UM OLHAR PARA A DINÂMICA DO COORDENADOR DE GRUPOS
A coordenação de grupos é uma arte e uma ciência, na medida em que exige sensibilidade,
criatividade, emoção e ao mesmo tempo, teoria, técnica e compromisso com o cuidado humano.
O estudo e pesquisa sobre os grupos, em particular, sobre os fundamentos da coordenação são
fundamentais para o desenvolvimento dos aportes teóricos para melhor compreensão dos
fenômenos grupais e suas vicissitudes (OSÓRIO, 2000).
objetivo é apresentar algumas reflexões sobre os pressupostos e principais dilemas do
coordenador de grupos e apontar alguns elementos que possam ajudar os profissionais que tem
no grupo seu campo de trabalho.
O principal dilema do coordenador de grupo é encontrar a medida adequada para fazer
intervenções sobre os conteúdos que emergem na dinâmica grupal, que engloba o foca no
contexto científico, mas também no emocional que surgem do contato com o grupo.
É essencial iniciar um trabalho com grupos de forma receptiva e aberta. Neste intervalo entre a
prática e a teoria, entre o profissional e o pessoal é que podemos buscar o equilíbrio.
O lugar que o coordenador ocupa no grupo é de autoridade e sua figura é percebida no sistema
simbólico grupal como um modelo a ser seguido e, este, desempenha um papel fundamental
nas trocas e interações do universo que estar estruturando, organizando seus processos
internos e formando sua identidade (ANZIEU, 1983).
O exercício de coordenar grupos pressupõe um desenho de autoridade que permanece no
espaço multidimensional, mas que permite ao grupo fluir num movimento de construção da
própria identidade, estabelecer laços, criar vínculos, aproximar dos semelhantes e constatar as
diferenças (ANDALÓ, 2001; 2006).
A sinergia grupal deve surgir dentro do próprio grupo. A experiência com os diversos tipos de
grupos e diferentes situações, indica ao coordenador que sem impor, mas já utilizando um saber,
o bom senso, a flexibilidade e a capacidade de ouvir, assegure a totalidade do grupo e a
individualidade de cada ser que constitui o universo grupal.
Neste contexto, a palavra respeito adquire uma importância vital, sendo priorizada como o
princípio a ser adotado. Respeito às limitações, histórias, tradições, ritos, conquistas, saber,
experiências e competências de cada membro no grupo (LEWIN, 1948).
OS PRINCIPAIS PRESSUPOSTOS TEÓRICOS DA POSTURA DE UM COORDENADOR DE
UM PROCESSO GRUPAL
De modo geral e partindo das contribuições de MOSCOVICI (2001); VECCHIO (1975);
BECHELLI & SANTOS (2001, 2002) podemos dizer que são posturas esperadas pelo
coordenador de grupos:
- A competência técnica que seria o domínio dos conceitos científicos da área, dos instrumentos
a serem aplicados e de habilidade para intervir e administrar as questões grupais, de tal forma
que as pessoas envolvidas continuem trabalhando efetivamente;
- A competência interpessoal para conduzir o grupo com espontaneidade, propiciando um
ambiente propício à integração grupal;
- A responsabilidade ética com o grupo, que deve ser de uma dimensão humanística,
antiautoritária e universal. A ética é inalienável, não se flexibiliza, não se desdobra, não existe
nenhum talvez, nem se conjuga o verbo no passado e nem no futuro, está sempre no tempo
presente. É uma questão de atitude;
- Procura-se colocar entre parênteses os conceitos adquiridos durante a formação acadêmica,
para não enquadrar as pessoas em determinadas teorias prontas, acabadas e padronizados,
marginalizando-as.
- Evitar os juízos para científicos e observações provenientes das crenças populares e mitos que
não condizem com o universo grupal;
- Não permitir que idéias preconcebidas de uma acionalidade unidimensional decorrentes de seu
convívio social interfiram em sua percepção grupal, como: idade, sexo, cor, raça, cultura, religião,
traços físicos, trejeitos pessoais, outros;
- Orientar-se por meio do próprio tempo das pessoas, evitando atropelo e acima de tudo,
observar os ritmos, perceber os rituais e as crenças inerentes ao grupo;
- É fundamental evitar os conceitos, os preconceitos e os para-conceitos, o que torna vital a
necessidade de colocar em parêntese as emoções, ansiedades de expor um discurso, o temor
de errar, o desejo de não perder o (s) membro (s) do grupo, o temor da crítica dos participantes,
o medo de não obter uma avaliação positiva do trabalho realizado, o receio de perder toda a
afetividade nascida do encontro e articulada na relação com o grupo.
Todos estes fatores citados são atitudes esperadas e cuidados necessários para não obscurecer,
nem dificultar a dinâmica do grupo e, conseqüentemente, facilitar a caminhada na busca de
ampliar e aperfeiçoar os conhecimentos, desenvolver as potencialidades, promover a integração
e romper paradigmas, possibilitando mudanças, sem impedir o crescimento intra, inter e grupal.
O papel do coordenador é intervir, lidando com a dialética dos elementos grupais, trazendo-os
para uma dimensão transparente, plana, horizontal, de modo que todos tenham acesso às
questões que estão ocorrendo no universo grupal.
Isso significa pontuar os elementos objetivos e a manifestação da subjetividade que se
encontram numa dimensão entre o invisível e o latente, que reflete nas atitudes, valores, crenças,
mitos que evidenciam comportamentos arraigados, hábitos, ritos, sistema de comunicação, mitos
e lideranças presentes no contexto grupal.
A intervenção do coordenador após um fato ocorrido ou uma vivência grupal é denominada por
MOSCOVICI (1965) como ciclo do processamento.
Esse momento, na visão da autora é de fundamental importância, pois:
1) oportuniza que os membros do grupo vivenciem uma determinada situação e tomem
consciência de seus sentimentos relativos ao tema proposto;
2) correlaciona a teoria com o que foi vivenciado, de uma forma ilustrativa, sem julgar ou mesmo
concluir, permitindo que cada membro do grupo sinta e perceba as emoções suscitadas desta
experiência. A leitura verticalizada que o coordenador faz da situação permite a reflexão dos
aspectos perceptíveis e significativos no e para o grupo.
3) abre oportunidades para o crescimento pessoal quando, ao ser ressonante com a realidade
interna do participante, permite a visualização do cenário de sua condição atual e idealização do
que esta buscando e traça planos para a concretização.
LEWIN (1948), MAILHIOT (1981) e MOSCOVICI (2001a) discorrem sobre o processo de
maturidade grupal, o que seria a produção efetiva do grupo, quando este conquista um estado
de tolerância e aceitação das diferenças individuais, o que permitem a integração e o equilíbrio
entre todos os seus membros.
Este fato leva as comunicações transparentes e autênticas, que facilita a tomada de decisões
conjuntas, que minimizam os conflitos, oportunizam a criatividade, a inovação e a ousadia frente
aos desafios das tarefas a serem cumpridas.
Finalmente, apresenta resultado desejado com uma produção efetiva. É importante ressaltar que
o equilíbrio no grupo é uma de suas fases em que transparecem a abertura e a flexibilidade.
A dinâmica grupal encontra-se em contínuo movimento sempre em processo de um estágio a
outro, em fluxo e refluxo, susceptível aos fatores intrínsecos e extrínsecos que impactam sua
estrutura e conteúdo e exige do coordenador, atenção a diversos aspectos que exploramos a
seguir.
1. Continência: uma atitude transversal
O coordenador que visa processo de mudança precisa observar os diversos estágios inerentes
ao percurso do grupo, ciente de que as pessoas mesmo sensibilizadas e conscientes da
necessidade de mudar estão sujeitas aos retrocessos, bloqueios, frustrações, pessimismos e
resistências.
A ação em direção a mudança não autoriza o seu sucesso. A intervenção só deve acontecer
após investigar e diagnosticar o cenário do grupo. É preciso verificar quais os fenômenos
psicossociológicos de dimensão macro e micro que determinam a construção da realidade
grupal. O comportamento grupal implica em dois pólos: o que a realidade sócio-histórica oferece
na construção estrutural e a realidade subjetiva que fornece subsídios para o processo e o
conteúdo do grupo.
Cada grupo é portador de um conjunto de crenças ideológicas que norteiam seu discurso
filosófico e sua ação. Esse reflete no comportamento apresentado na resolução de conflitos, luta
pelo poder, contatos interpessoais, sistema de comunicação, tomada de decisão e políticas que
provocam as mudanças e, se manifestam por meio dos símbolos, tradições, rituais, códigos, que
transparecem no discurso manifesto e no latente (ENRIQUEZ, 1997).
Para TORRES et al, (2003) é importante também que o coordenador conheça as características
relevantes que se manifestam no contexto micro, como por exemplo, a forma como o grupo
organiza o funcionamento das tarefas, dos procedimentos, normas, leis, regras para o alcance
dos resultados, dos projetos, das atividades e as interações entre os participantes do grupo que
submergem sentimentos, percepções, motivações, satisfações, emoções.
Sob a luz do movimento interno dos participantes e das condições externas na interação grupal,
é que será possível ao coordenador interferir, propondo mudanças. Esta compreensão lhe
oferece uma dimensão conceitual que norteia a trajetória da intervenção e delineia uma
prospectiva de novos elementos com a finalidade de transformar e renovar os processos do
grupo.
A compreensão da capacidade de produção do grupo e de sua dinâmica sócio-afetiva, a
estratégia do coordenador, o comportamento individual de cada membro no que se refere a sua
capacidade de tomar decisão e a flexibilidade, contribuem de modo significativo na maneira em
que o indivíduo aceita mudanças, articula uma ação e lida construtivamente com as mesmas
(BECHELLI & SANTOS, 2001, 2002; MOSCOVICI, 1965).
Nesse sentido, é preciso buscar força no próprio processo de mudança, na nucleação e na
identidade que o grupo constrói para impulsionar o rompimento dos paradigmas. A força de
pertencer a um grupo, de se sentir juntos, cria uma associação de energia. ENRIQUEZ (1997, p.
117) sinaliza que o grupo possui a força da mudança e esta é um compromisso de todos “uma
luta só pode ser eficaz se for assumida por um grupo e não por um indivíduo sozinho”.