa forma estariam firmando o com-
promisso com o tratamento ambulatorial, conforme preconiza a lei 10.216/2001
108
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Esse é uma segunda via do termo, originalmente ele constava o nome da clínica particular.
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e a regulamentação 213/2015. Porém, sobre esse pedido o juiz foi enfático e disse:
Não, esse rapaz precisa sair daqui internado!
Nos corredores da audiência o advogado/irmão de Garrincha, comemorava:
- Viu só, vocês disseram que não era possível pedir internação compulsória aqui,
e aí, vai me dizer o que agora? Consegui, está vendo!
Alguns dias depois, o processo seguiu para a vara em que Garrincha respon-
deria até seu julgamento. Nesse ínterim, mesmo de posse de seu alvará, ele per-
maneceu preso no centro de triagem. Doze dias após essa audiência, outro juiz, já
na vara criminal, agora analisando a culpabilidade ou não do autuado, julga como
improcedente a decisão do juiz em audiência de custódia, uma vez que não com-
petia a ele tal pedido de internação, ainda mais da forma em que foi feita. Deter-
minou a imediata soltura de Garrincha, considerando que a família estava sendo
onerada ao custear a internação de Garrincha em uma clínica particular. Garrin-
cha havia ganho o benefício da liberdade provisória, porém, já estava em seu dé-
cimo segundo dia de prisão no centro de triagem de Viana (ES), aguardando a
internação.

Considerações finais

Compreendendo os itinerários de pessoas com transtorno mental em conflito com a lei


Neste artigo descrevemos os itinerários das pessoas com transtorno mental
que ingressam no sistema de justiça por meio da Audiência de Custódia, rela-
tando quais foram os procedimentos adotados pelos atores do judiciário para li-
dar com os casos. Identificamos o pouco interesse de alguns atores jurídicos den-
tro da AC em abordar aspectos pertinentes à experiência de adoecimento e ao
processo do cuidado, somado à rigidez burocrática presente no serviço, que se
coloca como uma barreira de acessibilidade organizacional, gerando invisibili-
dade e vulnerabilidade para os autuados. O acionamento da lógica manicomial

SILVA CAMPOS, B.; SODRÉ, F.; WANDEKOKEN, K. D.; ROCCON, P. C.


diante à desorganização trazida pela “loucura” ainda parece ser a primeira opção
para alguns juízes nesse contexto.
A partir da compreensão do funcionamento dos itinerários e de sua forma de
construir e evidenciar caminhos, entendemos que ele é uma importante ferra-
menta para “trazer à tona” processos e pessoas, por vezes invisibilizados e silen-
ciados.
Compreendemos que o trabalho realizado pela equipe psicossocial presente
na AC deve seguir a lógica de um processo que acontece através da Ética profissi-
onal, do diálogo, da articulação, da iniciativa por parte dos envolvidos e da inces-
sante busca por autonomia. Isso, pois, percebemos que na sua configuração ele já
se mostra como um dispositivo de cuidado pautado por relações dialógicas, que
levam em consideração a experiência de adoecimento desses sujeitos e os seus
direitos enquanto cidadãos. Pudemos notar que as pontuações e inserções de al-
guns membros da equipe psicossocial, junto aos atores do judiciário, foram fun-
damentais no desenrolar dos casos e na construção de caminhos de cuidado em
saúde.
Os relatos dos itinerários de Zico, Garrincha e Maradona, pessoas em sofri-
mento psíquico que ingressaram no sistema de justiça por meio da Audiência de
Custódia, permitiu um novo olhar diante ao problema envolvendo saúde e justiça,
dando lugar de fala aos autuados, principais atores envolvidos nesse processo,
evidenciando as reais e mais urgentes necessidades dessas pessoas.
Nesta direção, concluímos que o aprisionamento de pessoas com transtorno men-
tal muitas vezes acontece por desconhecimento ou desconsideração de outros ca- 109

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minhos a serem adotados, ficando estes a cargo de uma tratativa de alguns funci-
onários. O processo de adoecimento, muitas vezes evidente, é desconsiderado em
virtude de outros interesses. Assim, a loucura parece não ser pensada como pos-
sibilidade de desencarceramento dentro das ACs.

Recebido em 11 de outubro de 2022.


Aprovado em 30 de abril de 2023.

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Artigos Livres

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