A Menina e o Relógio da Lua
Capítulo 1 — A cidade onde o tempo parou
Na pequena cidade de Vila Serena, todos conheciam a antiga torre do relógio.
Ela ficava no centro da praça principal, cercada por árvores enormes e bancos de madeira. O relógio
era tão antigo que ninguém sabia exatamente quando havia sido construído. Seus ponteiros eram
grandes e escuros, e o som de suas badaladas podia ser ouvido em praticamente toda a cidade.
Havia, porém, algo estranho sobre aquele relógio.
Ele estava parado exatamente às meia-noite.
Ninguém sabia o motivo.
Durante muitos anos, os moradores tentaram consertá-lo. Relojoeiros, engenheiros e até curiosos
subiram na torre para descobrir o problema. Todos voltavam dizendo a mesma coisa:
— Não há nada quebrado.
Mesmo assim, os ponteiros nunca se moviam.
Entre os moradores de Vila Serena estava Lia, uma garota de treze anos que adorava histórias e
mistérios. Ela morava com a avó, Dona Amélia, em uma pequena casa perto da praça.
Lia sempre havia perguntado sobre o relógio.
— Vó, por que ele nunca funciona?
Dona Amélia sempre respondia:
— Algumas coisas ficam paradas porque estão esperando a hora certa.
Lia achava aquela resposta estranha.
— Hora certa para quê?
A avó apenas sorria.
— Um dia você vai descobrir.
Naquela noite, porém, algo diferente aconteceu.
Lia estava em seu quarto, tentando dormir, quando ouviu um som distante.
DONG.
Ela abriu os olhos.
Um minuto depois:
DONG.
Lia se levantou.
O relógio da torre havia acabado de bater.
Ela correu até a janela.
Os ponteiros, que estavam parados havia décadas, começaram lentamente a se mover.
E, pela primeira vez em muitos anos, o relógio marcou meia-noite e um minuto.
Capítulo 2 — A chave prateada
Lia saiu de casa silenciosamente.
A praça estava completamente vazia. A luz da lua iluminava a torre, fazendo as pedras antigas
parecerem quase prateadas.
Ela se aproximou da porta.
Para sua surpresa, estava aberta.
Lia entrou.
Dentro da torre havia uma escada em espiral que subia até o mecanismo do relógio. A menina
começou a subir, segurando o corrimão coberto de poeira.
A cada passo, ouvia o vento passando pelas frestas das paredes.
Quando chegou ao topo, encontrou o enorme mecanismo do relógio.
As engrenagens estavam se movimentando.
No centro delas havia uma pequena caixa de madeira.
Lia abriu a caixa.
Dentro estava uma chave prateada.
Junto dela havia um papel dobrado.
Lia abriu o papel e leu:
"Quando o relógio voltar a andar, procure a porta que não existe."
Ela franziu a testa.
— A porta que não existe?
Naquele momento, ouviu um barulho atrás dela.
Lia se virou rapidamente.
Não havia ninguém.
Então percebeu uma coisa.
Na parede havia uma marca em formato de porta.
Ela passou a mão sobre as pedras.
— Não pode ser...
A menina apertou a marca.
Uma parte da parede se moveu.
Atrás dela apareceu uma passagem escura.
Lia ficou alguns segundos parada.
Sabia que deveria voltar para casa.
Mas a curiosidade falou mais alto.
Ela colocou a chave no bolso e entrou.
A passagem levava a uma pequena sala escondida.
No centro havia uma mesa.
Sobre a mesa, um livro muito antigo.
Na capa estava escrito:
O Guardião das Horas.
Capítulo 3 — O livro
Lia abriu o livro.
As primeiras páginas estavam cheias de desenhos da cidade, mas havia algo que chamou sua
atenção.
Em uma das ilustrações aparecia a torre do relógio.
Ao lado dela estava desenhada uma figura encapuzada segurando uma ampulheta.
Abaixo havia uma frase:
"O tempo de Vila Serena é protegido por um guardião. Quando o guardião desaparece, o
relógio para."
Lia continuou lendo.
Descobriu que, muitos anos antes, existia uma pessoa responsável por proteger um objeto mágico
chamado Relógio da Lua.
Esse relógio não controlava apenas as horas.
Segundo o livro, ele guardava as memórias da cidade.
Cada momento importante de cada morador era armazenado dentro dele.
A primeira amizade.
A primeira despedida.
Uma promessa.
Um aniversário.
Um sonho.
Tudo ficava registrado.
Mas havia um problema.
Alguém havia tentado roubar o Relógio da Lua.
Para impedir que o objeto caísse em mãos erradas, o antigo guardião havia escondido o relógio em
algum lugar da cidade.
Antes de desaparecer, ele deixou uma pista:
"Procure onde a lua toca a água, mas onde nenhum barco consegue chegar."
Lia pensou durante alguns segundos.
— O lago!
Vila Serena possuía um lago antigo no fim da cidade. No meio dele havia uma pequena ilha que
ninguém visitava porque as águas ao redor eram muito profundas.
Lia fechou o livro.
Antes que pudesse sair, ouviu uma voz.
— Você não deveria estar aqui.
Lia se virou.
Um garoto estava parado na entrada da sala.
Ele tinha aproximadamente a mesma idade que ela e segurava uma lanterna.
— Quem é você? — perguntou Lia.
— Meu nome é Tomás.
— O que você está fazendo aqui?
Ele apontou para o livro.
— A mesma coisa que você.
Lia ficou desconfiada.
— Você sabe sobre o Relógio da Lua?
Tomás assentiu.
— Minha família conhece essa história há gerações.
Ele se aproximou.
— E acho que sei como chegar à ilha.
Capítulo 4 — A ilha
Na manhã seguinte, Lia e Tomás encontraram-se perto do lago.
O céu estava nublado, e o vento balançava as árvores.
Tomás trouxe uma pequena canoa.
— Você tem certeza disso? — perguntou Lia.
— Não.
— Ótimo.
Os dois entraram na canoa.
Depois de alguns minutos remando, chegaram à ilha.
Era um lugar silencioso.
Havia árvores antigas e pedras cobertas de musgo.
No centro da ilha, encontraram uma pequena construção de pedra.
Na entrada havia outra frase:
"Somente quem conhece o valor de uma lembrança pode abrir esta porta."
Lia observou a porta.
Não havia fechadura.
— Talvez precisemos dizer alguma coisa — sugeriu Tomás.
Lia pensou.
Então lembrou-se da avó.
Pensou em todas as noites em que Dona Amélia contava histórias para ela.
— Uma lembrança não precisa ser uma coisa — disse Lia. — Pode ser alguém.
Ela colocou a mão sobre a porta.
— Eu me lembro da minha avó.
A porta se abriu.
Dentro havia uma sala circular.
No centro, sobre um pedestal, estava o Relógio da Lua.
Era pequeno e brilhava suavemente.
Parecia um relógio comum, mas seu interior não tinha engrenagens.
Tinha estrelas.
Lia se aproximou.
Quando tocou no objeto, viu imagens surgirem diante de seus olhos.
Viu crianças brincando na praça.
Viu pessoas se casando.
Viu famílias chegando à cidade.
Viu pessoas partindo.
Viu momentos felizes e momentos difíceis.
Então uma imagem chamou sua atenção.
Era Dona Amélia quando era jovem.
Ela estava ao lado de um homem desconhecido.
Lia reconheceu imediatamente aquele rosto.
Era seu avô, que havia falecido quando ela era pequena.
A menina ficou emocionada.
— Vó nunca me contou isso...
Tomás observou o relógio.
— Talvez seja por isso que ele guarda as memórias.
De repente, o relógio começou a tremer.
As estrelas dentro dele ficaram escuras.
Uma voz ecoou pela sala:
— Finalmente encontrei vocês.
Capítulo 5 — O homem da torre
Um homem entrou na sala.
Usava um longo casaco escuro e carregava uma bengala.
Lia imediatamente reconheceu seu rosto.
Era o homem que costumava cuidar da torre do relógio.
— Senhor Augusto?
Ele sorriu.
— Vocês não deveriam ter encontrado o relógio.
Tomás deu um passo para trás.
— O senhor sabia onde ele estava?
— É claro.
Augusto havia sido aprendiz do antigo guardião.
Durante anos, tentou descobrir como controlar o Relógio da Lua.
Seu objetivo era apagar certas lembranças da cidade e substituí-las por outras.
— Se eu controlar o relógio — explicou — posso fazer todos esquecerem seus erros, suas tristezas e
seus fracassos.
Lia balançou a cabeça.
— Mas também apagaria as coisas boas.
— Algumas coisas boas podem ser substituídas.
— Não podem! — respondeu Lia.
Augusto levantou a mão.
O relógio começou a flutuar.
As memórias ao redor deles desapareceram uma por uma.
Lia sentiu medo.
Mas lembrou-se das palavras da avó:
"Algumas coisas ficam paradas porque estão esperando a hora certa."
Ela entendeu.
O relógio não precisava de alguém para controlar as memórias.
Precisava de alguém que soubesse valorizá-las.
Lia tirou a chave prateada do bolso.
A mesma chave que havia encontrado na torre.
Colocou-a no relógio.
As estrelas voltaram a brilhar.
Uma forte luz tomou conta da sala.
Augusto tentou impedir, mas não conseguiu.
O relógio começou a funcionar.
Tic.
Tac.
Tic.
Tac.
As memórias voltaram.
Augusto caiu de joelhos.
Por alguns segundos, ficou em silêncio.
Então começou a chorar.
Lia percebeu que ele também havia perdido alguém importante.
Talvez fosse por isso que queria apagar o passado.
Ela se aproximou.
— Algumas lembranças doem — disse ela. — Mas isso não significa que precisamos esquecê-las.
Augusto abaixou a cabeça.
— Você tem razão.
Capítulo 6 — A nova guardiã
Quando Lia e Tomás voltaram para Vila Serena, o relógio da torre funcionava normalmente.
Os moradores saíram de suas casas assustados.
Durante anos, ninguém tinha ouvido aquelas badaladas.
Agora elas preenchiam a cidade.
DONG.
Todos olharam para a torre.
Dona Amélia estava na praça.
Quando viu Lia, sorriu.
A menina correu até ela.
— Vó, eu descobri o que aconteceu com o relógio.
Dona Amélia abraçou a neta.
— Eu sabia que um dia você descobriria.
Lia ficou surpresa.
— Você sabia?
A avó assentiu.
— Seu avô foi o último guardião do Relógio da Lua.
Lia ficou em silêncio.
— Por que nunca me contou?
— Porque algumas histórias precisam ser descobertas, não apenas contadas.
Naquela noite, Lia voltou à torre.
O relógio marcava meia-noite.
Ela olhou pela janela.
A lua brilhava sobre a cidade.
Tomás apareceu ao seu lado.
— Então você é a nova guardiã?
Lia sorriu.
— Acho que sim.
— E o que um guardião faz?
Ela observou as luzes das casas.
— Guarda aquilo que não pode ser comprado.
— Como o quê?
Lia pensou.
— Memórias. Promessas. Amizades. Histórias.
Tomás sorriu.
Os dois ficaram em silêncio.
O relógio continuou funcionando.
Tic.
Tac.
Tic.
Tac.
Desde aquele dia, Vila Serena nunca mais foi a mesma.
As pessoas passaram a contar suas histórias umas às outras.
Os mais velhos contavam histórias para as crianças.
As crianças registravam seus sonhos.
E, todas as noites, o relógio da torre marcava as horas.
Dizem que, quando alguém em Vila Serena esquece uma lembrança importante, uma pequena
estrela aparece dentro do relógio.
E, se alguém subir até o topo da torre exatamente à meia-noite, poderá ouvir uma voz suave
dizendo:
"O tempo passa. As lembranças ficam."
Lia continuou sendo a guardiã durante muitos anos.
E nunca mais teve medo do passado.
Porque descobriu que as lembranças não existem para nos prender.
Elas existem para nos lembrar de quem somos.
Fim.