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O documento discute a importância da Igreja na Idade Média, destacando seu papel na manutenção da ordem social e na luta contra a corrupção e simonia. A luta entre o papado e o império, especialmente durante o pontificado de São Gregório VII, é abordada, culminando na concordata de Worms que assegurou a liberdade da Igreja. Além disso, menciona as heresias, a criação de ordens religiosas como os Franciscanos e Dominicanos, e a instituição da Inquisição para lidar com questões de heresia.
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O documento discute a importância da Igreja na Idade Média, destacando seu papel na manutenção da ordem social e na luta contra a corrupção e simonia. A luta entre o papado e o império, especialmente durante o pontificado de São Gregório VII, é abordada, culminando na concordata de Worms que assegurou a liberdade da Igreja. Além disso, menciona as heresias, a criação de ordens religiosas como os Franciscanos e Dominicanos, e a instituição da Inquisição para lidar com questões de heresia.
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Capítulo

1
F
OI importantíssimo o papel da Igreja na Idade Média. No meio das violências e não raro a
anarquia, o clero representou o princípio da ordem, salvou os restos da civilização e
esforçou-se por suavizar a brutalidade dos costumes, auxiliando os fracos e os pequenos.
A ação do papado sobre a sociedade tornou-se cada vez sensível e benéfica. Até a época de
Constantino, a sociedade cristã, ainda não legalmente reconhecida, trabalhou somente para se
estabelecer. Durante a invasão dos bárbaros, os papas haviam-se aplicado especialmente a suavizar
a sorte das populações católicas vencidas contra os vencedores heréticos e pagãos. Terminada a
invasão, trabalharam pela regeneração social.

Enquanto os imperadores de Constantinopla estiveram de posse de Roma, o papa, foi


considerado por eles como um funcionário religioso. Os imperadores pretendiam intervir em
questões de Fé, com as quais nada tinham que ver e ditar as crenças dos cristãos. Os papas resistiam
e aspiravam à independência de Roma, para assegurar a independência espiritual.
O primeiro que se aproximou desse objetivo foi Gregório I, o Magno (VI – VII), que
conseguiu a completa conversão ao cristianismo de todos os povos do Ocidente, desde os Visigodos
da Espanha até o Anglo-Saxões da Grã-Bretanha.
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A intervenção dos Francos e de Pepino, o Breve, assegurou a independência dos Papas.


Tendo tirado aos Lombardos, em 756, os territórios que eles haviam conquistado aos Gregos,
Pepino deu-os ao Papa Estêvão II. Tornaram-se os papas verdadeiros soberanos temporais, reis do
patrimônio de São Pedro, mais tarde denominado Estados da Igreja.

A Igreja e o Império
O acontecimento mais importante do século XI é a luta entre o sacerdócio e o império, entre
os papas e os imperadores da Alemanha, combatendo aqueles pela independência do poder
espiritual, esforçando-se estes por concentrar em suas mãos os dois poderes, espiritual e temporal1.
O Papa São Gregório VII e o imperador Henrique IV personificam particularmente tal luta,
felizmente terminada pela vitória do Papado, isto é, pelo triunfo da Igreja.

Pontificado de São Gregório VII (1073 – 1085)


Em meio das contínuas guerras que afligiam a Europa e ameaçavam a volta à barbárie, a
disciplina eclesiástica havia-se relaxado. Os bispos, que se tornaram senhores feudais, em breve
adquiriram os costumes dos senhores leigos. Os mosteiros haviam desaparecido, ou pouco a pouco,
tinham abandonado a severidade de suas regras. Para cúmulo de desgraças, puseram-se os
soberanos a vender as dignidades eclesiásticas a homens ambiciosos e corruptos, e a simonia
chegou a atingir a Santa Sé. Tal é o triste espetáculo que apresentava a sociedade cristã no século
décimo.
Mas já apareciam os elementos de regeneração. A regra de São Bento, restaurada pelo
Mosteiro de Cluny, preparava uma geração de santos. Daí saiu a grande reforma do século XI, e lá
Hildebrando, mais conhecido pelo nome de Gregório VII, amadureceu seus projetos de
restabelecimento da disciplina.
Por causa da morte de Alexandre
II, Hildebrando foi aclamado Papa
unanimemente pelo clero e pelo povo.
Filho de um carpinteiro de Toscana,
educado nos austeros princípios da
ordem de Cluny, e conselheiro dos
Papas. Era preciso restabelecer a
disciplina eclesiástica, extirpar a
simonia, e estabelecer definitivamente a
independência da Igreja. Os príncipes,
acostumados a tirar grande lucro da
venda das dignidades eclesiásticas, e os
padres e bispo eleitos por abuso, e por
conseguinte entregues a toda sorte de Abadia de Cluny

1
Esta interferência do poder dos imperadores nos assuntos da Igreja ficou conhecida como Cesaropapismo.
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desordens, não estavam dispostos a ceder. O princípio do mal eram as investiduras; para elas
Gregório VII dirigiu todos os esforços. Chamava-se investidura a cerimônia que consistia em pôr
de posse de um benefício ou dignidade por meio de símbolos adequados: o báculo e o anel,
símbolos da dignidade episcopal; o cetro ou a espada, da autoridade civil ou militar. Como os bispos
se haviam tornado ao mesmo tempo senhores leigos, o cetro, o báculo e o anel representavam-lhes
o duplo poder, e os príncipes pretendiam dar a investidura com os três símbolos, dispondo assim
da dignidade episcopal e violando os cânones da Igreja. Protestaram os pontífices: daí a luta das
investiduras.

Questão das investiduras


São Gregório VII começou por Roma (1074). Medidas enérgicas foram tomadas contra a
simonia e demais abusos. Filipe I da França e Henrique IV, imperador, prometeram expurgar de
seus domínios o escândalo da simonia; mas Henrique IV não cumpriu por muito tempo o que
prometeu, e aqueles sacerdotes que se sentiam culpados fizeram violenta oposição. Os monges de
Cluny, os bispos e os padres que conservavam a dignidade do próprio estado, e o povo, que sofria
muito com as desordens de certa porção do clero, auxiliaram o Pontífice e a reforma começou.
Com Henrique IV não cumpriu com as
proibições do Papa, Gregório VII escreveu-lhe para
que ele respeitasse as decisões pontifícias. O
Imperador tentou depor o Papa, reunindo em Worms
um sínodo composto quase exclusivamente de bispos
simoníacos (que haviam comprado a dignidade
episcopal). Então Gregório VII excomungou a
Henrique IV.
Vendo-se, em consequência da excomunhão,
sem o auxílio dos grandes vassalos e tendo-se
reunido em Tribur uma dieta para eleger novo rei,
Henrique IV submeteu-se a tudo para não perder a
coroa. Foi à Itália, ao castelo de Canossa, implorar
perdão ao Papa e voluntariamente fez áspera
penitência. Pouco depois, porém, tentou apoderar-se
da pessoa do Papa e recomeçou as desordens
anteriores. Então os príncipes depuseram-no e
elegeram Rodolfo de Suábia. Henrique, sustentado
por uma parte do império, fez proclamar um antipapa
e foi cercar Roma. O cerco durou 3 anos, graças à
energia do Papa. Enfim chegaram os Normandos em
socorro do Pontífice.
Henrique IV em Canossa para pedir perdão a São Gregório
Gregório VII morreu pouco depois (1085)
VII. Por Eduard Schwoiser, 1862
exclamando: “Odiei a injustiça e a iniquidade, eis
porque morro no exílio”.
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A concordata de Worms
Henrique IV não tardou a ser abandonado pelos “sucessos”. Vencido, combatido por seus
próprios filhos, alvo de geral desprezo e ódio, morreu miseravelmente.
A luta, porém, continuou. Henrique V, que a princípio fingira devoção, recomeçou a questão
das investiduras. Finalmente, em 1122 a concordata de Worms resolveu a questão, renunciando o
imperador à investiduras pelo anel e báculo, ficando-lhe a do cetro.
Foi assim assegurada a liberdade da Igreja, que se viu não somente livre da tirania dos
imperadores, como também radicalmente reformada em sua disciplina.

As heresias
Numerosas foram as heresias no período medieval. Umas provinham de velhos erros
sobreviventes; outras do desejo de reagir contra o espírito mundano e a riqueza do clero, a fim de
reconduzir a Igreja à simplicidade evangélica. Tais foram os Valdenses e os Albigenses.
Pedro Valdo, rico negociante de
Lyon, comovido com a leitura do
Evangelho e da vida dos Santos, distribuiu
seus bens aos pobres, mandou traduzir em
vulgar a Bíblia e pôs-se a pregar com os
outros leigos e algumas mulheres. Foi
excomungado pelo arcebispo de Lyon e
depois pelo terceiro concílio lateranense
(1177). Os valdenses (seguidores de Pedro
Valdo) foram novamente condenados em
Pedro Valdo em Roma, explicando-se aos inquisidores e ao Papa 1185 pelo Papa. A seita continuou, com
Alexandre III, em 1179 (Terceiro Concílio de Latrão). diversos nomes, nos Alpes piemonteses
até o século do Reforma Protestante. Os
Valdenses, aliás, eram como precursores dos reformados, só admitindo a exclusiva autoridade da
Bíblia, rejeitando os sacramentos, indulgências, culto dos santos, sacerdócio, etc. Com Inocêncio
III, alguns voltaram ao seio do Catolicismo; outros, mais tarde, adotaram as ideias de Huss e de
Calvino.
Desde o século X, aliás, a heresia invadira a Europa, vinda do Oriente com o neo-
maniqueísmo; foi, porém, nos séculos XII e XIII que, sob o nome de catarismo, rapidamente
progrediu. Os cátaros (do grego, puros) tinham tomado do maniqueísmo a concepção dualista do
mundo, admitindo a existência de dois deuses opostos, um princípio do bem, outro princípio do
mal, ambos eternos e independentes. Rejeitavam a missa, os sacramentos, as relíquias, as imagens,
o culto da cruz e todo Antigo Testamento, “obra do deus do mal”. Repeliam em bloco a liturgia,
condenavam a guerra e, pela proibição de qualquer juramento, abalavam os alicerces da sociedade
feudal. Os Valdenses não parecem terem admitido a teologia maniqueísta dos Cátaros, mas
participaram de suas teorias antissociais.
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Como o principal foco do catarismo era a cidade de Albi, os Cátaros ficaram mais
conhecidos na França pelo nome de Albigenses. Tentou-se primeiro convertê-los, empregando
meios persuasivos. São Bernardo e outros monges pregadores percorreram a região infestada e por
algum tempo houve esperança de triunfar. Engano: apenas tinha regressado São Bernardo, a
propaganda albigense recomeçava mais forte. Como atacavam publicamente, não só a fé, mas a
própria ordem social (chegando em certos casos a condenar o casamento e a obediência às
autoridades temporais), resolveu-se organizar contra eles uma cruzada. Sob o comando de Simão
de Monfort, muitos nobres acorreram ao combate, mais atraídos pelos ódios de raça e esperança de
lucro do que propriamente pelo zelo ortodoxo. A guerra durou vinte anos, a que Branca de Castela,
mãe de São Luís, pôs fim de 1229. Inocêncio III lamentou que a espada fizesse tantas vítimas. Para
acabar mais humanamente a obra começada e restabelecer a unidade religiosa, fundou-se o tribunal
da Inquisição.

As Ordens Religiosas
Justamente por essa época eram criadas duas ordens
religiosas que correspondiam perfeitamente às novas
necessidades da Igreja e iam dar poderoso impulso à obra de
reforma espiritual. Eram os Franciscanos, criação de um
italiano, São Francisco de Assis (1210) e os Dominicanos,
fundação de um espanhol, São Domingos (1215). Ambas as
ordens entregavam-se à pregação; os Dominicanos
particularmente brilhavam na teologia e no direito canônico; os
Franciscanos, ao cabo de meio século, exerciam tal influência
social, que só os religiosos eram cerca de 200.000. Errando a
pé através da Europa, sob as soalheiras ou os ventos glaciais,
repelindo a esmola pecuniária, mas recebendo reconhecidos o
mais grosseiro alimento, despreocupados do amanhã, mas
constantemente preocupados em arrancar de Satanás as almas,
São Francisco de Assis encontrando São tal a forma porque os primeiros dominicanos e os franciscanos
Domingos Gusmão. se ofereceram aos olhos dos homens.
Diferiam essas duas ordens das outras já existentes, pela regra de absoluta pobreza e pela
vida não isolada em mosteiros, mas ao contrário nas cidades, entre o povo. Graças às Ordens
Terceiras, recrutadas entre os leigos, maior ia ser a penetração social; principalmente com a Ordem
Terceira de São Francisco.

A Inquisição
“A palavra inquisição designa primitivamente uma forma de processo distinta da acusação
e da denúncia. Foi o Papa Gregório IX que, por volta de 1231, fundou o instituto comumente
chamada “inquisição”, isto é, confiou o conhecimento das causas de heresia (que por si pertence
aos bispos) a comissários especiais, tirados do clero regular (as mais das vezes na ordem de São
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Domingos). Os sucessores de Gregório IX prescreveram aos inquisidores consultar os bispos, e


convidaram-nos também a se cercar por um conselho de peritos, clérigos ou leigos. O emprego da
tortura foi autorizado nos tribunais da Inquisição por Inocêncio IV.
A penalidade mais grave contra os hereges, no tempo de Inocêncio III e do Concílio de
Latrão (1215) consistia no banimento e no confisco. Depois os costumes populares e legislação de
Frederico II (1224), que Roma aprovou (1231), introduziram a pena do fogo. A Inquisição, tribunal
eclesiástico, não condenou jamais diretamente à morte; verifica, porém, o fato da heresia, pronuncia
que a Igreja nada mais tem que fazer com o réu, e entrega-o ao “braço secular”. Inflige diretamente
outras condenações (prisão, obrigação de fazer peregrinações ou de trazer cruzes nas vestes, etc.);
essas penas menos duras eram a conclusão mais frequente dos processos de heresia. Seria
compreender mal a Inquisição, crer que as diferentes penas, inclusive a de morte, eram aplicadas
aos réus em razão do caráter particularmente antissocial dessa ou daquela heresia; a verdade é que
na Idade Média qualquer heresia era considerada antissocial e anárquica, sendo uma revolta contra
o poder espiritual, cujo reconhecimento se pressupõe ao participar dos bens da sociedade civil”.
(Texto de Huby)

Pintura de 1683 de Francisco Rizi retratando um auto de fé na Plaza Mayor, Madrid, em 1680

“A Inquisição, encarregada de julgar os hereges, é uma instituição cujo mecanismo e cujo rigor se
explicam pelos costumes e ideias do tempo” (Vacandar). Quanto às vítimas entregues ao braço secular,
facilmente se lhes tem exagerado o número. “Não é absolutamente paradoxal afirmar que os hereges
ganhavam em ser julgados pela Inquisição monástica. Basta lembrar o que foram as vinganças religiosas
exercidas pelas multidões ou até por um imperador que já no século XIII assumia uma postura de livre
pensador, Frederico II, para compreender que os tribunais que são obra dos papas, realizavam verdadeiro
progresso no exercício da justiça. Não somente esses tribunais encerraram a era das execuções sumárias,
mas ainda diminuíram consideravelmente o número das condenações que tinham por consequência a pena
de morte. Disso dão fé os documentos. E um escritor nada suspeito de ternura para com a Igreja, M. Charles
Lea, pode, em verdade, escrever: “Comparativamente, as fogueiras da Inquisição fizeram poucas vítimas”.
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Os grandes Papas
Gregório VII, Inocêncio III e Bonifácio VIII são os três pontífices que mais se distinguem
pela sua energia na defesa do Papado na Idade Média. Já vimos como, na questão das investiduras,
Gregório VII conseguiu vencer os obstáculos que lhe opunham não só os soberanos da França e da
Alemanha, mas o próprio relaxamento da disciplina eclesiástica. A concordata de Worms (1122)
liquidou a questão das investiduras, mas a luta entre o pontificado e o império prosseguiu. Era o
Papa um vassalo do imperador, ou este pelo contrário sujeito ao Pontífice, que é chefe supremo da
Cristandade? Não há dúvida que Gregório VII, Inocêncio III e Bonifácio VIII se consideraram
investidos por Deus da alta missão de árbitros entre os povos e seus soberanos, de protetores da
ordem social cristã... Todos os povos reconheciam e confirmavam este papel que o Papado exercia
de ministério público, de suserania religiosa, universal, que não ia até absorver o poder civil no
espiritual, mas antes a vincular todos os reinos cristãos à Santa Sé por um “laço feudal”,
respeitando-lhe a autonomia.

Bonifácio VIII
Filipe IV, o Belo (1285 – 1314) soberano da
França, entrou em conflito com o Papa, em
1296, devido à prisão do bipo de Pamiers,
Bernardo de Saisset, falsamente acusado de
traição. Bonifácio VIII (1294 – 1303), que
apesar de sua idade avançada era de rara
energia, protestou pela célebre bula Asculta, fili
carissime e convocou um concílio. Filipe
publicou uma falsificada, concisa, imperativa,
exagerada. Indignado, o papa excomungou-o
(abril de 1303) e declarou-o deposto. Filipe,
além do mais, impediu que os bispos franceses
comparecessem ao concílio. Este contudo
realizou-se e o papa publicou a Bula Unam
Sanctam, afirmando solenemente a doutrina da
Igreja quando aos dois poderes.
Excomungado, o rei preparou contra o
Papa um golpe de audácia, auxiliado pelos seus
legistas Guilherme de Nogaret e Guilherme de
A bofetada de Anagni.
Plaisians. Acusaram o pontífice de “mentiroso,
blasfemo, lobo devorador, simoníaco, herege, usurpador e tirano”. Nogaret foi à Itália e buscou o
auxílio dos Colonna, inimigos do Papa. Nogaret se dirigiu à Anagni, cidade natal do pontífice e
onde Bonifácio VIII foi passar o verão. No dia 7 de setembro de 1303, os invasores penetraram a
cidade, saquearam as casas dos amigos do Papa e por fim entraram em tumulto no próprio palácio
pontifício.
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Revestido de todas as insígnias pontifícias, Bonifácio VIII esperava-os no seu trono, em todo o
esplendor de sua autoridade. Todos o haviam abandonado; ele porém, apesar dos seus 80 anos,
resistia impávido. A soldadesca insultou-o, Sciarra, Sciarra Colonna o quis matar, Nogaret o
intimou a que abdicasse e deu-lhe uma bofetada. Ele não cedeu. Dois dias depois a população de
Anagni, envergonhada, constrangia Nogaret a fugir e libertou o Papa, que regressou a Roma. O
abalo, porém, foi mortal: um mês após o atentado, Bonifácio VIII morreu.

O cativeiro da Babilônia
Em 1309, o Papa Clemente V fixou-se em Avinhão, e aí por setenta anos permaneceu o
Papado, sem dúvida com mais segurança do que em Roma, devido às agitações da Itália e à luta
dos imperadores contra a Santa Sé. Os italianos chamaram a esse período “o cativeiro da
Babilônia”. Filipe o Belo obteve a condenação e dissolução da ordem dos templários, acusados de
hediondos crimes e cujo grão-mestre Jacques de Moloy foi queimado em Paris. A verdade é que os
bens da ordem eram cobiçados e o seu poder assustava ao absolutismo de Filipe. Enfim, Gregório
XI, cedendo às súplicas de Santa Catarina de Sena, e apesar da oposição de Carlos V, deixou
Avinhão e voltou para Roma (1377) onde pouco depois faleceu (1378).

Jacques de Moloy sendo queimado a mando do rei Felipe o Belo.

O cisma do Ocidente
Mas agora uma desordem mais grave ia perturbar a Cristandade: com a eleição de Urbano
VI dividiram-se as opiniões, e alguns cardeais rebeldes elegeram papa a Clemente VII, que se
estabeleceu em Avinhão (1379). A confusão dos espíritos foi geral: até entre os santos houve quem
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apoiou um dos dois pontífices. Morto Urbano VI, os cardeais italianos elegeram Bonifácio IX;
pouco depois os de Avinhão escolheram Bento XIII, sucessor de Clemente VII. O concílio de Pisa
(1409) depôs a ambos e escolheu Alexandre V. Cada um dos três, porém, considerava-se o legítimo
pontífice e a confusão chegou ao auge. Enfim, com o concílio de Constança (1414 – 1418) Martinho
V foi proclamado Papa e entrou em Roma no meio de júbilo universal.
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Atividades
1) Qual foi a posição dos imperadores de Constantinopla em relação ao Papado?
2) Segundo o texto qual foi o grande feito de São Gregório Magno?
3) Quem concedeu ao Papa Estêvão II os Estados Pontifícios?
4) Qual foi o acontecimento mais importante do século XI? O que é Cesaropapismo?
5) Qual contexto contribuiu para o surgimento da reforma de São Gregório VII?
6) Qual mosteiro foi o responsável pelo início do processo de regeneração?
7) O que eram as investiduras?
8) O que fez o imperador Henrique IV para que o Papa Gregório VII o excomungasse?
9) Cite as duas principais heresias surgidas no período medieval.
10) Cite as duas ordens religiosas surgidas neste período.
11) Quem fundou a Inquisição?
12) O Inquisição condenava à morte os hereges?
13) Copie esta frase:
“Não somente esses tribunais encerraram a era das execuções sumárias, mas ainda diminuíram
consideravelmente o número das condenações que tinham por consequência a pena de morte. Disso
dão fé os documentos.”
14) Quais são os três papas que mais se destacaram na defesa do Papado na Idade Média?
15) Por que Felipe o Belo foi excomungado por Bonifácio VIII?
16) Quem foi responsável pela bofetada de Anagni?
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17

Capítulo

2
O que foram as Cruzadas?
Cruzadas são grandes expedições militares empreendidas pelos povos cristãos com o fim de
libertar a Palestina e o túmulo de Jesus Cristo, então sob o domínio dos muçulmanos. Ao todo
houve oito cruzadas entre 1095 d.C. a 1270 d.C.

Causas
Desde os primeiros séculos da Igreja, especialmente depois do século IV, era grande a
afluência de peregrinos aos Santo Lugares da Palestina. Durante a Idade Média a fé tornara-se
muito viva entre os povos da Europa ocidental e manifestava-se principalmente pelo fervor em atos
de culto externo, devoção para com os santos, cujas relíquias eram disputadas, e peregrinações aos
pontos mais notáveis por aparições, milagres ou túmulos de apóstolos.
Os árabes das dinastias anteriores às cruzadas tinham-se mostrados tolerantes, não
impedindo aos peregrinos a entrada em Jerusalém. Porém, com a aparição e domínio da região
pelos Trucos Seldjúcidas, a situação se agravou intensamente. Altivos e cruéis, os turcos
conseguiram em breve impor seu governo e iniciar a perseguição aos cristãos. São Gregório VII, o
Papa da época, já mostrou interesse em realizar uma expedição militar contra os muçulmanos para
libertar os cristãos e o Santo Sepulcro. Contudo, este Papa não efetivou o plano, ficando a cargo do
Beato Urbano II.

Primeira Cruzada
1096-1099 d.C.

As Cruzadas formam um evento histórico que demonstra a indignação de Deus para com os
pecados e as blasfêmias dos homens. O Senhor dos Exércitos moveu a Cristandade a combater
inimigos da fé católica: os muçulmanos.
Com o impedimento das peregrinações ao Santo Sepulcro (as pessoas faziam peregrinações
ao Santo Sepulcro a fim de fazer penitência e pedir graças), ou pelo menos com o aumento dos
obstáculos para chegar a Jerusalém, o Papa Urbano II convocou a Primeira Cruzada em novembro
de 1095 d.C. Depois de um discurso inflamado de santo zelo e ungido pelo Espírito Santo, os
cristãos foram movidos a armarem-se e marchar rumo à Terra Santa. Assim disse o Papa:
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“Armados pela espada dos Macabeus, ide defender a casa de Israel, que é a vinha do Senhor dos
Exércitos. Já não se trata de vingar as injúrias dos homens, mas as da Divindade. Já não se trata do
ataque de uma cidade ou de um castelo, mas da conquista dos santos lugares. Se triunfardes, as
bênçãos do céu e os reinos da Ásia serão vosso prêmio. Se sucumbirdes, tereis a glória de morrer
nos mesmos lugares onde Jesus Cristo morreu e Deus não esquecerá de que vos viu em sua santa
milícia. Que afeições fracas e covardes, sentimentos profanos não vos prendam em vossos lares.
Soldados do Deus vivo, escutai somente os gemidos de Sião, quebrai todas as amarrações da terra”.
Estas palavras de Urbano penetravam e abrasavam todos os corações. Além do discurso, o
Papa Urbano II prometeu aos cruzados a remissão de seus pecados. Suas famílias e seus bens foram
colocados sob a proteção da Igreja e dos Apóstolos São Pedro e São Paulo.
Muitos se sentiram chamados pelo Senhor a juntar-se aos cruzados de modo que a expedição
se tornou grandiosa. O Papa havia determinado que as tropas católicas partissem na festa da
Assunção de Maria Santíssima (15 de agosto de 1096), pois os preparativos para a viagem e para
as batalhas eram muitos.
Diversas expedições militares marcharam para a Jerusalém em 1096. Ao chegarem em
Constantinopla, os cruzados tiveram que jurar fidelidade ao Imperador Aleixo I e prometeram
entregar a ele todas as terras conquistadas. O primeiro objetivo dos cruzados era conquistar a cidade
de Niceia ocupada pelos turcos desde 1081 e situada a cerca de cem quilômetros de Constantinopla.
Após a conquista de Niceia e de várias cidades da Ásia Menor, os cruzados marcharam para
a Terra Santa. No entanto, somente no meio do ano de 1099, alcançaram Jerusalém e a
conquistaram após duras batalhas com os muçulmanos, especialmente a Batalha de Ascalon (12 de
agosto de 1099).

Papa Urbano II pregando a primeira cruzada


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Os milagres que incentivaram as Cruzadas


Muitos milagres precederam as Cruzadas: sinais no céu, cometas aparecendo ao meio-dia,
santos e reis aparecendo aos cristãos e incentivando-os à luta, aparições de São Jorge, padroeiro
dos cavaleiros, aparições da Santa Cruz e de Nosso Senhor Jesus Cristo. O Céu mostrou seu desejo
das Cruzadas e fortaleceu os que ainda fraquejavam em lutar.

Milagres durante as Cruzadas: Aparecimento de Nosso Milagres durante as Cruzadas: Aparecimento da Santa
Senhor Jesus Cristo, de Gustave Doré Cruz no Céu, de Gustave Doré

A formação do Reino de Jerusalém


O governo de Jerusalém, assim como o de muitas cidades conquistadas pelos cruzados, não
foi entregue ao imperador bizantino, pois os líderes das tropas cristãs se sentiram traídos pelo
imperador.
O escolhido para governar o novo Reino de Jerusalém foi Godofredo de Bulhões, que se
negou a ser coroado, pois não queria usar uma coroa de ouro onde Nosso Senhor usara uma coroa
de espinhos. Ele se contentou com o título de Defensor do Santo Sepulcro.

Segunda Cruzada
1147-1149 d.C.

Em 1141 d.C., o Condado de Edessa foi reconquistado pelos muçulmanos. Esse local era
estratégico para o processo de reconquista de Jerusalém. Por isso, o Papa Eugênio III convocou a
Segunda Cruzada para retomar o condado. Porém, os cruzados somente tomaram o rumo ao Oriente
graças à intervenção de São Bernardo. O exército dos cruzados chegou a 200 mil homens.
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A Segunda Cruzada foi um fracasso devido,


segundo São Bernardo, à inexperiência dos generais,
aos conflitos entre os líderes dos exércitos, à falta de
disciplina e, sobretudo, à ira de Deus, que rejeitava
instrumentos indignos de executar os seus decretos.
Somente as ordens militares conservaram o
espírito guerreiro na região. Além disso, diversos
nobres desorientaram seus exércitos da causa principal
de proteger o Santo Sepulcro e passaram a suas
próprias lutas. São Bernardo sentiu-se também
culpado pela derrota dos cruzados e por muito tempo
se mortificou em penitência. Porém, como um novo
Moisés, São Bernardo recebeu um consolo do Céu
através de uma carta escrita pelo Abade João de Casa
Maria que assim dizia:
“Sou informado, querido pai, de que ainda vos
Godofredo de Bulhões entrando em Jerusalém, de
Gustave Doré.
mortificais com este assunto (a Segunda Cruzada), que
não obteve o êxito desejado. Portanto, tomo a liberdade de declarar humildemente o que Deus me
colocou no pensamento a esse respeito, tendo presente que o Senhor, por vezes, revela aos mais
baixos o que se acha oculto aos mais iluminados, e que Jetro, um forasteiro, aconselhou Moisés,
que conversava com Deus face a face (Ex 18). Ficou claro para mim, pois, que o Todo-Poderoso
fez uma abundante colheita nessa expedição, embora não da forma que os nossos soldados
esperavam. Muitos dos que regressaram da guerra me contaram que tinham visto homens morrer
satisfeitos com o seu destino, pois receavam tombar nos seus vícios pecaminosos, se voltassem
alguma vez para Europa”.

A reconquista de Jerusalém
Entre a Segunda e a Terceira cruzada surge um
nome que é pouco conhecido; mas sem este homem a
História teria tomado outros rumos sombrios. Este homem
está entre aqueles que são difamados ou por vezes
escondidos pelos filhos das trevas: trata-se de Balduíno
IV, Rei de Jerusalém, o rei santo.
Segundo a Providência Divina, coube a um rei
leproso o governo de Jerusalém. Um homem que
carregava consigo uma doença que o mundo todo temia.
Mas era ele o homem que, por amor à Igreja, dava todas
as provas de vigor físico, combatendo como qualquer
guerreiro na linha de frente das batalhas.
O rei possuía a lepra no corpo, mas o mundo estava São Bernardo de Claraval Abençoando o Rei da
leproso moralmente. Enquanto as pessoas não valiam França Felipe VII, de Gustave Doré.
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nada, o rei tinha a grandiosa missão de manter de pé o estandarte da Cruz. Balduíno IV é um dos
maiores representantes do cavaleiro católico, foi comparável a São Luís IX, rei da França. No meio
das tragédias de sua vida, Balduíno era um homem corajoso, altivo e digno. Observemos as
semelhanças entre Balduíno e Nosso Senhor Jesus Cristo: ambos são reis de Jerusalém; ambos são
chagados; ambos enfrentam o mal.
Outro nome que surge neste período é o de um perverso sultão chamado Salazar Saladino.
Este era senhor do Egito e de Damasco e foi responsável por agrupar as forças muçulmanas contra
os reinos e possessões católicos. Enquanto Balduíno viveu, Saladino não ousou conquistar o Reino
de Jerusalém.
A lepra não só enfraquecia o rei, como também o impossibilitava de se casar, gerando um
problema na sucessão do trono. A irmã de Balduíno, chamada Sibila, casou-se com Guy de
Lusignan, homem sem talento e sem virtudes.
Outros nomes importantes nesse contexto foram de Raimundo de Trípoli, general cheio de
virtudes, e Renaud de Chântillon. Saladino nutria por Renaud um ódio profundo pois ele havia
assassinado sua irmã.
Saladino promoveu diversos ataques às tropas
cristãs, mas enquanto estas estavam sob o comando
do virtuoso Balduíno, os muçulmanos sofreram
derrotas. Contudo, no dia 12 de março de 1185, o rei
leproso rendeu sua alma a Deus. Jerusalém, que
outrora tinha expandido a verdadeira fé católica,
estava repleta de pecado e se tornou exemplo de
iniquidade. Jesus Cristo permitiu que Saladino se
tornasse uma vara de castigo.
A morte de Balduíno IV gerou uma crise
sucessória no trono de Jerusalém. Assumiu o reinado
o jovem Balduíno V que por motivo de doença logo
morreu. Depois foi a vez de Sibila, irmã do rei
leproso, que reinou. Porém, esta era casada com Guy
de Lusingan que acabou por assumir o trono. Isto
significou a queda de Jerusalém.
Guy foi influenciado por Geraldo de Ridefort a Morte de Balduíno
Salazar Saladino. Por Gustave
IV, de Gustave Doré.Doré
atacar as tropas de Saladino que estavam no deserto.
Isso tinha sido desaconselhado por Raimundo de Trípoli que dizia que as tropas católicas deviam
permanecer em Jerusalém, fortalecer as muralhas e esperar a chegada das tropas muçulmanas, pois
estas deviam caminhar centenas de quilômetros pelo deserto escaldante.
Em 1187, as tropas católicas se deslocaram até o deserto em busca do confronto. Ao
encontrar Saladino e seu exército, travou-se a famosa Batalha de Hattin, onde a derrota católica foi
vergonhosa. Sem defesa, o Reino de Jerusalém foi conquistado por Saladino.
Jerusalém estava conquistada pelos muçulmanos! Esta notícia chegou como uma bomba à
Europa Católica. Clérigos, nobres, pobres, todos bradaram gritos de lamentações ao saber que os
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filhos de Maomé cantavam seus hinos no solo em que Cristo foi crucificado e ressuscitou dos
mortos. O Papa Urbano III soube desta triste notícia no dia 18 de outubro de 1187 e morreu dois
dias depois.

Terceira Cruzada
1189-1192 d.C.

O sucessor de Urbano III foi Gregório VIII que faleceu depois de alguns meses, mas
demostrou seu interesse em uma nova cruzada. O próximo Papa foi Clemente III que assumiu a
missão da nova Cruzada.
O novo Papa exigiu de toda a cristandade o dízimo saladino para financiar o
empreendimento e convidou pessoalmente a que participassem da Cruzada os maiores reis daquele
período: Frederico Barba-Roxa (Império Germânico), Filipe Augusto (França) e Henrique II
(Inglaterra).
A Terceira Cruzada foi a mais bem
organizada de todas. O imperador bizantino era
Isaac, o Anjo, que fez uma aliança com Saladino a
fim de receber os Lugares Santos em troca de
dificultar o avanço dos cruzados.
Frederico Barba-Roxa soube do acordo e
lançou seus exércitos contra os bizantinos,
conquistando muitas cidades gregas. Ainda
ameaçou conquistar Constantinopla, fato que levou
o imperador bizantino a retroceder no acordo com
Saladino.
Barba-Roxa atacou os muçulmanos
presentes na Ásia Menor conquistando tudo por
onde passava. No entanto, o dia 10 de junho de
1190 ficará para a história, pois foi nesse dia que
Frederico Barba-Roxa morreu afogado enquanto
tentava atravessar um rio.
Felipe e Ricardo reuniram seus exércitos em
Ricardo Coração-de-Leão em combate. Por Gustave Doré.
1190 e conquistaram mais regiões dos muçulmanos
e dos bizantinos.
Após conquistar a região de São João d’Acre, Felipe voltou à França, uma vez que a
promessa feita por ele era a de conquistar esse local, mas deixou um enorme contingente na
Palestina liderado pelo Duque de Borgonha.
Depois de um ano, em setembro de 1192, após diversas batalhas entre os cristãos e os
muçulmanos, Ricardo Coração-de-Leão, cansado da luta e desejoso de regressar a seu reino, firmou
um acordo com Saladino estabelecendo a paz entre as tropas. O acordo determinava que Jerusalém
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continuaria sob o comando de Saladino, que se comprometeu a permitir as peregrinações aos


lugares santos e a garantir a segurança dos peregrinos.
Ricardo voltou para a Europa decepcionado por não ter conquistado o Santo Sepulcro e até,
inclusive, não visitou o local sagrado como forma de punição a si mesmo. Mesmo que a Terceira
Cruzada não tenha alcançado seu objetivo de conquistar a Terra Santa, ela contribuiu para a
convivência pacífica entre cristãos e muçulmanos na região.

Quarta Cruzada
1202-1204 d.C.

A Quarta Cruzada foi convocada pelo Papa Inocêncio III, conhecido como o papa mais
poderoso da História. Porém, o apelo de Inocêncio não foi atendido por parte dos reis da época:
Felipe Augusto, rei da França, tinha sido excomungado por causa de adultério; João-Sem-Terra,
rei da Inglaterra, não somente se recusou a fazer parte como se opôs à participação dos cavaleiros
ingleses. A mesma coisa se passou com a Hungria e a Itália. Diante da negação dos chefes de
Estado, o Papa recorreu aos senhores feudais e às massas de fiéis.
O primeiro problema enfrentado pelos cruzados foi encontrar a melhor forma de se deslocar
até a Terra Santa. A Terceira Cruzada mostrou que o melhor caminho era navegar pelo Mar
Mediterrâneo. Dessa forma, estabeleceu-se um contrato entre os cruzados e os venezianos (Veneza
– cidade do norte da Itália), em que se estabeleceu certo valor por ser pago pelos cruzados em troca
de uma poderosa frota naval que serviria de transporte e de escolta para os combatentes. Contudo,
o número de cruzados não era suficiente para arcar com a dívida imposta pelos venezianos.
Para resolver esse problema de pagamento, os cruzados tiveram de aceitar a triste exigência
dos venezianos de atacar uma cidade chamada Zara2, concorrente comercial de Veneza, e isso foi
feito.

“Quando chegou a Roma a notícia do saque a Zara, o papa Inocêncio III ficou horrorizado. Era intolerável
que, desafiando as suas ordens, uma Cruzada fosse utilizada para atacar o território de um filho tão fiel da
Igreja. Excomungou a expedição inteira. Depois, dando-se conta de que os próprios cruzados haviam sido
vítimas do engano, perdoou-lhes, embora mantendo a excomunhão contra os venezianos”. (RUNCIMAN)
“Em vez de conquistar a Terra Prometida tivestes sede de sangue de vossos irmãos! Satanás, o sedutor
universal, também vos seduziu”. (PAPA INOCÊNCIO III)

Juntou-se à Cruzada o jovem Aleixo, filho de Isaac Ângelo, que tinha sido destronado do
Império Bizantino por Aleixo III. O jovem Aleixo desejava obter o apoio dos cruzados para
reconquistar o governo de Constantinopla, em troca ele prometia aos líderes da cruzada:
1) acabar com o cisma religioso: em 1054 d.C. houvera um cisma (divisão) pela Igreja do Império
Bizantino. Com a divisão, formou-se a Igreja Ortodoxa, que existe ainda hoje, e que não se coloca
em obediência ao Santo Padre.
2) pagar duzentos mil marcos de prata;
3) fornecer víveres ao exército cruzado;

2
Zara era habitada por cristãos.
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4) colocar dez mil soldados à disposição dos cruzados;


5) manter quinhentos cavaleiros na Terra Santa enquanto fosse vivo.
Os cruzados zarparam no dia 24 de maio
de 1203 e o destino não era a Terra Prometida,
mas Constantinopla! Infelizmente essa cruzada
se desviou de seus santos objetivos para se
enfiar em interesses alheios aos de Deus. Um dia
depois da expedição sair dos portos, chegou
uma carta de exortação do próprio Papa
Inocêncio III ordenando aos cruzados não se
desviarem da Terra Prometida. Parece que o
Papa pressentiu a triste decisão de atacar
novamente um território cristão. Eis um trecho
da carta:

“Praza a Deus que o vosso arrependimento seja


sincero e vos impeça de cometer as mesmas faltas!
Porque todo aquele que reincide naquilo de que se
arrependeu não é um penitente; é um cão que volta
ao seu vômito”. (PAPA INOCÊNCIO III)

Era tarde demais! Os cruzados não leram


a carta e cometeram a mesma falta. Em 17 de Papa Inocêncio III, de Rafaello Motta
julho de 1203, a cidade estava tomada. Aleixo
III fugiu e os próprios bizantinos libertaram Isaac, o revestiram das vestes imperiais e lhe
restauraram o trono. O jovem Aleixo foi coroado Aleixo IV.
A cidade foi tomada, ou seja, os cruzados cumpriram suas promessas, mas Aleixo IV não.
O clero ortodoxo se recusou a se reconciliar com a Igreja Católica. Quanto ao dinheiro prometido,

Invasão de Constantinopla
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o novo imperador não sabia onde consegui-lo. A saída foi aumentar os impostos e confiscar objetos
preciosos da Igreja Ortodoxa. Tudo isso despertou reação e descontentamento dos bizantinos.
No início de 1204 explodiu uma violenta revolta sob a liderança de Ducas, chamado
Murzuflo, que destronou Aleixo IV, o prendeu e o executou. Isaac morreu alguns dias depois.
Ducas foi coroado imperador com o título de Aleixo V.
Os cruzados reagiram à revolta e cercaram novamente a cidade que foi facilmente
reconquistada. Os horrores que se passaram nesse momento marcam um período muito triste para
a história das Cruzadas. Ao saber dos eventos que se passaram em Constantinopla, o Papa
entristeceu-se muito e disse:

“Esses defensores de Cristo, que não deviam voltar as suas espadas senão contra os infiéis, banharam-se no
sangue cristão. Não pouparam nem a religião, nem a idade, nem o sexo. Cometeram a céus aberto adultérios,
fornicações e incestos. Viram-nos arrancar os revestimentos de prata dos altares, violar os santuários, levar
ícones, cruzes e relíquias”. (PAPA INOCÊNCIO III)

O resultado da Quarta Cruzada foi pior possível: pior do que ter seu objetivo alterado, foi o
fato de se ter fragmentado o Império Bizantino em diversos feudos (pequenas propriedades sem
um governo unificado). Com isso, o território bizantino que oferecia resistência à dominação
muçulmana estava enfraquecido. A presença dos ocidentais em solo bizantino durou pouco, pois
em pouco tempo os orientais retomaram o governo enquanto os muçulmanos retomaram a região
de São João d’Acre.

Quinta, Sexta, Sétima e Oitava Cruzadas


1217-1270 d.C.

As próximas cruzadas serão estudadas resumidamente


devido a extensão do assunto. Tanto a Quinta, quanto a Sexta
Cruzada não alcançaram êxito devido à interferência de
alguns líderes que possuíam objetivos próprios. Esses
fracassos nos servem de exemplo, pois não podemos nos
colocar à serviço de Deus e depois buscar satisfazer nossas
vontades. Com Deus não se brinca.
A Sétima Cruzada foi convocada pelo Papa Inocêncio
IV no Concílio de Lyon. O apelo do Papa foi ouvido pelo
grandiosíssimo rei da França, São Luís IX. Quando
chegaram à Ilha de Chipre, as tropas francesas receberam
apoio dos mongóis. Marcharam contra a cidade de Damieta,
conquistando-a em 1229, e causando terror aos muçulmanos.
São Luís IX, de Gustave Doré. São Luís esperava apoio de novas tropas.
Após diversas vitórias dos cruzados no Egito, os muçulmanos conseguiram encurralá-los na
região de Damieta, matando a muitos e fazendo prisioneiros a outros, incluindo São Luís. Após o
pagamento de resgate, São Luís foi solto e partiu para a Síria. Lá fortificou várias cidades francas
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do litoral, como Acre; exerceu verdadeira autoridade no Reino de Jerusalém e criou alguns laços
de amizade com os mongóis através dos franciscanos.
A reputação de São Luís se espalhou por todo o
Oriente e seus conselhos eram bem vistos pelos sultões
de todas as regiões.
A morte da rainha-mãe, Branca de Castela, e os
negócios do reino levaram, finalmente, São Luís a
retornar à Europa, em 1254.
Em 1270, São Luís partiu para a Oitava Cruzada
após os muçulmanos conquistarem toda a Síria. Seu
objetivo não era mais o Oriente Médio, mas Túnis
porque havia rumores de que o Rei Emir estava
disposto à conversão. Após conquistarem facilmente
Cartago, cidade vizinha de Túnis, o exército enfrentou
seu maior adversário: o verão da Tunísia. Isso
contribuiu para a grande epidemia que surgiria e
grande parte do exército veio a falecer e junto Luís IX.
Tais mortes levaram ao fim da Oitava Cruzada. Morte de São Luís IX, de Gustave Doré.

Consequência das Cruzadas


Aparentemente as Cruzadas foram um fracasso: Jerusalém permaneceu nas mãos dos
muçulmanos, houve milhares de mortos e empobrecimento dos nobres e o cisma permaneceu.
Contudo, o homem vê somente as aparências e o tolo não enxerga além de si mesmo, pois não tem
sabedoria. De fato, Deus rejeitou os homens que não eram dignos de combater por seu Santo Nome
e também àqueles que não carregavam consigo o verdadeiro espírito das cruzadas. No entanto, o
Senhor tirou desses aparentes fracassos frutos magníficos.
1. Unidade da Cristandade: a Cruzada permitiu, mais do que qualquer outro acontecimento da
história medieval, que a Cristandade tomasse consciência da sua unidade. Os homens tiveram o
sentimento de que existia uma realidade superior, da qual o Papa era o único líder.
2. As Cruzadas foram essenciais para conter o ímpeto das invasões islâmicas. Os muçulmanos
sempre desejaram conquistar o território a Cristandade que hoje se chama Europa, porém foram
contidos inicialmente por Carlos Martel. Contudo, continuaram a assolar as terras católicas. As
Cruzadas mostraram o valor dos católicos, fazendo com que os inimigos da fé não mais tentassem
uma grande invasão. Os muçulmanos que permaneceram na Península Ibérica foram expulsos por
uma reação dos reinos católicos chamada Reconquista Cristã. Depois disso, houve mais uma
tentativa de invasão, mas foi frustrada pela frota naval católica e pelo Santo Rosário de São Pio V,
na famosa Batalha de Lepanto3.

3
Infelizmente, hoje o território europeu é invadido pelas hordas islâmicas e, para maior escândalo, com o aval das mais altas
hierarquias católicas.
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3. Aumento das práticas religiosas: criação de albergues e de hospitais e outras obras de caridade.
4. Criação das Ordens Militares.
5. Expansão da ação missionária da Igreja.
6. As misérias de muitos líderes das Cruzadas não foram maior do que o testemunho dos santos e
dos milhares de fiéis que nela se aventuraram.
7. A Cruzada ficou no coração de cada homem nascido de Cristo como uma lembrança de glória.
Enquanto houver cristãos haverá homens que conservem a memória destas páginas de santidade e
de heroísmo que os cruzados escreveram com o seu sangue.
8. As fundações de principados latinos no Oriente;
9. Agravamento das relações do Ocidente com o Império Bizantino;
10. O enfraquecimento do regime feudal.
11. Progresso da realeza e a burguesia adquiriu terras.
12. Com o contato com o Oriente houve introdução de novos produtos na Europa, além do progresso
das ciências, artes e letras.

Surgimentos das Ordens Militares


Uma das maiores e mais benéficas consequências das Cruzadas foi o surgimento das Ordens
Militares. Isso mesmo, uma vida religiosa somada à vida militar. Homens que professavam os votos
de pobreza, castidade e obediência e, ao mesmo tempo, eram verdadeiros guerreiros de Nosso
Senhor Jesus Cristo. Tais ordens surgiram entre a Primeira e a Segunda Cruzada, no século XII.
O grande responsável por legitimar esta
nova forma de vivência foi São Bernardo de
Claraval, doutor e um dos maiores santos da
Igreja Católica. Contra a integridade da Igreja
investiam continuamente dois inimigos: os
internos e os externos. Os internos eram os
hereges, homens inspirados pelo demônio para
envenenar as almas dos cristãos. Os segundos
eram os bárbaros e os muçulmanos, que
atacavam não só a fé, mas também a própria
estrutura civilizacional da Igreja e da
Cristandade.
Qual era o objetivo dessas Ordens
Militares? Depois que os cristãos retomaram
Jerusalém, estes bravos monges-guerreiros
formaram como um exército permanente para Templário
defender o Santo Sepulcro de qualquer ataque
dos infiéis. Além disso, acompanhavam as caravanas dos peregrinos, formando uma escolta para
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evitar qualquer problema pelo caminho, pois mesmo com o domínio cristão dessas regiões, os
peregrinos continuavam a sofrer assaltos no caminho para Jerusalém.
Em 1120, o rei de Jerusalém, Balduíno II, solicitou ajuda aos cristãos ocidentais. A resposta
veio de um grupo de cavaleiros dispostos a proteger os peregrinos de Jerusalém: os Templários.
Hugo de Payns foi o primeiro líder deste grupo que vivia uma vida militar e religiosa ao mesmo
tempo. Balduíno II concedeu a estes guerreiros a Mesquita Al-Aqsa, onde antigamente se
localizava o Templo de Jerusalém, e por isso receberam o nome de templários.
Os Cavaleiros de Cristo ganharam fama a partir das pregações de São Bernardo de Claraval,
que apresentou a causa da nova ordem ao Papa Honório II. No Concílio de Tryes, em 1129, o Papa
aprovou a ordem como “Ordem do Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão”.
São Bernardo determinou aos templários o fundamento espiritual da Ordem, além de
demonstrar que a vida religiosa e a militar não são incompatíveis: enquanto se combate os inimigos
de Cristo e da Igreja, o templário deve combater espiritualmente seus vícios.
“Pretendo falar de um novo tipo de cavaleiro, absolutamente desconhecido nas eras precedentes, que, sem
poupar energias, trava uma luta num duplo fronte: uma luta contra a carne e o sangue, mas também contra
os espíritos malignos espalhados nos ares”. (SÃO BERNARDO DE CLARAVAL)

Para São Bernardo, os Templários deveriam cultivar quatro virtudes especiais:


1. o vigor;
2. a coragem;
3. a lealdade ao grupo;
4. o espírito de sacrifício.
O primeiro selo dos Templários era a imagem de dois
cavaleiros sentados em um mesmo cavalo, alusão aos cavaleiros
Rolando e Oliver. Rolando era parente de Carlos Magno e
possuía as virtudes da coragem, da bravura, da ousadia e do
destemor. Oliver era prudente e sábio. Esses dois grandes
cavaleiros, que combateram os sarracenos na Península Ibérica,
deveriam ser a referência para os Templários, corajosos e
prudentes. Rolando e Oliver

Extinção dos Templários


A Ordem dos Templários foi extinta em 1314 pelo Papa Clemente V pressionado pelo
avarento e orgulhoso rei da França Felipe, o Belo, que desejava usufruir das riquezas da Ordem.

A Ordem de Cristo
Um concílio realizado em Vienne (1311-1312 d.C.) havia determinado que todos os bens
dos templários fossem transferidos para uma outra ordem militar chamada Ordem de São João de
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Jerusalém (os hospitalários). Porém, esse não foi o caso em Portugal. O rei português nesse período
era Dom Dinis, homem virtuoso e de inteligência apurada. D. Dinis nacionalizou todos as
propriedades dos extintos templários em Portugal. Essas posses foram transferidas para uma nova
ordem militar criada pelo próprio rei: a Ordem de Cristo (nome completo: Cavalaria de Nosso
Senhor Jesus Cristo). Esta nova ordem manteve o legado dos templários, não só as propriedades,
mas as virtudes e a bravura.
A relação entre a coroa portuguesa e a Ordem de Cristo foi fundamental para a formação da
cultura portuguesa e também no processo de expansão marítima que levou os portugueses a
descobrirem o Brasil. Esses assuntos serão estudados com maior detalhe nas próximas aulas. Sobre
essa relação afirma o historiador Ricardo Costa4:

Para Meditar...
A Ordem de Cristo
Ricardo Costa

A Ordem de Cristo, situada no âmbito da esfera política da coroa, a partir do século XV,
alargou seus horizontes, direcionando e conduzindo a expansão marítima lusitana. Como
entendemos, a criação de uma ordem militar portuguesa está inserida dentro do lento processo de
formação da identidade nacional portuguesa, vital para o processo de expansão lusitana dos séculos
seguintes. Seu maior incentivador foi o infante D. Henrique, terceiro filho de D. João I (1385-
1433), que, em 1420, aos 26 anos, tornou-se mestre português da ordem, combatendo os mouros
em Ceuta e ajudando Portugal a se expandir para além-mar:

...o Infante foi, até a sua morte, o principal impulsionador dos empreendimentos de descoberta (...)
Graças à sua imensa fortuna e aos bens da Ordem de Cristo, de que se tornou grão-mestre, podia
arcar com as enormes despesas que as expedições exigiam (TEYSSIER, 1992).

A permanência dessa mentalidade de cruzada, que insistia em se prolongar para além dos
séculos XII-XIII, levou os navegantes portugueses a caminhos desconhecidos; essa mesma
mentalidade de cruzada motivou o rei Afonso V, o Africano (1432-1481), nas palavras de Armindo
de Souza, "um cruzado fora de época, o último cruzado", a ousar penetrar na África.

Conclui-se que os formadores de nosso país possuíam sangue templário e o espírito dos
cruzados. Daí brota a nossa nação católica que possui a especial vocação de trazer ao mundo
novamente o grande sinal da Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo e o primado da Santa Igreja
Católica.

4
Texto integral disponível em: [Link]
de-formacao-da-identidade-nacional-em
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Atividades
1) O que são as Cruzadas?
2) Por que as peregrinações para Jerusalém eram importantes?
3) Por que o Papa Urbano II convocou as Cruzadas?
4) Qual o motivo da Segunda Cruzada?
5) Segundo São Bernardo, qual foi o motivo do fracasso da segunda cruzada?
6) Quais são os reis da Terceira Cruzada?
7) O que levou os cruzados a se desviarem na Quarta Cruzada?
8) Qual foi a reação do Papa Inocêncio III?
9) Descreva pelo menos 5 consequências das Cruzadas.
10) Como se originou a Ordem dos Cavaleiros Templários?
11) Quais eram as quatro virtudes dos Templários?
12) Como se originou a Ordem de Cristo?
13) Qual é a relação entre nossa nação e esta Ordem?
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31

Capítulo

3
As comunas

A PÓS as invasões bárbaras e o consequente estabelecimento do feudalismo na Europa, quase


desapareceu a autonomia local, muito praticada durante o governo dos Romanos.
Para melhor se oporem aos invasores,
algumas cidades fortificaram-se, cercaram-se de
muralhas e outras obras de defesa. A tais cidades
fortificadas chamou-se burgos (do alemão burg).
Em geral pertenciam a um nobre, príncipe, bispo
ou conde. Os habitantes, na maior parte artistas
ou cultivadores, chamados burgueses, isto é,
habitantes de um burgo, pagavam pesados
impostos aos senhores feudais.
Nos séculos XII e XIII houve diversos
movimentos contrários à dominação dos
senhores feudais. Os habitantes das povoações, Exemplo de um burgo medieval
revoltando-se, obrigavam os suseranos a
conceder-lhes uma carta, em que se estipulavam umas tantas garantias e privilégios aos burgueses
(isenção de certos impostos, direito de escolherem seus magistrados, etc.). Os reis, no intuito de
abater os nobres poderosos, favoreciam as pretensões dos burgueses, e assim várias cidades
alcançaram o direito de se governar com seus próprios magistrados, fora do regime feudal. Na
França foram denominadas comunas; na Alemanha, cidades livres; repúblicas, na Itália.

A servidão
Os camponeses, ou vilões, que cultivavam as terras dos nobres, ou eram homens livres ou
descendentes de antigos escravos, isto é, servos. Não era, porém, a condição dos servos igual à dos
escravos romanos. Ligado à terra, o servo da gleba não podia ser vendido, nunca lhe seria tirada a
sua casa de campo, e já podia enfim constituir família.
Principalmente do século XII em diante, os senhores feudais, levados quase sempre pela
necessidade de dinheiro, puseram-se a vender e a conceder aos servos certas liberdades e franquias.
Muitos servos emanciparam-se (não podendo esquecer que também nisso foi grande a influência
da Igreja), e graças a isso a população rural foi progredindo paralelamente à das cidades.
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As indústrias e as corporações
As concessões dos senhores feudais contribuíram também para criação de novas cidades.
Do século XI para o XII os nobres conseguiram, graças à outorga de certos privilégios e franquias,
atrair grande número de habitantes para as cidades que criavam.
As garantias concedidas pelas cartas aos burgueses
favoreceram o desenvolvimento das indústrias e do comércio,
com grande vantagem para a prosperidade de certas cidades, não
obstante a dificuldade das comunicações.
Os artistas, em vez de trabalharem exclusivamente para o
senhor feudal, foram-se tornando pouco a pouco independentes,
fabricado e vendendo por conta própria. Associados em
corporações, a que todos os do mesmo ofício tinham obrigação
de filiar-se, formavam uma espécie de confraria ou sociedade de
socorros mútuos, com seu santo padroeiro, caixa comum,
regulamento, bandeira e chefe. Para ser admitido à corporação
cumpria passar pelo período de aprendizagem.
Os artesões da mesma corporação estabeleciam-se Exemplos de uma corporação de
sapateiros
geralmente em determinados bairros e ruas da cidade, havendo
assim a “rua dos ourives”, a “rua dos vidraceiros”, etc.

Progressos da realeza
No regime feudal o rei era nominalmente o mais elevado na hierarquia dos senhores do
reino; mas de fato só exercia autoridade na extensão de seus domínios, que nem sempre eram mais
vastos. Em França, até findar o século XII, as terras do rei formavam apenas pequena porção do
reino; o resto pertencia aos vassalos, duques ou condes.
Filipe Augusto (1180 – 1223) adquiriu grande extensão de território, reuniu ao domínio real
considerável porção da Picardio e tirou de João sem Terra, rei da Inglaterra, a Normandia, o Maine
e o Anjou.
No reinado de São Luís (Luís IX, 1226 – 1223) a autoridade real fortaleceu-se muito.
Observador fiel das leis da justiça, Luís IX conseguiu impor aos senhores feudais respeito e
admiração.
Com Filipe, o Belo (1285 – 1314) constituiu-se definitivamente a organização do governo
real. Mais tarde, depois da Guerra dos Cem Anos, Luís XI (1461 – 1483), filho de Carlos VII,
empregou todos os seus esforços em abater os nobres. Estes formaram a “liga do bem público”,
chefiada pelo filho do duque de Borgonha, Carlos o Temerário. Foi uma batalha de morte, de que
afinal Luís XI saiu vencedor, podendo continuar, por meios não raro cruéis, a obra que
empreendera.
O que se não pode negar é que foram principalmente os soberanos da dinastia capetíngia
que mais se esforçaram pela unidade política França, abatendo os nobres e ocupando os grandes
feudos.
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O Comércio e as Feiras
O movimento de emancipação das comunas (cidades), assegurando maiores garantias aos
habitantes das cidades, deu considerável impulso não somente às indústrias, senão também ao
comércio. Mas as dificuldades com que tinham de lutar os mercadores não eram pequenas, pela
falta de meios rápidos de comunicação, já pelos riscos de assaltos dos bandidos e problemas com
os senhores. Além disso ainda cumpria
pagar muitos direitos pelas mercadorias,
direitos de entrada e de saída nas diferentes
cidades, ponte, etc.
Daí os mercadores se reunirem em
datas fixas, em certas cidades, onde se
realizavam grandes feiras (observe no mapa
abaixo a localização das grandes feiras –
círculos amarelos). Daí também formarem-
se vastas associações, destinadas a proteger
os interesses comerciais das cidades livres.

A Liga Hanseática
Após a morte de Frederico II, houve na Alemanha um período (1250-1273) denominado
grande interregno, em que os senhores feudais, aproveitando a ausência de uma autoridade
soberana, disputaram a coroa, resultando disso a anarquia e o desmembramento do império em
quase quatrocentos minúsculos estados. Muitas cidades aproveitaram-se de tal anarquia para se
constituírem em pequenas repúblicas: algumas, para defesa dos interesses comerciais, formaram
“ligas”, ou hânseas (do alemão, hansa, confederação, união)
A mais famosa foi a Liga Hanseática, ou melhor, Hansea Teutônica, que se originou do
tratado entre Hamburgo e Lubeck (1241) para proteger o comércio contra os piratas do Báltico e
defender os próprios direitos contra a tirania dos príncipes vizinhos. Tais vantagens fez com que
aumentasse para 80 o número de cidades associadas. Lubcek, Hamburgo, Bremen, Colônia,
Dantzig, Bruges, Bergen, Brunswick, Londres, Novgorod, Anvers, Amsterdam, etc. Em Lubeck,
capital da Liga, reuniam-se os deputados das diferentes cidades da confederação.
A Hânsea tinha seu direito marítimo especial, possuía poderosas esquadras e gozava de
grande prestígio. Pertencia-lhe no século XIV o monopólio da navegação no Mar do Norte e no
Báltico.
O descobrimento da América, a viagem de Vasco da Gama às Índias e o grande progresso o
comércio marítimo do século XVI fizeram-na rapidamente cair. Terminou na segunda metade do
século XVII.
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Mapa que mostra a localização e a atuação da Liga Hanseática, além de outras vias marítimas.

Os estudos na Idade Média


As invasões bárbaras haviam lançado a Europa – que gozara no tempo do Império Romano
dos esplendores de uma civilização grandiosa nas ciências, letras e artes – numa tenebrosa noite,
de que só muito lentamente, graças ao influxo da Igreja, conseguiu sair.
Do século V em diante aos
poucos se veio desenvolvendo uma
nova civilização, a civilização
cristã, inferior talvez em alguns
pontos de ordem puramente
material às antigas, mas que a todas
excede incomparavelmente no
ponto de vista moral e espiritual.
Difícil era, durante a Idade
Média, o estudo, dada a escassez
dos livros e o elevado custo do
pergaminho. A instrução refugiara-se nos mosteiros e escolas episcopais, onde havia sempre frades
ocupados em copiar e iluminar os manuscritos.
O amor da ciência triunfou, contudo, da insuficiência dos meios de instrução que a sociedade
proporcionava aos sábios desse tempo, e poucas épocas houve em que o gosto do saber tanto se
tenha espalhado como na Idade Média.
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A escolástica
A teologia foi considerada durante toda a Idade Média a rainha das ciências, sendo-lhe as
outras como servas.
A filosofia foi cultivada com paixão.
Aplicando o raciocínio aos ensinamentos da fé,
reduzindo toda a argumentação a poucos e breve
silogismos, os teólogos criaram um novo método
para as disciplinas teológicas, ao qual se deu a
denominação de Escolástica, “a ciência da
Escola”.
O século XIII foi o período áureo da
Escolástica. O franciscano inglês Alexandre de
Hales (doutor irrefragável), o dominicano
alemão Alberto Magno e São Boaventura
(doutor seráfico) são grandes vultos desse
século. Já pouco antes se tinha celebrizado Pedro
Lombardo (o mestre das sentenças). Porém, o
maior teólogo e filósofo da Idade Média, e de
todos os tempos, foi Santo Tomás de Aquino
(1227 – 1274) (o doutor angélico, o anjo da
Escola), autor da Suma Teológica e adversário
de Duns Scot.
A Suma Teológica, resumo de todas as ideias da Idade Média, é um dos mais admiráveis
monumentos do espírito humano.

As universidades
Durante os séculos IX e X os centros de cultura intelectual eram os mosteiros e as escolas
episcopais. Depois, formaram-se corporações de professores, associações destinadas
exclusivamente ao ensino: tais foram as Universidades. As mais antigas, a de Paris e a de Bolonha,
adquiriram grande fama. A de Paris era preferida pelo estudo de teologia; a de Borgonha pelo
direito. Ambas serviram de modelo à que em seguida se formaram: Oxford, Cambridge, Salamanca,
Coimbra, etc.).
A Universidade de Paris era a maior escola da Europa: frequentavam-na mais de 20.000
estudantes de vários países. O ensino era feito em latim e dividiam-se os estudos em dois grupos:
o Trivium (gramática, retórico e lógica) e o Quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e
música), formando o todos as sete artes liberais. A universidade compreendia quatro faculdades:
Teologia, Direito, Medicina e Artes.
Como muitos estudantes eram pobres, pessoa ricas e caridosas fundaram os colégios, onde
aos jovens sem recursos se dava casa e comida.
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Universidade de Oxford

Ciências físicas e matemáticas


Curiosas observações sobre ciência físicas e naturais se devem a monge Rogério Bacon,
franciscano inglês, a quem alguns atribuem a invenção da pólvora e do telescópio. Guido de
Arezzo, no século XI, simplificou o ensino da música e introduziu, como sinais das diferentes notas
da gama, as sílabas ut, re, mi, fa, sol, la. O si foi acrescentado mais tarde, e ut substituído por dó.
Já se viu a influência das cruzadas sobre o ocidente, e quanto influíram os Árabes no progresso da
matemática e química.

Absolutismo
O Absolutismo foi um sistema político que, em geral, defendia o poder absoluto do monarca
sobre o Estado e foi muito comum a partir do século XVI até meados do século XIX em diversas
partes da Europa. Essa forma de governo estava diretamente ligada com o processo de formação
dos Estados Nacionais (nações modernas) e com a ascensão da classe mercantil conhecida como
burguesia.
O Absolutismo não possuía, entretanto, características homogêneas e apresentava também
suas particularidades em diferentes locais. Dessa forma, destacaram-se três modelos desse sistema
político: o francês, o inglês e o espanhol. O rei francês Luís XIV foi o melhor exemplo de aplicação
do poder Absolutista.

Absolutismo francês
Nos últimos séculos da Idade Média, após as cruzadas, acentuaram-se cada vez mais os
sintomas da decadência do feudalismo e, portanto, de engrandecimento da realeza. Com Filipe
Augusto e São Luís IX o poder central fortaleceu-se notavelmente, mas apesar de tudo ainda ao
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subir ao trono Luís XI, sucessor de Carlos VII, a nobreza feudal era muito poderosa. Essa nova
nobreza, resultante de doações de partes do domínio real a príncipes de sangue, formava casas
dominantes, tais quais a de Anjou, Orleans, e principalmente, a de Borgonha, que possuía a
Holanda, a Bélgica e o Luxemburgo. O duque da Borgonha contava com a aliança inglesa; davam-
lhe farto lucro os vinhos da Borgonha e as lãs da Flandres; era na verdade, mais forte que o próprio
rei.
Fato é que essas casas tinham, muitas vezes, mais poder que a própria realeza. Carlos o
temerário, duque da Borgonha, em uma de suas guerras em busca de unificar mais territórios, foi
vencido e morto, o que animou a Luís XI, pois as terras de Carlos foram anexadas ao domínio real,
aumentando ainda mais o poder da realeza e diminuindo dos duques. Luís XI convocou os Estados
Gerais apenas uma única vez em sua vida. É inegável que o seu reinado contribuiu para dilatar os
domínios reais e fortificar o poder absoluto dos soberanos.
Passados alguns anos, veio Henrique IV, representante da casa de Bourbon e soberano da
França e Navarra. Sua casa foi a responsável direta pela instituição da monarquia absolutista na
França. Os responsáveis foram: Henrique IV, Luís XIII e Luís XIV.
Em 1610, Henrique foi assassinado em plena luz do dia. Luís XIII, ainda muito jovem, não
poderia governar, cabendo a Maria de Médici, sua mãe, a regência da casa. Durante sua regência,
os huguenotes5 abalaram a política interna da França, cabendo ao ministro da casa, Richelieu, a
responsabilidade de administrar com mão de ferro a França. Seu plano político consistia,
exteriormente, em promover a hegemonia francesa e, internamente, abater os nobres e os
calvinistas, que formavam um partido perigoso de oposição. Richelieu, cardeal católico, teve maior
papel político do que religioso, e em uma
aparente contradição, protegeu e combateu os
protestantes. Externamente, os ajudou na guerra
dos trinta anos; internamente, eliminou os
huguenotes.
Esforçou-se em submeter os nobres à monarquia
através de suas leis, principalmente se opondo
aos duelos, e assim firmou o absolutismo real,
que Luís XIV exerceria com esplendor. O
poderoso ministro teve ainda outros aspectos
mais simpáticos: foi protetor das letras e fundou
Richelieu, por Philippe de Champaigne. 1640. Galeria em 1635 a Academia Francesa6.
Nacional, Londres.
Morto Richelieu, sucedeu-se Mazarino,
ministro italiano que defendeu sempre os interesses de sua pátria adotiva. Com sua habilidade
administrativa, triunfou sobre os nobres e os parlamentares rebeldes à corte francesa, submetendo-os
à corte.

5
Protestantes que exerceram forte influência religiosa dentro da corte francesa, causando grande tumulto religioso e
administrativo. Foram expulsos e mortos durante a Guerra Religiosa Francesa, na segunda metade do século XVI.
6
Academia de letras da França que reunia grandes intelectuais para debater literatura. Sua criação teve enorme influência na
futura academia de letras do Brasil.
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Com Luiz XIV o absolutismo atinge o seu ponto


culminante. Começando a governar pessoalmente, após a
morte de Mazarino, o monarca não quis primeiro-
ministro. Trabalhador, consagrando oito horas por dia ao
seu labor de soberano que tudo examinava, convencido
de que era rei por direito divino, em seu reinado não teve
nenhum auxiliar capaz de pretender-se onipotente. “O
meu primeiro-ministro sou eu mesmo”, disse ele. E ainda
mais expressivamente, julgando-se a personificação da
própria França: “L’État c’est moi”, que significa, o
Estado sou Eu!
Teve, contudo, excelentes colaboradores. Colbert,
superintendente das finanças e trabalhador infatigável,
reorganizou a esquadra, protegeu o comércio e tentou,
mas em vão, melhorar a situação do tesouro. O luxo da
corte e as guerras inutilizaram-lhe os esforços. Outro
auxiliar notável foi Louvois, que reorganizou o exército,
criou hospitais, ambulâncias, quarteis, decretou Luís XIV
uniformes, etc. Vauban fortificou as fronteiras.
Luís XIV fez construções magníficas, bastando recordar Versalhes. A corte do Rei-Sol tinha
esplendores de impressionar e o chamado século de Luís XIV é o período áureo da literatura
francesa. O próprio rei protegeu letras e artes.
Mas cometeu graves erros, querendo submeter o clero, revogando o Edito de Nantes e
perseguindo os protestantes, empenhando-se em múltiplas guerras e gastando sem medida.
Os protestantes, perseguidos, emigraram em grande número para a Inglaterra, a Holanda e
sobretudo para o Brandeburgo, na Alemanha.
Ahundt/Pixab
ay

Palácio de Versalhes
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Guerra dos 30 anos


A guerra dos trinta anos, teve seu início em 1618 e finalizada em 1648. Foi iniciado pelas
disputas religiosas, no interior do Sacro Império Romano Germânico, travadas entre católicos e
protestantes, e que, ao longo dos anos, passaram a ter outras motivações, que envolviam interesses
de expansão territorial, econômicos e até hegemonia europeia.
A guerra é dividida em quatro partes:

1) Período palatino-boêmio (1618-1624)


2) Período dinamarquês (1624-1629)
3) Período sueco (16320-1635)
4) Período francês (1635-1648)

Período palatino-boêmio
Fernando II, recém coroado rei do Sacro Império, não foi aceito pela liga protestante boêmia,
que “entregou” a coroa a Frederico V, chefe da liga e príncipe do Palatinado (região próxima ao
Reno). A união católica, liderada por Fernando II e T’Serklaes von Tilly, partiram para Praga, e
venceram os protestantes na Batalha da Montanha Branca. A coroa boêmia, até então eletiva,
tornou-se hereditária dos Habsburgos (atual Áustria). O protestantismo foi proibido no império.

Período dinamarquês
Os protestantes derrotados por Fernando II buscaram auxílio no exterior contra os católicos
e encontraram ajuda com Cristiano IV, Rei da Dinamarca e Noruega, que tinha o objetivo de
conseguir mais terras no norte da Alemanha. Mobilizou um grande exército contra o Sacro Império.
Os católicos, que contavam com menor número, conseguiram apoio de nobres poderosos provindos
da Checa e, novamente, os protestantes foram expulsos das terras católicas.

Período sueco
Junto do crescimento do Sacro Império Romano Germânico veio as preocupações de muitos
reis europeus. O já citado Richelieu, ministro francês de Luís XIII contactou o monarca sueco
Gustavo II Adolfo, protestante, que prometeu determinadas concessões e ajuda financeira a
Richelieu.
Gustavo Adolfo partiu para o norte da Alemanha, fazendo novas alianças com príncipes
alemães, mercenários e camponeses. Construiu bases fortificadas e aprimorou seu exército. Ganhou
diversas batalhas contra as forças católicas de Fernando II, mas acabou sendo morto. O monarca
que o sucedeu foi Bernardo que ocupou novas terras da Baviera. Em 6 de setembro de 1634, os
exércitos de Fernando II impuseram uma devastadora derrota ao duque Bernardo, desmoralizando
os protestantes e forçando-os a abandonarem o conflito.
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Rocroi, o último terço. Augusto Ferrer-Dalmau. 1964.

Período francês
Esse período é marcado pela entrada de Richelieu no conflito contra a casa de Áustria, não
no sentido religioso, mas no político, com receio de um expansionismo Habsburgo. Para isso,
colocou-se ao lado dos protestantes suecos, dos países baixos e principados alemães.
Enquanto os franceses venciam batalhas contra saxões e austríacos no oriente, vencia
batalhas contra os espanhóis, também aliados aos Habsburgos, no ocidente. Devido a esta grande
aliança, os Habsburgos na Alemanha tiveram de baixar suas armas por três anos, e a Suécia
conseguiu territórios na Dinamarca, Alemanha e Áustria.
Uma última tentativa de combater os franceses e seus aliados, a casa de Habsburgo falhou,
e tiveram que assinar o Tratado de Vestfália, que garantia a liberdade de culto de protestantes e
católicos e restringiram a casa de Habsburgo ao território da Áustria.
A França e a Suécia conquistaram novos territórios e ganharam grande privilégio entre
outras monarquias. A Espanha perdeu a posse dos Países Baixos e certo domínio dos mares
ocidentais. Os Países Baixos e a Suíça tiveram sua independência reconhecida.
Era o início da hegemonia francesa na Europa e o declínio do poder dos Habsburgos.

Absolutismo Inglês
Após a batalha de Hastings (1066), Guilherme, duque da Normandia, conquistou a Inglaterra
e distribuiu vários feudos aos vencedores. Extinta a dinastia normanda, subiu ao trono Henrique II
(1154 – 1189). Com ele começou a chamada dinastia dos Plantagenetas, de origem francesa.
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Ricardo Coração de Leão, filho de Henrique II, tomou parte na terceira cruzada e ocupou o
trono até 1199, tendo de lutar contra seu irmão João sem Terra, que usurpou o poder.
João sem Terra (1199 – 1216), violento e cruel, assassinou Arthur da Bretanha, seu sobrinho.
Filipe Augusto da Franças declarou-lhe guerra e, mesmo que João sem Terra ser auxiliado pelo
imperador da Alemanha, foi derrotado em Bouvines (1214) e obrigado a conceder a Magna Carta.
Henrique III (até 1272) tentou revogá-la, mas os nobres impuseram-lhe os Estatutos de
Oxford (1258), limitando a autoridade real.

A Magna Carta
Tais foram as tiranias e os abusos de João sem Terra, que os barões ingleses se revoltaram;
e quando ele, humilhado pela derrota de Bouvines, regressou à Inglaterra, foi constrangido a assinar
uma lei, em que se especificavam os direitos dos súditos. Tão importante documento, com razão
considerado base de legislação inglesa no tocante à ordem política, muito influiu para o
estabelecimento do regime parlamentar na Inglaterra.
Em virtude das disposições da Magna Carta, o soberano não poderia lançar impostos sem
permissão dos representantes do reino, arcebispos, bispos, condes e barões (Grande Conselho),
ninguém seria conservado em prisão sem culpa formada (habeas-corpus); seriam estabelecidas com
precisão as multas, não se venderia a justiça, e se organizaria o Juri para efetuar os julgamentos
regulares segundo as leis do país. Para manter intacta a observância da Magna Carta, foram
escolhidos vinte e cinco barões, os quais exerciam fiscalização sobre os atos do rei e podiam
impedir-lhes a execução, se contrários às prescrições da carta.

O Parlamento
O Grande Conselho reunia-se quase todos os anos, e começou a ser chamado Parlamento,
Henrique III, ambicioso mais infeliz, desgostou os senhores com as grandes somas gastas em suas
expedições; em 1258 os barões revoltaram-se e reuniram o parlamento de Oxford. Decretaram os
Estatutos de Oxford e estabeleceram uma série de disposições complementares da Magna Carta. O
parlamento passava a ser convocado regularmente.
Em 1265, foram admitidos no conselho os representantes dos burgueses. Estes constituíram
a câmara dos comuns ou câmara baixa, ao lado da câmara alta ou câmara dos lordes, composta de
barões e prelados. Essas duas câmaras formam ainda hoje o parlamento inglês.
A partir da guerra dos cem anos, devido ao fortalecimento da nobreza e o descontentamento com
a monarquia, surgiu um movimento que desejava derrubar o rei e criar um estado mais forte. O
sangrento evento pela disputa do trono da Inglaterra se chama a guerra das duas rosas.

Guerra das duas rosas


O conflito entre as casas de York e Lancaster a partir da segunda metade do século XV foi
poeticamente chamado de guerra das duas rosas. Embora como todas as guerras civis fosse sórdida
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e amarga, os líderes de ambas as facções tomaram como símbolos as rosas: um vermelho para os
Lancaster e outro branco para os de York.

A guerra foi longa e a sorte dos combatentes variou muitas vezes. Para não entrar em debates
cuja descrição demoraria muito, diremos que teve três momentos decisivos.
Na primeira, a casa de York, representada por Eduardo IV, conquistou o trono inglês graças
à batalha vitoriosa de Towton. Eduardo IV cingiu a coroa, mas cometeu o erro de casar-se com
Isabel de Woodwille sem levar em conta os interesses dinásticos. Os nobres que o apoiavam
retiraram seu apoio e o forçaram a deixar o trono e a se refugiar na Borgonha.
Na França, ele formou um novo exército e desembarcou em seu país com o objetivo de
reconquistar o trono. Depois de algumas aventuras de guerra confusas, ele derrotou seus inimigos
completamente e foi capaz de ocupar seu antigo palácio real. Com esta campanha, a segunda fase
da Guerra das Duas Rosas se encerra.
De 1471 a 1483 Eduardo IV governou em paz e com poucas interferências do parlamento.
Infelizmente, ele não foi capaz de controlar seu temperamento e, entregue a uma vida de excessos,
morreu antes de completar quarenta anos. Deixou seus dois filhos pequenos, Eduardo e Ricardo,
como herdeiros, o mais velho deles não tinha mais de três anos.
A menoridade dessas crianças abre o terceiro e último capítulo da guerra. Nele, o guardião
dos menores, Ricardo de Gloucester, enfrentará Henrique de Tudor, representante dos Lancaster e
aspirante ao trono da Inglaterra por meio de uma relação disputada com a linhagem real.
Ricardo de Gloucester, irmão do falecido Eduardo IV, assumiu o trono após assassinar seus
dois sobrinhos na Torre de Londres. Este crime hediondo e a força desesperada que ele colocou
para manter a coroa fizeram de Ricardo III uma figura para o drama.
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O último ato da tragédia acontece em 1485 quando Henrique de Tudor, com quatro mil
soldados reunidos na França e pagos com dinheiro francês, faz uma segunda tentativa de ocupar o
trono inglês.
A Batalha de Bosworth foi o encontro final entre as duas casas em disputa. Em seus
primeiros dias, parecia favorecer Ricardo III, cujo exército maior tinha um caráter decididamente
nacional inglês. Apesar dessas condições e do grande esforço de Ricardo, a atitude de Henrique e
seus cinco mil homens decidiram a luta a favor de Tudor.
Shakespeare apresenta Ricardo III no meio da batalha, buscando furiosamente seu inimigo
para matá-lo em um único combate. Sem dúvida, o último Plantageneta7 morreu um homem
valente, e o grande dramaturgo inglês soube encontrar a frase certa para expressar sua raiva
indefesa: "Meu reino para um cavalo".
Henrique VII de Tudor iniciou um reinado mais racional e uma aventura política cujo ponto
culminante no século seguinte será o reinado de Elisabete da Inglaterra. O início da dinastia de
Tudor marca o início do Absolutismo Inglês.

Dinastia Tudor
Os três principais reis absolutistas da Inglaterra foram: Henrique VII, Henrique VIII e
Eduardo VI. Podemos apontar três traços característicos da situação no início do reinado de
Henrique VII: a queda do poder feudal, intenso desejo de paz e independência do continente
europeu. Seu reinado foi pacífico e luxuoso. Estimulou fortemente o comércio marítimo e as
indústrias, e fez da Inglaterra um polo comercial, onde o capitalismo se expandirá com força.

Henrique VIII
Henrique VIII foi o monarca mais absolutista que a Inglaterra já conheceu. Dotado de um
belo físico, ótimo arqueiro, cominava os esportes, possuía gosto pelas letras, teologia e literatura
romanesca, escrevia poemas, compunha músicas e tocava vários instrumentos; reunia ao seu redor
os maiores intelectuais e debatia problemas filosóficos e teológicos. Chegou a combater o
protestantismo, defendendo os sacramentos da Igreja, e recebeu o título defensor fidei (Defensor
da fé) de Leão X e a rosa de ouro8 de Clemente VII. Infelizmente, seu vício de intemperança e
busca pelo prazer, passou em cima de todas as suas virtudes, resultando na brusca mudança de
caráter.
O escândalo de Henrique VIII começa por sua vida matrimonial. Sua esposa, Catarina de
Aragão, deu a ele duas filhas e quatro filhos, mas sobrevivera apenas uma única filha, deixando-o
sem herdeiro ao trono. Fora de seu matrimônio, Henrique VIII possuía uma amante, Ana Bolena,
que convenceu Henrique a pedir a nulidade de seu matrimônio ao Papa Clemente VII. Não
conseguindo a autorização para tal, houve troca de ameaças: Henrique ameaçou procurar outros

7
Dinastia reinante entre 1154 e 1399.
8
Ornamento precioso dado a pessoas que tenham demonstrado seu espírito de lealdade com a Santa Sé.
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meios para sua nulidade fora da Igreja e


Clemente ameaçou a excomunhão. Não
respeitando a decisão da Santa Sé, e casando-
se com Ana Bolena secretamente, foi
excomungado da Igreja.
Em 1534, o parlamentou criou duas
leis: Lei de Sucessão (declarava os filhos de
Ana Bolena herdeiros do trono) e o Ato de
Supremacia (declarando o rei chefe supremo
da Igreja na Inglaterra, inclusive em matéria
doutrinária e disciplinar). Estava fundada a
cismática e herética Igreja Anglicana. Quem
não aceitasse essas leis, cometia crime lesa-

Retrato de Henrique VIII. Hans Holbien. 1537. Walker Art. Gallery.


majestade.
Pilharam as riquezas eclesiásticas por
toda a Inglaterra, e as terras do clero foram
doadas aos nobres. Começava em seu
governo o anglicanismo, carregado ainda da
doutrina católica, adicionada doutrinas
protestantes, como a possibilidade de casar-
se várias vezes e a negação do culto aos
santos. As relíquias de santos foram
queimadas e jogadas nos rios.
Seu matrimônio com Ana Bolena não
perdurou, pois ela também não dera herdeiros à
Henrique. No total, Henrique casou-se seis vezes.
Algumas divorciadas, outras assassinadas.
A Henrique VIII sucedeu Eduardo VI, filho de Joana Seymour, o qual tentou pela força
tornar calvinista a Inglaterra. Foi um reinado curto de tirania protestante. Maria Tudor, filha de
Catarina de Aragão, ocupou em seguida o trono, casou-se com Filipe II da Espanha e procurou
reconduzir a Inglaterra ao catolicismo. Dizem que morreu de desgosto com a perda de Calais.

Rainha Elisabeth I
Nascida de Ana Bolena e Henrique VIII no ano de 1533, Isabel (Elizabeth) tinha, com o
falecimento de Maria, vinte e cinco anos. Simulou ser católica para subir ao trono. Cética, egoísta,
hipócrita, de rara habilidade política e notável instrução, conhecia as línguas clássicas e falava tanto
francês quanto inglês.
Isabel foi quem propriamente organizou a Igreja Anglicana. Jamais quis se casar e raramente
convocou o Parlamento. Elevou a Inglaterra a potência de primeira ordem, favorecendo o
desenvolvimento da marinha inglesa. Em seu reinado, Walter Relaigh tomou posse da Virgínia
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(atual estado dos Estados Unidos) na América. Um dos fatos mais deploráveis de seu governo foi
o assassinato de Maria Stuart, rainha da Escócia.
As organizações maçônicas aparecem na Inglaterra nos tempos de Isabel. Inicialmente, a
rainha quis dissolver as lojas maçônicas de seu país; mais tarde, tornou-se membra de uma das
lojas.
A influência dessas sociedades ao mundo moderno está na formação do espírito capitalista.
Não no capitalismo como fenômeno econômico, de aparência muito anterior. O espírito capitalista
tem seu antecedente no mercantilismo. A Maçonaria soube combinar todas essas forças contrárias
aos critérios tradicionais para lançá-las na conquista do poder. Seu primeiro ponto de apoio foi a
Holanda e depois a Inglaterra. A partir dessas bases começou sua atividade dissolvente e envolveu
em seu jogo a burguesia financeira e aquela parte da nobreza conquistada pelo espírito moderno e
bastante confusa quanto ao perigo de se aliar a forças pouco dispostas a aceitar seus privilégios de
classe.

Mercantilismo
Mercantilismo é um conjunto de práticas econômicas desenvolvidas na Europa entre o
século XV e XVIII. A doutrina mercantilista, assim como a doutrina renascentista e seu
individualismo, se opunha à economia medieval e deu início ao capitalismo liberal. Não se
apresenta como uma ciência, mas sim como um modo de resolver os problemas econômicos com
independência de toda subordinação da moral, política e religiosa. O primeiro capitalista, que
administrou seu dinheiro, que jogou dinheiro em circulação para encontrar mais dinheiro, abriu seu
próprio negócio e que se dedicou à busca do “lucro infinito”, ele era o comerciante.
A harmonia, tão difícil de alcançar, completamente medieval é desarticulada e cada
organismo da sociedade começa a crescer individualmente. A política começa a se desarticular da
A bacia de São Marcos no dia da Ascensão. Canaletto. 1734. Royal Collection

Porto de Veneza, um dos portos mais movimentados da Europa. Ponto de chegada de


comerciantes e mercadorias.
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Igreja, e já não reconhece sua autoridade. A arte deixa de ser a expressão do cristianismo e sim a
do homem. A economia também se destaca por sua participação na ordem e assume a orientação
de vida de certos homens, transformando-se em seu fim.
O século XIV testemunhou o surgimento deste primeiro capitalismo e viu crescer a
prosperidade entre os mercadores e, ao mesmo tempo, os primeiros protestos sociais. Em todos eles
arde o desejo de se libertar das “amarras” de uma ordem que constrange a individualidade e a obriga
a obedecer à dura lei do todo. Os grandes senhores se rebelam contra os reis, e os novos ricos das
cidades comerciais contra os antigos senhores. A monarquia nacional crescerá em meio a essas
brigas e será projetada como a única defesa dos interesses populares contra a anarquia dos
poderosos.
O mercantilismo se desenvolve fora das empresas locais, uma vez que estas, permanecem
por muito tempo ainda sujeitas às regras meticulosas das corporações comerciais, enquanto o
comércio em grande escala escapa de suas regras e se justifica pelos privilégios de um
desenvolvimento avassalador. É a época dos grandes banqueiros florentinos: tanto os Peruzzi, como
os Bardi e os Médici espalharam suas redes econômicas por todos os países do Ocidente cristão.
A ganância por dinheiro fazia com que comerciantes jogassem um jogo cheio de riscos para
alcançar o poder e o lucro. “Muitas dessas fortunas, adquiridas com demasiada rapidez e frequentemente
por meios impuros, caíram muitas vezes em ruína e outras em condenação judicial. Mas ilustram de forma
notável o desenvolvimento do capitalismo ... É evidente que na busca de riquezas, os novos ricos não se
importam com a moralidade tradicional. A ruptura entre os ensinamentos da teologia e as novas
práticas é definitiva. Impossível harmonizar a condenação da usura, a doutrina do preço
justo, com o amor ao lucro, com a ganância e especulação financeira”.
Os historiadores da economia destacam as características inovadoras dos centros comerciais
que durante os séculos XIV e XV abriram no Atlântico para verdadeiros acontecimentos
internacionais. As principais inovações consistem em uma renúncia sistemática a todos os
obstáculos morais que as transações livres do comércio exterior poderiam ter. O porto de Antuérpia
tornou-se um empório das melhores complicações do comércio internacional e desde 1460 a
Holanda, verdadeira vanguarda do processo, conhece o primeiro intercâmbio internacional
estabelecido na Europa.
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Atividades
1) Como ficaram conhecidas as cidades fortificadas na Idade Média? Como eram chamados os
habitantes destas cidades?
2) Qual era o objetivo dos burgueses com os movimentos contrários aos senhores feudais?
3) Como surgiram as corporações de ofício?
4) Qual a consequência do regime feudal em relação ao poder dos reis? Cite os reis da França que
contribuíram para o aumento do poder da monarquia.
5) Quais dificuldades tinham que enfrentar os mercadores? Qual solução foi encontrada?
6) Em que contexto se formou a Liga Hanseática? Qual era a capital e quantas cidades se associaram
à esta liga?
7) Quais eram os desafios do estudo na Idade Média? Onde se desenvolvia o estudo neste período?
8) O que foi a Escolástica? Quais são seus principais vultos?
9) Cite algumas universidades criadas na Idade Média.
10) O que é o absolutismo? Quem é o maior vulto deste sistema político?
11) O que significa a expressão “L’État c’est moi” de Luís XIV? O que esta expressão representa?
12) Cite alguns feitos de Luís XIV durante seu governo?
13) Quais erros cometeu Luís XIV?
14) Qual foi o período da Guerra dos 30 anos? Quais foram as suas quatro fases?
15) Quais foram as causas da guerra?
16) Qual foi o desfecho do conflito?
17) Quais foram os três primeiros reis da dinastia dos Plantagenetas?
18) O que foi a Magna Carta? Cite algum elemento desta carta.
19) O que é o Parlamento Inglês? Quem o compunha?
20) Qual foi o desfecho da Guerra das Duas Rosas?
21) Qual foi o grande erro de Henrique VIII?
22) O que é o mercantilismo? Cite algumas de suas características.
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49

Capítulo

4
Introdução

T
ODOS os sinais precursores da morte de uma nação pareciam enunciar que o fim da França
era iminente: todas as forças políticas e sociais estavam desagregadas, a realeza exausta
por cinquenta anos de demência, não era nem sequer capaz de morrer com glória; a
nobreza, precipitada, de derrota em derrota, por seu temerário orgulho e por sua falta de união,
passou de uma presunção cega a um abatimento fatal.
O clero, despojado por suas próprias faltas, do
domínio que outrora exercia sobre os espíritos deixava-se
anular na luta entre os dois povos, não sabendo tomar na
defesa o papel que o clero inglês havia tomado no ataque,
e não oferecia mais que conselhos inúteis à monarquia.
A Universidade de Paris, abandonada por seus
melhores campeões, incensava servilmente o rei
estrangeiro. A burguesia sucumbia também, e Paris, a
cabeça e o coração do Terceiro Estado (terceira classe
social, o povo), traía os destinos da nação, submetendo-se
ao invasor (Inglaterra).
Como a nação francesa, essa que teve a Santa
Igreja Católica por sua mestra por tantos anos e que
povoou o Céu de Santos, tendo agradado a Deus em sua
servidão e em suas conquistas, estava agora sucumbindo
ao povo inglês que mais tarde viria a rebelar-se contra o
Papa e, consequentemente, contra a Igreja.

O início do conflito
Desde 1316 até 1378, a Igreja foi governada por seis Papas dos quais se destaca o Santo
Urbano V. Neste período em que a Europa passava por diversas dificuldades, por exemplo a Peste
Negra, que matou entre 75 e 200 milhões de pessoas, quem esteve à frente, governando a Igreja de
Cristo e toda a Europa, foram os Papas franceses, como João XII, que ficou no papado de 1316 a
1334; Bento XII, de 1334 a 1342; Clemente VI, de 1342 a 1352; Inocêncio VI, de 1352 a 1362;
Santo Urbano V, de 1362 a 1370; e, por fim, Gregório XI, de 1370 a 1378.
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É importante entendermos a importância da França para a Igreja no momento anterior à


Guerra dos Cem Anos contra os ingleses. Após a Peste Negra que dizimou 1/3 da Europa, como
citado acima, grande parte dos bons religiosos e justas pessoas deram sua vida no cuidado dos
doentes. Assim, a peste devastou grande parte dos santos sacerdotes e bispos, ficando os sacerdotes
que se esconderam e as pessoas que não possuíam empatia pelo próximo. Dessa forma, como
descrevemos no início, grande parte da França estava em ruína religiosa e já não se encontrava
confiança na Monarquia, como outrora fora com São Luís IX, o maior monarca francês. O ambiente
havia sido estabelecido propiciamente, bastava uma fagulha do demônio para que os reinos
católicos instaurassem guerra entre si. Vejamos qual foi tal fagulha.

Causa da guerra
Tendo morrido Carlos IV, rei da França, devia suceder-lhe no trono o filho de Isabel (irmã
de Carlos IV), Eduardo III, que já era rei da Inglaterra. Este, além de um grande líder militar,
restaurava a aclamação popular inglesa e sua influência econômica; porém, devido ao seu vínculo
com Carlos IV, e também pelos franceses não quererem um rei inglês para os representarem,
falaram à Isabel que ela não poderia reivindicar o trono para seu filho, pois não era dela de direito:
havia a Lei Sálica que dizia “mulher nenhuma, nem por conseguinte seu filho, podia suceder no
trono de França”.
Deste modo, era chamado ao governo Filipe, da casa de Valois, que reinou com o título de
Filipe VI e inaugurou uma nova família reinante, a dos Valois, que de 1328 e 1498 deu sete reis à
França: Filipe VI, João II, Carlos V, Carlos VI, Carlos VII, Luís XI e Carlos VIII. Durante o reinado
dos cinco primeiros, a França sustentou contra a Inglaterra a Guerra chamada dos Cem Anos (1337
– 1453).

A questão da sucessão ao trono foi, aliás, mero pretexto. A verdadeira causa foi a velha
rivalidade entre a França e Inglaterra, agravada agora por causa das possessões dos ingleses em
França, principalmente a região de Guiena e Gasconha, no sudoeste da França. Durante a guerra
ocuparam o trono inglês Eduardo III, Ricardo II, Henrique IV, Henrique V e Henrique VI.
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“Aparentemente, as suas causas são feudais: as pretensões à coroa da França de um Eduardo III, neto por
parte de mãe de Felipe o Belo, e a sua recusa, embora fosse rei da Inglaterra, soberano na sua ilha, de
permanecer vassalo do rei da França quanto às terras que possuía no continente. As verdadeiras causas,
porém, são bem diferentes: giram em torno do antagonismo franco-inglês pela posse da Flanders com
Bruges e da Guienne com Bordeaux, isto é, pelo controle do mar, dos grandes negócios do trigo, do vinho
e dos tecidos. E isso é muito moderno... Igualmente sua técnica militar: esta guerra assinala uma transição:
os cavaleiros blindados das antigas formações nobiliárias enfrentam agora, com um heroísmo muitas vezes
estupidamente temerário, infantarias móveis, insinuantes, fornecidas pelas cidades, e os primeiros canhões 9,
futuros reis dos combates.” (DANIEL ROPS)

Batalha de Crécy
1346
Abordaremos as principais batalhas que aconteceram durante esta longa guerra.
Começaremos com aquela que foi o preâmbulo do confronto entre os ingleses e os franceses, que
contém a primazia, não só nessa longa guerra, mas também na primeira guerra em que foram
utilizados os canhões.
Começaremos com a derrocada moral dos franceses, que contavam com um exército de 30
a 50 mil homens, contra o exército inglês de 15 a 20 mil homens. A guerra foi iniciada pelos
ingleses, por seu Rei Eduardo III, que reivindicou o trono francês, como citado anteriormente.
Percorreremos, a seguir, algumas das batalhas mais memoráveis deste período.

Estratégias da batalha
Foram utilizados nessas batalhas
canhões, besteiros (arqueiros) e
cavalaria. Como os ingleses iniciaram o
confronto, montaram uma boa
estratégia militar. Do lado do reino
inglês estavam seus aliados do Sacro
Império Romano, enquanto do lado do
reino francês estavam seus aliados, os
mercenários genoveses e o reino de
Maiorca. A França, até então com sua
cavalaria hegemônica, pouco planejou
estratégias para combater os ingleses.
O confronto se deu no reino
francês, em Crécy, onde os exércitos se
encontraram. Os ingleses haviam-se
preparado e escolhido um lugar com
Batalha de Crécy.
montanhas para combater; vieram antes

9
Até então não se havia usado “armas de fogo” nas guerras ocorridas em território europeu. A pólvora é uma invenção chinesa
introduzida nos reinos por volta do século XII. O uso de canhões modificou definitivamente as estratégias e as formas de combate
que durante milhares de anos foram usadas.
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para a batalha e montaram obstáculos, prevendo uma grande investida da famosa cavalaria
francesa. Montado o campo de batalha, chegaram os franceses com seus inúmeros besteiros que
haviam sido contratados pelos mercenários, mas os ingleses também possuíam muitos besteiros.
Ao iniciar a batalha, os lados percebem que as flechas dos ingleses possuem um alcance
muito maior que a dos aliados franceses. Indignados, os cavaleiros franceses se perguntaram acerca
do que estava acontecendo, pressupondo uma diferença de armamento. Como eles não se haviam
preparado da maneira devida, ao contrário dos ingleses, na noite anterior enfrentaram uma forte
chuva, e os franceses deixaram suas bestas molhar-se, comprometendo parte de seu material.
Foi um fracasso total por parte dos franceses, que sucumbiram perante o equipamento inglês.
Quando, então, já cansados de ver seus amigos morrer, os cavaleiros resolveram tomar a frente da
guerra e combater corporalmente. De fato, neste ato de bravura da cavalaria, foi desfeita a frente
de besteiros, porém, como vimos, os ingleses já se haviam preparado para a destemida cavalaria
francesa, montando armadilhas para os seus cavalos que, de maneira soberba, avançaram de
qualquer jeito, fazendo com que quase todos sucumbissem. A França perdeu cerca de sete mil
homens, abalando seu respeito e sua coragem; em contrapartida, a Inglaterra teve uma perda de 500
homens.

Batalha de Calais
1347
Após vencer a Batalha de Crécy, o Rei Eduardo III, dá início à sua expansão sobre o território
francês de maneira estratégica para angariar recursos para a Inglaterra e privar a França de fontes
de recursos importantes. Calais era uma cidade onde se localizava um importante porto francês,
pois além de receber muitas especiarias, era forte fonte de comércio em geral. Os ingleses, então,
marcharam em direção a esta cidade.

Estratégia de batalha
Essa cidade era defendida por um homem chamado
João de Viena, que mostraria – diferentemente da primeira
batalha – não ser fácil para os ingleses dominar aquela cidade.
Nos poucos confrontos que se deram, o povoado se defendeu
de maneira espetacular, organizou-se corretamente e defendeu
a entrada da cidade com bravura. Tendo em vista que essa
batalha poderia lhes custar muitos homens, prejudicando a
ideia de seguir adiante, e sabendo também que dificilmente a
França mandaria reforços, o Rei Eduardo III com toda sua
esperteza militar, resolveu organizar um cerco. Uma vez que
os ingleses não conseguiam entrar, esse cerco faria com que,
pouco a pouco, a cidade francesa ficasse sem comida.
O cerco durou cerca de onze meses, e após todo esse tempo os franceses resolvem ceder.
Mais uma vez, a Inglaterra dominou um território importante da França, e sua confiança se
fortaleceu.
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Tratado de Brétigny
Esse Tratado pareceu manter a paz entre os dois povos. Mas, em seus trinta e nove artigos,
a França aceitara ceder muitas de suas cidades como: Aquitania, Ponthieu, La Rochelle, etc, como
demonstrado no mapa ao lado (partes em rosa). Também como mostra o mapa, a Inglaterra cedeu
alguns territórios já sob seu domínio de volta para a França (parte em rosa claro), além de negociar
a volta do Rei por uma quantia de três milhões de coroas, algo que para a época era inimaginável,
forçando a França a se envolver ainda mais para pagar uma dívida que não dispunha de condições.

Batalha de Azincourt
1415
Esta batalha, iniciada por Henrique V, filho de Henrique IV, neto de Eduardo III, foi também
muito importante para a Guerra dos Cem Anos. Mais uma vez, o exército francês foi montado por
seu rei Carlos VI; a batalha se deu no norte da França, perto de Artois. A soberania francesa estava
em perigo e a batalha foi em território francês novamente. O povo já estava farto das derrotas
sofridas pela França, e os reis, que amargavam sucessivas derrotas, reuniram, desta vez, um grande
exército, provavelmente o maior até então, com trinta mil homens. Os ingleses contavam com um
pouco mais de nove mil homens. A vitória francesa era certa. Finalmente a França reaveria sua
glória?

Estratégia de batalha
Henrique V sabia que não poderia prolongar demasiadamente a guerra, pois estava havia
algum tempo em marcha para reivindicar o trono francês e seus soldados se encontravam sem
muitos suprimentos, pelo contrário, seus homens estavam cansados, portanto, a batalha deveria ser
rápida! Combatendo com os ingleses existiam, mais ou menos, seis mil arqueiros, mil e quinhentos
soldados de infantaria pesada e dois mil homens de cavalaria. Pelos franceses, quinze mil homens,
sendo cinco mil pertencentes à cavalaria. Por essa vantagem, a confiança francesa – mesmo após a
humilhação da batalha de Crécy – estava em alta. Mas desta vez era necessária uma estratégia de
batalha.
Além da confiança, a disputa aconteceria em território francês, concedendo-lhes mais uma
vantagem, tendo em vista o conhecimento do terreno irregular, repleto de florestas e montanhas, o
que fez com que os franceses tomassem a iniciativa em uma manhã nublada, no dia 25 de outubro
de 1415.
A tática dos franceses não foi, porém, a correta. Mandaram que seus cavaleiros avançassem
em direção aos arqueiros, causando inúmeras baixas; mandaram também sua infantaria, mas as
condições do terreno não eram as melhores e a dificuldade para se locomover, concedia vantagens
aos arqueiros ingleses. Inesperadamente, os franceses foram humilhados, devido à inovação de
batalha do novo arco inglês, que possuía maior alcance, assim como a ignorância dos franceses em
insistir nos mesmos erros. Observe, abaixo, uma ilustração sobre como se deu a batalha.
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Santa Joana d’Arc: a esperança francesa


“O reino da França causava grande dó no início em 1429. Havia cem anos, ou quase isso, que a guerra com
os ingleses devastava o país, e essa provação, parecia encaminhar-se para o seu termo do modo, mais
doloroso. Vencida uma vez mais, catorze anos antes, em Azincourt, a coroa legítima rolara por terra e fora
apanhada pelos ingleses. Nas exéquias do infeliz demente Carlos VI... No entanto, no mais profundo
daquele povo dilacerado e arquejante, nas camadas mais humildes e infelizes, havia um sentimento que
permanecia “Salvar o reino da França”. Contudo, não é somente no caso dos indivíduos dos povos, que o
momento do pior desamparo é geralmente a hora que Deus reserva para Si. Nesse jardim ou nesse “Bois –
Chenu” onde, pela primeira vez, o Arcanjo São Miguel, escoltado por Santa Margarida e Santa Catarina,
falara à pequena pastora Lorena, fora a França inteira que recebera a intimação da esperança. Joana tinha
apenas treze anos quando, pela primeira vez, as vozes misteriosas haviam retinido aos seus ouvidos, e
dezessete ou dezoito quando, apesar da sua humildade, se dispôs a obedecer-lhes e a tentar a incrível
aventura. Para que se manifestasse na história – num impulso de heroísmo e de grandeza – a jovem
consciência de uma nação que queria viver livre, a Providência servia-se de uma criança como
instrumento.” (DANIEL ROPS)

Essa jovem, com muitas graças, nasceu em 1412, na cidade de Domrémy, França. O período
de seu nascimento foi marcado por dificuldades para o povo francês, que outrora havia sido a nação
mais gloriosa do mundo; agora, estava atravessando a Guerra dos Cem Anos, a qual, em conflito
com a Inglaterra, estava sendo aniquilada por dentro, com os conflitos internos, e por fora, com a
perda do trono para um rei inglês.
É então que Jesus sai em defesa deste reino que serviu esplendorosamente durante muitos
anos Sua Santa Igreja, suscitando uma jovem de 18 anos, que escutou uma voz lhe chamar a
governar o exército francês, para expulsão dos ingleses. Vejamos sua carta ao Rei da Inglaterra:
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“Rei da Inglaterra, e vós, duque de Beldford, que vos fazeis chamar regente do reino de França;
vós, conde de Suffolk; Jean, senhor de Talbot, e vós, Thomas de Scales, que vos intitulais capitães do duque
de Beldfor, dai razão ao Rei do Céu: entregai à Donzela enviada por Deus, O Rei do Céu, as chaves de
todas as cidades que haveis tomado na França. Ela veio da parte de Deus, para reclamar o sangue real.
Ela está pronta a fazer a paz, se vós quiserdes reconhecer vosso erro e pagar tudo o que fizestes.
E vós todos, arqueiros, companheiros de guerra, nobres e outros que cercais a cidade de Orleans
ides para vosso país, em nome de Deus! Se assim não o fizerdes, aguardai as notícias da Donzela, que vos
visitará em breve para vossa desgraça.
Se assim não fizerdes, Rei da Inglaterra, vede que sou capitã de guerra, e se eu encontrar gente
vossa em qualquer lugar da França, obrigá-los-ei a partir, queiram ou não. E se não me obedecerem, os
matarei a todos.
Fui enviada por Deus, Rei do Céu, para expulsar-vos de toda a França. Terei misericórdia daqueles
que obedecerem. Vós não recebereis de Deus, Rei do Céu e filho de Santa Maria, o reino da França; mas
recebê-lo-á o rei Carlos, pois o Rei do Céu assim o deseja e revelou-o à Donzela, a qual entrará em Paris
com seu exército.
Se não quereis acreditar nas palavras de Deus e da Donzela, nós vos procuraremos em qualquer
lugar em que estiverdes, vos golpearemos e faremos uma caçada tão grande como não se viu na França
em mil anos. E acreditai-me: o Rei do Céu enviará à Donzela mais forças do que todos os vossos assaltos,
e na hora dos golpes veremos quem pode mais: se vós ou o Rei do Céu…”
Escrito na terça-feira da Semana Santa – 22 de março de 1429.

Uma nação que confia na vitória novamente


Mais do que seu fervor em batalha, mais do que
suas conquistas e vitórias, esta santa havia recuperado
a honra francesa e sua vontade de lutar. Os franceses
obtinham o que lhes faltava, uma comandante que,
inspirada pelo Espírito Santo, retomou a história
francesa, bem como suas batalhas.
Primeiramente, era preciso recuperar o povo
francês que estava sob o jugo dos ingleses. Por isso,
Joana, uma Santa imponente, mandara a carta
(mostrada acima), demonstrando sua coragem e
intimidando os ingleses. Tudo se iniciou pelo cerco de
Orléans, onde ela utilizou a tática tantas outras vezes
usada pelos ingleses, ao cercar essa importante cidade
para os dois lados do campo de batalha. Este cerco
durou cerca de seis meses. Vejamos um breve relato
dele.
No dia 27 de abril, ela saiu de Blois com grande
exército. Portava a armadura “tão naturalmente que Santa Joana D'Arc
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parecia não haver feito outra coisa na vida”. Fez proibir as blasfêmias, exortava os soldados a
confessar-se e expulsou todas as mulheres de má vida.
À testa do exército marchava a donzela entoando o Veni Creator Spiritus como cântico de
guerra. E o Espírito Divino respondia: o seu sopro arrastava aquele exército do Senhor. As tropas
pernoitaram em pleno campo. No dia seguinte, a donzela, apesar de fatigada e doente por haver
dormido armada pela primeira vez, levantou-se e recebeu a Sagrada Comunhão diante do exército
em ordem de batalha.
Uma multidão de soldados passa repentinamente da devassidão e da indiferença para o
entusiasmo e a fé, e ajoelham-se diante dos sacerdotes que rodeavam Joana, pedindo que voltasse
a Graça de Deus. No dia 29, a expedição estava próxima de Orléans. Era preciso passar no meio
dos acampamentos ingleses e entrar na cidade sitiada. Ao chegar diante de Orléans, aqueles
cânticos aquelas bandeiras desconhecidas e aquele ambiente inusitado encheram os ingleses, que
cercavam a cidade, de um temor supersticioso.
Joana havia predito que o inimigo “não se moveria sequer” e insistiu em que as tropas
francesas fossem instalar-se defronte das posições mais fortes do inimigo, mas os capitães
franceses, julgando-a por demais ousada, fizeram o contrário.
“Em nome de Deus – exclamou ela – o conselho de Deus vale mais e é mais seguro do que
o vosso. Haveis tentado enganar-me, mas vos haveis enganado a vós mesmos, pois eu trago o
melhor auxílio que jamais teve cavaleiro, vila ou cidade: é o gozo de Deus e ajuda do Rei do Céu,
quem, a todos de São Luiz e de São Carlos Magno, teve misericórdia de Orleans”.
Ao entardecer daquele mesmo dia, inteiramente armada, montando um cavalo branco e
fazendo portar diante de si o seu estandarte, entrou Joana d’Arc na cidade de Orléans. Dirigiu-se
diretamente à catedral, em meio às aclamações e ao júbilo de todo o povo, “dos homens, das
mulheres e das crianças, que mostravam tanta alegria como se o próprio Deus tivesse descido entre
eles”.
Vãos resultaram todos os esforços por manter à distância aquela multidão: todos se
precipitavam ao seu encontro querendo tocá-la ou, pelo menos, roçar seu cavalo. “Sentiram-se
todos muito reanimados, narra o diário do assédio, como se não existisse cerco algum, por causa
da divina virtude que emanava daquela humilde donzela”.
O efeito moral desta primeira jornada foi imenso: a confiança, que antes animava os
sitiantes, passara para o coração dos sitiados e da tropa francesa. Joana teria desejado levá-los todos
ao assalto das fortificações inglesas desde o amanhecer, mas a maior parte dos capitães protestou
contra essa temeridade e decidiu, para grande desgosto de Joana, que não atacariam até a chegada
de todo o exército. Joana saiu à planície e cavalgou lentamente ao longo das barricadas inimigas,
examinando as posições com olhos de capitão experimentado.
O povo a seguiu em multidão, como se a sua presença fosse proteção mais segura do que as
muralhas da cidade. Os ingleses não tentaram impedir o audacioso reconhecimento nem atacar a
turba desarmada. Aqueles homens intrépidos pareciam medrosos como mulheres, enquanto as
próprias mulheres se transformavam em heróis contra eles.
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“Pareciam que tinham as mãos atadas. Antes que a donzela chegasse, apenas duzentos
ingleses faziam fugir oitocentos do exército real, mas depois de sua chegada quatrocentos franceses
combatiam todas as forças inimigas, e as obrigavam a refugiar-se atrás das barricadas”.
A primeira vitória da França, a primeira vitória de Joana; seu nome ecoava pelo exército
inglês, nenhum soldado inglês sequer entrava em campo de batalha sem saber quem era esta Santa,
sem tremer ao colocar sua armadura sabendo que do outro lado estava aquela que foi guiada,
pessoalmente, pelo Espírito Santo.
O restante do exército francês apareceu no dia 4 de maio, na margem direita do Loire. Joana
foi ao seu encontro com uma parte da guarnição e os ingleses nada fizeram para impedi-lo. A
donzela, fatigada pela cavalgada, recolheu-se para tomar algum repouso, mas apenas havia fechado
os olhos, acordou bruscamente dando um forte grito:
“As vozes me chamam! As tropas precisam de socorro! Corre o sangue de nossa gente!
Minhas armas, minhas armas e meu cavalo”.
Este é um pequeno exemplo do começo das várias vitórias que essa Santa trouxe à
cristandade. Ela possui um papel fundamental para a França e também para que toda a Europa não
se tornasse anglicana, sob o poder da Inglaterra.

Estratégia de Batalha em Orleans


1429
No dia 6 de maio, a Santa e outros
comandantes, atravessaram o rio e atacaram
algumas barricadas do lado inglês. Os
ingleses, responsáveis por essa guarnição,
resolveram recuar para reagrupar a tropa e
contra-atacar, mas Joana, sem esperar seus
companheiros de batalha, correra em direção
ao local e cravou um estandarte francês à
margem do rio. Nesse instante, alguém
gritou que os ingleses, da outra margem, se
aproximavam com grandes forças, em
socorro de Glendale; os homens da donzela
recuaram em debandada.
Ao ver isso, a tropa inglesa saiu da
barricada e atirou-se em direção a ela, com
grandes imprecações e injúrias. O instante
foi decisivo; uma só derrota ia dissipar o
prestígio que cercava Joana e arruinar as
esperanças da França. O risco não foi longo:
a Santa virou rédeas, abaixou a lança e
Entrada de Santa Joana d'Arc em Orleans precipitou-se contra os ingleses lançando seu
brado de guerra “Em nome de Deus”; os
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comandantes retomaram a confiança, correram atrás dela/ o pânico apoderou-se dos inimigos, e
deram-se a uma fuga vergonhosa, voltando aos seus baluartes.
Os franceses os seguiram, e a barricada foi novamente atacada; fossos, escarpas repletas de
armadilhas, paliçadas, parapeitos guarnecidos de artilharia, tudo foi inútil, os assaltantes
penetraram por todos os lados e passaram a fio de espada todos os defensores. Joana, ligeiramente
ferida, retornou a Orléans e resolveu atacar a barricada da Tournelles no dia seguinte.
Mas os capitães não eram da mesma opinião; temiam comprometer os resultados obtidos, e
talvez temessem mais ainda que as próximas vitória daria à Santa um brilho que os apagariam.
Infelizmente, começara aqui algo que será recorrente daqui para frente nesta guerra. Deus deu uma
graça ao povo francês, mais do que isso materializou essa graça através dela, e os comandantes
franceses ainda continuavam soberbos, com medo e planejando o tempo todo como controlar a
Santa e suas vitórias. Impressionante observar como a humanidade não é merecedora das graças
derramadas por Deus.
À tarde, reuniram-se em conselho, sem chamá-la, e mandaram dizer-lhe que não atacariam
antes da chegada de reforços. A Santa então respondeu: “Vós tivestes vosso conselho e eu tive o
meu. O conselho de meu Senhor se cumprirá: o conselho dos homens perecerá! Amanhã
combateremos”.
No fim do dia, a Santa montou o cavalo, anunciando que, antes do entardecer, voltaria
vitoriosa pela Ponte de Loire. O conselho dos chefes decidiu impedi-la de passar, e Gaucourt,
comandante da cidade, guardava pessoalmente a porta de Bourgogne, declarando que ninguém a
transporia.
Joana ordenou ao povo que abrisse a porta; à sua voz, os soldados precipitaram-se com tal
fúria que Gaucourt foi despedaçado. O povo, arrastando os canhões, saiu da cidade como uma
torrente e lançou-se ao ataque. Os capitães viram-se forçados a acompanhar o movimento. As
posições inglesas foram cercadas entre dois fogos; uma tropa francesa lançou um terrível
bombardeio contra o forte das Tournelles, enquanto, do lado oposto, Joana dava o sinal de ataque.
Foi uma luta de gigantes. Glendale
tinha em torno de si os melhores guerreiros
da Inglaterra animados pela ufania das
antigas vitórias e pela cólera das recentes
derrotas, e que se defendiam com coragem
obstinada e furor sombrio.
Quanto aos franceses, atiravam-se ao
assalto “como se cressem os imortais”.
Através das balas, das flechas, dos dardos e
das pedras, arrancavam as paliçadas,
enchiam os fossos, e escalavam as
fortificações, mas caiam golpeados pelos
Cerco de Orléans
machados, pelas lanças e pelas maças dos
ingleses.
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A luta durava já três longas horas. Joana exortava seus homens a “ter bom coração e
esperança em Deus”, mas ao ver que os franceses fraquejavam e hesitavam, precipitou-se no fosso.
Empunhou uma escada e subiu de primeira. Nesse instante, uma flecha atingiu-a entre a couraça e
a gorjeira, fazendo-a cair por terra.
Imediatamente foi levada à retaguarda, mas, tomada por um êxtase, retomou toda sua energia
e arrancou ela mesma o dardo da ferida exclamando: “Não é sangue o que brota das feridas, mas
sim glória!”. Entretanto, a notícia de sua queda espalhou o desalento no exército e os chefes
queriam dar a ordem de retirada quando Joana proferiu um brado de guerra: “Às armas! A barricada
é vossa!.” Lançou-se sobre o cavalo e ordenou que o ataque continuasse; assim ela progrediu e
tomou a frente inglesa.
Quase toda a tropa inglesa foi morta ou tornada cativa, e o tamanho da derrota não era
simplesmente devido ao número. Os seiscentos homens que os ingleses perderam nesse dia eram a
elite de sua Cavalaria. Os chefes ingleses reuniram-se em conselho enquanto ouviam o repicar dos
sinos, cujas alegres badaladas celebravam a vitória de seus inimigos. Resolveram eles levantar o
cerco; quanto a Santa, cumprindo sua previsão, entrava em Orleans pela ponte do Loire, em meio
aos brados de júbilo e a um regozijo popular, mais fácil de ser imaginado do que descrito.
Dez mil vozes entoaram o Te Deum sob as abóbadas da catedral da Saint-Croix. Estava feita
a guerreira, a Santa que libertaria a França. Aqueles que não conseguiam chegar perto dela para
oscular sua mão, osculavam as pegadas de seu cavalo.

Começo do confronto com o rei


Joana sabia que não duraria muito tempo, queria, por conseguinte, conquistar o maior
número de terras e o mais rápido possível. Porém, o rei francês e os soldados ainda não acreditavam
no tamanho da sua graça. Logo após conquistar Orléans ela pediu ao rei que marchasse com ela
para Reims, mas o rei se negou, pensando que seria precipitado promover mais uma guerra. Ela
diz-lhe “Nobre Delfin, não vos preocupeis com tantos e tão longos conselhos; ide logo a Reims
para cingir sua coroa! Pois eu não durarei mais que um ano, e deveis utilizar-me bem”.
Iniciou-se, então, uma série de lutas que culminaram em sua morte, à margem do rio Loire
para que o rei pudesse ser coroado em Reims.
Em Jargeau, dá-se outra investida francesa comandada pela Santa. O conde de Suffolk
defendia a cidade com setecentos homens de elite, e, à chegada dos franceses, fez uma súbita e
violenta carga. Houve um momento de hesitação e desordem; a infantaria começava a recuar, mas
a donzela ergueu seu estandarte e atirou no mais forte guerreiro. Os franceses então recuperaram
sua audácia, e o inimigo foi empurrado para dentro da cidade.
No dia seguinte, a artilharia francesa fulminou a cidade. Foi Joana quem indicou a posição
das baterias com um extraordinário golpe de vista. Às nove horas da manhã, embora fosse domingo,
ela fez tocar as trombetas, bradando ao duque de Alençon: “Vamos, gentil duque, ao ataque!” O
duque considerava ser ainda cedo, mas a Santa exclamou: “É a hora que compraz a Deus romper o
fogo. Não duvideis; é necessário obrar quando Deus quer. Trabalhai e Deus trabalhará. Será que
tendes medo, gentil duque?”
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60

No terceiro dia, Sulffolk, com


seus homens ingleses, ofereceu
rendição se lhe dessem quinze dias de
trégua com direito a serem
socorridos, mas as condições foram
recusadas e os franceses decidiram
lançar-se ao assalto. Após quatro
horas de terrível combate, como a
resistência dos ingleses não cedia, a
própria Joana subiu por uma escada
de mão, empunhando seu estandarte,
no lugar onde a defesa dos ingleses
era mais enérgica. Porém um tiro
acertou o estandarte e uma grande
Encontro da Santa com o rei
pedra atingiu seu elmo. Joana rolou
até o fosso da muralha, mas reergueu-
se com presteza bradando à sua gente: “Avante! Nosso Senhor condenou os ingleses, e serão todos
nossos! Ânimo!”
Os franceses venciam mais um combate; ao serem guiados pela Santa, estavam sendo
guiados por Deus. Logo em seguida houve outro combate, desta vez em Patay, e novamente o
Espírito Santo, através de Joana, guiou os franceses para a vitória. O efeito dos feitos de Joana era
fulminante: todos os soldados, o povo francês, todo o mundo só queria ir aonde Joana fosse, só
queria lutar as lutas em que Joana estivesse. Isso foi gerando um descontentamento no rei. Como
mostramos, ela já tinha deparado com a incredulidade do rei, e agora combatia a sua inveja.
Joana sabia que não tinha tempo e que, lutando ao lado de Deus, não era preciso esperar o
desejo dos homens; queria terminar com a guerra o mais rápido possível, expulsando os ingleses
de seu território, porém o conselho real queria mais prudência, mais lentidão. De povoado em
povoado, libertando o povo, Joana passava com o exército francês. Quando passava a cidade,
parava e todos a aclamavam, muito mais do que aclamavam o rei. Suas marchas cheias de cânticos
católicos, as missas que eram celebradas e as
confissões que ela obrigava seus guerreiros a
fazer reanimaram a verdadeira fé católica na
França.
Tudo caminhava bem; a Santa
finalmente avistara, de longe, as duas torres
de Notre-Dame, em Reims. Apesar de Carlos
VII ainda temer um súbito malogro, no
domingo 17 de julho de 1429 ele foi
solenemente coroado rei da França, e os
clamores de “viva o rei” ressoaram pelas
magníficas abóbodas ogivais. A glória de
Joana atingia seu ápice e ultrapassava
A batalha de Jargeau.
qualquer outra glória. A sua santidade, aos
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olhos do povo, era superior a qualquer santidade comum. Era considerada como um ser descido do
Céu, mais do que uma pessoa por alcançar o Paraíso. O povo a canonizava em vida.
Muitos nobres e cavaleiros abandonavam seus escudos, entronizavam sua imagem dentro
das igrejas e introduziam, na própria liturgia da missa, orações em sua honra. A França,
desagregada, quase morta, levanta-se do sepulcro à voz da santa, como outrora Lázaro à voz de
Jesus.

O começo da traição
A Paris! A Paris!”, exclamou a donzela após a sagração do monarca, e os vinte mil homens
que se encontravam em Reims ecoaram este brado. Mas Carlos VII queria negociar: assinou uma
trégua com o adversário, desprezando a mão que Deus lhe estendia na pessoa de Joana. A Santa
estava em um grande dilema: Jesus a havia mandado empreender as batalhas e ir a Paris, mas o rei
queria que ela ficasse e que o acordo fosse mantido. Ela, porém, ficara nove meses em Reims e se
manteve fiel ao rei, que recebeu dela diversas graças, e, que assim lhe agradecia.
Após nove meses, a Santa convocou alguns de seus fiéis cavaleiros e partiu para Paris
sozinha. Numa manhã, disse às pessoas que a rodeavam: “Meus amigos, estou vendida e traída, e
logo haverei de morrer. Orai por mim, porque em breve nada mais poderei fazer pelo rei e pelo
reino de França”.
No dia 24 de maio de 1430, às cinco da tarde, Joana saiu da cidade à testa de quinhentos
homens de elite, para atacar o inimigo. Mas, depois de um terrível combate, as tropas francesas,
imaginando-se perdidas, debandaram em direção da cidade. No entanto, os mais bravos, os mais
devotados companheiros da Donzela, resistiam em torno dela. “Retirai-vos da cidade”, bradaram
eles, “ou vós ou nós estamos perdidos.”
Mas a Santa respondeu: “Calai-vos! Será vossa culpa se eles não forem hoje derrotados!
Não pensei senão em golpear!” Apesar destas palavras, seguraram as rédeas de seu cavalo e
arrastaram-na em direção à ponte levadiça. Porém a ponte havia sido levantada e a retirada estava
cortada. Todos os inimigos lançaram-se contra ela, e o estandarte sagrado, que havia sido a salvação
da França, o estandarte de Orléans, de Patay, e de Reims, agitou-se em vão pedindo reforços.
O santo estandarte rolou, e os últimos defensores da Donzela foram massacrados ou
separados dela pela imensa multidão de atacantes. “Rendei-vos!”, gritavam-lhes todos, mas Joana
continuava a defender-se heroicamente. Seis cavaleiros seguraram seu cavalo e um arqueiro puxou-
a violentamente pela capa. A Santa caiu do cavalo... O anúncio das vozes estava cumprido: o
período da luta terminava e iniciava-se o longo e terrível martírio da Virgem.

O tribunal da Inquisição
Joana ficou dois meses em cativeiro à espera de que a corte se preparasse para seu julgamento.
Aquela que havia salvado a França permanecia agora presa. Entraram na sala mais de quarenta
doutores em Teologia e Direito Canônico, e logo em seguida entrou a Santa. Uma verdadeira
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tempestade levantou-se à sua entrada. Dir-se-ia que um Anjo penetrava numa assembleia de
demônios.
Os doutores tentavam fazê-la cair em heresia doutrinária, mas ela, incrivelmente, respondia
a todas as perguntas com a mais excelente teoria. Infelizmente isto não bastou: a condenação de
Joana foi política e não doutrinária. Por fim, ela foi declarada herética e foi excomungada. Antes
de sua morte, pediu para receber os sacramentos e, incrivelmente (uma vez que ela foi
excomungada), lhe foi concedido tal pedido.
Um cortejo de oitocentos soldados a levou para o lugar em que seria queimada. Enquanto
isso, Carlos VII mantinha todas as tropas francesas bem longe do lugar onde morria, abandonada
por todos, aquela que havia devolvido o reino ao ingrato monarca. O sacerdote que celebrou sua
missa concluiu: “Joana, vá em paz! A Igreja não pode defendê-la”. Assim, ela foi queimada. Bradou
por Jesus enquanto o fogo a queimava. Logo após morrer, o povo a aclamava como Santa. Um dos
homens que ajudou a matá-la exclamava “Eu matei uma Santa”.

Martírio de Santa Joana d'Arc

Houve mais duas grandes batalhas sem que ela participasse, e as duas foram vencidas pela
França. A Inglaterra já não tinha mais soldados para enviar a esta nação, e decidiu terminar suas
investidas. Em 1453, a guerra havia acabado.
Durante a década de 1456, a camponesa foi considerada inocente pelo Papa Calisto III. Em
1909, cinco séculos depois, a Igreja Católica autorizou a beatificação da moça. Em 1920, ela é
finalmente canonizada pelo Papa Bento XV.
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Atividades
1) Cite algumas dificuldades que a França enfrentava antes da guerra dos cem anos.
2) Qual foi a causa da guerra? Qual foi o período da guerra?
3) Quais foram as principais batalhas da guerra dos cem anos?
4) Onde e quando nasceu Santa Joana d’Arc?
5) Qual foi seu papel na Guerra dos Cem anos?
6) Qual foi o fim de Santa Joana?
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64
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65

Capítulo

5
Introdução

I
NICIAREMOS a aula sobre o Renascimento com uma frase de Daniel Rops que expressa bem
o que foi essa rebelião da inteligência:
“Se quisermos ver as origens da rebelião luciferina, da heresia da inteligência, teremos de
remontar ao coração da Renascença italiana – quando o espírito dos humanistas, maravilhado com
os seus progressos, com as suas descobertas, pouco a pouco se desprendera das tradições, das
observâncias, e logo depois dos dogmas do cristianismo”.
O Renascimento iniciou um processo de rebelião contra a razão, contra a fé, contra a doutrina
e tradição da Igreja e, portanto, contra Cristo. Por isso Rops o chamou de heresia da inteligência e
rebelião luciferina.

Definição de Renascimento
É um movimento de ideias nascido no Norte Itália que manifestou grande entusiasmo pelas
artes e letras, mesclando o paganismo com o pensamento cristão. Seus principais vultos viveram
durante os séculos XV e XVI. São eles: Michelangelo, Leonardo da Vinci, Rafael de Sanzio,
Ticiano, Boccacio, Giotto, Brunellesco, Donatello,
Cellini, etc. Vale ressaltar que nem todos os grandes
personagens do período renascentista eram imorais
ou contrários à pureza da religião católica. O mesmo
período é marcado por homens extraordinários, como
Cervantes, Camões, Giotto e Fra Angélico, por
exemplo.

Por que o nome Renascimento?


Os próprios renascentistas se intitularam
assim. Diziam eles que a sua missão era “renascer” a
cultura greco-romana, contudo fizeram surgir
novamente o paganismo antigo gloriosamente
vencido pela Igreja Católica.
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66

“Durante seu curso, a Igreja realizou uma tripla tarefa.


Lutou contra o mal que provinha das diversas seitas do
paganismo e o destruiu; ela transformou os bons
elementos que se encontravam entre os antigos
romanos e as diversas espécies de bárbaros; enfim, fez
triunfar a ideia que Nosso Senhor Jesus Cristo dera da
verdadeira civilização. Para aí chegar, tinha-se
ocupado primeiramente em reformar o coração do
homem; daí viera a reforma da família, a família
reformara o Estado e a sociedade: via inversa daquela
que se quer seguir hoje.” (MONSENHOR HENRI
DELASSUS)
Os monges copistas preservaram as obras da antiguidade.

Esse trecho de Delassus nos mostra que a Igreja, ao longo de muitos séculos, soube preservar
e transformar os elementos bons que se encontravam nas culturas antigas. Jamais a Igreja poderá
ser contra aquilo que é intrinsicamente bom, belo e verdadeiro, pois essas qualidades provêm de
Deus mesmo. Os renascentistas iniciaram o processo de retorno de tudo aquilo que era deplorável
nos séculos anteriores.
Depois dos treze séculos em que a Igreja infundiu o espírito cristão nos povos, o espírito
pagão renasceu no coração dos homens. É o espírito cunhado no inferno pelo grande
revolucionário: Satanás com seus seguidores. Não se entende a Revolução de Lutero sem antes
compreender a paganização instaurada pelo Renascimento europeu. Esse movimento reintroduziu
no continente europeu os ídolos do período clássico: hedonismo, antropocentrismo, individualismo,
racionalismo, idolatria, etc. Tais vícios tinham sido combatidos pela Igreja por mais de mil anos.
Era necessário, primeiramente, atacar o meio pelo qual somos salvos: a Igreja Católica. Isso
foi feito por Lutero.
“Ora, convencemo-nos de que esses males têm a sua principal
causa no desprezo e na rejeição dessa santa e augustíssima
Autoridade da Igreja que governa o gênero humano em nome de
Deus, e que é a salvaguarda e o apoio de toda autoridade
legítima. Os inimigos da ordem pública, que perfeitamente o
têm compreendido, pensaram que nada era mais próprio para
subverter os fundamentos da sociedade do que atacar sem trégua
a Igreja de Deus, do que torná-la odiosa e odiável por meio de
vergonhosas calúnias, representando-a como inimiga da
verdadeira civilização, do que enfraquecer-lhe a autoridade e a
força por meio de feridas incessantemente renovadas, e do que
derrubar o poder supremo do Pontífice romano, que é neste
mundo o guarda e o defensor das regras eternas e imutáveis do
bem e do justo.” (PAPA LEÃO XIII)10

Depois veio o ataque à divindade e à encarnação de


Jesus Cristo. Para isso se deu a Revolução Francesa e sua
ditadura do igualitarismo.

10
Inscrutabili dei Consilio, nº 3.
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67

“A Revolução (francesa) é inspirada pelo próprio Satã; seu objetivo é destruir da base ao topo o edifício do
cristianismo, e reconstruir sobre suas ruínas a ordem social do paganismo”. (BEATO PAPA PIO IX)11
“[O comunismo é uma] peste mortífera, que invade a medula da sociedade humana e a conduz a um perigo
extremo”. (LEÃO XIII)12

Afirma também o Papa Pio XII em 195213:


“Ele (o inimigo da Igreja) se encontra em todo lugar e no meio de todos: sabe ser violento e astuto. Nestes
últimos séculos tentou realizar a desagregação intelectual, moral, social, da unidade no organismo
misterioso de Cristo. Wuis a natureza sem a graça, a razão sem a fé; a liberdade sem a autoridade; às vezes
a autoridade sem a liberdade. É um “inimigo” que se tornou cada vez mais concreto, com uma ausência de
escrúpulos que ainda surpreende: Cristo sim, a Igreja não! Depois: Deus sim, Cristo não! Finalmente o
grito ímpio: Deus está morto; e, até, Deus jamais existiu. E eis, agora, a tentativa de edificar a estrutura
do mundo sobre bases que não hesitamos em indicar como principais responsáveis pela ameaça que pesa
sobre a humanidade: uma economia sem Deus, um Direito sem Deus, uma política sem Deus. O 'inimigo'
tem trabalhado e trabalha para que Cristo seja um estranho na universidade, na escola, na família, na
administração da justiça, na atividade legislativa, na assembleia das nações, lá onde se determina a paz ou
a guerra.”. (PIO XII)

Características do Renascimento
Para promover todo seu espírito revolucionário os renascentistas espalhavam seus erros pelas
artes, esculturas, arquitetura, música e, especialmente, pelas universidades através dos estudiosos
chamados humanistas, os quais promoviam toda sorte de pensamento contrário à reta razão iluminada
pela fé. Podemos, portanto, distinguir algumas características próprias do Renascimento. Tais são elas:

11
Carta encíclica Nostis et nobiscum
12
Encíclica Quod Apostolici muneris
13
Pio XII, Discorso agli uomini di Azione Cattolica, 12 ottobre 1952.
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68

1. Antropocentrismo e humanismo: teoria segundo a qual o homem é o centro de todas as


coisas. Por isso, verifica-se neste período histórico certo endeusamento do homem ,que
passa a ser o foco das obras de arte, das esculturas, das produções literárias, etc. Encontra-
se também o domínio do homem sobre o tempo, como se este pertencesse ao homem e não
a Deus.
2. Racionalismo: teoria que afirma que a RAZÃO é o único caminho para obter o
conhecimento, desconsiderando a Revelação Divina, que se manifesta ao homem a fim de
que conheça as realidades da fé. Os renascentistas iniciaram a separação da fé e da razão.
3. Individualismo: teoria segundo a qual os direitos dos indivíduos são básicos. O problema é
a concepção reducionista do homem adotada pelos renascentistas. Estes se desviaram
gradualmente da concepção correta de que todo ser humano é um ser individual de natureza
racional e, por isso, possui alta dignidade.
4. Hedonismo: essa teoria afirma que o prazer é o único bem que se pode conseguir na vida.
A ideia de prazer é ampla, abrangendo o corpo e a alma do ser humano. O problema que se
verifica é que o hedonismo considera o prazer como o único bem dessa vida e, portanto, a
finalidade dela. O prazer em si mesmo não é bom nem mau, além de que nem tudo o que
me causa prazer é bom e nem tudo o que não me causa prazer é ruim. O prazer é apenas um
meio e não uma finalidade. Essa ideia se opõe aos ensinamentos de Jesus, que nos ensina
que a verdadeira felicidade consiste em carregar a cruz nesta vida a fim de alcançar o
Paraíso.
“A Fé e a razão não só não podem se contradizer nunca, mas se auxiliam mutuamente, dado que a reta razão
demonstra os fundamentos da Fé, e, iluminada pela sua luz, cultiva a ciência das coisas divinas, ao passo
que a Fé livra e protege dos erros a razão e a enriquece de vários conhecimentos.” (CONCÍLIO
VATICANO I)

Causas do Renascimento
Para se chegar ao grande desvio do renascimento foi necessária a proliferação de ideias
repletas de erros pela Europa Católica. Esses erros preparam o renascimento. São eles:
1. A decadência do sistema de ensino (separação da vida intelectual da vida moral): as
Universidades contribuíram para a decadência do ensino, pois não se exigiam dos estudantes
uma retidão de vida, mas sim que atingissem as metas propostas pelas avaliações. Isso
significa que a vida intelectual se separou da vida moral. Podemos conhecer a verdade das
coisas, e por isso, se algo é verdadeiro, automaticamente é bom e belo. O verdadeiro, o bom
e o belo procedem de Deus, que é a Suma Perfeição e Santidade. A nossa inteligência é um
dom extraordinário de Deus que governa a nossa vontade e esta as nossas paixões, emoções,
imaginação, etc. Isso significa que buscamos o conhecimento para santificar-nos cada vez
mais, isto é, para configurar-nos à Pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo. Conclui-se que, se
a inteligência não é capaz de dizer à nossa vontade o que ela deve escolher (o bem ou o mal),
isso significa que ela não está sendo desenvolvida. À inteligência se acrescenta a Graça de
Deus, a qual nos possibilita ter uma vida sobrenatural. Os renascentistas eram alheios a todas
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essas coisas, desconsideravam a necessidade da Graça e da conformação entre a vida


intelectual e a moral.
2. O surgimento da filosofia nominalista, com o frade inglês Guilherme de Ockham:
doutrina segundo a qual a inteligência humana não poderia ter acesso às verdades universais,
estando o conhecimento humano limitado à apreensão das realidades sensíveis. Isso
significa que o conhecimento humano se limita àquilo que nossos sentidos podem apreender.
Nossa inteligência não poderia, segundo Ockham, conformar-se com as realidades
invisíveis, como Deus, a Graça, os Anjos, etc. A filosofia nominalista se espalhou
rapidamente por todas as Universidades da Europa.
“Os ockhamistas concordam, sim, em que seja impossível provar todas as verdades reveladas pela luz
natural da razão. Mas vão além: acham que possa haver verdade teológica que filosoficamente seja erro
[...]. (FREI DAGOBERTO ROMAG)

3. A Peste Negra (1348), peste que dizimou 1/3 dos europeus: a Peste Negra gerou uma
“febre de viver” nos habitantes europeus. Iniciou-se uma depravação geral dos costumes. A
taxa de mortes foi tão alta, que as escolas já não tinham professores, além de os conventos
minguarem em número e diminuírem em fervor e disciplina. Leia o texto abaixo sobre um
homem que viveu neste período.

"Nem parentes, nem amigos, nem sacerdotes acompanhavam os corpos às valas. O ofício dos mortos não
era recitado. Em muitos lugares da cidade, escavavam-se fossas, largas e profundas, dentro das quais se
jogavam os corpos, cobertos com um pouco de terra. Desta maneira se enchia camada após camada, até que
toda a fossa estivesse cheia. Em seguida, iniciava-se outra fossa. E eu, Agniolo de Tura, com minhas
próprias mãos sepultei cinco de minhas crianças em uma só fossa, assim como muitos outros também o
fizeram. Muitos, porém, dos mortos estavam tão mal cobertos com terra que os cães reescavavam a fossa
para comer suas carnes, dispersando pedaços dos mortos pela cidade. Os sinos não batiam, e ninguém
chorava, não importando quão grande tivesse sido a sua perda, pois quase todos estavam na expectativa de
sua própria morte. Todo o povo dizia e acreditava que aquilo já era o fim do mundo.” (WILL
DURANT)
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4. Florescimento da cultura e educação pagãs: essa decadência intelectual e moral, iniciada


nas universidades e agravada pelo nominalismo e pela peste negra, abriu as portas para
a Renascença – a qual não passou de um renascimento do paganismo.

5. A invenção da imprensa: em 1455, Guttenberg inventou a imprensa, fato que contribuiu


para a proliferação das obras dos intelectuais renascentistas. A modernidade teria nascido
da genialidade de um Hugo de São Vítor ou de um Santo Tomás de Aquino. Em vez disso,
o que se deu foi uma epidemia de paganismo e de vãs filosofias, gozando de amplo prestígio
e propaganda.

Mecenas
Mecenas foram homens que financiaram os artistas e intelectuais renascentistas.
Muitos poderosos, entre os quais alguns chefes de Estado, fizeram construir monumentos, palácios,
etc. Compravam estátuas e quadros, sempre avivando o gosto pelas artes. Criavam bibliotecas e concediam
pensão aos estudiosos, procurando assim desenvolver as artes e as letras. Lourenço de Médici fez de
Michelangelo o companheiro de seus filhos e sobrinhos. O Papa Leão X queria dar a Rafael o título de
cardeal. Cellini foi absolvido de um assassinato, porque o Papa Paulo III entendia que !homens únicos na
sua arte não devem estar submetidos às leis”.
Porém, um dos maiores promotores do movimento renascentista foi o Papa Nicolau V que, aliado à
invenção da imprensa de Guttenberg, podem ser responsáveis pela proliferação das ideias renascentistas. O
Papa não pode, contudo, ser acusado de maneira tão rápida. “O plano de Nicolau era fazer de Roma, centro
da Igreja, um foco da literatura e das artes, uma cidade de monumentos esplêndidos, possuidora da melhor
biblioteca do mundo, de modo a assegurar na Cidade Eterna um lar permanente para o Papado.” (Ludwig
von Pastor). Porém, o resultado é que o “neopaganismo paganizou” os membros da Igreja.
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Atividades
1) O que o Renascimento iniciou na história?
2) O que é definição do Renascimento? Quem são seus principais vultos?
3) Por que o nome Renascimento?
4) Copie esta frase de Pio XII que evidencia o processo revolucionário contra Cristo e Sua Igreja:
Cristo sim, a Igreja não (Reforma Protestante)! Depois: Deus sim, Cristo não (Revolução
Francesa)! Finalmente o grito ímpio: Deus está morto; e, até, Deus jamais existiu (Revoluções
comunistas).
5) Quais são as características do Renascimento?
6) Quais são as causas do Renascimento?
7) Quem são os Mecenas?
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73

Capítulo

6
Reforma Protestante
Na primeira metade do século XVI uma grande revolução religiosa se operou na
Cristandade. Dá-se o nome de Reforma. Começou na Alemanha, com Lutero, e comunicou-se a
outras nações.

Causas
Havia muito tempo que se desejava a reforma da disciplina eclesiástica. A fé conservava-se
intacta, intacto também permanecia o culto verdadeiro a Deus, a Santa Missa. Nos costumes,
porém, os abusos eram grandes, quer nos mosteiros, quer em certa parte do clero secular.
Além disso o renascimento das ideias do paganismo, o estado dos espíritos no século XVI,
o relaxamento dos costumes, a ambição dos nobres, tudo favorecia a pregação de Lutero.
Tomou-se por pretexto a reforma que todas as pessoas honestas desejavam; serviu de ocasião a
ordem do Papa Leão X para pregar as indulgências, pedindo aos fiéis auxílios para concluir a igreja
de São Pedro e para a cruzada contra os Turcos.
Reformar, porém, não é destruir; nem se compreendem os exageros e as desordens dos pseudos-
reformadores. Dentro destes abusos se destacam:
1. Que esta reforma fosse empreendida por pessoas que de nenhum modo estavam autorizadas
para isto;
2. Que se atribuísse à Igreja o que era defeito do homem;
3. Que estes reformadores, em geral de costumes muito perversos, em vez de reformar as
desordens, tratassem de abolir as leis, os usos e os dogmas mais substanciais, mais santos e
mais consoladores da Igreja, a respeito dos quais nunca se excitara a mínima dúvida. Tais
são, por exemplo, os votos religiosos, o celibato eclesiástico, a confissão auricular, a
indissolubilidade do matrimônio, as indulgências, a oração pelos finados, a devoção a nossa
Senhora e aos Santos, a Santíssima Eucaristia, etc. Isto tudo foi atacado por Lutero e seus
seguidores.
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Antecessores de Lutero
Além da Renascença e do Humanismo, intelectuais como John Wycliffe e John Huss
criticavam a Igreja e prepararam o caminho para as inversões teológicas e eclesiológicas da
Pseudorreforma. No entanto, o maior e mais conhecido responsável pelo grande cisma causado na
Igreja foi Martinho Lutero.

Breve Biografia de Lutero


Martinho Lutero nasceu na atual Alemanha no ano de 1483. Em 1505 obteve o diploma de
filósofo na Universidade de Erfurt, onde aprendeu a filosofia de Guilherme de Ockham. Além
disso, possuía um temperamento melancólico e introspectivo, fatores decisivos para as suas ideias.
Em junho de 1505, Lutero viu um amigo morrer fulminado por um raio enquanto passeavam,
fato que o assustou e o motivou a abraçar a vida religiosa no mosteiro agostiniano. Em 1507, é
ordenado sacerdote na Ordem Agostiniana. Era de espírito inquieto, imaginação ardente,
perseguido pelo temor do pecado e pelo medo do diabo.
Em curta estada no Vaticano, Lutero pôde contemplar até que ponto as vaidades do mundo
haviam penetrado a Igreja, o que lhe deixará para sempre um profundo desgosto e uma impressão
bastante desfavorável em relação ao papado e à hierarquia.

Porém a grande revolta de Lutero se explica a partir de suas inquietações interiores e de sua
vida religiosa frustrada.

“A reforma luterana (e também a reforma da teologia) parte de uma inquietação religiosa pessoal, e não
de uma investigação intelectual. Por isso, ainda que suas formulações doutrinais tenham raízes na formação
filosófico-teológica de Lutero, apenas a sua postura religiosa pessoal pode explicá-las de todo. Portanto, a
única explicação satisfatória sobre a origem da teologia luterana é a teorização de sua experiência
pessoal.” (JULIAN BELDA PLANS)

As relíquias sagradas
Era o dia 31 de outubro de 1517, festa de Todos os Santos. Esse dia atraía para a pequena
cidade de Winterberg milhares de pessoas piedosas, desejosas de ver a famosas relíquias adquiridas
por Frederico, o Sábio, príncipe da Saxônia.
Entre as principais relíquias, estavam corpos íntegros de santos, cravos da Paixão, faixas que
envolveram o menino Jesus, etc. A veneração dessas relíquias concedia numerosas indulgências.

As 95 teses
No mesmo dia, Lutero fixou na porta da capela do castelo de Winterberg as suas famosas 95
teses, que negavam a importância e até a eficácia das indulgências, entre outras críticas. Isso
marcou o início da Pseudorreforma Luterana.
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75

Alguns abusos, de fato, eram encontrados no que dizia respeito à venda de indulgências
(simonia), fato já evidenciado pelo decretal chamado Abusionibus.

Lutero e suas tese

Igreja no século XVI: Texto de São João Bosco14


Nesta época foi a Igreja tão fortemente combatida, que parecia já tivesse chegado o tempo
do Anticristo. Porém, não obstante isto, conseguiu novos triunfos. Agride-a um dilúvio de hereges,
e muitos de seus ministros, em vez de defendê-la, se rebelam contra ela e lhe abrem profundas
feridas. Unem-se a estes os príncipes do
mundo, que a oprimem com o ferro,
com a devastação e com o sangue. O
demônio se esconde debaixo do manto
de sociedades secretas e de uma
filosofia mundana e sedutora, mas falsa
e corruptora: excita rebeliões, e suscita
perseguições sanguinolentas. Deus,
porém, enfraquece os esforços do
inferno e os faz servir à sua glória.
Novas ordens religiosas, missionários
incansáveis, pontífices grandes pela
santidade, zelo e sabedoria, unidos
todos em um só coração e em uma só
Martinho Lutero pregando suas teses heréticas na porta da igreja

14
Textos da Obra “Compêndio da História Sagrada” escrita por São João Bosco.
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mente, e fortalecidos pelo braço do Todo-Poderoso, defendem heroicamente a verdade e levam a


luz do Evangelho até os últimos limites da terra, conseguindo a Igreja novas conquistas e ainda
mais gloriosas vitórias.
Lutero foi o primeiro a levantar a bandeira da rebelião contra a fé católica, e foi o principal
autor dos males que amarguraram a Igreja neste tempo. Com seu sistema perverso de submeter a
palavra de Deus ao exame e juízo de cada um, causou mais danos à religião católica do que todos
os hereges da idade passada, de maneira que, com justiça, se pode chamar a este apóstata o primeiro
precursor do Anticristo.
Nascido em Eisleben, Saxônia, e filho de um pobre mineiro, manifestou desde sua mais
tenra idade um gênio muito atrevido. A morte de um condiscípulo, que caiu a seu lado fulminado
por um raio, induziu-o a entrar na Ordem de Santo Agostinho. Por algum tempo pareceu
mergulhado em profundas meditações, e agitado por escrúpulos e temores; porém descobriu
finalmente o orgulho que se abrigava em seu coração, declarando-se contra a autoridade do
pontífice romano, saiu do claustro e já não houve meio de dominá-lo. Oprimir aos outros com
calúnias e tiranias, ridicularizar e desprezar as coisas mais augustas e santas; soberba,
desregramento, ambição, petulância, cinismo grosseiro e brutal, crápula, intemperança,
desonestidade, eis os dotes característicos deste corifeu do protestantismo.

Martinho Lutero queimando a Bula Papal. Por Karl Aspelin

No ano de 1869, levantar-lhe-iam na Alemanha uma estátua como insigne “benfeitor da


humanidade”!!! No ano de 1517, começou a pregar contra as indulgências e contra o Papa, e,
progredindo na impiedade, formulou uma doutrina que, quer se considere em si mesma, quer em
suas consequências lógicas e práticas, contamina tudo o que é sagrado, destrói a liberdade do
homem, faz a Deus autor do pecado, e reduz o homem ao estado dos brutos. Entre suas impiedades,
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é bastante lembrar que, conforme ele afirmava, o homem mais virtuoso, se não acredita firmemente
achar-se entre os eleitos, é condenado; e que, pelo contrário, o homem mais miserável, irá
diretamente ao paraíso, se acredita unicamente que há de salvar-se pelos merecimentos de Jesus
Cristo. Tão abominável doutrina foi condenada logo pelo Papa Leão X; todavia, Lutero mandou
atirar ao fogo publicamente a bula. As Universidades católicas e todos os doutores clamaram contra
aquela impiedade e heresia; mas Lutero desprezou-os, e persistiu em sua revolta. Ainda que ligado
por votos solenes, casou-se com Catarina de Bore, religiosa de um mosteiro de Mísnia. Teve
desgraçadamente muitos sectários, que, sob o nome de protestantes, tomaram armas e devastaram
todas as regiões onde lhes foi dado penetrar. Levavam escrito em seus estandartes: “Antes turcos
(muçulmanos) que papistas”.
Ao pensar algumas vezes nos grandes males que causava a nova reforma, exclamava: “Só
tu serás douto? Todos os que te precederam se enganaram? Tantos séculos ignoraram o que tu
sabes? Que acontecerá se te enganas e arrastas contigo a tantos para a condenação?” Eram estes os
gritos de sua consciência, que, apesar dele, protestava contra suas impiedades. Contudo, não
bastavam para fazê-lo voltar ao bom caminho.

Fim de Lutero
Este miserável apóstata, depois de ter desprezado todo argumento e toda autoridade, e depois
de ter queimado a bula do Papa que o condenara, não cessou de pregar a rebelião contra a Igreja e
contra os príncipes. Refutado em repetidas ocasiões por palavra e por escrito, não sabendo já como
se defender, apelou para um concílio geral. Convidado para assistir a ele, negou-se a princípio,
porém logo respondeu enfurecido: “Irei ao concílio, e que me cortem a cabeça se não souber
defender minhas opiniões contra todo o mundo”.
Mas o infeliz teve de ir defendê-las em presença do Juiz Divino. Certo dia, depois de uma
ceia opípara, acometeram-no fortes dores de estômago; levaram-no logo para a cama, porém as
dores se tornavam cada vez mais atrozes. Cheio de cólera e vomitando horríveis blasfêmias, acabou
miseravelmente a vida. Diz-se que, momentos antes de expirar, exclamou, olhando para o céu
através de uma janela: “Tudo está acabado para mim, pois, formoso céu, jamais te tornarei a ver!”
Fim do texto de São João Bosco

Erros Teológicos
A essência dessa religião ou, para dizer melhor, dessa imensa aglomeração de erros de
Lutero, que recebeu o nome de Protestantismo, consiste em colocar a razão individual sobre a
autoridade da Igreja de Jesus Cristo divinamente inspirada. O nome protestante deriva da
protestação que os rebeldes fizeram em 1529 contra o decreto da dieta de Spira, que vedava a
propaganda das doutrinas heréticas de Lutero.
Lutero negava a necessidade e até a existência da graça santificante. Para ele somente a fé
salva a pessoa (Sola Fide).
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Segundo o pensamento luterano, o homem recebe, graças à sua fé, a justificação obtida pelo
sacrifício de Jesus, ou seja, ocorre uma “passividade da vontade humana” (Sola Gratia).

“Os ockhamistas concordam, sim, em que seja impossível provar todas as verdades reveladas pela luz
natural da razão. Mas vão além: acham que possa haver verdade teológica que filosoficamente seja erro
[...]. Lutero estabeleceu uma direta oposição entre a fé e a razão. A razão, debilitada pelo pecado original,
não é, segundo ele, capaz de conhecer as coisas da fé.” (FREI DAGOBERTO ROMAG)

Para Lutero, a única via era a Theologia Crucis, por meio da qual o homem, consciente da
total corrupção da sua natureza pelo pecado original, torna-se incapaz de realizar boas obras.
Assim, a única coisa que lhe resta é confiar nos méritos da Cruz de Jesus para se ver livre da
responsabilidade dos próprios pecados.
Lutero ainda nega a Tradição da Igreja e o Magistério, aceitando apenas, como única fonte
confiável a Sagrada Escritura (Sola Scriptura).

Doutrina Luterana
Lutero foi muito protegido pelos príncipes da Germânia, que cobiçavam os bens dos
mosteiros e das igrejas. Os principais apoiadores do heresiarca (fundador de uma heresia) foram:
Frederico, duque da Saxônia; Filipe de Hesse, a quem Lutero permitiu tomar uma segunda mulher,
sendo ainda viva a primeira; Alberto de Brandeburgo, grão mestre da Ordem teutônica, que, apesar
de seus votos, se casou e apostatou a fim de tornar a Prússia um ducado hereditário na sua família;
Carlostadt, que, apesar de sacerdote, se deu a viver escandalosamente com uma freira até antes de
Lutero, seu mestre. Apoiado pelos príncipes, Lutero elaborou uma nova doutrina:
1. Somente a fé salva as pessoas (sola fide).
2. A Sagrada Escritura é a única fonte confiável (sola scriptura).
3. O Batismo e a Eucaristia são os únicos sacramentos.
4. O culto dos santos e a infalibilidade papal não têm fundamento.
5. Qualquer membro da Igreja pode se casar.
Como a concórdia e a unidade de doutrina não possam existir com o livre exame, os
primeiros reformadores não se demoraram em dividir-se e ter graves desavenças entre si. Com
efeito, querendo Melanchthon ser conciliante, teve de sofrer as perseguições dos outros; Carlostadt
negou a presença real, afirmada pelo seu mestre, e reprovou o culto dos santos que Lutero desejava
conservar. Osiander sonhou que Deus predestina só os escolhidos; Stork e Tomaz Munzer,
pregando a igualdade de todos os homens, condenaram todo o poder espiritual e temporal. Os
discípulos de Stork e de Munzer receberam o nome Anabatistas, porque reiteravam o batismo dado
às crianças. Começaram pelo ano de 1520, tornando-se em breve tão poderosos, que levantaram o
povo da Suabia, da Turingia, da Franconia, da Alsacia e do Palatinado. Lutero, que no começo
aplaudira esse levantamento, mudou dentro em pouco e, professando princípios sanguinários,
mandou seus seguidores reprimir a insurreição. Houve cem mil vítimas, sete cidades destruídas,
mil mosteiros arrasados, trezentas igrejas incendiadas, imensos tesouros de manuscritos e de obras
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de artes perdidas. Seis anos depois os Luteranos trataram muito cruelmente aos Anabatistas que se
tinham apoderado da cidade de Munster.

Carlos V
A princípio usou de muita brandura para com os inovadores deixando lugar à discussão e
até fazendo concessões excessivas com o intento de reunir todos contra os Turcos, que invadiam a
Áustria até Viena. Os protestantes, pelo contrário, ao passo que manifestavam desejos favoráveis à
invasão muçulmana, uniam-se contra os Católicos pelas ligas de Torgáu e de Smalkalde (1531).
Nestas circunstâncias críticas Francisco I aliou-se com os inimigos do Catolicismo e da
Cristandade. Carlos V, portanto, vendo-se impotente para combater abertamente os rebeldes,
recorreu à astúcia, conseguindo separar do partido protestante o general Maurício de Saxônia, que
na batalha de Mulhberg acabou com a liga de Smalkalde. Sendo no mesmo tempo o imperador
bem-sucedido em diversos recontros e apoderando-se de várias cidades, podia esmagar seus
inimigos, se não caísse no erro de propor o famoso Interim, que igualou, até o futuro concílio, os
Protestantes aos Católicos (1548). Esta medida desagradou a todos, e Mauricio, desertando, tentou
prender o próprio imperador, que afinal teve de consentir no ato de Paz Perpétua e de Tolerância
recíproca, redigido pela dieta de Augsburdo.

João Calvino
1509-1564

João Calvino era um revolucionário francês influenciado pelas ideias de Lutero.


Basicamente as heresias de Calvino eram estas:
a. Acreditava que só a fé salva;
b. Rejeitava o culto às imagens;
c. Admitia apenas os sacramentos do Batismo e da Eucaristia;
d. A base de sua doutrina era a predestinação sem as boas obras.
e. Sinais de que alguém era predestinado a salvação: acordar e dormir cedo, gastar com
moderação, se dedicar inteiramente à oração e ao trabalho etc.

Em 1541, Calvino assumiu o governo de Genebra. Proibiu festas, teatros, jogo de carta etc.
Quem descumprisse essas regras era punido. Na Escócia eram chamados de presbiterianos, na
Inglaterra de puritanos e na França de huguenotes.

Reforma na Inglaterra
Essa “reforma” foi conduzida pelo Rei Henrique VIII (1491-1547). O motivo foi o seu casamento.
Henrique pediu ao Papa a anulação do seu primeiro casamento, pois sua mulher não lhe dava um
herdeiro. Porém o Papa o rejeitou, e Henrique se casou com outra mulher.
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Em resposta, o Papa considerou nulo o segundo casamento e excomungou Henrique. Em troca, o


Rei Henrique VIII aprovou o Ato de Supremacia de 1534, que tornava o rei o chefe supremo da
nova igreja nacional, chamada Igreja Anglicana. Henrique confiscou todos os mosteiros e
propriedades da Igreja.
Sua igreja conservou doutrinas católicas com algumas alterações. No período do governo de
sua filha, Elisabeth I, a Igreja Anglicana adquiriu caráter protestante.

“Os modernistas, fundados no princípio que a ciência em nada depende da fé, quando tratam de filosofia,
de história, de crítica, não sentem horror de pisar nas pegadas de Lutero. (...) a doutrina modernista vai
acabar no ateísmo e na destruição de toda religião. Neste caminho os protestantes deram o primeiro passo;
os modernistas o segundo; pouco falta para o completo ateísmo.” (SÃO PIO X)

Contra-Reforma Católica
Introdução

Deus é o Senhor da História! Ao longo da História, a Igreja de Cristo teve de suportar vários
ataques e perseguições. Sempre afligida, mas nunca vencida. Da morte do Filho de Deus, Jesus
Cristo, nos veio a salvação. Da perseguição nos vêm a têmpera, a paciência, a perseverança e a
proximidade com Cristo. Do grande cisma
protestante, chaga que muitos juraram não ter
cura, o Senhor soergueu sua Igreja com uma
profunda renovação espiritual. Isto sim foi o
verdadeiro Renascimento.
Enquanto os hereges se esforçavam
por destruir a Igreja, a Divina Providência
suscitava novas sociedades de religiosos e
uma multidão de doutores, que com suas
fadigas apostólicas, com sua santidade e com
suas obras cheias de erudição cristã a fizeram
florescer em todas as partes do mundo. A
Ordem dos Teatinos, a dos Barnabitas, a dos
Capuchinhos, a dos Somascos, a dos Fate-
bene Fratelli e muitas outras congregações
religiosas; a instituição das quarenta horas, a
celebração do Concílio de Trento, São
Caetano, São Jerônimo Emiliano, São João de
Deus, São Tomás de Vilanova, Santo Inácio
de Loyola, São Francisco Xavier, São Pedro
de Alcântara, São Felipe Neri, São Pio V,
Santa Teresa, São Carlos Borromeu, São
Francisco de Sales e muitos outros repararam
gloriosamente os danos causados à religião. Santo Inácio de Loyola vencendo Lutero e suas heresias.
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Os agentes da Reforma Católica


Três agentes podem ser considerados responsáveis por essa reforma:
1. O Concílio de Trento.
2. As Ordens Religiosas, especialmente a Companhia de Jesus (Jesuítas).
3. A santa vida, o zelo e a ciência de inumeráveis santos. A Igreja nos séculos XV e XVI produziu
um grande número deles, missionários e mártires muito gloriosos; essa mesma Igreja salvou a
Europa da invasão dos Turcos, a quem desfechou um golpe mortal em Lepanto (1571). Roma
ainda era o centro das ciências, das artes e da verdadeira civilização.

1. Concílio de Trento15
A guerra encarniçada que os protestantes tinham declarado à Igreja e a necessidade urgente
de reanimar no clero e no povo a santidade dos costumes tornavam necessária a convocação de um
concílio ecumênico. Convocou-o, efetivamente, o Papa Paulo III, em Trento, cidade do Tirol
italiano, donde tomou o nome de Concílio Tridentino. Este é o décimo nono concílio ecumênico.
Durou mais de dezoito anos, por ter sido interrompido diversas vezes, por causa da epidemia ou
das guerras. Abriu o concílio o Papa Paulo III, no ano de 1545; foi continuado sob Júlio III, e levado
a feliz termo, no ano de 1563, no pontificado de Pio IV, graças ao zelo do infatigável São Carlos
Borromeu.
Presidiram-no os Papas por meio de seus legados, e tomaram parte nele muitos prelados e
insignes teólogos. À sua conclusão se achavam presentes 255 padres, isto é, 4 legados, 2 cardeais,
3 patriarcas, 25 arcebispos, 168 bispos, 7 abades, 39 procuradores de padres ausentes e 7 superiores
gerais de ordens religiosas. O fim principal deste concílio era condenar e refrear as heresias de
Lutero, de Calvino e de outros hereges daqueles tempos, e fazer igualmente novas leis disciplinares
concernentes particularmente ao clero. Convidaram também para assistir a ele os protestantes, e
foi-lhes dada plena liberdade para discutir e garantias plenas de que não seriam molestados, porém
nenhum deles se apresentou, porque as trevas fogem da luz, e quem está interessado em sustentar
o que é falso teme ser convencido da verdade. Foram condenados todos os erros inventados e
suscitados naquela idade por Satanás, porém não se condenou herege algum pessoalmente
indicando seu nome. Foram dados muitos decretos dogmáticos relativamente à graça, aos
sacramentos, ao purgatório, às indulgências e a outros pontos de fé, e foram estabelecidos muitos
preceitos de moral cristã. Celebraram-se 25 sessões, em que se encerra a doutrina e a disciplina de
quase todos os concílios celebrados anteriormente. Neste, o Espírito Santo iluminou de tal modo
sua Igreja que ao redigir as definições dogmáticas, e ao expor a doutrina católica, foram previstos
os erros que pudessem ser suscitados no futuro. Muito dificilmente, pois, aparecerão heresias que
direta ou indiretamente não tenham já sido condenadas neste concílio. Com o fim de não se
interpretarem mal as decisões do Concílio Tridentino, instituiu a Santa Sé uma congregação
chamada: Congregação do Santo Concilio de Trento, composta de cardeais e prelados, para velar
para que não se violassem os cânones e decretos, e para definir sua interpretação nos casos de
controvérsia.

15
Texto de São João Bosco: “História Eclesiástica”.
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São Pio V
Ao Papa Pio IV, morto no ano 1565, sucedeu São Pio V, um dos pontífices mais ilustres que
ocuparam o trono de São Pedro. Nascido em Bosco, perto de Alexandria, no Piemonte, na idade de 12 anos
encontrou-se por casualidade com dois religiosos dominicanos, os quais, admirados da precocidade do
menino, o levaram para seu convento. Ali progrediu tanto na ciência e na virtude, que, apesar dele, o Papa
o quis chamar a seu lado para servir-se dele em muitos assuntos da Igreja.
Primeiramente o fez cardeal e
depois o nomeou bispo de Mondovi.
Sua pureza de costumes e a energia
com que pregava, unidas à sua rígida
mortificação, atraíram para a fé
muitos hereges, convertendo
obstinados pecadores e remediando
gravíssimas desordens. Foi eleito
Papa em 7 de janeiro do ano de 1566.
Pode-se dizer que bastaram os seis
anos de seu pontificado para mudar o
aspecto do mundo. Ao passo que os
hereges causavam enormes males às
almas na Alemanha, na França e nos
Países Baixos, ele, com a palavra, São Pio V na vitória de Lepanto. Afresco presente na Igreja Santa Sabina em
Roma
com seus escritos, e com a obra de
zelosos missionários, combateu os erros e conservou a pureza da fé. Acometido por uma enfermidade que
lhe causava agudíssimas dores, não proferia senão estas palavras: “Senhor, aumentai meu mal, mas
igualmente a minha paciência”. Já próximo da morte, repetia com frequência: “Estou cheio de prazer, pois
alimento a esperança de entrar preparado na casa do Senhor”. Este grande e santo pontífice morreu no ano de
1572. Tinha muita devoção à Mãe do Salvador; e, para eternizar a memória da insigne e esplêndida vitória
alcançada por sua intercessão no ano de 1571 pelos cristãos contra os turcos nas águas de Lepanto, instituiu
a festa do Santíssimo Rosário e mandou que nas Ladainhas Lauretanas se acrescentassem as palavras:
Auxilium Christianorum, ora pro nobis.

Sacrossanto Concílio de Trento


1545 a 1563

O Concílio de Trento foi o concílio mais longo da História. Foi também o concílio que emitiu
o maior número de decretos dogmáticos e reformas, e produziu benéficos resultados.
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Sacrossanto Concílio de Trento

Períodos do concílio
O concílio se dividiu em três períodos:
1º período (1545-1548): promulgação dos decretos sobre a Sagrada Escritura e Tradição, o Pecado
Original, a Justificação e os Sete Sacramentos em geral e vários decretos de reforma disciplinar.
2º período (1551-1552): continuou a promulgar decretos sobre os Sacramentos, particularmente
sobre a Eucaristia, a Penitência, e a Extrema-Unção.
3º período (1562-1563): neste período se realizaram nove sessões, em que se promulgaram
importantes decretos doutrinais, mas sobretudo decretos eficazes para a reforma da Igreja.
Assinaram as suas atas 217 padres oriundos de 15 nações.

Características do concílio
No Concílio de Trento foram tratados diversos temas de extrema importância para a Igreja, como:
1. A Salvação; a Doutrina da Graça; o Pecado Original; os Sete Sacramentos; a Justificação; a
Liturgia.
2. A Hierarquia Católica; o Celibato Clerical; a Criação de Seminários; as Indulgências; o culto
dos Santos e das relíquias.
3. Foi feito um novo catecismo e foi reorganizada a Santa Inquisição.
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As Ordens Religiosas
O grande trabalho de reorganização da Igreja foi também, em parte não pequena, favorecido
pelas ordens religiosas. Algumas foram criadas nesta época: Theatinos, Capuchinhos, Carmelitas
(reforma de Santa Tereza), Barnabitas, Somascos, Ursulinas, Irmãos da Caridade, Oratonianos, etc.
Acima, porém de todas, e ocupando na história importantíssimo papel, destacou-se a Companhia
de Jesus, fundada por Santo Inácio de Loyola.

Companhia de Jesus (Jesuítas)


Ano da Fundação: 1540

Os Jesuítas professam os votos de pobreza, castidade e total e absoluta obediência ao Sumo


Pontífice. A Ordem foi rigidamente disciplinada sendo conhecida como o Exército de Cristo. Os
Jesuítas foram enviados ao mundo todo para evangelizar, formar escolas e seminários.
Eles, juntos com os portugueses, trouxeram para o Brasil o maior tesouro que podíamos ter
recebido: a Fé Católica.

Santo Inácio de Loyola


Santo Inácio, espanhol, seguiu até a idade de 21 anos a carreira das armas. Fraturando uma
perna no sítio de Pamplona, e sendo muito longa sua cura, pediu algum livro de cavalaria para
passar o tempo. Como, porém, não se encontrasse nenhum desse gênero no lugar em que se achava,
deram-lhe a vida de Jesus Cristo e de santos. Começou a folhear o livro com má vontade, porém,
como trabalhasse nele a graça, encontrou nos exemplos que ali se narravam coisas maiores que
todos os heroísmos dos conquistadores, dos cavaleiros e dos capitães contados nas histórias de
cavalaria.
Depois de algumas lutas entre o espírito e a carne, tomou a resolução de imitá-los e de fazer-
se santo. Foi desde então sua vida um conjunto de feitos maravilhosos pela constância, zelo e atos
heroicos de virtude. No ano 1534 fundou a Companhia de Jesus, justamente considerada como um
dos baluartes levantados por Deus para resistir aos ataques dos novos hereges, e dos mais poderosos
exércitos espirituais para propagar a fé nos países estrangeiros.
Santo Inácio estabeleceu sua principal residência em Roma, e ali empregou o resto da vida
em consolidar sua instituição. Teve a consolação de vê-la aprovada pelos Sumos Pontífices, e seus
filhos levar frutos de graças e de bênçãos a todas as partes do mundo. Cheio de méritos, esclarecido
por virtudes e milagres, descansou no Senhor no ano 1556, sexagésimo quinto de sua idade. Entre
os mais célebres discípulos de Santo Inácio, assinala-se São Francisco Xavier, que, pelos grandes
trabalhos sofridos, pelos muitos milagres operados, pelo prodigioso número de infiéis convertidos,
mereceu o glorioso título de Apóstolo das Índias.
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Atividades
1) Quem é o promotor da Reforma? Quando e onde nasceu seu promotor?
2) Quais são as causas da reforma?
3) O que levou Lutero a entrar no mosteiro? Como se explica a revolta de Lutero?
4) Qual foi o marco inicial da Reforma?
5) Qual foi o fim de Lutero?
6) Qual a essência da doutrina protestante?
7) Quais são os elementos da doutrina protestante?
8) Quais eram as teses de João Calvino? Como os calvinistas ficaram conhecidos pelo mundo?
9) Quais são os três agentes da contra-reforma católica?
10) Qual o período do Concílio de Trento? Qual Papa o convocou? Qual era o fim do Concílio?
11) Quais temas foram tratados neste concílio?
12) Qual grande acontecimento se deu em 1571?
13) Cite algumas ordens fundadas neste período de contra-reforma.
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86
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87

Capítulo

7
Introdução
O Reino de Portugal foi fundado por D. Afonso Henriques, em 1139 d.C., na região da
Península Ibérica – Europa. Os portugueses foram os responsáveis pela formação do primeiro reino
unificado da Europa desde a fragmentação política ocorrida no período chamado feudalismo.

Antecedentes da formação do Reino de Portugal


A Reconquista Cristã
Desde o século VIII d.C., a Península Ibérica estava dominada pelos muçulmanos, que
formaram na região o Califado de Córdoba. No entanto, o norte da península manteve pequenos
reinos católicos que ao longo de 500 anos lutaram bravamente para reconquistar os territórios
invadidos. Essa guerra entre os reinos católicos e o Califado de Córdoba ficou conhecida como
Reconquista Cristã.

Mapa da expansão islâmica. Observe a área rosa: procure a região chamada "Península Ibérica". Quase toda essa
região foi dominada pelos muçulmanos no século VIII d.C.
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Mapa da Península Ibérica conquistada pelos muçulmanos (mouros)

Nas batalhas contra os muçulmanos no século XI d.C. se destacou um ilustre guerreiro


chamado Henrique de Borgonha. Henrique ajudou o rei Afonso VI, do Reino de Leão, no processo
de expulsão dos muçulmanos e como recompensa pelos serviços prestados recebeu a filha do rei
em casamento e uma grande extensão de terra chamada Condado Portucalense, onde se tornou seu
conde. É importante saber que mesmo sendo conde de uma região isso não significa que o condado
fosse independente do seu reino de origem.
Henrique de Borgonha morreu no ano de 1112 d.C. Seu filho e sucessor foi Afonso
Henriques, que assumiu o condado até que declarou independência do Reino de Leão em 1139
d.C., dando início ao Reino de Portugal.

A Fundação Católica de Portugal


Antes da fundação do Reino de Portugal, Afonso Henriques presenciou um evento que
mudou a sua vida, a vida de seu povo e, consequentemente, a nossa própria vida. Esse evento
demonstra uma predileção de Deus por Portugal. É o que se pode verificar da leitura do seguinte
episódio, quando D. Afonso estava prestes a travar uma difícil batalha contra o exército dos mouros
(muçulmanos):

Para Meditar...
Crônica de Dom Afonso Henriques
Antônio Brandão

“Não eram de qualidade as coisas que trazia entre as mãos o esforçado príncipe D. Afonso
Henriques que lhe consentissem tomar muito repouso, nem os pensamentos ocupados na grandeza do
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negócio presente davam lugar a se poder quietar e tomar alívio. E assim, para divertir de algum modo
aquela moléstia, lançou mão de uma Bíblia sagrada, a qual tinha em sua tenda e, começando a ler por
ela, a primeira coisa que encontrou foi a vitória de Gedeão, insigne capitão do povo judaico, o qual,
com trezentos soldados, rompeu os quatro reis Madianitas e seus exércitos, passando à espada cento e
vinte mil homens, sem outros muitos que morreram no alcance. Alegre o infante com tão bom encontro,
e tomando desta vitória prognóstico feliz da que esperava, se confirmou mais na resolução de dar
batalha e, com o coração inflamado e olhos postos no Céu, rompeu nestas palavras:
Bem sabeis vós, meu Senhor Jesus Cristo, que por vosso serviço, e pela exaltação do vosso santo
nome, empreendi eu esta guerra contra vossos inimigos; vós, que sois todo poderoso, me ajudai nela,
animai e dai esforço a meus soldados, para que os vençamos, pois são blasfemadores do vosso
santíssimo nome.
Ditas estas palavras lhe sobreveio um
grande sono, e começou a sonhar que via um
velho de venerável presença, o qual lhe dizia
que tivesse bom ânimo, porque sem dúvida
venceria aquela batalha, e com evidente
sinal de ser amado e favorecido de Deus
veria com seus olhos antes de entrar nela o
Salvador do mundo, o qual o queria honrar
com sua soberana vista. Estando o infante
neste alegre sonho, nem bem dormindo, nem
de todo acordado, entrou na tenda João
Fernandes de Sousa, de sua câmara, e lhe fez
saber como a ele chegara um homem velho,
o qual pedia audiência e, segundo dava a
entender, era sobre negócio de muita
importância. Mandou o infante que entrasse
sendo cristão, e, tanto que o viu reconheceu
ser o mesmo que acabava de pronunciar as
palavras que em sonho tinha ouvido, e
certificando-o da vitória e aparecimento de
Cristo, acrescentou que tivesse muita confiança no Senhor por ser dele amado, e que nele, e em seus
descendentes, tinha postos os olhos da sua misericórdia até à décima sexta geração, em que se atenuaria
a descendência, mas nela ainda nesse estado poria o Senhor os olhos, e haveria. Que da parte do mesmo
Senhor o avisava que, quando na seguinte noite ouvisse tocar o sino da sua ermida, na qual morava
havia sessenta anos, guardado com especial favor do Altíssimo, saísse fora ao campo, porque lhe queria
Deus mostrar a grandeza de sua misericórdia.
Ouvindo o católico príncipe tão soberana embaixada, tratou o embaixador dela com veneração
e deu a Deus com profundíssima humildade infinitas graças. Saiu fora da tenda o bom velho tornou a
sua ermida, e o infante, esperando pelo sinal prometido, gastou em oração afervorada todo o espaço da
noite até à segunda vigia, na qual ouviu o som da campainha; armado então com seu escudo e espada
saiu fora dos arraias, e, pondo os olhos no Céu, viu da parte oriental um resplendor formosíssimo, o
qual a pouco e pouco se ia dilatando e fazendo maior. No meio dele viu o salutífero sinal da Santa Cruz,
e nela encravado o Redentor do mundo, acompanhado em circuito de grande multidão de Anjos, os
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quais em figura de mancebos formosíssimos apareciam ornados de vestiduras brancas e


resplandecentes, e pôde notar o infante ser a Cruz de grandeza extraordinária, e estar levantada da terra
quase dez côvados.
Com o espanto de visão tão maravilhosa, com o temor e reverência devidos à presença do
Salvador, pôs o infante as armas que levava, tirou a vestidura real, e descalço se prostrou em terra e,
com abundância de lágrimas, começou a rogar ao Senhor por seus vassalos, e disse:
Que merecimentos achastes, meu Deus, num tão grande pecador como eu para me enriquecer
com mercê tão soberana? Se o fazeis para me acrescentar a fé, parece não ser necessário, pois vos
conheço desde a fonte do Batismo por Deus verdadeiro, filho da Virgem sagrada, segundo à
humanidade, e do Padre Eterno por geração divina. Melhor seria participarem os infiéis da grandeza
desta maravilha, para que, abominando seus erros, vos conhecessem...
O Senhor então com suave tom de voz que o príncipe pôde bem alcançar, lhe disse estas
palavras:
- Não te apareci deste modo para acrescentar tua fé, mas para fortalecer teu coração nesta empresa,
e fundar os princípios de teu Reino em pedra firmíssima. Tem confiança, porque, não só vencerás
esta batalha, mas todas as mais que deres aos inimigos da Fé católica. Tua gente acharás pronta para a
guerra, e com grande ânimo pedir-te-á que com título de rei comeces esta batalha; não duvides de o
aceitar, mas concede livremente a petição porque eu sou o fundador e destruidor dos Impérios do
mundo, e em ti e tua geração quero fundar para mim um reino, por cuja indústria será meu nome
notificado a gentes estranhas. E para que teus descendentes conheçam de cuja mão recebem o reino,
comprarás as tuas armas do preço com que comprei o gênero humano, o daquele porque fui comprado
dos judeus, e ficará este reino santificado, amado de mim pela pureza da Fé e excelência da piedade.
O infante D. Afonso, quando ouviu tão singular promessa, se prostrou de novo por terra e,
adorando ao Senhor, lhe disse:
Em que merecimentos fundais, meu Deus, uma piedade tão extraordinária como usais comigo?
Mas já que assim é, ponde os olhos de vossa misericórdia nos sucessores que me prometeis, conservai
livre de perigos a gente portuguesa, e, se contra ela tendes algum castigo ordenado, peço-vos o deis
antes a mim e a meus descendentes, e fique salvo este povo, a quem amo como único filho.
A tudo deu o Senhor resposta favorável, dizendo como nunca dele, nem dos seus, apartaria os
olhos de sua misericórdia, porque os tinham escolhidos por seus obreiros e segadores, para lhe
ajuntarem grande seara em regiões apartadas. Com isto desapareceu a visão, e o infante D. Afonso,
cheio de fortaleza e júbilos de alma, quais se deixam entender, fez volta para os arraiais e se recolheu
em sua tenda”.

História do Reino de Portugal


Desde a sua fundação no século XII, Portugal foi um dos menores reinos da Europa. Até o
século XV, a população portuguesa nunca passou de um milhão de pessoas, que eram
majoritariamente pobres. A cultura portuguesa sempre foi original, como os costumes, a língua e
sua origem. Mesmo sendo um país pequeno, conseguia manter sua independência diante de países
poderosos como a Espanha.
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O ano de 1385 marcou a história da


nação portuguesa, pois nesse período ocorreu a
chamada Revolução de Avis que, segundo o
historiador João Camillo, tornou Portugal uma
nação organizada e centralizada, fato que
contribuiu para que o país fosse o primeiro a
empreender as grandes navegações. Como o
reino se tornou centralizado, a Coroa pôde
planejar e executar a expansão da fé católica e
da civilização a outros povos, como os africanos
e, posteriormente, os índios brasileiros.
A Revolução de Avis é assim chamada Dom João de Avis
por causa de Dom João, Mestre de Avis, que
lutou contra o ataque da Espanha. Nesse período houve uma crise sucessória em Portugal: desde
Dom Henriques, o reino estava com a família Borgonha (Dinastia Borgonha). O último rei dessa
dinastia morreu sem deixar herdeiros, o que atraiu a atenção do rei da Espanha para governar
também Portugal. Vejamos os reis da dinastia de Borgonha.

Dinastia Borgonha
1. Dom Afonso Henriques (1139-1185)
2. Dom Sancho I (1185-1211)
3. Dom Afonso II (1211-1223)
4. Dom Sancho II (1223-1248)
5. Dom Afonso III (1248-1279)
6. Dom Dinis (1279-1325)
7. Dom Afonso IV (1325-1357)
8. Dom Pedro I (1357-1367)
9. Dom Fernando (1367-1383)
Dom Fernando foi o último rei da dinastia de Borgonha. Envolveu-se em três guerras com
o Reino de Castela (futuro reino da Espanha). Sua filha, D. Beatriz, era casada com o Rei de Castela.
Esse fato contribuiu para a invasão castelhana quando Dom Fernando morreu. A escritura de
casamento com D. Beatriz não permitia ao rei de Castela o domínio sobre Portugal, mas este
desrespeitou os acordos, cercando Lisboa (capital de Portugal) por sete meses.
Na cidade de Coimbra, organizou-se uma reunião entre os portugueses para resolver o
problema dinástico, ou seja, para definir quem seria o autêntico rei de Portugal. Verificou-se que
Dom Pedro I, pai de Dom Fernando, tinha um filho bastardo chamado Dom João, Mestre de Avis,
que foi aclamado o novo rei de Portugal, mesmo em guerra contra Castela.
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Dom João de Avis, com a ajuda de Nuno Álvares Pereira, organizou a defesa de Portugal
contra a invasão castelhana. Através de muitos esforços, os portugueses conseguiram a vitória na
famosíssima Batalha de Aljubarrota.
Após a vitória, Dom João inaugura a Dinastia de Avis, família que teve função fundamental
na história das grandes navegações e do Brasil. Esse acontecimento ficou conhecido como
Revolução de Avis.

Batalha de Aljubarrota

A Dinastia de Avis
1385 -1580
A dinastia Avis permaneceu no trono português durante 195 anos e deu os seguintes reis:
1. Dom João I (1385-1433), casado com Dona Filipa, irmã de Henrique IV da Inglaterra, depois de
destroçar os Castelhanos em Trancoso, os aniquilou em Aljubarrota, onde fundou o grandioso
Mosteiro da Batalha. Foi o primeiro monarca português que realizou conquistas na África
tirando a cidade de Ceuta dos Mouros (muçulmanos), em 1415. Formou uma nobreza nova,
composta de seus aderentes, e convocou 25 vezes as cortes. Dom Henrique, seu terceiro filho e
fundador da Escola de Sagres, assinalou-se pelo estudo da marinha e por notáveis
descobrimentos na costa da África: o Cabo Bojador, Porto Santo, Madeira, os Açores, as ilhas
de Cabo Verde e a costa da Serra Leoa.
2. Dom Duarte (1433 – 1438) autor de várias obras, incumbiu Fernando Lopes, o pai da história
portuguesa, de escrever as crônicas de seus antecessores; publicou a Lei Mental; refreou o luxo
excessivo dos nobres e mandou para a África seus irmãos Dom Henrique e Dom Fernando, que
acabaram presos.
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3. Dom Afonso V (1438 – 1481). Durante seu governo reinado, os portugueses, passando a linha
equinocial, descobriram as ilhas de Fernando Pó, Ano Bom, São Tomé e Príncipe.
4. Dom João II (1481 – 1495). Portugal tornou-se, no século XV, poderoso e rico império por seus
descobrimentos e suas conquistas. No reinado de Dom João II, que assumiu o título de Senhor
da Guiné, constrói Diogo de Azambuja o forte de São Jorge de Mina; Digo Cão, João Afonso
de Aveiro, João Pedro de Covilhan descobriram o Congo, o Benim, a Etiópia, respectivamente.
Bartolomeu Dias tocou a última ponta meridional da África, dando-lhe o nome de Cabo das
Tormentas, nome que Dom João mudou para Cabo da Boa Esperança. Faleceu Dom João com
o pesar de ter recusado financiar a expedição de Colombo, que acabava de dar o Novo Mundo à
Espanha. Sucedeu-lhe seu primo, Dom Manuel, o Venturoso.
5. Dom Manuel (1495 – 1521), primo e cunhado de Dom João II, protegeu a literatura; construiu
igrejas, fortalezas, palácios, etc.; concedeu um por cento de suas rendas em benefício dos pobres;
foi justo, magnânimo, sóbrio, e dado à caça; baniu de Portugal os Judeus e os Muçulmanos. O
poder de Portugal neste período era tamanho que numerosos reis da Europa, Ásia e África
buscavam a sua amizade e aliança. Durante este reinado glorioso, os Portugueses chegaram à
Índia, descobriram o Brasil, conquistaram Ormuz, Goa e Malaca na Ásia.
6. Dom João III (1521 – 1557), filho de Dom Manuel e muito amante do povo, protegeu a literatura,
as ciências, o comércio e a colonização; introduziu em Portugal a Inquisição; favoreceu a
nascente Companhia de Jesus; mandou São Francisco Xavier para a Índia; mandou os jesuítas
Nóbrega, Anchieta e outros para a Terra de Santa Cruz. Depois de dividir o Brasil em capitanias,
estabeleceu nele o governo geral. Durante seu reinado floresceu Luís de Camões.
7. Dom Sebastião (1557 – 1578), o Desejado, na idade de três anos sucedeu a D. João III, seu avô,
sob a regência de Dona Catarina, sua avó, e do Cardeal Dom Henrique, seu tio. O seu reinado
se resume-se em duas expedições na África.
8. Cardeal Dom Henrique (1578 – 1580), irmão de D. João III, foi um príncipe virtuoso, culto e
amante da justiça, tomou as rédeas do governo após a morte de D. Sebastião. Com a crise
sucessória, pois D. Sebastião não teve filhos e Dom Henrique era cardeal (portanto, sendo
sacerdote católico, não se casou), foram convocadas as cortes em Lisboa e em Almeirim, porém
houve tanta divergência que a situação se complicou muito. Finalmente, Filipe II, rei da Espanha
e neto de D. Manuel, entrou triunfante em Portugal e foi proclamado rei.

Em 1580, na ausência de herdeiros ao trono, iniciou-se um período chamado União Ibérica


(1580 – 1640) que estudaremos adiante.
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Atividades
1) Sobre o Reino de Portugal, responda:
a) Fundador
b) Ano de fundação.
c) Localização
2) O que foi a Reconquista Cristã?
3) Faça um resumo da aparição de Nosso Senhor Jesus Cristo a Dom Afonso.
4) O que podemos concluir com esta frase: “quero fundar para mim um reino, por cuja indústria será meu
nome notificado a gentes estranhas”.
5) Segundo historiador João Camilo qual fator contribuiu para que Portugal fosse o primeiro a empreender
as grandes navegações?
6) Quais são os reis da dinastia Borgonha?
7) O que foi a Revolução de Avis?
8) Quais são os reis da dinastia de Avis?
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Capítulo

8
Geografia
O mapa abaixo mostra o continente africano anterior à chegada dos europeus. O norte da
África é amplamente conhecido pelos historiadores pois sempre esteve em contato com povos
europeus. Vamos estudar neste capítulo somente a parte dos povos negros, os que viviam ao sul do
Saara. Certamente que o deserto do Saara foi o grande fator de isolamento geográfico de uma
grande parte da África.
Existe uma profunda
relação entre cenário geográfico
africano e os eventos históricos
que nele se desenrolaram. Os
povos da antiguidade clássica
(egípcios, gregos, romanos,
persas, etc.) só tiveram uma
noção geográfica vaga do vasto
continente africano. Para o
mundo clássico o Norte da
África era conhecido por Líbia; a
sul desta, o continente era um
mistério.
O vasto continente
africano lembra uma forma de
triângulo e limita-se ao norte
pelo Mediterrâneo, a oeste pelo
Atlântico, ao sul e a leste pelo
oceano Índico e ao nordeste
pelo Vermelho. O istmo de
Este mapa mostra a localização do deserto do Saara. Vamos estudar os povos que
Suez, cortado pelo canal, liga a
viveram ao sul do Saara. África à Ásia. Uma notável
originalidade do continente
africano é a sucessão de faixas climáticas ordenadas paralelamente ao Equador. Em ambos os
hemisférios, os regimes às altas latitudes. Note-se que as temperaturas, na maior parte das regiões,
são elevadas em todas as estações do ano.
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Destacam-se os rios africanos. Cerca de 50% deles não correm para o oceano: vão para lagos
e mares interiores. O Congo (Zaire) constitui um dos rios mais caudalosos do mundo, percorrendo
cerca de 4.200 quilômetros. O Nilo (o grande rio do Egito) percorre 6.700 quilômetros, mas é pouco
volumoso. Possui grande importância histórica, pois suas cheias são responsáveis por tornarem as
terras egípcias produtíveis, o que possibilitou o desenvolvimento da civilização egípcia. O Níger
percorre 4.200 quilômetros, mas suas inúmeras quedas possibilitam a navegação somente em
alguns pontos.
Observando o mapa acima, percebemos que a paisagem florestal africana se situa em pleno
coração do continente: é a floresta densa, úmida e alta. A savana africana, um dos mais ricos
habitats do mundo, estende-se do Atlântico ao Índico. É possível observá-la ao sul das florestas.
Dos desertos lembremos o Saara e o Calahari.
O isolamento geográfico do continente africano, protegido por dois oceanos, um imenso
deserto e um litoral inóspito, dificultou a penetração de outros povos. A imensidão dos espaços
disponíveis no continente deixou sua marca na vida econômica de muitos povos que não se
preocuparam com os cuidados indispensáveis à manutenção da fertilidade da terra. Não importa se
o campo se esgotasse: buscava-se outro em outra parte, já que não é o espaço que falta. Pratica-se,
assim, uma agricultura itinerante, nômade. A grandeza da terra também favoreceu a baixa
densidade demográfica. A pouca valorização do solo trouxe consequências de ordem econômica,
política e social. O maior valor que se dava era ao trabalho, à mão-de-obra. Possuir homens que
trabalham era mais importante que possuir terras. O objetivo das guerras era capturar e escravizar
os homens e não invadir territórios.
A diversidade de povos e línguas no continente africano é enorme. De maneira resumida e
esquemática, os povos africanos se dividem assim:

Egito

Zona África
temperada menor

Canárias
África
branca
Mouros

Zona
Tuaregues
desértica

Tubos
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sudaneses
guieenses
Melano-
congoleses
africanos
nilotas

África sul-africanos
negra
Etíopes galas, abissínios, peules
Negrilhos
bosquímanos
Khoisans
hotentotes

Existem quatro famílias linguísticas no continente africano: afro-asiáticas, níger-


kordofaniano, nilo-saariana e khoisan.
1. As afro-asiáticas compreendem cinco divisões: o berbere, o egípcio antigo, o semítico, o
cuxítico e o chádico.
2. A níger-kordofaniano compreende dois grupos: o níger-congo (donde se destaca o bantu) e o
kordofaniano.
3. A nilo-saarianos compreendem o chari-nilo, o sudanês oriental e o sudanês ocidental.
4. A khoisan divide-se em três ramos: hatsa, sandawe e khoisan sul-africano.

As fontes históricas
Atualmente, os historiadores possuem três fontes principais para o estudo da história dos
povos africanos: as fontes escritas, a tradição oral e a arqueologia.
As fontes escritas antes dos descobrimentos, contudo, quando não são raras, encontram-se
mal distribuídas no tempo e no espaço. É de se notar também que muitos materiais escritos ainda
não foram explorados e estudados.
A tradição oral é uma fonte histórica importante dos povos africanos, pois estes,
especialmente os que viviam no Saara e ao Sul do deserto, eram em grande parte povos de palavra
falada, mesmo onde existia a escrita. Poucas pessoas sabiam escrever, fato que dava-se grande
importância as tradições orais. Um método bastante eficaz para a confirmação da veracidade de
uma tradição oral é compará-la com o conteúdo de outras tradições independentes ou, quando
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possível, com dados escritos ou resultados da pesquisa arqueológicos. Uma das deficiências da
tradição oral é a questão da cronologia dos fatos, não permitindo estabelecer uma sequência relativa
aos acontecimentos exteriores à geografia de onde tradição oral se passa.
Dava-se grande destaque para os chamados Doma, “fazedores de conhecimento”. Não se
deve, contudo, confundir os Domas com os trovadores ou contadores de histórias, pois eram como
mestres iniciadores de um ramo de trabalho (ferreiro, tecelão, caçador, pescador, etc.) ou possuíam
grande conhecimento das tradições em todos os seus aspectos.

A expansão bantu
Antes de prosseguirmos com a história de impérios e reinos africanos convém chamarmos a
atenção dos leitores para um fenômeno importante da História da África: a expansão dos povos
bantus.
Os negros que falavam as línguas bantos, cujas atividades econômicas eram a agricultura, e
que sabiam usar o ferro, ficaram conhecidos por realizarem uma das maiores correntes
migratórias do mundo, ao longo séculos, tendo espalhado línguas bantu (línguas nigero-
congolesas) em praticamente toda a África subsaariana.

Fora a legenda já presente no mapa, observe o círculo (possível local de origem dos bantus) e
as setas vermelhas (possíveis rotas de migração dos bantus). Além disso, observe os povos
apresentados no mapa e seus respectivos territórios.
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Os estudiosos têm procurado fixar as causas da explosão demográfica e da expansão


geográfica dos bantus. Ao que tudo indica, esses fenômenos estariam ligados a uma notável
melhoria do nível de alimentação e à posse e utilização da técnica do ferro.
Durante os primeiros séculos da era cristã, os bantus atravessaram as selvas em direção ao
sul e instalaram-se mais adiante com seus hábitos culturais e migratórios. Por volta do século VII,
os bantus se encontraram na região dos grandes lagos e a partir daí se multiplicaram e se
expandiram rapidamente. Pelo século X estavam na Rodésia do Sul. Outros grupos fixaram-se até
a desembocadura do Congo.

História dos povos africanos


Os Berberes
Berbere provém do latim barbarus. A palavra é empregada para designar populações de raça
branca que habitavam a África do Norte. Estes não conseguiram criar estados autônomos. Os
berberes fracionaram-se à imagem de seu solo, quase cada tribo teve seu destino particular. Não
tiveram o sentimento de sua unidade nacional.

Distribuição de berberes no oeste da África do Norte. As cores representam as diversas


tribos de barberes.

Na segunda metade do século V, os cartaginenses estenderam seu domínio territorial,


dominando as regiões habitadas pelos berberes. Estes e os cartaginenses mantiveram relações que
se traduziam em transações comerciais, alianças políticas, casamentos entre chefes berberes e a
aristocracia púnica, e prestação de serviço militar de berberes mercenários. Durante a expedição de
Aníbal, durante as guerras púnicas, contingentes berberes tomaram parte no exército cartaginense.
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Após as guerras púnicas, a região em sua parte mais rica foi dominada pelos romanos. Apesar
de muitos séculos de contato com Roma e sua cultura, como constatou o Pe. Mesnage, a romanidade
não pode atingir os berberes
em profundidade. Enquanto
durou o Império Romano,
os beberes, pela força do
hábito e pelo respeito à
tradição, permaneceram na
órbita de Roma (ou do
Império Bizantino). Mas
quando Roma caiu, eles se
“reberberizaram”
novamente e ficaram
disponíveis para sofrer uma
outra dominação política e
cultural: o Islã.

O Reino da Etiópia
A história da Etiópia apresenta algumas características próprias que a diferenciam da história
de outros povos africanos: documentos escritos, influência de uma tradição lendária, situação
geográfica especial.
Quanto à tradição lendária, deve-se
dizer que no episódio narrado pelo Antigo
Testamento (1 Reis 10) sobre a visita da rainha
de Sabá a Salomão, inspirou-se a lenda
segundo a qual, o primeiro rei de Axum,
Menelik, seria filho de Salomão e da rainha e,
portanto, fundador de uma dinastia
salomônica que teria reinado sobre a Etiópia.
Esta crença segundo a qual a casa real
descende da de Judá deu ao reino uma
estabilidade e uma continuidade notáveis e
manteve para o país a unidade que sua
estrutura geográfica tornava difícil.
Na Etiópia, desenvolveu-se o Reino Axumita, por causa da capital Axum. Este reino
desempenhou, em certa época, um papel importante na História da África Oriental. A fundação do
reino serviu de base para a edificação de um império. Do fim do século II ao início do século IV,
Axum tomou parte nas lutas diplomáticas e militares que opunham os Estados da Arábia
Meridional. Os axumitas submeteram as regiões situadas entre o planalto do Tigre e o vale o Nilo.
No século IV, conquistaram o reino de Méroe, então em decadência. Desse modo foi-se
constituindo um império que abarcava as ricas terras cultivadas do norte da Etiópia, o Sudão e a
Arábia Meridional, incluindo todos os povos que ocupavam as regiões situadas ao sul dos limites
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do Império Romano – entre o Saara, a oeste, e o deserto de Rub al-Khali, no centro da Arábia, a
leste.
O rei mais antigo de que se tem notícia é Zoscales que o autor do Périplo do Mar Eritreu
considera avaro e ávido de riquezas, mas valente e versado na língua grega. O domínio de Zoscales
abrangia todo o litoral eritreu do Mar Vermelho.
Foi durante a fase de sua maior expansão territorial que o
reino de Axum recebeu o cristianismo. Note-se que os reis
de Axum foram pagãos até o século IV e que em seus
monumentos eles se orgulhavam de descender do rei
Mahrem. A conversão ao cristianismo deve-se a Frumêncio.
Segundo Rufino, um certo Merópio de Tiro desejava ir às
Índias com dois jovens parentes, Frumêncio e Edésio. Na
volta, ao aproximar-se de um porto, seu barco foi atacado
pela população. Merópio morreu e os dois jovens irmãos
foram conduzidos até o rei de Axum. O mais jovem, Edésio,
tornou-se escanção, enquanto Frumêncio, graças à cultura
grega, fez-se tesoureiro, conselheiro do rei e tutor de seus
filhos. Considerando-se a data da chegada dos dois jovens,
é de crer que esse rei tenha sido Elle Ameda, pai de Ezana.
Após a morte do rei, sua esposa tonou-se regente e pediu
aos dois jovens para permanecerem com ela a fim de São Frumêncio, apóstolo da Etiópia
governar o pais até que seu filho estivesse em idade de
reinar.
E assim Frumêncio pode educar o jovem príncipe no amor à nova religião. Tendo preparado
o terreno ao cultivo do cristianismo, Frumêncio retirou-se com seu irmão Edésio, que retornou a
Tiro para ajudar seus parentes idosos. Frumêncio dirigiu-se a Alexandria, onde visitou o patriarca
Santo Atanásio e lhe participou a boa acolhida ao cristianismo pela família real de Axum, pedindo-
lhe que enviasse um bispo àquele país. O patriarca não queria enviar alguém que desconhecesse a
língua e os costumes do lugar, e assim consagrou Frumêncio bispo de Axum. De volta à Etiópia
coube a Frumência a honra de batizar o rei e toda a família real.
Ezana (que subiu ao trono por volta de 325) teria sido o primeiro rei cristão de Axum. O
estudo das moedas, numismática, confirma a conversão do rei Ezana: suas primeiras moedas
mostram o símbolo pagão do crescente e do disco, as últimas porém trazem a cruz. O rei de Axum
controlava certos reinos da Arábia Meridional. Porém, sobretudo, por volta de 335, seus exércitos
invadem o reino de Kush, saqueiam e queimam sua capital Méroe e destroem o Império Kushita
que havia sido brilhante e poderoso durante seis séculos.
O cristianismo na Etiópia foi consolidado pelos sucessores de Ezana como, por exemplo,
Caleb um cristão fervoroso. Caleb, filho de Tazena, foi contemporâneo de Justino I de Bizâncio.
Em Zafar e Najran os cristãos haviam sido massacrados pelos judeus auxiliados pelos himiaritas.
O imperador Justino, informado dos acontecimentos, apelou a Caleb no sentido de que punisse os
algozes dos cristãos. O rei axumita fez grandes preparativos de guerra sendo que ele mesmo
comandou a expedição (525 d.C.), a qual saiu vitoriosa. Caleb, após a guerra, se recolheu em um
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mosteiro. Sua coroa foi enviada a Jerusalém para que fosse pendurada diante da porta do Santo
Sepulcro.
Após este período, houve invasões persas e islâmicas na região da Arábia, porém, nenhuma
destas destruiu o reino da Etiópia que, contudo, ficou isolado do Império Bizantino.
As dinastias do reino axumita mudaram no decorrer dos séculos, passando pelos Zagués,
cujo destaque se dá a Lalibala, rei piedoso, considerado o “São Luís da Etiópia”. Depois vieram
novos reis que se diziam herdeiros da dinastia salomônica, conforme as antigas lendas. Entre eles
se destacam: Yekuno Amlak, Amda Seyon, Saif Ared, Yetschak e Zara Yacob.

O Reino de Kush
Kush era originariamente um território núbio restrito. Entre o Médio e Novo Império
Egípcio, floresceu o reino de Kush, cuja existência é atestada por inúmeros documentos. É provável
que a capital desse reino fosse Kerma, pouco acima da terceira Catarata do Nilo, onde o arqueólogo
americano Von Reisner efetuou importantes escavações entre 1913 e 1916.
Entre os traços característicos da cultura de Kerma figura uma louça torneada fina e muito
polida, vermelha, com a parte superior preta, feita numa roda de oleiro. No campo do ritual
funerário a cultura de Kerma caracteriza-se pelos costumes de sacrifício de pessoas que eram
enterradas vivas, forte traço de paganismo brutal.
Shabaka (713 a.C.), rei kushita, submeteu ao império
kushita todo o vale do Nilo até o Delta e foi considerado
pelos compiladores das listas dos reis egípcios como o
fundador da vigésima quinta dinastia. A expansão do
kushitas levou-os inevitavelmente a um choque com os
Assírios. Taharqa, rei kushita, aceitou o desafio de guerra
contra os assírios e seu nome aparece muitas vezes na Bíblia
em passagens nas quais é evidente o terror causado pelos
guerreiros negros do Reino de Kush.
Diante do poder militar dos assírios, os kushitas
retiraram-se para o sul, mantendo a capital em Napata.
Enquanto o velho Egito era sucessivamente ocupado por
assírios, persas, gregos e romanos, o Reino de Kush
sobrevivu por um longo espaço de tempo.
Por volta do século VI a.C., a capital foi transferida
para Méroe, provavelmente pelo rei Aspelta (593 – 568
a.C.), por causa de invasões à cidade de Napata e por
questões de estratégia, afinal Méroe situava-se num local
excelente como entreposto para as caravanas que percorriam
as rotas do Mar Vermelho, o Alto Nilo e o Chade. Napata,
contudo, manteve-se como capital religiosa do reino.
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O poder de Méroe durou aproximadamente oito séculos e cerca de cinquenta e seis reis e
rainhas sucederam a Aspelta até a queda da capital em 320 a.C. Ressalta-se que os kushitas, assim
como outros povos africanos, davam grande importância à mãe do rei, dando-lhe o nome de
rainhas-mães, conhecidas como Candace.
No auge do seu poderio, através de cinco séculos entre aproximadamente 300 a.C. e 200
d.C., os kushitas dominavam a maior parte das terras do norte e do centro do Sudão oriental e
governavam para o sul até os pântanos do Nilo Superior. Estradas levavam aos ativos portos do
Mar Vermelho onde os navios iam e vinham entre o território dos Kushitas e muitos países
estrangeiros. Ao norte mantinham geralmente boas relações com os faraós gregos do Egito; e, por
intermédio do Egito, negociavam com os países da orla mediterrânica. Os seus embaixadores
viajaram e viveram em muitas terras.
Como já vimos acima, em 335 d.C., Ezana de Axum destruiu o poderio kushita,
conquistando a capital Méroe. O reino, contudo, já estava enfraquecido, pois os romanos haviam
obstruído as rotas comerciais que beneficiavam os kushitas, além de receber ataques constantes de
nômades. Sob esses golpes, o reino kushita desapareceu tão completamente que até o seu nome e
memória ficaram perdidos durante muitos séculos.
Após a queda de Méroe, três reinos surgiram na região das cataratas do Nilo: o reino dos
Nobatas, entre a primeira e terceira catarata; o reino de Dangola, entre a terceira e quarta catarata;
o reino de Aloa, ao sul da sexta catarata.
No século VI d.C., desenvolveu-se outro
reino núbio, o de Makuria com a capital em
Dongola, notável por seus monumentos. Mais ao
sul, na região da sexta catarata, formou-se o terceiro
estado cristão da Núbia: Aloa com a capital em
Soba, à margem do Nilo Azul, não muito distante da
atual cidade de Khartum.
Os núbios não se limitavam à defesa contra os
ataques dos árabes muçulmanos. Em 737 d.C.,
núbios e abissínios teriam feito uma verdadeira
cruzada contra o Egito muçulmano em defesa do patriarca de Alexandria. Pelos fins do século VIII
ou início do IX, Alodia foi anexada ao reino unido da Núbia. Os muçulmanos seriam sempre uma
ameaça aos reinos cristãos da Núbia, cuja capital Alodia era conhecida pelos seus belos edifícios,
grandes mosteiros, igrejas decoradas a ouro, muitos jardins.
O reino de Aloa, protegido pela distância do inimigo, ainda subsistiria a duras penas por mais dois
séculos (até mais ou menos o ano 1500). Concluamos sobre a Núbia: Em vista de sua situação
geográfica, a Núbia desempenhou um papel especial como intermediário entre a África Central e
o Mediterrâneo. O reino de Napata, o império de Méroe e o reino cristão ficeram da Núbia o ponto
de ligação entre o norte e o sul. Graças a ela, a cultura, as técnicas e os instrumentos se expandiram
até as regiões vizinhas.
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Reino do Congo
Quando os portugueses descobriram em 1482 o estuário do Zaire (Congo), entraram em
contato com um dos maiores estados africanos ao Sul do Saara: o Reino do Congo. Entre Kwango
e o Atlântico há toda uma proliferação de pequenas hegemonias: ao norte do estuário, o Loango, o
Kakongo, o Ngoyo; ao sul, o Mbata, o
Mbamba, o Mpemba, o Nsundi, Mpangu
e o Sonyo; ao sul do rio Kwanza, o
Ndongo, cujo soberano era o Ngolo
(origem do nome português de Angola).
E no centro de tudo isto, o reino do
Congo. Este reino era formado pelos
bakongos, um povo bantu cujo rei tinha
o título de Mani, uma palavra banta
aparentada com Mwana dos xonas, tal
como a palavra inglesa King é parente da
alemã König.
A capital do reino do Congo, na época da chegada dos portugueses, situava-se em
Mbanzacongo, no local onde se encontra hoje São Salvador, em Angola.
O reino foi fundado pelo início do século XV por chefes “ferreiros”, bons caçadores e
guerreiros. O Manicongo (senhor do Congo), chefe dos bakongos, tinha autoridade sobre a maior
parte do norte da moderna Angola, governando através de chefes menores responsáveis por grandes
províncias. O mais antigo manicongo que se tem notícia era chamado de Nimi ou Lukani, chefe do
Mpemba, cuja autoridade se estendia sobre todos os povos afiliados. Seu neto se chamava Nzinga
Nikuwu e é a este que os portugueses do navegador Diogo Cão foram visitar em 1482.
Ao sul do Congo, na atual parte ocidental e central de Angola, situava-se o reino dos
Quimbundos, o reino Ndongo, cujo rei tinha o título de Ngola que deu origem ao nome Angola.

Reino do Mali
Foi na região do Alto Níger, entre o povo Malinké, que teve origem um dos maiores estados
da História da África: o reino do Mali.
No princípio do século XI um tal Keita, chefe de um clã do povo mandinga, converte-se ao
islamismo e, segundo o historiador árabe Ibn Khaldun, fez uma peregrinação a Meca em 1050 e
recebeu o título de sultão. Seus sucessores não se notabilizaram de modo especial como
governantes. Após a vitória almorávida sobre Ghana, um chefe negro sarakole fundou o reino de
Sosso. Sumanguru Kante, filho do fundador, estendeu sua autoridade sobre a parte do antigo reino
de Ghana e sobre o Mali, vencendo Naré Fa Magnhan, um dos sucessores do sultão Keita e
massacrando toda a família do governante com exceção de um filho, Sundiata Keita, que assumiu
o título de Mari-Djata que, segundo Ibn Kalhdun, queria dizer Príncipe-Leão.
O Príncipe-Leão tornou-se um audaz guerreiro: com o auxílio de seus partidários retomou o
território de que era herdeiro, reorganizou o governo e derrotou Sumanguru na batalha de Kirina
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(1235) nas proximidades da atual Bamako. A tradição do Mali ainda evoca em cantos esta épica
batalha. Em 1240, Sundiata saqueia a capital do Ghana. Era o dono da zona sudanesa e sobretudo
das regiões auríferas do Uangara e do Bambuk.
Administrou sabiamente seu império, Mali.
Começou a cultivar vastos espaços. Atribuiu-se-
lhe a introdução da cultura do algodão. Sob seu
reinado a população cresceu rapidamente. Em
1255 Sundiata foi assassinado a traição com uma
flechada.
Após um período de governantes
inexperientes da dinastia Keita, surgiu um dos
maiores imperadores do Mali, Kankan Mussa
(Mansa Mussa). Com este rei chegamos ao apogeu
do reino do Mali (1312 – 1337). Mussa, segundo
Ibn Battuta, “é o soberano negro mais brilhante,
tanto por suas qualidades – inteligência, energia e
atividade – como por seu fausto inusitado.
Deschamps diz a respeito do período de Mussa: “É
o apogeu do Império do Mali, do qual o Tekrur é
tributário e que submeteu os songhai; estende-se então ao Atlântico à localização atual de Niamey.
Suas capitais, Niani e Kangaba, são mercados ativos ao mesmo tempo que centros religiosos onde
o paganismo se acrescenta ao islamismo para assegurar o poder dos soberanos”.
O imperador do Mali mantinha relacionamento amigável com os países distantes. Ibn
Battuta narra que doze mil camelos percorriam anualmente, ida e volta, o caminho entre Mali e o
Cairo. O sultão de Marrocos, Abu al Hassan, recebeu de Kankan Mussa presentes valiosos aliás
regiamente retribuídos.
O imperador do Mali amava o fausto, a ostentação, mas é de justiça salientar que não se
tratava de mera vaidade. Kankan Mussa tinha projetos elevados e utilizava sua riqueza para
executá-los. Pretendia dotar seu povo de uma civilização mais refinada aproveitando a contribuição
do mundo árabe. Atraiu às margens do Níger sábios e letrados que trouxeram consigo o saber árabe.
De sua peregrinação trouxe consigo o poeta e arquiteto árabe Es Saheli, que renovou a arquitetura
sudanesa criando um estilo próprio. Reconstruiu Tombuctu,
construiu mesquitas, minaretes e palácios de ladrilho com teto de
madeira e com terraços.
A peregrinação de Kankan Mussa fez a Meca (um dos
deveres de todo muçulmano) em 1324 causou espanto pelo fausto
que a cercou. Passou por Ualata, Et Tuat e Cairo, antes de atingir
a Arábia. Levou consigo 8000 cortesãos e servos. Quando esta
vasta companhia do Mali chegou ao Cairo, o imperador exibiu à
saciedade sua riqueza e o seu poder. Em Meca, Mussa gastou vinte
mil peças de ouro em oferendas. Suas liberalidades eram
Kankan Mussa
fabulosas; quando passou pelo Egito não houve nenhuma pessoa
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da corte que ficou sem receber uma quantia em ouro. Essas ações esgotaram suas imensas reservas,
obrigando-o a tomar dinheiro emprestado quando regressava da peregrinação.
A famosa peregrinação de Kankan Mussa teve consequências culturais, religiosas e
econômicas. No Cairo o imperador adquiriu numerosos objetos entre os quais obras jurídicas; a
repercussão da peregrinação contribuiu para aumentar a influência muçulmana no Sudão Central e
Ocidental; mercadores venezianos no Cairo tomaram conhecimento da riqueza do Mali e
difundiram na Europa o conhecimento do imenso império.
Após a morte de Mussa, o império gradualmente perdeu seu poder. Quando os portugueses
encontraram o império este já estava em decadência.

Imagem que representa a peregrinação de Mussa a Meca.

Iorubas
O povo dos iorubas é o único povo negro que tendeu espontaneamente para aglomerar-se
em grandes cidades, o único cuja realização política teve uma base urbana. Ibadan é a primeira
grande cidade do continente.
Ife, ao sul de Oyo, é a cidade sagrada, sede do Oni, o chefe religioso dos iorubas. A soberania
temporal pertencia ao Alafin que residia em Oyo, mas seu poder podia ser extinto pelo Ogbone,
senado de notáveis.
Desde o ano 1000 já se contam
diversos reinos iorubas. Cada um
centrava-se numa cidade-capital onde
famílias de agricultores, sacerdotes,
comerciantes e artífices viviam sob a
soberania de reis locais, os obas, os
quais se diziam descendentes de
Oduduwa. Este era uma figura lendária
reverenciada com o seu grande herói
fundador, o primeiro rei de Ife. Esta
cidade, famosa pela arte de escultura
em bronze e terracota aí desenvolvida,
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permaneceu a principal cidade dos iorubas e o modelo segundo o qual foram planejadas todas as
demais cidades iorubas. Cada uma dessas cidades era dividida em bairros governados por um chefe
de seção. Cada uma possuía seus nichos sagrados, seu palácio real, suas praças de mercado, seus
lugares de reunião, onde o governo da cidade podia tratar dos seus assuntos e o povo discutir as
novidades do dia.
Um dos reinos iorubas mais notáveis foi o de Oyo. Os iorubas de Oyo eram agricultores,
artífices e mercadores. Importavam do Sudão Central cavalos que possibilitaram ao Alafin manter
uma forte cavalaria. No final do século XVII, o império Oyo englobava grande parte da Nigéria,
do lado oeste do rio Níger, ao norte da floresta, assim como a maior parte da região dos bosques
esparsos do Daomé (atualmente chamado Benim), no golfo de Benim. Oyo manteve-se poderosos
durante mais de cem anos.

Estrutura político-social dos povos africanos em geral


Os estudiosos distinguem, de um modo bem geral, três tipos de organização política em que
se poderiam enquadrar as sociedades africanas: as anarquias, as chefaturas e as hegemonias.
Anarquias são estruturas sociais sem comando político central, obedecendo somente a
costumes sancionados apenas pela religião ou pela moral. A “gente sem reis” baseavam seus
métodos de trabalho e de vida naquilo que se poderia chamar de governo de aldeia, isto é, o poder
político estava dividido entre muitos chefes e que aqueles que governavam nunca se podiam tornar
distantes ou ditatoriais. Povos que viveram sob esta forma de governo: os Kikuyu, os Ibos, os Luo
e os Tallensi.
A chefatura inicia-se quando uma família com maior prestígio estende sua autoridade sobre
os demais. A autoridade do chefe não era absoluta, permanecendo equilibrada pelas famílias e
associações. Povos que viveram sob esta forma de governo: os Malinké, os Mendé, os Yoruba e os
Bamileké.
Em dado momento histórico as hegemonias (estados, reinos ou impérios) se sobrepõem às
chefaturas, trazendo consigo uma hierarquia administrativa, um fisco e um exército.

A vida econômica
Basicamente os povos africanos desenvolveram as seguintes atividades econômicas: a caça,
a pesca, a coleta, a agricultura, a criação de gado, a indústria e o comércio. Destacam-se as seguintes
rotas comerciais:
1. Rotas transaarianas que, partindo de metrópoles políticas ou comerciais, demandam o Marrocos
e a Argélia, passando, a oeste, por Ualata ou Audagost, Taudenit, Taghaza e Sidjilmassa.
2. Rotas transaarianas que, dos pontos de partida citados acima, demandam Tunís, Trípoli, o Cairo
e o Próximo Oriente, passando, em sentido leste, pelo Air e pelo Tibesti.
3. Rotas Orientais que, partindo da África Central e Austral, atingem o litoral do Oceano Índico em
um dédalo de florestas e montanhas.
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A religião
Os povos africanos possuíram, ao longo da história, três religiões: o paganismo, o islamismo
e o cristianismo. Evidentemente que o paganismo e o islamismo são falsas religiões.
O paganismo esteve presente em todos os séculos da história da África. O cristianismo teve
seu maior êxito no Reino da Etiópia. Além disso, nos primeiros séculos depois de Cristo, o
cristianismo floresceu no Egito e na África Setentrional. Após a época dos descobrimentos, o
cristianismo também se espalhou entre os povos africanos, especialmente por influência dos
portugueses.
O islamismo, contudo, modificou profundamente a história da África, especialmente o norte
do continente.
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Atividades
1) Qual era a noção que os povos da Antiguidade Clássica possuíam da África?
2) O que dificultou a penetração de outros povos no continente africano?
3) Qual era o objetivo das guerras entre os povos africanos?
4) Copie o esquema dos povos da África Negra:
sudaneses
guieenses
Melano-
congoleses
africanos
nilotas

África sul-africanos
negra
Etíopes galas, abissínios, peules
Negrilhos
bosquímanos
Khoisans
hotentotes

5) Quais são as quatro famílias linguísticas dos povos africanos?


6) Quais são as fontes históricas usadas para o estudo da História da África? Qual a importância da
tradição oral?
7) Quais são as possíveis causas da expansão bantu?
8) Os Berberes conseguiram criar estados autônomos? Qual foi o último conquistador dos povos
berberes?
9) Qual a tradição lendária que influenciava o povo da Etiópia?
10) Por que o império levou o nome de axumita?
11) Quem foi responsável pela conversão dos axumitas? Quem foi o primeiro rei cristão da Etiópia?
12) Qual a primeira capital do Reino de Kush? Qual traço da cultura de Kerma que se destaca? E
no campo religioso?
13) Após a guerra com os assírios, o que fizeram os kushitas?
14) Por que a capital kushita foi transferida posteriormente a Méroe?
15) Com eram conhecidas as rainhas-mães dos kushitas?
16) O que marcou o fim do império kushita?
17) Qual foi o importante papel desenvolvido pela Núbia?
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18) Qual era a capital do Reino do Congo na ocasião da chegada dos portugueses? Qual era o nome
do líder do reino?
19) Como foi governo de Sundiata Keita, rei do Mali?
20) Quem foi o maior imperador do Mali? Qual é o período do seu império?
21) Qual era o objetivo de Mussa em acumular tantas riquezas?
22) Qual foi um dos principais feitos de Mussa durante seu governo? Qual foram as consequências
decorrentes deste feito?
23) Qual característica distinguiu os iorubas dos outros povos africanos?
24) Quais foram as duas principais cidades dos iorubas?
25) Quais são as três formas de organização política dos povos africanos?
26) Cite algumas atividades econômicas desenvolvidas pelos povos africanos.
27) Quais religiões professaram os povos africanos?
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111

Capítulo

9
Mar Português
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Introdução
As grandes navegações ocorreram principalmente nos séculos XV e XVI. As principais
nações envolvidas foram Portugal, Espanha, Inglaterra e França. Porém, a grande pioneira desse
fato histórico foi certamente a nação portuguesa. Diversos fatores motivaram os portugueses a ser
um povo dedicado à navegação marítima. Contudo, o ardor missionário foi o principal
motivador desta grande empreitada.
“A fé católica, tendo sido, de certo modo, a linfa vital que alimentou a nação portuguesa
desde seu nascimento, assim foi, se não a única, certamente a principal fonte de energia, que elevou
a pátria portuguesa ao apogeu da sua glória de nação civil e nação missionária, ‘expandindo a fé e
o império’. Afinal, quando os filhos do rei João I lhe pediram que autorizasse a primeira expedição
ultramar, que implicou depois a libertação de Ceuta, o grande e piedoso monarca, antes de qualquer
outra coisa, quis saber se a iniciativa seria útil para o serviço de Deus.
À semelhança de todas as outras iniciativas que se seguiram, também esta teve como
finalidade principal a propagação da fé, aquela mesma fé que teria animado a cruzada do ocidente
e as ordens equestres na épica luta contra o domínio dos mouros. Nas caravelas que, ostentando o
branco pendão assinalado pela cruz de Cristo, deslocavam os destemidos descobridores
portugueses nas costas ocidentais da África e das ilhas adjacentes, navegavam também os
missionários, ‘para atrair as nações bárbaras ao jugo de Cristo’, como se exprimia o grande pioneiro
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da expansão colonial e missionária portuguesa, o infante Henrique, o navegador.” (Sumo Pontífice


Pio XII)

Os Lusíadas
Trecho do Canto 1
As armas e os Barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana

Por mares nunca de antes navegados


Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

E também as memórias gloriosas


Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando,
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

Cessem do sábio Grego e do Troiano


As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.
Luís de Camões
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As primeiras linhas do poema épico anunciam o percurso das grandes navegações e o rumo
que o poema épico irá tomar. Os versos dedicam-se a homenagear o povo português, aqueles que
superaram perigos e guerras para fazer avançar o Império e a Fé.
Além de narrar a conquista do novo reino, Camões já nas primeiras linhas se compromete a
contar a história, se for capaz de tamanho “engenho e arte”. Além de narrar a genealogia de
Portugal, das conquistas ultramarinas, o poema exalta, sobretudo, o povo português.
Durante os séculos XV e XVI ocorreram diversos episódios que abalaram a Europa e,
especialmente, a Igreja. Um desses episódios foi a Revolução Protestante promovida por Martinho
Lutero em 1517. Essa revolução levou a Cristandade Ocidental a um grande cisma que não se
limitou ao campo religioso, mas afetou as relações políticas entre os países europeus, colocando
irmão contra irmão e levando muitos ao desvio da fé verdadeira.
Foi nesse contexto que Portugal, juntamente com a Espanha, possibilitou à Igreja Católica a
evangelização de regiões desconhecidas levando-as ao conhecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo
e sua Igreja. Muitas conversões ocorreram na América, na África e na Ásia. Além disso, pela
atuação do Espírito de Deus, surgiram e se multiplicaram as dioceses e paróquias, seminários e
conventos, hospitais e orfanatos nos territórios evangelizados. Essa é uma prova que Deus age na
História e retira, das obras más dos homens, coisas boas. Deus realmente é o Senhor da História.

Origem das navegações portuguesas


A localização geográfica de Portugal contribuiu para que se tornasse especializado em
navegação marítima. Portugal possui um solo nem sempre fértil e produtivo, fato que levou os
portugueses a recorrerem à pesca marítima para a complementação de sua alimentação. A marinha
militar portuguesa foi muito utilizada, principalmente no combate aos muçulmanos no norte da
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África. Em 1415, os portugueses libertaram a cidade de Ceuta do poder muçulmano. Esse fato
marcou o início da sistemática expansão marítima de Portugal.

Fatores que levaram os portugueses às grandes navegações


1. A expansão da fé e do império.
2. O comércio com o Oriente, especialmente a Índia e a China (especiarias e artigos de luxo).
3. A busca de metais preciosos, como o ouro e a prata.
4. O combate aos muçulmanos, especialmente do norte da África.

O aperfeiçoamento das técnicas de navegação


Desde o século XII diversos fatores contribuíram para Portugal se tornar uma potência
marítima. São eles:
1. A localização geográfica.
2. Construção de diversos portos e incentivo ao comércio marítimo.
3. Plantação de uma floresta de pinhal para o fornecimento de madeira.
4. Criação do cargo de Almirante.
5. Incentivo à marinha mercante através de isenção de impostos e concessão de vantagens aos
mercadores.
6. Invenção da caravela, embarcação rápida e à vela, de fácil manobra, capaz de navegar contra o
vento e de levar grande quantidade de mercadoria e tripulantes.
7. A criação da Escola de Sagres por D. Henrique, o Navegador.

As Grandes Invenções

Pólvora
Admite-se que os Chineses conheciam a pólvora desde os primeiros séculos da era cristã.
Porém, apenas se serviram dela para a fabricação de fogos de artifícios, foguetes, etc.
Em meados do século VII, os gregos do Baixo Império empregaram-na na forma do fogo
grego. É também opinião aceita que os árabes foram os primeiros a empregar a pólvora para lançar
projéteis.
No princípio do século XIV já havia canhões na Itália, em Florença. Eram máquinas
grosseiras, feitas de um tubo de ferro curto, igualmente perigosas para os inimigos e para aqueles
que as empregavam; chamavam-se bombardas. Eram de difícil transporte; as balas, de chumbo ou
de pedra; e a pólvora ainda mal preparada.
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No reinado de Carlos VII aperfeiçoou-se a artilharia e apareceram as serpentinas ou


colubrinas, colocadas sobre carretas; formou-se assim a primeira artilharia de campanha. Vieram
depois armas de fogo mais leves, portáteis, esboço longínquo da espingarda.
Segundo dizia Montaigne, as primeiras armas de fogo faziam mais barulho do que mal ao
inimigo. Só muito lentamente se aperfeiçoaram. No século XVII, porém, foram enfim empregadas
com proveito e a tática militar transformou-se.

Bússola
Somente no século XIII se observou na Europa propriedade, ainda hoje mal explicada, que
tem uma agulha imantada e podendo oscilar livremente, de se dirigir sempre para um ponto
denominado polo magnético.
É provável que os chineses já conhecessem tal propriedade e que por intermédio dos Árabes
chegasse tal conhecimento aos marinheiros do Mediterrâneo. A bússola era a princípio composta
de uma agulha colocada sobre um pouco de cortiça ou de palha flutuando em azeite ou em água.
Flávio Gioia imaginou suspender a agulha sobre um eixo fixo, de modo a mover-se livremente em
qualquer direção.
Assim os navegantes podiam aventurar-se sem receio pelo mar alto, longe das costas, mas
sempre conhecendo a direção que seguiam, isto é, podendo orientar-se. Não tardaria o
descobrimento da América.

O Papel
Os antigos não conheciam o papel: escreviam em folhas de palmeira, em cascas de árvore,
em lâminas cobertas de cera, chumbo, etc., e principalmente sobre os papiros, feito do caniço que
cresce às margens do Nilo. O pergaminho, feito de peles de animais para tal fim preparadas, era
tão caro que na Idade Média se perderam muitos textos de antigos manuscritos que foram apagados
para nos pergaminhos se fazerem novas cópias.
Pelo fim do século X, os árabes introduziram o papel de trapos, cuja fabricação haviam
aprendido dos chineses. Generalizando-se no século XIV o uso da roupa branca, tornou-se fácil a
fabricação do papel de trapos por preço mais barato.

A imprensa16
Na Idade Média os livros eram manuscritos, isto é, copiados a mão. É fácil imaginar quanto
tempo era necessário para reproduzir as obras, e por consequência que preços atingiram. Só aos
milionários podiam pertencer as bibliotecas.
No século XIV, tentou-se melhorar esse estado de coisas por meio da xilografia, escrita
sobre a madeira. Gravava-se numa tábua uma página, passava-se tinta e aplicava-se uma folha de

16
Tema já citado anteriormente.
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116

papel. Era difícil, caro e demorado processo. Empregaram-se no princípio do século XV os


caracteres de madeira separados e móveis, mas gastavam-se depressa.
Um homem chamado João Guttenberg ideou os tipos feitos de uma liga de chumbo e
antimônio. Datam as suas primeiras experiências de 1436, em Strasburgo. Associando-se a João
Fust, que entrou com o capital, e a Pedro Schoeffer, conseguiu imprimir uma Bíblia em latim.
Vítima da inveja, morreu pobre e esquecido (1400 – 1468).
A posteridade, contudo, reconhecida, glorificou o descobridor da imprensa, a mais
importante incontestavelmente das grandes invenções. Doloroso é que tanto se tenha dela abusado,
convertendo-a em arma do mal, ao invés de farol da verdade e do bem.

D. Henrique, o Navegador
D. Henrique, o Navegador, era filho do décimo rei de Portugal, D. João I, Mestre de Avis.
Nasceu em 1394 e ajudou na campanha militar contra a cidade de Ceuta no norte da África. D.
Henrique exerceu um papel muito importante na história dos descobrimentos marítimos
portugueses. Além disso, era Mestre da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo (a famosa Ordem de
Cristo) e 1º Duque de Viseu.
Após voltar da expedição de
Ceuta, D. Henrique se estabeleceu
próximo ao Cabo de São Vicente e
criou um centro de estudos e
experiências náuticas chamado Escola
de Sagres. Era dedicado à Astronomia
e à Matemática, aplicou a sua vida ao
aperfeiçoamento da marinha para pôr
em execução o plano cujo objetivo era
o descobrimento gradativo da costa da
África, tendo em vista a conversão dos
habitantes locais e o estabelecimento
de relações comerciais. Para colocar
em prática este projeto, D. Henrique
recebeu autorização de três papas e
aplicou os recursos financeiros da Ordem de Cristo e as doações que recebeu de seus parentes, pois
era um projeto muito caro.

Escola de Sagres
A Escola de Sagres reunia cartógrafos (profissionais que elaboram mapas), construtores de
instrumentos náuticos, navegadores experientes e outros intelectuais, a fim de desenvolver a arte náutica.

Exploração da costa africana e a construção de feitorias


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Conforme o avanço das navegações portuguesas, foi descoberta toda costa ocidental africana, onde
foram construídas feitorias, isto é, entrepostos comerciais que funcionavam como mercado, armazém, forte,
ponto de acesso à navegação e alfândega. Estima-se que foram construídas 50 feitorias ao longo da costa
africana. O objetivo português era descobrir um novo caminho para o Oriente contornando a África.

Périplo Africano
Após os capitães Diogo Cão e o famoso Bartolomeu Dias alcançarem o Cabo das Tormentas,
tornou-se possível a hipótese de um novo caminho para o Oriente, tanto que o nome do Cabo passou
a ser Cabo da Boa Esperança. A realização de tamanha façanha ficou para a História graças ao
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famoso navegador Vasco da Gama que, em 1498, atingiu a cidade de Calicute na Índia. O contorno
que os portugueses fizeram na África ficou conhecido como Périplo Africano.

A navegação nos séculos XV e XVI


Os navegantes portugueses já conheciam alguns instrumentos náuticos, como as agulhas de
marear, a balhestilha, o astrolábio e o quadrante. A principal referência para os navegadores era a
Estrela Polar, no hemisfério norte. Já no hemisfério sul a referência era o Cruzeiro do Sul. Quanto
às embarcações, eram utilizadas as caravelas, as naus, os galeões e os bergantins.

Descobrimento da América
Da América não tinham os Europeus o menor conhecimento. Era verdade que os
dinamarqueses, lá pelo ano 1000, haviam chegado à Groelândia e provavelmente à costa do
Labrador. Tudo, porém, ficava sem conhecimentos exatos. Não eram somente os portugueses que
procuravam o caminho marítimo das Índias. Os espanhóis também andavam empenhados em
resolver o mesmo problema.

Colombo, o Descobridor
Cristóvão Colombo (1451 – 1506)
era um grande e experiente navegador
genovês que desejava descobrir uma nova
rota para o Oriente. Para isso, Colombo
planejou navegar em torno do globo
terrestre, ou seja, navegar pelo Ocidente
para chegar ao Oriente. É falsa a ideia de
que Colombo foi o primeiro homem
acreditar na esfericidade da Terra.
Em 1492, os Reis Católicos da
Espanha, Fernando e Isabel, financiaram Cristóvão Colombo
uma modesta expedição para Colombo
prosseguir em sua empreitada. A bordo de três caravelas, cujos nomes eram Pinta, Nina e Santa
Maria, Colombo iniciou a difícil missão de alcançar a Índia navegando pelo Oceano Atlântico.
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No dia 12 de outubro de 1492, Cristóvão Colombo alcançou uma ilha da América Central
que foi batizada São Salvador. Ali cantou o Te Deum, e, erguendo uma cruz, tomou posse da terra
em nome de Suas Majestades Católicas A América foi descoberta! Descobriu igualmente a ilha de
Cuba, e a de Haiti a que deu o nome de Hispaniola, e regressou triunfalmente para a Espanha
(março de 1493). Em suas três viagens seguintes (a 2ª viagem se realizou em 93; a 3ª em 98; e a 4ª
em 1502) visitou mais algumas ilhas e explorou parte notável da costa do continente, zelando
sempre o bem da religião e da sua pátria adotiva (a Espanha).
A notícia do descobrimento se espalhou pela Europa, fazendo que muitos navegantes se
dirigissem para o Novo Mundo, como ficaram inicialmente conhecidas as terras encontradas. O
navegador Américo Vespúcio (originário de Florença, cidade italiana) fez diversas viagens ao
Novo Mundo, redigindo um diário de suas explorações na maior parte do território. Adquiriu tanta
celebridade que o continente levou o seu nome: América.

A Igreja Católica e a Expansão


No período medieval, todas as nações católicas se subordinavam à Igreja. Por isso, tudo o
que fosse feito no que diz respeito ao processo missionário e de expansão deveria ser autorizado
pela Igreja. Assim foi feito pelos portugueses no período das navegações. Cabia à Igreja
distribuir as terras conquistadas pelos reis europeus.
Colocaremos, a seguir, algumas partes da encíclica Saeculo Exuente Octavo do Papa Pio
XII. Acreditamos que essas frases deixarão claro o benefício das grandes navegações e o apoio da
Igreja.
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Para Meditar...
Saeculo Exuente Octavo
Papa Pio XII

“Os atos com os quais os nossos predecessores do século XII, Inocêncio II, Lúcio II e
Alexandre III aceitaram a homenagem de obediência prestada por Afonso Henriques, conde e, em
seguida, rei de Portugal, tendo-lhe prometido sua proteção, declararam independência de todo o
território, que ao preço de duríssimas lutas tinha sido valorosamente recuperado do domínio
sarraceno, foi o prêmio com o qual a sé de Pedro compensou o generoso povo português por suas
extraordinárias benemerências em favor da fé católica.
Nas caravelas que, ostentando o branco pendão assinalado pela cruz de Cristo, deslocavam
os intrépidos descobridores portugueses nas costas ocidentais da África e das ilhas adjacentes,
navegavam também os missionários, “para atrair as nações bárbaras ao jugo de Cristo”, como se
exprimia o grande pioneiro da expansão colonial e missionária portuguesa, o Infante Henrique, o
navegador.
Aconteceu então – quando uma série de episódios funestos (entre eles a Revolução Protestante)
arrancava grande parte da Europa do seio da Igreja, que com tanta sabedoria e amor materno a havia
plasmado – que Portugal, juntamente com a Espanha, sua nação irmã, abriu à mística esposa de
Cristo imensas regiões desconhecidas levando-as ao seu seio materno, compensando o que havia
sido perdido com inumeráveis filhos da África, da Ásia e da América. Naquelas terras,
demonstrando a perene vitalidade da Igreja católica, pela qual o divino Fundador intercede
incessantemente e na qual o Espírito paráclito incessantemente opera, também nas horas mais trágicas,
surgiram e se multiplicaram dioceses e paróquias, seminários e conventos, hospitais e casas de
recolhimento de órfãos.
Como foi possível que vós, embora sendo poucos, fizestes tanto na santa cristandade? Onde
Portugal encontrou forças para acolher sob seu domínio tantos territórios da África e da Ásia, para
estendê-lo até às mais distantes terras americanas? Onde, senão naquela ardente fé do povo português,
cantada por seu maior poeta, e na sabedoria cristã dos seus governantes, que fizeram de Portugal um
dócil e precioso instrumento nas mãos da Providência, para a atuação de obras tão grandiosas e
benéficas?”

Estas frases mostram o elogio que o Papa faz aos portugueses e o constatam os benefícios
que as grandes navegações trouxeram para a Igreja e para a almas dos pagãos que desconheciam o
a fé católica.

A América no século XV
Antes da descoberta, estima-se que a população América era de 20 milhões de pessoas.
Dentre as mais célebres nações, notam-se os Toltecas e Astecas que fundaram o império do México,
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e os Incas, senhores do Peru. Desde o Alasca, entretanto, até as ilhas mais austrais da América do
Sul, encontravam-se tribos de índios, apresentando os mais variados graus de civilização, desde a
organização dos dois impérios já citados até à mais brutal antropofagia.
Por volta do ano de 1500, o México era governado por Montezuma. O império asteca
contava com muitas cidades, nas quais se ostentavam palácios, templos e pirâmides com as do
Egito. A capital, Tenochtitlan, construída em anfiteatro junto ao lago Tezcuco, possuía maravilhosa
paisagem e deslumbrava pelas suas riquezas fabulosas. Contava cerca de 70 mil habitantes. De
todos os lados do México, tribos hostis aos astecas tramavam vingança contra os imperadores que
as mantinham submissas. A mais terrível, a dos Tlascalanos, causou a ruína do império mexicano.
Em 1519, o chefe espanhol Fernando Cortez, por ela auxiliado, tomou a capital do México.
Fez perecer Montezuma e seu sucessor Guatimozim, e realizou, em 1522, a conquista definitiva do
país.
O Peru contava, como no México, muitas minas de ouro e prata. Ao passo que no México a
civilização apresenta semelhanças com as do Egito e da Índia, no Peru aproxima-se mais da
civilização da China. Dentre as mais belas cidades peruanas citam-se Cusco e Quito, ligadas por
uma estrada magnífica, gigantesca, através do Andes, construída pelos imperadores incas (Manco-
Capac e Huaiana-Capac).
Pelos fins do século XV, o Peru achava-se em franca prosperidade, mas dividido
politicamente: Huascar reinava em Cusco e Ataliba (seu irmão) reinava em Quito. Por causa desta
divisão, Fernando Pizarro, em 1532, apoderou-se facilmente do país.
Valdívia submeteu os Araucanios do Chile e funda Santiago (1541), Valparaiso, e outras
cidades. Pedro de Mendoza reconhece o Rio da Prata (1535) e funda Bueno Aires. Outros
aventureiros espanhóis exploram a América Central.
Assim é que, no decorrer do século XVI, funda a Espanha na América um imenso império
colonial, que só lhe escapará das mãos no princípio do século XIX.

Tratado de Tordesilhas
Quando Colombo retornou de sua viagem e trouxe a notícia de sua grande descoberta,
ocorreu uma tensão entre o Reino de Portugal e o da Espanha, pois no processo de expansão
portuguesa vários papas haviam concedido a Portugal o direito sobre as ilhas e terras encontradas
no Atlântico. Porém, depois de diversas divergências entre os dois reinos, foi assinado um acordo
na cidade espanhola de Tordesilhas. Esse acordo ficou conhecido como Tratado de Tordesilhas
e foi assinado em 1494. A Igreja reconheceu o tratado em 1506 pelo Papa Júlio II
O Tratado de Tordesilhas consistia em uma linha imaginária na vertical a 370 léguas das
Ilhas do Cabo Verde. As terras encontradas no Ocidente da Linha pertenceriam à Espanha, e as
terras encontradas no Oriente da Linha pertenceriam a Portugal.
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Consequências das Grandes Navegações


1. A evangelização de três continentes e grande aumento de fiéis católicos.
2. O comércio ganhou proporções mundiais.
3. O Oceano Atlântico passou a ser mais importante que o Mar Mediterrâneo.
4. Os europeus construíram vastos impérios coloniais.
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Atividades
1) Quando ocorreram as grandes navegações? Quais países se envolveram nela? Qual destes se
destacou?
2) Qual foi o principal motivo que levou os portugueses a realizarem as grandes navegações?
3) Qual episódio abalou a Igreja no século XVI? Porém, como podemos ver a Providência de Deus
diante desta crise?
4) O que marcou o início das grandes navegações?
5) Quais fatores levaram os portugueses às grandes navegações?
6) Cite alguns fatores que contribuíram para Portugal se tornar uma potência marítima.
7) Quais foram as grandes invenções que modificaram a história da Europa?
8) Qual foi a importância de D. Henrique para as grandes navegações?
9) O que foi a Escola de Sagres?
10) O que são feitorias?
11) O que é périplo africano?
12) Quando e quem descobriu a América?
13) Qual era o plano de Colombo? Qual era o nome das três caravelas de Colombo?
14) Por que o continente levou o nome de América?
15) Copie esta frase:
“Aconteceu então que Portugal, juntamente com a Espanha, sua nação irmã, abriu à mística esposa
de Cristo imensas regiões desconhecidas levando-as ao seu seio materno, compensando o que havia
sido perdido com inumeráveis filhos da África, da Ásia e da América”. Pio XII
16) Quais povos indígenas se destacavam na América?
17) O que foi o Tratado de Tordesilhas?
18) Copie as consequências das Grandes Navegações.
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Capítulo

10
Origem dos índios americanos
Os documentos históricos pouco nos dizem a respeito da origem do índio americano. Por
isso, surgiram diversas teorias sobre a forma e os tempos do povoamento da América. Baseados na
ciência e na revelação sabemos que os índios descendem de Adão e Eva, e como tudo leva a crer
que os nossos primeiros pais viveram na Ásia, o povoamento da América se efetuou por meio de
migrações.
Três hipóteses então se apresentam:
1. Migração asiática através do Estreito de Behring.
2. Travessia do Atlântico através das Canárias, motivada por tempestades ou correntes marítimas.
3. Chegada dos dinamarqueses, antes do ano mil, às costas da América do norte, depois de terem
passado pelo Islândia e Groelândia.

Principais povos pré-colombianos


Apresentavam os índios das Américas grande diversidade de tipos humanos, mas se
pareciam, em suas afeições acentuadamente mongólicas: olhos oblíquos, maçãs do rosto salientes
e cor bronzeada ou avermelhada donde lhes veio o designativo de peles vermelhas.

América do Norte e Central: No Canadá, os Esquimós, ao norte vestidos de peles de animais e


dados à pesca e caça. Ao Sul, os Hurões e Atabascos. Nos Estados Unidos: os Algonquins, os
Iroqueses e os Dacotas ou Sioux, caçadores de bisões. No México: os Toltecas e os Astecas, de
adiantada civilização. No Iucatã e parte da América Central: os Mais, que haviam tido adiantada
civilização a julgar-se pelos monumentos de arquitetura encontrados pelos descobridores
espanhóis. Nas Antilhas: os Caraíbas, dados à pirataria.

América do Sul: na Colômbia se situavam os chibchas; no Chile, os belicosos araucanos; no Peru,


os Incas de civilização adiantada. Ao sul da Argentina: os Patagões e os Fueguinos. No Brasil, a
princípio foram classificados pelos colonos e missionários: Tupis, os do litoral e Tapuias, os do
interior. Mais tarde se conveio em classificação mais acertada: Tupis, Gês (tapuias), Nu-aruaques
e Caraíbas. Os Tupis estendiam-se de sul a norte, pelo litoral e eram mais tratáveis. Abrangiam
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126

diversas tribos: carijós, tamoios, goianas, tupinambás, tabajares; os Tapuias, pelo interior,
compreendiam entre outras tribos: aimorés, timbiras; Nu-aruaques: Mundurucus, Apiacás;
Caraíbas: Omáguas e Macuxis.
Para melhor conhecimento do silvícola brasileiro, muito se deve aos missionários católicos:
jesuítas e de outras Ordens religiosas assim como aos cronistas dos primeiros séculos de
colonização. Além disso, no século XVIII, sobretudo, expedições científicas estrangeiras
percorreram diversas regiões do Brasil tomando apontamentos preciosos sobre as diversas tribos.
Delas participaram, entre outros, Carlos von Steins, Paulo Ehrenreich, A. Saint Hilaire, entre
outros.

Astecas
1300 a 1521
Foram os últimos povos indígenas que se aglomeraram no planalto do Anauaque (México).
A princípio fizeram parte de uma nação que se estabelecera às margens do lago Chapala. Sua
emigração se iniciara pelos meados do século VII.
A princípio, o governo era aristocrático, com 20 membros; e, mais tarde, escolheram um
soberano que veio a ser déspota.
Em 1325 d.C., fundaram o México, o que primeiro chamaram de Tenochtitlán. A capital, a
princípio, se achava por sobre numerosas ilhotas do lago Texaco. Aí se levantou a cabana real em
torno da qual se espalharam as choças dos súditos. Aos poucos foram entulhando os numerosos
canais e se levantaram habitações mais confortáveis. Prosperaram com a agricultura obrigatória.
Construíram depois palácios e templos a ponto de constituírem grande império. Na época da
chegada ao México, os espanhóis encontraram a cidade com umas 60 mil casas entre ruas de traçado
regular.
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Profissionais de vários ofícios, como construtores, tecelões, escultores, médicos, artistas


residiam em ruas determinadas. O serviço militar era para os homens obrigação, sendo que no
exército havia hierarquia respeitada. Tribunais administravam a justiça. O soberano tinha
conselheiros.
A cultura asteca se consolidou a partir da experiência daqueles que a precederam, e foi pouco
inovativa. Possuíam uma agricultura avançada que sustentava uma população muito grande.
Construíram edifícios imensos, de desenho grandioso e se destacaram em diversas artes.
Trabalhavam bem os metais, em que pese jamais tenham possuído o ferro. Como não dispunham
de nenhum animal de tração adequado, não empregaram a roda como mecanismo motriz.
Entre as artes cultivadas, conheceram a arquitetura, pintura, escultura, desenho e música.
Tinham conhecimentos de astronomia de que se aproveitaram para preparo de calendários de pedra
de que ainda se conservam exemplares.
Uma das principais características que distinguia a cultura asteca era sua propensão a sacrifícios
humanos. A mitologia asteca estabelecia que alimentar o Sol com sangue humano lhe daria força
para se levantar todos os dias. Os sacrifícios humanos eram realizados em grande escala: era algo
comum vários milhares serem feitos por dia. Muitas vezes, as vítimas eram decapitadas ou
esfoladas, e corações eram arrancados de vítimas vivas. Os sacrifícios ocorriam no topo de enormes
pirâmides, para estar mais perto do Sol, o que fazia com que o sangue escorresse pelos degraus.
Embora a economia asteca fosse baseada primordialmente no milho, o povo imaginava que os
cultivos eram dependentes do fornecimento regular do sangue dos sacrifícios.
Apesar de suas artes e agricultura grandiosas, olhando para trás, a sociedade asteca não
parecia ter futuro. Nenhuma tecnologia, ideia religiosa ou teoria política relevante foi por eles
legada. Sua civilização foi encerrada abruptamente com a chegada dos espanhóis no século XVI.
A crueldade dos astecas contribuiu para o seu próprio declínio, posto que os espanhóis não tiveram
qualquer dificuldade em se aliar a outras tribos mexicanas rivais a eles.

Maias
250 a 900

De origem desconhecida, viviam, na


época do descobrimento, no Iucatã e em
parte da América Central. Tinham governo
aristocrático com apoio nos sacerdotes e
militares. Eram politeístas. Praticavam uma
escrita ideográfica sobre papel de agave, de
que restam documentos ainda não
decifrados.
Os maias superaram seus vizinhos
mesoamericanos no campo da matemática
combinada com a astronomia. Embora
devam ser evitados os exageros, é inegável
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que os conhecimentos astronômicos dos Maias causam realmente admiração. Os maias tinham
muita aptidão para a matemática e a astronomia. Seu entendimento acerca dos movimentos dos
astros era crítico para calcular o seu calendário e marcar datas de cerimônias importantes. Para eles,
o ano se dividia em 18 meses de 20 dias sendo os últimos 5 dias considerados suplementares.
Vivia o povo em choças ao passo que as classes privilegiadas possuíam casas confortáveis
e até palácios. A civilização maia deu origem a algumas obras de arte das mais notáveis de todos
os tempos. A qualidade técnica da arquitetura e da escultura, a abundância de cerâmicas
decorativas, confirmam o caráter evoluído desta sociedade.
O declínio da civilização maia teve início no século X, talvez devido a um terremoto ou
erupção vulcânica.

Incas
1438 a 1533

Raça aborígene que se dizia descendente de um deus solar, vieram a substituir os quíchuas
e se estenderam, alguns séculos antes da vinda dos europeus, pela vasta região que hoje constitui o
Peru, Equador, parte da Bolívia e norte do Chile. Dispunham de duas grandes capitais: Cusco e
Quito. Pela época da conquista, estavam dois príncipes incas, em competição pela sucessão ao
trono. Eram os irmãos Atualpa e Huáscar. O maior líder inca foi Pachakutiq Inka, que soube
defender firmemente seu território e fazer dos Incas, um Império.
As estradas do império causaram admiração aos cronistas espanhóis, conforme se percebe,
por exemplo, em Gutierrez de Santa Clara, que as julga superiores às famosas vias militares
romanas.
O soberano inca exercia domínio absoluto sobre seu povo e, ao mesmo tempo, era o sumo
pontífice do culto do deus Sol de que se inculcava descendente. Era o único dono das terras, mas
condescendia em reparti-las com os vassalos. Nota-se que o escolhido não era necessariamente o
primogênito ou um dos filhos tidos da esposa principal. Na realidade, o final de cada reinado
ensejava uma luta aberta pelo poder. Os sacerdotes gozavam de grande prestígio e, a mais deles,
havia sacerdotisas que se consagravam ao culto do Sol pelo prazo de sete anos. Havia uma nobreza
apegada ao serviço e prestígio do monarca e de sua família.
A agricultura era obrigação e o soberano lhe dava apreço comparecendo ao início das
sementeiras e da colheita. Desta o lavrador só se aproveitava em parte, o terço, ficando o resto para
o rei e a classe sacerdotal.
As profissões eram hereditárias. Trabalhavam com os metais, exceto o ferro. Por estarem
localizados em uma das maiores reservas de ouro e prata, foram talvez uma das mais ricas
civilizações.
As armas eram de madeira com revestimento metálico. Construíam palácios e templos, pontes
pênseis e fortalezas. Para transporte utilizavam-se de lhama.
Teciam com lã de alpaca, de lhama, e preparavam objetos caseiros por cerâmica adiantada.
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Colonização da América Espanhola


A conquista e seus heróis

1835
Retrato de um conquistador espanhol. Amable-Paul Coutan,
Retrato de Hernán Cortés (1485-1547), Museu Naval de Madri

Fernão Cortez Francisco Pizarro

O México, ou Nova Espanha, descoberto por Grijalva em 1518, foi logo no ano seguinte
conquistado por Fernão Cortez, que tentou a ousada empresa com 11 navios, 400 soldados, 200
índios, 32 cavalos e 10 canhões. Desembarcou no Iucatã, lutou e obteve a submissão de vários
caciques. Montezuma, soberano asteca, procurou afastá-lo, enviando-lhe grandes presentes; mas
Fernão Cortez não se deteve, combateu e venceu os astecas, chegando até a capital, onde foi bem
recebido. Apoderou-se do governo, aprisionam Montezuma, e mandou explorar o interior do país.
Tendo de ausentar-se da capital, para combater Pánfilo de Narváez, mandado contra ele, por inveja
de seus triunfos, por Diego Velásquez, governador de Cuba, Fernão Cortez não pôde evitar que os
astecas se sublevassem. Montezuma foi ferido e veio a morrer pouco depois. Cortez, apesar de
haver derrotado Pánfilo de Narváez, teve de abandonar a capital do México com grandes perdas.
Mas a vitória dos espanhóis em Otumba contra os mexicanos permitiu-lhe tentar outro assalto à
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130

capital, que assediou por três meses. Guatimozim, parente de Montezuma e agora no trono, foi
vencido, torturado e morto. O México submeteu-se sem resistência maior. Cortez voltou à Espanha
e teve de Carlos V o governo militar do México, mas não civil. Morreu mais tarde, esquecido, na
Espanha.
Também a conquista do Peru foi um misto de crueldade e heroísmo. Francisco Pizarro
associou-se com Diego de Almagro e empreendeu a arriscada expedição. Apoderou-se por astúcia
do Inca Atahualpa, que estava em desarmonia com seu irmão Huáscar. Atahualpa teve de pagar
enorme quantia em ouro para resgatar-se, mas Pizarro, em lugar de libertá-lo, fê-lo condenar à
morte, sob pretexto de fratricídio, pois Atahualpa, receando um competidor, mandara matar
Huáscar. Pizarro ficou senhor do Peru, onde, em 1535, fundou Lima.
Almagro conquistou o Chile, mas em 1538 foi vencido em guerra contra Pizarro e
estrangulado. Seu filho, três anos depois, assassinou Pizzaro. No mesmo ano Pedro de Valdívia
fundava Santiago (1541), mas em guerra com os araucanos, índios belicosos, estes o prenderam e
mataram cruelmente.
Desde 1536 estavam fundadas Buenos Aires, por Pedro de Mendoza, e Assunção, no
Paraguai, por Juan de Ayolas. Mas a verdadeira e definitiva fundação de Buenos Aires só se efetuou
em 1580, com Juan de Garay.
A obra de conquista e colonização prosseguiu sem desfalecimentos. Surgem cidades, futuras
capitais de várias das colônias; Santa Fé de Bogotá, em 1538, graças a Gonçalo Ximinez de
Queseda; La Paz, em 1548, com Alonso de Mendoza; Caracas, em 1567, com Pedro Ponce de
Leon; e, mais tarde, já no século XVIII, em 1726, Zavala funda Montevideo.

Divisão territorial
A América teve sua divisão de acordo com os interesses econômicos e com as realidades
que os espanhóis enfrentavam. Todos os territórios americanos foram divididos em vice-reinados
e capitanias gerais.
Os vice-reinados eram as áreas onde os espanhóis conseguiam explorar metais preciosos ou
os locais que possuíam áreas de forte comércio. Os locais chamados de vice-reinado eram Nova
Espanha, Nova Granada, Peru e Prata.
Já as capitanias gerais, são os locais estratégicos utilizados pelos espanhóis. Esses lugares
não possuíam metais preciosos, por isso eram menos povoados pelos população espanhola.
Guatemala, Cuba, Venezuela e Chile eram os lugares chamados de capitanias gerais. As duas
divisões da América espanhola representavam níveis de poder.

Vice-Reinados
Nova Espanha
O mais amigo dos vice-reinos foi o do México ou Nova Espanha, devido sobretudo às
conquistas de Cortez. Criado em 1534, teve por primeiro vice-rei D. Antônio de Mendoza. O
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conquistador não lograra o título


ambicionado, embora tivesse tido
outras recompensas. O México foi
uma das regiões mais ricas em minas
e em produtos vegetais. A imigração
cresceu rapidamente. Na época da
independência (século XIX) tinha o
México sete milhões de habitantes.
Predominavam índios e mestiços.
Dos vinte milhões de pesos anuais
que rendia o fisco, lucrava a
metrópole quase um terço.

Peru
O Peru era a mais rica porção
dos domínios espanhóis sul-
americanos, com minas de ouro e
prata, abundantes recursos agrícolas
e intenso comércio, centralizado em
Lima. Rendia seis milhões de pesos,
dos quais enviava um milhão para a Espanha. Teve universidade desde 1551 e uma tipografia para
publicação de obras de assunto religioso. A população não ultrapassava dois milhões.

Nova Granada
Nova Granada só se organizou definitivamente como vice-reino em 1739. Abrangia também
a presidência de Quito. O vice-reinado chegou a ter dois milhões de habitantes e uma renda de três
milhões de pesos. Mas havia quase sempre déficit, que era coberto com os recursos abundantes do
Peru. O comércio de exportação de fumo e cacau era importante. Santa Fé era centro universitário
notável e teve imprensa nos últimos tempos de colônia.

Buenos Aires
Buenos Aires só foi criado na segunda metade do século XVIII como vice-reino. É de 1776
a elevação do território dos governos de Buenos Aires e do Paraguai, como as províncias do interior
que se comunicavam pelo Rio da Prata. O gado era abundante nas planícies argentinas, permitindo
comércio de couros e charque. O Alto Peru produzia, além de riquezas minerais, açúcar, anil
(corante azul), algodão, etc. Buenos Aires veio a ser um centro importante de comércio.

Capitanias Gerais
A capitania geral da Guatemala era subordinada ao México. A de Venezuela dependia de
Nova Granada. A de Cuba era o centro do governo das Antilhas, que a principio estivera em São
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Domingos. A capitania do chile em 1778, é separada do Peru. Sua pobre vegetação e revoltas
indígenas foram essenciais para o rompimento e não prosperou como as outras. Chegou a ter
600.000 habitantes de origem espanhola, sem incluir o elemento indígena. A Espanha teve de ceder
Haiti à França, em 1795, pelo tratado de Basiléia.

A administração espanhola
A autoridade do monarca era representada na América elos vice-reis e capitães-gerais.
Tinham o poder executivo, o exercício do poder supremo no civil e no militar, a faculdade de
nomear funcionários, provisoriamente, para os cargos que o Rei devia por si mesmo dar. Os vice-
reis eram independentes e mantinham a etiqueta da corte.
As colônias não eram consideradas propriamente como partes integrantes do território
espanhol. Com os mesmos direitos e obrigações. Eram antes comparáveis a feudos de propriedade
do soberano e fontes de lucro para o tesouro da metrópole.
Para melhor administrar as colônias americanas, mais conhecido na época como Índias,
foram instituídos: O Conselho das Índias, Casa de Contratação e os Cabildos.

Conselho das Índias


Commons

Vista del Alcázar de Madrid, Félix Castello, 1630. Museo de História de Madrid.
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O Conselho das Índias foi criado pelos reis católicos para tratar de tudo quanto fosse relativo
às Índias e dispunha até de atribuições judiciárias. Propunha ao rei o preenchimento dos cargos
civis e eclesiásticos, fiscalizava o procedimento dos funcionários, elaborava as leis necessárias para
o governo das colônias.

Casa de Contratação
Em 1503 se estabeleceu em Sevilla a casa de contratação, espécie de câmara de comércio,
cujas decisões só podiam ser modificadas pelo Conselho das Índias. Sua principal missão era
desenvolver as relações comerciais entre a metrópole e as possessões ultramarinas. Expendia os
navios, recebia os carregamentos, etc.

Cabildos
Nas colônias de origem espanhola a influência dos Cabildos foi realmente grande.
Assembleia ou conselhos formados das pessoas mais distintas do elemento nativo, contavam em
geral de 6 a 12 membros. Administravam a justiça, preparavam as tropas em caso de guerra,
protegiam os pobres e os menores, policiamento, saúde, regulamentavam os valores e os
abastecimentos, entre outras atribuições menos importantes. Funcionavam como as câmaras
municipais brasileiras e cada vilarejo possuía o seu. Alguns deles, como a cidade de Córdoba, na
Argentina, funcionava tão bem quanto o parlamento inglês.

Jesuítas
A obra das missões jesuíticas, na América espanhola, como no Brasil, foi admirável e colheu
frutos que as tentativas de elementos leigos jamais alcançaram. Foram os jesuítas que tomaram
resolutamente a defesa do índio explorado pelo colono e defenderam seu direito de homem livre.
As missões jesuíticas mais fortes na américa espanhola ocorreram no Uruguai e no Paraguai. Assim
como no Brasil, os Jesuítas foram expulsos das colônias espanholas, pelo ministro de Carlos III,
chamado Aranda.

Índios, negros e a miscigenação


O índio estava isento do serviço militar, mas tinha que trabalhar nos campos, nas obras
públicas, estradas e exploração das minas. Possuíam, na teoria, certos direitos de descanso, mas
eram forçados a trabalhos pesados e abusivos. Em 1610 foram criadas novas leis para exonerar os
índios de certos serviços, substituindo-os por negros; mas os indígenas eram levados à força a troco
de irrisório pagamento de álcool e cacau. Os indígenas eram dispensados de pagar o dízimo, mas
pagavam uma capitação, que era encaminhada ao líder da aldeia, o cacique, e o pároco encarregado
da doutrina.
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134

Os negros, importados logo após os primeiros descobrimentos do século XVI, eram


escravizados e preferidos aos índios nas explorações agrícolas, pela robustez, resistência e humilde
submissão.
A fusão das raças operou-se pelo cruzamento, em condições diversas, de que resultaram
tipos mestiços variados. Na hierarquia social, o branco europeu não admitia que o igualassem a
quem quer que fosse. Os próprios filhos de europeus, nascidos na América – criollos – formavam
uma como que segunda classe. Da rivalidade dos criollos como os chapetones (Espanhóis) veio
uma das causas poderosas a favor da emancipação política.

México.
Retrato da família Fagoaga Arozqueta, pintor anônimo, 1735. Museu Nacional de São Carlos, Cidade do
Retrato de los Fagoaga-Arozqueta, família de criollos do México

Os mestizos, propriamente, eram os filhos de espanhóis e índios: plebe das cidades,


trabalhadores dos campos e soldados do exército. Tinham, teoricamente, os mesmos direitos que
os brancos, mas eram desprezados. Os mulatos, filhos de europeus e negros, eram incapacitados
para os empregos públicos e para as ordens sacras; ficavam-lhe os ofícios mecânicos e os trabalhos
considerados inferiores.
Os estrangeiros não eram bem recebidos nas colônias e precisavam para estabelecer-se nelas
de licença especial. Este rigor foi mais tarde abrandado.

Comércio e monopólio
O sistema de produção da américa espanhola era todo voltado à metrópole. A agricultura
sofria com impostos onerosos e não podia comercializar livremente. Era proibido, por exemplo,
cultivar a oliveira nas colônias espanholas, forçando os colonos comprarem apenas da metrópole.
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Apenas o porto de Sevilha podia negociar livremente com as colônias. Todos os metais
preciosos e produções escoavam-se para a metrópole. Em resposta a esse sistema de monopólio,
colonos faziam contrabando, e comercializavam secretamente.
A situação só foi melhor com o reinado de Carlos III, quando a Espanha abre novos portos
ao comércio com as colônias, estabelecendo um vinculo mensal de comunicação. Em 1763, todas
as restrições de comércio ultramarinos foram abolidos e qualquer espanhol poderia comercializar
livremente com a colônia.

Universidades e a cultura
O estado de atraso da instrução pública, a falta de tipografias, a escassez de livros não
permitia que fosse alto o nível cultural das colônias. Ainda assim não seria exato dizer que a
ignorância era geral. Nas classes baixas e mesmo entre pessoas de certos recursos a instrução
limitava-se quase sempre a noções elementares, ler e escrever. Poucos seguiam estudos superiores
nas universidades, raros conseguiam ilustrar-se com viagens ao Velho Mundo e possuir bibliotecas
de certa importância.
Em certos centros – México, Lima, Bogotá, Chuquisaca – a cultura atingiu maior intensidade
e os cursos universitários tiveram merecido renome. Santa Fé e Bogotá, capital do vice-reinado de
Nova Granada, possuía uma das melhores universidades coloniais.
A arte e a literatura coloniais, na América espanhola como no Brasil, não podiam ter, antes
do século da independência política e do movimento revolucionário do romantismo, feições muito
próprias e originais. Eram quase sempre imitações dos modelos clássicos e da metrópole.
Na arquitetura domina o estilo jesuítico nos templos, mas os mosaicos e azulejos lembram
a velha Espanha, como também há evidentes influências mouriscas17 em muitos edifícios e
monumentos.

17
De origem islâmica.
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Atividades
1) Que sabemos da origem dos índios americanos?
2) Quais são as hipóteses do povoamento da América?
3) Como se chamava a capital dos Astecas? Cite uma das principais características da cultura
asteca.
4) Como se deu o fim dos Astecas?
5) Quais eram as ciências em que os Maias mais se destacavam?
6) Quais são as possibilidades que explicam o fim do Maias?
7) Quais eram as duas capitais dos Incas?
8) Cite duas características da cultura Inca que mais lhe chamou a atenção.
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137

Capítulo

11
O descobrimento da América e a notícia de que por mar se encontraria caminho para o
oriente, despertaram nos portugueses a ideia de tentarem a exploração desse caminho.
Para esse fim, foi armada uma esquadra, sob o comando do capitão português Vasco da
Gama, que saiu de Lisboa em 1497.
Em 1499, Vasco da Gama noticiou a D. Manoel que houvera descoberto caminho para as
Índias; no ano seguinte o rei mandou uma frota para ali, não somente com o fim de assegurar o
comércio com os povos daquela região, mas também para fundar estabelecimentos em diversos
pontos da costa, as feitorias, que servissem de escala aos navios portugueses que navegassem por
aqueles lugares.
Ao receber a notícia do sucesso da viagem de Vasco da Gama à Índia, o Rei D. Manuel I
preparou uma segunda expedição para lá. Em março de 1500 a frota estava pronta para zarpar de
Lisboa. Compunha-se de treze naus e era liderada pelo Capitão-Mor Pedro Álvares Cabral, membro
da Ordem de Cristo.

Pedro Álvares Cabral

Era numerosa e imponente a armada de Cabral, estava bem municiada e bem providas de
mantimentos. A tripulação foi escolhida ente os marinheiros mais práticos e mais afeitos à vida do
mar. Tinham posto na expedição: Pero Vaz de Caminha, escrivão da armada, autor da “Carta” em
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que narra a descoberta do Brasil; Duarte Pacheco Pereira, que escreveu o “Esmeraldo de situ orbis”
no qual se refere a essa viagem; sete missionários franciscanos, tendo por superior Frei Henrique
de Coimbra, e um vigário para Calicute.
No dia 14, pela manhã, avistaram-se as Canárias. E, ao mesmo tempo, já se fizeram sentir
as grandes calmarias da costa africana. Cabral havia recebido minuciosas instruções sobre a sua
expedição, uma das quais D. Manuel pediu que a frota navegasse o máximo possível para o
Ocidente a fim de descobrir novas terras para Portugal. Assim foi feito.
Quanto mais Cabral navegava para o Ocidente mais se aproximava do Brasil. Foi à tarde de
22 de abril de 1500, quarta-feira, que foi visto um grande monte, alto e redondo, ao qual ficou
conhecido como Monte Pascoal, nome dado por Cabral, pois era oitava da Páscoa. Os portugueses
haviam descoberto o Brasil!
No dia 24 de abril, a frota de Cabral encontrou Porto Seguro na Bahia onde se aportou por
uma semana. Após o encontro amigável com os indígenas, Cabral decidiu que fosse celebrada a
primeira missa no domingo de Páscoa, dia 26, no ilhéu, hoje chamado Coroa Vermelha. O
celebrante foi o Frei Henrique de Coimbra que na homilia dedicou o descobrimento da nova terra
à Cruz de Cristo.

Primeira Missa em território brasileiro

Após a Santa Missa, foi feito um conselho entre os comandantes dos navios e se resolveu
que se mandaria um emissário ao Reino para comunicar ao rei a descoberta. Também foi decidido
que os índios não seriam levados a força para Portugal. Alguns homens ficaram responsáveis por
colher informações sobre a terra e aprender a língua dos nativos.
No dia 27 foi cortado um grande madeiro que serviu para a construção de uma cruz com os
símbolos da Coroa Portuguesa que assinalaria a posse da nova terra para rei. Junto à cruz, erigiu-
se um alta e, logo em seguida, iniciou-se a Santa Missa, dita pelo mesmo Frei Henrique. Os índios
prostraram-se de joelhos e imitaram em tudo o ritual dos cristãos.
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No dia 28 de abril, a frota de Cabral partiu para a Índia, que era o destino original, e um
navio foi mandado para Portugal.

Nomes do Brasil
Vera Cruz foi o nome dado a esta terra por Pedro Álvares Cabral, logo que a descobriu. Lê-
se na carta de Caminha: “Ao qual monte alto o capitão pôs o nome de monte Pascoal e à terra de
Terra de Vera Cruz”.
Esta denominação, porém, não perdurou; substituíram-na pela de Santa Cruz. Já em 1501
encontramos uma carta de Dom Manuel aos reis católicos o nome de Santa Cruz: “à qual pôs o
nome de Santa Cruz”, e mais parte, em 1505, em outra carta o mesmo monarca torna a repetir: “à
qual terra pôs o nome de Santa Cruz: e isto porque na terra arvorou uma cruz muito alta”.
Este nome teve sorte idêntica ao primeiro; não se vulgarizou e, em breve, desde 1504,
começaram a chamar Terra do Brasil ou simplesmente Brasil. A designação Brasil proveio de
existir em abundância nesta terra certa madeira que produzia uma tinta vermelha análoga à que
então a Europa importava, com igual nome, da Ásia. Todos os que negociavam com esta madeira
passaram a chamar-se brasileiros e, em breve, esta denominação estendeu-se a toda colônia.
A princípio, o Brasil também foi conhecido por Terra dos Papagaios, mas este nome, como
os procedentes, foi suplantado por Brasil.

A Carta de Pero Vaz de Caminha18


Pero Vaz de Caminha era escrivão da frota portuguesa, que em carta dirigida ao Rei D.
Manuel, datada em Porto Seguro da Ilha de Vera Cruz no dia 1º de maio de 1500, resumiu a viagem
e relatou com detalhes os dias que tinham estado no Brasil. A carta de Pero Vaz de Caminha é um
dos documentos mais importantes de nossa história.
Vamos destacar cinco pontos da carta de Caminha. São eles:
1. O descobrimento;
2. Primeiro contato com os indígenas;
3. A primeira missa rezada no Brasil;
4. Conselho dos capitães;
5. Impressão final.

18
A carta de Pero Vaz de Caminha pode ser lida integralmente no site:
[Link]
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O Descobrimento
A partida de Belém, como Vossa Alteza sabe, foi segunda-feira, 9 de março. Sábado, 14 do
dito mês, entre as oito e as nove horas, nos achamos entre as Canárias (ilha), mais perto da Grã-
Canária, onde andamos todo aquele dia em calma, à vista delas, obra de três a quatro léguas. E
domingo, 22 do dito mês, às dez horas, pouco mais ou menos, houvemos vista das Ilhas de Cabo
Verde, ou melhor, da Ilha de São Nicolau, segundo o dito de Pero Escolar, piloto.
Na noite seguinte, segunda-feira, ao amanhecer, se perdeu da frota Vasco de Ataíde com a
sua nau (tipo de embarcação), sem haver tempo forte nem contrário, para que tal acontecesse. Fez
o Capitão (Pedro Álvares Cabral) suas diligências para o achar, a uma e outra parte, mas não
apareceu mais!
E assim seguimos nosso caminho, por este mar, de longo, até que, terça-feira das Oitavas de
Páscoa, que foram vinte e um dias de abril, estando dita a ilha obra de 660 ou 670 léguas, segundo
os pilotos diziam, topamos alguns sinais de terra, os quais eram muita quantidade de ervas
compridas, a que mareantes chamam “botelho” (espécie de alga), assim como outras a que dão o
nome de rabo-de-asno (outra espécie aquática). E, quarta-feira seguinte, pela manhã topamos aves
a que chamam fura-buxos (ave marinha).
Neste dia, a hora das vésperas (entre 15 horas e o pôr do sol), houvemos viste de terra!
Primeiramente de um grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele;
e de terra chã (plana, lisa) com grandes arvoredos: ao monte alto o Capitão pôs o nome de Monte
Pascal e à terra de Terra da Vera Cruz.

Primeiro contato com os indígenas


A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes,
bem-feitos. Andam sem nenhuma cobertura. Ambos traziam os beiços de baixo furados e metidos
neles seus ossos brancos e verdadeiros, de comprimento duma mão travessa, da grossura dum fuso
de algodão, agudos na ponta como um furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço; e a parte
que lhes fica entre o beiço e os dentes é feita como roque de xadrez, ali encaixado de tal sorte que
não os molesta, nem os estorva no falar, no comer ou no beber.
Os cabelos seus são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta, mais que de
sobrepente, de boa grandura e rapados até por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da
solapa, de fonte a fonte para detrás, uma espécie de cabeleira de penas de ave amarelas, que seria
do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as orelhas. E
andava pegada aos cabelos, pena e pena, com uma confeição branda como cera (mas não o era), de
maneira que a cabeleira ficava mui redonda e mui basta, e mui igual, e não fazia míngua mais
lavagem para a levantar.
O Capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, bem vestido, com um colar
de ouro mui grande ao pescoço, e aos pés uma alcatifa por estrado. Sancho de Tovar, Simão de
Miranda, Nicolau Coelho, Aires Correia, e nós outros que aqui na nau com ele vamos, sentados no
chão, pela alcatifa. Acenderam-se tochas. Entraram. Mas não fizeram sinal de cortesia, nem de falar
ao Capitão nem a ninguém. Porém um deles pôs olho no colar do Capitão, e começou de acenar
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com a mão para a terra e depois para o colar, como que nos dizendo que ali havia ouro. Também
olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal
como se lá também houvesse prata.
Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e
acenaram para a terra, como quem diz que os havia ali. Mostraram-lhes um carneiro: não fizeram
caso. Mostraram-lhes uma galinha, quase tiveram medo dela: não lhe queriam pôr a mão; e depois
a tomaram como que espantados.
Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel e figos passados. Não
quiseram comer quase nada daquilo; e, se alguma coisa provaram, logo a lançaram fora.
Trouxeram-lhes vinho numa taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram nada, nem
quiseram mais. Trouxeram-lhes a água em uma albarrada. Não beberam. Mal a tomaram na boca,
que lavaram, e logo a lançaram fora.
Viu um deles umas contas de rosário, brancas; acenou que lhas dessem, folgou muito com
elas, e lançou-as ao pescoço. Depois tirou-as e enrolou-as no braço e acenava para a terra e de novo
para as contas e para o colar do Capitão, como dizendo que dariam ouro por aquilo.
Isto tomávamos nós por assim o desejarmos. Mas se ele queria dizer que levaria as contas e mais o
colar, isto não o queríamos nós entender, porque não lho havíamos de dar. E depois tornou as contas
a quem lhas dera.
Então estiraram-se de costas na alcatifa, a dormir. O Capitão lhes mandou pôr por baixo das
cabeças seus coxins; e o da cabeleira esforçava-se por não a quebrar. E lançaram-lhes um manto
por cima; e eles consentiram, quedaram-se e dormiram.

A primeira missa rezada no Brasil


Ao domingo de Pascoela pela manhã, determinou o Capitão ir ouvir missa e sermão naquele
ilhéu. E mandou a todos os capitães que se arranjassem nos batéis e fossem com ele. E assim foi
feito. Mandou armar um pavilhão naquele ilhéu, e dentro levantar um altar mui bem arranjado. E
ali com todos nós outros fez dizer missa, a qual disse o padre frei Henrique, em voz entoada, e
oficiada com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes que todos assistiram, a qual missa,
segundo meu parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devoção.
Ali estava com o Capitão a bandeira de Cristo, com que saíra de Belém, a qual esteve sempre
bem alta, da parte do Evangelho.
Acabada a missa, desvestiu-se o padre e subiu a uma cadeira alta; e nós todos lançados por
essa areia. E pregou uma solene e proveitosa pregação, da história evangélica; e no fim tratou da
nossa vida, e do achamento desta terra, referindo-se à Cruz, sob cuja obediência viemos, que veio
muito a propósito, e fez muita devoção.
Enquanto assistimos à missa e ao sermão, estaria na praia outra tanta gente, pouco mais ou
menos, como a de ontem, com seus arcos e setas, e andava folgando. E olhando-nos, sentaram. E
depois de acabada a missa, quando nós sentados atendíamos a pregação, levantaram-se muitos deles
e tangeram corno ou buzina e começaram a saltar e dançar um pedaço.
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Conselho dos capitães


E tanto que comemos, vieram logo todos os capitães a esta nau, por ordem do Capitão-mor,
com os quais ele se apartou, e eu na companhia. E perguntou a todos se nos parecia bem mandar a
nova do achamento desta terra a Vossa Alteza pelo navio dos mantimentos, para a melhor a mandar
descobrir e saber dela mais do que nós agora podíamos saber, por irmos de nossa viagem.
E entre muitas falas que no caso se fizeram, foi por todos ou a maior parte dito que seria
muito bem. E nisto concluíram. E tanto que a conclusão foi tomada, perguntou mais se lhes parecia
bem tomar aqui por força um par destes homens para os mandar a Vossa Alteza, deixando aqui por
eles outros dois destes degredados.
Sobre isto acordaram que não era necessário tomar por força homens, porque era geral
costume dos que assim levavam por força para alguma parte dizerem que há ali de tudo quanto lhes
perguntam; e que melhor e muito melhor informação da terra dariam dois homens destes
degredados que aqui deixassem, do que eles dariam se os levassem, por ser gente que ninguém
entende. Nem eles tão cedo aprenderiam a falar para o saberem tão bem dizer que muito melhor
estoutros o não digam, quando Vossa Alteza cá mandar.
E que, portanto, não cuidassem de aqui tomar ninguém por força nem de fazer escândalo,
para de todo mais os amansar e apacificar, senão somente deixar aqui os dois degredados, quando
daqui partíssemos.
E assim, por melhor a todos parecer, ficou determinado.

Impressão final de Pero Vaz de Caminha


Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o sul vimos, até à outra ponta
que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem
vinte ou vinte e cinco léguas de costa. Traz ao longo do mar em algumas partes grandes barreiras,
umas vermelhas, e outras brancas; e a terra de cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos.
De ponta a ponta é toda praia... muito chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista do mar,
muito grande; porque a estender olhos, não podíamos ver senão terra e arvoredos -- terra que nos
parecia muito extensa.
Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro;
nem lha vimos. Contudo a terra em si é de muito bons ares frescos e temperados como os de Entre-
Douro-e-Minho, porque neste tempo d'agora assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas;
infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das
águas que tem!
Contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente.
E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar. E que não houvesse
mais do que ter Vossa Alteza aqui esta pousada para essa navegação de Calicute bastava.
Quanto mais, disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber,
acrescentamento da nossa fé!
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E desta maneira dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta Vossa terra vi. E se a um pouco
alonguei, Ela me perdoe. Porque o desejo que tinha de Vos tudo dizer, mo fez pôr assim pelo
miúdo.
E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa
que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por
me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro -- o que
d'Ela receberei em muita mercê.
Beijo as mãos de Vossa Alteza.
Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500.

O Indígena Brasileiro
Quando aqui aportaram os europeus, encontraram o nosso território ocupado por diferentes
tribos indígenas, em todas a extensão litorânea então conhecida.
A explicação mais plausível da origem dos índios no Brasil é de correntes migratórias de
origem asiática, malaio-polinésia e australiana. No caso do Brasil, as semelhanças que se observam
no tipo do nosso índio com o tipo mongoloide levam a admitir-se que tivesse a componente asiática
influído bastante na sua formação. Por outro lado, a raça de Lagoa Santa apresenta evidentes
afinidades com a raça de crânio alto e alongado dominante na Melanésia e na Austrália.
Com a colonização portuguesa e quase imediata introdução de escravos negros de origem
africana, tornou-se o Brasil vasto campo de fusão de raças. Brancos, negros, e índios aqui se
mesclam e produzem em seus cruzamentos vários tipos étnicos, dada a variedade e desproporção
dos contingentes de cada um dos três elementos principais formadores do nosso povo.
Foi apreciável a parte que coube ao fator indígena em nossa história, desde o primeiro
século; e ainda em nossos dias é patente a sua influência na própria língua nacional e de modo
particularmente notável nos topônimos brasileiros.
As primeiras tentativas de classificação dos índios do Brasil careciam de base científica.
Para os exploradores do tempo da conquista as tribos constituíam dois grandes grupos: Tupis e
Tapuias. O primeiro grupo abrangia as várias tribos que falavam a língua geral ou brasílica:
Potiguaras, Tabajaras, Caetés, Tupinambás, Tupiniquins, Tupinaens, Temiminós, Tamoios, Carijós
e Tapes, do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul. O segundo grupo incluía tribos que viviam
no interior, nos sertões e não no litoral como os Tupis, e falavam línguas diferentes, “línguas
travadas”. Eram os Tapuias, tidos como inferiores aos Tupis, pois revelavam maior crueldade. As
informações, porém, dos escritores do século XVI ao XVIII eram incompletas, ou confusas, e só
no século XX se iniciou um trabalho metódico de classificação das tribos indígenas brasileiras.
➢ Os grupos principais apurados são os seguintes:
➢ Tupi-guarani.
➢ Guaicurus.
➢ Maipures ou Nu-Aruaks.
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144

➢ Cariris.
➢ Gés.
➢ Caraíbas.
➢ Panos.
➢ Betoias.
A esses grupos é mister acrescentar, entre outras tribos até bem pouco ainda não
classificadas conveniente, os Bororós e os Nambiquáras.

Tupis
Os Tupis eram belicosos. Praticavam a agricultura, a caça e a pesca e sabiam navegar.
Ficaram divididos em dois grupos: Puros e impuros.
Entre os tupis puros são curiosos os omáguas, que habitavam as grandes ilhas do Maranhão,
famosos pela sua habilidade em navegar, pela sua prática estranha de comprimir a cabeça dos
recém-nascidos, deixando suas cabeças achatadas.
Entre os tupis impuros são notáveis os mundurucus, do médio e
baixo Tapajós. Apesar da impureza de língua, possuem elementos culturais
próprios do grupo tupi, entre eles o troféu de cabeça. A arte plumária é
bem desenvolvida e notável a sua organização social e guerreira.

Aruaques
É de todos os grandes grupos o mais disseminado e o de maior
variedade linguística. Os Uruaques conheciam a rede, praticavam a
agricultura, sendo exímios na cerâmica. Não eram antropófagos.

Gés
Com o nome derivado da palavra “pai” e “chefe”. Tem a cultura mais atrasada entre os
nossos selvícolas. No estado puramente selvagem não plantam, não tem cerâmica, dormem no
chão, não sabem navegar, a não ser em balsas ou jangadas. Usam botoques de madeira introduzidos
em perfurações nos lobos da orelha e no lábio inferior. Usam arco e flecha de ponta de madeira
unilateralmente dentada.

Caraíbas
Belicosos, antropófagos, foram adversários terríveis dos aruaques. Foram os únicos
indígenas que souberam usar velas em suas embarcações.
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Tal a fama da sua ferocidade para com o inimigo, universalmente temida, que o termo
canibal, que a princípio os designava, passou a sinônimo de antropófago.
É curioso que, ao tomarem aos aruaques as Antilhas, exterminaram todos os homens; só
foram poupadas as mulheres. Daí a natural surpresa dos espanhóis, ao verificarem que os homens
falavam uma língua e as mulheres outra.

Distribuição geográfica das tribos


Os Tupis-Guaranis estendiam-se por todo o litoral, desde o Rio Grande do Norte ao Rio
Grande do Sul. Falavam línguas aparentadas, cujo conjunto se convencionou chamar Abaneenga,
ou Tupi antigo.

O Padre José de Anchieta foi quem compôs a primeira gramática e os primeiros versos sacros
em tupi.

Estado de civilização do indígena brasileiro


Na época do descobrimento eram sem dúvida os Tupis o elemento mais notável e menos
rude no meio das outras tribos mais bárbaras e antropofágicas. Contudo, ainda desconheciam o uso
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dos metais, andavam quase nus, alimentavam-se de caça e principalmente de pesca, e praticavam
uma agricultura incipiente que lhes fornecei a mandioca, milho, cará e frutas diversas.
Desconheciam também a domesticação dos animais para deles tirar leite, ou matéria-prima
para as vestimentas, nem meio mais fácil para transporte. Obtinham o fogo com o atrito de dois
paus e fabricavam as armas, instrumentos e utensílios de uso doméstico empregando a pedra, a
argila, ou resinas, ossos, vime, cipó, taquara e fibras vegetais. Revelaram grande habilidade neste
quesito.
Cabia em geral às mulheres a economia doméstica e aos homens a caça, a pesca e os
trabalhos mais pesados. Cada tribo constituía uma aldeia, composta de uma ou diversas tabas
(moradias). Não se fixavam por muito tempo no mesmo local: a escassez da pesca ou da caça, ou
as rixas frequentes obrigavam as mudanças. Contudo, era fácil construir novas tabas. Uma taba
podia abrigar até cem famílias. Os chefes destas famílias estavam sujeitos ao mais importante deles
da taba que habitavam. A autoridade era mais nominal do que real: nos casos graves o principal
consultava os cabeças das famílias, que formavam assim uma espécie de conselho. Este funcionava
também às vezes como tribunal, punindo com a morte ou com a pena de expulsão.

Organização da família
Embora não tivesse caráter de cerimônia religiosa, o casamento era sujeito a certas normas
obrigatórias. A poligamia e o divórcio eram frequentes, mas a primeira mulher, a mais antiga
companheira do chefe de família gozava de certa primazia em relação às outras.
Havia impedimento matrimoniais pela consanguinidade próxima: mãe, irmã e filha. A viúva
pertencia de direito ao irmão do falecido. Os filhos seguiam a condição paterna, ainda que fosse
diversa a materna: assim eram livres os filhos de escravas, se livre era o pai. Cabia à mães a criação
dos filhos, sendo curioso o costume de, logo após o nascimento, ir lavar o filho no rio, enquanto o
marido ficava na rede alguns dias, em uma espécie de resguardo.

A guerra, as armas e os prisioneiros


Os índios eram extremamente belicosos e as lutas eram quase contínuas. Os meninos desde
cedo se preparavam para o seu futuro papel de guerreiros, ensinando-lhes os pais o manejo das
armas e as virtudes necessárias ao combate: impassibilidade diante da dor, audácia e ufania pelas
proezas realizadas.
Tinham como principais armas o arco e as flechas, a clava (tacape) e as lanças (murucús).
A guerra era feita quase sempre de surpresa, na maior confusão e alvoroço. Se a taba era bem
defendida, recorriam os assaltantes ao incêndio, com bola de algodão acesas, lançadas com as
flechas contra a palha das ocas ou ranchos que formavam a taba.
No furor da luta nada poupavam. À vitória seguia-se o saque, cabendo a cada qual o que
apanhasse. Os vencidos eram prisioneiros destinados ao sacrifício ou matança. A índia aprisionada
agregava-se à tribo vencedora. A matança dos prisioneiros, em certas tribos, era um festim
celebrado com ritos religiosos. A antropofagia não despertava repugnância e, segundo Capistrano
de Abreu, “algumas tribos comiam os inimigos, outras os parentes e amigos”.
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Crenças religiosas: lendas e tradições


Os índios tinham em geral uma ideia vaga de um poder supremo, ser misterioso,
desconhecido, manifestado pelo sol, ou pelo raio, relâmpago e trovão. Tupã era a designação vaga
desse ente superior, a quem aliás nem erguiam templos, nem cultuavam com ritos formais.
Lendas e tradições curiosas são a do Sumé, homem misterioso, que lhes ensinara o uso de
várias coisas úteis, quais o fogo, a agricultura, a virtude salutífera de certas plantas, o uso da própria
mandioca. Já quiseram ver neste Sumé o apóstolo São Tomé que teria sido trazido, por força divina,
para América na época da expansão do cristianismo.

Terra de Santa Cruz: 1500-1530


Muito se tem dito que nessas três décadas a Coroa Portuguesa não se interessou pelas terras
descobertas por Cabral. Porém existem provas documentais que comprovam uma intensa
circulação de portugueses nesse período, seja por expedições oficiais, seja por particulares.
O primeiro objetivo das expedições, para atender ao pedido de Pero Vaz de Caminha, era a
evangelização dos indígenas. Ao mesmo tempo, buscavam conhecer e proteger a costa brasileira e
extrair o pau-brasil (árvore nativa brasileira de cor avermelhada e, por isso, brasil/brasa), isto
através do escambo19 (comércio de troca de produtos) com os indígenas. Diversas feitorias foram
construídas ao longo da costa brasileira.

Tora do pau-brasil

Veremos agora alguns exemplos de expedições vindas à Terra de Santa Cruz (Brasil) nessas
três primeiras décadas.

19
Escambo é um tipo de comércio de troca, isto é, não envolve moeda. Os portugueses forneciam itens de interesse aos indígenas,
que, em troca, levavam aos portugueses as toras do pau-brasil. Ressalta-se que a madeira era encontrada com facilidade pelos
índios nas florestas brasileiras. Os nativos conheciam bem as matas e extraíam a madeira para trocar com todo tipo de utensílios
com os estrangeiros. Muito se diz que havia injustiça nessa relação comercial. Todavia, todos saíam ganhando, pois a madeira
não era propriamente dos índios e podia ser encontrada em abundância, não tendo valor para eles, enquanto a mesma coisa se
verificava com os portugueses, que trocavam diversas coisas, como machados, enxadas, espadas, espelhos, entre outras coisas
que não eram de grande valor para eles, pelo pau-brasil, madeira muito valiosa na Europa.
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Expedição de 1501
Como tinha sido combinado entre os
capitães da frota descobridora de Cabral, seriam
realizadas novas expedições que pudessem
conhecer melhor a nova terra. Por isso, D. Manuel,
rei de Portugal, enviou três caravelas para essa
missão em 1501.
Não se sabe ao certo quem foi o capitão
desta expedição, mas a hipótese mais aceita é que
o comando foi de Gaspar de Lemos, o mesmo
capitão que Cabral ordenou que voltasse para
Portugal para levar a notícia da descoberta.
Dessa expedição participou o italiano
Américo Vespúcio, de quem resultaram muitas
informações da expedição realizada.
A expedição partiu de Lisboa em 1501. De
acordo com o depoimento de Vespúcio, a viagem
ao Brasil demorou 67 dias, dos quais 44 foram
entre tempestades. Chegando ao Rio Grande do
Norte, iniciou-se o reconhecimento do litoral,
motivo pelo qual essa expedição havia saído de
Portugal. Américo Vespúcio

Conforme novos locais iam sendo avistados, o capitão dava o nome para os pontos litorâneos
mais importantes de acordo com os Santos de cada dia dos descobrimentos e as festividades
litúrgicas, ficando assim:

• No dia 16 de agosto de 1501 chegaram a um local a que deram o nome de Cabo de São
Roque.
• No dia 28 de agosto chegaram a um local a que deram o nome de Cabo de Santo Agostinho.
• No dia 29 de setembro encontraram um rio a que deram o nome de São Miguel.
• No dia 4 de outubro encontraram outro rio, a que deram o nome de São Francisco.
• No dia 1º de novembro deram nome ao local encontrado de Baía de Todos os Santos.
• No dia 1º de janeiro de 1502 deram o nome ao rio encontrado de Rio de Janeiro.
• No dia 6 do mesmo mês encontraram Angra dos Reis, nome dado por causa da data litúrgica
da Epifania.
• No dia 20 do mesmo mês acharam uma ilha a que deram o nome de São Sebastião.
• No dia 22 batizaram o local encontrado de Porto de São Vicente.
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Essa expedição chegou até o Rio da Prata, localizado no sul da América. De acordo com um
relato de Valentim Fernandes, de 1503, a frota de reconhecimento, “tendo seguido o litoral daquela
terra por quase 760 léguas, encontrou nos povos uma só língua, batizou a muitos e, avançando para
o sul, chegou até a altura do polo antártico, a 53 graus, e tendo encontrado grandes frios no mar,
voltou para pátria” ainda no mesmo ano de 1502.
Ressaltamos a importância desta expedição de reconhecimento, pois nela se pôde navegar
por quase todo o litoral brasileiro, batizando os índios e dando nomes católicos aos locais
encontrados, os quais ainda levam o mesmo nome.

Expedição 1503
Em 1503 foi realizada uma nova expedição em que também esteve presente Américo
Vespúcio, que deu o nome ao nosso continente. Foram enviados seis navios que, depois de dois
meses, descobriram uma ilha que é a atual Fernando de Noronha (nome dado em homenagem ao
financiador da expedição, Fernão de Noronha). Contudo, a embarcação do capitão se perdeu do
resto da frota. Dois navios comandados por Américo Vespúcio foram até a Baía de Todos os Santos,
onde carregaram o pau-brasil e fundaram uma feitoria fortificada, deixando uma guarnição de 24
homens.
Em 1504, a frota regressou a Portugal. Como consequência dessa expedição, o rei D. Manuel
doou a Fernão de Noronha a Ilha de São João, que havia sido descoberta a cinquenta léguas na
Terra de Santa Cruz. Foi esta a primeira Capitania Hereditária do Brasil, que estudaremos no
próximo volume.

Outras expedições
Muitas outras expedições oficiais e extraoficiais se dirigiram ao Brasil nas três primeiras
décadas do descobrimento, estabelecendo feitorias e iniciando o povoamento da imensa costa
brasileira. Algumas expedições de particulares vinham para cá para o comércio do pau-brasil,
levando, contudo, alguns índios como escravos. A escravidão no Brasil é uma mancha moral que
nada pode apagar. Trataremos a questão da escravidão nos próximos volumes.
Além dos portugueses, os franceses fizeram muitas viagens ao Brasil nesse período. Esse
fato gerou conflitos diplomáticos e militares. Os espanhóis também realizaram várias expedições
destinadas à América no mesmo período. Porém navegaram na costa norte da América do Sul, onde
hoje se localizam a Venezuela e o Amazonas. Com o tempo, os espanhóis se dirigiram para o sul
do continente, para as regiões atuais do Uruguai e da Argentina.

A expedição de Martim Afonso de Sousa


Em 1530, o rei D. João III enviou ao Brasil uma expedição povoadora comandada por
Martim Afonso de Sousa. Martim possuía plenos poderes para exercer a ordem e a justiça, sendo-
lhe conferido o título de Capitão-Mor. Coube-lhe tomar as seguintes medidas:
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a) combater os franceses que vinham ao Brasil em busca do pau-brasil.


b) explorar o litoral brasileiro (reconhecimento e organização).
c) fundar a primeira vila do Brasil, São Vicente (1532).
d) Em São Vicente foram construídas as primeiras casas, uma capela e o primeiro engenho para
produzir açúcar.

Martim de Afonso de Sousa

A expedição de Martim Afonso de Sousa navegou por quase todo o litoral brasileiro (de
Pernambuco até o Rio da Prata). Depois de ir para o sul do território, Martim resolveu ancorar sua
frota por tempo indeterminado no litoral que hoje pertence ao estado de São Paulo. São Vicente já
era um dos pontos mais conhecidos do litoral. Aí já havia alguns portugueses em bom
relacionamento com os indígenas, o que facilitou a presença da expedição, de tal modo que foi
possível a fundação de duas vilas: São Vicente e Piratininga. As vilas foram habitadas por soldados,
colonos e exilados vindos nos navios da expedição. Martim nomeou as autoridades, municipais e
judiciárias, e providenciou tudo o que era necessário para vida espiritual (padres, capelas, etc.).
Pero Lopes de Sousa, irmão de Martim, registrou esse momento no Diário de Navegação:
“A todos nos pareceu tão bem esta terra, que o Capitão irmão determinou de a povoar, e deu
a todos os homens terras para fazerem fazendas; e fez uma vila na Ilha de São Vicente e outra nove
léguas dentro pelo sertão, à borda de um rio que se chama Piratininga; e repartiu a gente nestas
duas vilas e fez nelas oficiais; e pôs tudo em boa obra de justiça, de que a gente tomou muita
consolação, com verem povoar vilas e ter leis e sacrifícios, e celebrar matrimônios, e viverem em
comunicação das artes; e ser cada um senhor do seu; e vestir as injúrias particulares; e ter todos os
outros bens da vida segura e conservável”.
Nessa citação vemos que Martim concedeu aos seus companheiros fazendas, que eram
chamadas sesmarias. Essas terras eram recebidas gratuitamente, mas os que as recebiam deviam
cultivá-las e estabelecer a ordem e a paz. Martim também cuidou de proteger a costa brasileira,
fundando o Forte de São Vicente e o Forte da Barra de Bertioga.
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Em 1533, Martim Afonso de Sousa resolveu voltar para Portugal, deixando o comando ao
Padre Gonçalo Monteiro e nomeando João Ramalho para o cargo de Capitão-Mor.
Grande parte do sucesso da expedição de Martim se deveu à sua habilidade e à ajuda que
recebeu de dois portugueses que já viviam entre os indígenas, conseguindo a pacificação entre os
dois tão distintos povos: João Ramalho e Diogo Álvares (Caramuru).
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Atividades
1) Quem reinava em Portugal no ano de 1500?
2) Em que ano se descobriu o caminho das Índias?
3) Quando partiu a expedição de Cabral? De quantas naus era composta a sua esquadra?
4) Quem eram os escrivães da armada? Quantos missionários foram juntos na expedição?
5) Quais instruções Cabral recebeu de Dom Manuel na ocasião da expedição?
6) Em que dia Cabral avistou o monte Pascoal e por que lhe deu este nome? O que marcou este dia?
7) Em que dia e por quem se celebrou a primeira Missa?
8) Quando a esquadra de Cabral zarpou para as Índias?
9) Quais foram os nomes que o Brasil recebeu?
10) Copie um trecho da Carta de Pero Vaz de Caminha que mais lhe chamou atenção.
11) Qual é explicação mais plausível da origem dos índios brasileiros?
12) Quais são os principais grupos indígenas do Brasil?
13) Onde se localizavam os Tupis-guaranis?
14) Quem compôs a primeira gramática em tupi?
15) Em que estado civilizacional se encontravam os Tupis?
16) Como eram organizadas as famílias dos indígenas?
17) Qual valor os indígenas davam à guerra?
18) Quais foram os objetivos das primeiras expedições feitas ao Brasil?
19) O que é o Escambo?
20) Qual era o critério para dar o nome aos pontos litorâneos encontrados no Brasil? Cite alguns
exemplos.
21) Qual foi a importância da expedição de 1501?
22) Quais medidas foram tomadas por Martim Afonso de Sousa?
23) O que eram as Sesmarias?
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153

Capítulo

12
P
ARA continuar povoamento, a Coroa dividiu o território brasileiro em 15 faixas de terra,
as Capitanias Hereditárias, que foram entregues aos capitães donatários. O historiador
Hélio Vianna afirma que o maior motivo dessa divisão era: “O desejo de propagação da fé
católica em terras habitadas por indígenas, aliado à necessidade do povoamento e defesa das
referidas regiões ultramarinas”.
O próprio rei D. João III havia deixado
claro esses objetivos em uma carta escrita a
Martim Afonso de Sousa.
Ressalte-se que Portugal era um país
pequeno e pobre, que já havia realizado a grande
missão de navegar e construir feitorias nos
territórios da África e da Ásia. O processo de
povoamento da América estava acima dos
recursos da Coroa Portuguesa, sendo, por isso,
necessário recorrer aos recursos de particulares.
Por isso, o rei D. João III resolveu criar as
Capitanias Hereditárias. Os Capitães donatários
recebiam as capitanias através de uma Carta de
Doação, na qual estavam determinadas suas
atribuições, funções e deveres. Ao receber essas
grandes extensões de terra, os capitães donatários
deviam assegurar:

Litoral brasileiro com as Capitanias Hereditárias. 1574

1. a propagação a fé;
2. a defesa do território;
3. a administração a justiça;
4. a distribuição de sesmarias (grandes fazendas);
5. a fundação de vilas.
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D. João III criou 14 capitanias divididas em 15 lotes distribuídos a doze Donatários. Situadas ao
longo do litoral do Maranhão a Santa Catarina, dele se estendiam até a linha determinada pelo Tratado de
Tordesilhas. Assim ficou a distribuição:

1. Primeira Capitania do Maranhão, dada ao navegador Aires da Cunha.


2. Segunda Capitania do Maranhão, dada a Fernando Álvares de Andrade, tesoureiro-mor do Reino
de Portugal.
3. Capitania do Ceará, dada ao Cavaleiro-Fidalgo Antônio Cardoso de Barros.
4. Capitania do Rio Grande, dada a João de Barros.
5. Capitania do Itamaracá, dada ao navegador Pero Lopes de Sousa.
6. Capitania do Pernambuco, dada a Duarte Coelho, soldado da Ásia e navegador.
7. Capitania do Bahia de Todos os Santos, dada a Francisco Pereira Coutinho, soldado da Índia.
8. Capitania de Ilhéus, dada a Jorge de Figueiredo Correia, Escrivão da Fazenda.
9. Capitania do Porto Seguro, dada a Pero do Campo Tourinho, rico proprietário e navegador.
10. Capitania do Espírito Santo, dada a Vasco Fernandes Coutinho.
11. Capitania de São Tomé, dada a Pero Góis.
12. Capitania de São Vicente, dividida em dois lotes dados a Martim Afonso de Sousa.
13. Capitania de Santo Amaro, dada a Pero Lopes de Sousa.
14. Capitania de Santana, dada a Pero Lopes de Sousa.
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155

Algumas capitanias não tiveram sucesso, e nem sequer um começo de povoamento.


Contudo, a maioria recebeu esforços de seus donatários, fundando-se povoações e iniciando-se
plantações que, mesmo quando precárias, eficazmente contribuíram para impedir o
estabelecimento de estrangeiros em zonas anteriormente abandonadas. As duas capitanias que mais
prosperaram foram a de Pernambuco e a de São Vicente.
Mesmo com algumas falhas, as capitanias trouxeram inúmeros benefícios, os quais valem
ressaltar:
1. o incentivo ao povoamento;
2. o progresso religioso, com a vinda de religiosos e padres e a construção de igrejas;
3. a defesa do território contra os estrangeiros (franceses, holandeses e ingleses);
4. a elaboração de um sistema administrativo;
5. o desenvolvimento econômico, com a extração do pau-brasil e o cultivo da cana-de-açúcar.
“Eficientemente contribuindo para a defesa do território, hoje brasileiro, exatamente quando ele mais se
achava ameaçado de fragmentação, inteligentemente povoando-o com sesmeiros que constituiriam a base
de nossa população agropecuária; proporcionando ao futuro país a riqueza econômica da indústria
açucareira – o regime das Capitanias hereditárias não deve ser julgado sob o ponto de vista de suas falhas,
mas pelos benefícios que sem dúvida facultou ao Brasil, nos dois séculos e meio em que foi vigente entre
nós, até sua total extinção, devida ao Ministro Marquês de Pombal”. (HÉLIO VIANNA)
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Governo-Geral
O Governo-geral foi criado em 1548 pelo rei D. João III. Ele mesmo expressou os motivos
dessa nova forma administrativa:

“Vendo eu quanto serviço de Deus e meu é conservar e enobrecer as Capitanias e povoações das terras do
Brasil e dar ordem e maneira com que melhor e mais seguramente se possam ir povoando para exalamento
da nossa santa fé e proveito de meus Reinos e senhorios, ordenei ora de mandar nas ditas terras fazer uma
fortaleza e povoação grande e forte em um lugar conveniente, para daí se dar favor e ajuda às outras
povoações e se ministrar a Justiça e prover nas coisas que cumprirem a meu serviço e aos negócios de
minha Fazenda e bem das partes”.

Como se vê, não se tratava de uma substituição das Capitanias, mas da criação de um centro
de unidade para lhes dar favor e ajuda. Foram criados os cargos:
1. Governador-Geral, responsável pelo governo de todo território brasileiro;
2. Ouvidor-Geral, responsável pela aplicação da justiça;
3. Provedor-Mor, responsável pelo setor financeiro;
4. Capitão-Mor, responsável pelas Forças Armadas.

O primeiro Governador-Geral do Brasil foi Tomé de Sousa, que fundou, como exigido pelo
rei, uma povoação e um forte na região da Bahia de Todos os Santos, recebendo ajuda valiosa dos
Tupinambás. Esta povoação se chamou São Salvador e se tornou a primeira capital do Brasil.
O governo de Tomé de Souza foi notável em todos os sentidos e principalmente na energia que
empregou na administração pública. Além disso, Tomé de Souza se emprenhou muito na inspeção
das capitanias sob sua jurisdição; acompanhado pelo Pe. Manoel de Nóbrega, visitou Ilhéus, Rio
de Janeiro, Angra dos Reis, regularizou a administração da justiça e ordenou que se estabelecesse
fortificações. Em São Vicente, aprovou a fundação da cidade de Santos, e determinou a criação das
vilas de Conceição de Itanhaém e de Santo André.

São Salvador - BA, primeira capital do Brasil


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Foi ainda no seu governo, no dia 22 de junho de 1552, que chegou ao Brasil Dom Pedro
Fernandes Sardinha, 1º bispo da Terra de Santa Cruz. Dom Sardinha foi assassinado pelos Caetés
um tempo depois. O Brasil já contava com 30 mil pessoas.

Governadores-gerais
Cabia aos governadores defender a costa brasileira, combater os indígenas rebeldes,
promover a construção de vilas, fortes e engenhos, conceder sesmarias e promover o povoamento
do território.
Ao mesmo tempo, cuidaram os governadores de sempre virem acompanhados por muitos
missionários, especialmente jesuítas, para evangelizar e educar os indígenas. Entre eles se destacam
Manuel de Nóbrega e Padre José de Anchieta.
Pe. José de Anchieta, o apóstolo do Novo Mundo, a quem se deve ter chamado à civilização
e à fé milhares de homens embrutecidos pela selvageria, e ter promovido paz entre eles e os colonos,
com riscos de vida e com grandes, constantes e penosos trabalhos.
Os Jesuítas fundaram em 1554 uma igreja e um colégio (organizado pelo Pe. José de
Anchieta), que receberam o nome de São Paulo, porque foi no dia 25 de janeiro que se inauguraram.
Naturalmente, em redor da residência dos padres, começaram a construir casas e, em pouco tempo,
a aldeia de São Paulo que cresceu rapidamente. E foi essa vila que, com o correr do tempo,
transformou-se em riquíssimo centro de atividade civilizadora, até chegar a ser uma grande cidade,
essa imponente, bela, vasta e soberba metrópole, que é hoje a capital do estado mais rico do Brasil.

Lista dos Governadores-gerais do Brasil


1. Tomé de Sousa (1549-1553): junto com Tomé de Sousa
vieram para o Brasil muitos funcionários (cerca de mil
pessoas) de Portugal para cuidar da administração, da defesa
e da construção do Brasil. Nessa expedição vieram os seis
primeiros jesuítas chefiados por Manuel de Nóbrega. Esses
missionários prestaram um valioso serviço à catequese e à
conversão dos índios. Tomé de Sousa iniciou o processo de
povoamento, concedendo sesmarias, construindo o forte em
São Salvador (capital) e providenciando a vinda do gado da
Ilha do Cabo Verde. Ainda em seu governo, veio o primeiro
Bispo do Brasil: Dom Pedro Fernandes Sardinha, morto
pelos índios caetés. Tomé de Souza

2. Duarte da Costa (1553-1557): Duarte foi sucessor de Tomé


de Sousa. O novo governador prestou grandes serviços ao Brasil e combateu os indígenas
rebeldes. Foi durante o governo de Duarte que os franceses calvinistas (protestantes seguidores
de João Calvino) invadiram a baía do Rio de Janeiro e construíram um forte com a intenção de
fundar uma cidade chamada França Antártica.
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3. Mem de Sá (1557-1572): este governador teve de enfrentar duros ataques, dos quais saiu
vitorioso, por parte dos indígenas que formaram a Confederação dos Tamoios, cuja finalidade
era destruir as vilas portuguesas. Além disso, foi responsável por expulsar os franceses que
tinham se estabelecido no Rio de Janeiro. Depois da expulsão, Mem de Sá fundou a cidade de
São Sebastião do Rio de Janeiro em homenagem ao rei de Portugal Dom Sebastião.
4. Luiz de Vasconcelos (1572): este governador pereceu na viagem para o Brasil, sendo enforcado
por piratas franceses junto com 70 jesuítas, dos quais foram 40 canonizados.

Divisão do Brasil em dois governos (1573-1577): Dom Sebastião dividiu o governo


do Brasil em duas partes em 1573 com o objetivo de melhor administração do território.
A parte do norte, com a capital em São Salvador, ficou com Luiz de Brito e a parte do
sul, com a capital no Rio de Janeiro, com Antônio Salema. Contudo, o próprio D.
Sebastião percebeu a inconveniência da divisão e decidiu unificar o território
novamente.

5. Lourenço de Veiga (1578-1581): grandes acontecimentos em Portugal marcaram o governo de


Lourenço. Porém não trataremos neste momento desses acontecimentos.
6. Manoel Teles Barreto (1583-1587).
7. Francisco de Sousa (1591-1602).
8. Diogo Botelho (1602-1607).
9. Diogo Menezes (1607-1612).
10. Gaspar de Sousa (1613-1617).
11. Luiz de Sousa (1617-1622).
12. Diogo Mendonça Furtado (1622-1624): este governador foi levado prisioneiro pelos
holandeses na ocasião da primeira invasão. Durante as invasões (1622-1661) os governantes
mudaram com muita frequência, não cabendo aqui nomear a todos. No último ano da União
Ibérica (1640), Filipe IV, da Espanha, concedeu o título de Vice-Rei ao governador Jorge de
Mascarenhas. A partir deste momento até a chegada ao Brasil de D. João VI (1808), rei de
Portugal, o governo alternou em vice-reis, governadores-gerais e juntas governativas.

Câmaras Municipais
As Câmaras Municipais eram órgãos encarregados de administrar as vilas e cidades
brasileiras, cujas funções eram:
➢ administração e policiamento;
➢ execução de obras públicas;
➢ urbanização;
➢ regulamentação das feiras e dos mercados;
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➢ limpeza urbana;
➢ criação de impostos locais e o valor dos salários dos trabalhadores livres.

Cabia aos responsáveis pelas câmaras municipais o bom governo da cidade.

Os engenhos de Açúcar
A produção de açúcar sempre foi um destaque da agricultura brasileira. Por três século ela
foi predominante, até que no século XIX se iniciou o cultivo em larga escala do café. Para a
produção do açúcar eram necessárias grandes fazendas e muita mão de obra. Essas fazendas eram
chamadas de Engenho (unidades de produção de açúcar). Faziam parte do engenho:
1. o canavial;
2. os equipamentos para produção do açúcar;
3. a casa-grande (do senhor do engenho), a senzala (alojamento dos escravos) e a capela;
4. reserva florestal.

Etapas da produção do açúcar:


1. a cana-de-açúcar era plantada, formando grandes canaviais;
2. a cana era cortada e levada em carros de bois até as moendas;
3. as moendas eram grandes máquinas movidas por moinho d’água ou por força humana ou por
força animal. A cana era esmagada para se obter o caldo;
4. o caldo era colocado em grandes caldeiras para fervê-lo. Depois de várias horas, obtinha-se o
melaço (caldo engrossado);
5. o melaço era levado até a casa de
purgar, onde era colocado em
recipientes de barro, em formato de
cone, com um pequeno furo na parte
inferior. Este furo permitia o
escoamento do resto da água presente
no melaço, o que demorava de 3 a 5
dias;
6. por fim, obtinha-se um bloco de açúcar
amarelado em formato de cone. Esses
blocos, chamados de “pães de açúcar”,
eram exportados para Europa, onde
recebiam o processo de refinamento e Engenho de açúcar (Johannes Rugendas)
clareamento para serem vendidos.
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A sociedade brasileira
A sociedade brasileira do século XVI era composta por três classes:
1. a mais humilde era formada de escravos, índios ou africanos. Os negros eram mais numerosos,
pois os índios opunham grande resistência à escravidão e se refugiavam no seio dos sertões;
2. vinha depois a classe dos portugueses que viviam dos seus salários: feitores, oficiais mecânicos,
mestres de açúcar, criadores de gado e lavradores em geral;
3. depois vinha a nobreza do país que era constituída pelos senhores de engenho. Estes possuíam
tudo em suas próprias fazendas: os escravos, moendas, cobres, formas, teares, as criações, lenha,
canaviais. Tinham, em geral, igreja e vigário, o qual se tornava, geralmente, o mestre-escola. O
senhor de engenho remetia a safra diretamente para a metrópole e de lá recebia, em pagamento,
vinhos, fazendas, etc.

O Comércio
O comércio era realizado pelos Mascates. Havia pouco dinheiro, por isso faziam transações
com a permuta de gêneros (escambo). Os lares dos mais ricos senhores não tinham conforto. Não
havia ainda pontes, estradas e as festas eram exclusivamente religiosas, exceto nos grandes centros
onde havia cavalhadas e touradas.

A União Ibérica
Em 1578, o rei Dom Sebastião marchou para a África a fim de combater os muçulmanos em
uma espécie de cruzada. Todavia, em uma batalha na região Alcácer-Quibir, em Marrocos, o rei
desapareceu. Assim, desapareceu também a Dinastia Avis, pois Dom Sebastião não possuía
nenhum herdeiro. . Assumiu o trono português seu tio-avô, o Cardeal Dom Henrique, que faleceu
no ano seguinte. Dessa forma, o Trono de Portugal se tornou vacante. O candidato mais adequado,
devido à união de dinastias, era o rei da Espanha Dom Felipe II. Em 1580, Felipe II se fez aclamar
rei de Portugal e Espanha. Deu-se início ao período chamado União Ibérica (1580-1640), onde
Portugal e seus domínios passaram a ser administrados pela Coroa Espanhola.
Neste período, a Espanha também comandava os Países Baixos (Bélgica e Holanda). Porém,
em 1581, os colonos dessa região se revoltaram e conseguiram se separar da Espanha, formando
um novo país, a Holanda.

Invasões holandesas
Como Portugal nesse período pertencia à Espanha, a Holanda passou a ser a sua inimiga. Os
holandeses criaram, em 1621, a Companhia das Índias Ocidentais cujos objetivos eram dominar o
tráfico negreiro na África e invadir o nordeste brasileiro para controlar a produção de açúcar.
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161

A esquadra organizada pelos holandeses era


composta de 23 navios e três iates, munidos de quinhentas
bocas de fogo, tripulados por 1600 marinheiros e
guarnecidos de 1700 homens de desembarque. Jacob
Villekens era o almirante e Johan van Dorth o comandante
das tropas.
Em 1624, os holandeses invadiram a cidade
Salvador – BA, capital do Brasil, mas logo foram expulsos
graças a ação da população local (tática de emboscadas) e
de uma esquadra enviada pelos espanhóis (12 mil homens).
Um novo ataque holandês ocorreu em 1630, quando
conquistaram Olinda e Recife, cidades de Pernambuco,
maior produtor de açúcar do Brasil. Em 1637, o governo
holandês enviou para administrar o nordeste brasileiro um
conde chamado Maurício de Nassau. Nassau tomou as
Maurício de Nassau. Por Michiel van Miereveld
seguintes atitudes:
1. Tratou de desvendar o sertão, abrindo estradas, além de fortificar o litoral e de povoar a capitania
conquistada.
2. Trouxe da Holanda e continuava a chamar da Europa homens de letras, pintores, arquitetos,
cientistas e criou em torno de si uma pequena corte composta de artistas e intelectuais.
3. Embelezou a cidade de Recife, transformando-a na legendária Veneza Americana.
4. Construiu uma cidade cujo nome era Mauricea.
5. concedeu empréstimos aos senhores de engenho.
Contudo, este governador não deixou de mostrar suas tiranias: mandou capturar os negros e
conquistou um porto da África para facilitar o tráfico negreiro. Proibiu a Missa, baniu os frades e
impediu a construção de igrejas. Estas atitudes anticlericais eram comuns entre os holandeses, que
desde 1572 os haviam se tornado calvinistas furiosos. Desejavam o fim do domínio espanhol e da
religião católica. Iniciaram, com isso, uma das mais sangrentas perseguições contra a Igreja,
perseguindo as famílias católicas, matando padres e religiosos, sob gritos odiosos de “morram
papistas”. Nós, os brasileiros, fomos vítimas dessa perseguição religiosa entre os séculos XVI e
XVII.
Os responsáveis por tornar a região da Holanda um país abominável no passado e execrável
atualmente, visto que a imoralidade e leis iníquas reinam neste país em nossos tempos, foram o
Príncipe de Orange, Guilherme Marck, e seus Mendigos do Mar, homens da pior conduta possível.
. O grande holocausto de católicos causado por esse príncipe foi aceito como sacrifício pelo
Príncipe deste mundo, o Diabo, tanto é que, depois de mais de um século, um príncipe holandês,
também chamado Guilherme, foi premiado com a coroa inglesa, tornando-se rei constitucional da
Inglaterra “recém-reformada” por Henrique VIII e, posteriormente, por sua pérfida filha Elisabeth
I. Vale lembrar que a Revolução Gloriosa inglesa (1688) assinou o Ato de Tolerância, segundo o
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qual todas as religiões tinham liberdade no


território inglês, com exceção do
catolicismo. Que ironia! Tolerância com
todos, menos com os católicos! Quantos
mártires canonizados e outros tantos
desconhecidos derramaram seu sangue
por amor a Jesus Cristo e Sua Igreja na ilha
britânica. Um príncipe holandês merecia o
trono inglês, assim como a Inglaterra
merecia um rei como ele: afinal, ambos
eram inimigos inveterados da Santa
Religião Católica.

Fim do domínio Holandês


Em 1640, os portugueses promoveram
várias revoltas separatistas e conseguiram se
livrar do domínio espanhol. Dom João IV, da
Dinastia Bragança, ocupou o trono de
Portugal.
O processo de expulsão dos holandeses
do Brasil durou de 1645 a 1654. Após diversas Religiosos e padres sendo martirizados pelos holandeses. Por Cesare
Fracassini.
vitórias, as tropas luso-brasileiras venceram o
conflito e expulsaram os holandeses do nosso território. Esse conflito ficou conhecido como Insurreição
Pernambucana.

Administração do Brasil durante o século XVII


Os primeiros quarenta anos do século XVII foram ainda da União Ibérica (1580-1640),
quando os reis da Espanha governaram todo o império português. De 1598 a 1621, o reinado coube
a Felipe III e de 1621 a 1640 a Felipe IV. O fim da União Ibérica se deu com a restauração da
monarquia portuguesa em 1640, quando subiu ao trono, como 21º rei de Portugal, o Duque de
Bragança, Dom João IV (1640-1656).
Mesmo sob o domínio espanhol, o Brasil teve governantes exclusivamente portugueses.
Porém nosso país sofreu, como vimos nos capítulos anteriores, com a invasão dos inimigos da
Espanha. As guerras frequentes contra holandeses e ingleses geraram um grande prejuízo
econômico, especialmente na produção do açúcar, principal produto exportado pelos brasileiros.
D. João IV orientou o seu reinado para a reestruturação tanto interna quanto externa do
império português. Coube ao seu sucessor, D. Afonso VI (1656-1667), e, posteriormente, a D.
Pedro II (1683-1706) tomar medidas para promover a paz com a Espanha e a Holanda. Além disso,
esses dois monarcas foram grandes estimuladores do processo de expansão territorial brasileira.
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163

Veja o quadro genealógico da Dinastia de Bragança:

D. João IV, o Restaurador

D. Afonso VI, o Vitorioso D. Pedro II, o Pacífico

D. João V, o Fidelíssimo

D. José I, o Reformador

D. Maria I, a Piedosa

D. João VI, o Clemente

D. Pedro I, o Libertador

D. Miguel I

D. Pedro II, o
Magnânimo
D. Maria II

Dona Isabel, a
Redentora
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164

Atividades
1) O que eram as Capitanias Hereditárias? Cite 4 capitães donatários.
2) Qual eram os objetivos desta divisão territorial?
3) Quais eram os deveres assumidos pelos capitães donatários?
4) Quais capitanias mais prosperaram?
5) Cite dois benefícios trazidos pelas capitanias?
6) Quando e quem criou o Governo-Geral no Brasil? Qual era o objetivo?
7) Quais cargos foram criados e quais suas respectivas atribuições?
8) Quem foi o primeiro governador-geral do Brasil? Qual foi a primeira capital?
9) Quais eram as funções dos governadores-gerais?
10) Como se deu a fundação de São Paulo?
11) O que eram as Câmaras Municipais? Quais suas funções?
12) O que fazia parte do Engenho de açúcar?
13) Quais eram as três classes da sociedade brasileira?
14) O que foi a União Ibérica? Quanto tempo durou?
15) Quais eram os objetivos da Companhia das Índias Ocidentais?
16) Cite algumas atitudes de Maurício de Nassau no Brasil?
17) Qual foi a posição de Maurício de Nassau em relação ao catolicismo?
18) Qual dinastia portuguesa restaurou o trono português em 1640?
19) O que foi a Insurreição Pernambucana?
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165

Capítulo

13
A escravidão dos índios e dos negros
Evidentemente, a História do Brasil não pode ser estudada de maneira ingênua, como se
tudo o que se passou fosse sempre fruto dos mais nobres sentimentos e intenções. Uma das manchas
que tingem as páginas de nossa história é a questão da escravidão, tanto dos índios quanto dos
negros. O estudo deste assunto, porém, é cheio de dificuldades e não podemos fazê-lo de modo
“apaixonado”, pois as conclusões podem ser precipitadas.
“Segundo Santo Agostinho e Santo Tomás, todo o homem é livre por natureza. A escravidão
é fruto do pecado. Os pagãos, tanto na prática como na teoria, levaram a doutrina da escravatura a
um excesso hediondo. Nos primeiros séculos da era cristã existiam tantos escravos no mundo, que,
sem comprometer gravemente a ordem social, não era possível alforriá-los a todos de uma vez.
Ponderando, pois, a Igreja, de um lado esta dificuldade insuperável, do outro os grandes males que
sempre a escravatura traz consigo para o indivíduo, a família e a sociedade, começou por modificar
as ideias, ensinando a igualdade de todos os homens perante Deus, e a fraternidade universal em
Jesus Cristo. Ao serem informados desta doutrina, alguns escravos entenderam que ficariam livres
logo que abraçassem o cristianismo. A Igreja pregou a estes a submissão a seus senhores pelo amor
a Jesus Cristo. Inculcava no mesmo tempo e pelo mesmo motivo aos donos que tratassem seus
escravos com humanidade e caridade. Conseguiu deste modo que a sorte do escravo fosse muito
melhorada.
Depois de conquistar a sua liberdade no tempo de Constantino, a Igreja procurou, além disso,
que a legislação civil se tornasse sempre mais branda, e favorável aos escravos. Facilitou-se deste
modo imensamente a alforria, que, em consequência de tal exortação da Igreja, muitos cristãos
outorgavam a seus escravos em diversas ocasiões. Daí alguns cristãos excessivamente fervorosos,
desejando pôr termo quanto antes à escravatura, deram-se a proteger a liberdade com desordem, e
com prejuízo dos proprietários. A Igreja reprimiu também estas irregularidades, seguindo sempre
constante o seu sistema de abolicionismo pacífico, sem comprometer a ordem social.
Foi deste modo que a Igreja Católica logrou pouco a pouco dar cabo da escravatura na
Europa. A Igreja, pois, nunca favoreceu, nem louvou ou aprovou a escravidão, mas a tolerou a fim
de evitar males maiores. Foi, pelo contrário, a Igreja Católica quem antes de qualquer outro e com
grande constância, mas sem desordem, tratou de restituir aos homens a liberdade natural”. (Jaime
Balmes)
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Destacaremos, partir de agora, as relações dos jesuítas com os indígenas.


Desde a sua chegada, os missionários jesuítas empregaram todo o seu desvelo na conversão
e civilização dos indígenas; porém os obstáculos eram grandes e numerosos; porque era importante
triunfar a desumanidade e avareza dos colonos portugueses.
Os jesuítas, logo que chegaram ao Brasil, principiaram em tratar com os indígenas,
persuadindo-os a viver em paz, reconciliando as inimizades, condenando a embriaguez e
promovendo a monogamia. Mas extirpar um dos atos mais selvagens dos indígenas, a antropofagia,
não o puderam fazer. Vãos foram todos os esforços para se acabar com este terrível hábito. Um dia
os padres ouviram gritos e regozijos dos índios em um desses sacrifícios; conseguiram, contudo,
num ato de coragem, tirar o cadáver que ia ser devorado das mãos dos indígenas. Os guerreiros
indígenas saíram à perseguição dos jesuítas que só tiveram tempo de enterrar o corpo e voltar para
a cidade. Não os encontrando, os índios estiveram ao ponto de atacar a cidade, se não fosse o
esforço do governador em reunir todas as forças, que ao demonstrarem o poder da arma de fogo,
puseram os indígenas em retirada.

Passado o perigo, os próprios portugueses se manifestaram contra os jesuítas, que por seu
zelo tinham posto em risco a cidade, e poderiam fazer dos índios outros tantos inimigos. Porém, os
indígenas lembrados da verdadeira bondade com que foram tratados pelos jesuítas, e de que eram
estes os melhores amigos dos índios, foram pedir perdão e que continuassem a visitá-los. A prática
de canibalismo, contudo, continuou em segredo.
Novas dificuldades surgiram quando os índios foram acometidos por uma epidemia e,
depois, por uma tosse catarral, ambas causando muitas mortes. Disseram que as doenças eram
causadas pelas águas do batismo. Na verdade, isso era mentira dos pajés contra os padres, pois
estes estragavam o negócio torpe que praticavam estes feiticeiros.
Assim que podiam, os jesuítas faziam erguer uma capela na aldeia, para os neófitos (recém-
convertidos), e uma escola para instruí-los na leitura e na escrita. Os índios eram apaixonados pela
música, fato que contribuiu para muitas conversões quando os padres cantavam a Missa, os
sagrados ofícios e as ladainhas em procissões.
É conveniente observar desde já que a luta entre os colonos e os jesuítas teve sempre por
único objeto a liberdade e o cativeiro dos índios; que, posta a cobiça dos colonos, esta luta era
necessária aos missionários, visto como o cativeiro formava o obstáculo maior à conversão e
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civilização dos indígenas. Nada temiam


tanto os indígenas como perder a sua
liberdade. Evidentemente que não é
conveniente condenar todos os jesuítas
(como fazem muito historiadores
atualmente) nem os absolver a todos.
É possível, a partir do estudo de
cartas do Pe. Manuel de Nóbrega, que
alguns portugueses roubavam os índios e
os despojavam de tudo quanto podiam,
usando também com eles de toda a sorte
de mau trato; semeavam entre eles a
discórdia. O que os jesuítas fariam diante
de tão dramática situação? Podiam fechar
os olhos ao verem que a cobiça injusta e
cruel punha esse obstáculo imenso à
conversão do índio, à qual tinham
dedicado toda a sua vida? Era impossível.
Invocaram, pois, as leis, e a proteção do
rei que os enviou. Ninguém poderá
duvidar que estavam em seu pleno direito.
É certo que os jesuítas não se opunham
quando os portugueses faziam guerra Pe. Manoel de Nóbrega
contra os indígenas que se rebelavam,
assassinavam os colonos, nem a que os compelissem pela força a deixar seus maus costumes e
aceita a civilização. Uma coisa é perguntar se fosse lícito fazer guerra aos índios rebeldes e subjugá-
los, obrigando-os a deixar seus maus costumes e a serem súditos pacíficos de Portugal. Outra coisa
é discutir se se pudesse sem pecado e injustiça roubá-los, despojá-los e vendê-los. Perceba que são
coisas diferentes e uma coisa não justificar a outra. Os jesuítas se opunham aos abusadores que
vendiam e escravizavam os indígenas como se fossem animais.
A pergunta que se segue é mais complicada: Por que os jesuítas não se opuseram à
escravidão do negro, a respeito dos quais não se praticavam menores crueldades do que com os
índios? Seguindo o exemplo e ensino da Igreja Católica, os jesuítas nunca aprovaram a escravatura,
de qualquer povo que fosse; quanto, porém, a combater positivamente a questão é muito diferente.
A importação dos negros era legal no Brasil, isto é, protegida por lei, além do que os portugueses
não o escravizavam “diretamente”, pois isso era obra dos próprios negros em território africano
que levavam prisioneiros de guerra aos portos a fim de vendê-los aos traficantes de escravos. As
crueldades e as indecências que os negociantes praticavam na travessia (a viagem dos navios
negreiros), e os donos no Brasil, devem ser deploradas do fundo de nossas almas e é de se supor
que os mesmos sentimentos tinham os jesuítas da época. Essas práticas evidenciam a consciência
distorcida que tinham os portugueses em relação à lei natural e o descaso com a doutrina da Igreja.
Já se faziam sentir nas sociedades europeias, mesmo as católicas, os efeitos do neopaganismo do
renascimento e o espírito de insubordinação e rebeldia provenientes do protestantismo. Durante o
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período da Idade Média, quando a doutrina da Igreja foi mais respeitada, a escravidão foi reduzida
a alguns focos apenas e foi sempre vista como uma fraqueza e fruto do pecado. Jamais se verificou
na Cristandade a escravidão como base da mão-de-obra das atividades econômicas, tanto urbana
como agrária. Isso, porém, era comum na Antiguidade pagã (especialmente entre os gregos e os
romanos) e depois na Modernidade, período que estamos estudando. A escravidão jamais pode ser
justificada. A razão dos colonos da época sempre era de que eles precisavam dos escravos. Mas há
de ser possível dar por boa essa razão? Neste caso cumpre justificar também hoje todos os ladrões,
salteadores e criminosos de qualquer espécie, porque se esse motivo se desse por bom, não se
acharia que não o apresentasse para desculpar seus crimes.

Para Meditar...
A Igreja e a escravidão
Ricardo Costa

Com a ascensão e expansão do Cristianismo, o Direito também se cristianizou. Os advogados medievais,


a partir do século XI, chegaram à conclusão que a escravidão era contrária ao espírito cristão. Isso para cristãos
(e que não me venha nenhum fariseu acusar a Igreja de não legislar para não cristãos). Em contrapartida, por
exemplo, foi o Islã quem difundiu largamente a escravidão. Vejamos isso com mais pormenor.
Começo com uma citação do grande historiador Fernand Braudel (1902-1985): “O tráfico negreiro não
foi uma invenção diabólica da Europa. Foi o Islã, desde muito cedo em contato com a África Negra através dos
países situados entre Níger e Darfur e de seus centros mercantis da África Oriental, o primeiro a praticar em
grande escala o tráfico negreiro (...). O comércio de homens foi um fato geral e conhecido de todas as
humanidades primitivas. O Islã, civilização escravista por excelência, não inventou, tampouco, nem a
escravidão nem o comércio de escravos”.
Aqui chegamos à escravidão negra. Muitos séculos ANTES da chegada dos brancos europeus à África,
tribos, reinos e impérios negros africanos praticavam largamente o escravismo, exatamente como os berberes
(e demais etnias muçulmanas). Os europeus do século XVI tinham verdadeiro pavor de deixar o litoral ou
mesmo desembarcar de seus navios e avançar para longe da costa e capturar escravos. Estes eram trazidos pelos
próprios africanos, que tinham grandes mercados espalhados pelo interior do continente, abastecidos por guerras
entre as tribos, ou mesmo puro sequestro. Isso pode ser facilmente comprovado, por exemplo, com a descrição
do império de Mali feita pelo cronista muçulmano Ibn Batuta (1307-1377), um dos maiores viajantes da Idade
Média, e o depoimento de al-Hasan (1483-1554) sobre Tumbuctu, capital do império de Songai. Ademais, havia
tribos africanas que praticavam sacrifícios humanos, naturalmente de escravos. Às vezes, para interromper a
chuva, mulheres negras (e escravas) eram crucificadas.
Entrementes, a Igreja Católica reiteradamente condenava a escravidão. Há inúmeras bulas papais a
respeito: Sicut Dudum (1435) – Eugênio IV (1383-1447) manda libertar os escravos das ilhas Canárias; em
1462, Pio II (1405-1464) – instrui os bispos a pregarem contra o tratamento de escravos negros etíopes, e
condena a escravidão como um “crime tremendo”; Paulo III (1468-1549), na bula Sublimus Dei (1537) recorda
aos cristãos que os índios são livres por natureza (isto é, ao contrário dos negros, eles não praticavam a
escravidão); em 1571 o dominicano Tomás de Mercado (1525-1575) declarou desumana e ilícita a escravidão;
Gregório XIV (1535-1591) – Cum Sicuti, de 1591 – e Urbano VIII (1568-1644) – Commissum nobis, de 1639
– condenaram a escravidão
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Sabe-se que no início do século XVI o dominicano Frei Domingos de Minaja viajou da
América Espanhola a Roma, a fim de relatar ao Papa Paulo III os abusos ocorrentes com relação
aos índios. Em consequência, o Pontífice escreveu a Bula Veritas Ipsa de 2/6/1537. Nesta, o
Pontífice expõe o equívoco subjacente à instituição da escravatura:
“O comum inimigo do gênero humano, que sempre se
opõe às boas obras para que apareçam, inventou um modo,
nunca dantes ouvido, para estorvar que a Palavra de Deus se
pregasse às gentes, nem elas se salvassem. Para isso moveu
alguns ministros seus que, desejosos de satisfação às suas
cobiças, presumam afirmar a cada passo que os índios das
partes ocidentais e meridionais e as mais gentes que nestes
nossos tempos têm chegado à nossa notícia hão de ser
tratados e reduzidos a nosso serviço como animais brutos, a
título de que são inábeis para a Fé católica; e, com pretexto
de que são incapazes de recebê-la, os põem em dura servidão
em que têm suas bestas, apenas é tão grande como aquela com
que afligem a esta gente”.
“Pelo teor das presentes, determinamos e declaramos Princesa Isabel, a libertadora. Esta princesa
que os ditos índios e todas as mais gentes que daqui em diante brasileira foi responsável pela Lei Áurea, que
aboliu a escravidão no Brasil em 1888.
vierem à notícia dos cristãos, ainda que estejam fora da fé Recebeu, por isso, uma rosa de ouro do Papa
cristã, não estão privados, nem devem sê-lo, de sua liberdade, Leão XIII em sinal de reconhecimento pelo
nem do domínio de seus bens, e não devem ser reduzidos à grande feito.

servidão”.
Outra pergunta que se faz é: Como os colonos portugueses praticavam este ato tão hediondo?
Justamente por não se conformarem à doutrina da Igreja. Os jesuítas tiveram grandes dificuldades
no relacionamento com os colonos portugueses, até mais do que nos hábitos e disposições dos
indígenas. Durante mais de 50 anos, os colonos tinham vivido quase sem lei, nem religião. Muitos
nunca mais se haviam confessado, nem tinham comungado desde que estavam no país. Os costumes
pagãos se espalharam por entre eles. Pe. Manuel de Nóbrega e os seus companheiros nobremente
recusaram administrar os sacramentos da Igreja aos que retinham índias por meretrizes e índios por
escravos. Este proceder resoluto e cristão reduzia muitos ao bom caminho. Poderoso é o
catolicismo, poderosa também é a avareza; mesmo com os maiores esforços dos melhores padres
continuou a prática de escravizar os índios e depois dos negros.

O elemento africano
A África sempre foi a terra da escravidão. Nos tempos antigos, viam-se africanos nas
embarcações dos cartaginenses (inimigos dos romanos) bem como nos palácios de Roma. Asdrubal,
num só dia, comprou 5 mil escravos vindos das margens do Níger.
Na época em que se começou o tráfico dos escravos, a história da África atravessava o período
da escravidão militar, ou seja, guerreiros derrotados que se tornavam escravos dos vencedores que,
muitas vezes, escravizavam tribos inteiras. Os negros que eram escravos na África acharam-se, no
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Brasil, em melhores condições do que no território anterior. Em menos de 4 séculos, incorporou-se


totalmente à nacionalidade brasileira.
Foi também de importância capital a ação do negro nos destinos históricos da sociedade
brasileira. Renovou o povo português, tornou-lhe acessível a natureza esmagadora do Brasil,
guarneceu-lhe as cidades e fazendas, defendeu-lhe a costa, os fortes e os estabelecimentos,
frutificou a terra com seu trabalho, desbravou os sertões com sua energia, e, finalmente, acalentou-
lhe os filhos.

Famoso milagre das correntes. O escravo fugitivo pediu o auxílio de Nossa Senhora
Aparecida e foi libertado das correntes e do feitor que o perseguia.

Organização social
Os africanos, na ocasião do tráfico negreiro, se constituíam em tribos, submetidas algumas
ao regime patriarcal, outras a um chefe, não raro despótico. A monarquia dominava em toda a
África. A poligamia dominava. Os irmãos do pai eram considerados pais, como as irmãs da mão
eram consideradas mães. Os escravos faziam parte da família, e eram herdeiros do senhor que
morre sem sucessão. Eram chamados sobrinhos ou filhos. É por isso, talvez, que na América
tratavam os moços aos velhos de pai ou de tio. A mulher não podia ser maltratada pelo marido. O
trabalho doméstico e as pequenas lavouras eram desempenhados pelas mulheres. Os homens
ocupavam-se com a caça e a pesca. A sociedade era dividida em castas.
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171

O culto da família e o apego à casta eram tão grandes que os casamentos se faziam dentro
da própria casta e, quanto possível, dentro da própria família. Notam-se vestígios de instituições
jurídicas na sociedade africana. O chefe, por exemplo, é quem resolvia as contendas entre os
indivíduos e entre as tribos.
As tribos que eram governadas por um rei sofriam terríveis torturas. Os reis eram, em geral,
de uma crueldade inominável. Seus servidores eram verdadeiros joguetes, sem amparo, sem asilo,
em suas mãos. Não era raro ver, nestas cortes africanas, homens mutilados, sem nariz, sem orelha
ou sem mãos.

Uso e costumes
Os negros viviam em
tendas, feitas de juncos e de
palmas, sustentadas por varas de
bambus. Troncos de madeira
fazem as vezes de mesa e
cadeiras. Peles, palhas ou
tarimbas servem de cama.
Internamente, estas tendas não
têm divisão nenhuma; as
paredes são revestidas de barro;
o ar e a luz só podem penetras
pela porta de entrada. No
entanto, à noite, na choupana hermeticamente fechada, viviam muitas pessoas de uma família, às
vezes oito ou mais, além de galinhas, cabras, cães e ovelhas. Em redor das tendas, construíam uma
cerca de troncos de árvore em volta dos quais se teciam galhos e ramarias.
Os utensílios eram primitivos. Desde os tempos mais antigos conheciam a arte de fazer louça
de barro. As vestimentas das mulheres limitavam-se a blusas e saias de pano muito ordinário. As
mulheres gostavam de se enfeitar com brincos, colares e pulseiras de conchas ou de terracota. A
tatuagem servia de ornamento aos homens.
Os africanos conheciam a virtude de certas plantas medicinais. O emprego de tais plantas,
entretanto, era acompanhado de “mil exorcismos”, pois eram muito supersticiosos. Acreditavam
em zumbis, espíritos dos mortos, e presumiam que eram eles que revelavam aos feiticeiros tudo
que é secreto e desconhecido. Os feiticeiros gozavam de grande prestígio; levavam consigo
inúmeros ídolos (mandingas), os quais eram distribuídos como amuletos em troca de alguma
esportula. Era crença geral que os maus espíritos andavam soltos pelo mundo. Para espantá-los,
existiam os “diabos fingidos” – homens que se fantasiam e andam pelos campos e pelas aldeias
“espantando” os espíritos malignos.
O comércio se fazia em geral por meio de feiras, e como as tribos vizinhas eram muitas
vezes inimigas, escolhia-se para o local da feira um terreno neutro. As mulheres eram as mercadoras
mais ativas.
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O tempo era contado por luas; 12 luas formavam


um ano. Um dos dias da semana era destinado à quitanda
(feira). O negro gostava de música e dança. Só trabalhava
de boa vontade quando o deixavam cantar. Usavam
trombeta, flautas e tambores; acompanhavam as suas
canções com o batuque, chocalhos e guizos. Eram muito
sociáveis. Divertiam-se com enigmas e charadas e
gostavam de ouvir contar, nos serões de família, contos ou
lendas populares, acompanhados do ritmo do tam-tam,
espécie de tambor.
Havia muitas festas durante o ano: procissões,
cerimônias de culto aos deuses ou a plantas, como o
inhame, a abóbora, etc. Celebravam-se certas fases da lua
e do sol, a coroação dos reis e as vitórias. Havia outras
festas chamadas candomblés, nas quais se praticavam
rituais simbólicos de feitiçaria.

Crenças
Os negros eram feiticistas. As tribos adiantadas admitiam a existência de um criador, a quem
atribuíam o bem e o mal. Abaixo dele adoravam muitos orixás, divindades secundárias
representadas por figurinhas de terracota, de madeira ou de marfim, dos quais tudo esperavam e
aso quais tudo pediam. Os ministros desses orixás, espécie de pajés entre os índios, gozavam do
maior acato e respeito. As mulheres também podiam ser danwês, depois de passarem 3 anos de
iniciação no culto aos orixás.
Nas tribos atrasadas reinava o mais grosseiro feiticismo; qualquer objeto podia servir de
feitiço. Cultuavam também certo animais, como a serpente e o boi. A superstição dominava o
espírito do negro, fazendo com que a tarefa dos missionários fosse penosíssima. As conversões são
bastante frequentes, mas muitos negros nunca abandonaram de todo a sua feitiçaria e o seu
feiticismo.

O Tráfico Negreiro
O tráfico no Brasil é quase tão antigo quanto a descoberta da terra. Deve remontar mais ou
menos à data de 1532. Para aqui vinham os negros de todas as colônias africanas (Angola,
Benguela, Moçambique, e das ilhas do mar da Guiné, Fernando Pó, São Tomé, Príncipe, Ano Bom).
Havia, no continente africano, entrepostos que faziam o comércio de escravos. Os príncipes
africanos ambiciosos, procuravam abrir luta com seus vizinhos, a fim de escravizá-los e de vendê-
los, em seguida, aos traficantes portugueses. Percebam que a prática da escravidão era generalizada,
sendo aplicada até mesmo entre os próprios africanos.
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Esta imagem representa um escravo sendo vendido por outros povos africanos em troca de produtos,
como armas, cachaça, etc.

Assim é que, através dos sertões africanos, se viam filas e filas de negros escravizados,
oriundos das tribos mais diversas, amarrados uns aos outros para dificultar a fuga, marcados a ferro
em brasa com o carimbo, chicoteados pelos Tumbeiros. Eram levados para os presídios (Caconda,
Ambaca, Canjango) e depois embarcados nos principais portos (São Paulo de Loanda, São Filipe
de Benguela ou Porto Novo).
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A Travessia
Atirados no porão de navios imundos, estavam sujeitos às diversas moléstias, como o mal de Loanda,
a bexiga, o sarampão, dizimam as levas de escravos. Os maus tratos, a fome, a falta de higiene liquidam
outras. E, afinal, muitos se atiram ao mar ou morrem, vítimas do Banzo, da nostalgia, da saudade da terra.
Neste poema de Castro Alves percebemos os horrores da travessia:
Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!
Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...
Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!
No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."
E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!
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O Cativeiro no Brasil
No Brasil, os negros foram concentrados na zona litorânea e de preferência nos estados do Norte.
Os Cacimbos e os Gingas eram procurados pela sua forte estatura e bela corpulência. Os congos ou
cabindas, mais franzinos, eram mais dóceis e desempenhavam-se admiravelmente nos serviços domésticos.
Ao negro foram entregues os trabalhos dos engenhos, dos campos, do tráfego urbano, da
cabotagem, das fábricas, das oficinas e do comércio.
Viviam nas senzalas, amontoados sem higiene, fiscalizados pelo feitor, o qual, de chicote em punho,
punia cruelmente as suas faltas mais insignificantes. A chibata era o castigo habitual. Geralmente, era no
terreiro que se amarravam os negros ao pelourinho, e que se lhes arrancava a pele, a golpes de chicote. Não
havia casamento entre os negros, salvo com o consenso do senhor. Quando incidiam em culpas mais graves
que de costume, eram supliciados com instrumentos bárbaros, anéis de ferro que lhes apertavam a garganta
ou prendiam as mãos aos pés, ou, finalmente eram enforcados.
O negro protestou como pode.
Muitos morriam de saudades da terra, outros
suicidavam-se sumariamente, alguns
envenenavam-se ou fugiam para morrer às
mãos dos índios. As leis portuguesas,
entretanto, abrandavam o cativeiro dos
negros, pelo ensino religioso, pelo batismo
e, às vezes, pelo casamento diante do altar,
e, enfim, a possibilidade do resgate,
mediante um preço, pago à vista.

Escravos trabalhando no engenho de açúcar


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Quilombo dos Palmares


Quilombos eram redutos de escravos fugitivos que se formavam nas florestas ou em locais
escondidos. O mais famoso dos quilombos achava-se na Serra da Barriga (Alagoas), numa região
de abundante palmeiras, daí o nome de Palmares.
Nestes redutos, cercados por grades de pau a pique, imperava um chefe, o Zumbi, que tinha
um palácio (mussumba) e o seu conselho. Alguns quilombos chegaram a contar 8 a 10 mil homens
e mais de 1500 cabanas. Zumbi era cruel e imoral, mantendo ele mesmo escravos negros, prática
comum entre os chefes africanos.
Para prover alimentação, os negros saíam em bandos armados, atacavam as fazendas e as
vilas, (Porto Calvo, Penedo, Sarinhaém), saqueavam o quanto podiam e regressavam aos seus
esconderijos, cobertos de despojos. De todos os lados, fugiam os escravos, à procura dessa fictícia
liberdade. Era uma ameaça para os fazendeiros. Era um perigo para as vilas.
Após diversas expedições frustradas contra os quilombolas, o governo de Pernambuco
chamou em seu auxílio Domingos Jorge Velho, paulista destemido, que desejava as terras e os
escravos do local onde se encontrava Palmares.
Depois de três anos de guerras, os quilombos de Palmares foram destruídos e,
posteriormente, Zumbi foi morto.

Influência dos negros


A importância do africano era tão grande nos primeiros séculos da nossa história que um
cronista pode escrever: “Os escravos são as mãos e o pés do senhor do engenho; porque sem eles,
no Brasil, não é possível fazer, conservar e aumentar a fazenda, nem ter engenho corrente”.
Herdamos dos negros a sua afetividade, o amor pela música e pela dança, uma resignação heroica
para suportar a miséria, o hábito pelo trabalho. Além disso, o negro deixou sua fisionomia
estampada na fisionomia do mestiço brasileiro, o mulato, que constitui grande parte da população
do Brasil.
Certos usos, festas e danças, vestimentas e alimentos ainda hoje relembram a vida das aldeias
africanas. São de origem africana, por exemplo, o vatapá, a munguzá, os angus, a canjica, a
pamonha, as moquecas e muitos outros quitutes. Também africano era o costume antigo do
transporte dos senhores em banguê (cadeirinha) ou em tipoia (rede). Na língua brasileira, há
infinidade de palavras africanas, como quilombo, quitanda, mandinga, xingar, marimba, banzo,
samba, batuque, cafuné, etc.
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Atividades
1) Copie esta frase:
Segundo Santo Agostinho e Santo Tomás, todo o homem é livre por natureza. A escravidão é
fruto do pecado.
2) Qual sistema adotado pela Igreja no que diz respeito à escravidão?
3) Qual principal objetivo dos jesuítas em relação aos indígenas?
4) Qual era o objetivo da luta dos jesuítas contra os colonos portugueses?
5) Ao que precisamente os jesuítas se opunham em relação ação dos colonos portugueses com os
indígenas? Qual ação dos portugueses era aceita pelos jesuítas?
6) Por que os jesuítas não se opuseram à escravidão do negro?
7) Qual era a razão dada pelos colonos para usarem mão-de-obra escrava? Pode ser dada por boa
esta razão? Por que?
8) Cite alguns documentos da Igreja que condenavam a escravidão?
9) Como os colonos portugueses praticavam este ato tão hediondo?
10) Como se organizavam os africanos na ocasião do tráfico negreiro?
11) Como as sociedades africanas eram divididas? Como eram, geralmente, os reis africanos?
12) Como se dava o comércio entre os africanos?
13) O que eram os candomblés?
14) Qual era a religião dos africanos?
15) De quais colônias vinham os escravos para o Brasil?
16) Quem levava os escravos para os traficantes portugueses?
17) Como eram as travessias dos escravos até o Brasil?
18) Onde os negros foram concentrados no Brasil? Que tipo de trabalho foi entregue a eles?
19) Como os negros se opuseram à escravidão? Como as leis portuguesas abrandaram a situação
do negro no Brasil?
20) O que eram os Quilombos? Qual o mais famoso dos quilombos? Quem era o seu líder?
21) Copie esta frase:
Os escravos são as mãos e o pés do senhor do engenho; porque sem eles, no Brasil, não é
possível fazer, conservar e aumentar a fazenda, nem ter engenho corrente.
22) Cite algumas comidas e algumas palavras de origem africana que fazem parte da cultura
brasileira?
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179

Capítulo

14
Introdução
Antes mesmo de Cabral aportar seu navio em terras brasileiras, havia um tratado assinado
entre as Coroas de Portugal e de Espanha que ficou conhecido por Tratado de Tordesilhas (1494).
Este tratado consistia em uma linha imaginária a 370 léguas da Ilha do Cabo Verde. Todas as terras
que estivessem à esquerda da linha pertenceriam à Espanha, e todas as que estivessem à direita
seriam de Portugal. Esse tratado permaneceu inalterado até o século XVIII.
Depois do descobrimento, por dois séculos, os portugueses se limitaram a povoar o litoral
brasileiro. Isso se deu por causa da falta de recursos e da violência indígena. Contudo, no início do
século XVIII, iniciaram-se diversas expedições cujo objetivo era a interiorização das terras
portuguesas.

Expansão territorial
Além da atuação dos reis portugueses, outros agentes podem ser considerados fundamentais no
processo de expansão territorial brasileira:
1. as entradas e os bandeirantes;
2. os jesuítas;
3. os criadores de gado.

As entradas e os bandeirantes
As entradas e as bandeiras foram movimentos de expansão territorial que proporcionaram
ao país a sua configuração geográfica.

O que são as entradas?


Expedições oficiais, ou seja, promovidas pelo governo, de exploração do interior da colônia.
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Objetivos das entradas


1. exploração geográfica;
2. pesquisas minerais;
3. apresamento de indígenas;
4. exploração econômica –agricultura, criação de gado e indústria extrativa;
5. abertura de vias de transporte.

O que são as bandeiras?


São expedições militares extraoficiais organizadas principalmente pelos paulistas. Levavam tudo
quanto é indispensável à vida civil para o meio das florestas: padres, cronistas, escrivães
juramentados, e até juízes.

Objetivos dos bandeirantes:


1. apresamento de indígenas;
2. pesquisas minerais;
3. combate aos indígenas rebeldes e negros aquilombados;
4. povoamento de novas terras;
5. abertura de vias de transporte.

BANDEIRAS DOS SÉCULOS XVII E XVIII

CARTOGRAFIA: ERICSON GUILHERME LUCIANO

Fonte: Atlas histórico escolar. Rio de Janeiro: FAE, 1991, p. 24.


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Os tipos de bandeiras:
1. Ciclo do apresamento de índios: tinha o objetivo de escravizar indígenas do interior do Brasil.
2. Ciclo do ouro: tinha o objetivo de descobrir metais e pedras preciosas.
3. Ciclo do sertanismo de contrato: as bandeiras eram contratadas normalmente para destruir os
quilombos, redutos de escravos fugitivos
4. Ciclo de povoamento: tinha o objetivo de descobrir novas regiões para habitar.

Ciclo do apresamento de indígenas


Em todo o Brasil se estabeleceu, desde o século XVI, o problema das relações dos colonos
adventícios com os habitantes indígenas. Amistosas ou violentas, tiveram fundamental importância
para o futuro do país; no primeiro caso, pela miscigenação então iniciada, e pelas contribuições do
indígena à vida social e econômica dos portugueses do Brasil e seus descendentes; no segundo
caso, pelas lutas que suscitou e pelos novos aspectos trazidos à questão do trabalho escravo e
respectiva legislação reinol, quanto aos indígenas brasileiros.
A localização deste ciclo foram: Capitania de São Vicente, Guaíra (oeste do Estado do
Paraná), Tape (centro do Rio Grande do Sul) e Itatim (sudeste de Mato Grosso).

Ciclo do ouro de aluvião


O descobrimento de ouro, prata e pedras preciosas na América espanhola, na primeira
metade do século XVI, impeliu os portugueses à ativa procura de tais riquezas em seus territórios.
Como não foram encontrados metais nas costas brasileiras, o desejo de os encontrar levou-os à
penetração pelo interior, chegando a Goiás, Mato Grosso e Minas Gerais. A diminuição dos metais
(ouro, prata, etc.) no século XVIII fez com que novos povoados surgissem no Sul para serem
criadores de gado.

Ciclo do Sertanismo de Contrato


Um dos aspectos originais do bandeirantismo é constituído pelo que denominamos ciclo do
sertanismo de contrato, isto é, a ação de bandeirantes contratados pelo governo-geral para combater
indígenas inimigos e quilombos de negros fugidos dos palmares no Nordeste brasileiro. O Ciclo do
Sertanismo de Contrato foi importante no processo de povoamento e expansão das atividades
pecuárias no sertão nordestino.

Ciclo do Gado
Tanto o ciclo do pau-brasil quanto o do açúcar tiveram por cenário apenas o litoral do Leste
e do Nordeste brasileiros, sem que de modo sensível penetrassem no vago e misterioso sertão, ainda
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ocupado por tribos selvagens. Determinava essa situação o desinteresse econômico por qualquer
tentativa de fixação de povoadores em regiões mais afastadas do mar. A solução encontrada para o
povoamento do sertão forneceu-a a criação de gado, atividade econômica essencialmente fixadora
de populações, mesmo escassas.
Os principais bandeiristas são: Antônio Rapôso Tavares, Fernão Dias Pais, Bartolomeu
Bueno da Silva, Manuel Borba Gato, Domingo Jorge Velho e Nicolau Barreto.

Antônio Rapôso Tavares Fernão Dias Pais Bartolomeu Bueno da Silva

Os Jesuítas
Os jesuítas se constituíram em grandes defensores dos indígenas contra os homens que
desejavam escravizá-los. Para os jesuítas era necessário evangelizar e civilizar os índios e jamais
escravizá-los. Alguns bandeirantes, no entanto, chegaram a atacar as missões jesuítas para prender
indígenas. O caso chegou até a Santa Sé, mas, mesmo com a condenação da escravidão feita pelo
Papa, o processo de escravidão continuou no Brasil.
Formação das missões: com o tempo, os indígenas saíram do litoral para habitar o interior. Os
jesuítas os seguiram e formaram as missões, locais de trabalho e de oração, principalmente na
Amazônia e no Sul do Brasil. As missões foram atacadas pelos bandeirantes paulistas que queriam
escravizar os índios.

A Revolta de Beckman
1680-1684

Local: Maranhão
Envolvidos na revolta: a Coroa portuguesa e os jesuítas versus os colonos maranhenses.

Motivos da revolta:
1. a Coroa proibiu a escravidão dos índios;
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2. criação da Companhia do Comércio do Maranhão que se comprometeu a trazer 10 mil escravos


para região, o que não fez;
3. além disso, a Companhia do Comércio passou a vender mercadorias por preços altos.

Desenvolvimento e final do conflito: liderados por Manuel Beckman, e revoltados, os colonos


maranhenses invadiram o colégio dos jesuítas e os armazéns da Companhia. A Coroa reprimiu a
revolta, executou Beckman, mas extinguiu a Companhia e permitiu novamente a escravidão dos
índios.

Os Criadores de Gado
Com o advento da cana-de-açúcar, os criadores de gado passaram a procurar pastos cada vez
mais pelo interior. Essa expansão seguiu o curso dos rios, principalmente o São Francisco e o
Parnaíba, contribuindo para a expansão do território.
O gado no Sul: atraídos pelos rebanhos sem dono no Sul, os paulistas fundaram diversos
povoados no Sul do Brasil. Com o advento da mineração, o gado passou a ser utilizado como animal
de carga. Com isso, formaram-se as estâncias, terras cercadas, onde se produzia o charque (carne
salgada) que era vendido no mercado interno.

As Novas Fronteiras
Como vimos, os habitantes do Brasil ocuparam grandes áreas de terras que iam além de
Tordesilhas. Por isso, a Coroa firmou acordos internacionais para oficializar as conquistas.
➢ Tratado de Utrecht (1713).
➢ Tratado de Madri (1750).
➢ Tratado de Santo Ildefonso (1777).
➢ Tratado de Badajós (1801).

Tratado de Madri
A solução para a problemática das fronteiras entre Portugal e Espanha foi resolvida pela
atuação diplomática do secretário do rei de Portugal, o brasileiro Alexandre de Gusmão.
O Tratado de Madri definiu o princípio “uti possidetis”, que determinava que cada país
ficasse com a parte com que realmente já possuísse no momento. Após alguns conflitos no território
brasileiro, o tratado foi anulado, sendo restabelecido apenas em 1777 pelo Tratado de Santo
Ildefonso. Dessa forma, o Brasil ficou geograficamente definido.
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O Ouro das Minas Gerais


O primeiro descobrimento do ouro em Minas possui diversas versões. Porém, todas elas
datam do final do século XVII e concordam que este metal precioso foi descoberto por vicentinos
(paulistas). Qualquer que tenha sido o descobrimento inicial, a verdade é que em poucos anos ele
se divulgou, causando uma grande migração de mineradores para a região.
As principais regiões exploradas de Minas foram: Ribeirão do Carmo (Mariana), Tripuí, São
João d’el-Rei, São José d’el-Rei (Tiradentes), Ouro Preto e Diamantina.

Povoamento de Minas
O afluxo de pessoas para a região das minas foi intenso, vindos das capitanias de São Vicente
e Rio de Janeiro, especialmente. Inicialmente, houve grande escassez de mantimentos. Para
resolver o problema de falta de alimentação, era trazido o gado para Minas.

Tipos de Exploração do Ouro


Lavras: grandes extrações que exigiam maior capital e número de escravos, máquinas para
lavagem de cascalho e represamento de rios.
Faisqueiras: pequenas extrações comandadas por indivíduos com poucos recursos.
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Intendência da Minas
A Coroa organizou rapidamente um sistema de exploração das minas:
➢ distribuição das datas (lotes auríferos).
➢ criação da Intendência de Minas (1702): responsável pela cobrança dos tributos, policiamento
e justiça local.

Guerra dos Emboabas


1707 a 1709

Envolvidos: vicentinos (paulistas) versus “emboabas” (portugueses, cariocas, baianos, etc.).


Motivo: disputa pelo domínio das minas.
Sob o comando de Manuel Nunes Viana, os emboabas venceram os vicentinos em alguns conflitos
armados e expulsaram muitos da região. Em contrapartida, os vicentinos avançaram para o interior
do território descobrindo novas minas, especialmente na região de Mato Grosso e Goiás.
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Consequências do conflito: Para pacificar e melhor administrar a região, resolveu-se criar em


1709 a Capitania de São Paulo e Minas do Ouro, substituindo a Capitania de São Vicente. O
governo dessa região coube a Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho. Este organizou a
exploração das minas, através da cobrança do quinto (20%), a entrada de mercadorias e escravos,
além de criar, em 1711, os primeiros municípios: Vila do Ribeirão (Mariana), Vila Rica (Ouro
Preto) e Vila Real.

Casas de Fundição
Em 1719, a Coroa decretou a criação das Casas de Fundição, cujos objetivos eram fundir,
tributar (quinto) e transformar em barras e moedas o ouro.
Todo o ouro encontrado deveria ser submetido às casas de fundição. Isso gerou uma revolta
em Vila Rica liderada pelo português Felipe dos Santos. A revolta foi vencida, e Felipe foi
enforcado. Em 1725, a criação das Casas de Fundição se efetivou.

Criação das Minas Gerais


Em 1720, a Coroa determinou a separação de Minas de Ouro e de São Paulo, criando a
Capitania de Minas Gerais. Nos primeiros 50 anos do século XVIII, a produção aurífera esteve em
ritmo de crescimento. Porém, após esse período, ocorreu o esgotamento natural das minas.

Escassez das minas


Nessa nova fase, foram registrados déficits. Assim, em 1765 foi aprovada a “derrama”, isto
é, a cobrança forçada de ouro que faltava para completar o compromisso anual dos mineradores
(conjuração mineira). Com a diminuição cada vez mais sensível da produção do ouro, a Coroa
deixou de cobrar o quinto, reduzindo para o décimo em 1803.
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Outras regiões auríferas


Com a descoberta de minas de ouro em Minas, iniciou-se a procura de outras. Os principais
lugares onde foi encontrado ouro são Mato Grosso, Goiás (constituído capitania devido ao processo
de mineração) e Bahia.

Diamantes
Os diamantes foram descobertos no Arraial do Tijuco, no nordeste de Minas Gerais. Para
garantir um controle eficiente da região, a Coroa criou o Distrito Diamantino.
As regras para a exploração de diamantes tiveram três momentos:
Intendência dos Diamantes (a partir de 1734) → semelhante ao do ouro nas minas → concessão
de datas e cobrança do quinto.
Contratos de Monopólio (1740-1771) → um contratador tinha o monopólio da exploração.
Real Extração (depois de 1771) → quando a Coroa assumiu o controle direto da atividade no
Distrito.

Consequências da Mineração
1. Ocupação de vastas áreas do território colonial.
2. Florescimento da vida urbana.
3. Mudança da capital de Salvador para o Rio de Janeiro (1763).
4. Consolidação do mercado interno. A mineração movimentou a economia de todo território
colonial.
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Atividades
1) Quais são os agentes que contribuíram para o processo de expansão do território do Brasil?
2) O que são as Entradas e as Bandeiras?
3) Quais são os tipos de Bandeiras e seus respectivos objetivos?
4) Quais são os principais vultos dos bandeiristas?
5) Como se formaram as missões jesuíticas?
6) Quais foram os motivos da Revolta de Beckman?
7) Por que os criadores de gado foram obrigados procurar pastos cada vez mais pelo interior?
8) Quais são os tratados que redefiniram as fronteiras do Brasil?
9) O que é o princípio de uti possidetis?
10) Quais foram as principais regiões das minas exploradas?
11) Como se deu o processo de povoamento da região das minas? Relate os problemas e soluções
adotados.
12) Quais são os tipos de mineração adotados no Brasil?
13) O que são Datas?
14) Quais eram as funções da Intendência das Minas?
15) Qual foi o motivo da Guerra dos Emboabas?
16) Quais eram a funções das Casas de Fundição?
17) Quais são as consequências do processo de mineração do Brasil?

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