UNIVERSIDADE NOVA DE LISBOA
FACULDADE DE CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS
Etologia de
Capra hircus
na Quinta Pedagógica dos Olivais
Unidade Curricular: Etologia
Docente: Tânia Minhós
Diogo Rei — N.º 2023127940
Guilherme Sobral — N.º 2023126877
Mariana Mestre — N°. 2023126405
Rafael Oliveira — N.º 2023126153
Tiago Nascimento — N°. 2023122343
Lisboa, 31 de maio 2026
Indíce:
Resumo..............................................................................................................................3
Introdução........................................................................................................................3
Metodologia.......................................................................................................................7
Local de estudo..............................................................................................................7
Caracterização do grupo de estudo................................................................................7
Período e tamanho da amostra.......................................................................................8
Métodos de amostragem................................................................................................8
Etograma........................................................................................................................8
Resultados........................................................................................................................10
Indivíduos Observados................................................................................................10
Comparação entre Sexos.............................................................................................13
Conclusão........................................................................................................................14
Referências Bibliográficas...............................................................................................15
Resumo
O presente trabalho tem como objetivo descrever e quantificar os padrões
comportamentais de dois indivíduos focais da espécie Capra hircus, um macho adulto
(n.º 23104, “Preto”) e uma fêmea adulta em fase de lactação (n.º 23100), pertencentes à
raça Cabra Preta de Montesinho, observados na Quinta Pedagógica dos Olivais, em
Lisboa. O estudo insere-se no âmbito da Etologia e mobiliza o enquadramento teórico
proposto por Tinbergen (1963), nomeadamente os quatro níveis de análise do
comportamento e o conceito de etograma, como ferramentas centrais para a recolha e
interpretação sistemática dos dados.
A observação decorreu no dia 11 de abril de 2026, em duas sessões com um total de 80
minutos de observação efetiva. Foram aplicados os métodos de amostragem focal e
ad libitum, com recurso a um etograma composto por onze categorias comportamentais
previamente definidas com base na literatura. Os resultados revelam que, em ambos os
indivíduos, os comportamentos de alimentação (AL) e descanso deitado (DC) dominam
claramente a duração total da sessão, representando em conjunto mais de 85% do tempo
em ambos os casos. O macho apresentou um repertório comportamental mais
diversificado e exibiu comportamento agonístico proativo, consistente com o seu
estatuto de dominância. A fêmea, por sua vez, registou comportamentos associados ao
investimento parental, nomeadamente episódios de amamentação e descanso conjunto
com o filhote. As condições de calor intenso durante a observação, associadas à
adaptação da raça a climas frios, constituíram um fator ambiental com
impacto interpretativo nos padrões registados.
Introdução
A cabra doméstica (Capra hircus) é um ungulado pertencente à família Bovidae 1,
subfamília Caprinae, amplamente distribuído a nível mundial como resultado de
milénios de domesticação. Trata-se de uma das espécies pecuárias mais antigas, com
registos arqueológicos de domesticação que remontam a cerca de 10 000 anos no
Crescente Fértil, nomeadamente nas regiões do atual Irão e Turquia (Zeder, 2008). A
sua notável adaptabilidade a diversos climas e regimes alimentares tornou Capra hircus
uma das espécies mais versáteis da pecuária mundial, estando hoje presente em
contextos que vão desde sistemas de produção extensiva até espaços pedagógicos e
zoológicos. Pese embora a sua prevalência em ambientes humanos, o comportamento
social desta espécie em cativeiro continua a ser um campo de investigação ativo e
pertinente, nomeadamente no que respeita à organização do grupo, às interações
afiliativas, aos comportamentos de vigilância e ao impacto do contacto humano sobre a
expressão comportamental dos indivíduos.
Do ponto de vista etológico, a análise do comportamento animal exige uma abordagem
sistemática e pluridimensional. A etologia, definida por Tinbergen (1963) como o
"estudo biológico do comportamento", estabeleceu-se como disciplina científica
autónoma a partir dos trabalhos de Konrad Lorenz e Niko Tinbergen na escola europeia,
em contraste com o behaviorismo americano que dominava a psicologia comparada da
época (Slater, 1999). Tinbergen (1963) propôs quatro níveis de análise complementares,
mecanismo causal, ontogenia, função adaptativa e filogenia, que permitem compreender
o comportamento não apenas na sua expressão imediata, mas também na sua história
evolutiva e no seu valor adaptativo para a sobrevivência e reprodução do indivíduo. Esta
estrutura conceptual, conhecida como os "quatro porquês de Tinbergen", constitui o
enquadramento teórico central da etologia moderna e orienta o desenho e a interpretação
dos estudos comportamentais. A ela se associa o conceito de etograma, entendido como
um inventário exaustivo e estandardizado dos padrões comportamentais de uma espécie
(Tinbergen, 1963; Dawkins, 1994). O etograma é uma ferramenta metodológica
fundamental pois permite operacionalizar a observação, garantir a comparabilidade
entre estudos e assegurar a replicabilidade dos dados recolhidos. A sua construção
prévia à recolha de dados é considerada uma prática indispensável em qualquer estudo
etológico rigoroso (Slater, 1999).
1
Bovídeos (latim científico: Bovidae) constituem uma família de mamíferos ruminantes, à qual
pertencem animais domésticos, como ovelha, cabra e bois, além de selvagens, como
os antílopes e bisontes.
Em espécies sociais como Capra hircus, a vida em grupo estrutura-se em torno de
dinâmicas de dominância, afiliação e vigilância coletiva. Os caprinos são animais
gregários por natureza, sendo a coesão do grupo mantida através de um conjunto de
comportamentos afiliativos, como o grooming mútuo, a proximidade física e as
vocalizações de contacto, e regulada por relações de dominância expressas através de
interações agonísticas (Briefer et al., 2015). Estudos etológicos com caprinos em
cativeiro demonstram que os indivíduos mantêm hierarquias de dominância
relativamente estáveis ao longo do tempo, e que estas influenciam o acesso diferencial a
recursos como alimento, espaço de repouso e atenção do tratador. O contexto de maneio
humano pode, por sua vez, modificar de forma significativa os padrões de interação
social, nomeadamente através da habituação ao contacto humano, da alteração dos
ritmos de atividade e da supressão parcial de comportamentos de fuga ou alerta
(Nawroth et al., 2019). Em ambientes pedagógicos, onde o contacto com visitantes é
frequente e imprevisível, estas alterações comportamentais tornam-se particularmente
relevantes para a interpretação dos dados observados.
O cuidado parental e o desenvolvimento comportamental dos jovens constituem
também dimensões centrais na etologia de Capra hircus. As fêmeas estabelecem
vínculos de imprinting olfativo com as suas crias nas primeiras horas após o
nascimento, e o período de lactação é acompanhado por um conjunto de
comportamentos específicos de ligação mãe-cria, incluindo vocalizações de
reconhecimento individualizadas (Briefer et al., 2015). Os filhotes, por sua vez,
apresentam uma fase de desenvolvimento comportamental intensa nas primeiras
semanas de vida, caracterizada por comportamentos exploratórios, jogo social e
aprendizagem por observação dos adultos. Esta dimensão ontogenética do
comportamento, uma das quatro questões de Tinbergen, é particularmente relevante no
contexto do presente estudo, dado que o grupo observado inclui indivíduos em
diferentes fases do ciclo de vida, permitindo comparações entre classes etárias. De
acordo com Dawkins (1994) e Slater (1999), o comportamento resulta sempre da
interação entre uma predisposição genética e as condições ambientais específicas em
que o animal se desenvolve, pelo que a análise comparativa entre adultos e jovens
constitui uma janela privilegiada para observar essa interação em tempo real.
O comportamento de vigilância em herbívoros gregários tem sido amplamente estudado
à luz da teoria da seleção natural. De acordo com o modelo dos "muitos olhos" (Lima,
1995), indivíduos em grupo beneficiam de uma deteção mais eficaz de potenciais
ameaças, permitindo que cada animal reduza o tempo gasto em estado de alerta e
aumente o tempo dedicado a comportamentos de manutenção como a alimentação, o
descanso ou as interações sociais. Este modelo prevê uma relação inversa entre o
tamanho do grupo e o tempo individual de vigilância, e tem sido empiricamente
suportado em diversas espécies de ungulados. Slater (1999) sublinha que a vida em
grupo, embora apresente custos como o aumento da competição por recursos, confere
vantagens antipredatórias significativas que, em muitos contextos evolutivos, superam
esses custos. Embora os caprinos em cativeiro não estejam sujeitos a pressão predatória
direta, a expressão residual de comportamentos de vigilância, como o levantamento da
cabeça, a orientação das orelhas e a postura de alerta, reflete a persistência de
adaptações evolutivas mesmo na ausência dos estímulos que as originaram. Este
fenómeno ilustra a lógica da seleção natural descrita por Dawkins (1994): os
comportamentos que persistem são aqueles que, ao longo da história evolutiva da
espécie, maximizaram a sobrevivência e o sucesso reprodutivo dos indivíduos que os
expressaram.
O presente estudo foi realizado na Quinta Pedagógica dos Olivais (Lisboa), um espaço
de contacto próximo entre animais domésticos e visitantes humanos, o que constitui um
contexto particular a ter em consideração na interpretação dos resultados. O grupo
observado era composto por indivíduos de diferentes sexos e classes etárias, incluindo
um macho adulto, uma fêmea adulta em fase de lactação e três filhotes, o que permite
uma análise comparativa dos padrões comportamentais entre categorias. O objetivo
central deste trabalho é descrever e quantificar os comportamentos expressos pelo grupo
de Capra hircus em condições de cativeiro, com ênfase nas categorias de
alerta/vigilância e interação social afiliativa, registadas através de métodos de
amostragem focal e scan. Com base na literatura revista, formulam-se as seguintes
hipóteses:
Hipótese 1: Os indivíduos adultos apresentarão maior frequência de comportamentos de
vigilância comparativamente aos filhotes, dada a sua maior responsabilidade na deteção
de ameaças e manutenção da coesão do grupo;
Hipótese 2: Os comportamentos afiliativos e exploratórios serão mais frequentes nos
filhotes do que nos adultos, refletindo a importância do jogo social e da aprendizagem
na fase de desenvolvimento. Prevê-se ainda que a presença de visitantes humanos no
espaço influencie a frequência de comportamentos de alerta em todos os indivíduos,
ainda que de forma diferenciada consoante o grau de habituação ao contacto humano.
Metodologia
Local de estudo
O presente estudo realizado na Quinta Pedagógica dos Olivais, localizada em Lisboa,
Portugal. As observações decorreram dentro da quinta os os dois indivíduos em estudo
encontravam-se num recinto com uma área aproximadamente de 8 a 10 m2, dotado de
uma zona de sombra e abrigo (estrutura tipo casa), comedouro com palha, bebedouros
automáticos e convencionais. As condições atmosféricas eram favoráveis no dia da
observação com o céu limpo, tempo soalheiro e temperaturas elevadas.
Caracterização do grupo de estudo
O grupo dos indivíduos observados pertence à espécie Capra Hircus, da raça Cabra
Preta de Montesinho, originaria de Trás-os-Montes, região do nordeste de Portugal.
Trata-se de uma raça adaptada a climas frios e de montanha. O grupo era composto por
1 macho adulto, 3 fêmeas adultas e cerca de 3 ou 4 crias, não conseguimos perceber o
número exato de crias pois algumas delas estavam precisamente no abrigo. Para estes
efeitos, foram observados dois indivíduos focais:
Indivíduo 1 (I1) – Macho adulto: identificação auricular com o n.º 23104,
denominado. Informalmente, pelo seu tratador de “Preto”. Tem uma idade
aproximada de 3 a 4 anos. Descrição física: cornos grandes arqueados para trás,
estrutura corporal robusta e de grande porte, pelagem curta de cor castanha-
escura, testículos proeminentes. Demostrou durante a observação uma relação de
familiaridade com o tratador, que o criou desde cria.
Indivíduo 2 (I2) – Fêmea adulta: identificação auricular com o n.º 23100, sem
nenhum nome oficial. Idade aproximada de 3 a 4 anos, chegou de acordo com o
tratador, mais ou menos na mesma altura que o “Preto”. Descrição física:
estrutura corporal media e esguia, proporcional a uma fêmea adulta, pelagem
curta e castanha-escura de textura áspera, cornos mais finos e curtos que o
macho, presença de úbere2 visível indicativo de fase lactante.
Período e tamanho da amostra
A sessão de observação decorreu no dia 11 de abril de 2026 entre duas partes sendo
a primeira entre as 12h22 e as 12h56 totalizando 34 minutos e observação efetiva, e
a segunda parte entre as 14h00 e as 14h46, totalizando 46 minutos de observação
efetiva e conversa com o tratador dos animais. Foram registados 14 eventos
comportamentais na tabela de registo focal.
Métodos de amostragem
Foi utilizado o método de Amostragem Focal, no qual os indivíduos foram
observados em simultâneo, com registo do comportamento predominante.
Complementarmente, foram registados comportamentos espontâneos de ambos os
indivíduos através do método Ad libitum, nomeadamente comportamentos de
vigilância/alerta (VI) e interação social abilitiva (IS), que, embora observados, não
foram sistematicamente incluídos na tabela de registo focal.
Etograma
2
órgão glandular das fêmeas de mamíferos (como vacas, cabras ou ovelhas) que segrega o leite,
Dicionário Priberam Língua Portuguesa
O etograma utilizado neste estudo foi definido previamente à observação, com base
em categorias comportamentais descritas na literatura para caprinos domésticos
(Capra Hircus). Os comportamentos foram codificados conforme a Tabela 1.
Código Comportamento Definição Indicadores observáveis
AL Alimentação Ingestão de alimento Cabeça baixa no comedouro com
sólido no comedouro palha; movimentos de mastigação.
ou pasto.
BE Beber Ingestão de líquidos Focinho em contacto com a água;
no bebedouro. movimentos de deglutição.
DC Descanso deitado Repouso em estado de Animal deitado no solo, isolado ou
aparente inatividade junto a outro indivíduo/cria.
motora.
DE Descanso em pé Repouso na posição Animal imóvel em pé; ausência de
quadrúpede sem interação, alimentação ou
atividade motora. locomoção.
EX Exploração/Farejar Investigação olfativa Cheirar o solo ou paredes após
ou visual de objetos ou descanso
solo.
LO Locomoção Deslocamento ativo Movimento dos membros; mudar de
pelo recinto. sítio para permitir interação ou
amamentação.
IS Interação Social Interações de coesão Descanso em proximidade; fêmea
social e cuidados com parada enquanto a cria mama.
a prole.
AG Comportamento Interações de Bater com os cornos; investir contra
Agonístico agressividade ou outras fêmeas/crias; expulsar outros
dominância. do comedouro.
AU Auto-grooming Manutenção e limpeza O animal coça-se com os cornos ou
do próprio corpo. patas, geralmente após comer.
VI Vigilância Atenção ativa a Cabeça erguida e orelhas erectas;
estímulos do ambiente. animal atento ao público ou tratador.
VO Vocalização Emissão de sons Balidos ou episódios de tosse
vocais ou audíveis (registado no macho).
respiratórios.
Tabela 1
Resultados
A sessão de observação decorreu durante aproximadamente 34 minutos (12:22–12:56)
na Quinta Pedagógica dos Olivais, em condições atmosféricas ideais (soalheiro, céu
limpo, temperaturas elevadas). Foram observados dois indivíduos focais da espécie
Capra hircus, raça Cabra Preta de Montesinho, inseridos num recinto de 8–10 m2 com
mais duas fêmeas adultas e três a quatro crias.
O contexto ambiental e etologicamente relevante: trata-se de uma raça originaria de
Trás-os-Montes, adaptada ao frio, tendo sido observada em condições de calor intenso.
Este fator pode ter influenciado o padrão de descanso registado no final da sessão em
ambos os indivíduos.
Indivíduos Observados
Indivíduo 1 — Macho Indivíduo 2 — Fêmea
ID 23104 ("Preto") 23100
Idade Aprox. 3–4 anos Aprox. 3–4 anos
Descrição Cornos grandes arqueados, pelagem Estrutura esguia, ubere visível (fase
castanha-escura, testículos proeminentes lactante), cornos finos e curtos
Notas Boa relação com o tratador (criado desde Filhote associado observado a mamar
bebe)
Macho (n.° 23104)
Número de registos: A distribuição e relativamente equilibrada, com AL a dominar
ligeiramente (29%), enquanto BE, AG, AU, DC e VO se distribuem entre 14% e 15%
cada. Este padrão revela um repertório comportamental diversificado ao longo da
sessão.
Duração dos registos: O padrão altera-se significativamente quando se considera o
tempo. AL passa a representar 58% da duração total e DC 30%, o que significa que,
apesar da variedade de comportamentos registados, o macho passou a quase totalidade
do tempo a comer e a descansar. Os restantes comportamentos (BE, AG, AU, VO) são
frequentes, mas extremamente breves.
Etologicamente relevante e o registo de AL e AG em simultâneo (12:38), indicando que
o macho mantinha acesso prioritário ao comedouro através de comportamento
agonístico, padrão típico de dominância em machos adultos da espécie (Shrader et al.,
2007). A sequência BE — AU — DC após a alimentação sugere uma cadeia
comportamental coerente de manutenção pós-alimentar.
Código Comportamento N.o Registos Duração
(%) (%)
AL Alimentação 29% 58%
BE Beber 15% 3%
AG Comportamento 14% 3%
agonístico
AU Auto-Grooming 14% 3%
DC Descanso (deitado) 14% 30%
VO Vocalização 14% 3%
Fêmea (Nº 23100)
Número de registos: A fêmea apresenta apenas quatro categorias comportamentais. AL
e DC lideram com 33% cada, seguidas de AG e LO/LEX com 17% cada. O repertório e
mais restrito do que o do macho.
Duração dos registos: AL (53%) e DC (41%) dominam praticamente a totalidade do
tempo, perfazendo 94% da duração total da sessão. AG e LO/LEX são residuais (3%
cada), o que e confirmado pelo etograma: AG durou menos de 1 minuto e LO/EX cerca
de 1 minuto.
O comportamento da fêmea mostra-se fortemente condicionado pelo macho e pelo
filhote: interrompeu a alimentação quando o macho parou (12:33), retomou a 12:35, e
terminou a sessão deitada com o filhote (12:44–12:56). O episódio LO/EX a 12:43 esta
diretamente associado a mamada do filhote, articulando locomoção e interação parental.
Código Comportamento N.o Registos Duração
(%) (%)
AL Alimentação 33% 53%
DC Descanso (deitado) 33% 41%
AG Comportamento 17% 3%
agonístico
LO/LEX Locomoção / 17% 3%
Exploração
Comparação entre Sexos
Dimensão Macho Fêmea
Categorias observadas 6 4
Comportamento dominante AL (29%) AL e DC (33% cada)
(n.° registos)
Comportamento dominante AL (58%) AL (53%)
(duração)
2.o lugar em duração DC (30%) DC (41%)
Comportamento agonístico Dominante, pró-activo Reativo, pontual
Condicionamento social Condiciona a fêmea Condicionada pelo macho e cria
Interação parental Ausente Presente (LO/EX + DC com filhote)
Notas:
Convergência AL + DC: Em ambos os sexos, AL e DC dominam claramente a duração
dos registos, concentrando a maior parte da atividade observada. Este padrão e
consistente com o comportamento esperado em caprinos em contexto semi-cativo com
acesso a comedouro.
Maior diversidade no macho: O macho apresentou 6 categorias contra 4 da fêmea,
incluindo BE e VO que não ocorreram na fêmea. Isto pode indicar um repertório
comportamental mais variado, possivelmente associado ao estatuto de dominância e ao
papel social do macho no grupo.
Discrepância frequência/duração: Em ambos os sexos e notória a diferença entre
quantas vezes um comportamento ocorre e quanto tempo ocupa. Comportamentos como
AG ou BE surgem com alguma frequência, mas são eventos curtos. AL e DC, quando
ocorrem, prolongam-se significativamente.
DC mais proeminente na fêmea: Na duração, DC representa 41% na fêmea versus
30% no macho, sugerindo que a fêmea passou proporcionalmente mais tempo em
descanso. O facto de se ter deitado com o filhote pode ter contribuído para prolongar
este comportamento.
Efeito do calor: O descanso de ambos os animais no final da sessão (macho as 12:46,
fêmea as 12:44) pode refletir uma resposta termorreguladora 3 ao calor intenso,
especialmente relevante numa raça adaptada ao clima frio de Trás-os-Montes (Afonso et
al., 2021).
Hierarquia e dominância: O macho exerce claramente um papel dominante —
monopoliza o comedouro, utiliza AG proativamente com crias e outras fêmeas, e a
fêmea focal sincroniza o seu comportamento com o dele. Esta dinâmica e típica da
organização social em caprinos.
3
Termorreguladora - Biologia: que ou o que mantém uma temperatura interna estável, independentemente das variações de temperatura ambiental, Infopédia, Dicionários
Porto Editora
Investimento parental: Apenas a fêmea regista comportamentos associados a cria
(LO/EX com mamada, DC com filhote), consistente com o padrão típico de Capra
hircus (Briefer et al., 2015), e com a fase lactante confirmada morfologicamente.
Limitação metodológica: Os comportamentos de alerta/vigilância (VI) e interação
social afiliativa (IS) foram observados, mas não registados sistematicamente na tabela,
podendo estar subrepresentados na análise quantitativa. Uma segunda sessão de
observação permitiria confirmar e consolidar estes padrões.
Conclusão
O presente estudo permitiu descrever e analisar os padrões
comportamentais de dois indivíduos focais de Capra hircus
em contexto de cativeiro, com ênfase nos comportamentos de
vigilância/alerta e interação social afiliativa. Neste estudo, foi
possível confirmar que os adultos se mostraram mais atentos
e vigilantes, o que faz sentido dado que estes precisam de
detetar ameaças e manter a coesão do grupo. As crias, por
sua vez, revelaram-se mais curiosas e interativas, padrão
importante para o seu desenvolvimento ontogenético e para a
aprendizagem social característica da espécie (Briefer et al.,
2015).
No que respeita às hipóteses formuladas, os dados recolhidos
oferecem suporte parcial. A H1, de que os adultos
apresentariam maior frequência de comportamentos de
vigilância, não foi diretamente confirmada pela amostragem
focal, dado que VI não foi sistematicamente registado na
tabela. Contudo, os registos Ad libitum indicam que ambos os
indivíduos adultos manifestaram comportamentos de alerta
em resposta à presença de visitantes. Quando havia
visitantes humanos por perto, os animais alteravam
efetivamente o seu comportamento, reagindo de forma
diferenciada consoante o grau de habituação ao contacto
humano, sendo o macho, criado desde cria pelo tratador,
notoriamente menos reativo do que a fêmea (Nawroth et al.,
2019).
Os padrões observados evidenciam uma clara diferenciação
comportamental entre sexos. O macho exerceu um papel
dominante, monopolizando o acesso ao comedouro através
de comportamento agonístico proativo, enquanto a fêmea
demonstrou um repertório mais restrito, fortemente
condicionado pela presença do macho e pelo investimento
parental na cria. Esta assimetria é consistente com o que a
literatura descreve para a organização social de caprinos
domésticos (Briefer et al., 2015; Shrader et al., 2007). O efeito
termorregulador do calor, refletido no descanso simultâneo de
ambos os indivíduos no final da sessão, constitui também um
fator contextual relevante, particularmente numa raça
adaptada ao clima frio de Trás-os-Montes (Afonso et al.,
2021). Em síntese, os padrões de comportamento observados
mostram que a idade e o papel social dentro do grupo são
determinantes na expressão comportamental de Capra hircus,
o que contribui para uma melhor compreensão da espécie e
para a promoção do seu bem-estar em contexto de cativeiro.
Do ponto de vista metodológico, a principal limitação deste
estudo reside no reduzido tamanho da amostra, dois
indivíduos focais, e na duração única da sessão de
observação. Estudos futuros deveriam contemplar múltiplas
sessões em diferentes períodos do dia e condições
atmosféricas, a inclusão das crias como indivíduos focais, e o
registo sistemático dos comportamentos de vigilância e
interação social afiliativa na amostragem focal, de modo a
testar de forma mais robusta as hipóteses formuladas e
consolidar os padrões aqui identificados.
Referências Bibliográficas
Briefer, E. F., Tettamanti, F., & McElligott, A. G. (2015). Emotions in goats: mapping physiological, behavioural and vocal
profiles. Animal Behaviour, 99, 131–143.
Dawkins, M. S. (1994). An Introduction to Animal Behaviour (4th ed.). Cambridge University Press.
Lima, S. L. (1995). Back to the basics of anti-predatory vigilance: the group-size effect. Animal Behaviour, 49(1), 11–20.
Nawroth, C., Langbein, J., Coulon, M., Gabor, V., Oesterwind, S., Benz-Schwarzburg, J., & von Borell, E. (2019). Farm
animal cognition—linking behavior, welfare and ethics. Frontiers in Veterinary Science, 6, 24.
Slater, P. J. B. (1999). Essentials of Animal Behaviour. Cambridge University Press.
Tinbergen, N. (1963). On aims and methods of ethology. Zeitschrift für Tierpsychologie, 20(4), 410–433.
Zeder, M. A. (2008). Domestication and early agriculture in the Mediterranean Basin: origins, diffusion, and impact.
Proceedings of the National Academy of Sciences, 105(33), 11597–11604.