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Capítulo
1
F
OI importantíssimo o papel da Igreja na Idade Média. No meio das violências e não raro a
anarquia, o clero representou o princípio da ordem, salvou os restos da civilização e
esforçou-se por suavizar a brutalidade dos costumes, auxiliando os fracos e os pequenos.
A ação do papado sobre a sociedade tornou-se cada vez sensível e benéfica. Até a época de
Constantino, a sociedade cristã, ainda não legalmente reconhecida, trabalhou somente para se
estabelecer. Durante a invasão dos bárbaros, os papas haviam-se aplicado especialmente a suavizar
a sorte das populações católicas vencidas contra os vencedores heréticos e pagãos. Terminada a
invasão, trabalharam pela regeneração social.
A Igreja e o Império
O acontecimento mais importante do século XI é a luta entre o sacerdócio e o império, entre
os papas e os imperadores da Alemanha, combatendo aqueles pela independência do poder
espiritual, esforçando-se estes por concentrar em suas mãos os dois poderes, espiritual e temporal1.
O Papa São Gregório VII e o imperador Henrique IV personificam particularmente tal luta,
felizmente terminada pela vitória do Papado, isto é, pelo triunfo da Igreja.
1
Esta interferência do poder dos imperadores nos assuntos da Igreja ficou conhecida como Cesaropapismo.
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desordens, não estavam dispostos a ceder. O princípio do mal eram as investiduras; para elas
Gregório VII dirigiu todos os esforços. Chamava-se investidura a cerimônia que consistia em pôr
de posse de um benefício ou dignidade por meio de símbolos adequados: o báculo e o anel,
símbolos da dignidade episcopal; o cetro ou a espada, da autoridade civil ou militar. Como os bispos
se haviam tornado ao mesmo tempo senhores leigos, o cetro, o báculo e o anel representavam-lhes
o duplo poder, e os príncipes pretendiam dar a investidura com os três símbolos, dispondo assim
da dignidade episcopal e violando os cânones da Igreja. Protestaram os pontífices: daí a luta das
investiduras.
A concordata de Worms
Henrique IV não tardou a ser abandonado pelos “sucessos”. Vencido, combatido por seus
próprios filhos, alvo de geral desprezo e ódio, morreu miseravelmente.
A luta, porém, continuou. Henrique V, que a princípio fingira devoção, recomeçou a questão
das investiduras. Finalmente, em 1122 a concordata de Worms resolveu a questão, renunciando o
imperador à investiduras pelo anel e báculo, ficando-lhe a do cetro.
Foi assim assegurada a liberdade da Igreja, que se viu não somente livre da tirania dos
imperadores, como também radicalmente reformada em sua disciplina.
As heresias
Numerosas foram as heresias no período medieval. Umas provinham de velhos erros
sobreviventes; outras do desejo de reagir contra o espírito mundano e a riqueza do clero, a fim de
reconduzir a Igreja à simplicidade evangélica. Tais foram os Valdenses e os Albigenses.
Pedro Valdo, rico negociante de
Lyon, comovido com a leitura do
Evangelho e da vida dos Santos, distribuiu
seus bens aos pobres, mandou traduzir em
vulgar a Bíblia e pôs-se a pregar com os
outros leigos e algumas mulheres. Foi
excomungado pelo arcebispo de Lyon e
depois pelo terceiro concílio lateranense
(1177). Os valdenses (seguidores de Pedro
Valdo) foram novamente condenados em
Pedro Valdo em Roma, explicando-se aos inquisidores e ao Papa 1185 pelo Papa. A seita continuou, com
Alexandre III, em 1179 (Terceiro Concílio de Latrão). diversos nomes, nos Alpes piemonteses
até o século do Reforma Protestante. Os
Valdenses, aliás, eram como precursores dos reformados, só admitindo a exclusiva autoridade da
Bíblia, rejeitando os sacramentos, indulgências, culto dos santos, sacerdócio, etc. Com Inocêncio
III, alguns voltaram ao seio do Catolicismo; outros, mais tarde, adotaram as ideias de Huss e de
Calvino.
Desde o século X, aliás, a heresia invadira a Europa, vinda do Oriente com o neo-
maniqueísmo; foi, porém, nos séculos XII e XIII que, sob o nome de catarismo, rapidamente
progrediu. Os cátaros (do grego, puros) tinham tomado do maniqueísmo a concepção dualista do
mundo, admitindo a existência de dois deuses opostos, um princípio do bem, outro princípio do
mal, ambos eternos e independentes. Rejeitavam a missa, os sacramentos, as relíquias, as imagens,
o culto da cruz e todo Antigo Testamento, “obra do deus do mal”. Repeliam em bloco a liturgia,
condenavam a guerra e, pela proibição de qualquer juramento, abalavam os alicerces da sociedade
feudal. Os Valdenses não parecem terem admitido a teologia maniqueísta dos Cátaros, mas
participaram de suas teorias antissociais.
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Como o principal foco do catarismo era a cidade de Albi, os Cátaros ficaram mais
conhecidos na França pelo nome de Albigenses. Tentou-se primeiro convertê-los, empregando
meios persuasivos. São Bernardo e outros monges pregadores percorreram a região infestada e por
algum tempo houve esperança de triunfar. Engano: apenas tinha regressado São Bernardo, a
propaganda albigense recomeçava mais forte. Como atacavam publicamente, não só a fé, mas a
própria ordem social (chegando em certos casos a condenar o casamento e a obediência às
autoridades temporais), resolveu-se organizar contra eles uma cruzada. Sob o comando de Simão
de Monfort, muitos nobres acorreram ao combate, mais atraídos pelos ódios de raça e esperança de
lucro do que propriamente pelo zelo ortodoxo. A guerra durou vinte anos, a que Branca de Castela,
mãe de São Luís, pôs fim de 1229. Inocêncio III lamentou que a espada fizesse tantas vítimas. Para
acabar mais humanamente a obra começada e restabelecer a unidade religiosa, fundou-se o tribunal
da Inquisição.
As Ordens Religiosas
Justamente por essa época eram criadas duas ordens
religiosas que correspondiam perfeitamente às novas
necessidades da Igreja e iam dar poderoso impulso à obra de
reforma espiritual. Eram os Franciscanos, criação de um
italiano, São Francisco de Assis (1210) e os Dominicanos,
fundação de um espanhol, São Domingos (1215). Ambas as
ordens entregavam-se à pregação; os Dominicanos
particularmente brilhavam na teologia e no direito canônico; os
Franciscanos, ao cabo de meio século, exerciam tal influência
social, que só os religiosos eram cerca de 200.000. Errando a
pé através da Europa, sob as soalheiras ou os ventos glaciais,
repelindo a esmola pecuniária, mas recebendo reconhecidos o
mais grosseiro alimento, despreocupados do amanhã, mas
constantemente preocupados em arrancar de Satanás as almas,
São Francisco de Assis encontrando São tal a forma porque os primeiros dominicanos e os franciscanos
Domingos Gusmão. se ofereceram aos olhos dos homens.
Diferiam essas duas ordens das outras já existentes, pela regra de absoluta pobreza e pela
vida não isolada em mosteiros, mas ao contrário nas cidades, entre o povo. Graças às Ordens
Terceiras, recrutadas entre os leigos, maior ia ser a penetração social; principalmente com a Ordem
Terceira de São Francisco.
A Inquisição
“A palavra inquisição designa primitivamente uma forma de processo distinta da acusação
e da denúncia. Foi o Papa Gregório IX que, por volta de 1231, fundou o instituto comumente
chamada “inquisição”, isto é, confiou o conhecimento das causas de heresia (que por si pertence
aos bispos) a comissários especiais, tirados do clero regular (as mais das vezes na ordem de São
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Pintura de 1683 de Francisco Rizi retratando um auto de fé na Plaza Mayor, Madrid, em 1680
“A Inquisição, encarregada de julgar os hereges, é uma instituição cujo mecanismo e cujo rigor se
explicam pelos costumes e ideias do tempo” (Vacandar). Quanto às vítimas entregues ao braço secular,
facilmente se lhes tem exagerado o número. “Não é absolutamente paradoxal afirmar que os hereges
ganhavam em ser julgados pela Inquisição monástica. Basta lembrar o que foram as vinganças religiosas
exercidas pelas multidões ou até por um imperador que já no século XIII assumia uma postura de livre
pensador, Frederico II, para compreender que os tribunais que são obra dos papas, realizavam verdadeiro
progresso no exercício da justiça. Não somente esses tribunais encerraram a era das execuções sumárias,
mas ainda diminuíram consideravelmente o número das condenações que tinham por consequência a pena
de morte. Disso dão fé os documentos. E um escritor nada suspeito de ternura para com a Igreja, M. Charles
Lea, pode, em verdade, escrever: “Comparativamente, as fogueiras da Inquisição fizeram poucas vítimas”.
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Os grandes Papas
Gregório VII, Inocêncio III e Bonifácio VIII são os três pontífices que mais se distinguem
pela sua energia na defesa do Papado na Idade Média. Já vimos como, na questão das investiduras,
Gregório VII conseguiu vencer os obstáculos que lhe opunham não só os soberanos da França e da
Alemanha, mas o próprio relaxamento da disciplina eclesiástica. A concordata de Worms (1122)
liquidou a questão das investiduras, mas a luta entre o pontificado e o império prosseguiu. Era o
Papa um vassalo do imperador, ou este pelo contrário sujeito ao Pontífice, que é chefe supremo da
Cristandade? Não há dúvida que Gregório VII, Inocêncio III e Bonifácio VIII se consideraram
investidos por Deus da alta missão de árbitros entre os povos e seus soberanos, de protetores da
ordem social cristã... Todos os povos reconheciam e confirmavam este papel que o Papado exercia
de ministério público, de suserania religiosa, universal, que não ia até absorver o poder civil no
espiritual, mas antes a vincular todos os reinos cristãos à Santa Sé por um “laço feudal”,
respeitando-lhe a autonomia.
Bonifácio VIII
Filipe IV, o Belo (1285 – 1314) soberano da
França, entrou em conflito com o Papa, em
1296, devido à prisão do bipo de Pamiers,
Bernardo de Saisset, falsamente acusado de
traição. Bonifácio VIII (1294 – 1303), que
apesar de sua idade avançada era de rara
energia, protestou pela célebre bula Asculta, fili
carissime e convocou um concílio. Filipe
publicou uma falsificada, concisa, imperativa,
exagerada. Indignado, o papa excomungou-o
(abril de 1303) e declarou-o deposto. Filipe,
além do mais, impediu que os bispos franceses
comparecessem ao concílio. Este contudo
realizou-se e o papa publicou a Bula Unam
Sanctam, afirmando solenemente a doutrina da
Igreja quando aos dois poderes.
Excomungado, o rei preparou contra o
Papa um golpe de audácia, auxiliado pelos seus
legistas Guilherme de Nogaret e Guilherme de
A bofetada de Anagni.
Plaisians. Acusaram o pontífice de “mentiroso,
blasfemo, lobo devorador, simoníaco, herege, usurpador e tirano”. Nogaret foi à Itália e buscou o
auxílio dos Colonna, inimigos do Papa. Nogaret se dirigiu à Anagni, cidade natal do pontífice e
onde Bonifácio VIII foi passar o verão. No dia 7 de setembro de 1303, os invasores penetraram a
cidade, saquearam as casas dos amigos do Papa e por fim entraram em tumulto no próprio palácio
pontifício.
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Revestido de todas as insígnias pontifícias, Bonifácio VIII esperava-os no seu trono, em todo o
esplendor de sua autoridade. Todos o haviam abandonado; ele porém, apesar dos seus 80 anos,
resistia impávido. A soldadesca insultou-o, Sciarra, Sciarra Colonna o quis matar, Nogaret o
intimou a que abdicasse e deu-lhe uma bofetada. Ele não cedeu. Dois dias depois a população de
Anagni, envergonhada, constrangia Nogaret a fugir e libertou o Papa, que regressou a Roma. O
abalo, porém, foi mortal: um mês após o atentado, Bonifácio VIII morreu.
O cativeiro da Babilônia
Em 1309, o Papa Clemente V fixou-se em Avinhão, e aí por setenta anos permaneceu o
Papado, sem dúvida com mais segurança do que em Roma, devido às agitações da Itália e à luta
dos imperadores contra a Santa Sé. Os italianos chamaram a esse período “o cativeiro da
Babilônia”. Filipe o Belo obteve a condenação e dissolução da ordem dos templários, acusados de
hediondos crimes e cujo grão-mestre Jacques de Moloy foi queimado em Paris. A verdade é que os
bens da ordem eram cobiçados e o seu poder assustava ao absolutismo de Filipe. Enfim, Gregório
XI, cedendo às súplicas de Santa Catarina de Sena, e apesar da oposição de Carlos V, deixou
Avinhão e voltou para Roma (1377) onde pouco depois faleceu (1378).
O cisma do Ocidente
Mas agora uma desordem mais grave ia perturbar a Cristandade: com a eleição de Urbano
VI dividiram-se as opiniões, e alguns cardeais rebeldes elegeram papa a Clemente VII, que se
estabeleceu em Avinhão (1379). A confusão dos espíritos foi geral: até entre os santos houve quem
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apoiou um dos dois pontífices. Morto Urbano VI, os cardeais italianos elegeram Bonifácio IX;
pouco depois os de Avinhão escolheram Bento XIII, sucessor de Clemente VII. O concílio de Pisa
(1409) depôs a ambos e escolheu Alexandre V. Cada um dos três, porém, considerava-se o legítimo
pontífice e a confusão chegou ao auge. Enfim, com o concílio de Constança (1414 – 1418) Martinho
V foi proclamado Papa e entrou em Roma no meio de júbilo universal.
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Atividades
1) Qual foi a posição dos imperadores de Constantinopla em relação ao Papado?
2) Segundo o texto qual foi o grande feito de São Gregório Magno?
3) Quem concedeu ao Papa Estêvão II os Estados Pontifícios?
4) Qual foi o acontecimento mais importante do século XI? O que é Cesaropapismo?
5) Qual contexto contribuiu para o surgimento da reforma de São Gregório VII?
6) Qual mosteiro foi o responsável pelo início do processo de regeneração?
7) O que eram as investiduras?
8) O que fez o imperador Henrique IV para que o Papa Gregório VII o excomungasse?
9) Cite as duas principais heresias surgidas no período medieval.
10) Cite as duas ordens religiosas surgidas neste período.
11) Quem fundou a Inquisição?
12) O Inquisição condenava à morte os hereges?
13) Copie esta frase:
“Não somente esses tribunais encerraram a era das execuções sumárias, mas ainda diminuíram
consideravelmente o número das condenações que tinham por consequência a pena de morte. Disso
dão fé os documentos.”
14) Quais são os três papas que mais se destacaram na defesa do Papado na Idade Média?
15) Por que Felipe o Belo foi excomungado por Bonifácio VIII?
16) Quem foi responsável pela bofetada de Anagni?
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Capítulo
2
O que foram as Cruzadas?
Cruzadas são grandes expedições militares empreendidas pelos povos cristãos com o fim de
libertar a Palestina e o túmulo de Jesus Cristo, então sob o domínio dos muçulmanos. Ao todo
houve oito cruzadas entre 1095 d.C. a 1270 d.C.
Causas
Desde os primeiros séculos da Igreja, especialmente depois do século IV, era grande a
afluência de peregrinos aos Santo Lugares da Palestina. Durante a Idade Média a fé tornara-se
muito viva entre os povos da Europa ocidental e manifestava-se principalmente pelo fervor em atos
de culto externo, devoção para com os santos, cujas relíquias eram disputadas, e peregrinações aos
pontos mais notáveis por aparições, milagres ou túmulos de apóstolos.
Os árabes das dinastias anteriores às cruzadas tinham-se mostrados tolerantes, não
impedindo aos peregrinos a entrada em Jerusalém. Porém, com a aparição e domínio da região
pelos Trucos Seldjúcidas, a situação se agravou intensamente. Altivos e cruéis, os turcos
conseguiram em breve impor seu governo e iniciar a perseguição aos cristãos. São Gregório VII, o
Papa da época, já mostrou interesse em realizar uma expedição militar contra os muçulmanos para
libertar os cristãos e o Santo Sepulcro. Contudo, este Papa não efetivou o plano, ficando a cargo do
Beato Urbano II.
Primeira Cruzada
1096-1099 d.C.
As Cruzadas formam um evento histórico que demonstra a indignação de Deus para com os
pecados e as blasfêmias dos homens. O Senhor dos Exércitos moveu a Cristandade a combater
inimigos da fé católica: os muçulmanos.
Com o impedimento das peregrinações ao Santo Sepulcro (as pessoas faziam peregrinações
ao Santo Sepulcro a fim de fazer penitência e pedir graças), ou pelo menos com o aumento dos
obstáculos para chegar a Jerusalém, o Papa Urbano II convocou a Primeira Cruzada em novembro
de 1095 d.C. Depois de um discurso inflamado de santo zelo e ungido pelo Espírito Santo, os
cristãos foram movidos a armarem-se e marchar rumo à Terra Santa. Assim disse o Papa:
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“Armados pela espada dos Macabeus, ide defender a casa de Israel, que é a vinha do Senhor dos
Exércitos. Já não se trata de vingar as injúrias dos homens, mas as da Divindade. Já não se trata do
ataque de uma cidade ou de um castelo, mas da conquista dos santos lugares. Se triunfardes, as
bênçãos do céu e os reinos da Ásia serão vosso prêmio. Se sucumbirdes, tereis a glória de morrer
nos mesmos lugares onde Jesus Cristo morreu e Deus não esquecerá de que vos viu em sua santa
milícia. Que afeições fracas e covardes, sentimentos profanos não vos prendam em vossos lares.
Soldados do Deus vivo, escutai somente os gemidos de Sião, quebrai todas as amarrações da terra”.
Estas palavras de Urbano penetravam e abrasavam todos os corações. Além do discurso, o
Papa Urbano II prometeu aos cruzados a remissão de seus pecados. Suas famílias e seus bens foram
colocados sob a proteção da Igreja e dos Apóstolos São Pedro e São Paulo.
Muitos se sentiram chamados pelo Senhor a juntar-se aos cruzados de modo que a expedição
se tornou grandiosa. O Papa havia determinado que as tropas católicas partissem na festa da
Assunção de Maria Santíssima (15 de agosto de 1096), pois os preparativos para a viagem e para
as batalhas eram muitos.
Diversas expedições militares marcharam para a Jerusalém em 1096. Ao chegarem em
Constantinopla, os cruzados tiveram que jurar fidelidade ao Imperador Aleixo I e prometeram
entregar a ele todas as terras conquistadas. O primeiro objetivo dos cruzados era conquistar a cidade
de Niceia ocupada pelos turcos desde 1081 e situada a cerca de cem quilômetros de Constantinopla.
Após a conquista de Niceia e de várias cidades da Ásia Menor, os cruzados marcharam para
a Terra Santa. No entanto, somente no meio do ano de 1099, alcançaram Jerusalém e a
conquistaram após duras batalhas com os muçulmanos, especialmente a Batalha de Ascalon (12 de
agosto de 1099).
Milagres durante as Cruzadas: Aparecimento de Nosso Milagres durante as Cruzadas: Aparecimento da Santa
Senhor Jesus Cristo, de Gustave Doré Cruz no Céu, de Gustave Doré
Segunda Cruzada
1147-1149 d.C.
Em 1141 d.C., o Condado de Edessa foi reconquistado pelos muçulmanos. Esse local era
estratégico para o processo de reconquista de Jerusalém. Por isso, o Papa Eugênio III convocou a
Segunda Cruzada para retomar o condado. Porém, os cruzados somente tomaram o rumo ao Oriente
graças à intervenção de São Bernardo. O exército dos cruzados chegou a 200 mil homens.
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A reconquista de Jerusalém
Entre a Segunda e a Terceira cruzada surge um
nome que é pouco conhecido; mas sem este homem a
História teria tomado outros rumos sombrios. Este homem
está entre aqueles que são difamados ou por vezes
escondidos pelos filhos das trevas: trata-se de Balduíno
IV, Rei de Jerusalém, o rei santo.
Segundo a Providência Divina, coube a um rei
leproso o governo de Jerusalém. Um homem que
carregava consigo uma doença que o mundo todo temia.
Mas era ele o homem que, por amor à Igreja, dava todas
as provas de vigor físico, combatendo como qualquer
guerreiro na linha de frente das batalhas.
O rei possuía a lepra no corpo, mas o mundo estava São Bernardo de Claraval Abençoando o Rei da
leproso moralmente. Enquanto as pessoas não valiam França Felipe VII, de Gustave Doré.
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nada, o rei tinha a grandiosa missão de manter de pé o estandarte da Cruz. Balduíno IV é um dos
maiores representantes do cavaleiro católico, foi comparável a São Luís IX, rei da França. No meio
das tragédias de sua vida, Balduíno era um homem corajoso, altivo e digno. Observemos as
semelhanças entre Balduíno e Nosso Senhor Jesus Cristo: ambos são reis de Jerusalém; ambos são
chagados; ambos enfrentam o mal.
Outro nome que surge neste período é o de um perverso sultão chamado Salazar Saladino.
Este era senhor do Egito e de Damasco e foi responsável por agrupar as forças muçulmanas contra
os reinos e possessões católicos. Enquanto Balduíno viveu, Saladino não ousou conquistar o Reino
de Jerusalém.
A lepra não só enfraquecia o rei, como também o impossibilitava de se casar, gerando um
problema na sucessão do trono. A irmã de Balduíno, chamada Sibila, casou-se com Guy de
Lusignan, homem sem talento e sem virtudes.
Outros nomes importantes nesse contexto foram de Raimundo de Trípoli, general cheio de
virtudes, e Renaud de Chântillon. Saladino nutria por Renaud um ódio profundo pois ele havia
assassinado sua irmã.
Saladino promoveu diversos ataques às tropas
cristãs, mas enquanto estas estavam sob o comando
do virtuoso Balduíno, os muçulmanos sofreram
derrotas. Contudo, no dia 12 de março de 1185, o rei
leproso rendeu sua alma a Deus. Jerusalém, que
outrora tinha expandido a verdadeira fé católica,
estava repleta de pecado e se tornou exemplo de
iniquidade. Jesus Cristo permitiu que Saladino se
tornasse uma vara de castigo.
A morte de Balduíno IV gerou uma crise
sucessória no trono de Jerusalém. Assumiu o reinado
o jovem Balduíno V que por motivo de doença logo
morreu. Depois foi a vez de Sibila, irmã do rei
leproso, que reinou. Porém, esta era casada com Guy
de Lusingan que acabou por assumir o trono. Isto
significou a queda de Jerusalém.
Guy foi influenciado por Geraldo de Ridefort a Morte de Balduíno
Salazar Saladino. Por Gustave
IV, de Gustave Doré.Doré
atacar as tropas de Saladino que estavam no deserto.
Isso tinha sido desaconselhado por Raimundo de Trípoli que dizia que as tropas católicas deviam
permanecer em Jerusalém, fortalecer as muralhas e esperar a chegada das tropas muçulmanas, pois
estas deviam caminhar centenas de quilômetros pelo deserto escaldante.
Em 1187, as tropas católicas se deslocaram até o deserto em busca do confronto. Ao
encontrar Saladino e seu exército, travou-se a famosa Batalha de Hattin, onde a derrota católica foi
vergonhosa. Sem defesa, o Reino de Jerusalém foi conquistado por Saladino.
Jerusalém estava conquistada pelos muçulmanos! Esta notícia chegou como uma bomba à
Europa Católica. Clérigos, nobres, pobres, todos bradaram gritos de lamentações ao saber que os
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filhos de Maomé cantavam seus hinos no solo em que Cristo foi crucificado e ressuscitou dos
mortos. O Papa Urbano III soube desta triste notícia no dia 18 de outubro de 1187 e morreu dois
dias depois.
Terceira Cruzada
1189-1192 d.C.
O sucessor de Urbano III foi Gregório VIII que faleceu depois de alguns meses, mas
demostrou seu interesse em uma nova cruzada. O próximo Papa foi Clemente III que assumiu a
missão da nova Cruzada.
O novo Papa exigiu de toda a cristandade o dízimo saladino para financiar o
empreendimento e convidou pessoalmente a que participassem da Cruzada os maiores reis daquele
período: Frederico Barba-Roxa (Império Germânico), Filipe Augusto (França) e Henrique II
(Inglaterra).
A Terceira Cruzada foi a mais bem
organizada de todas. O imperador bizantino era
Isaac, o Anjo, que fez uma aliança com Saladino a
fim de receber os Lugares Santos em troca de
dificultar o avanço dos cruzados.
Frederico Barba-Roxa soube do acordo e
lançou seus exércitos contra os bizantinos,
conquistando muitas cidades gregas. Ainda
ameaçou conquistar Constantinopla, fato que levou
o imperador bizantino a retroceder no acordo com
Saladino.
Barba-Roxa atacou os muçulmanos
presentes na Ásia Menor conquistando tudo por
onde passava. No entanto, o dia 10 de junho de
1190 ficará para a história, pois foi nesse dia que
Frederico Barba-Roxa morreu afogado enquanto
tentava atravessar um rio.
Felipe e Ricardo reuniram seus exércitos em
Ricardo Coração-de-Leão em combate. Por Gustave Doré.
1190 e conquistaram mais regiões dos muçulmanos
e dos bizantinos.
Após conquistar a região de São João d’Acre, Felipe voltou à França, uma vez que a
promessa feita por ele era a de conquistar esse local, mas deixou um enorme contingente na
Palestina liderado pelo Duque de Borgonha.
Depois de um ano, em setembro de 1192, após diversas batalhas entre os cristãos e os
muçulmanos, Ricardo Coração-de-Leão, cansado da luta e desejoso de regressar a seu reino, firmou
um acordo com Saladino estabelecendo a paz entre as tropas. O acordo determinava que Jerusalém
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Quarta Cruzada
1202-1204 d.C.
A Quarta Cruzada foi convocada pelo Papa Inocêncio III, conhecido como o papa mais
poderoso da História. Porém, o apelo de Inocêncio não foi atendido por parte dos reis da época:
Felipe Augusto, rei da França, tinha sido excomungado por causa de adultério; João-Sem-Terra,
rei da Inglaterra, não somente se recusou a fazer parte como se opôs à participação dos cavaleiros
ingleses. A mesma coisa se passou com a Hungria e a Itália. Diante da negação dos chefes de
Estado, o Papa recorreu aos senhores feudais e às massas de fiéis.
O primeiro problema enfrentado pelos cruzados foi encontrar a melhor forma de se deslocar
até a Terra Santa. A Terceira Cruzada mostrou que o melhor caminho era navegar pelo Mar
Mediterrâneo. Dessa forma, estabeleceu-se um contrato entre os cruzados e os venezianos (Veneza
– cidade do norte da Itália), em que se estabeleceu certo valor por ser pago pelos cruzados em troca
de uma poderosa frota naval que serviria de transporte e de escolta para os combatentes. Contudo,
o número de cruzados não era suficiente para arcar com a dívida imposta pelos venezianos.
Para resolver esse problema de pagamento, os cruzados tiveram de aceitar a triste exigência
dos venezianos de atacar uma cidade chamada Zara2, concorrente comercial de Veneza, e isso foi
feito.
“Quando chegou a Roma a notícia do saque a Zara, o papa Inocêncio III ficou horrorizado. Era intolerável
que, desafiando as suas ordens, uma Cruzada fosse utilizada para atacar o território de um filho tão fiel da
Igreja. Excomungou a expedição inteira. Depois, dando-se conta de que os próprios cruzados haviam sido
vítimas do engano, perdoou-lhes, embora mantendo a excomunhão contra os venezianos”. (RUNCIMAN)
“Em vez de conquistar a Terra Prometida tivestes sede de sangue de vossos irmãos! Satanás, o sedutor
universal, também vos seduziu”. (PAPA INOCÊNCIO III)
Juntou-se à Cruzada o jovem Aleixo, filho de Isaac Ângelo, que tinha sido destronado do
Império Bizantino por Aleixo III. O jovem Aleixo desejava obter o apoio dos cruzados para
reconquistar o governo de Constantinopla, em troca ele prometia aos líderes da cruzada:
1) acabar com o cisma religioso: em 1054 d.C. houvera um cisma (divisão) pela Igreja do Império
Bizantino. Com a divisão, formou-se a Igreja Ortodoxa, que existe ainda hoje, e que não se coloca
em obediência ao Santo Padre.
2) pagar duzentos mil marcos de prata;
3) fornecer víveres ao exército cruzado;
2
Zara era habitada por cristãos.
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Invasão de Constantinopla
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o novo imperador não sabia onde consegui-lo. A saída foi aumentar os impostos e confiscar objetos
preciosos da Igreja Ortodoxa. Tudo isso despertou reação e descontentamento dos bizantinos.
No início de 1204 explodiu uma violenta revolta sob a liderança de Ducas, chamado
Murzuflo, que destronou Aleixo IV, o prendeu e o executou. Isaac morreu alguns dias depois.
Ducas foi coroado imperador com o título de Aleixo V.
Os cruzados reagiram à revolta e cercaram novamente a cidade que foi facilmente
reconquistada. Os horrores que se passaram nesse momento marcam um período muito triste para
a história das Cruzadas. Ao saber dos eventos que se passaram em Constantinopla, o Papa
entristeceu-se muito e disse:
“Esses defensores de Cristo, que não deviam voltar as suas espadas senão contra os infiéis, banharam-se no
sangue cristão. Não pouparam nem a religião, nem a idade, nem o sexo. Cometeram a céus aberto adultérios,
fornicações e incestos. Viram-nos arrancar os revestimentos de prata dos altares, violar os santuários, levar
ícones, cruzes e relíquias”. (PAPA INOCÊNCIO III)
O resultado da Quarta Cruzada foi pior possível: pior do que ter seu objetivo alterado, foi o
fato de se ter fragmentado o Império Bizantino em diversos feudos (pequenas propriedades sem
um governo unificado). Com isso, o território bizantino que oferecia resistência à dominação
muçulmana estava enfraquecido. A presença dos ocidentais em solo bizantino durou pouco, pois
em pouco tempo os orientais retomaram o governo enquanto os muçulmanos retomaram a região
de São João d’Acre.
do litoral, como Acre; exerceu verdadeira autoridade no Reino de Jerusalém e criou alguns laços
de amizade com os mongóis através dos franciscanos.
A reputação de São Luís se espalhou por todo o
Oriente e seus conselhos eram bem vistos pelos sultões
de todas as regiões.
A morte da rainha-mãe, Branca de Castela, e os
negócios do reino levaram, finalmente, São Luís a
retornar à Europa, em 1254.
Em 1270, São Luís partiu para a Oitava Cruzada
após os muçulmanos conquistarem toda a Síria. Seu
objetivo não era mais o Oriente Médio, mas Túnis
porque havia rumores de que o Rei Emir estava
disposto à conversão. Após conquistarem facilmente
Cartago, cidade vizinha de Túnis, o exército enfrentou
seu maior adversário: o verão da Tunísia. Isso
contribuiu para a grande epidemia que surgiria e
grande parte do exército veio a falecer e junto Luís IX.
Tais mortes levaram ao fim da Oitava Cruzada. Morte de São Luís IX, de Gustave Doré.
3
Infelizmente, hoje o território europeu é invadido pelas hordas islâmicas e, para maior escândalo, com o aval das mais altas
hierarquias católicas.
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3. Aumento das práticas religiosas: criação de albergues e de hospitais e outras obras de caridade.
4. Criação das Ordens Militares.
5. Expansão da ação missionária da Igreja.
6. As misérias de muitos líderes das Cruzadas não foram maior do que o testemunho dos santos e
dos milhares de fiéis que nela se aventuraram.
7. A Cruzada ficou no coração de cada homem nascido de Cristo como uma lembrança de glória.
Enquanto houver cristãos haverá homens que conservem a memória destas páginas de santidade e
de heroísmo que os cruzados escreveram com o seu sangue.
8. As fundações de principados latinos no Oriente;
9. Agravamento das relações do Ocidente com o Império Bizantino;
10. O enfraquecimento do regime feudal.
11. Progresso da realeza e a burguesia adquiriu terras.
12. Com o contato com o Oriente houve introdução de novos produtos na Europa, além do progresso
das ciências, artes e letras.
evitar qualquer problema pelo caminho, pois mesmo com o domínio cristão dessas regiões, os
peregrinos continuavam a sofrer assaltos no caminho para Jerusalém.
Em 1120, o rei de Jerusalém, Balduíno II, solicitou ajuda aos cristãos ocidentais. A resposta
veio de um grupo de cavaleiros dispostos a proteger os peregrinos de Jerusalém: os Templários.
Hugo de Payns foi o primeiro líder deste grupo que vivia uma vida militar e religiosa ao mesmo
tempo. Balduíno II concedeu a estes guerreiros a Mesquita Al-Aqsa, onde antigamente se
localizava o Templo de Jerusalém, e por isso receberam o nome de templários.
Os Cavaleiros de Cristo ganharam fama a partir das pregações de São Bernardo de Claraval,
que apresentou a causa da nova ordem ao Papa Honório II. No Concílio de Tryes, em 1129, o Papa
aprovou a ordem como “Ordem do Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão”.
São Bernardo determinou aos templários o fundamento espiritual da Ordem, além de
demonstrar que a vida religiosa e a militar não são incompatíveis: enquanto se combate os inimigos
de Cristo e da Igreja, o templário deve combater espiritualmente seus vícios.
“Pretendo falar de um novo tipo de cavaleiro, absolutamente desconhecido nas eras precedentes, que, sem
poupar energias, trava uma luta num duplo fronte: uma luta contra a carne e o sangue, mas também contra
os espíritos malignos espalhados nos ares”. (SÃO BERNARDO DE CLARAVAL)
A Ordem de Cristo
Um concílio realizado em Vienne (1311-1312 d.C.) havia determinado que todos os bens
dos templários fossem transferidos para uma outra ordem militar chamada Ordem de São João de
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Jerusalém (os hospitalários). Porém, esse não foi o caso em Portugal. O rei português nesse período
era Dom Dinis, homem virtuoso e de inteligência apurada. D. Dinis nacionalizou todos as
propriedades dos extintos templários em Portugal. Essas posses foram transferidas para uma nova
ordem militar criada pelo próprio rei: a Ordem de Cristo (nome completo: Cavalaria de Nosso
Senhor Jesus Cristo). Esta nova ordem manteve o legado dos templários, não só as propriedades,
mas as virtudes e a bravura.
A relação entre a coroa portuguesa e a Ordem de Cristo foi fundamental para a formação da
cultura portuguesa e também no processo de expansão marítima que levou os portugueses a
descobrirem o Brasil. Esses assuntos serão estudados com maior detalhe nas próximas aulas. Sobre
essa relação afirma o historiador Ricardo Costa4:
Para Meditar...
A Ordem de Cristo
Ricardo Costa
A Ordem de Cristo, situada no âmbito da esfera política da coroa, a partir do século XV,
alargou seus horizontes, direcionando e conduzindo a expansão marítima lusitana. Como
entendemos, a criação de uma ordem militar portuguesa está inserida dentro do lento processo de
formação da identidade nacional portuguesa, vital para o processo de expansão lusitana dos séculos
seguintes. Seu maior incentivador foi o infante D. Henrique, terceiro filho de D. João I (1385-
1433), que, em 1420, aos 26 anos, tornou-se mestre português da ordem, combatendo os mouros
em Ceuta e ajudando Portugal a se expandir para além-mar:
...o Infante foi, até a sua morte, o principal impulsionador dos empreendimentos de descoberta (...)
Graças à sua imensa fortuna e aos bens da Ordem de Cristo, de que se tornou grão-mestre, podia
arcar com as enormes despesas que as expedições exigiam (TEYSSIER, 1992).
A permanência dessa mentalidade de cruzada, que insistia em se prolongar para além dos
séculos XII-XIII, levou os navegantes portugueses a caminhos desconhecidos; essa mesma
mentalidade de cruzada motivou o rei Afonso V, o Africano (1432-1481), nas palavras de Armindo
de Souza, "um cruzado fora de época, o último cruzado", a ousar penetrar na África.
Conclui-se que os formadores de nosso país possuíam sangue templário e o espírito dos
cruzados. Daí brota a nossa nação católica que possui a especial vocação de trazer ao mundo
novamente o grande sinal da Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo e o primado da Santa Igreja
Católica.
4
Texto integral disponível em: [Link]
de-formacao-da-identidade-nacional-em
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Atividades
1) O que são as Cruzadas?
2) Por que as peregrinações para Jerusalém eram importantes?
3) Por que o Papa Urbano II convocou as Cruzadas?
4) Qual o motivo da Segunda Cruzada?
5) Segundo São Bernardo, qual foi o motivo do fracasso da segunda cruzada?
6) Quais são os reis da Terceira Cruzada?
7) O que levou os cruzados a se desviarem na Quarta Cruzada?
8) Qual foi a reação do Papa Inocêncio III?
9) Descreva pelo menos 5 consequências das Cruzadas.
10) Como se originou a Ordem dos Cavaleiros Templários?
11) Quais eram as quatro virtudes dos Templários?
12) Como se originou a Ordem de Cristo?
13) Qual é a relação entre nossa nação e esta Ordem?
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Capítulo
3
As comunas
A servidão
Os camponeses, ou vilões, que cultivavam as terras dos nobres, ou eram homens livres ou
descendentes de antigos escravos, isto é, servos. Não era, porém, a condição dos servos igual à dos
escravos romanos. Ligado à terra, o servo da gleba não podia ser vendido, nunca lhe seria tirada a
sua casa de campo, e já podia enfim constituir família.
Principalmente do século XII em diante, os senhores feudais, levados quase sempre pela
necessidade de dinheiro, puseram-se a vender e a conceder aos servos certas liberdades e franquias.
Muitos servos emanciparam-se (não podendo esquecer que também nisso foi grande a influência
da Igreja), e graças a isso a população rural foi progredindo paralelamente à das cidades.
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As indústrias e as corporações
As concessões dos senhores feudais contribuíram também para criação de novas cidades.
Do século XI para o XII os nobres conseguiram, graças à outorga de certos privilégios e franquias,
atrair grande número de habitantes para as cidades que criavam.
As garantias concedidas pelas cartas aos burgueses
favoreceram o desenvolvimento das indústrias e do comércio,
com grande vantagem para a prosperidade de certas cidades, não
obstante a dificuldade das comunicações.
Os artistas, em vez de trabalharem exclusivamente para o
senhor feudal, foram-se tornando pouco a pouco independentes,
fabricado e vendendo por conta própria. Associados em
corporações, a que todos os do mesmo ofício tinham obrigação
de filiar-se, formavam uma espécie de confraria ou sociedade de
socorros mútuos, com seu santo padroeiro, caixa comum,
regulamento, bandeira e chefe. Para ser admitido à corporação
cumpria passar pelo período de aprendizagem.
Os artesões da mesma corporação estabeleciam-se Exemplos de uma corporação de
sapateiros
geralmente em determinados bairros e ruas da cidade, havendo
assim a “rua dos ourives”, a “rua dos vidraceiros”, etc.
Progressos da realeza
No regime feudal o rei era nominalmente o mais elevado na hierarquia dos senhores do
reino; mas de fato só exercia autoridade na extensão de seus domínios, que nem sempre eram mais
vastos. Em França, até findar o século XII, as terras do rei formavam apenas pequena porção do
reino; o resto pertencia aos vassalos, duques ou condes.
Filipe Augusto (1180 – 1223) adquiriu grande extensão de território, reuniu ao domínio real
considerável porção da Picardio e tirou de João sem Terra, rei da Inglaterra, a Normandia, o Maine
e o Anjou.
No reinado de São Luís (Luís IX, 1226 – 1223) a autoridade real fortaleceu-se muito.
Observador fiel das leis da justiça, Luís IX conseguiu impor aos senhores feudais respeito e
admiração.
Com Filipe, o Belo (1285 – 1314) constituiu-se definitivamente a organização do governo
real. Mais tarde, depois da Guerra dos Cem Anos, Luís XI (1461 – 1483), filho de Carlos VII,
empregou todos os seus esforços em abater os nobres. Estes formaram a “liga do bem público”,
chefiada pelo filho do duque de Borgonha, Carlos o Temerário. Foi uma batalha de morte, de que
afinal Luís XI saiu vencedor, podendo continuar, por meios não raro cruéis, a obra que
empreendera.
O que se não pode negar é que foram principalmente os soberanos da dinastia capetíngia
que mais se esforçaram pela unidade política França, abatendo os nobres e ocupando os grandes
feudos.
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O Comércio e as Feiras
O movimento de emancipação das comunas (cidades), assegurando maiores garantias aos
habitantes das cidades, deu considerável impulso não somente às indústrias, senão também ao
comércio. Mas as dificuldades com que tinham de lutar os mercadores não eram pequenas, pela
falta de meios rápidos de comunicação, já pelos riscos de assaltos dos bandidos e problemas com
os senhores. Além disso ainda cumpria
pagar muitos direitos pelas mercadorias,
direitos de entrada e de saída nas diferentes
cidades, ponte, etc.
Daí os mercadores se reunirem em
datas fixas, em certas cidades, onde se
realizavam grandes feiras (observe no mapa
abaixo a localização das grandes feiras –
círculos amarelos). Daí também formarem-
se vastas associações, destinadas a proteger
os interesses comerciais das cidades livres.
A Liga Hanseática
Após a morte de Frederico II, houve na Alemanha um período (1250-1273) denominado
grande interregno, em que os senhores feudais, aproveitando a ausência de uma autoridade
soberana, disputaram a coroa, resultando disso a anarquia e o desmembramento do império em
quase quatrocentos minúsculos estados. Muitas cidades aproveitaram-se de tal anarquia para se
constituírem em pequenas repúblicas: algumas, para defesa dos interesses comerciais, formaram
“ligas”, ou hânseas (do alemão, hansa, confederação, união)
A mais famosa foi a Liga Hanseática, ou melhor, Hansea Teutônica, que se originou do
tratado entre Hamburgo e Lubeck (1241) para proteger o comércio contra os piratas do Báltico e
defender os próprios direitos contra a tirania dos príncipes vizinhos. Tais vantagens fez com que
aumentasse para 80 o número de cidades associadas. Lubcek, Hamburgo, Bremen, Colônia,
Dantzig, Bruges, Bergen, Brunswick, Londres, Novgorod, Anvers, Amsterdam, etc. Em Lubeck,
capital da Liga, reuniam-se os deputados das diferentes cidades da confederação.
A Hânsea tinha seu direito marítimo especial, possuía poderosas esquadras e gozava de
grande prestígio. Pertencia-lhe no século XIV o monopólio da navegação no Mar do Norte e no
Báltico.
O descobrimento da América, a viagem de Vasco da Gama às Índias e o grande progresso o
comércio marítimo do século XVI fizeram-na rapidamente cair. Terminou na segunda metade do
século XVII.
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Mapa que mostra a localização e a atuação da Liga Hanseática, além de outras vias marítimas.
A escolástica
A teologia foi considerada durante toda a Idade Média a rainha das ciências, sendo-lhe as
outras como servas.
A filosofia foi cultivada com paixão.
Aplicando o raciocínio aos ensinamentos da fé,
reduzindo toda a argumentação a poucos e breve
silogismos, os teólogos criaram um novo método
para as disciplinas teológicas, ao qual se deu a
denominação de Escolástica, “a ciência da
Escola”.
O século XIII foi o período áureo da
Escolástica. O franciscano inglês Alexandre de
Hales (doutor irrefragável), o dominicano
alemão Alberto Magno e São Boaventura
(doutor seráfico) são grandes vultos desse
século. Já pouco antes se tinha celebrizado Pedro
Lombardo (o mestre das sentenças). Porém, o
maior teólogo e filósofo da Idade Média, e de
todos os tempos, foi Santo Tomás de Aquino
(1227 – 1274) (o doutor angélico, o anjo da
Escola), autor da Suma Teológica e adversário
de Duns Scot.
A Suma Teológica, resumo de todas as ideias da Idade Média, é um dos mais admiráveis
monumentos do espírito humano.
As universidades
Durante os séculos IX e X os centros de cultura intelectual eram os mosteiros e as escolas
episcopais. Depois, formaram-se corporações de professores, associações destinadas
exclusivamente ao ensino: tais foram as Universidades. As mais antigas, a de Paris e a de Bolonha,
adquiriram grande fama. A de Paris era preferida pelo estudo de teologia; a de Borgonha pelo
direito. Ambas serviram de modelo à que em seguida se formaram: Oxford, Cambridge, Salamanca,
Coimbra, etc.).
A Universidade de Paris era a maior escola da Europa: frequentavam-na mais de 20.000
estudantes de vários países. O ensino era feito em latim e dividiam-se os estudos em dois grupos:
o Trivium (gramática, retórico e lógica) e o Quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e
música), formando o todos as sete artes liberais. A universidade compreendia quatro faculdades:
Teologia, Direito, Medicina e Artes.
Como muitos estudantes eram pobres, pessoa ricas e caridosas fundaram os colégios, onde
aos jovens sem recursos se dava casa e comida.
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Universidade de Oxford
Absolutismo
O Absolutismo foi um sistema político que, em geral, defendia o poder absoluto do monarca
sobre o Estado e foi muito comum a partir do século XVI até meados do século XIX em diversas
partes da Europa. Essa forma de governo estava diretamente ligada com o processo de formação
dos Estados Nacionais (nações modernas) e com a ascensão da classe mercantil conhecida como
burguesia.
O Absolutismo não possuía, entretanto, características homogêneas e apresentava também
suas particularidades em diferentes locais. Dessa forma, destacaram-se três modelos desse sistema
político: o francês, o inglês e o espanhol. O rei francês Luís XIV foi o melhor exemplo de aplicação
do poder Absolutista.
Absolutismo francês
Nos últimos séculos da Idade Média, após as cruzadas, acentuaram-se cada vez mais os
sintomas da decadência do feudalismo e, portanto, de engrandecimento da realeza. Com Filipe
Augusto e São Luís IX o poder central fortaleceu-se notavelmente, mas apesar de tudo ainda ao
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subir ao trono Luís XI, sucessor de Carlos VII, a nobreza feudal era muito poderosa. Essa nova
nobreza, resultante de doações de partes do domínio real a príncipes de sangue, formava casas
dominantes, tais quais a de Anjou, Orleans, e principalmente, a de Borgonha, que possuía a
Holanda, a Bélgica e o Luxemburgo. O duque da Borgonha contava com a aliança inglesa; davam-
lhe farto lucro os vinhos da Borgonha e as lãs da Flandres; era na verdade, mais forte que o próprio
rei.
Fato é que essas casas tinham, muitas vezes, mais poder que a própria realeza. Carlos o
temerário, duque da Borgonha, em uma de suas guerras em busca de unificar mais territórios, foi
vencido e morto, o que animou a Luís XI, pois as terras de Carlos foram anexadas ao domínio real,
aumentando ainda mais o poder da realeza e diminuindo dos duques. Luís XI convocou os Estados
Gerais apenas uma única vez em sua vida. É inegável que o seu reinado contribuiu para dilatar os
domínios reais e fortificar o poder absoluto dos soberanos.
Passados alguns anos, veio Henrique IV, representante da casa de Bourbon e soberano da
França e Navarra. Sua casa foi a responsável direta pela instituição da monarquia absolutista na
França. Os responsáveis foram: Henrique IV, Luís XIII e Luís XIV.
Em 1610, Henrique foi assassinado em plena luz do dia. Luís XIII, ainda muito jovem, não
poderia governar, cabendo a Maria de Médici, sua mãe, a regência da casa. Durante sua regência,
os huguenotes5 abalaram a política interna da França, cabendo ao ministro da casa, Richelieu, a
responsabilidade de administrar com mão de ferro a França. Seu plano político consistia,
exteriormente, em promover a hegemonia francesa e, internamente, abater os nobres e os
calvinistas, que formavam um partido perigoso de oposição. Richelieu, cardeal católico, teve maior
papel político do que religioso, e em uma
aparente contradição, protegeu e combateu os
protestantes. Externamente, os ajudou na guerra
dos trinta anos; internamente, eliminou os
huguenotes.
Esforçou-se em submeter os nobres à monarquia
através de suas leis, principalmente se opondo
aos duelos, e assim firmou o absolutismo real,
que Luís XIV exerceria com esplendor. O
poderoso ministro teve ainda outros aspectos
mais simpáticos: foi protetor das letras e fundou
Richelieu, por Philippe de Champaigne. 1640. Galeria em 1635 a Academia Francesa6.
Nacional, Londres.
Morto Richelieu, sucedeu-se Mazarino,
ministro italiano que defendeu sempre os interesses de sua pátria adotiva. Com sua habilidade
administrativa, triunfou sobre os nobres e os parlamentares rebeldes à corte francesa, submetendo-os
à corte.
5
Protestantes que exerceram forte influência religiosa dentro da corte francesa, causando grande tumulto religioso e
administrativo. Foram expulsos e mortos durante a Guerra Religiosa Francesa, na segunda metade do século XVI.
6
Academia de letras da França que reunia grandes intelectuais para debater literatura. Sua criação teve enorme influência na
futura academia de letras do Brasil.
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Palácio de Versalhes
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Período palatino-boêmio
Fernando II, recém coroado rei do Sacro Império, não foi aceito pela liga protestante boêmia,
que “entregou” a coroa a Frederico V, chefe da liga e príncipe do Palatinado (região próxima ao
Reno). A união católica, liderada por Fernando II e T’Serklaes von Tilly, partiram para Praga, e
venceram os protestantes na Batalha da Montanha Branca. A coroa boêmia, até então eletiva,
tornou-se hereditária dos Habsburgos (atual Áustria). O protestantismo foi proibido no império.
Período dinamarquês
Os protestantes derrotados por Fernando II buscaram auxílio no exterior contra os católicos
e encontraram ajuda com Cristiano IV, Rei da Dinamarca e Noruega, que tinha o objetivo de
conseguir mais terras no norte da Alemanha. Mobilizou um grande exército contra o Sacro Império.
Os católicos, que contavam com menor número, conseguiram apoio de nobres poderosos provindos
da Checa e, novamente, os protestantes foram expulsos das terras católicas.
Período sueco
Junto do crescimento do Sacro Império Romano Germânico veio as preocupações de muitos
reis europeus. O já citado Richelieu, ministro francês de Luís XIII contactou o monarca sueco
Gustavo II Adolfo, protestante, que prometeu determinadas concessões e ajuda financeira a
Richelieu.
Gustavo Adolfo partiu para o norte da Alemanha, fazendo novas alianças com príncipes
alemães, mercenários e camponeses. Construiu bases fortificadas e aprimorou seu exército. Ganhou
diversas batalhas contra as forças católicas de Fernando II, mas acabou sendo morto. O monarca
que o sucedeu foi Bernardo que ocupou novas terras da Baviera. Em 6 de setembro de 1634, os
exércitos de Fernando II impuseram uma devastadora derrota ao duque Bernardo, desmoralizando
os protestantes e forçando-os a abandonarem o conflito.
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Período francês
Esse período é marcado pela entrada de Richelieu no conflito contra a casa de Áustria, não
no sentido religioso, mas no político, com receio de um expansionismo Habsburgo. Para isso,
colocou-se ao lado dos protestantes suecos, dos países baixos e principados alemães.
Enquanto os franceses venciam batalhas contra saxões e austríacos no oriente, vencia
batalhas contra os espanhóis, também aliados aos Habsburgos, no ocidente. Devido a esta grande
aliança, os Habsburgos na Alemanha tiveram de baixar suas armas por três anos, e a Suécia
conseguiu territórios na Dinamarca, Alemanha e Áustria.
Uma última tentativa de combater os franceses e seus aliados, a casa de Habsburgo falhou,
e tiveram que assinar o Tratado de Vestfália, que garantia a liberdade de culto de protestantes e
católicos e restringiram a casa de Habsburgo ao território da Áustria.
A França e a Suécia conquistaram novos territórios e ganharam grande privilégio entre
outras monarquias. A Espanha perdeu a posse dos Países Baixos e certo domínio dos mares
ocidentais. Os Países Baixos e a Suíça tiveram sua independência reconhecida.
Era o início da hegemonia francesa na Europa e o declínio do poder dos Habsburgos.
Absolutismo Inglês
Após a batalha de Hastings (1066), Guilherme, duque da Normandia, conquistou a Inglaterra
e distribuiu vários feudos aos vencedores. Extinta a dinastia normanda, subiu ao trono Henrique II
(1154 – 1189). Com ele começou a chamada dinastia dos Plantagenetas, de origem francesa.
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41
Ricardo Coração de Leão, filho de Henrique II, tomou parte na terceira cruzada e ocupou o
trono até 1199, tendo de lutar contra seu irmão João sem Terra, que usurpou o poder.
João sem Terra (1199 – 1216), violento e cruel, assassinou Arthur da Bretanha, seu sobrinho.
Filipe Augusto da Franças declarou-lhe guerra e, mesmo que João sem Terra ser auxiliado pelo
imperador da Alemanha, foi derrotado em Bouvines (1214) e obrigado a conceder a Magna Carta.
Henrique III (até 1272) tentou revogá-la, mas os nobres impuseram-lhe os Estatutos de
Oxford (1258), limitando a autoridade real.
A Magna Carta
Tais foram as tiranias e os abusos de João sem Terra, que os barões ingleses se revoltaram;
e quando ele, humilhado pela derrota de Bouvines, regressou à Inglaterra, foi constrangido a assinar
uma lei, em que se especificavam os direitos dos súditos. Tão importante documento, com razão
considerado base de legislação inglesa no tocante à ordem política, muito influiu para o
estabelecimento do regime parlamentar na Inglaterra.
Em virtude das disposições da Magna Carta, o soberano não poderia lançar impostos sem
permissão dos representantes do reino, arcebispos, bispos, condes e barões (Grande Conselho),
ninguém seria conservado em prisão sem culpa formada (habeas-corpus); seriam estabelecidas com
precisão as multas, não se venderia a justiça, e se organizaria o Juri para efetuar os julgamentos
regulares segundo as leis do país. Para manter intacta a observância da Magna Carta, foram
escolhidos vinte e cinco barões, os quais exerciam fiscalização sobre os atos do rei e podiam
impedir-lhes a execução, se contrários às prescrições da carta.
O Parlamento
O Grande Conselho reunia-se quase todos os anos, e começou a ser chamado Parlamento,
Henrique III, ambicioso mais infeliz, desgostou os senhores com as grandes somas gastas em suas
expedições; em 1258 os barões revoltaram-se e reuniram o parlamento de Oxford. Decretaram os
Estatutos de Oxford e estabeleceram uma série de disposições complementares da Magna Carta. O
parlamento passava a ser convocado regularmente.
Em 1265, foram admitidos no conselho os representantes dos burgueses. Estes constituíram
a câmara dos comuns ou câmara baixa, ao lado da câmara alta ou câmara dos lordes, composta de
barões e prelados. Essas duas câmaras formam ainda hoje o parlamento inglês.
A partir da guerra dos cem anos, devido ao fortalecimento da nobreza e o descontentamento com
a monarquia, surgiu um movimento que desejava derrubar o rei e criar um estado mais forte. O
sangrento evento pela disputa do trono da Inglaterra se chama a guerra das duas rosas.
e amarga, os líderes de ambas as facções tomaram como símbolos as rosas: um vermelho para os
Lancaster e outro branco para os de York.
A guerra foi longa e a sorte dos combatentes variou muitas vezes. Para não entrar em debates
cuja descrição demoraria muito, diremos que teve três momentos decisivos.
Na primeira, a casa de York, representada por Eduardo IV, conquistou o trono inglês graças
à batalha vitoriosa de Towton. Eduardo IV cingiu a coroa, mas cometeu o erro de casar-se com
Isabel de Woodwille sem levar em conta os interesses dinásticos. Os nobres que o apoiavam
retiraram seu apoio e o forçaram a deixar o trono e a se refugiar na Borgonha.
Na França, ele formou um novo exército e desembarcou em seu país com o objetivo de
reconquistar o trono. Depois de algumas aventuras de guerra confusas, ele derrotou seus inimigos
completamente e foi capaz de ocupar seu antigo palácio real. Com esta campanha, a segunda fase
da Guerra das Duas Rosas se encerra.
De 1471 a 1483 Eduardo IV governou em paz e com poucas interferências do parlamento.
Infelizmente, ele não foi capaz de controlar seu temperamento e, entregue a uma vida de excessos,
morreu antes de completar quarenta anos. Deixou seus dois filhos pequenos, Eduardo e Ricardo,
como herdeiros, o mais velho deles não tinha mais de três anos.
A menoridade dessas crianças abre o terceiro e último capítulo da guerra. Nele, o guardião
dos menores, Ricardo de Gloucester, enfrentará Henrique de Tudor, representante dos Lancaster e
aspirante ao trono da Inglaterra por meio de uma relação disputada com a linhagem real.
Ricardo de Gloucester, irmão do falecido Eduardo IV, assumiu o trono após assassinar seus
dois sobrinhos na Torre de Londres. Este crime hediondo e a força desesperada que ele colocou
para manter a coroa fizeram de Ricardo III uma figura para o drama.
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43
O último ato da tragédia acontece em 1485 quando Henrique de Tudor, com quatro mil
soldados reunidos na França e pagos com dinheiro francês, faz uma segunda tentativa de ocupar o
trono inglês.
A Batalha de Bosworth foi o encontro final entre as duas casas em disputa. Em seus
primeiros dias, parecia favorecer Ricardo III, cujo exército maior tinha um caráter decididamente
nacional inglês. Apesar dessas condições e do grande esforço de Ricardo, a atitude de Henrique e
seus cinco mil homens decidiram a luta a favor de Tudor.
Shakespeare apresenta Ricardo III no meio da batalha, buscando furiosamente seu inimigo
para matá-lo em um único combate. Sem dúvida, o último Plantageneta7 morreu um homem
valente, e o grande dramaturgo inglês soube encontrar a frase certa para expressar sua raiva
indefesa: "Meu reino para um cavalo".
Henrique VII de Tudor iniciou um reinado mais racional e uma aventura política cujo ponto
culminante no século seguinte será o reinado de Elisabete da Inglaterra. O início da dinastia de
Tudor marca o início do Absolutismo Inglês.
Dinastia Tudor
Os três principais reis absolutistas da Inglaterra foram: Henrique VII, Henrique VIII e
Eduardo VI. Podemos apontar três traços característicos da situação no início do reinado de
Henrique VII: a queda do poder feudal, intenso desejo de paz e independência do continente
europeu. Seu reinado foi pacífico e luxuoso. Estimulou fortemente o comércio marítimo e as
indústrias, e fez da Inglaterra um polo comercial, onde o capitalismo se expandirá com força.
Henrique VIII
Henrique VIII foi o monarca mais absolutista que a Inglaterra já conheceu. Dotado de um
belo físico, ótimo arqueiro, cominava os esportes, possuía gosto pelas letras, teologia e literatura
romanesca, escrevia poemas, compunha músicas e tocava vários instrumentos; reunia ao seu redor
os maiores intelectuais e debatia problemas filosóficos e teológicos. Chegou a combater o
protestantismo, defendendo os sacramentos da Igreja, e recebeu o título defensor fidei (Defensor
da fé) de Leão X e a rosa de ouro8 de Clemente VII. Infelizmente, seu vício de intemperança e
busca pelo prazer, passou em cima de todas as suas virtudes, resultando na brusca mudança de
caráter.
O escândalo de Henrique VIII começa por sua vida matrimonial. Sua esposa, Catarina de
Aragão, deu a ele duas filhas e quatro filhos, mas sobrevivera apenas uma única filha, deixando-o
sem herdeiro ao trono. Fora de seu matrimônio, Henrique VIII possuía uma amante, Ana Bolena,
que convenceu Henrique a pedir a nulidade de seu matrimônio ao Papa Clemente VII. Não
conseguindo a autorização para tal, houve troca de ameaças: Henrique ameaçou procurar outros
7
Dinastia reinante entre 1154 e 1399.
8
Ornamento precioso dado a pessoas que tenham demonstrado seu espírito de lealdade com a Santa Sé.
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Rainha Elisabeth I
Nascida de Ana Bolena e Henrique VIII no ano de 1533, Isabel (Elizabeth) tinha, com o
falecimento de Maria, vinte e cinco anos. Simulou ser católica para subir ao trono. Cética, egoísta,
hipócrita, de rara habilidade política e notável instrução, conhecia as línguas clássicas e falava tanto
francês quanto inglês.
Isabel foi quem propriamente organizou a Igreja Anglicana. Jamais quis se casar e raramente
convocou o Parlamento. Elevou a Inglaterra a potência de primeira ordem, favorecendo o
desenvolvimento da marinha inglesa. Em seu reinado, Walter Relaigh tomou posse da Virgínia
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(atual estado dos Estados Unidos) na América. Um dos fatos mais deploráveis de seu governo foi
o assassinato de Maria Stuart, rainha da Escócia.
As organizações maçônicas aparecem na Inglaterra nos tempos de Isabel. Inicialmente, a
rainha quis dissolver as lojas maçônicas de seu país; mais tarde, tornou-se membra de uma das
lojas.
A influência dessas sociedades ao mundo moderno está na formação do espírito capitalista.
Não no capitalismo como fenômeno econômico, de aparência muito anterior. O espírito capitalista
tem seu antecedente no mercantilismo. A Maçonaria soube combinar todas essas forças contrárias
aos critérios tradicionais para lançá-las na conquista do poder. Seu primeiro ponto de apoio foi a
Holanda e depois a Inglaterra. A partir dessas bases começou sua atividade dissolvente e envolveu
em seu jogo a burguesia financeira e aquela parte da nobreza conquistada pelo espírito moderno e
bastante confusa quanto ao perigo de se aliar a forças pouco dispostas a aceitar seus privilégios de
classe.
Mercantilismo
Mercantilismo é um conjunto de práticas econômicas desenvolvidas na Europa entre o
século XV e XVIII. A doutrina mercantilista, assim como a doutrina renascentista e seu
individualismo, se opunha à economia medieval e deu início ao capitalismo liberal. Não se
apresenta como uma ciência, mas sim como um modo de resolver os problemas econômicos com
independência de toda subordinação da moral, política e religiosa. O primeiro capitalista, que
administrou seu dinheiro, que jogou dinheiro em circulação para encontrar mais dinheiro, abriu seu
próprio negócio e que se dedicou à busca do “lucro infinito”, ele era o comerciante.
A harmonia, tão difícil de alcançar, completamente medieval é desarticulada e cada
organismo da sociedade começa a crescer individualmente. A política começa a se desarticular da
A bacia de São Marcos no dia da Ascensão. Canaletto. 1734. Royal Collection
Igreja, e já não reconhece sua autoridade. A arte deixa de ser a expressão do cristianismo e sim a
do homem. A economia também se destaca por sua participação na ordem e assume a orientação
de vida de certos homens, transformando-se em seu fim.
O século XIV testemunhou o surgimento deste primeiro capitalismo e viu crescer a
prosperidade entre os mercadores e, ao mesmo tempo, os primeiros protestos sociais. Em todos eles
arde o desejo de se libertar das “amarras” de uma ordem que constrange a individualidade e a obriga
a obedecer à dura lei do todo. Os grandes senhores se rebelam contra os reis, e os novos ricos das
cidades comerciais contra os antigos senhores. A monarquia nacional crescerá em meio a essas
brigas e será projetada como a única defesa dos interesses populares contra a anarquia dos
poderosos.
O mercantilismo se desenvolve fora das empresas locais, uma vez que estas, permanecem
por muito tempo ainda sujeitas às regras meticulosas das corporações comerciais, enquanto o
comércio em grande escala escapa de suas regras e se justifica pelos privilégios de um
desenvolvimento avassalador. É a época dos grandes banqueiros florentinos: tanto os Peruzzi, como
os Bardi e os Médici espalharam suas redes econômicas por todos os países do Ocidente cristão.
A ganância por dinheiro fazia com que comerciantes jogassem um jogo cheio de riscos para
alcançar o poder e o lucro. “Muitas dessas fortunas, adquiridas com demasiada rapidez e frequentemente
por meios impuros, caíram muitas vezes em ruína e outras em condenação judicial. Mas ilustram de forma
notável o desenvolvimento do capitalismo ... É evidente que na busca de riquezas, os novos ricos não se
importam com a moralidade tradicional. A ruptura entre os ensinamentos da teologia e as novas
práticas é definitiva. Impossível harmonizar a condenação da usura, a doutrina do preço
justo, com o amor ao lucro, com a ganância e especulação financeira”.
Os historiadores da economia destacam as características inovadoras dos centros comerciais
que durante os séculos XIV e XV abriram no Atlântico para verdadeiros acontecimentos
internacionais. As principais inovações consistem em uma renúncia sistemática a todos os
obstáculos morais que as transações livres do comércio exterior poderiam ter. O porto de Antuérpia
tornou-se um empório das melhores complicações do comércio internacional e desde 1460 a
Holanda, verdadeira vanguarda do processo, conhece o primeiro intercâmbio internacional
estabelecido na Europa.
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Atividades
1) Como ficaram conhecidas as cidades fortificadas na Idade Média? Como eram chamados os
habitantes destas cidades?
2) Qual era o objetivo dos burgueses com os movimentos contrários aos senhores feudais?
3) Como surgiram as corporações de ofício?
4) Qual a consequência do regime feudal em relação ao poder dos reis? Cite os reis da França que
contribuíram para o aumento do poder da monarquia.
5) Quais dificuldades tinham que enfrentar os mercadores? Qual solução foi encontrada?
6) Em que contexto se formou a Liga Hanseática? Qual era a capital e quantas cidades se associaram
à esta liga?
7) Quais eram os desafios do estudo na Idade Média? Onde se desenvolvia o estudo neste período?
8) O que foi a Escolástica? Quais são seus principais vultos?
9) Cite algumas universidades criadas na Idade Média.
10) O que é o absolutismo? Quem é o maior vulto deste sistema político?
11) O que significa a expressão “L’État c’est moi” de Luís XIV? O que esta expressão representa?
12) Cite alguns feitos de Luís XIV durante seu governo?
13) Quais erros cometeu Luís XIV?
14) Qual foi o período da Guerra dos 30 anos? Quais foram as suas quatro fases?
15) Quais foram as causas da guerra?
16) Qual foi o desfecho do conflito?
17) Quais foram os três primeiros reis da dinastia dos Plantagenetas?
18) O que foi a Magna Carta? Cite algum elemento desta carta.
19) O que é o Parlamento Inglês? Quem o compunha?
20) Qual foi o desfecho da Guerra das Duas Rosas?
21) Qual foi o grande erro de Henrique VIII?
22) O que é o mercantilismo? Cite algumas de suas características.
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49
Capítulo
4
Introdução
T
ODOS os sinais precursores da morte de uma nação pareciam enunciar que o fim da França
era iminente: todas as forças políticas e sociais estavam desagregadas, a realeza exausta
por cinquenta anos de demência, não era nem sequer capaz de morrer com glória; a
nobreza, precipitada, de derrota em derrota, por seu temerário orgulho e por sua falta de união,
passou de uma presunção cega a um abatimento fatal.
O clero, despojado por suas próprias faltas, do
domínio que outrora exercia sobre os espíritos deixava-se
anular na luta entre os dois povos, não sabendo tomar na
defesa o papel que o clero inglês havia tomado no ataque,
e não oferecia mais que conselhos inúteis à monarquia.
A Universidade de Paris, abandonada por seus
melhores campeões, incensava servilmente o rei
estrangeiro. A burguesia sucumbia também, e Paris, a
cabeça e o coração do Terceiro Estado (terceira classe
social, o povo), traía os destinos da nação, submetendo-se
ao invasor (Inglaterra).
Como a nação francesa, essa que teve a Santa
Igreja Católica por sua mestra por tantos anos e que
povoou o Céu de Santos, tendo agradado a Deus em sua
servidão e em suas conquistas, estava agora sucumbindo
ao povo inglês que mais tarde viria a rebelar-se contra o
Papa e, consequentemente, contra a Igreja.
O início do conflito
Desde 1316 até 1378, a Igreja foi governada por seis Papas dos quais se destaca o Santo
Urbano V. Neste período em que a Europa passava por diversas dificuldades, por exemplo a Peste
Negra, que matou entre 75 e 200 milhões de pessoas, quem esteve à frente, governando a Igreja de
Cristo e toda a Europa, foram os Papas franceses, como João XII, que ficou no papado de 1316 a
1334; Bento XII, de 1334 a 1342; Clemente VI, de 1342 a 1352; Inocêncio VI, de 1352 a 1362;
Santo Urbano V, de 1362 a 1370; e, por fim, Gregório XI, de 1370 a 1378.
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Causa da guerra
Tendo morrido Carlos IV, rei da França, devia suceder-lhe no trono o filho de Isabel (irmã
de Carlos IV), Eduardo III, que já era rei da Inglaterra. Este, além de um grande líder militar,
restaurava a aclamação popular inglesa e sua influência econômica; porém, devido ao seu vínculo
com Carlos IV, e também pelos franceses não quererem um rei inglês para os representarem,
falaram à Isabel que ela não poderia reivindicar o trono para seu filho, pois não era dela de direito:
havia a Lei Sálica que dizia “mulher nenhuma, nem por conseguinte seu filho, podia suceder no
trono de França”.
Deste modo, era chamado ao governo Filipe, da casa de Valois, que reinou com o título de
Filipe VI e inaugurou uma nova família reinante, a dos Valois, que de 1328 e 1498 deu sete reis à
França: Filipe VI, João II, Carlos V, Carlos VI, Carlos VII, Luís XI e Carlos VIII. Durante o reinado
dos cinco primeiros, a França sustentou contra a Inglaterra a Guerra chamada dos Cem Anos (1337
– 1453).
A questão da sucessão ao trono foi, aliás, mero pretexto. A verdadeira causa foi a velha
rivalidade entre a França e Inglaterra, agravada agora por causa das possessões dos ingleses em
França, principalmente a região de Guiena e Gasconha, no sudoeste da França. Durante a guerra
ocuparam o trono inglês Eduardo III, Ricardo II, Henrique IV, Henrique V e Henrique VI.
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“Aparentemente, as suas causas são feudais: as pretensões à coroa da França de um Eduardo III, neto por
parte de mãe de Felipe o Belo, e a sua recusa, embora fosse rei da Inglaterra, soberano na sua ilha, de
permanecer vassalo do rei da França quanto às terras que possuía no continente. As verdadeiras causas,
porém, são bem diferentes: giram em torno do antagonismo franco-inglês pela posse da Flanders com
Bruges e da Guienne com Bordeaux, isto é, pelo controle do mar, dos grandes negócios do trigo, do vinho
e dos tecidos. E isso é muito moderno... Igualmente sua técnica militar: esta guerra assinala uma transição:
os cavaleiros blindados das antigas formações nobiliárias enfrentam agora, com um heroísmo muitas vezes
estupidamente temerário, infantarias móveis, insinuantes, fornecidas pelas cidades, e os primeiros canhões 9,
futuros reis dos combates.” (DANIEL ROPS)
Batalha de Crécy
1346
Abordaremos as principais batalhas que aconteceram durante esta longa guerra.
Começaremos com aquela que foi o preâmbulo do confronto entre os ingleses e os franceses, que
contém a primazia, não só nessa longa guerra, mas também na primeira guerra em que foram
utilizados os canhões.
Começaremos com a derrocada moral dos franceses, que contavam com um exército de 30
a 50 mil homens, contra o exército inglês de 15 a 20 mil homens. A guerra foi iniciada pelos
ingleses, por seu Rei Eduardo III, que reivindicou o trono francês, como citado anteriormente.
Percorreremos, a seguir, algumas das batalhas mais memoráveis deste período.
Estratégias da batalha
Foram utilizados nessas batalhas
canhões, besteiros (arqueiros) e
cavalaria. Como os ingleses iniciaram o
confronto, montaram uma boa
estratégia militar. Do lado do reino
inglês estavam seus aliados do Sacro
Império Romano, enquanto do lado do
reino francês estavam seus aliados, os
mercenários genoveses e o reino de
Maiorca. A França, até então com sua
cavalaria hegemônica, pouco planejou
estratégias para combater os ingleses.
O confronto se deu no reino
francês, em Crécy, onde os exércitos se
encontraram. Os ingleses haviam-se
preparado e escolhido um lugar com
Batalha de Crécy.
montanhas para combater; vieram antes
9
Até então não se havia usado “armas de fogo” nas guerras ocorridas em território europeu. A pólvora é uma invenção chinesa
introduzida nos reinos por volta do século XII. O uso de canhões modificou definitivamente as estratégias e as formas de combate
que durante milhares de anos foram usadas.
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para a batalha e montaram obstáculos, prevendo uma grande investida da famosa cavalaria
francesa. Montado o campo de batalha, chegaram os franceses com seus inúmeros besteiros que
haviam sido contratados pelos mercenários, mas os ingleses também possuíam muitos besteiros.
Ao iniciar a batalha, os lados percebem que as flechas dos ingleses possuem um alcance
muito maior que a dos aliados franceses. Indignados, os cavaleiros franceses se perguntaram acerca
do que estava acontecendo, pressupondo uma diferença de armamento. Como eles não se haviam
preparado da maneira devida, ao contrário dos ingleses, na noite anterior enfrentaram uma forte
chuva, e os franceses deixaram suas bestas molhar-se, comprometendo parte de seu material.
Foi um fracasso total por parte dos franceses, que sucumbiram perante o equipamento inglês.
Quando, então, já cansados de ver seus amigos morrer, os cavaleiros resolveram tomar a frente da
guerra e combater corporalmente. De fato, neste ato de bravura da cavalaria, foi desfeita a frente
de besteiros, porém, como vimos, os ingleses já se haviam preparado para a destemida cavalaria
francesa, montando armadilhas para os seus cavalos que, de maneira soberba, avançaram de
qualquer jeito, fazendo com que quase todos sucumbissem. A França perdeu cerca de sete mil
homens, abalando seu respeito e sua coragem; em contrapartida, a Inglaterra teve uma perda de 500
homens.
Batalha de Calais
1347
Após vencer a Batalha de Crécy, o Rei Eduardo III, dá início à sua expansão sobre o território
francês de maneira estratégica para angariar recursos para a Inglaterra e privar a França de fontes
de recursos importantes. Calais era uma cidade onde se localizava um importante porto francês,
pois além de receber muitas especiarias, era forte fonte de comércio em geral. Os ingleses, então,
marcharam em direção a esta cidade.
Estratégia de batalha
Essa cidade era defendida por um homem chamado
João de Viena, que mostraria – diferentemente da primeira
batalha – não ser fácil para os ingleses dominar aquela cidade.
Nos poucos confrontos que se deram, o povoado se defendeu
de maneira espetacular, organizou-se corretamente e defendeu
a entrada da cidade com bravura. Tendo em vista que essa
batalha poderia lhes custar muitos homens, prejudicando a
ideia de seguir adiante, e sabendo também que dificilmente a
França mandaria reforços, o Rei Eduardo III com toda sua
esperteza militar, resolveu organizar um cerco. Uma vez que
os ingleses não conseguiam entrar, esse cerco faria com que,
pouco a pouco, a cidade francesa ficasse sem comida.
O cerco durou cerca de onze meses, e após todo esse tempo os franceses resolvem ceder.
Mais uma vez, a Inglaterra dominou um território importante da França, e sua confiança se
fortaleceu.
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Tratado de Brétigny
Esse Tratado pareceu manter a paz entre os dois povos. Mas, em seus trinta e nove artigos,
a França aceitara ceder muitas de suas cidades como: Aquitania, Ponthieu, La Rochelle, etc, como
demonstrado no mapa ao lado (partes em rosa). Também como mostra o mapa, a Inglaterra cedeu
alguns territórios já sob seu domínio de volta para a França (parte em rosa claro), além de negociar
a volta do Rei por uma quantia de três milhões de coroas, algo que para a época era inimaginável,
forçando a França a se envolver ainda mais para pagar uma dívida que não dispunha de condições.
Batalha de Azincourt
1415
Esta batalha, iniciada por Henrique V, filho de Henrique IV, neto de Eduardo III, foi também
muito importante para a Guerra dos Cem Anos. Mais uma vez, o exército francês foi montado por
seu rei Carlos VI; a batalha se deu no norte da França, perto de Artois. A soberania francesa estava
em perigo e a batalha foi em território francês novamente. O povo já estava farto das derrotas
sofridas pela França, e os reis, que amargavam sucessivas derrotas, reuniram, desta vez, um grande
exército, provavelmente o maior até então, com trinta mil homens. Os ingleses contavam com um
pouco mais de nove mil homens. A vitória francesa era certa. Finalmente a França reaveria sua
glória?
Estratégia de batalha
Henrique V sabia que não poderia prolongar demasiadamente a guerra, pois estava havia
algum tempo em marcha para reivindicar o trono francês e seus soldados se encontravam sem
muitos suprimentos, pelo contrário, seus homens estavam cansados, portanto, a batalha deveria ser
rápida! Combatendo com os ingleses existiam, mais ou menos, seis mil arqueiros, mil e quinhentos
soldados de infantaria pesada e dois mil homens de cavalaria. Pelos franceses, quinze mil homens,
sendo cinco mil pertencentes à cavalaria. Por essa vantagem, a confiança francesa – mesmo após a
humilhação da batalha de Crécy – estava em alta. Mas desta vez era necessária uma estratégia de
batalha.
Além da confiança, a disputa aconteceria em território francês, concedendo-lhes mais uma
vantagem, tendo em vista o conhecimento do terreno irregular, repleto de florestas e montanhas, o
que fez com que os franceses tomassem a iniciativa em uma manhã nublada, no dia 25 de outubro
de 1415.
A tática dos franceses não foi, porém, a correta. Mandaram que seus cavaleiros avançassem
em direção aos arqueiros, causando inúmeras baixas; mandaram também sua infantaria, mas as
condições do terreno não eram as melhores e a dificuldade para se locomover, concedia vantagens
aos arqueiros ingleses. Inesperadamente, os franceses foram humilhados, devido à inovação de
batalha do novo arco inglês, que possuía maior alcance, assim como a ignorância dos franceses em
insistir nos mesmos erros. Observe, abaixo, uma ilustração sobre como se deu a batalha.
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Essa jovem, com muitas graças, nasceu em 1412, na cidade de Domrémy, França. O período
de seu nascimento foi marcado por dificuldades para o povo francês, que outrora havia sido a nação
mais gloriosa do mundo; agora, estava atravessando a Guerra dos Cem Anos, a qual, em conflito
com a Inglaterra, estava sendo aniquilada por dentro, com os conflitos internos, e por fora, com a
perda do trono para um rei inglês.
É então que Jesus sai em defesa deste reino que serviu esplendorosamente durante muitos
anos Sua Santa Igreja, suscitando uma jovem de 18 anos, que escutou uma voz lhe chamar a
governar o exército francês, para expulsão dos ingleses. Vejamos sua carta ao Rei da Inglaterra:
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“Rei da Inglaterra, e vós, duque de Beldford, que vos fazeis chamar regente do reino de França;
vós, conde de Suffolk; Jean, senhor de Talbot, e vós, Thomas de Scales, que vos intitulais capitães do duque
de Beldfor, dai razão ao Rei do Céu: entregai à Donzela enviada por Deus, O Rei do Céu, as chaves de
todas as cidades que haveis tomado na França. Ela veio da parte de Deus, para reclamar o sangue real.
Ela está pronta a fazer a paz, se vós quiserdes reconhecer vosso erro e pagar tudo o que fizestes.
E vós todos, arqueiros, companheiros de guerra, nobres e outros que cercais a cidade de Orleans
ides para vosso país, em nome de Deus! Se assim não o fizerdes, aguardai as notícias da Donzela, que vos
visitará em breve para vossa desgraça.
Se assim não fizerdes, Rei da Inglaterra, vede que sou capitã de guerra, e se eu encontrar gente
vossa em qualquer lugar da França, obrigá-los-ei a partir, queiram ou não. E se não me obedecerem, os
matarei a todos.
Fui enviada por Deus, Rei do Céu, para expulsar-vos de toda a França. Terei misericórdia daqueles
que obedecerem. Vós não recebereis de Deus, Rei do Céu e filho de Santa Maria, o reino da França; mas
recebê-lo-á o rei Carlos, pois o Rei do Céu assim o deseja e revelou-o à Donzela, a qual entrará em Paris
com seu exército.
Se não quereis acreditar nas palavras de Deus e da Donzela, nós vos procuraremos em qualquer
lugar em que estiverdes, vos golpearemos e faremos uma caçada tão grande como não se viu na França
em mil anos. E acreditai-me: o Rei do Céu enviará à Donzela mais forças do que todos os vossos assaltos,
e na hora dos golpes veremos quem pode mais: se vós ou o Rei do Céu…”
Escrito na terça-feira da Semana Santa – 22 de março de 1429.
parecia não haver feito outra coisa na vida”. Fez proibir as blasfêmias, exortava os soldados a
confessar-se e expulsou todas as mulheres de má vida.
À testa do exército marchava a donzela entoando o Veni Creator Spiritus como cântico de
guerra. E o Espírito Divino respondia: o seu sopro arrastava aquele exército do Senhor. As tropas
pernoitaram em pleno campo. No dia seguinte, a donzela, apesar de fatigada e doente por haver
dormido armada pela primeira vez, levantou-se e recebeu a Sagrada Comunhão diante do exército
em ordem de batalha.
Uma multidão de soldados passa repentinamente da devassidão e da indiferença para o
entusiasmo e a fé, e ajoelham-se diante dos sacerdotes que rodeavam Joana, pedindo que voltasse
a Graça de Deus. No dia 29, a expedição estava próxima de Orléans. Era preciso passar no meio
dos acampamentos ingleses e entrar na cidade sitiada. Ao chegar diante de Orléans, aqueles
cânticos aquelas bandeiras desconhecidas e aquele ambiente inusitado encheram os ingleses, que
cercavam a cidade, de um temor supersticioso.
Joana havia predito que o inimigo “não se moveria sequer” e insistiu em que as tropas
francesas fossem instalar-se defronte das posições mais fortes do inimigo, mas os capitães
franceses, julgando-a por demais ousada, fizeram o contrário.
“Em nome de Deus – exclamou ela – o conselho de Deus vale mais e é mais seguro do que
o vosso. Haveis tentado enganar-me, mas vos haveis enganado a vós mesmos, pois eu trago o
melhor auxílio que jamais teve cavaleiro, vila ou cidade: é o gozo de Deus e ajuda do Rei do Céu,
quem, a todos de São Luiz e de São Carlos Magno, teve misericórdia de Orleans”.
Ao entardecer daquele mesmo dia, inteiramente armada, montando um cavalo branco e
fazendo portar diante de si o seu estandarte, entrou Joana d’Arc na cidade de Orléans. Dirigiu-se
diretamente à catedral, em meio às aclamações e ao júbilo de todo o povo, “dos homens, das
mulheres e das crianças, que mostravam tanta alegria como se o próprio Deus tivesse descido entre
eles”.
Vãos resultaram todos os esforços por manter à distância aquela multidão: todos se
precipitavam ao seu encontro querendo tocá-la ou, pelo menos, roçar seu cavalo. “Sentiram-se
todos muito reanimados, narra o diário do assédio, como se não existisse cerco algum, por causa
da divina virtude que emanava daquela humilde donzela”.
O efeito moral desta primeira jornada foi imenso: a confiança, que antes animava os
sitiantes, passara para o coração dos sitiados e da tropa francesa. Joana teria desejado levá-los todos
ao assalto das fortificações inglesas desde o amanhecer, mas a maior parte dos capitães protestou
contra essa temeridade e decidiu, para grande desgosto de Joana, que não atacariam até a chegada
de todo o exército. Joana saiu à planície e cavalgou lentamente ao longo das barricadas inimigas,
examinando as posições com olhos de capitão experimentado.
O povo a seguiu em multidão, como se a sua presença fosse proteção mais segura do que as
muralhas da cidade. Os ingleses não tentaram impedir o audacioso reconhecimento nem atacar a
turba desarmada. Aqueles homens intrépidos pareciam medrosos como mulheres, enquanto as
próprias mulheres se transformavam em heróis contra eles.
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“Pareciam que tinham as mãos atadas. Antes que a donzela chegasse, apenas duzentos
ingleses faziam fugir oitocentos do exército real, mas depois de sua chegada quatrocentos franceses
combatiam todas as forças inimigas, e as obrigavam a refugiar-se atrás das barricadas”.
A primeira vitória da França, a primeira vitória de Joana; seu nome ecoava pelo exército
inglês, nenhum soldado inglês sequer entrava em campo de batalha sem saber quem era esta Santa,
sem tremer ao colocar sua armadura sabendo que do outro lado estava aquela que foi guiada,
pessoalmente, pelo Espírito Santo.
O restante do exército francês apareceu no dia 4 de maio, na margem direita do Loire. Joana
foi ao seu encontro com uma parte da guarnição e os ingleses nada fizeram para impedi-lo. A
donzela, fatigada pela cavalgada, recolheu-se para tomar algum repouso, mas apenas havia fechado
os olhos, acordou bruscamente dando um forte grito:
“As vozes me chamam! As tropas precisam de socorro! Corre o sangue de nossa gente!
Minhas armas, minhas armas e meu cavalo”.
Este é um pequeno exemplo do começo das várias vitórias que essa Santa trouxe à
cristandade. Ela possui um papel fundamental para a França e também para que toda a Europa não
se tornasse anglicana, sob o poder da Inglaterra.
comandantes retomaram a confiança, correram atrás dela/ o pânico apoderou-se dos inimigos, e
deram-se a uma fuga vergonhosa, voltando aos seus baluartes.
Os franceses os seguiram, e a barricada foi novamente atacada; fossos, escarpas repletas de
armadilhas, paliçadas, parapeitos guarnecidos de artilharia, tudo foi inútil, os assaltantes
penetraram por todos os lados e passaram a fio de espada todos os defensores. Joana, ligeiramente
ferida, retornou a Orléans e resolveu atacar a barricada da Tournelles no dia seguinte.
Mas os capitães não eram da mesma opinião; temiam comprometer os resultados obtidos, e
talvez temessem mais ainda que as próximas vitória daria à Santa um brilho que os apagariam.
Infelizmente, começara aqui algo que será recorrente daqui para frente nesta guerra. Deus deu uma
graça ao povo francês, mais do que isso materializou essa graça através dela, e os comandantes
franceses ainda continuavam soberbos, com medo e planejando o tempo todo como controlar a
Santa e suas vitórias. Impressionante observar como a humanidade não é merecedora das graças
derramadas por Deus.
À tarde, reuniram-se em conselho, sem chamá-la, e mandaram dizer-lhe que não atacariam
antes da chegada de reforços. A Santa então respondeu: “Vós tivestes vosso conselho e eu tive o
meu. O conselho de meu Senhor se cumprirá: o conselho dos homens perecerá! Amanhã
combateremos”.
No fim do dia, a Santa montou o cavalo, anunciando que, antes do entardecer, voltaria
vitoriosa pela Ponte de Loire. O conselho dos chefes decidiu impedi-la de passar, e Gaucourt,
comandante da cidade, guardava pessoalmente a porta de Bourgogne, declarando que ninguém a
transporia.
Joana ordenou ao povo que abrisse a porta; à sua voz, os soldados precipitaram-se com tal
fúria que Gaucourt foi despedaçado. O povo, arrastando os canhões, saiu da cidade como uma
torrente e lançou-se ao ataque. Os capitães viram-se forçados a acompanhar o movimento. As
posições inglesas foram cercadas entre dois fogos; uma tropa francesa lançou um terrível
bombardeio contra o forte das Tournelles, enquanto, do lado oposto, Joana dava o sinal de ataque.
Foi uma luta de gigantes. Glendale
tinha em torno de si os melhores guerreiros
da Inglaterra animados pela ufania das
antigas vitórias e pela cólera das recentes
derrotas, e que se defendiam com coragem
obstinada e furor sombrio.
Quanto aos franceses, atiravam-se ao
assalto “como se cressem os imortais”.
Através das balas, das flechas, dos dardos e
das pedras, arrancavam as paliçadas,
enchiam os fossos, e escalavam as
fortificações, mas caiam golpeados pelos
Cerco de Orléans
machados, pelas lanças e pelas maças dos
ingleses.
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A luta durava já três longas horas. Joana exortava seus homens a “ter bom coração e
esperança em Deus”, mas ao ver que os franceses fraquejavam e hesitavam, precipitou-se no fosso.
Empunhou uma escada e subiu de primeira. Nesse instante, uma flecha atingiu-a entre a couraça e
a gorjeira, fazendo-a cair por terra.
Imediatamente foi levada à retaguarda, mas, tomada por um êxtase, retomou toda sua energia
e arrancou ela mesma o dardo da ferida exclamando: “Não é sangue o que brota das feridas, mas
sim glória!”. Entretanto, a notícia de sua queda espalhou o desalento no exército e os chefes
queriam dar a ordem de retirada quando Joana proferiu um brado de guerra: “Às armas! A barricada
é vossa!.” Lançou-se sobre o cavalo e ordenou que o ataque continuasse; assim ela progrediu e
tomou a frente inglesa.
Quase toda a tropa inglesa foi morta ou tornada cativa, e o tamanho da derrota não era
simplesmente devido ao número. Os seiscentos homens que os ingleses perderam nesse dia eram a
elite de sua Cavalaria. Os chefes ingleses reuniram-se em conselho enquanto ouviam o repicar dos
sinos, cujas alegres badaladas celebravam a vitória de seus inimigos. Resolveram eles levantar o
cerco; quanto a Santa, cumprindo sua previsão, entrava em Orleans pela ponte do Loire, em meio
aos brados de júbilo e a um regozijo popular, mais fácil de ser imaginado do que descrito.
Dez mil vozes entoaram o Te Deum sob as abóbadas da catedral da Saint-Croix. Estava feita
a guerreira, a Santa que libertaria a França. Aqueles que não conseguiam chegar perto dela para
oscular sua mão, osculavam as pegadas de seu cavalo.
olhos do povo, era superior a qualquer santidade comum. Era considerada como um ser descido do
Céu, mais do que uma pessoa por alcançar o Paraíso. O povo a canonizava em vida.
Muitos nobres e cavaleiros abandonavam seus escudos, entronizavam sua imagem dentro
das igrejas e introduziam, na própria liturgia da missa, orações em sua honra. A França,
desagregada, quase morta, levanta-se do sepulcro à voz da santa, como outrora Lázaro à voz de
Jesus.
O começo da traição
A Paris! A Paris!”, exclamou a donzela após a sagração do monarca, e os vinte mil homens
que se encontravam em Reims ecoaram este brado. Mas Carlos VII queria negociar: assinou uma
trégua com o adversário, desprezando a mão que Deus lhe estendia na pessoa de Joana. A Santa
estava em um grande dilema: Jesus a havia mandado empreender as batalhas e ir a Paris, mas o rei
queria que ela ficasse e que o acordo fosse mantido. Ela, porém, ficara nove meses em Reims e se
manteve fiel ao rei, que recebeu dela diversas graças, e, que assim lhe agradecia.
Após nove meses, a Santa convocou alguns de seus fiéis cavaleiros e partiu para Paris
sozinha. Numa manhã, disse às pessoas que a rodeavam: “Meus amigos, estou vendida e traída, e
logo haverei de morrer. Orai por mim, porque em breve nada mais poderei fazer pelo rei e pelo
reino de França”.
No dia 24 de maio de 1430, às cinco da tarde, Joana saiu da cidade à testa de quinhentos
homens de elite, para atacar o inimigo. Mas, depois de um terrível combate, as tropas francesas,
imaginando-se perdidas, debandaram em direção da cidade. No entanto, os mais bravos, os mais
devotados companheiros da Donzela, resistiam em torno dela. “Retirai-vos da cidade”, bradaram
eles, “ou vós ou nós estamos perdidos.”
Mas a Santa respondeu: “Calai-vos! Será vossa culpa se eles não forem hoje derrotados!
Não pensei senão em golpear!” Apesar destas palavras, seguraram as rédeas de seu cavalo e
arrastaram-na em direção à ponte levadiça. Porém a ponte havia sido levantada e a retirada estava
cortada. Todos os inimigos lançaram-se contra ela, e o estandarte sagrado, que havia sido a salvação
da França, o estandarte de Orléans, de Patay, e de Reims, agitou-se em vão pedindo reforços.
O santo estandarte rolou, e os últimos defensores da Donzela foram massacrados ou
separados dela pela imensa multidão de atacantes. “Rendei-vos!”, gritavam-lhes todos, mas Joana
continuava a defender-se heroicamente. Seis cavaleiros seguraram seu cavalo e um arqueiro puxou-
a violentamente pela capa. A Santa caiu do cavalo... O anúncio das vozes estava cumprido: o
período da luta terminava e iniciava-se o longo e terrível martírio da Virgem.
O tribunal da Inquisição
Joana ficou dois meses em cativeiro à espera de que a corte se preparasse para seu julgamento.
Aquela que havia salvado a França permanecia agora presa. Entraram na sala mais de quarenta
doutores em Teologia e Direito Canônico, e logo em seguida entrou a Santa. Uma verdadeira
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tempestade levantou-se à sua entrada. Dir-se-ia que um Anjo penetrava numa assembleia de
demônios.
Os doutores tentavam fazê-la cair em heresia doutrinária, mas ela, incrivelmente, respondia
a todas as perguntas com a mais excelente teoria. Infelizmente isto não bastou: a condenação de
Joana foi política e não doutrinária. Por fim, ela foi declarada herética e foi excomungada. Antes
de sua morte, pediu para receber os sacramentos e, incrivelmente (uma vez que ela foi
excomungada), lhe foi concedido tal pedido.
Um cortejo de oitocentos soldados a levou para o lugar em que seria queimada. Enquanto
isso, Carlos VII mantinha todas as tropas francesas bem longe do lugar onde morria, abandonada
por todos, aquela que havia devolvido o reino ao ingrato monarca. O sacerdote que celebrou sua
missa concluiu: “Joana, vá em paz! A Igreja não pode defendê-la”. Assim, ela foi queimada. Bradou
por Jesus enquanto o fogo a queimava. Logo após morrer, o povo a aclamava como Santa. Um dos
homens que ajudou a matá-la exclamava “Eu matei uma Santa”.
Houve mais duas grandes batalhas sem que ela participasse, e as duas foram vencidas pela
França. A Inglaterra já não tinha mais soldados para enviar a esta nação, e decidiu terminar suas
investidas. Em 1453, a guerra havia acabado.
Durante a década de 1456, a camponesa foi considerada inocente pelo Papa Calisto III. Em
1909, cinco séculos depois, a Igreja Católica autorizou a beatificação da moça. Em 1920, ela é
finalmente canonizada pelo Papa Bento XV.
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Atividades
1) Cite algumas dificuldades que a França enfrentava antes da guerra dos cem anos.
2) Qual foi a causa da guerra? Qual foi o período da guerra?
3) Quais foram as principais batalhas da guerra dos cem anos?
4) Onde e quando nasceu Santa Joana d’Arc?
5) Qual foi seu papel na Guerra dos Cem anos?
6) Qual foi o fim de Santa Joana?
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Capítulo
5
Introdução
I
NICIAREMOS a aula sobre o Renascimento com uma frase de Daniel Rops que expressa bem
o que foi essa rebelião da inteligência:
“Se quisermos ver as origens da rebelião luciferina, da heresia da inteligência, teremos de
remontar ao coração da Renascença italiana – quando o espírito dos humanistas, maravilhado com
os seus progressos, com as suas descobertas, pouco a pouco se desprendera das tradições, das
observâncias, e logo depois dos dogmas do cristianismo”.
O Renascimento iniciou um processo de rebelião contra a razão, contra a fé, contra a doutrina
e tradição da Igreja e, portanto, contra Cristo. Por isso Rops o chamou de heresia da inteligência e
rebelião luciferina.
Definição de Renascimento
É um movimento de ideias nascido no Norte Itália que manifestou grande entusiasmo pelas
artes e letras, mesclando o paganismo com o pensamento cristão. Seus principais vultos viveram
durante os séculos XV e XVI. São eles: Michelangelo, Leonardo da Vinci, Rafael de Sanzio,
Ticiano, Boccacio, Giotto, Brunellesco, Donatello,
Cellini, etc. Vale ressaltar que nem todos os grandes
personagens do período renascentista eram imorais
ou contrários à pureza da religião católica. O mesmo
período é marcado por homens extraordinários, como
Cervantes, Camões, Giotto e Fra Angélico, por
exemplo.
Esse trecho de Delassus nos mostra que a Igreja, ao longo de muitos séculos, soube preservar
e transformar os elementos bons que se encontravam nas culturas antigas. Jamais a Igreja poderá
ser contra aquilo que é intrinsicamente bom, belo e verdadeiro, pois essas qualidades provêm de
Deus mesmo. Os renascentistas iniciaram o processo de retorno de tudo aquilo que era deplorável
nos séculos anteriores.
Depois dos treze séculos em que a Igreja infundiu o espírito cristão nos povos, o espírito
pagão renasceu no coração dos homens. É o espírito cunhado no inferno pelo grande
revolucionário: Satanás com seus seguidores. Não se entende a Revolução de Lutero sem antes
compreender a paganização instaurada pelo Renascimento europeu. Esse movimento reintroduziu
no continente europeu os ídolos do período clássico: hedonismo, antropocentrismo, individualismo,
racionalismo, idolatria, etc. Tais vícios tinham sido combatidos pela Igreja por mais de mil anos.
Era necessário, primeiramente, atacar o meio pelo qual somos salvos: a Igreja Católica. Isso
foi feito por Lutero.
“Ora, convencemo-nos de que esses males têm a sua principal
causa no desprezo e na rejeição dessa santa e augustíssima
Autoridade da Igreja que governa o gênero humano em nome de
Deus, e que é a salvaguarda e o apoio de toda autoridade
legítima. Os inimigos da ordem pública, que perfeitamente o
têm compreendido, pensaram que nada era mais próprio para
subverter os fundamentos da sociedade do que atacar sem trégua
a Igreja de Deus, do que torná-la odiosa e odiável por meio de
vergonhosas calúnias, representando-a como inimiga da
verdadeira civilização, do que enfraquecer-lhe a autoridade e a
força por meio de feridas incessantemente renovadas, e do que
derrubar o poder supremo do Pontífice romano, que é neste
mundo o guarda e o defensor das regras eternas e imutáveis do
bem e do justo.” (PAPA LEÃO XIII)10
10
Inscrutabili dei Consilio, nº 3.
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“A Revolução (francesa) é inspirada pelo próprio Satã; seu objetivo é destruir da base ao topo o edifício do
cristianismo, e reconstruir sobre suas ruínas a ordem social do paganismo”. (BEATO PAPA PIO IX)11
“[O comunismo é uma] peste mortífera, que invade a medula da sociedade humana e a conduz a um perigo
extremo”. (LEÃO XIII)12
Características do Renascimento
Para promover todo seu espírito revolucionário os renascentistas espalhavam seus erros pelas
artes, esculturas, arquitetura, música e, especialmente, pelas universidades através dos estudiosos
chamados humanistas, os quais promoviam toda sorte de pensamento contrário à reta razão iluminada
pela fé. Podemos, portanto, distinguir algumas características próprias do Renascimento. Tais são elas:
11
Carta encíclica Nostis et nobiscum
12
Encíclica Quod Apostolici muneris
13
Pio XII, Discorso agli uomini di Azione Cattolica, 12 ottobre 1952.
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Causas do Renascimento
Para se chegar ao grande desvio do renascimento foi necessária a proliferação de ideias
repletas de erros pela Europa Católica. Esses erros preparam o renascimento. São eles:
1. A decadência do sistema de ensino (separação da vida intelectual da vida moral): as
Universidades contribuíram para a decadência do ensino, pois não se exigiam dos estudantes
uma retidão de vida, mas sim que atingissem as metas propostas pelas avaliações. Isso
significa que a vida intelectual se separou da vida moral. Podemos conhecer a verdade das
coisas, e por isso, se algo é verdadeiro, automaticamente é bom e belo. O verdadeiro, o bom
e o belo procedem de Deus, que é a Suma Perfeição e Santidade. A nossa inteligência é um
dom extraordinário de Deus que governa a nossa vontade e esta as nossas paixões, emoções,
imaginação, etc. Isso significa que buscamos o conhecimento para santificar-nos cada vez
mais, isto é, para configurar-nos à Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo. Conclui-se que, se
a inteligência não é capaz de dizer à nossa vontade o que ela deve escolher (o bem ou o mal),
isso significa que ela não está sendo desenvolvida. À inteligência se acrescenta a Graça de
Deus, a qual nos possibilita ter uma vida sobrenatural. Os renascentistas eram alheios a todas
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3. A Peste Negra (1348), peste que dizimou 1/3 dos europeus: a Peste Negra gerou uma
“febre de viver” nos habitantes europeus. Iniciou-se uma depravação geral dos costumes. A
taxa de mortes foi tão alta, que as escolas já não tinham professores, além de os conventos
minguarem em número e diminuírem em fervor e disciplina. Leia o texto abaixo sobre um
homem que viveu neste período.
"Nem parentes, nem amigos, nem sacerdotes acompanhavam os corpos às valas. O ofício dos mortos não
era recitado. Em muitos lugares da cidade, escavavam-se fossas, largas e profundas, dentro das quais se
jogavam os corpos, cobertos com um pouco de terra. Desta maneira se enchia camada após camada, até que
toda a fossa estivesse cheia. Em seguida, iniciava-se outra fossa. E eu, Agniolo de Tura, com minhas
próprias mãos sepultei cinco de minhas crianças em uma só fossa, assim como muitos outros também o
fizeram. Muitos, porém, dos mortos estavam tão mal cobertos com terra que os cães reescavavam a fossa
para comer suas carnes, dispersando pedaços dos mortos pela cidade. Os sinos não batiam, e ninguém
chorava, não importando quão grande tivesse sido a sua perda, pois quase todos estavam na expectativa de
sua própria morte. Todo o povo dizia e acreditava que aquilo já era o fim do mundo.” (WILL
DURANT)
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Mecenas
Mecenas foram homens que financiaram os artistas e intelectuais renascentistas.
Muitos poderosos, entre os quais alguns chefes de Estado, fizeram construir monumentos, palácios,
etc. Compravam estátuas e quadros, sempre avivando o gosto pelas artes. Criavam bibliotecas e concediam
pensão aos estudiosos, procurando assim desenvolver as artes e as letras. Lourenço de Médici fez de
Michelangelo o companheiro de seus filhos e sobrinhos. O Papa Leão X queria dar a Rafael o título de
cardeal. Cellini foi absolvido de um assassinato, porque o Papa Paulo III entendia que !homens únicos na
sua arte não devem estar submetidos às leis”.
Porém, um dos maiores promotores do movimento renascentista foi o Papa Nicolau V que, aliado à
invenção da imprensa de Guttenberg, podem ser responsáveis pela proliferação das ideias renascentistas. O
Papa não pode, contudo, ser acusado de maneira tão rápida. “O plano de Nicolau era fazer de Roma, centro
da Igreja, um foco da literatura e das artes, uma cidade de monumentos esplêndidos, possuidora da melhor
biblioteca do mundo, de modo a assegurar na Cidade Eterna um lar permanente para o Papado.” (Ludwig
von Pastor). Porém, o resultado é que o “neopaganismo paganizou” os membros da Igreja.
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Atividades
1) O que o Renascimento iniciou na história?
2) O que é definição do Renascimento? Quem são seus principais vultos?
3) Por que o nome Renascimento?
4) Copie esta frase de Pio XII que evidencia o processo revolucionário contra Cristo e Sua Igreja:
Cristo sim, a Igreja não (Reforma Protestante)! Depois: Deus sim, Cristo não (Revolução
Francesa)! Finalmente o grito ímpio: Deus está morto; e, até, Deus jamais existiu (Revoluções
comunistas).
5) Quais são as características do Renascimento?
6) Quais são as causas do Renascimento?
7) Quem são os Mecenas?
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73
Capítulo
6
Reforma Protestante
Na primeira metade do século XVI uma grande revolução religiosa se operou na
Cristandade. Dá-se o nome de Reforma. Começou na Alemanha, com Lutero, e comunicou-se a
outras nações.
Causas
Havia muito tempo que se desejava a reforma da disciplina eclesiástica. A fé conservava-se
intacta, intacto também permanecia o culto verdadeiro a Deus, a Santa Missa. Nos costumes,
porém, os abusos eram grandes, quer nos mosteiros, quer em certa parte do clero secular.
Além disso o renascimento das ideias do paganismo, o estado dos espíritos no século XVI,
o relaxamento dos costumes, a ambição dos nobres, tudo favorecia a pregação de Lutero.
Tomou-se por pretexto a reforma que todas as pessoas honestas desejavam; serviu de ocasião a
ordem do Papa Leão X para pregar as indulgências, pedindo aos fiéis auxílios para concluir a igreja
de São Pedro e para a cruzada contra os Turcos.
Reformar, porém, não é destruir; nem se compreendem os exageros e as desordens dos pseudos-
reformadores. Dentro destes abusos se destacam:
1. Que esta reforma fosse empreendida por pessoas que de nenhum modo estavam autorizadas
para isto;
2. Que se atribuísse à Igreja o que era defeito do homem;
3. Que estes reformadores, em geral de costumes muito perversos, em vez de reformar as
desordens, tratassem de abolir as leis, os usos e os dogmas mais substanciais, mais santos e
mais consoladores da Igreja, a respeito dos quais nunca se excitara a mínima dúvida. Tais
são, por exemplo, os votos religiosos, o celibato eclesiástico, a confissão auricular, a
indissolubilidade do matrimônio, as indulgências, a oração pelos finados, a devoção a nossa
Senhora e aos Santos, a Santíssima Eucaristia, etc. Isto tudo foi atacado por Lutero e seus
seguidores.
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74
Antecessores de Lutero
Além da Renascença e do Humanismo, intelectuais como John Wycliffe e John Huss
criticavam a Igreja e prepararam o caminho para as inversões teológicas e eclesiológicas da
Pseudorreforma. No entanto, o maior e mais conhecido responsável pelo grande cisma causado na
Igreja foi Martinho Lutero.
Porém a grande revolta de Lutero se explica a partir de suas inquietações interiores e de sua
vida religiosa frustrada.
“A reforma luterana (e também a reforma da teologia) parte de uma inquietação religiosa pessoal, e não
de uma investigação intelectual. Por isso, ainda que suas formulações doutrinais tenham raízes na formação
filosófico-teológica de Lutero, apenas a sua postura religiosa pessoal pode explicá-las de todo. Portanto, a
única explicação satisfatória sobre a origem da teologia luterana é a teorização de sua experiência
pessoal.” (JULIAN BELDA PLANS)
As relíquias sagradas
Era o dia 31 de outubro de 1517, festa de Todos os Santos. Esse dia atraía para a pequena
cidade de Winterberg milhares de pessoas piedosas, desejosas de ver a famosas relíquias adquiridas
por Frederico, o Sábio, príncipe da Saxônia.
Entre as principais relíquias, estavam corpos íntegros de santos, cravos da Paixão, faixas que
envolveram o menino Jesus, etc. A veneração dessas relíquias concedia numerosas indulgências.
As 95 teses
No mesmo dia, Lutero fixou na porta da capela do castelo de Winterberg as suas famosas 95
teses, que negavam a importância e até a eficácia das indulgências, entre outras críticas. Isso
marcou o início da Pseudorreforma Luterana.
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75
Alguns abusos, de fato, eram encontrados no que dizia respeito à venda de indulgências
(simonia), fato já evidenciado pelo decretal chamado Abusionibus.
14
Textos da Obra “Compêndio da História Sagrada” escrita por São João Bosco.
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76
é bastante lembrar que, conforme ele afirmava, o homem mais virtuoso, se não acredita firmemente
achar-se entre os eleitos, é condenado; e que, pelo contrário, o homem mais miserável, irá
diretamente ao paraíso, se acredita unicamente que há de salvar-se pelos merecimentos de Jesus
Cristo. Tão abominável doutrina foi condenada logo pelo Papa Leão X; todavia, Lutero mandou
atirar ao fogo publicamente a bula. As Universidades católicas e todos os doutores clamaram contra
aquela impiedade e heresia; mas Lutero desprezou-os, e persistiu em sua revolta. Ainda que ligado
por votos solenes, casou-se com Catarina de Bore, religiosa de um mosteiro de Mísnia. Teve
desgraçadamente muitos sectários, que, sob o nome de protestantes, tomaram armas e devastaram
todas as regiões onde lhes foi dado penetrar. Levavam escrito em seus estandartes: “Antes turcos
(muçulmanos) que papistas”.
Ao pensar algumas vezes nos grandes males que causava a nova reforma, exclamava: “Só
tu serás douto? Todos os que te precederam se enganaram? Tantos séculos ignoraram o que tu
sabes? Que acontecerá se te enganas e arrastas contigo a tantos para a condenação?” Eram estes os
gritos de sua consciência, que, apesar dele, protestava contra suas impiedades. Contudo, não
bastavam para fazê-lo voltar ao bom caminho.
Fim de Lutero
Este miserável apóstata, depois de ter desprezado todo argumento e toda autoridade, e depois
de ter queimado a bula do Papa que o condenara, não cessou de pregar a rebelião contra a Igreja e
contra os príncipes. Refutado em repetidas ocasiões por palavra e por escrito, não sabendo já como
se defender, apelou para um concílio geral. Convidado para assistir a ele, negou-se a princípio,
porém logo respondeu enfurecido: “Irei ao concílio, e que me cortem a cabeça se não souber
defender minhas opiniões contra todo o mundo”.
Mas o infeliz teve de ir defendê-las em presença do Juiz Divino. Certo dia, depois de uma
ceia opípara, acometeram-no fortes dores de estômago; levaram-no logo para a cama, porém as
dores se tornavam cada vez mais atrozes. Cheio de cólera e vomitando horríveis blasfêmias, acabou
miseravelmente a vida. Diz-se que, momentos antes de expirar, exclamou, olhando para o céu
através de uma janela: “Tudo está acabado para mim, pois, formoso céu, jamais te tornarei a ver!”
Fim do texto de São João Bosco
Erros Teológicos
A essência dessa religião ou, para dizer melhor, dessa imensa aglomeração de erros de
Lutero, que recebeu o nome de Protestantismo, consiste em colocar a razão individual sobre a
autoridade da Igreja de Jesus Cristo divinamente inspirada. O nome protestante deriva da
protestação que os rebeldes fizeram em 1529 contra o decreto da dieta de Spira, que vedava a
propaganda das doutrinas heréticas de Lutero.
Lutero negava a necessidade e até a existência da graça santificante. Para ele somente a fé
salva a pessoa (Sola Fide).
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Segundo o pensamento luterano, o homem recebe, graças à sua fé, a justificação obtida pelo
sacrifício de Jesus, ou seja, ocorre uma “passividade da vontade humana” (Sola Gratia).
“Os ockhamistas concordam, sim, em que seja impossível provar todas as verdades reveladas pela luz
natural da razão. Mas vão além: acham que possa haver verdade teológica que filosoficamente seja erro
[...]. Lutero estabeleceu uma direta oposição entre a fé e a razão. A razão, debilitada pelo pecado original,
não é, segundo ele, capaz de conhecer as coisas da fé.” (FREI DAGOBERTO ROMAG)
Para Lutero, a única via era a Theologia Crucis, por meio da qual o homem, consciente da
total corrupção da sua natureza pelo pecado original, torna-se incapaz de realizar boas obras.
Assim, a única coisa que lhe resta é confiar nos méritos da Cruz de Jesus para se ver livre da
responsabilidade dos próprios pecados.
Lutero ainda nega a Tradição da Igreja e o Magistério, aceitando apenas, como única fonte
confiável a Sagrada Escritura (Sola Scriptura).
Doutrina Luterana
Lutero foi muito protegido pelos príncipes da Germânia, que cobiçavam os bens dos
mosteiros e das igrejas. Os principais apoiadores do heresiarca (fundador de uma heresia) foram:
Frederico, duque da Saxônia; Filipe de Hesse, a quem Lutero permitiu tomar uma segunda mulher,
sendo ainda viva a primeira; Alberto de Brandeburgo, grão mestre da Ordem teutônica, que, apesar
de seus votos, se casou e apostatou a fim de tornar a Prússia um ducado hereditário na sua família;
Carlostadt, que, apesar de sacerdote, se deu a viver escandalosamente com uma freira até antes de
Lutero, seu mestre. Apoiado pelos príncipes, Lutero elaborou uma nova doutrina:
1. Somente a fé salva as pessoas (sola fide).
2. A Sagrada Escritura é a única fonte confiável (sola scriptura).
3. O Batismo e a Eucaristia são os únicos sacramentos.
4. O culto dos santos e a infalibilidade papal não têm fundamento.
5. Qualquer membro da Igreja pode se casar.
Como a concórdia e a unidade de doutrina não possam existir com o livre exame, os
primeiros reformadores não se demoraram em dividir-se e ter graves desavenças entre si. Com
efeito, querendo Melanchthon ser conciliante, teve de sofrer as perseguições dos outros; Carlostadt
negou a presença real, afirmada pelo seu mestre, e reprovou o culto dos santos que Lutero desejava
conservar. Osiander sonhou que Deus predestina só os escolhidos; Stork e Tomaz Munzer,
pregando a igualdade de todos os homens, condenaram todo o poder espiritual e temporal. Os
discípulos de Stork e de Munzer receberam o nome Anabatistas, porque reiteravam o batismo dado
às crianças. Começaram pelo ano de 1520, tornando-se em breve tão poderosos, que levantaram o
povo da Suabia, da Turingia, da Franconia, da Alsacia e do Palatinado. Lutero, que no começo
aplaudira esse levantamento, mudou dentro em pouco e, professando princípios sanguinários,
mandou seus seguidores reprimir a insurreição. Houve cem mil vítimas, sete cidades destruídas,
mil mosteiros arrasados, trezentas igrejas incendiadas, imensos tesouros de manuscritos e de obras
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de artes perdidas. Seis anos depois os Luteranos trataram muito cruelmente aos Anabatistas que se
tinham apoderado da cidade de Munster.
Carlos V
A princípio usou de muita brandura para com os inovadores deixando lugar à discussão e
até fazendo concessões excessivas com o intento de reunir todos contra os Turcos, que invadiam a
Áustria até Viena. Os protestantes, pelo contrário, ao passo que manifestavam desejos favoráveis à
invasão muçulmana, uniam-se contra os Católicos pelas ligas de Torgáu e de Smalkalde (1531).
Nestas circunstâncias críticas Francisco I aliou-se com os inimigos do Catolicismo e da
Cristandade. Carlos V, portanto, vendo-se impotente para combater abertamente os rebeldes,
recorreu à astúcia, conseguindo separar do partido protestante o general Maurício de Saxônia, que
na batalha de Mulhberg acabou com a liga de Smalkalde. Sendo no mesmo tempo o imperador
bem-sucedido em diversos recontros e apoderando-se de várias cidades, podia esmagar seus
inimigos, se não caísse no erro de propor o famoso Interim, que igualou, até o futuro concílio, os
Protestantes aos Católicos (1548). Esta medida desagradou a todos, e Mauricio, desertando, tentou
prender o próprio imperador, que afinal teve de consentir no ato de Paz Perpétua e de Tolerância
recíproca, redigido pela dieta de Augsburdo.
João Calvino
1509-1564
Em 1541, Calvino assumiu o governo de Genebra. Proibiu festas, teatros, jogo de carta etc.
Quem descumprisse essas regras era punido. Na Escócia eram chamados de presbiterianos, na
Inglaterra de puritanos e na França de huguenotes.
Reforma na Inglaterra
Essa “reforma” foi conduzida pelo Rei Henrique VIII (1491-1547). O motivo foi o seu casamento.
Henrique pediu ao Papa a anulação do seu primeiro casamento, pois sua mulher não lhe dava um
herdeiro. Porém o Papa o rejeitou, e Henrique se casou com outra mulher.
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“Os modernistas, fundados no princípio que a ciência em nada depende da fé, quando tratam de filosofia,
de história, de crítica, não sentem horror de pisar nas pegadas de Lutero. (...) a doutrina modernista vai
acabar no ateísmo e na destruição de toda religião. Neste caminho os protestantes deram o primeiro passo;
os modernistas o segundo; pouco falta para o completo ateísmo.” (SÃO PIO X)
Contra-Reforma Católica
Introdução
Deus é o Senhor da História! Ao longo da História, a Igreja de Cristo teve de suportar vários
ataques e perseguições. Sempre afligida, mas nunca vencida. Da morte do Filho de Deus, Jesus
Cristo, nos veio a salvação. Da perseguição nos vêm a têmpera, a paciência, a perseverança e a
proximidade com Cristo. Do grande cisma
protestante, chaga que muitos juraram não ter
cura, o Senhor soergueu sua Igreja com uma
profunda renovação espiritual. Isto sim foi o
verdadeiro Renascimento.
Enquanto os hereges se esforçavam
por destruir a Igreja, a Divina Providência
suscitava novas sociedades de religiosos e
uma multidão de doutores, que com suas
fadigas apostólicas, com sua santidade e com
suas obras cheias de erudição cristã a fizeram
florescer em todas as partes do mundo. A
Ordem dos Teatinos, a dos Barnabitas, a dos
Capuchinhos, a dos Somascos, a dos Fate-
bene Fratelli e muitas outras congregações
religiosas; a instituição das quarenta horas, a
celebração do Concílio de Trento, São
Caetano, São Jerônimo Emiliano, São João de
Deus, São Tomás de Vilanova, Santo Inácio
de Loyola, São Francisco Xavier, São Pedro
de Alcântara, São Felipe Neri, São Pio V,
Santa Teresa, São Carlos Borromeu, São
Francisco de Sales e muitos outros repararam
gloriosamente os danos causados à religião. Santo Inácio de Loyola vencendo Lutero e suas heresias.
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1. Concílio de Trento15
A guerra encarniçada que os protestantes tinham declarado à Igreja e a necessidade urgente
de reanimar no clero e no povo a santidade dos costumes tornavam necessária a convocação de um
concílio ecumênico. Convocou-o, efetivamente, o Papa Paulo III, em Trento, cidade do Tirol
italiano, donde tomou o nome de Concílio Tridentino. Este é o décimo nono concílio ecumênico.
Durou mais de dezoito anos, por ter sido interrompido diversas vezes, por causa da epidemia ou
das guerras. Abriu o concílio o Papa Paulo III, no ano de 1545; foi continuado sob Júlio III, e levado
a feliz termo, no ano de 1563, no pontificado de Pio IV, graças ao zelo do infatigável São Carlos
Borromeu.
Presidiram-no os Papas por meio de seus legados, e tomaram parte nele muitos prelados e
insignes teólogos. À sua conclusão se achavam presentes 255 padres, isto é, 4 legados, 2 cardeais,
3 patriarcas, 25 arcebispos, 168 bispos, 7 abades, 39 procuradores de padres ausentes e 7 superiores
gerais de ordens religiosas. O fim principal deste concílio era condenar e refrear as heresias de
Lutero, de Calvino e de outros hereges daqueles tempos, e fazer igualmente novas leis disciplinares
concernentes particularmente ao clero. Convidaram também para assistir a ele os protestantes, e
foi-lhes dada plena liberdade para discutir e garantias plenas de que não seriam molestados, porém
nenhum deles se apresentou, porque as trevas fogem da luz, e quem está interessado em sustentar
o que é falso teme ser convencido da verdade. Foram condenados todos os erros inventados e
suscitados naquela idade por Satanás, porém não se condenou herege algum pessoalmente
indicando seu nome. Foram dados muitos decretos dogmáticos relativamente à graça, aos
sacramentos, ao purgatório, às indulgências e a outros pontos de fé, e foram estabelecidos muitos
preceitos de moral cristã. Celebraram-se 25 sessões, em que se encerra a doutrina e a disciplina de
quase todos os concílios celebrados anteriormente. Neste, o Espírito Santo iluminou de tal modo
sua Igreja que ao redigir as definições dogmáticas, e ao expor a doutrina católica, foram previstos
os erros que pudessem ser suscitados no futuro. Muito dificilmente, pois, aparecerão heresias que
direta ou indiretamente não tenham já sido condenadas neste concílio. Com o fim de não se
interpretarem mal as decisões do Concílio Tridentino, instituiu a Santa Sé uma congregação
chamada: Congregação do Santo Concilio de Trento, composta de cardeais e prelados, para velar
para que não se violassem os cânones e decretos, e para definir sua interpretação nos casos de
controvérsia.
15
Texto de São João Bosco: “História Eclesiástica”.
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São Pio V
Ao Papa Pio IV, morto no ano 1565, sucedeu São Pio V, um dos pontífices mais ilustres que
ocuparam o trono de São Pedro. Nascido em Bosco, perto de Alexandria, no Piemonte, na idade de 12 anos
encontrou-se por casualidade com dois religiosos dominicanos, os quais, admirados da precocidade do
menino, o levaram para seu convento. Ali progrediu tanto na ciência e na virtude, que, apesar dele, o Papa
o quis chamar a seu lado para servir-se dele em muitos assuntos da Igreja.
Primeiramente o fez cardeal e
depois o nomeou bispo de Mondovi.
Sua pureza de costumes e a energia
com que pregava, unidas à sua rígida
mortificação, atraíram para a fé
muitos hereges, convertendo
obstinados pecadores e remediando
gravíssimas desordens. Foi eleito
Papa em 7 de janeiro do ano de 1566.
Pode-se dizer que bastaram os seis
anos de seu pontificado para mudar o
aspecto do mundo. Ao passo que os
hereges causavam enormes males às
almas na Alemanha, na França e nos
Países Baixos, ele, com a palavra, São Pio V na vitória de Lepanto. Afresco presente na Igreja Santa Sabina em
Roma
com seus escritos, e com a obra de
zelosos missionários, combateu os erros e conservou a pureza da fé. Acometido por uma enfermidade que
lhe causava agudíssimas dores, não proferia senão estas palavras: “Senhor, aumentai meu mal, mas
igualmente a minha paciência”. Já próximo da morte, repetia com frequência: “Estou cheio de prazer, pois
alimento a esperança de entrar preparado na casa do Senhor”. Este grande e santo pontífice morreu no ano de
1572. Tinha muita devoção à Mãe do Salvador; e, para eternizar a memória da insigne e esplêndida vitória
alcançada por sua intercessão no ano de 1571 pelos cristãos contra os turcos nas águas de Lepanto, instituiu
a festa do Santíssimo Rosário e mandou que nas Ladainhas Lauretanas se acrescentassem as palavras:
Auxilium Christianorum, ora pro nobis.
O Concílio de Trento foi o concílio mais longo da História. Foi também o concílio que emitiu
o maior número de decretos dogmáticos e reformas, e produziu benéficos resultados.
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Períodos do concílio
O concílio se dividiu em três períodos:
1º período (1545-1548): promulgação dos decretos sobre a Sagrada Escritura e Tradição, o Pecado
Original, a Justificação e os Sete Sacramentos em geral e vários decretos de reforma disciplinar.
2º período (1551-1552): continuou a promulgar decretos sobre os Sacramentos, particularmente
sobre a Eucaristia, a Penitência, e a Extrema-Unção.
3º período (1562-1563): neste período se realizaram nove sessões, em que se promulgaram
importantes decretos doutrinais, mas sobretudo decretos eficazes para a reforma da Igreja.
Assinaram as suas atas 217 padres oriundos de 15 nações.
Características do concílio
No Concílio de Trento foram tratados diversos temas de extrema importância para a Igreja, como:
1. A Salvação; a Doutrina da Graça; o Pecado Original; os Sete Sacramentos; a Justificação; a
Liturgia.
2. A Hierarquia Católica; o Celibato Clerical; a Criação de Seminários; as Indulgências; o culto
dos Santos e das relíquias.
3. Foi feito um novo catecismo e foi reorganizada a Santa Inquisição.
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As Ordens Religiosas
O grande trabalho de reorganização da Igreja foi também, em parte não pequena, favorecido
pelas ordens religiosas. Algumas foram criadas nesta época: Theatinos, Capuchinhos, Carmelitas
(reforma de Santa Tereza), Barnabitas, Somascos, Ursulinas, Irmãos da Caridade, Oratonianos, etc.
Acima, porém de todas, e ocupando na história importantíssimo papel, destacou-se a Companhia
de Jesus, fundada por Santo Inácio de Loyola.
Atividades
1) Quem é o promotor da Reforma? Quando e onde nasceu seu promotor?
2) Quais são as causas da reforma?
3) O que levou Lutero a entrar no mosteiro? Como se explica a revolta de Lutero?
4) Qual foi o marco inicial da Reforma?
5) Qual foi o fim de Lutero?
6) Qual a essência da doutrina protestante?
7) Quais são os elementos da doutrina protestante?
8) Quais eram as teses de João Calvino? Como os calvinistas ficaram conhecidos pelo mundo?
9) Quais são os três agentes da contra-reforma católica?
10) Qual o período do Concílio de Trento? Qual Papa o convocou? Qual era o fim do Concílio?
11) Quais temas foram tratados neste concílio?
12) Qual grande acontecimento se deu em 1571?
13) Cite algumas ordens fundadas neste período de contra-reforma.
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Capítulo
7
Introdução
O Reino de Portugal foi fundado por D. Afonso Henriques, em 1139 d.C., na região da
Península Ibérica – Europa. Os portugueses foram os responsáveis pela formação do primeiro reino
unificado da Europa desde a fragmentação política ocorrida no período chamado feudalismo.
Mapa da expansão islâmica. Observe a área rosa: procure a região chamada "Península Ibérica". Quase toda essa
região foi dominada pelos muçulmanos no século VIII d.C.
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Para Meditar...
Crônica de Dom Afonso Henriques
Antônio Brandão
“Não eram de qualidade as coisas que trazia entre as mãos o esforçado príncipe D. Afonso
Henriques que lhe consentissem tomar muito repouso, nem os pensamentos ocupados na grandeza do
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negócio presente davam lugar a se poder quietar e tomar alívio. E assim, para divertir de algum modo
aquela moléstia, lançou mão de uma Bíblia sagrada, a qual tinha em sua tenda e, começando a ler por
ela, a primeira coisa que encontrou foi a vitória de Gedeão, insigne capitão do povo judaico, o qual,
com trezentos soldados, rompeu os quatro reis Madianitas e seus exércitos, passando à espada cento e
vinte mil homens, sem outros muitos que morreram no alcance. Alegre o infante com tão bom encontro,
e tomando desta vitória prognóstico feliz da que esperava, se confirmou mais na resolução de dar
batalha e, com o coração inflamado e olhos postos no Céu, rompeu nestas palavras:
Bem sabeis vós, meu Senhor Jesus Cristo, que por vosso serviço, e pela exaltação do vosso santo
nome, empreendi eu esta guerra contra vossos inimigos; vós, que sois todo poderoso, me ajudai nela,
animai e dai esforço a meus soldados, para que os vençamos, pois são blasfemadores do vosso
santíssimo nome.
Ditas estas palavras lhe sobreveio um
grande sono, e começou a sonhar que via um
velho de venerável presença, o qual lhe dizia
que tivesse bom ânimo, porque sem dúvida
venceria aquela batalha, e com evidente
sinal de ser amado e favorecido de Deus
veria com seus olhos antes de entrar nela o
Salvador do mundo, o qual o queria honrar
com sua soberana vista. Estando o infante
neste alegre sonho, nem bem dormindo, nem
de todo acordado, entrou na tenda João
Fernandes de Sousa, de sua câmara, e lhe fez
saber como a ele chegara um homem velho,
o qual pedia audiência e, segundo dava a
entender, era sobre negócio de muita
importância. Mandou o infante que entrasse
sendo cristão, e, tanto que o viu reconheceu
ser o mesmo que acabava de pronunciar as
palavras que em sonho tinha ouvido, e
certificando-o da vitória e aparecimento de
Cristo, acrescentou que tivesse muita confiança no Senhor por ser dele amado, e que nele, e em seus
descendentes, tinha postos os olhos da sua misericórdia até à décima sexta geração, em que se atenuaria
a descendência, mas nela ainda nesse estado poria o Senhor os olhos, e haveria. Que da parte do mesmo
Senhor o avisava que, quando na seguinte noite ouvisse tocar o sino da sua ermida, na qual morava
havia sessenta anos, guardado com especial favor do Altíssimo, saísse fora ao campo, porque lhe queria
Deus mostrar a grandeza de sua misericórdia.
Ouvindo o católico príncipe tão soberana embaixada, tratou o embaixador dela com veneração
e deu a Deus com profundíssima humildade infinitas graças. Saiu fora da tenda o bom velho tornou a
sua ermida, e o infante, esperando pelo sinal prometido, gastou em oração afervorada todo o espaço da
noite até à segunda vigia, na qual ouviu o som da campainha; armado então com seu escudo e espada
saiu fora dos arraias, e, pondo os olhos no Céu, viu da parte oriental um resplendor formosíssimo, o
qual a pouco e pouco se ia dilatando e fazendo maior. No meio dele viu o salutífero sinal da Santa Cruz,
e nela encravado o Redentor do mundo, acompanhado em circuito de grande multidão de Anjos, os
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Dinastia Borgonha
1. Dom Afonso Henriques (1139-1185)
2. Dom Sancho I (1185-1211)
3. Dom Afonso II (1211-1223)
4. Dom Sancho II (1223-1248)
5. Dom Afonso III (1248-1279)
6. Dom Dinis (1279-1325)
7. Dom Afonso IV (1325-1357)
8. Dom Pedro I (1357-1367)
9. Dom Fernando (1367-1383)
Dom Fernando foi o último rei da dinastia de Borgonha. Envolveu-se em três guerras com
o Reino de Castela (futuro reino da Espanha). Sua filha, D. Beatriz, era casada com o Rei de Castela.
Esse fato contribuiu para a invasão castelhana quando Dom Fernando morreu. A escritura de
casamento com D. Beatriz não permitia ao rei de Castela o domínio sobre Portugal, mas este
desrespeitou os acordos, cercando Lisboa (capital de Portugal) por sete meses.
Na cidade de Coimbra, organizou-se uma reunião entre os portugueses para resolver o
problema dinástico, ou seja, para definir quem seria o autêntico rei de Portugal. Verificou-se que
Dom Pedro I, pai de Dom Fernando, tinha um filho bastardo chamado Dom João, Mestre de Avis,
que foi aclamado o novo rei de Portugal, mesmo em guerra contra Castela.
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Dom João de Avis, com a ajuda de Nuno Álvares Pereira, organizou a defesa de Portugal
contra a invasão castelhana. Através de muitos esforços, os portugueses conseguiram a vitória na
famosíssima Batalha de Aljubarrota.
Após a vitória, Dom João inaugura a Dinastia de Avis, família que teve função fundamental
na história das grandes navegações e do Brasil. Esse acontecimento ficou conhecido como
Revolução de Avis.
Batalha de Aljubarrota
A Dinastia de Avis
1385 -1580
A dinastia Avis permaneceu no trono português durante 195 anos e deu os seguintes reis:
1. Dom João I (1385-1433), casado com Dona Filipa, irmã de Henrique IV da Inglaterra, depois de
destroçar os Castelhanos em Trancoso, os aniquilou em Aljubarrota, onde fundou o grandioso
Mosteiro da Batalha. Foi o primeiro monarca português que realizou conquistas na África
tirando a cidade de Ceuta dos Mouros (muçulmanos), em 1415. Formou uma nobreza nova,
composta de seus aderentes, e convocou 25 vezes as cortes. Dom Henrique, seu terceiro filho e
fundador da Escola de Sagres, assinalou-se pelo estudo da marinha e por notáveis
descobrimentos na costa da África: o Cabo Bojador, Porto Santo, Madeira, os Açores, as ilhas
de Cabo Verde e a costa da Serra Leoa.
2. Dom Duarte (1433 – 1438) autor de várias obras, incumbiu Fernando Lopes, o pai da história
portuguesa, de escrever as crônicas de seus antecessores; publicou a Lei Mental; refreou o luxo
excessivo dos nobres e mandou para a África seus irmãos Dom Henrique e Dom Fernando, que
acabaram presos.
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3. Dom Afonso V (1438 – 1481). Durante seu governo reinado, os portugueses, passando a linha
equinocial, descobriram as ilhas de Fernando Pó, Ano Bom, São Tomé e Príncipe.
4. Dom João II (1481 – 1495). Portugal tornou-se, no século XV, poderoso e rico império por seus
descobrimentos e suas conquistas. No reinado de Dom João II, que assumiu o título de Senhor
da Guiné, constrói Diogo de Azambuja o forte de São Jorge de Mina; Digo Cão, João Afonso
de Aveiro, João Pedro de Covilhan descobriram o Congo, o Benim, a Etiópia, respectivamente.
Bartolomeu Dias tocou a última ponta meridional da África, dando-lhe o nome de Cabo das
Tormentas, nome que Dom João mudou para Cabo da Boa Esperança. Faleceu Dom João com
o pesar de ter recusado financiar a expedição de Colombo, que acabava de dar o Novo Mundo à
Espanha. Sucedeu-lhe seu primo, Dom Manuel, o Venturoso.
5. Dom Manuel (1495 – 1521), primo e cunhado de Dom João II, protegeu a literatura; construiu
igrejas, fortalezas, palácios, etc.; concedeu um por cento de suas rendas em benefício dos pobres;
foi justo, magnânimo, sóbrio, e dado à caça; baniu de Portugal os Judeus e os Muçulmanos. O
poder de Portugal neste período era tamanho que numerosos reis da Europa, Ásia e África
buscavam a sua amizade e aliança. Durante este reinado glorioso, os Portugueses chegaram à
Índia, descobriram o Brasil, conquistaram Ormuz, Goa e Malaca na Ásia.
6. Dom João III (1521 – 1557), filho de Dom Manuel e muito amante do povo, protegeu a literatura,
as ciências, o comércio e a colonização; introduziu em Portugal a Inquisição; favoreceu a
nascente Companhia de Jesus; mandou São Francisco Xavier para a Índia; mandou os jesuítas
Nóbrega, Anchieta e outros para a Terra de Santa Cruz. Depois de dividir o Brasil em capitanias,
estabeleceu nele o governo geral. Durante seu reinado floresceu Luís de Camões.
7. Dom Sebastião (1557 – 1578), o Desejado, na idade de três anos sucedeu a D. João III, seu avô,
sob a regência de Dona Catarina, sua avó, e do Cardeal Dom Henrique, seu tio. O seu reinado
se resume-se em duas expedições na África.
8. Cardeal Dom Henrique (1578 – 1580), irmão de D. João III, foi um príncipe virtuoso, culto e
amante da justiça, tomou as rédeas do governo após a morte de D. Sebastião. Com a crise
sucessória, pois D. Sebastião não teve filhos e Dom Henrique era cardeal (portanto, sendo
sacerdote católico, não se casou), foram convocadas as cortes em Lisboa e em Almeirim, porém
houve tanta divergência que a situação se complicou muito. Finalmente, Filipe II, rei da Espanha
e neto de D. Manuel, entrou triunfante em Portugal e foi proclamado rei.
Atividades
1) Sobre o Reino de Portugal, responda:
a) Fundador
b) Ano de fundação.
c) Localização
2) O que foi a Reconquista Cristã?
3) Faça um resumo da aparição de Nosso Senhor Jesus Cristo a Dom Afonso.
4) O que podemos concluir com esta frase: “quero fundar para mim um reino, por cuja indústria será meu
nome notificado a gentes estranhas”.
5) Segundo historiador João Camilo qual fator contribuiu para que Portugal fosse o primeiro a empreender
as grandes navegações?
6) Quais são os reis da dinastia Borgonha?
7) O que foi a Revolução de Avis?
8) Quais são os reis da dinastia de Avis?
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Capítulo
8
Geografia
O mapa abaixo mostra o continente africano anterior à chegada dos europeus. O norte da
África é amplamente conhecido pelos historiadores pois sempre esteve em contato com povos
europeus. Vamos estudar neste capítulo somente a parte dos povos negros, os que viviam ao sul do
Saara. Certamente que o deserto do Saara foi o grande fator de isolamento geográfico de uma
grande parte da África.
Existe uma profunda
relação entre cenário geográfico
africano e os eventos históricos
que nele se desenrolaram. Os
povos da antiguidade clássica
(egípcios, gregos, romanos,
persas, etc.) só tiveram uma
noção geográfica vaga do vasto
continente africano. Para o
mundo clássico o Norte da
África era conhecido por Líbia; a
sul desta, o continente era um
mistério.
O vasto continente
africano lembra uma forma de
triângulo e limita-se ao norte
pelo Mediterrâneo, a oeste pelo
Atlântico, ao sul e a leste pelo
oceano Índico e ao nordeste
pelo Vermelho. O istmo de
Este mapa mostra a localização do deserto do Saara. Vamos estudar os povos que
Suez, cortado pelo canal, liga a
viveram ao sul do Saara. África à Ásia. Uma notável
originalidade do continente
africano é a sucessão de faixas climáticas ordenadas paralelamente ao Equador. Em ambos os
hemisférios, os regimes às altas latitudes. Note-se que as temperaturas, na maior parte das regiões,
são elevadas em todas as estações do ano.
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Destacam-se os rios africanos. Cerca de 50% deles não correm para o oceano: vão para lagos
e mares interiores. O Congo (Zaire) constitui um dos rios mais caudalosos do mundo, percorrendo
cerca de 4.200 quilômetros. O Nilo (o grande rio do Egito) percorre 6.700 quilômetros, mas é pouco
volumoso. Possui grande importância histórica, pois suas cheias são responsáveis por tornarem as
terras egípcias produtíveis, o que possibilitou o desenvolvimento da civilização egípcia. O Níger
percorre 4.200 quilômetros, mas suas inúmeras quedas possibilitam a navegação somente em
alguns pontos.
Observando o mapa acima, percebemos que a paisagem florestal africana se situa em pleno
coração do continente: é a floresta densa, úmida e alta. A savana africana, um dos mais ricos
habitats do mundo, estende-se do Atlântico ao Índico. É possível observá-la ao sul das florestas.
Dos desertos lembremos o Saara e o Calahari.
O isolamento geográfico do continente africano, protegido por dois oceanos, um imenso
deserto e um litoral inóspito, dificultou a penetração de outros povos. A imensidão dos espaços
disponíveis no continente deixou sua marca na vida econômica de muitos povos que não se
preocuparam com os cuidados indispensáveis à manutenção da fertilidade da terra. Não importa se
o campo se esgotasse: buscava-se outro em outra parte, já que não é o espaço que falta. Pratica-se,
assim, uma agricultura itinerante, nômade. A grandeza da terra também favoreceu a baixa
densidade demográfica. A pouca valorização do solo trouxe consequências de ordem econômica,
política e social. O maior valor que se dava era ao trabalho, à mão-de-obra. Possuir homens que
trabalham era mais importante que possuir terras. O objetivo das guerras era capturar e escravizar
os homens e não invadir territórios.
A diversidade de povos e línguas no continente africano é enorme. De maneira resumida e
esquemática, os povos africanos se dividem assim:
Egito
Zona África
temperada menor
Canárias
África
branca
Mouros
Zona
Tuaregues
desértica
Tubos
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sudaneses
guieenses
Melano-
congoleses
africanos
nilotas
África sul-africanos
negra
Etíopes galas, abissínios, peules
Negrilhos
bosquímanos
Khoisans
hotentotes
As fontes históricas
Atualmente, os historiadores possuem três fontes principais para o estudo da história dos
povos africanos: as fontes escritas, a tradição oral e a arqueologia.
As fontes escritas antes dos descobrimentos, contudo, quando não são raras, encontram-se
mal distribuídas no tempo e no espaço. É de se notar também que muitos materiais escritos ainda
não foram explorados e estudados.
A tradição oral é uma fonte histórica importante dos povos africanos, pois estes,
especialmente os que viviam no Saara e ao Sul do deserto, eram em grande parte povos de palavra
falada, mesmo onde existia a escrita. Poucas pessoas sabiam escrever, fato que dava-se grande
importância as tradições orais. Um método bastante eficaz para a confirmação da veracidade de
uma tradição oral é compará-la com o conteúdo de outras tradições independentes ou, quando
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possível, com dados escritos ou resultados da pesquisa arqueológicos. Uma das deficiências da
tradição oral é a questão da cronologia dos fatos, não permitindo estabelecer uma sequência relativa
aos acontecimentos exteriores à geografia de onde tradição oral se passa.
Dava-se grande destaque para os chamados Doma, “fazedores de conhecimento”. Não se
deve, contudo, confundir os Domas com os trovadores ou contadores de histórias, pois eram como
mestres iniciadores de um ramo de trabalho (ferreiro, tecelão, caçador, pescador, etc.) ou possuíam
grande conhecimento das tradições em todos os seus aspectos.
A expansão bantu
Antes de prosseguirmos com a história de impérios e reinos africanos convém chamarmos a
atenção dos leitores para um fenômeno importante da História da África: a expansão dos povos
bantus.
Os negros que falavam as línguas bantos, cujas atividades econômicas eram a agricultura, e
que sabiam usar o ferro, ficaram conhecidos por realizarem uma das maiores correntes
migratórias do mundo, ao longo séculos, tendo espalhado línguas bantu (línguas nigero-
congolesas) em praticamente toda a África subsaariana.
Fora a legenda já presente no mapa, observe o círculo (possível local de origem dos bantus) e
as setas vermelhas (possíveis rotas de migração dos bantus). Além disso, observe os povos
apresentados no mapa e seus respectivos territórios.
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Após as guerras púnicas, a região em sua parte mais rica foi dominada pelos romanos. Apesar
de muitos séculos de contato com Roma e sua cultura, como constatou o Pe. Mesnage, a romanidade
não pode atingir os berberes
em profundidade. Enquanto
durou o Império Romano,
os beberes, pela força do
hábito e pelo respeito à
tradição, permaneceram na
órbita de Roma (ou do
Império Bizantino). Mas
quando Roma caiu, eles se
“reberberizaram”
novamente e ficaram
disponíveis para sofrer uma
outra dominação política e
cultural: o Islã.
O Reino da Etiópia
A história da Etiópia apresenta algumas características próprias que a diferenciam da história
de outros povos africanos: documentos escritos, influência de uma tradição lendária, situação
geográfica especial.
Quanto à tradição lendária, deve-se
dizer que no episódio narrado pelo Antigo
Testamento (1 Reis 10) sobre a visita da rainha
de Sabá a Salomão, inspirou-se a lenda
segundo a qual, o primeiro rei de Axum,
Menelik, seria filho de Salomão e da rainha e,
portanto, fundador de uma dinastia
salomônica que teria reinado sobre a Etiópia.
Esta crença segundo a qual a casa real
descende da de Judá deu ao reino uma
estabilidade e uma continuidade notáveis e
manteve para o país a unidade que sua
estrutura geográfica tornava difícil.
Na Etiópia, desenvolveu-se o Reino Axumita, por causa da capital Axum. Este reino
desempenhou, em certa época, um papel importante na História da África Oriental. A fundação do
reino serviu de base para a edificação de um império. Do fim do século II ao início do século IV,
Axum tomou parte nas lutas diplomáticas e militares que opunham os Estados da Arábia
Meridional. Os axumitas submeteram as regiões situadas entre o planalto do Tigre e o vale o Nilo.
No século IV, conquistaram o reino de Méroe, então em decadência. Desse modo foi-se
constituindo um império que abarcava as ricas terras cultivadas do norte da Etiópia, o Sudão e a
Arábia Meridional, incluindo todos os povos que ocupavam as regiões situadas ao sul dos limites
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do Império Romano – entre o Saara, a oeste, e o deserto de Rub al-Khali, no centro da Arábia, a
leste.
O rei mais antigo de que se tem notícia é Zoscales que o autor do Périplo do Mar Eritreu
considera avaro e ávido de riquezas, mas valente e versado na língua grega. O domínio de Zoscales
abrangia todo o litoral eritreu do Mar Vermelho.
Foi durante a fase de sua maior expansão territorial que o
reino de Axum recebeu o cristianismo. Note-se que os reis
de Axum foram pagãos até o século IV e que em seus
monumentos eles se orgulhavam de descender do rei
Mahrem. A conversão ao cristianismo deve-se a Frumêncio.
Segundo Rufino, um certo Merópio de Tiro desejava ir às
Índias com dois jovens parentes, Frumêncio e Edésio. Na
volta, ao aproximar-se de um porto, seu barco foi atacado
pela população. Merópio morreu e os dois jovens irmãos
foram conduzidos até o rei de Axum. O mais jovem, Edésio,
tornou-se escanção, enquanto Frumêncio, graças à cultura
grega, fez-se tesoureiro, conselheiro do rei e tutor de seus
filhos. Considerando-se a data da chegada dos dois jovens,
é de crer que esse rei tenha sido Elle Ameda, pai de Ezana.
Após a morte do rei, sua esposa tonou-se regente e pediu
aos dois jovens para permanecerem com ela a fim de São Frumêncio, apóstolo da Etiópia
governar o pais até que seu filho estivesse em idade de
reinar.
E assim Frumêncio pode educar o jovem príncipe no amor à nova religião. Tendo preparado
o terreno ao cultivo do cristianismo, Frumêncio retirou-se com seu irmão Edésio, que retornou a
Tiro para ajudar seus parentes idosos. Frumêncio dirigiu-se a Alexandria, onde visitou o patriarca
Santo Atanásio e lhe participou a boa acolhida ao cristianismo pela família real de Axum, pedindo-
lhe que enviasse um bispo àquele país. O patriarca não queria enviar alguém que desconhecesse a
língua e os costumes do lugar, e assim consagrou Frumêncio bispo de Axum. De volta à Etiópia
coube a Frumência a honra de batizar o rei e toda a família real.
Ezana (que subiu ao trono por volta de 325) teria sido o primeiro rei cristão de Axum. O
estudo das moedas, numismática, confirma a conversão do rei Ezana: suas primeiras moedas
mostram o símbolo pagão do crescente e do disco, as últimas porém trazem a cruz. O rei de Axum
controlava certos reinos da Arábia Meridional. Porém, sobretudo, por volta de 335, seus exércitos
invadem o reino de Kush, saqueiam e queimam sua capital Méroe e destroem o Império Kushita
que havia sido brilhante e poderoso durante seis séculos.
O cristianismo na Etiópia foi consolidado pelos sucessores de Ezana como, por exemplo,
Caleb um cristão fervoroso. Caleb, filho de Tazena, foi contemporâneo de Justino I de Bizâncio.
Em Zafar e Najran os cristãos haviam sido massacrados pelos judeus auxiliados pelos himiaritas.
O imperador Justino, informado dos acontecimentos, apelou a Caleb no sentido de que punisse os
algozes dos cristãos. O rei axumita fez grandes preparativos de guerra sendo que ele mesmo
comandou a expedição (525 d.C.), a qual saiu vitoriosa. Caleb, após a guerra, se recolheu em um
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mosteiro. Sua coroa foi enviada a Jerusalém para que fosse pendurada diante da porta do Santo
Sepulcro.
Após este período, houve invasões persas e islâmicas na região da Arábia, porém, nenhuma
destas destruiu o reino da Etiópia que, contudo, ficou isolado do Império Bizantino.
As dinastias do reino axumita mudaram no decorrer dos séculos, passando pelos Zagués,
cujo destaque se dá a Lalibala, rei piedoso, considerado o “São Luís da Etiópia”. Depois vieram
novos reis que se diziam herdeiros da dinastia salomônica, conforme as antigas lendas. Entre eles
se destacam: Yekuno Amlak, Amda Seyon, Saif Ared, Yetschak e Zara Yacob.
O Reino de Kush
Kush era originariamente um território núbio restrito. Entre o Médio e Novo Império
Egípcio, floresceu o reino de Kush, cuja existência é atestada por inúmeros documentos. É provável
que a capital desse reino fosse Kerma, pouco acima da terceira Catarata do Nilo, onde o arqueólogo
americano Von Reisner efetuou importantes escavações entre 1913 e 1916.
Entre os traços característicos da cultura de Kerma figura uma louça torneada fina e muito
polida, vermelha, com a parte superior preta, feita numa roda de oleiro. No campo do ritual
funerário a cultura de Kerma caracteriza-se pelos costumes de sacrifício de pessoas que eram
enterradas vivas, forte traço de paganismo brutal.
Shabaka (713 a.C.), rei kushita, submeteu ao império
kushita todo o vale do Nilo até o Delta e foi considerado
pelos compiladores das listas dos reis egípcios como o
fundador da vigésima quinta dinastia. A expansão do
kushitas levou-os inevitavelmente a um choque com os
Assírios. Taharqa, rei kushita, aceitou o desafio de guerra
contra os assírios e seu nome aparece muitas vezes na Bíblia
em passagens nas quais é evidente o terror causado pelos
guerreiros negros do Reino de Kush.
Diante do poder militar dos assírios, os kushitas
retiraram-se para o sul, mantendo a capital em Napata.
Enquanto o velho Egito era sucessivamente ocupado por
assírios, persas, gregos e romanos, o Reino de Kush
sobrevivu por um longo espaço de tempo.
Por volta do século VI a.C., a capital foi transferida
para Méroe, provavelmente pelo rei Aspelta (593 – 568
a.C.), por causa de invasões à cidade de Napata e por
questões de estratégia, afinal Méroe situava-se num local
excelente como entreposto para as caravanas que percorriam
as rotas do Mar Vermelho, o Alto Nilo e o Chade. Napata,
contudo, manteve-se como capital religiosa do reino.
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O poder de Méroe durou aproximadamente oito séculos e cerca de cinquenta e seis reis e
rainhas sucederam a Aspelta até a queda da capital em 320 a.C. Ressalta-se que os kushitas, assim
como outros povos africanos, davam grande importância à mãe do rei, dando-lhe o nome de
rainhas-mães, conhecidas como Candace.
No auge do seu poderio, através de cinco séculos entre aproximadamente 300 a.C. e 200
d.C., os kushitas dominavam a maior parte das terras do norte e do centro do Sudão oriental e
governavam para o sul até os pântanos do Nilo Superior. Estradas levavam aos ativos portos do
Mar Vermelho onde os navios iam e vinham entre o território dos Kushitas e muitos países
estrangeiros. Ao norte mantinham geralmente boas relações com os faraós gregos do Egito; e, por
intermédio do Egito, negociavam com os países da orla mediterrânica. Os seus embaixadores
viajaram e viveram em muitas terras.
Como já vimos acima, em 335 d.C., Ezana de Axum destruiu o poderio kushita,
conquistando a capital Méroe. O reino, contudo, já estava enfraquecido, pois os romanos haviam
obstruído as rotas comerciais que beneficiavam os kushitas, além de receber ataques constantes de
nômades. Sob esses golpes, o reino kushita desapareceu tão completamente que até o seu nome e
memória ficaram perdidos durante muitos séculos.
Após a queda de Méroe, três reinos surgiram na região das cataratas do Nilo: o reino dos
Nobatas, entre a primeira e terceira catarata; o reino de Dangola, entre a terceira e quarta catarata;
o reino de Aloa, ao sul da sexta catarata.
No século VI d.C., desenvolveu-se outro
reino núbio, o de Makuria com a capital em
Dongola, notável por seus monumentos. Mais ao
sul, na região da sexta catarata, formou-se o terceiro
estado cristão da Núbia: Aloa com a capital em
Soba, à margem do Nilo Azul, não muito distante da
atual cidade de Khartum.
Os núbios não se limitavam à defesa contra os
ataques dos árabes muçulmanos. Em 737 d.C.,
núbios e abissínios teriam feito uma verdadeira
cruzada contra o Egito muçulmano em defesa do patriarca de Alexandria. Pelos fins do século VIII
ou início do IX, Alodia foi anexada ao reino unido da Núbia. Os muçulmanos seriam sempre uma
ameaça aos reinos cristãos da Núbia, cuja capital Alodia era conhecida pelos seus belos edifícios,
grandes mosteiros, igrejas decoradas a ouro, muitos jardins.
O reino de Aloa, protegido pela distância do inimigo, ainda subsistiria a duras penas por mais dois
séculos (até mais ou menos o ano 1500). Concluamos sobre a Núbia: Em vista de sua situação
geográfica, a Núbia desempenhou um papel especial como intermediário entre a África Central e
o Mediterrâneo. O reino de Napata, o império de Méroe e o reino cristão ficeram da Núbia o ponto
de ligação entre o norte e o sul. Graças a ela, a cultura, as técnicas e os instrumentos se expandiram
até as regiões vizinhas.
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Reino do Congo
Quando os portugueses descobriram em 1482 o estuário do Zaire (Congo), entraram em
contato com um dos maiores estados africanos ao Sul do Saara: o Reino do Congo. Entre Kwango
e o Atlântico há toda uma proliferação de pequenas hegemonias: ao norte do estuário, o Loango, o
Kakongo, o Ngoyo; ao sul, o Mbata, o
Mbamba, o Mpemba, o Nsundi, Mpangu
e o Sonyo; ao sul do rio Kwanza, o
Ndongo, cujo soberano era o Ngolo
(origem do nome português de Angola).
E no centro de tudo isto, o reino do
Congo. Este reino era formado pelos
bakongos, um povo bantu cujo rei tinha
o título de Mani, uma palavra banta
aparentada com Mwana dos xonas, tal
como a palavra inglesa King é parente da
alemã König.
A capital do reino do Congo, na época da chegada dos portugueses, situava-se em
Mbanzacongo, no local onde se encontra hoje São Salvador, em Angola.
O reino foi fundado pelo início do século XV por chefes “ferreiros”, bons caçadores e
guerreiros. O Manicongo (senhor do Congo), chefe dos bakongos, tinha autoridade sobre a maior
parte do norte da moderna Angola, governando através de chefes menores responsáveis por grandes
províncias. O mais antigo manicongo que se tem notícia era chamado de Nimi ou Lukani, chefe do
Mpemba, cuja autoridade se estendia sobre todos os povos afiliados. Seu neto se chamava Nzinga
Nikuwu e é a este que os portugueses do navegador Diogo Cão foram visitar em 1482.
Ao sul do Congo, na atual parte ocidental e central de Angola, situava-se o reino dos
Quimbundos, o reino Ndongo, cujo rei tinha o título de Ngola que deu origem ao nome Angola.
Reino do Mali
Foi na região do Alto Níger, entre o povo Malinké, que teve origem um dos maiores estados
da História da África: o reino do Mali.
No princípio do século XI um tal Keita, chefe de um clã do povo mandinga, converte-se ao
islamismo e, segundo o historiador árabe Ibn Khaldun, fez uma peregrinação a Meca em 1050 e
recebeu o título de sultão. Seus sucessores não se notabilizaram de modo especial como
governantes. Após a vitória almorávida sobre Ghana, um chefe negro sarakole fundou o reino de
Sosso. Sumanguru Kante, filho do fundador, estendeu sua autoridade sobre a parte do antigo reino
de Ghana e sobre o Mali, vencendo Naré Fa Magnhan, um dos sucessores do sultão Keita e
massacrando toda a família do governante com exceção de um filho, Sundiata Keita, que assumiu
o título de Mari-Djata que, segundo Ibn Kalhdun, queria dizer Príncipe-Leão.
O Príncipe-Leão tornou-se um audaz guerreiro: com o auxílio de seus partidários retomou o
território de que era herdeiro, reorganizou o governo e derrotou Sumanguru na batalha de Kirina
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(1235) nas proximidades da atual Bamako. A tradição do Mali ainda evoca em cantos esta épica
batalha. Em 1240, Sundiata saqueia a capital do Ghana. Era o dono da zona sudanesa e sobretudo
das regiões auríferas do Uangara e do Bambuk.
Administrou sabiamente seu império, Mali.
Começou a cultivar vastos espaços. Atribuiu-se-
lhe a introdução da cultura do algodão. Sob seu
reinado a população cresceu rapidamente. Em
1255 Sundiata foi assassinado a traição com uma
flechada.
Após um período de governantes
inexperientes da dinastia Keita, surgiu um dos
maiores imperadores do Mali, Kankan Mussa
(Mansa Mussa). Com este rei chegamos ao apogeu
do reino do Mali (1312 – 1337). Mussa, segundo
Ibn Battuta, “é o soberano negro mais brilhante,
tanto por suas qualidades – inteligência, energia e
atividade – como por seu fausto inusitado.
Deschamps diz a respeito do período de Mussa: “É
o apogeu do Império do Mali, do qual o Tekrur é
tributário e que submeteu os songhai; estende-se então ao Atlântico à localização atual de Niamey.
Suas capitais, Niani e Kangaba, são mercados ativos ao mesmo tempo que centros religiosos onde
o paganismo se acrescenta ao islamismo para assegurar o poder dos soberanos”.
O imperador do Mali mantinha relacionamento amigável com os países distantes. Ibn
Battuta narra que doze mil camelos percorriam anualmente, ida e volta, o caminho entre Mali e o
Cairo. O sultão de Marrocos, Abu al Hassan, recebeu de Kankan Mussa presentes valiosos aliás
regiamente retribuídos.
O imperador do Mali amava o fausto, a ostentação, mas é de justiça salientar que não se
tratava de mera vaidade. Kankan Mussa tinha projetos elevados e utilizava sua riqueza para
executá-los. Pretendia dotar seu povo de uma civilização mais refinada aproveitando a contribuição
do mundo árabe. Atraiu às margens do Níger sábios e letrados que trouxeram consigo o saber árabe.
De sua peregrinação trouxe consigo o poeta e arquiteto árabe Es Saheli, que renovou a arquitetura
sudanesa criando um estilo próprio. Reconstruiu Tombuctu,
construiu mesquitas, minaretes e palácios de ladrilho com teto de
madeira e com terraços.
A peregrinação de Kankan Mussa fez a Meca (um dos
deveres de todo muçulmano) em 1324 causou espanto pelo fausto
que a cercou. Passou por Ualata, Et Tuat e Cairo, antes de atingir
a Arábia. Levou consigo 8000 cortesãos e servos. Quando esta
vasta companhia do Mali chegou ao Cairo, o imperador exibiu à
saciedade sua riqueza e o seu poder. Em Meca, Mussa gastou vinte
mil peças de ouro em oferendas. Suas liberalidades eram
Kankan Mussa
fabulosas; quando passou pelo Egito não houve nenhuma pessoa
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da corte que ficou sem receber uma quantia em ouro. Essas ações esgotaram suas imensas reservas,
obrigando-o a tomar dinheiro emprestado quando regressava da peregrinação.
A famosa peregrinação de Kankan Mussa teve consequências culturais, religiosas e
econômicas. No Cairo o imperador adquiriu numerosos objetos entre os quais obras jurídicas; a
repercussão da peregrinação contribuiu para aumentar a influência muçulmana no Sudão Central e
Ocidental; mercadores venezianos no Cairo tomaram conhecimento da riqueza do Mali e
difundiram na Europa o conhecimento do imenso império.
Após a morte de Mussa, o império gradualmente perdeu seu poder. Quando os portugueses
encontraram o império este já estava em decadência.
Iorubas
O povo dos iorubas é o único povo negro que tendeu espontaneamente para aglomerar-se
em grandes cidades, o único cuja realização política teve uma base urbana. Ibadan é a primeira
grande cidade do continente.
Ife, ao sul de Oyo, é a cidade sagrada, sede do Oni, o chefe religioso dos iorubas. A soberania
temporal pertencia ao Alafin que residia em Oyo, mas seu poder podia ser extinto pelo Ogbone,
senado de notáveis.
Desde o ano 1000 já se contam
diversos reinos iorubas. Cada um
centrava-se numa cidade-capital onde
famílias de agricultores, sacerdotes,
comerciantes e artífices viviam sob a
soberania de reis locais, os obas, os
quais se diziam descendentes de
Oduduwa. Este era uma figura lendária
reverenciada com o seu grande herói
fundador, o primeiro rei de Ife. Esta
cidade, famosa pela arte de escultura
em bronze e terracota aí desenvolvida,
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permaneceu a principal cidade dos iorubas e o modelo segundo o qual foram planejadas todas as
demais cidades iorubas. Cada uma dessas cidades era dividida em bairros governados por um chefe
de seção. Cada uma possuía seus nichos sagrados, seu palácio real, suas praças de mercado, seus
lugares de reunião, onde o governo da cidade podia tratar dos seus assuntos e o povo discutir as
novidades do dia.
Um dos reinos iorubas mais notáveis foi o de Oyo. Os iorubas de Oyo eram agricultores,
artífices e mercadores. Importavam do Sudão Central cavalos que possibilitaram ao Alafin manter
uma forte cavalaria. No final do século XVII, o império Oyo englobava grande parte da Nigéria,
do lado oeste do rio Níger, ao norte da floresta, assim como a maior parte da região dos bosques
esparsos do Daomé (atualmente chamado Benim), no golfo de Benim. Oyo manteve-se poderosos
durante mais de cem anos.
A vida econômica
Basicamente os povos africanos desenvolveram as seguintes atividades econômicas: a caça,
a pesca, a coleta, a agricultura, a criação de gado, a indústria e o comércio. Destacam-se as seguintes
rotas comerciais:
1. Rotas transaarianas que, partindo de metrópoles políticas ou comerciais, demandam o Marrocos
e a Argélia, passando, a oeste, por Ualata ou Audagost, Taudenit, Taghaza e Sidjilmassa.
2. Rotas transaarianas que, dos pontos de partida citados acima, demandam Tunís, Trípoli, o Cairo
e o Próximo Oriente, passando, em sentido leste, pelo Air e pelo Tibesti.
3. Rotas Orientais que, partindo da África Central e Austral, atingem o litoral do Oceano Índico em
um dédalo de florestas e montanhas.
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A religião
Os povos africanos possuíram, ao longo da história, três religiões: o paganismo, o islamismo
e o cristianismo. Evidentemente que o paganismo e o islamismo são falsas religiões.
O paganismo esteve presente em todos os séculos da história da África. O cristianismo teve
seu maior êxito no Reino da Etiópia. Além disso, nos primeiros séculos depois de Cristo, o
cristianismo floresceu no Egito e na África Setentrional. Após a época dos descobrimentos, o
cristianismo também se espalhou entre os povos africanos, especialmente por influência dos
portugueses.
O islamismo, contudo, modificou profundamente a história da África, especialmente o norte
do continente.
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Atividades
1) Qual era a noção que os povos da Antiguidade Clássica possuíam da África?
2) O que dificultou a penetração de outros povos no continente africano?
3) Qual era o objetivo das guerras entre os povos africanos?
4) Copie o esquema dos povos da África Negra:
sudaneses
guieenses
Melano-
congoleses
africanos
nilotas
África sul-africanos
negra
Etíopes galas, abissínios, peules
Negrilhos
bosquímanos
Khoisans
hotentotes
18) Qual era a capital do Reino do Congo na ocasião da chegada dos portugueses? Qual era o nome
do líder do reino?
19) Como foi governo de Sundiata Keita, rei do Mali?
20) Quem foi o maior imperador do Mali? Qual é o período do seu império?
21) Qual era o objetivo de Mussa em acumular tantas riquezas?
22) Qual foi um dos principais feitos de Mussa durante seu governo? Qual foram as consequências
decorrentes deste feito?
23) Qual característica distinguiu os iorubas dos outros povos africanos?
24) Quais foram as duas principais cidades dos iorubas?
25) Quais são as três formas de organização política dos povos africanos?
26) Cite algumas atividades econômicas desenvolvidas pelos povos africanos.
27) Quais religiões professaram os povos africanos?
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111
Capítulo
9
Mar Português
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
Introdução
As grandes navegações ocorreram principalmente nos séculos XV e XVI. As principais
nações envolvidas foram Portugal, Espanha, Inglaterra e França. Porém, a grande pioneira desse
fato histórico foi certamente a nação portuguesa. Diversos fatores motivaram os portugueses a ser
um povo dedicado à navegação marítima. Contudo, o ardor missionário foi o principal
motivador desta grande empreitada.
“A fé católica, tendo sido, de certo modo, a linfa vital que alimentou a nação portuguesa
desde seu nascimento, assim foi, se não a única, certamente a principal fonte de energia, que elevou
a pátria portuguesa ao apogeu da sua glória de nação civil e nação missionária, ‘expandindo a fé e
o império’. Afinal, quando os filhos do rei João I lhe pediram que autorizasse a primeira expedição
ultramar, que implicou depois a libertação de Ceuta, o grande e piedoso monarca, antes de qualquer
outra coisa, quis saber se a iniciativa seria útil para o serviço de Deus.
À semelhança de todas as outras iniciativas que se seguiram, também esta teve como
finalidade principal a propagação da fé, aquela mesma fé que teria animado a cruzada do ocidente
e as ordens equestres na épica luta contra o domínio dos mouros. Nas caravelas que, ostentando o
branco pendão assinalado pela cruz de Cristo, deslocavam os destemidos descobridores
portugueses nas costas ocidentais da África e das ilhas adjacentes, navegavam também os
missionários, ‘para atrair as nações bárbaras ao jugo de Cristo’, como se exprimia o grande pioneiro
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Os Lusíadas
Trecho do Canto 1
As armas e os Barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana
As primeiras linhas do poema épico anunciam o percurso das grandes navegações e o rumo
que o poema épico irá tomar. Os versos dedicam-se a homenagear o povo português, aqueles que
superaram perigos e guerras para fazer avançar o Império e a Fé.
Além de narrar a conquista do novo reino, Camões já nas primeiras linhas se compromete a
contar a história, se for capaz de tamanho “engenho e arte”. Além de narrar a genealogia de
Portugal, das conquistas ultramarinas, o poema exalta, sobretudo, o povo português.
Durante os séculos XV e XVI ocorreram diversos episódios que abalaram a Europa e,
especialmente, a Igreja. Um desses episódios foi a Revolução Protestante promovida por Martinho
Lutero em 1517. Essa revolução levou a Cristandade Ocidental a um grande cisma que não se
limitou ao campo religioso, mas afetou as relações políticas entre os países europeus, colocando
irmão contra irmão e levando muitos ao desvio da fé verdadeira.
Foi nesse contexto que Portugal, juntamente com a Espanha, possibilitou à Igreja Católica a
evangelização de regiões desconhecidas levando-as ao conhecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo
e sua Igreja. Muitas conversões ocorreram na América, na África e na Ásia. Além disso, pela
atuação do Espírito de Deus, surgiram e se multiplicaram as dioceses e paróquias, seminários e
conventos, hospitais e orfanatos nos territórios evangelizados. Essa é uma prova que Deus age na
História e retira, das obras más dos homens, coisas boas. Deus realmente é o Senhor da História.
África. Em 1415, os portugueses libertaram a cidade de Ceuta do poder muçulmano. Esse fato
marcou o início da sistemática expansão marítima de Portugal.
As Grandes Invenções
Pólvora
Admite-se que os Chineses conheciam a pólvora desde os primeiros séculos da era cristã.
Porém, apenas se serviram dela para a fabricação de fogos de artifícios, foguetes, etc.
Em meados do século VII, os gregos do Baixo Império empregaram-na na forma do fogo
grego. É também opinião aceita que os árabes foram os primeiros a empregar a pólvora para lançar
projéteis.
No princípio do século XIV já havia canhões na Itália, em Florença. Eram máquinas
grosseiras, feitas de um tubo de ferro curto, igualmente perigosas para os inimigos e para aqueles
que as empregavam; chamavam-se bombardas. Eram de difícil transporte; as balas, de chumbo ou
de pedra; e a pólvora ainda mal preparada.
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Bússola
Somente no século XIII se observou na Europa propriedade, ainda hoje mal explicada, que
tem uma agulha imantada e podendo oscilar livremente, de se dirigir sempre para um ponto
denominado polo magnético.
É provável que os chineses já conhecessem tal propriedade e que por intermédio dos Árabes
chegasse tal conhecimento aos marinheiros do Mediterrâneo. A bússola era a princípio composta
de uma agulha colocada sobre um pouco de cortiça ou de palha flutuando em azeite ou em água.
Flávio Gioia imaginou suspender a agulha sobre um eixo fixo, de modo a mover-se livremente em
qualquer direção.
Assim os navegantes podiam aventurar-se sem receio pelo mar alto, longe das costas, mas
sempre conhecendo a direção que seguiam, isto é, podendo orientar-se. Não tardaria o
descobrimento da América.
O Papel
Os antigos não conheciam o papel: escreviam em folhas de palmeira, em cascas de árvore,
em lâminas cobertas de cera, chumbo, etc., e principalmente sobre os papiros, feito do caniço que
cresce às margens do Nilo. O pergaminho, feito de peles de animais para tal fim preparadas, era
tão caro que na Idade Média se perderam muitos textos de antigos manuscritos que foram apagados
para nos pergaminhos se fazerem novas cópias.
Pelo fim do século X, os árabes introduziram o papel de trapos, cuja fabricação haviam
aprendido dos chineses. Generalizando-se no século XIV o uso da roupa branca, tornou-se fácil a
fabricação do papel de trapos por preço mais barato.
A imprensa16
Na Idade Média os livros eram manuscritos, isto é, copiados a mão. É fácil imaginar quanto
tempo era necessário para reproduzir as obras, e por consequência que preços atingiram. Só aos
milionários podiam pertencer as bibliotecas.
No século XIV, tentou-se melhorar esse estado de coisas por meio da xilografia, escrita
sobre a madeira. Gravava-se numa tábua uma página, passava-se tinta e aplicava-se uma folha de
16
Tema já citado anteriormente.
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D. Henrique, o Navegador
D. Henrique, o Navegador, era filho do décimo rei de Portugal, D. João I, Mestre de Avis.
Nasceu em 1394 e ajudou na campanha militar contra a cidade de Ceuta no norte da África. D.
Henrique exerceu um papel muito importante na história dos descobrimentos marítimos
portugueses. Além disso, era Mestre da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo (a famosa Ordem de
Cristo) e 1º Duque de Viseu.
Após voltar da expedição de
Ceuta, D. Henrique se estabeleceu
próximo ao Cabo de São Vicente e
criou um centro de estudos e
experiências náuticas chamado Escola
de Sagres. Era dedicado à Astronomia
e à Matemática, aplicou a sua vida ao
aperfeiçoamento da marinha para pôr
em execução o plano cujo objetivo era
o descobrimento gradativo da costa da
África, tendo em vista a conversão dos
habitantes locais e o estabelecimento
de relações comerciais. Para colocar
em prática este projeto, D. Henrique
recebeu autorização de três papas e
aplicou os recursos financeiros da Ordem de Cristo e as doações que recebeu de seus parentes, pois
era um projeto muito caro.
Escola de Sagres
A Escola de Sagres reunia cartógrafos (profissionais que elaboram mapas), construtores de
instrumentos náuticos, navegadores experientes e outros intelectuais, a fim de desenvolver a arte náutica.
Conforme o avanço das navegações portuguesas, foi descoberta toda costa ocidental africana, onde
foram construídas feitorias, isto é, entrepostos comerciais que funcionavam como mercado, armazém, forte,
ponto de acesso à navegação e alfândega. Estima-se que foram construídas 50 feitorias ao longo da costa
africana. O objetivo português era descobrir um novo caminho para o Oriente contornando a África.
Périplo Africano
Após os capitães Diogo Cão e o famoso Bartolomeu Dias alcançarem o Cabo das Tormentas,
tornou-se possível a hipótese de um novo caminho para o Oriente, tanto que o nome do Cabo passou
a ser Cabo da Boa Esperança. A realização de tamanha façanha ficou para a História graças ao
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famoso navegador Vasco da Gama que, em 1498, atingiu a cidade de Calicute na Índia. O contorno
que os portugueses fizeram na África ficou conhecido como Périplo Africano.
Descobrimento da América
Da América não tinham os Europeus o menor conhecimento. Era verdade que os
dinamarqueses, lá pelo ano 1000, haviam chegado à Groelândia e provavelmente à costa do
Labrador. Tudo, porém, ficava sem conhecimentos exatos. Não eram somente os portugueses que
procuravam o caminho marítimo das Índias. Os espanhóis também andavam empenhados em
resolver o mesmo problema.
Colombo, o Descobridor
Cristóvão Colombo (1451 – 1506)
era um grande e experiente navegador
genovês que desejava descobrir uma nova
rota para o Oriente. Para isso, Colombo
planejou navegar em torno do globo
terrestre, ou seja, navegar pelo Ocidente
para chegar ao Oriente. É falsa a ideia de
que Colombo foi o primeiro homem
acreditar na esfericidade da Terra.
Em 1492, os Reis Católicos da
Espanha, Fernando e Isabel, financiaram Cristóvão Colombo
uma modesta expedição para Colombo
prosseguir em sua empreitada. A bordo de três caravelas, cujos nomes eram Pinta, Nina e Santa
Maria, Colombo iniciou a difícil missão de alcançar a Índia navegando pelo Oceano Atlântico.
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No dia 12 de outubro de 1492, Cristóvão Colombo alcançou uma ilha da América Central
que foi batizada São Salvador. Ali cantou o Te Deum, e, erguendo uma cruz, tomou posse da terra
em nome de Suas Majestades Católicas A América foi descoberta! Descobriu igualmente a ilha de
Cuba, e a de Haiti a que deu o nome de Hispaniola, e regressou triunfalmente para a Espanha
(março de 1493). Em suas três viagens seguintes (a 2ª viagem se realizou em 93; a 3ª em 98; e a 4ª
em 1502) visitou mais algumas ilhas e explorou parte notável da costa do continente, zelando
sempre o bem da religião e da sua pátria adotiva (a Espanha).
A notícia do descobrimento se espalhou pela Europa, fazendo que muitos navegantes se
dirigissem para o Novo Mundo, como ficaram inicialmente conhecidas as terras encontradas. O
navegador Américo Vespúcio (originário de Florença, cidade italiana) fez diversas viagens ao
Novo Mundo, redigindo um diário de suas explorações na maior parte do território. Adquiriu tanta
celebridade que o continente levou o seu nome: América.
Para Meditar...
Saeculo Exuente Octavo
Papa Pio XII
“Os atos com os quais os nossos predecessores do século XII, Inocêncio II, Lúcio II e
Alexandre III aceitaram a homenagem de obediência prestada por Afonso Henriques, conde e, em
seguida, rei de Portugal, tendo-lhe prometido sua proteção, declararam independência de todo o
território, que ao preço de duríssimas lutas tinha sido valorosamente recuperado do domínio
sarraceno, foi o prêmio com o qual a sé de Pedro compensou o generoso povo português por suas
extraordinárias benemerências em favor da fé católica.
Nas caravelas que, ostentando o branco pendão assinalado pela cruz de Cristo, deslocavam
os intrépidos descobridores portugueses nas costas ocidentais da África e das ilhas adjacentes,
navegavam também os missionários, “para atrair as nações bárbaras ao jugo de Cristo”, como se
exprimia o grande pioneiro da expansão colonial e missionária portuguesa, o Infante Henrique, o
navegador.
Aconteceu então – quando uma série de episódios funestos (entre eles a Revolução Protestante)
arrancava grande parte da Europa do seio da Igreja, que com tanta sabedoria e amor materno a havia
plasmado – que Portugal, juntamente com a Espanha, sua nação irmã, abriu à mística esposa de
Cristo imensas regiões desconhecidas levando-as ao seu seio materno, compensando o que havia
sido perdido com inumeráveis filhos da África, da Ásia e da América. Naquelas terras,
demonstrando a perene vitalidade da Igreja católica, pela qual o divino Fundador intercede
incessantemente e na qual o Espírito paráclito incessantemente opera, também nas horas mais trágicas,
surgiram e se multiplicaram dioceses e paróquias, seminários e conventos, hospitais e casas de
recolhimento de órfãos.
Como foi possível que vós, embora sendo poucos, fizestes tanto na santa cristandade? Onde
Portugal encontrou forças para acolher sob seu domínio tantos territórios da África e da Ásia, para
estendê-lo até às mais distantes terras americanas? Onde, senão naquela ardente fé do povo português,
cantada por seu maior poeta, e na sabedoria cristã dos seus governantes, que fizeram de Portugal um
dócil e precioso instrumento nas mãos da Providência, para a atuação de obras tão grandiosas e
benéficas?”
Estas frases mostram o elogio que o Papa faz aos portugueses e o constatam os benefícios
que as grandes navegações trouxeram para a Igreja e para a almas dos pagãos que desconheciam o
a fé católica.
A América no século XV
Antes da descoberta, estima-se que a população América era de 20 milhões de pessoas.
Dentre as mais célebres nações, notam-se os Toltecas e Astecas que fundaram o império do México,
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e os Incas, senhores do Peru. Desde o Alasca, entretanto, até as ilhas mais austrais da América do
Sul, encontravam-se tribos de índios, apresentando os mais variados graus de civilização, desde a
organização dos dois impérios já citados até à mais brutal antropofagia.
Por volta do ano de 1500, o México era governado por Montezuma. O império asteca
contava com muitas cidades, nas quais se ostentavam palácios, templos e pirâmides com as do
Egito. A capital, Tenochtitlan, construída em anfiteatro junto ao lago Tezcuco, possuía maravilhosa
paisagem e deslumbrava pelas suas riquezas fabulosas. Contava cerca de 70 mil habitantes. De
todos os lados do México, tribos hostis aos astecas tramavam vingança contra os imperadores que
as mantinham submissas. A mais terrível, a dos Tlascalanos, causou a ruína do império mexicano.
Em 1519, o chefe espanhol Fernando Cortez, por ela auxiliado, tomou a capital do México.
Fez perecer Montezuma e seu sucessor Guatimozim, e realizou, em 1522, a conquista definitiva do
país.
O Peru contava, como no México, muitas minas de ouro e prata. Ao passo que no México a
civilização apresenta semelhanças com as do Egito e da Índia, no Peru aproxima-se mais da
civilização da China. Dentre as mais belas cidades peruanas citam-se Cusco e Quito, ligadas por
uma estrada magnífica, gigantesca, através do Andes, construída pelos imperadores incas (Manco-
Capac e Huaiana-Capac).
Pelos fins do século XV, o Peru achava-se em franca prosperidade, mas dividido
politicamente: Huascar reinava em Cusco e Ataliba (seu irmão) reinava em Quito. Por causa desta
divisão, Fernando Pizarro, em 1532, apoderou-se facilmente do país.
Valdívia submeteu os Araucanios do Chile e funda Santiago (1541), Valparaiso, e outras
cidades. Pedro de Mendoza reconhece o Rio da Prata (1535) e funda Bueno Aires. Outros
aventureiros espanhóis exploram a América Central.
Assim é que, no decorrer do século XVI, funda a Espanha na América um imenso império
colonial, que só lhe escapará das mãos no princípio do século XIX.
Tratado de Tordesilhas
Quando Colombo retornou de sua viagem e trouxe a notícia de sua grande descoberta,
ocorreu uma tensão entre o Reino de Portugal e o da Espanha, pois no processo de expansão
portuguesa vários papas haviam concedido a Portugal o direito sobre as ilhas e terras encontradas
no Atlântico. Porém, depois de diversas divergências entre os dois reinos, foi assinado um acordo
na cidade espanhola de Tordesilhas. Esse acordo ficou conhecido como Tratado de Tordesilhas
e foi assinado em 1494. A Igreja reconheceu o tratado em 1506 pelo Papa Júlio II
O Tratado de Tordesilhas consistia em uma linha imaginária na vertical a 370 léguas das
Ilhas do Cabo Verde. As terras encontradas no Ocidente da Linha pertenceriam à Espanha, e as
terras encontradas no Oriente da Linha pertenceriam a Portugal.
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Atividades
1) Quando ocorreram as grandes navegações? Quais países se envolveram nela? Qual destes se
destacou?
2) Qual foi o principal motivo que levou os portugueses a realizarem as grandes navegações?
3) Qual episódio abalou a Igreja no século XVI? Porém, como podemos ver a Providência de Deus
diante desta crise?
4) O que marcou o início das grandes navegações?
5) Quais fatores levaram os portugueses às grandes navegações?
6) Cite alguns fatores que contribuíram para Portugal se tornar uma potência marítima.
7) Quais foram as grandes invenções que modificaram a história da Europa?
8) Qual foi a importância de D. Henrique para as grandes navegações?
9) O que foi a Escola de Sagres?
10) O que são feitorias?
11) O que é périplo africano?
12) Quando e quem descobriu a América?
13) Qual era o plano de Colombo? Qual era o nome das três caravelas de Colombo?
14) Por que o continente levou o nome de América?
15) Copie esta frase:
“Aconteceu então que Portugal, juntamente com a Espanha, sua nação irmã, abriu à mística esposa
de Cristo imensas regiões desconhecidas levando-as ao seu seio materno, compensando o que havia
sido perdido com inumeráveis filhos da África, da Ásia e da América”. Pio XII
16) Quais povos indígenas se destacavam na América?
17) O que foi o Tratado de Tordesilhas?
18) Copie as consequências das Grandes Navegações.
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Capítulo
10
Origem dos índios americanos
Os documentos históricos pouco nos dizem a respeito da origem do índio americano. Por
isso, surgiram diversas teorias sobre a forma e os tempos do povoamento da América. Baseados na
ciência e na revelação sabemos que os índios descendem de Adão e Eva, e como tudo leva a crer
que os nossos primeiros pais viveram na Ásia, o povoamento da América se efetuou por meio de
migrações.
Três hipóteses então se apresentam:
1. Migração asiática através do Estreito de Behring.
2. Travessia do Atlântico através das Canárias, motivada por tempestades ou correntes marítimas.
3. Chegada dos dinamarqueses, antes do ano mil, às costas da América do norte, depois de terem
passado pelo Islândia e Groelândia.
diversas tribos: carijós, tamoios, goianas, tupinambás, tabajares; os Tapuias, pelo interior,
compreendiam entre outras tribos: aimorés, timbiras; Nu-aruaques: Mundurucus, Apiacás;
Caraíbas: Omáguas e Macuxis.
Para melhor conhecimento do silvícola brasileiro, muito se deve aos missionários católicos:
jesuítas e de outras Ordens religiosas assim como aos cronistas dos primeiros séculos de
colonização. Além disso, no século XVIII, sobretudo, expedições científicas estrangeiras
percorreram diversas regiões do Brasil tomando apontamentos preciosos sobre as diversas tribos.
Delas participaram, entre outros, Carlos von Steins, Paulo Ehrenreich, A. Saint Hilaire, entre
outros.
Astecas
1300 a 1521
Foram os últimos povos indígenas que se aglomeraram no planalto do Anauaque (México).
A princípio fizeram parte de uma nação que se estabelecera às margens do lago Chapala. Sua
emigração se iniciara pelos meados do século VII.
A princípio, o governo era aristocrático, com 20 membros; e, mais tarde, escolheram um
soberano que veio a ser déspota.
Em 1325 d.C., fundaram o México, o que primeiro chamaram de Tenochtitlán. A capital, a
princípio, se achava por sobre numerosas ilhotas do lago Texaco. Aí se levantou a cabana real em
torno da qual se espalharam as choças dos súditos. Aos poucos foram entulhando os numerosos
canais e se levantaram habitações mais confortáveis. Prosperaram com a agricultura obrigatória.
Construíram depois palácios e templos a ponto de constituírem grande império. Na época da
chegada ao México, os espanhóis encontraram a cidade com umas 60 mil casas entre ruas de traçado
regular.
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Maias
250 a 900
que os conhecimentos astronômicos dos Maias causam realmente admiração. Os maias tinham
muita aptidão para a matemática e a astronomia. Seu entendimento acerca dos movimentos dos
astros era crítico para calcular o seu calendário e marcar datas de cerimônias importantes. Para eles,
o ano se dividia em 18 meses de 20 dias sendo os últimos 5 dias considerados suplementares.
Vivia o povo em choças ao passo que as classes privilegiadas possuíam casas confortáveis
e até palácios. A civilização maia deu origem a algumas obras de arte das mais notáveis de todos
os tempos. A qualidade técnica da arquitetura e da escultura, a abundância de cerâmicas
decorativas, confirmam o caráter evoluído desta sociedade.
O declínio da civilização maia teve início no século X, talvez devido a um terremoto ou
erupção vulcânica.
Incas
1438 a 1533
Raça aborígene que se dizia descendente de um deus solar, vieram a substituir os quíchuas
e se estenderam, alguns séculos antes da vinda dos europeus, pela vasta região que hoje constitui o
Peru, Equador, parte da Bolívia e norte do Chile. Dispunham de duas grandes capitais: Cusco e
Quito. Pela época da conquista, estavam dois príncipes incas, em competição pela sucessão ao
trono. Eram os irmãos Atualpa e Huáscar. O maior líder inca foi Pachakutiq Inka, que soube
defender firmemente seu território e fazer dos Incas, um Império.
As estradas do império causaram admiração aos cronistas espanhóis, conforme se percebe,
por exemplo, em Gutierrez de Santa Clara, que as julga superiores às famosas vias militares
romanas.
O soberano inca exercia domínio absoluto sobre seu povo e, ao mesmo tempo, era o sumo
pontífice do culto do deus Sol de que se inculcava descendente. Era o único dono das terras, mas
condescendia em reparti-las com os vassalos. Nota-se que o escolhido não era necessariamente o
primogênito ou um dos filhos tidos da esposa principal. Na realidade, o final de cada reinado
ensejava uma luta aberta pelo poder. Os sacerdotes gozavam de grande prestígio e, a mais deles,
havia sacerdotisas que se consagravam ao culto do Sol pelo prazo de sete anos. Havia uma nobreza
apegada ao serviço e prestígio do monarca e de sua família.
A agricultura era obrigação e o soberano lhe dava apreço comparecendo ao início das
sementeiras e da colheita. Desta o lavrador só se aproveitava em parte, o terço, ficando o resto para
o rei e a classe sacerdotal.
As profissões eram hereditárias. Trabalhavam com os metais, exceto o ferro. Por estarem
localizados em uma das maiores reservas de ouro e prata, foram talvez uma das mais ricas
civilizações.
As armas eram de madeira com revestimento metálico. Construíam palácios e templos, pontes
pênseis e fortalezas. Para transporte utilizavam-se de lhama.
Teciam com lã de alpaca, de lhama, e preparavam objetos caseiros por cerâmica adiantada.
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1835
Retrato de um conquistador espanhol. Amable-Paul Coutan,
Retrato de Hernán Cortés (1485-1547), Museu Naval de Madri
O México, ou Nova Espanha, descoberto por Grijalva em 1518, foi logo no ano seguinte
conquistado por Fernão Cortez, que tentou a ousada empresa com 11 navios, 400 soldados, 200
índios, 32 cavalos e 10 canhões. Desembarcou no Iucatã, lutou e obteve a submissão de vários
caciques. Montezuma, soberano asteca, procurou afastá-lo, enviando-lhe grandes presentes; mas
Fernão Cortez não se deteve, combateu e venceu os astecas, chegando até a capital, onde foi bem
recebido. Apoderou-se do governo, aprisionam Montezuma, e mandou explorar o interior do país.
Tendo de ausentar-se da capital, para combater Pánfilo de Narváez, mandado contra ele, por inveja
de seus triunfos, por Diego Velásquez, governador de Cuba, Fernão Cortez não pôde evitar que os
astecas se sublevassem. Montezuma foi ferido e veio a morrer pouco depois. Cortez, apesar de
haver derrotado Pánfilo de Narváez, teve de abandonar a capital do México com grandes perdas.
Mas a vitória dos espanhóis em Otumba contra os mexicanos permitiu-lhe tentar outro assalto à
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capital, que assediou por três meses. Guatimozim, parente de Montezuma e agora no trono, foi
vencido, torturado e morto. O México submeteu-se sem resistência maior. Cortez voltou à Espanha
e teve de Carlos V o governo militar do México, mas não civil. Morreu mais tarde, esquecido, na
Espanha.
Também a conquista do Peru foi um misto de crueldade e heroísmo. Francisco Pizarro
associou-se com Diego de Almagro e empreendeu a arriscada expedição. Apoderou-se por astúcia
do Inca Atahualpa, que estava em desarmonia com seu irmão Huáscar. Atahualpa teve de pagar
enorme quantia em ouro para resgatar-se, mas Pizarro, em lugar de libertá-lo, fê-lo condenar à
morte, sob pretexto de fratricídio, pois Atahualpa, receando um competidor, mandara matar
Huáscar. Pizarro ficou senhor do Peru, onde, em 1535, fundou Lima.
Almagro conquistou o Chile, mas em 1538 foi vencido em guerra contra Pizarro e
estrangulado. Seu filho, três anos depois, assassinou Pizzaro. No mesmo ano Pedro de Valdívia
fundava Santiago (1541), mas em guerra com os araucanos, índios belicosos, estes o prenderam e
mataram cruelmente.
Desde 1536 estavam fundadas Buenos Aires, por Pedro de Mendoza, e Assunção, no
Paraguai, por Juan de Ayolas. Mas a verdadeira e definitiva fundação de Buenos Aires só se efetuou
em 1580, com Juan de Garay.
A obra de conquista e colonização prosseguiu sem desfalecimentos. Surgem cidades, futuras
capitais de várias das colônias; Santa Fé de Bogotá, em 1538, graças a Gonçalo Ximinez de
Queseda; La Paz, em 1548, com Alonso de Mendoza; Caracas, em 1567, com Pedro Ponce de
Leon; e, mais tarde, já no século XVIII, em 1726, Zavala funda Montevideo.
Divisão territorial
A América teve sua divisão de acordo com os interesses econômicos e com as realidades
que os espanhóis enfrentavam. Todos os territórios americanos foram divididos em vice-reinados
e capitanias gerais.
Os vice-reinados eram as áreas onde os espanhóis conseguiam explorar metais preciosos ou
os locais que possuíam áreas de forte comércio. Os locais chamados de vice-reinado eram Nova
Espanha, Nova Granada, Peru e Prata.
Já as capitanias gerais, são os locais estratégicos utilizados pelos espanhóis. Esses lugares
não possuíam metais preciosos, por isso eram menos povoados pelos população espanhola.
Guatemala, Cuba, Venezuela e Chile eram os lugares chamados de capitanias gerais. As duas
divisões da América espanhola representavam níveis de poder.
Vice-Reinados
Nova Espanha
O mais amigo dos vice-reinos foi o do México ou Nova Espanha, devido sobretudo às
conquistas de Cortez. Criado em 1534, teve por primeiro vice-rei D. Antônio de Mendoza. O
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Peru
O Peru era a mais rica porção
dos domínios espanhóis sul-
americanos, com minas de ouro e
prata, abundantes recursos agrícolas
e intenso comércio, centralizado em
Lima. Rendia seis milhões de pesos,
dos quais enviava um milhão para a Espanha. Teve universidade desde 1551 e uma tipografia para
publicação de obras de assunto religioso. A população não ultrapassava dois milhões.
Nova Granada
Nova Granada só se organizou definitivamente como vice-reino em 1739. Abrangia também
a presidência de Quito. O vice-reinado chegou a ter dois milhões de habitantes e uma renda de três
milhões de pesos. Mas havia quase sempre déficit, que era coberto com os recursos abundantes do
Peru. O comércio de exportação de fumo e cacau era importante. Santa Fé era centro universitário
notável e teve imprensa nos últimos tempos de colônia.
Buenos Aires
Buenos Aires só foi criado na segunda metade do século XVIII como vice-reino. É de 1776
a elevação do território dos governos de Buenos Aires e do Paraguai, como as províncias do interior
que se comunicavam pelo Rio da Prata. O gado era abundante nas planícies argentinas, permitindo
comércio de couros e charque. O Alto Peru produzia, além de riquezas minerais, açúcar, anil
(corante azul), algodão, etc. Buenos Aires veio a ser um centro importante de comércio.
Capitanias Gerais
A capitania geral da Guatemala era subordinada ao México. A de Venezuela dependia de
Nova Granada. A de Cuba era o centro do governo das Antilhas, que a principio estivera em São
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Domingos. A capitania do chile em 1778, é separada do Peru. Sua pobre vegetação e revoltas
indígenas foram essenciais para o rompimento e não prosperou como as outras. Chegou a ter
600.000 habitantes de origem espanhola, sem incluir o elemento indígena. A Espanha teve de ceder
Haiti à França, em 1795, pelo tratado de Basiléia.
A administração espanhola
A autoridade do monarca era representada na América elos vice-reis e capitães-gerais.
Tinham o poder executivo, o exercício do poder supremo no civil e no militar, a faculdade de
nomear funcionários, provisoriamente, para os cargos que o Rei devia por si mesmo dar. Os vice-
reis eram independentes e mantinham a etiqueta da corte.
As colônias não eram consideradas propriamente como partes integrantes do território
espanhol. Com os mesmos direitos e obrigações. Eram antes comparáveis a feudos de propriedade
do soberano e fontes de lucro para o tesouro da metrópole.
Para melhor administrar as colônias americanas, mais conhecido na época como Índias,
foram instituídos: O Conselho das Índias, Casa de Contratação e os Cabildos.
Vista del Alcázar de Madrid, Félix Castello, 1630. Museo de História de Madrid.
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O Conselho das Índias foi criado pelos reis católicos para tratar de tudo quanto fosse relativo
às Índias e dispunha até de atribuições judiciárias. Propunha ao rei o preenchimento dos cargos
civis e eclesiásticos, fiscalizava o procedimento dos funcionários, elaborava as leis necessárias para
o governo das colônias.
Casa de Contratação
Em 1503 se estabeleceu em Sevilla a casa de contratação, espécie de câmara de comércio,
cujas decisões só podiam ser modificadas pelo Conselho das Índias. Sua principal missão era
desenvolver as relações comerciais entre a metrópole e as possessões ultramarinas. Expendia os
navios, recebia os carregamentos, etc.
Cabildos
Nas colônias de origem espanhola a influência dos Cabildos foi realmente grande.
Assembleia ou conselhos formados das pessoas mais distintas do elemento nativo, contavam em
geral de 6 a 12 membros. Administravam a justiça, preparavam as tropas em caso de guerra,
protegiam os pobres e os menores, policiamento, saúde, regulamentavam os valores e os
abastecimentos, entre outras atribuições menos importantes. Funcionavam como as câmaras
municipais brasileiras e cada vilarejo possuía o seu. Alguns deles, como a cidade de Córdoba, na
Argentina, funcionava tão bem quanto o parlamento inglês.
Jesuítas
A obra das missões jesuíticas, na América espanhola, como no Brasil, foi admirável e colheu
frutos que as tentativas de elementos leigos jamais alcançaram. Foram os jesuítas que tomaram
resolutamente a defesa do índio explorado pelo colono e defenderam seu direito de homem livre.
As missões jesuíticas mais fortes na américa espanhola ocorreram no Uruguai e no Paraguai. Assim
como no Brasil, os Jesuítas foram expulsos das colônias espanholas, pelo ministro de Carlos III,
chamado Aranda.
México.
Retrato da família Fagoaga Arozqueta, pintor anônimo, 1735. Museu Nacional de São Carlos, Cidade do
Retrato de los Fagoaga-Arozqueta, família de criollos do México
Comércio e monopólio
O sistema de produção da américa espanhola era todo voltado à metrópole. A agricultura
sofria com impostos onerosos e não podia comercializar livremente. Era proibido, por exemplo,
cultivar a oliveira nas colônias espanholas, forçando os colonos comprarem apenas da metrópole.
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Apenas o porto de Sevilha podia negociar livremente com as colônias. Todos os metais
preciosos e produções escoavam-se para a metrópole. Em resposta a esse sistema de monopólio,
colonos faziam contrabando, e comercializavam secretamente.
A situação só foi melhor com o reinado de Carlos III, quando a Espanha abre novos portos
ao comércio com as colônias, estabelecendo um vinculo mensal de comunicação. Em 1763, todas
as restrições de comércio ultramarinos foram abolidos e qualquer espanhol poderia comercializar
livremente com a colônia.
Universidades e a cultura
O estado de atraso da instrução pública, a falta de tipografias, a escassez de livros não
permitia que fosse alto o nível cultural das colônias. Ainda assim não seria exato dizer que a
ignorância era geral. Nas classes baixas e mesmo entre pessoas de certos recursos a instrução
limitava-se quase sempre a noções elementares, ler e escrever. Poucos seguiam estudos superiores
nas universidades, raros conseguiam ilustrar-se com viagens ao Velho Mundo e possuir bibliotecas
de certa importância.
Em certos centros – México, Lima, Bogotá, Chuquisaca – a cultura atingiu maior intensidade
e os cursos universitários tiveram merecido renome. Santa Fé e Bogotá, capital do vice-reinado de
Nova Granada, possuía uma das melhores universidades coloniais.
A arte e a literatura coloniais, na América espanhola como no Brasil, não podiam ter, antes
do século da independência política e do movimento revolucionário do romantismo, feições muito
próprias e originais. Eram quase sempre imitações dos modelos clássicos e da metrópole.
Na arquitetura domina o estilo jesuítico nos templos, mas os mosaicos e azulejos lembram
a velha Espanha, como também há evidentes influências mouriscas17 em muitos edifícios e
monumentos.
17
De origem islâmica.
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Atividades
1) Que sabemos da origem dos índios americanos?
2) Quais são as hipóteses do povoamento da América?
3) Como se chamava a capital dos Astecas? Cite uma das principais características da cultura
asteca.
4) Como se deu o fim dos Astecas?
5) Quais eram as ciências em que os Maias mais se destacavam?
6) Quais são as possibilidades que explicam o fim do Maias?
7) Quais eram as duas capitais dos Incas?
8) Cite duas características da cultura Inca que mais lhe chamou a atenção.
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137
Capítulo
11
O descobrimento da América e a notícia de que por mar se encontraria caminho para o
oriente, despertaram nos portugueses a ideia de tentarem a exploração desse caminho.
Para esse fim, foi armada uma esquadra, sob o comando do capitão português Vasco da
Gama, que saiu de Lisboa em 1497.
Em 1499, Vasco da Gama noticiou a D. Manoel que houvera descoberto caminho para as
Índias; no ano seguinte o rei mandou uma frota para ali, não somente com o fim de assegurar o
comércio com os povos daquela região, mas também para fundar estabelecimentos em diversos
pontos da costa, as feitorias, que servissem de escala aos navios portugueses que navegassem por
aqueles lugares.
Ao receber a notícia do sucesso da viagem de Vasco da Gama à Índia, o Rei D. Manuel I
preparou uma segunda expedição para lá. Em março de 1500 a frota estava pronta para zarpar de
Lisboa. Compunha-se de treze naus e era liderada pelo Capitão-Mor Pedro Álvares Cabral, membro
da Ordem de Cristo.
Era numerosa e imponente a armada de Cabral, estava bem municiada e bem providas de
mantimentos. A tripulação foi escolhida ente os marinheiros mais práticos e mais afeitos à vida do
mar. Tinham posto na expedição: Pero Vaz de Caminha, escrivão da armada, autor da “Carta” em
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que narra a descoberta do Brasil; Duarte Pacheco Pereira, que escreveu o “Esmeraldo de situ orbis”
no qual se refere a essa viagem; sete missionários franciscanos, tendo por superior Frei Henrique
de Coimbra, e um vigário para Calicute.
No dia 14, pela manhã, avistaram-se as Canárias. E, ao mesmo tempo, já se fizeram sentir
as grandes calmarias da costa africana. Cabral havia recebido minuciosas instruções sobre a sua
expedição, uma das quais D. Manuel pediu que a frota navegasse o máximo possível para o
Ocidente a fim de descobrir novas terras para Portugal. Assim foi feito.
Quanto mais Cabral navegava para o Ocidente mais se aproximava do Brasil. Foi à tarde de
22 de abril de 1500, quarta-feira, que foi visto um grande monte, alto e redondo, ao qual ficou
conhecido como Monte Pascoal, nome dado por Cabral, pois era oitava da Páscoa. Os portugueses
haviam descoberto o Brasil!
No dia 24 de abril, a frota de Cabral encontrou Porto Seguro na Bahia onde se aportou por
uma semana. Após o encontro amigável com os indígenas, Cabral decidiu que fosse celebrada a
primeira missa no domingo de Páscoa, dia 26, no ilhéu, hoje chamado Coroa Vermelha. O
celebrante foi o Frei Henrique de Coimbra que na homilia dedicou o descobrimento da nova terra
à Cruz de Cristo.
Após a Santa Missa, foi feito um conselho entre os comandantes dos navios e se resolveu
que se mandaria um emissário ao Reino para comunicar ao rei a descoberta. Também foi decidido
que os índios não seriam levados a força para Portugal. Alguns homens ficaram responsáveis por
colher informações sobre a terra e aprender a língua dos nativos.
No dia 27 foi cortado um grande madeiro que serviu para a construção de uma cruz com os
símbolos da Coroa Portuguesa que assinalaria a posse da nova terra para rei. Junto à cruz, erigiu-
se um alta e, logo em seguida, iniciou-se a Santa Missa, dita pelo mesmo Frei Henrique. Os índios
prostraram-se de joelhos e imitaram em tudo o ritual dos cristãos.
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No dia 28 de abril, a frota de Cabral partiu para a Índia, que era o destino original, e um
navio foi mandado para Portugal.
Nomes do Brasil
Vera Cruz foi o nome dado a esta terra por Pedro Álvares Cabral, logo que a descobriu. Lê-
se na carta de Caminha: “Ao qual monte alto o capitão pôs o nome de monte Pascoal e à terra de
Terra de Vera Cruz”.
Esta denominação, porém, não perdurou; substituíram-na pela de Santa Cruz. Já em 1501
encontramos uma carta de Dom Manuel aos reis católicos o nome de Santa Cruz: “à qual pôs o
nome de Santa Cruz”, e mais parte, em 1505, em outra carta o mesmo monarca torna a repetir: “à
qual terra pôs o nome de Santa Cruz: e isto porque na terra arvorou uma cruz muito alta”.
Este nome teve sorte idêntica ao primeiro; não se vulgarizou e, em breve, desde 1504,
começaram a chamar Terra do Brasil ou simplesmente Brasil. A designação Brasil proveio de
existir em abundância nesta terra certa madeira que produzia uma tinta vermelha análoga à que
então a Europa importava, com igual nome, da Ásia. Todos os que negociavam com esta madeira
passaram a chamar-se brasileiros e, em breve, esta denominação estendeu-se a toda colônia.
A princípio, o Brasil também foi conhecido por Terra dos Papagaios, mas este nome, como
os procedentes, foi suplantado por Brasil.
18
A carta de Pero Vaz de Caminha pode ser lida integralmente no site:
[Link]
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O Descobrimento
A partida de Belém, como Vossa Alteza sabe, foi segunda-feira, 9 de março. Sábado, 14 do
dito mês, entre as oito e as nove horas, nos achamos entre as Canárias (ilha), mais perto da Grã-
Canária, onde andamos todo aquele dia em calma, à vista delas, obra de três a quatro léguas. E
domingo, 22 do dito mês, às dez horas, pouco mais ou menos, houvemos vista das Ilhas de Cabo
Verde, ou melhor, da Ilha de São Nicolau, segundo o dito de Pero Escolar, piloto.
Na noite seguinte, segunda-feira, ao amanhecer, se perdeu da frota Vasco de Ataíde com a
sua nau (tipo de embarcação), sem haver tempo forte nem contrário, para que tal acontecesse. Fez
o Capitão (Pedro Álvares Cabral) suas diligências para o achar, a uma e outra parte, mas não
apareceu mais!
E assim seguimos nosso caminho, por este mar, de longo, até que, terça-feira das Oitavas de
Páscoa, que foram vinte e um dias de abril, estando dita a ilha obra de 660 ou 670 léguas, segundo
os pilotos diziam, topamos alguns sinais de terra, os quais eram muita quantidade de ervas
compridas, a que mareantes chamam “botelho” (espécie de alga), assim como outras a que dão o
nome de rabo-de-asno (outra espécie aquática). E, quarta-feira seguinte, pela manhã topamos aves
a que chamam fura-buxos (ave marinha).
Neste dia, a hora das vésperas (entre 15 horas e o pôr do sol), houvemos viste de terra!
Primeiramente de um grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele;
e de terra chã (plana, lisa) com grandes arvoredos: ao monte alto o Capitão pôs o nome de Monte
Pascal e à terra de Terra da Vera Cruz.
com a mão para a terra e depois para o colar, como que nos dizendo que ali havia ouro. Também
olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal
como se lá também houvesse prata.
Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e
acenaram para a terra, como quem diz que os havia ali. Mostraram-lhes um carneiro: não fizeram
caso. Mostraram-lhes uma galinha, quase tiveram medo dela: não lhe queriam pôr a mão; e depois
a tomaram como que espantados.
Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel e figos passados. Não
quiseram comer quase nada daquilo; e, se alguma coisa provaram, logo a lançaram fora.
Trouxeram-lhes vinho numa taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram nada, nem
quiseram mais. Trouxeram-lhes a água em uma albarrada. Não beberam. Mal a tomaram na boca,
que lavaram, e logo a lançaram fora.
Viu um deles umas contas de rosário, brancas; acenou que lhas dessem, folgou muito com
elas, e lançou-as ao pescoço. Depois tirou-as e enrolou-as no braço e acenava para a terra e de novo
para as contas e para o colar do Capitão, como dizendo que dariam ouro por aquilo.
Isto tomávamos nós por assim o desejarmos. Mas se ele queria dizer que levaria as contas e mais o
colar, isto não o queríamos nós entender, porque não lho havíamos de dar. E depois tornou as contas
a quem lhas dera.
Então estiraram-se de costas na alcatifa, a dormir. O Capitão lhes mandou pôr por baixo das
cabeças seus coxins; e o da cabeleira esforçava-se por não a quebrar. E lançaram-lhes um manto
por cima; e eles consentiram, quedaram-se e dormiram.
E desta maneira dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta Vossa terra vi. E se a um pouco
alonguei, Ela me perdoe. Porque o desejo que tinha de Vos tudo dizer, mo fez pôr assim pelo
miúdo.
E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa
que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por
me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro -- o que
d'Ela receberei em muita mercê.
Beijo as mãos de Vossa Alteza.
Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500.
O Indígena Brasileiro
Quando aqui aportaram os europeus, encontraram o nosso território ocupado por diferentes
tribos indígenas, em todas a extensão litorânea então conhecida.
A explicação mais plausível da origem dos índios no Brasil é de correntes migratórias de
origem asiática, malaio-polinésia e australiana. No caso do Brasil, as semelhanças que se observam
no tipo do nosso índio com o tipo mongoloide levam a admitir-se que tivesse a componente asiática
influído bastante na sua formação. Por outro lado, a raça de Lagoa Santa apresenta evidentes
afinidades com a raça de crânio alto e alongado dominante na Melanésia e na Austrália.
Com a colonização portuguesa e quase imediata introdução de escravos negros de origem
africana, tornou-se o Brasil vasto campo de fusão de raças. Brancos, negros, e índios aqui se
mesclam e produzem em seus cruzamentos vários tipos étnicos, dada a variedade e desproporção
dos contingentes de cada um dos três elementos principais formadores do nosso povo.
Foi apreciável a parte que coube ao fator indígena em nossa história, desde o primeiro
século; e ainda em nossos dias é patente a sua influência na própria língua nacional e de modo
particularmente notável nos topônimos brasileiros.
As primeiras tentativas de classificação dos índios do Brasil careciam de base científica.
Para os exploradores do tempo da conquista as tribos constituíam dois grandes grupos: Tupis e
Tapuias. O primeiro grupo abrangia as várias tribos que falavam a língua geral ou brasílica:
Potiguaras, Tabajaras, Caetés, Tupinambás, Tupiniquins, Tupinaens, Temiminós, Tamoios, Carijós
e Tapes, do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul. O segundo grupo incluía tribos que viviam
no interior, nos sertões e não no litoral como os Tupis, e falavam línguas diferentes, “línguas
travadas”. Eram os Tapuias, tidos como inferiores aos Tupis, pois revelavam maior crueldade. As
informações, porém, dos escritores do século XVI ao XVIII eram incompletas, ou confusas, e só
no século XX se iniciou um trabalho metódico de classificação das tribos indígenas brasileiras.
➢ Os grupos principais apurados são os seguintes:
➢ Tupi-guarani.
➢ Guaicurus.
➢ Maipures ou Nu-Aruaks.
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➢ Cariris.
➢ Gés.
➢ Caraíbas.
➢ Panos.
➢ Betoias.
A esses grupos é mister acrescentar, entre outras tribos até bem pouco ainda não
classificadas conveniente, os Bororós e os Nambiquáras.
Tupis
Os Tupis eram belicosos. Praticavam a agricultura, a caça e a pesca e sabiam navegar.
Ficaram divididos em dois grupos: Puros e impuros.
Entre os tupis puros são curiosos os omáguas, que habitavam as grandes ilhas do Maranhão,
famosos pela sua habilidade em navegar, pela sua prática estranha de comprimir a cabeça dos
recém-nascidos, deixando suas cabeças achatadas.
Entre os tupis impuros são notáveis os mundurucus, do médio e
baixo Tapajós. Apesar da impureza de língua, possuem elementos culturais
próprios do grupo tupi, entre eles o troféu de cabeça. A arte plumária é
bem desenvolvida e notável a sua organização social e guerreira.
Aruaques
É de todos os grandes grupos o mais disseminado e o de maior
variedade linguística. Os Uruaques conheciam a rede, praticavam a
agricultura, sendo exímios na cerâmica. Não eram antropófagos.
Gés
Com o nome derivado da palavra “pai” e “chefe”. Tem a cultura mais atrasada entre os
nossos selvícolas. No estado puramente selvagem não plantam, não tem cerâmica, dormem no
chão, não sabem navegar, a não ser em balsas ou jangadas. Usam botoques de madeira introduzidos
em perfurações nos lobos da orelha e no lábio inferior. Usam arco e flecha de ponta de madeira
unilateralmente dentada.
Caraíbas
Belicosos, antropófagos, foram adversários terríveis dos aruaques. Foram os únicos
indígenas que souberam usar velas em suas embarcações.
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Tal a fama da sua ferocidade para com o inimigo, universalmente temida, que o termo
canibal, que a princípio os designava, passou a sinônimo de antropófago.
É curioso que, ao tomarem aos aruaques as Antilhas, exterminaram todos os homens; só
foram poupadas as mulheres. Daí a natural surpresa dos espanhóis, ao verificarem que os homens
falavam uma língua e as mulheres outra.
O Padre José de Anchieta foi quem compôs a primeira gramática e os primeiros versos sacros
em tupi.
dos metais, andavam quase nus, alimentavam-se de caça e principalmente de pesca, e praticavam
uma agricultura incipiente que lhes fornecei a mandioca, milho, cará e frutas diversas.
Desconheciam também a domesticação dos animais para deles tirar leite, ou matéria-prima
para as vestimentas, nem meio mais fácil para transporte. Obtinham o fogo com o atrito de dois
paus e fabricavam as armas, instrumentos e utensílios de uso doméstico empregando a pedra, a
argila, ou resinas, ossos, vime, cipó, taquara e fibras vegetais. Revelaram grande habilidade neste
quesito.
Cabia em geral às mulheres a economia doméstica e aos homens a caça, a pesca e os
trabalhos mais pesados. Cada tribo constituía uma aldeia, composta de uma ou diversas tabas
(moradias). Não se fixavam por muito tempo no mesmo local: a escassez da pesca ou da caça, ou
as rixas frequentes obrigavam as mudanças. Contudo, era fácil construir novas tabas. Uma taba
podia abrigar até cem famílias. Os chefes destas famílias estavam sujeitos ao mais importante deles
da taba que habitavam. A autoridade era mais nominal do que real: nos casos graves o principal
consultava os cabeças das famílias, que formavam assim uma espécie de conselho. Este funcionava
também às vezes como tribunal, punindo com a morte ou com a pena de expulsão.
Organização da família
Embora não tivesse caráter de cerimônia religiosa, o casamento era sujeito a certas normas
obrigatórias. A poligamia e o divórcio eram frequentes, mas a primeira mulher, a mais antiga
companheira do chefe de família gozava de certa primazia em relação às outras.
Havia impedimento matrimoniais pela consanguinidade próxima: mãe, irmã e filha. A viúva
pertencia de direito ao irmão do falecido. Os filhos seguiam a condição paterna, ainda que fosse
diversa a materna: assim eram livres os filhos de escravas, se livre era o pai. Cabia à mães a criação
dos filhos, sendo curioso o costume de, logo após o nascimento, ir lavar o filho no rio, enquanto o
marido ficava na rede alguns dias, em uma espécie de resguardo.
Tora do pau-brasil
Veremos agora alguns exemplos de expedições vindas à Terra de Santa Cruz (Brasil) nessas
três primeiras décadas.
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Escambo é um tipo de comércio de troca, isto é, não envolve moeda. Os portugueses forneciam itens de interesse aos indígenas,
que, em troca, levavam aos portugueses as toras do pau-brasil. Ressalta-se que a madeira era encontrada com facilidade pelos
índios nas florestas brasileiras. Os nativos conheciam bem as matas e extraíam a madeira para trocar com todo tipo de utensílios
com os estrangeiros. Muito se diz que havia injustiça nessa relação comercial. Todavia, todos saíam ganhando, pois a madeira
não era propriamente dos índios e podia ser encontrada em abundância, não tendo valor para eles, enquanto a mesma coisa se
verificava com os portugueses, que trocavam diversas coisas, como machados, enxadas, espadas, espelhos, entre outras coisas
que não eram de grande valor para eles, pelo pau-brasil, madeira muito valiosa na Europa.
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Expedição de 1501
Como tinha sido combinado entre os
capitães da frota descobridora de Cabral, seriam
realizadas novas expedições que pudessem
conhecer melhor a nova terra. Por isso, D. Manuel,
rei de Portugal, enviou três caravelas para essa
missão em 1501.
Não se sabe ao certo quem foi o capitão
desta expedição, mas a hipótese mais aceita é que
o comando foi de Gaspar de Lemos, o mesmo
capitão que Cabral ordenou que voltasse para
Portugal para levar a notícia da descoberta.
Dessa expedição participou o italiano
Américo Vespúcio, de quem resultaram muitas
informações da expedição realizada.
A expedição partiu de Lisboa em 1501. De
acordo com o depoimento de Vespúcio, a viagem
ao Brasil demorou 67 dias, dos quais 44 foram
entre tempestades. Chegando ao Rio Grande do
Norte, iniciou-se o reconhecimento do litoral,
motivo pelo qual essa expedição havia saído de
Portugal. Américo Vespúcio
Conforme novos locais iam sendo avistados, o capitão dava o nome para os pontos litorâneos
mais importantes de acordo com os Santos de cada dia dos descobrimentos e as festividades
litúrgicas, ficando assim:
• No dia 16 de agosto de 1501 chegaram a um local a que deram o nome de Cabo de São
Roque.
• No dia 28 de agosto chegaram a um local a que deram o nome de Cabo de Santo Agostinho.
• No dia 29 de setembro encontraram um rio a que deram o nome de São Miguel.
• No dia 4 de outubro encontraram outro rio, a que deram o nome de São Francisco.
• No dia 1º de novembro deram nome ao local encontrado de Baía de Todos os Santos.
• No dia 1º de janeiro de 1502 deram o nome ao rio encontrado de Rio de Janeiro.
• No dia 6 do mesmo mês encontraram Angra dos Reis, nome dado por causa da data litúrgica
da Epifania.
• No dia 20 do mesmo mês acharam uma ilha a que deram o nome de São Sebastião.
• No dia 22 batizaram o local encontrado de Porto de São Vicente.
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Essa expedição chegou até o Rio da Prata, localizado no sul da América. De acordo com um
relato de Valentim Fernandes, de 1503, a frota de reconhecimento, “tendo seguido o litoral daquela
terra por quase 760 léguas, encontrou nos povos uma só língua, batizou a muitos e, avançando para
o sul, chegou até a altura do polo antártico, a 53 graus, e tendo encontrado grandes frios no mar,
voltou para pátria” ainda no mesmo ano de 1502.
Ressaltamos a importância desta expedição de reconhecimento, pois nela se pôde navegar
por quase todo o litoral brasileiro, batizando os índios e dando nomes católicos aos locais
encontrados, os quais ainda levam o mesmo nome.
Expedição 1503
Em 1503 foi realizada uma nova expedição em que também esteve presente Américo
Vespúcio, que deu o nome ao nosso continente. Foram enviados seis navios que, depois de dois
meses, descobriram uma ilha que é a atual Fernando de Noronha (nome dado em homenagem ao
financiador da expedição, Fernão de Noronha). Contudo, a embarcação do capitão se perdeu do
resto da frota. Dois navios comandados por Américo Vespúcio foram até a Baía de Todos os Santos,
onde carregaram o pau-brasil e fundaram uma feitoria fortificada, deixando uma guarnição de 24
homens.
Em 1504, a frota regressou a Portugal. Como consequência dessa expedição, o rei D. Manuel
doou a Fernão de Noronha a Ilha de São João, que havia sido descoberta a cinquenta léguas na
Terra de Santa Cruz. Foi esta a primeira Capitania Hereditária do Brasil, que estudaremos no
próximo volume.
Outras expedições
Muitas outras expedições oficiais e extraoficiais se dirigiram ao Brasil nas três primeiras
décadas do descobrimento, estabelecendo feitorias e iniciando o povoamento da imensa costa
brasileira. Algumas expedições de particulares vinham para cá para o comércio do pau-brasil,
levando, contudo, alguns índios como escravos. A escravidão no Brasil é uma mancha moral que
nada pode apagar. Trataremos a questão da escravidão nos próximos volumes.
Além dos portugueses, os franceses fizeram muitas viagens ao Brasil nesse período. Esse
fato gerou conflitos diplomáticos e militares. Os espanhóis também realizaram várias expedições
destinadas à América no mesmo período. Porém navegaram na costa norte da América do Sul, onde
hoje se localizam a Venezuela e o Amazonas. Com o tempo, os espanhóis se dirigiram para o sul
do continente, para as regiões atuais do Uruguai e da Argentina.
A expedição de Martim Afonso de Sousa navegou por quase todo o litoral brasileiro (de
Pernambuco até o Rio da Prata). Depois de ir para o sul do território, Martim resolveu ancorar sua
frota por tempo indeterminado no litoral que hoje pertence ao estado de São Paulo. São Vicente já
era um dos pontos mais conhecidos do litoral. Aí já havia alguns portugueses em bom
relacionamento com os indígenas, o que facilitou a presença da expedição, de tal modo que foi
possível a fundação de duas vilas: São Vicente e Piratininga. As vilas foram habitadas por soldados,
colonos e exilados vindos nos navios da expedição. Martim nomeou as autoridades, municipais e
judiciárias, e providenciou tudo o que era necessário para vida espiritual (padres, capelas, etc.).
Pero Lopes de Sousa, irmão de Martim, registrou esse momento no Diário de Navegação:
“A todos nos pareceu tão bem esta terra, que o Capitão irmão determinou de a povoar, e deu
a todos os homens terras para fazerem fazendas; e fez uma vila na Ilha de São Vicente e outra nove
léguas dentro pelo sertão, à borda de um rio que se chama Piratininga; e repartiu a gente nestas
duas vilas e fez nelas oficiais; e pôs tudo em boa obra de justiça, de que a gente tomou muita
consolação, com verem povoar vilas e ter leis e sacrifícios, e celebrar matrimônios, e viverem em
comunicação das artes; e ser cada um senhor do seu; e vestir as injúrias particulares; e ter todos os
outros bens da vida segura e conservável”.
Nessa citação vemos que Martim concedeu aos seus companheiros fazendas, que eram
chamadas sesmarias. Essas terras eram recebidas gratuitamente, mas os que as recebiam deviam
cultivá-las e estabelecer a ordem e a paz. Martim também cuidou de proteger a costa brasileira,
fundando o Forte de São Vicente e o Forte da Barra de Bertioga.
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Em 1533, Martim Afonso de Sousa resolveu voltar para Portugal, deixando o comando ao
Padre Gonçalo Monteiro e nomeando João Ramalho para o cargo de Capitão-Mor.
Grande parte do sucesso da expedição de Martim se deveu à sua habilidade e à ajuda que
recebeu de dois portugueses que já viviam entre os indígenas, conseguindo a pacificação entre os
dois tão distintos povos: João Ramalho e Diogo Álvares (Caramuru).
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Atividades
1) Quem reinava em Portugal no ano de 1500?
2) Em que ano se descobriu o caminho das Índias?
3) Quando partiu a expedição de Cabral? De quantas naus era composta a sua esquadra?
4) Quem eram os escrivães da armada? Quantos missionários foram juntos na expedição?
5) Quais instruções Cabral recebeu de Dom Manuel na ocasião da expedição?
6) Em que dia Cabral avistou o monte Pascoal e por que lhe deu este nome? O que marcou este dia?
7) Em que dia e por quem se celebrou a primeira Missa?
8) Quando a esquadra de Cabral zarpou para as Índias?
9) Quais foram os nomes que o Brasil recebeu?
10) Copie um trecho da Carta de Pero Vaz de Caminha que mais lhe chamou atenção.
11) Qual é explicação mais plausível da origem dos índios brasileiros?
12) Quais são os principais grupos indígenas do Brasil?
13) Onde se localizavam os Tupis-guaranis?
14) Quem compôs a primeira gramática em tupi?
15) Em que estado civilizacional se encontravam os Tupis?
16) Como eram organizadas as famílias dos indígenas?
17) Qual valor os indígenas davam à guerra?
18) Quais foram os objetivos das primeiras expedições feitas ao Brasil?
19) O que é o Escambo?
20) Qual era o critério para dar o nome aos pontos litorâneos encontrados no Brasil? Cite alguns
exemplos.
21) Qual foi a importância da expedição de 1501?
22) Quais medidas foram tomadas por Martim Afonso de Sousa?
23) O que eram as Sesmarias?
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153
Capítulo
12
P
ARA continuar povoamento, a Coroa dividiu o território brasileiro em 15 faixas de terra,
as Capitanias Hereditárias, que foram entregues aos capitães donatários. O historiador
Hélio Vianna afirma que o maior motivo dessa divisão era: “O desejo de propagação da fé
católica em terras habitadas por indígenas, aliado à necessidade do povoamento e defesa das
referidas regiões ultramarinas”.
O próprio rei D. João III havia deixado
claro esses objetivos em uma carta escrita a
Martim Afonso de Sousa.
Ressalte-se que Portugal era um país
pequeno e pobre, que já havia realizado a grande
missão de navegar e construir feitorias nos
territórios da África e da Ásia. O processo de
povoamento da América estava acima dos
recursos da Coroa Portuguesa, sendo, por isso,
necessário recorrer aos recursos de particulares.
Por isso, o rei D. João III resolveu criar as
Capitanias Hereditárias. Os Capitães donatários
recebiam as capitanias através de uma Carta de
Doação, na qual estavam determinadas suas
atribuições, funções e deveres. Ao receber essas
grandes extensões de terra, os capitães donatários
deviam assegurar:
1. a propagação a fé;
2. a defesa do território;
3. a administração a justiça;
4. a distribuição de sesmarias (grandes fazendas);
5. a fundação de vilas.
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D. João III criou 14 capitanias divididas em 15 lotes distribuídos a doze Donatários. Situadas ao
longo do litoral do Maranhão a Santa Catarina, dele se estendiam até a linha determinada pelo Tratado de
Tordesilhas. Assim ficou a distribuição:
Governo-Geral
O Governo-geral foi criado em 1548 pelo rei D. João III. Ele mesmo expressou os motivos
dessa nova forma administrativa:
“Vendo eu quanto serviço de Deus e meu é conservar e enobrecer as Capitanias e povoações das terras do
Brasil e dar ordem e maneira com que melhor e mais seguramente se possam ir povoando para exalamento
da nossa santa fé e proveito de meus Reinos e senhorios, ordenei ora de mandar nas ditas terras fazer uma
fortaleza e povoação grande e forte em um lugar conveniente, para daí se dar favor e ajuda às outras
povoações e se ministrar a Justiça e prover nas coisas que cumprirem a meu serviço e aos negócios de
minha Fazenda e bem das partes”.
Como se vê, não se tratava de uma substituição das Capitanias, mas da criação de um centro
de unidade para lhes dar favor e ajuda. Foram criados os cargos:
1. Governador-Geral, responsável pelo governo de todo território brasileiro;
2. Ouvidor-Geral, responsável pela aplicação da justiça;
3. Provedor-Mor, responsável pelo setor financeiro;
4. Capitão-Mor, responsável pelas Forças Armadas.
O primeiro Governador-Geral do Brasil foi Tomé de Sousa, que fundou, como exigido pelo
rei, uma povoação e um forte na região da Bahia de Todos os Santos, recebendo ajuda valiosa dos
Tupinambás. Esta povoação se chamou São Salvador e se tornou a primeira capital do Brasil.
O governo de Tomé de Souza foi notável em todos os sentidos e principalmente na energia que
empregou na administração pública. Além disso, Tomé de Souza se emprenhou muito na inspeção
das capitanias sob sua jurisdição; acompanhado pelo Pe. Manoel de Nóbrega, visitou Ilhéus, Rio
de Janeiro, Angra dos Reis, regularizou a administração da justiça e ordenou que se estabelecesse
fortificações. Em São Vicente, aprovou a fundação da cidade de Santos, e determinou a criação das
vilas de Conceição de Itanhaém e de Santo André.
Foi ainda no seu governo, no dia 22 de junho de 1552, que chegou ao Brasil Dom Pedro
Fernandes Sardinha, 1º bispo da Terra de Santa Cruz. Dom Sardinha foi assassinado pelos Caetés
um tempo depois. O Brasil já contava com 30 mil pessoas.
Governadores-gerais
Cabia aos governadores defender a costa brasileira, combater os indígenas rebeldes,
promover a construção de vilas, fortes e engenhos, conceder sesmarias e promover o povoamento
do território.
Ao mesmo tempo, cuidaram os governadores de sempre virem acompanhados por muitos
missionários, especialmente jesuítas, para evangelizar e educar os indígenas. Entre eles se destacam
Manuel de Nóbrega e Padre José de Anchieta.
Pe. José de Anchieta, o apóstolo do Novo Mundo, a quem se deve ter chamado à civilização
e à fé milhares de homens embrutecidos pela selvageria, e ter promovido paz entre eles e os colonos,
com riscos de vida e com grandes, constantes e penosos trabalhos.
Os Jesuítas fundaram em 1554 uma igreja e um colégio (organizado pelo Pe. José de
Anchieta), que receberam o nome de São Paulo, porque foi no dia 25 de janeiro que se inauguraram.
Naturalmente, em redor da residência dos padres, começaram a construir casas e, em pouco tempo,
a aldeia de São Paulo que cresceu rapidamente. E foi essa vila que, com o correr do tempo,
transformou-se em riquíssimo centro de atividade civilizadora, até chegar a ser uma grande cidade,
essa imponente, bela, vasta e soberba metrópole, que é hoje a capital do estado mais rico do Brasil.
3. Mem de Sá (1557-1572): este governador teve de enfrentar duros ataques, dos quais saiu
vitorioso, por parte dos indígenas que formaram a Confederação dos Tamoios, cuja finalidade
era destruir as vilas portuguesas. Além disso, foi responsável por expulsar os franceses que
tinham se estabelecido no Rio de Janeiro. Depois da expulsão, Mem de Sá fundou a cidade de
São Sebastião do Rio de Janeiro em homenagem ao rei de Portugal Dom Sebastião.
4. Luiz de Vasconcelos (1572): este governador pereceu na viagem para o Brasil, sendo enforcado
por piratas franceses junto com 70 jesuítas, dos quais foram 40 canonizados.
Câmaras Municipais
As Câmaras Municipais eram órgãos encarregados de administrar as vilas e cidades
brasileiras, cujas funções eram:
➢ administração e policiamento;
➢ execução de obras públicas;
➢ urbanização;
➢ regulamentação das feiras e dos mercados;
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➢ limpeza urbana;
➢ criação de impostos locais e o valor dos salários dos trabalhadores livres.
Os engenhos de Açúcar
A produção de açúcar sempre foi um destaque da agricultura brasileira. Por três século ela
foi predominante, até que no século XIX se iniciou o cultivo em larga escala do café. Para a
produção do açúcar eram necessárias grandes fazendas e muita mão de obra. Essas fazendas eram
chamadas de Engenho (unidades de produção de açúcar). Faziam parte do engenho:
1. o canavial;
2. os equipamentos para produção do açúcar;
3. a casa-grande (do senhor do engenho), a senzala (alojamento dos escravos) e a capela;
4. reserva florestal.
A sociedade brasileira
A sociedade brasileira do século XVI era composta por três classes:
1. a mais humilde era formada de escravos, índios ou africanos. Os negros eram mais numerosos,
pois os índios opunham grande resistência à escravidão e se refugiavam no seio dos sertões;
2. vinha depois a classe dos portugueses que viviam dos seus salários: feitores, oficiais mecânicos,
mestres de açúcar, criadores de gado e lavradores em geral;
3. depois vinha a nobreza do país que era constituída pelos senhores de engenho. Estes possuíam
tudo em suas próprias fazendas: os escravos, moendas, cobres, formas, teares, as criações, lenha,
canaviais. Tinham, em geral, igreja e vigário, o qual se tornava, geralmente, o mestre-escola. O
senhor de engenho remetia a safra diretamente para a metrópole e de lá recebia, em pagamento,
vinhos, fazendas, etc.
O Comércio
O comércio era realizado pelos Mascates. Havia pouco dinheiro, por isso faziam transações
com a permuta de gêneros (escambo). Os lares dos mais ricos senhores não tinham conforto. Não
havia ainda pontes, estradas e as festas eram exclusivamente religiosas, exceto nos grandes centros
onde havia cavalhadas e touradas.
A União Ibérica
Em 1578, o rei Dom Sebastião marchou para a África a fim de combater os muçulmanos em
uma espécie de cruzada. Todavia, em uma batalha na região Alcácer-Quibir, em Marrocos, o rei
desapareceu. Assim, desapareceu também a Dinastia Avis, pois Dom Sebastião não possuía
nenhum herdeiro. . Assumiu o trono português seu tio-avô, o Cardeal Dom Henrique, que faleceu
no ano seguinte. Dessa forma, o Trono de Portugal se tornou vacante. O candidato mais adequado,
devido à união de dinastias, era o rei da Espanha Dom Felipe II. Em 1580, Felipe II se fez aclamar
rei de Portugal e Espanha. Deu-se início ao período chamado União Ibérica (1580-1640), onde
Portugal e seus domínios passaram a ser administrados pela Coroa Espanhola.
Neste período, a Espanha também comandava os Países Baixos (Bélgica e Holanda). Porém,
em 1581, os colonos dessa região se revoltaram e conseguiram se separar da Espanha, formando
um novo país, a Holanda.
Invasões holandesas
Como Portugal nesse período pertencia à Espanha, a Holanda passou a ser a sua inimiga. Os
holandeses criaram, em 1621, a Companhia das Índias Ocidentais cujos objetivos eram dominar o
tráfico negreiro na África e invadir o nordeste brasileiro para controlar a produção de açúcar.
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D. João V, o Fidelíssimo
D. José I, o Reformador
D. Maria I, a Piedosa
D. Pedro I, o Libertador
D. Miguel I
D. Pedro II, o
Magnânimo
D. Maria II
Dona Isabel, a
Redentora
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Atividades
1) O que eram as Capitanias Hereditárias? Cite 4 capitães donatários.
2) Qual eram os objetivos desta divisão territorial?
3) Quais eram os deveres assumidos pelos capitães donatários?
4) Quais capitanias mais prosperaram?
5) Cite dois benefícios trazidos pelas capitanias?
6) Quando e quem criou o Governo-Geral no Brasil? Qual era o objetivo?
7) Quais cargos foram criados e quais suas respectivas atribuições?
8) Quem foi o primeiro governador-geral do Brasil? Qual foi a primeira capital?
9) Quais eram as funções dos governadores-gerais?
10) Como se deu a fundação de São Paulo?
11) O que eram as Câmaras Municipais? Quais suas funções?
12) O que fazia parte do Engenho de açúcar?
13) Quais eram as três classes da sociedade brasileira?
14) O que foi a União Ibérica? Quanto tempo durou?
15) Quais eram os objetivos da Companhia das Índias Ocidentais?
16) Cite algumas atitudes de Maurício de Nassau no Brasil?
17) Qual foi a posição de Maurício de Nassau em relação ao catolicismo?
18) Qual dinastia portuguesa restaurou o trono português em 1640?
19) O que foi a Insurreição Pernambucana?
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Capítulo
13
A escravidão dos índios e dos negros
Evidentemente, a História do Brasil não pode ser estudada de maneira ingênua, como se
tudo o que se passou fosse sempre fruto dos mais nobres sentimentos e intenções. Uma das manchas
que tingem as páginas de nossa história é a questão da escravidão, tanto dos índios quanto dos
negros. O estudo deste assunto, porém, é cheio de dificuldades e não podemos fazê-lo de modo
“apaixonado”, pois as conclusões podem ser precipitadas.
“Segundo Santo Agostinho e Santo Tomás, todo o homem é livre por natureza. A escravidão
é fruto do pecado. Os pagãos, tanto na prática como na teoria, levaram a doutrina da escravatura a
um excesso hediondo. Nos primeiros séculos da era cristã existiam tantos escravos no mundo, que,
sem comprometer gravemente a ordem social, não era possível alforriá-los a todos de uma vez.
Ponderando, pois, a Igreja, de um lado esta dificuldade insuperável, do outro os grandes males que
sempre a escravatura traz consigo para o indivíduo, a família e a sociedade, começou por modificar
as ideias, ensinando a igualdade de todos os homens perante Deus, e a fraternidade universal em
Jesus Cristo. Ao serem informados desta doutrina, alguns escravos entenderam que ficariam livres
logo que abraçassem o cristianismo. A Igreja pregou a estes a submissão a seus senhores pelo amor
a Jesus Cristo. Inculcava no mesmo tempo e pelo mesmo motivo aos donos que tratassem seus
escravos com humanidade e caridade. Conseguiu deste modo que a sorte do escravo fosse muito
melhorada.
Depois de conquistar a sua liberdade no tempo de Constantino, a Igreja procurou, além disso,
que a legislação civil se tornasse sempre mais branda, e favorável aos escravos. Facilitou-se deste
modo imensamente a alforria, que, em consequência de tal exortação da Igreja, muitos cristãos
outorgavam a seus escravos em diversas ocasiões. Daí alguns cristãos excessivamente fervorosos,
desejando pôr termo quanto antes à escravatura, deram-se a proteger a liberdade com desordem, e
com prejuízo dos proprietários. A Igreja reprimiu também estas irregularidades, seguindo sempre
constante o seu sistema de abolicionismo pacífico, sem comprometer a ordem social.
Foi deste modo que a Igreja Católica logrou pouco a pouco dar cabo da escravatura na
Europa. A Igreja, pois, nunca favoreceu, nem louvou ou aprovou a escravidão, mas a tolerou a fim
de evitar males maiores. Foi, pelo contrário, a Igreja Católica quem antes de qualquer outro e com
grande constância, mas sem desordem, tratou de restituir aos homens a liberdade natural”. (Jaime
Balmes)
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Passado o perigo, os próprios portugueses se manifestaram contra os jesuítas, que por seu
zelo tinham posto em risco a cidade, e poderiam fazer dos índios outros tantos inimigos. Porém, os
indígenas lembrados da verdadeira bondade com que foram tratados pelos jesuítas, e de que eram
estes os melhores amigos dos índios, foram pedir perdão e que continuassem a visitá-los. A prática
de canibalismo, contudo, continuou em segredo.
Novas dificuldades surgiram quando os índios foram acometidos por uma epidemia e,
depois, por uma tosse catarral, ambas causando muitas mortes. Disseram que as doenças eram
causadas pelas águas do batismo. Na verdade, isso era mentira dos pajés contra os padres, pois
estes estragavam o negócio torpe que praticavam estes feiticeiros.
Assim que podiam, os jesuítas faziam erguer uma capela na aldeia, para os neófitos (recém-
convertidos), e uma escola para instruí-los na leitura e na escrita. Os índios eram apaixonados pela
música, fato que contribuiu para muitas conversões quando os padres cantavam a Missa, os
sagrados ofícios e as ladainhas em procissões.
É conveniente observar desde já que a luta entre os colonos e os jesuítas teve sempre por
único objeto a liberdade e o cativeiro dos índios; que, posta a cobiça dos colonos, esta luta era
necessária aos missionários, visto como o cativeiro formava o obstáculo maior à conversão e
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período da Idade Média, quando a doutrina da Igreja foi mais respeitada, a escravidão foi reduzida
a alguns focos apenas e foi sempre vista como uma fraqueza e fruto do pecado. Jamais se verificou
na Cristandade a escravidão como base da mão-de-obra das atividades econômicas, tanto urbana
como agrária. Isso, porém, era comum na Antiguidade pagã (especialmente entre os gregos e os
romanos) e depois na Modernidade, período que estamos estudando. A escravidão jamais pode ser
justificada. A razão dos colonos da época sempre era de que eles precisavam dos escravos. Mas há
de ser possível dar por boa essa razão? Neste caso cumpre justificar também hoje todos os ladrões,
salteadores e criminosos de qualquer espécie, porque se esse motivo se desse por bom, não se
acharia que não o apresentasse para desculpar seus crimes.
Para Meditar...
A Igreja e a escravidão
Ricardo Costa
Sabe-se que no início do século XVI o dominicano Frei Domingos de Minaja viajou da
América Espanhola a Roma, a fim de relatar ao Papa Paulo III os abusos ocorrentes com relação
aos índios. Em consequência, o Pontífice escreveu a Bula Veritas Ipsa de 2/6/1537. Nesta, o
Pontífice expõe o equívoco subjacente à instituição da escravatura:
“O comum inimigo do gênero humano, que sempre se
opõe às boas obras para que apareçam, inventou um modo,
nunca dantes ouvido, para estorvar que a Palavra de Deus se
pregasse às gentes, nem elas se salvassem. Para isso moveu
alguns ministros seus que, desejosos de satisfação às suas
cobiças, presumam afirmar a cada passo que os índios das
partes ocidentais e meridionais e as mais gentes que nestes
nossos tempos têm chegado à nossa notícia hão de ser
tratados e reduzidos a nosso serviço como animais brutos, a
título de que são inábeis para a Fé católica; e, com pretexto
de que são incapazes de recebê-la, os põem em dura servidão
em que têm suas bestas, apenas é tão grande como aquela com
que afligem a esta gente”.
“Pelo teor das presentes, determinamos e declaramos Princesa Isabel, a libertadora. Esta princesa
que os ditos índios e todas as mais gentes que daqui em diante brasileira foi responsável pela Lei Áurea, que
aboliu a escravidão no Brasil em 1888.
vierem à notícia dos cristãos, ainda que estejam fora da fé Recebeu, por isso, uma rosa de ouro do Papa
cristã, não estão privados, nem devem sê-lo, de sua liberdade, Leão XIII em sinal de reconhecimento pelo
nem do domínio de seus bens, e não devem ser reduzidos à grande feito.
servidão”.
Outra pergunta que se faz é: Como os colonos portugueses praticavam este ato tão hediondo?
Justamente por não se conformarem à doutrina da Igreja. Os jesuítas tiveram grandes dificuldades
no relacionamento com os colonos portugueses, até mais do que nos hábitos e disposições dos
indígenas. Durante mais de 50 anos, os colonos tinham vivido quase sem lei, nem religião. Muitos
nunca mais se haviam confessado, nem tinham comungado desde que estavam no país. Os costumes
pagãos se espalharam por entre eles. Pe. Manuel de Nóbrega e os seus companheiros nobremente
recusaram administrar os sacramentos da Igreja aos que retinham índias por meretrizes e índios por
escravos. Este proceder resoluto e cristão reduzia muitos ao bom caminho. Poderoso é o
catolicismo, poderosa também é a avareza; mesmo com os maiores esforços dos melhores padres
continuou a prática de escravizar os índios e depois dos negros.
O elemento africano
A África sempre foi a terra da escravidão. Nos tempos antigos, viam-se africanos nas
embarcações dos cartaginenses (inimigos dos romanos) bem como nos palácios de Roma. Asdrubal,
num só dia, comprou 5 mil escravos vindos das margens do Níger.
Na época em que se começou o tráfico dos escravos, a história da África atravessava o período
da escravidão militar, ou seja, guerreiros derrotados que se tornavam escravos dos vencedores que,
muitas vezes, escravizavam tribos inteiras. Os negros que eram escravos na África acharam-se, no
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Famoso milagre das correntes. O escravo fugitivo pediu o auxílio de Nossa Senhora
Aparecida e foi libertado das correntes e do feitor que o perseguia.
Organização social
Os africanos, na ocasião do tráfico negreiro, se constituíam em tribos, submetidas algumas
ao regime patriarcal, outras a um chefe, não raro despótico. A monarquia dominava em toda a
África. A poligamia dominava. Os irmãos do pai eram considerados pais, como as irmãs da mão
eram consideradas mães. Os escravos faziam parte da família, e eram herdeiros do senhor que
morre sem sucessão. Eram chamados sobrinhos ou filhos. É por isso, talvez, que na América
tratavam os moços aos velhos de pai ou de tio. A mulher não podia ser maltratada pelo marido. O
trabalho doméstico e as pequenas lavouras eram desempenhados pelas mulheres. Os homens
ocupavam-se com a caça e a pesca. A sociedade era dividida em castas.
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O culto da família e o apego à casta eram tão grandes que os casamentos se faziam dentro
da própria casta e, quanto possível, dentro da própria família. Notam-se vestígios de instituições
jurídicas na sociedade africana. O chefe, por exemplo, é quem resolvia as contendas entre os
indivíduos e entre as tribos.
As tribos que eram governadas por um rei sofriam terríveis torturas. Os reis eram, em geral,
de uma crueldade inominável. Seus servidores eram verdadeiros joguetes, sem amparo, sem asilo,
em suas mãos. Não era raro ver, nestas cortes africanas, homens mutilados, sem nariz, sem orelha
ou sem mãos.
Uso e costumes
Os negros viviam em
tendas, feitas de juncos e de
palmas, sustentadas por varas de
bambus. Troncos de madeira
fazem as vezes de mesa e
cadeiras. Peles, palhas ou
tarimbas servem de cama.
Internamente, estas tendas não
têm divisão nenhuma; as
paredes são revestidas de barro;
o ar e a luz só podem penetras
pela porta de entrada. No
entanto, à noite, na choupana hermeticamente fechada, viviam muitas pessoas de uma família, às
vezes oito ou mais, além de galinhas, cabras, cães e ovelhas. Em redor das tendas, construíam uma
cerca de troncos de árvore em volta dos quais se teciam galhos e ramarias.
Os utensílios eram primitivos. Desde os tempos mais antigos conheciam a arte de fazer louça
de barro. As vestimentas das mulheres limitavam-se a blusas e saias de pano muito ordinário. As
mulheres gostavam de se enfeitar com brincos, colares e pulseiras de conchas ou de terracota. A
tatuagem servia de ornamento aos homens.
Os africanos conheciam a virtude de certas plantas medicinais. O emprego de tais plantas,
entretanto, era acompanhado de “mil exorcismos”, pois eram muito supersticiosos. Acreditavam
em zumbis, espíritos dos mortos, e presumiam que eram eles que revelavam aos feiticeiros tudo
que é secreto e desconhecido. Os feiticeiros gozavam de grande prestígio; levavam consigo
inúmeros ídolos (mandingas), os quais eram distribuídos como amuletos em troca de alguma
esportula. Era crença geral que os maus espíritos andavam soltos pelo mundo. Para espantá-los,
existiam os “diabos fingidos” – homens que se fantasiam e andam pelos campos e pelas aldeias
“espantando” os espíritos malignos.
O comércio se fazia em geral por meio de feiras, e como as tribos vizinhas eram muitas
vezes inimigas, escolhia-se para o local da feira um terreno neutro. As mulheres eram as mercadoras
mais ativas.
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Crenças
Os negros eram feiticistas. As tribos adiantadas admitiam a existência de um criador, a quem
atribuíam o bem e o mal. Abaixo dele adoravam muitos orixás, divindades secundárias
representadas por figurinhas de terracota, de madeira ou de marfim, dos quais tudo esperavam e
aso quais tudo pediam. Os ministros desses orixás, espécie de pajés entre os índios, gozavam do
maior acato e respeito. As mulheres também podiam ser danwês, depois de passarem 3 anos de
iniciação no culto aos orixás.
Nas tribos atrasadas reinava o mais grosseiro feiticismo; qualquer objeto podia servir de
feitiço. Cultuavam também certo animais, como a serpente e o boi. A superstição dominava o
espírito do negro, fazendo com que a tarefa dos missionários fosse penosíssima. As conversões são
bastante frequentes, mas muitos negros nunca abandonaram de todo a sua feitiçaria e o seu
feiticismo.
O Tráfico Negreiro
O tráfico no Brasil é quase tão antigo quanto a descoberta da terra. Deve remontar mais ou
menos à data de 1532. Para aqui vinham os negros de todas as colônias africanas (Angola,
Benguela, Moçambique, e das ilhas do mar da Guiné, Fernando Pó, São Tomé, Príncipe, Ano Bom).
Havia, no continente africano, entrepostos que faziam o comércio de escravos. Os príncipes
africanos ambiciosos, procuravam abrir luta com seus vizinhos, a fim de escravizá-los e de vendê-
los, em seguida, aos traficantes portugueses. Percebam que a prática da escravidão era generalizada,
sendo aplicada até mesmo entre os próprios africanos.
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Esta imagem representa um escravo sendo vendido por outros povos africanos em troca de produtos,
como armas, cachaça, etc.
Assim é que, através dos sertões africanos, se viam filas e filas de negros escravizados,
oriundos das tribos mais diversas, amarrados uns aos outros para dificultar a fuga, marcados a ferro
em brasa com o carimbo, chicoteados pelos Tumbeiros. Eram levados para os presídios (Caconda,
Ambaca, Canjango) e depois embarcados nos principais portos (São Paulo de Loanda, São Filipe
de Benguela ou Porto Novo).
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A Travessia
Atirados no porão de navios imundos, estavam sujeitos às diversas moléstias, como o mal de Loanda,
a bexiga, o sarampão, dizimam as levas de escravos. Os maus tratos, a fome, a falta de higiene liquidam
outras. E, afinal, muitos se atiram ao mar ou morrem, vítimas do Banzo, da nostalgia, da saudade da terra.
Neste poema de Castro Alves percebemos os horrores da travessia:
Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!
Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...
Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!
No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."
E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!
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O Cativeiro no Brasil
No Brasil, os negros foram concentrados na zona litorânea e de preferência nos estados do Norte.
Os Cacimbos e os Gingas eram procurados pela sua forte estatura e bela corpulência. Os congos ou
cabindas, mais franzinos, eram mais dóceis e desempenhavam-se admiravelmente nos serviços domésticos.
Ao negro foram entregues os trabalhos dos engenhos, dos campos, do tráfego urbano, da
cabotagem, das fábricas, das oficinas e do comércio.
Viviam nas senzalas, amontoados sem higiene, fiscalizados pelo feitor, o qual, de chicote em punho,
punia cruelmente as suas faltas mais insignificantes. A chibata era o castigo habitual. Geralmente, era no
terreiro que se amarravam os negros ao pelourinho, e que se lhes arrancava a pele, a golpes de chicote. Não
havia casamento entre os negros, salvo com o consenso do senhor. Quando incidiam em culpas mais graves
que de costume, eram supliciados com instrumentos bárbaros, anéis de ferro que lhes apertavam a garganta
ou prendiam as mãos aos pés, ou, finalmente eram enforcados.
O negro protestou como pode.
Muitos morriam de saudades da terra, outros
suicidavam-se sumariamente, alguns
envenenavam-se ou fugiam para morrer às
mãos dos índios. As leis portuguesas,
entretanto, abrandavam o cativeiro dos
negros, pelo ensino religioso, pelo batismo
e, às vezes, pelo casamento diante do altar,
e, enfim, a possibilidade do resgate,
mediante um preço, pago à vista.
Atividades
1) Copie esta frase:
Segundo Santo Agostinho e Santo Tomás, todo o homem é livre por natureza. A escravidão é
fruto do pecado.
2) Qual sistema adotado pela Igreja no que diz respeito à escravidão?
3) Qual principal objetivo dos jesuítas em relação aos indígenas?
4) Qual era o objetivo da luta dos jesuítas contra os colonos portugueses?
5) Ao que precisamente os jesuítas se opunham em relação ação dos colonos portugueses com os
indígenas? Qual ação dos portugueses era aceita pelos jesuítas?
6) Por que os jesuítas não se opuseram à escravidão do negro?
7) Qual era a razão dada pelos colonos para usarem mão-de-obra escrava? Pode ser dada por boa
esta razão? Por que?
8) Cite alguns documentos da Igreja que condenavam a escravidão?
9) Como os colonos portugueses praticavam este ato tão hediondo?
10) Como se organizavam os africanos na ocasião do tráfico negreiro?
11) Como as sociedades africanas eram divididas? Como eram, geralmente, os reis africanos?
12) Como se dava o comércio entre os africanos?
13) O que eram os candomblés?
14) Qual era a religião dos africanos?
15) De quais colônias vinham os escravos para o Brasil?
16) Quem levava os escravos para os traficantes portugueses?
17) Como eram as travessias dos escravos até o Brasil?
18) Onde os negros foram concentrados no Brasil? Que tipo de trabalho foi entregue a eles?
19) Como os negros se opuseram à escravidão? Como as leis portuguesas abrandaram a situação
do negro no Brasil?
20) O que eram os Quilombos? Qual o mais famoso dos quilombos? Quem era o seu líder?
21) Copie esta frase:
Os escravos são as mãos e o pés do senhor do engenho; porque sem eles, no Brasil, não é
possível fazer, conservar e aumentar a fazenda, nem ter engenho corrente.
22) Cite algumas comidas e algumas palavras de origem africana que fazem parte da cultura
brasileira?
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Capítulo
14
Introdução
Antes mesmo de Cabral aportar seu navio em terras brasileiras, havia um tratado assinado
entre as Coroas de Portugal e de Espanha que ficou conhecido por Tratado de Tordesilhas (1494).
Este tratado consistia em uma linha imaginária a 370 léguas da Ilha do Cabo Verde. Todas as terras
que estivessem à esquerda da linha pertenceriam à Espanha, e todas as que estivessem à direita
seriam de Portugal. Esse tratado permaneceu inalterado até o século XVIII.
Depois do descobrimento, por dois séculos, os portugueses se limitaram a povoar o litoral
brasileiro. Isso se deu por causa da falta de recursos e da violência indígena. Contudo, no início do
século XVIII, iniciaram-se diversas expedições cujo objetivo era a interiorização das terras
portuguesas.
Expansão territorial
Além da atuação dos reis portugueses, outros agentes podem ser considerados fundamentais no
processo de expansão territorial brasileira:
1. as entradas e os bandeirantes;
2. os jesuítas;
3. os criadores de gado.
As entradas e os bandeirantes
As entradas e as bandeiras foram movimentos de expansão territorial que proporcionaram
ao país a sua configuração geográfica.
Os tipos de bandeiras:
1. Ciclo do apresamento de índios: tinha o objetivo de escravizar indígenas do interior do Brasil.
2. Ciclo do ouro: tinha o objetivo de descobrir metais e pedras preciosas.
3. Ciclo do sertanismo de contrato: as bandeiras eram contratadas normalmente para destruir os
quilombos, redutos de escravos fugitivos
4. Ciclo de povoamento: tinha o objetivo de descobrir novas regiões para habitar.
Ciclo do Gado
Tanto o ciclo do pau-brasil quanto o do açúcar tiveram por cenário apenas o litoral do Leste
e do Nordeste brasileiros, sem que de modo sensível penetrassem no vago e misterioso sertão, ainda
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ocupado por tribos selvagens. Determinava essa situação o desinteresse econômico por qualquer
tentativa de fixação de povoadores em regiões mais afastadas do mar. A solução encontrada para o
povoamento do sertão forneceu-a a criação de gado, atividade econômica essencialmente fixadora
de populações, mesmo escassas.
Os principais bandeiristas são: Antônio Rapôso Tavares, Fernão Dias Pais, Bartolomeu
Bueno da Silva, Manuel Borba Gato, Domingo Jorge Velho e Nicolau Barreto.
Os Jesuítas
Os jesuítas se constituíram em grandes defensores dos indígenas contra os homens que
desejavam escravizá-los. Para os jesuítas era necessário evangelizar e civilizar os índios e jamais
escravizá-los. Alguns bandeirantes, no entanto, chegaram a atacar as missões jesuítas para prender
indígenas. O caso chegou até a Santa Sé, mas, mesmo com a condenação da escravidão feita pelo
Papa, o processo de escravidão continuou no Brasil.
Formação das missões: com o tempo, os indígenas saíram do litoral para habitar o interior. Os
jesuítas os seguiram e formaram as missões, locais de trabalho e de oração, principalmente na
Amazônia e no Sul do Brasil. As missões foram atacadas pelos bandeirantes paulistas que queriam
escravizar os índios.
A Revolta de Beckman
1680-1684
Local: Maranhão
Envolvidos na revolta: a Coroa portuguesa e os jesuítas versus os colonos maranhenses.
Motivos da revolta:
1. a Coroa proibiu a escravidão dos índios;
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Os Criadores de Gado
Com o advento da cana-de-açúcar, os criadores de gado passaram a procurar pastos cada vez
mais pelo interior. Essa expansão seguiu o curso dos rios, principalmente o São Francisco e o
Parnaíba, contribuindo para a expansão do território.
O gado no Sul: atraídos pelos rebanhos sem dono no Sul, os paulistas fundaram diversos
povoados no Sul do Brasil. Com o advento da mineração, o gado passou a ser utilizado como animal
de carga. Com isso, formaram-se as estâncias, terras cercadas, onde se produzia o charque (carne
salgada) que era vendido no mercado interno.
As Novas Fronteiras
Como vimos, os habitantes do Brasil ocuparam grandes áreas de terras que iam além de
Tordesilhas. Por isso, a Coroa firmou acordos internacionais para oficializar as conquistas.
➢ Tratado de Utrecht (1713).
➢ Tratado de Madri (1750).
➢ Tratado de Santo Ildefonso (1777).
➢ Tratado de Badajós (1801).
Tratado de Madri
A solução para a problemática das fronteiras entre Portugal e Espanha foi resolvida pela
atuação diplomática do secretário do rei de Portugal, o brasileiro Alexandre de Gusmão.
O Tratado de Madri definiu o princípio “uti possidetis”, que determinava que cada país
ficasse com a parte com que realmente já possuísse no momento. Após alguns conflitos no território
brasileiro, o tratado foi anulado, sendo restabelecido apenas em 1777 pelo Tratado de Santo
Ildefonso. Dessa forma, o Brasil ficou geograficamente definido.
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Povoamento de Minas
O afluxo de pessoas para a região das minas foi intenso, vindos das capitanias de São Vicente
e Rio de Janeiro, especialmente. Inicialmente, houve grande escassez de mantimentos. Para
resolver o problema de falta de alimentação, era trazido o gado para Minas.
Intendência da Minas
A Coroa organizou rapidamente um sistema de exploração das minas:
➢ distribuição das datas (lotes auríferos).
➢ criação da Intendência de Minas (1702): responsável pela cobrança dos tributos, policiamento
e justiça local.
Casas de Fundição
Em 1719, a Coroa decretou a criação das Casas de Fundição, cujos objetivos eram fundir,
tributar (quinto) e transformar em barras e moedas o ouro.
Todo o ouro encontrado deveria ser submetido às casas de fundição. Isso gerou uma revolta
em Vila Rica liderada pelo português Felipe dos Santos. A revolta foi vencida, e Felipe foi
enforcado. Em 1725, a criação das Casas de Fundição se efetivou.
Diamantes
Os diamantes foram descobertos no Arraial do Tijuco, no nordeste de Minas Gerais. Para
garantir um controle eficiente da região, a Coroa criou o Distrito Diamantino.
As regras para a exploração de diamantes tiveram três momentos:
Intendência dos Diamantes (a partir de 1734) → semelhante ao do ouro nas minas → concessão
de datas e cobrança do quinto.
Contratos de Monopólio (1740-1771) → um contratador tinha o monopólio da exploração.
Real Extração (depois de 1771) → quando a Coroa assumiu o controle direto da atividade no
Distrito.
Consequências da Mineração
1. Ocupação de vastas áreas do território colonial.
2. Florescimento da vida urbana.
3. Mudança da capital de Salvador para o Rio de Janeiro (1763).
4. Consolidação do mercado interno. A mineração movimentou a economia de todo território
colonial.
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Atividades
1) Quais são os agentes que contribuíram para o processo de expansão do território do Brasil?
2) O que são as Entradas e as Bandeiras?
3) Quais são os tipos de Bandeiras e seus respectivos objetivos?
4) Quais são os principais vultos dos bandeiristas?
5) Como se formaram as missões jesuíticas?
6) Quais foram os motivos da Revolta de Beckman?
7) Por que os criadores de gado foram obrigados procurar pastos cada vez mais pelo interior?
8) Quais são os tratados que redefiniram as fronteiras do Brasil?
9) O que é o princípio de uti possidetis?
10) Quais foram as principais regiões das minas exploradas?
11) Como se deu o processo de povoamento da região das minas? Relate os problemas e soluções
adotados.
12) Quais são os tipos de mineração adotados no Brasil?
13) O que são Datas?
14) Quais eram as funções da Intendência das Minas?
15) Qual foi o motivo da Guerra dos Emboabas?
16) Quais eram a funções das Casas de Fundição?
17) Quais são as consequências do processo de mineração do Brasil?