Fisiologia do Sistema Cardiovascular
Conteudista: Prof.ª Dra. Tábata de Paula Facioli Marinheiro
Revisão Textual: Prof.ª M.ª Sandra Regina Fonseca Moreira
Objetivos da Unidade:
Compreender o funcionamento fisiológico básico do sistema
cardiovascular;
Conhecer as principais respostas desse sistema diante das exigências
físicas.
📄 Contextualização
📄 Material Teórico
📄 Material Complementar
📄 Referências
📄 Contextualização
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A Fisiologia do Sistema Cardiovascular, tópico abordado nesta Unidade, se dedica a estudar
como, no corpo humano, o coração e os vasos sanguíneos conseguem transportar e distribuir
oxigênio e nutrientes para todos os tecidos e órgãos. [O entendimento desse sistema em
repouso, e principalmente diante de situações com maiores exigências físicas, como a realização
de atividades de vida diária (limpar uma casa, caminhar até o mercado) até a prática de exercício
físico são relevantes, pois o conhecimento da demanda cardiovascular frente a essas diferentes
exigências metabólicas é de suma importância para os profissionais da saúde, uma vez que a
mudança de estilo de vida por meio da prática regular de exercício físico associada a uma dieta
mais saudável, têm sido empregadas regularmente na prevenção e tratamento de doenças
cardiovasculares, como por exemplo, a hipertensão arterial].
As adaptações cardiovasculares ao exercício físico envolvem respostas precoces e tardias, com
origens diversas e afetando múltiplas variáveis que, em conjunto, determinam uma resposta
final que varia com o indivíduo e o tipo de treino realizado (intensidade, volume e duração).
[Entender as alterações agudas e crônicas desse aumento nas exigências físicas no sistema
cardiovascular auxiliará o profissional de saúde a entender as necessidades do indivíduo e
realizar prescrições condizentes com suas necessidades, obtendo máximo resultado na
prevenção de doenças e melhora da capacidade cardiovascular]. Portanto, ao final desta unidade,
entenderemos como o coração e os vasos funcionam e quais tipos de exercícios causam
determinadas alterações, orientando, assim, futuras prescrições.
Você Sabia?
Para profissionais da área da saúde, como fisioterapeutas e educadores
físicos, o conhecimento das demandas cardiovasculares em repouso e
suas alterações durante o exercício físico, bem como as adaptações
tardias induzidas por essa prática, são de suma importância na
prescrição adequada do exercício físico frente às necessidades de cada
indivíduo. E que esse mesmo conhecimento é importante para
profissionais que prescrevem dieta alimentar, caso dos nutricionistas,
pois a depender das respostas cardiovasculares de cada indivíduo, seja
ele sedentário ou praticante de exercício físico, sendo que para este
último, o tipo de exercício praticado também deve ser considerado, se
fazem necessárias diferentes demandas energéticas e,
consequentemente, adequadas dietas alimentares.
📄 Material Teórico
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Introdução ao Sistema Cardiovascular
O corpo humano foi fisiologicamente dividido em diferentes sistemas (nervoso, muscular,
cardíaco, respiratório, renal e endócrino). Cada um desses sistemas tem uma função específica e
essencial para a sobrevivência humana.
Importante!
O Sistema cardiovascular tem como função primordial o transporte e a
distribuição de oxigênio e nutrientes para tecidos e órgãos, o que
ocorre por meio de uma bomba (coração), uma série de tubos para
distribuição e coleta (circulação arteriovenosa), e uma rede de vasos
finos que permite trocas rápidas entre os tecidos, os capilares
(microcirculação).
O sistema circulatório é dividido em Figura 1:
Circulação Pulmonar (pequena circulação): ventrículo direito → artéria pulmonar →
arteríolas → capilares pulmonares (pulmão) → vênulas → veia pulmonar → átrio
esquerdo;
Circulação Sistêmica (grande circulação): ventrículo esquerdo → aorta → arteríolas
→ capilares (tecidos e órgãos) → vênulas → veia cava → átrio direito.
Figura 1 – Esquematização da Circulação
pulmonar (pequena circulação) e Circulação Sistêmica
(grande circulação)
Fonte: Adaptada de SILVERTHORN, 2010
Nas artérias pulmonares circula sangue venoso (rico em CO²), enquanto na aorta, circula sangue
arterial (rico em O²). Já nas veias acontece o contrário: nas veias pulmonares circula sangue
arterial e nas veias cavas circula sangue venoso Figura 2.
Figura 2 – Esquematização da circulação sistêmica e
pulmonar em relação aos componentes gasosos O2 e CO2
As artérias são vasos que saem do coração, ou seja, levam sangue do coração para outros órgãos
do corpo. Por sua vez, as veias são vasos que chegam ao coração, ou seja, trazem sangue dos
outros órgãos para o coração.
Importante!
Nos capilares pulmonares ocorre a hematose, que é o processo de troca
gasosa entre o sangue venoso e arterial nos alvéolos
pulmonares. Enquanto nos capilares do sistema sistêmico ocorrem as
trocas de nutrientes e gases entre o sangue e os tecidos.
É por meio da circulação sistêmica que as células do organismo são
supridas de elementos necessários para que exerçam suas funções,
além de recolherem todos os produtos tóxicos produzidos pelo seu
próprio funcionamento.
O coração é o órgão responsável por bombear o sangue através de toda essa rede de vasos. Ele é
um órgão oco com paredes constituídas por músculo estriado esquelético. Essa musculatura se
contrai de maneira automática (involuntária), diferente do restante de nossa musculatura
estriada esquelética, a qual contraímos voluntariamente. O coração é dividido em quatro câmaras
– dois átrios e dois ventrículos – pelos quais o sangue circula de maneira unidirecional (sempre
dos átrios para os ventrículos) (Figura 3). O retorno do sangue pelo caminho contrário não
ocorre, porque existem as válvulas cardíacas atrioventriculares (válvula tricúspide –
posicionada entre o átrio e o ventrículo direito; e válvula mitral – posicionada entre o átrio e o
ventrículo esquerdo) e as semilunares (válvula aórtica – posicionada na saída do ventrículo
esquerdo para a aorta; e válvula pulmonar – posicionada na saída do fluxo sanguíneo do
ventrículo direito para o tronco da artéria pulmonar) que impedem esse retorno, garantindo o
fluxo sanguíneo unidirecional.
Figura 3 – Estrutura do coração, indicando câmaras
cardíacas e as válvulas
Fonte: Adaptada de SILVERTHORN, 2010
Ciclo Cardíaco
É o ciclo de contração-relaxamento do coração que ocorre a cada batimento cardíaco. Ele possui
duas fases: a diástole e a sístole.
Saiba Mais
A diástole é a fase em que o sangue chega ao coração, preenchendo os
átrios. Nesse momento, as válvulas atrioventriculares estão abertas
para que ocorra o fluxo sanguíneo dos átrios para os ventrículos, e as
válvulas semilunares fechadas, para evitar o retorno do sangue para os
ventrículos.
A sístole é a fase em que ocorre a contração dos ventrículos e o sangue é
bombeado para fora do coração. Nesse momento, as válvulas
atrioventriculares estão fechadas para evitar o retorno do sangue para
os átrios, e as válvulas semilunares estão abertas para que ocorra o
fluxo sanguíneo dos ventrículos para a artéria aorta ou pulmonar.
Sons Cardíacos
Esse fechamento das válvulas no coração gera os chamados sons cardíacos, que são os sons que
escutamos com um estetoscópio durante o batimento cardíaco. Quando ocorre a contração
ventricular, começo da sístole, ocorre o fechamento das válvulas atrioventriculares. Esse som é
baixo e de maior duração (chamado de primeira bulha). Já no final da sístole, ocorre o
fechamento das válvulas semilunares, aórtica e pulmonar, o que faz com que se gere outro som,
porém, desta vez, mais agudo e de curta duração (chamado de segunda bulha).
Débito Cardíaco
Por sua vez, a quantidade de sangue ejetada pelo ventrículo esquerdo por minuto é chamada de
Débito cardíaco (DC), ou Volume Minuto Cardíaco (VMC) e é dependente da quantidade de
sangue ejetada por batimento cardíaco (volume sistólico – VS; altamente influenciado pela Lei
de Frank-Starling) e do número de batimentos cardíacos por minuto (frequência cardíaca – FC;
altamente influenciado pelo Sistema Nervoso Autônomo). Logo, o VMC pode ser calculado pela
seguinte equação:
VMC = FC x VS
Por exemplo, um homem adulto em repouso, com cerca de 70 kg, com VS de 80mL e uma FC de
65 bpm (batimentos por minuto), terá um VMC de 5200mL/min, que é um valor representativo
da média da população. Devemos levar em consideração, para o cálculo do VMC, fatores como
sexo, peso e altura do indivíduo em questão. Entenderemos o controle do VMC e as alterações
observados durante o exercício, mais para frente nesta unidade.
E o que é a Lei ou Mecanismo de Frank-Starling?
O Mecanismo de Frank-Starling ocorre como resultado da relação comprimento-tensão
observada no músculo estriado e se refere à capacidade do coração de se adaptar a variações do
volume sanguíneo por meio de mudanças na contratilidade. A quantidade de sangue bombeada
pelo coração a cada minuto é determinada pelo volume de sangue que flui das veias para o
coração, o que é chamado de retorno venoso. Desta forma, quanto maior for o retorno venoso,
maior será o pré-estiramento das fibras musculares do miocárdio e, consequentemente, maior
será a capacidade de ejeção do ventrículo esquerdo. A capacidade do coração para se adaptar a
esses volumes variáveis de sangue que chegam ao coração recebe o nome de Mecanismo de
Frank-Starling. Quanto mais o músculo é distendido pelo enchimento, maior é a força de
contração e maior é a quantidade de sangue bombeada para a aorta. Enfim, o coração bombeia
todo o sangue que chega a ele, sem permitir o represamento excessivo de sangue nas veias.
Vídeo
Sistema Cardiovascular / Sistema Circulatório
Vamos fazer uma breve revisão do que foi falado até aqui. Para isto
assista ao vídeo a seguir:
SISTEMA CARDIOVASCULAR / SISTEMA CIRCULATÓRIO
Funções do Sistema Cardiovascular
O sistema cardiovascular tem papel central no funcionamento e na manutenção de células e
órgãos. Sua função principal é a de levar nutrientes, oxigênio e água para todas as células do
organismo e remover CO², ureia e lactato. O sistema circulatório também possui outras funções
como auxiliar na manutenção da temperatura corporal constante, participar do controle
hormonal (distribuindo e secretando hormônios para os tecidos), realizar a manutenção dos
líquidos corporais e participar do sistema de defesa imunológica do organismo através do
transporte de anticorpos.
A hemodinâmica estuda o funcionamento da circulação sanguínea, cuja função primordial é
atender aos diferentes órgãos quanto as suas necessidades metabólicas em repouso, e também
em situações nas quais a demanda metabólica aumenta.
Reflita
Durante um exercício físico, por exemplo, diversos órgãos mudam sua
atuação, aumentando ou reduzindo, o que vai demandar maior ou
menor fluxo sanguíneo. Nesse caso, os músculos são tecidos que
demandam maior quantidade de oxigênio para poder efetuar as
contrações musculares.
Para que o sistema cardiocirculatório consiga atender aos diferentes órgãos e suas necessidades
metabólicas, ele mantém um território vascular com “alta pressão”, que é o sistema arterial; e
um território com “baixa pressão”, que é o sistema venoso, o qual exibe menor pressão em
relação ao sistema arterial. Para entender melhor como funciona esse mecanismo, precisamos
conhecer as características dos diferentes vasos sanguíneos que compõem o sistema
circulatório:
Artérias: possuem fortes paredes, pois sua função é de
transportar sangue em alta pressão e alta velocidade para os
tecidos;
Arteríolas: são os ramos finais do sistema arterial. Elas controlam o sangue que será
liberado para os capilares. Possuem fortes paredes que podem sofrer vasoconstrição
(diminuindo o diâmetro do vaso), ou vasodilatação (aumentando o diâmetro do
vaso);
Veias: são os vasos mais distensíveis do sistema circulatório, ou seja, possuem
paredes com alta distensibilidade. Dessa forma, conseguem armazenar uma grande
quantidade de sangue que pode ser utilizado por qualquer outra parte do organismo,
quando necessário, funcionando como um reservatório;
Vênulas: coletam o sangue dos capilares e vão gradualmente aumentando seu
calibre e formando as veias progressivamente;
Capilares: é onde ocorrem todas as trocas (gases, nutrientes etc.) entre o sangue e
os demais órgãos e tecidos. Possuem paredes finas que facilitam essas trocas.
Relação entre Fluxo, Pressão e Resistência
A relação entre fluxo sanguíneo (DC ou VMC), pressão arterial média (PAM) e resistência ao
fluxo sanguíneo (RP) é dada pela equação:
PAM = VMC x RP
Ou seja, o aumento da PAM é diretamente proporcional ao aumento do VMC e da RP. Se o VMC
aumenta, ou se a RP também aumenta, a PAM irá aumentar.
Como vimos anteriormente nesta Unidade, o VMC corresponde à quantidade de sangue ejetada
pelo ventrículo esquerdo por minuto. Já a pressão arterial (PA) corresponde à força que o sangue
exerce sobre as paredes do vaso em determinada área. A medida da pressão arterial ainda é o
recurso mais utilizado para diagnóstico e tratamento da hipertensão arterial. Dessa forma, a
hipertensão arterial é definida basicamente como elevação dos valores de pressão arterial. A
compreensão dos mecanismos que controlam a pressão arterial é de suma importância para os
profissionais da área da saúde, uma vez que o estilo de vida como sedentarismo, prática regular
de exercício físico ou de forma esporádica, bem como a alimentação são fatores que influenciam
diretamente na prevenção e no tratamento do quadro hipertensivo. Por fim, a resistência
periférica é definida como qualquer impedimento proporcionado pelo vaso à corrente
sanguínea. Ou seja, trata-se da resistência oferecida pelos vasos sanguíneos contra o fluxo
sanguíneo. Esses vasos podem estar mais ou menos contraídos ou dilatados, alterando assim a
resistência à circulação do sangue.
Entendendo a equação apresentada, quanto maior o fluxo sanguíneo (débito cardíaco) e quanto
maior a resistência periférica, maior será a pressão arterial. Se compararmos a circulação
sanguínea com o funcionamento de uma mangueira de jardim, a pressão é determinada pela
proporção de água que entra e aquela que sai da mangueira. Para se aumentar a pressão dentro
desse sistema, de forma aguda, diminui-se o diâmetro de abertura da mangueira (RP),
aumentando, assim, a resistência. Outra forma de aumentar a pressão também seria aumentar o
fluxo total de água dentro da mangueira (VMC).
Regulação da Pressão Arterial
A pressão arterial, como vimos anteriormente, é uma das variáveis hemodinâmicas de medida
mais comuns, pois ela é aferida de modo relativamente fácil. Apesar da pressão arterial ser
diferente em diversos locais da circulação, no geral, quando se deseja obter o valor da PA, faz-se
a medida no braço, pois a artéria braquial fica, aproximadamente, na altura da raiz da aorta. Ou
seja, quando aferimos a pressão na artéria braquial estamos, na verdade, aferindo a pressão que
o sangue exerce sobre as paredes da aorta torácica. Além de saber aferir a PA, é necessário
também compreender em que ela consiste e de quais fatores depende.
Nesse sentido, existem três mecanismos de regulação da PA, sendo eles: Local, Hormonal e
Neural, os quais iremos apresentar a seguir.
Regulação Local da Pressão Arterial
A regulação Local é chamada assim pois acontece no próprio leito capilar, ou seja, no vaso, e as
variações locais que ocorrem nesses vasos podem regular a vasomotricidade. Por exemplo, no
caso da vasodilatação temos a dilatação das artérias, o que vai relaxar o esfíncter pré-capilar,
aumentando o fluxo sanguíneo nas redes capilares. Por sua vez, na vasoconstrição, efeitos
opostos irão ocorrer. Essa capacidade do tecido de se autoajustar é chamada de autorregulação,
que ocorre por meio de dois estímulos diferentes: alterações físicas ou substâncias químicas.
Nas alterações físicas podemos citar uma situação de aquecimento, por exemplo, a realização de
exercício físico, o qual provocará uma vasodilatação; ou uma situação de esfriamento, que
provocará uma vasoconstrição. Essas alterações físicas são chamadas de Resposta Miogênica,
nome dado por acontecerem nos músculos lisos das arteríolas.
Saiba Mais
Quando o músculo é estirado, ele se contrai com maior força e quando
esse estiramento diminui ou cessa, o músculo relaxa. Assim ocorre o
controle do fluxo sanguíneo.
Já nos estímulos por substâncias químicas, sejam elas vasoconstritoras ou vasodilatadoras, o
diâmetro dos vasos pode se alterar. São exemplos dessas substâncias químicas o óxido nítrico
(NO), responsável por uma vasodilatação, e a endotelina, responsável por uma vasoconstrição.