📄 Contextualização
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A Fisiologia do Sistema Respiratório, tópico abordado nesta unidade, dedica-se a estudar a
respiração, as trocas gasosas e o aporte de oxigênio essencial para a sobrevivência humana. O
entendimento desse sistema em repouso, e principalmente diante de situações de maiores
exigências físicas, é relevante, pois, durante a realização de atividades de vida diária (limpar uma
casa ou caminhar até o mercado) e da prática de exercício físico, necessitamos de uma maior
disponibilidade de oxigênio para manutenção do desempenho do corpo humano. Esse aumento
da disponibilidade de oxigênio se dá por meio do aumento da ventilação pulmonar. Porém,
existem casos específicos, como em determinadas patologias ou diante de um treinamento
prescrito equivocadamente, em que a hiperventilação pode ocorrer de forma descontrolada,
podendo levar ao aumento exacerbado do pH sanguíneo, acarretando sérios problemas.
Portanto, ao final desta unidade, entenderemos como o corpo humano é capaz de captar ar do
meio ambiente, realizar a troca de gases e absorver nutrientes, além de conhecer os efeitos do
aumento das exigências físicas no sistema respiratório.
📄 Material Teórico
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Anatomia Funcional da Árvore
Respiratória
Os seres humanos são aeróbios, isso significa que o oxigênio é um elemento fundamental para
sua sobrevivência. Nas células, a oxidação de nutrientes ocorre quase sempre na presença de
oxigênio. Portanto, é imprescindível a obtenção desse gás, presente na atmosfera, e sua
condução para as células na utilização do metabolismo aeróbio. Essa troca de oxigênio (O2) e gás
carbônico (CO2) entre o meio ambiente e o organismo humano ocorre por meio do sistema
respiratório.
Glossário
Oxidação: reação que, envolvendo um elemento químico, ocasiona
perda de elétrons e consequente aumento de sua carga.
Importante!
A principal função do sistema respiratório é promover a troca gasosa,
fornecendo oxigênio para o tecido e removendo gás carbônico
resultante do metabolismo celular (Figura 1).
Ele ainda possui outras funções como:
Manter o pH plasmático dentro dos valores de normalidade;
Participar do equilíbrio térmico (o aumento da ventilação acarreta maior perda de
calor e água);
Fonação;
Filtrar eventuais êmbolos trazidos pela circulação venosa;
Defesa contra agentes agressores (bactérias, cigarro, poluição);
Produção e metabolização de substâncias vasoativas.
Figura 1 – Representação esquemática das trocas gasosas
entre os tecidos e o meio ambiente
Fonte: SILVERTHORN, 2010
Estruturas Pulmonares
O ar atmosférico pode entrar no organismo tanto pelo nariz como pela boca. Quando o ar que
entra pelas fossas nasais, é filtrado, umedecido e aquecido antes de ir para a traqueia. Os cílios
que revestem o epitélio das fossas nasais retêm pequenas partículas presentes no ar, assim
como os microrganismos. Essas partículas aderem ao muco produzido pelas células epiteliais e,
posteriormente, são expelidas das fossas nasais. Já o ar que entra pela boca não possui essa
filtragem. Após esse primeiro percurso, o ar passa pela faringe, pela laringe, atravessa a glote,
segue para a traqueia até alcançar a árvore traqueobrônquica e os alvéolos.
A traqueia, que tem como função conduzir o ar e fazer a ligação entre a parte superior e a parte
inferior, bifurca-se em dois brônquios principais. Cada brônquio ramifica-se inúmeras vezes e
origina os bronquíolos, que progressivamente se tornam menos calibrosos e mais ramificados.
Importante!
As últimas porções da árvore brônquica denominam-se bronquíolos
terminais, que constituem a transição entre a porção condutora do ar e
a respiratória, em que ocorrem as trocas gasosas.
No prolongamento da árvore respiratória, o número de alvéolos aumenta e a parede dos
bronquíolos respiratórios passa a ser constituída apenas por alvéolos. Os pulmões possuem
cerca de 300 milhões de alvéolos. Os alvéolos são estruturas de paredes delgadas por onde os
gases atmosféricos e sanguíneos podem se difundir (Figura 2).
Figura 2 – Representação das principais estruturas
pulmonares
Fonte: PHITON-CURI, 2013
As Vias Aéreas (VAs) são divididas de acordo com sua anatomia em:
VAs superiores: situam-se fora da cavidade torácica e são constituídas pela cavidade
nasal, faringe e laringe;
VAs inferiores: constituídas pela traqueia, pelos brônquios, pelos bronquíolos e
pelos alvéolos.
Mecânica e Músculos da Respiração
O movimento do ar ambiente para os pulmões é denominado ventilação pulmonar. O ar que
entra pelo nariz ou pela boca percorre um caminho dividido em três zonas que compõem o
sistema respiratório: (1) zona de transporte (zona 1 a 16), que é formada pelas vias respiratórias
superiores e pela árvore traqueobrônquica; (2) zona de transição (17 a 19); e (3) zona
respiratória (20 a 23), que é constituída pelos ductos, pelos sacos alveolares e pelos alvéolos, a
qual constitui o local de permuta gasosa (Figura 3).
Figura 3 – Representação esquemática das subdivisões do
sistema respiratório
Fonte: PHITON-CURI, 2013
A ventilação pulmonar envolve a movimentação do sistema respiratório, que requer a realização
de um trabalho mecânico para vencer forças de oposição, as quais veremos mais
detalhadamente adiante, são elas: i) forças elásticas dos tecidos pulmonares e da parede
torácica, ii) forças resistivas resultantes do fluxo de gás pelas vias respiratórias e movimentação
dos tecidos do pulmão e da parede torácica.
Como parede torácica, subentendem-se todas as estruturas que se movem durante o ciclo
respiratório, à exceção dos pulmões. Os pulmões são separados da parede torácica pelo espaço
pleural. Cada pulmão tem acoplado a si a pleura visceral. As pleuras produzem o líquido pleural,
que preenche o espaço entre elas, denominado cavidade pleural. Esse líquido tem ação
lubrificante, reduz o atrito e possibilita que os pulmões deslizem facilmente sob a parede
torácica durante a inspiração e a expiração, evitando o contato entre as pleuras.
Para alterar o seu volume durante a inspiração e a expiração, os pulmões dependem de meios
acessórios, pois não contêm músculos esqueléticos. Dessa forma, para entender como acontece
a mecânica da respiração, precisamos ter em mente dois conceitos importantes, são eles:
Inspiração, que é a entrada de ar nos pulmões;
Expiração, que é saída de ar dos pulmões.
O músculo diafragma é essencial para a respiração, isso porque respiramos por diferença de
pressão. Quando o diafragma se contrai, ocorre o seu rebaixamento e, como a pleura parietal dos
pulmões está ligada ao diafragma, acaba tracionando os pulmões com ele. Ao tracionar, o
volume do sistema respiratório aumenta, a pressão dentro dos pulmões (pressão alveolar ou
intrapulmonar) se torna menor que a pressão atmosférica e o ar é puxado do meio de maior
pressão (atmosfera) para o de menor pressão (pulmões).
A inspiração tranquila é realizada quase que totalmente pelo diafragma, sendo que os músculos
intercostais externos também podem ajudar elevando as costelas e aumentando o diâmetro
horizontal do sistema (movimento de alça de balde). Já na expiração passiva, ocorre
simplesmente o relaxamento do diafragma, e a própria retração elástica dos pulmões e da caixa
torácica comprime os pulmões fazendo com que a pressão alveolar se torne superior à pressão
atmosférica e então o ar é empurrado para fora do sistema. Essa mecânica acontece na
inspiração e na expiração tranquila, porém, há momentos em que precisamos de uma inspiração
e de uma expiração forçada. Nesses casos, existem alguns músculos auxiliares que ajudam a
fazer esse tipo de respiração.
Reflita
Quando realizamos algum tipo de atividade física, por exemplo,
aumentamos a ventilação pulmonar para que o sangue seja mais
eficientemente oxigenado nos pulmões. Nesse momento, fazemos uma
inspiração forçada; assim, outros músculos, além do diafragma,
acabam auxiliando na inspiração.
Os músculos que auxiliam em uma inspiração forçada são: intercostais externos, serráteis
anteriores e escalenos, que têm como principal função elevar as costelas, e os
esternocleidomastoideos, que, quando contraem, elevam o osso esterno. Todos esses músculos
atuando juntos ajudam a aumentar ainda mais o diâmetro do sistema respiratório para que o ar
entre com maior velocidade e maior volume. Da mesma maneira, quando precisamos realizar
uma expiração forçada, como durante a tosse, músculos acessórios da respiração acabam
ajudando, porque a retração elástica dos pulmões e da caixa torácica não é suficiente para expelir
o ar do sistema em altas velocidades. Os músculos que ajudam a comprimir o tórax e a expelir o
ar dos pulmões são os abdominais e os intercostais internos.
Figura 4 – Representação dos principais músculos
envolvidos na inspiração (lado esquerdo) e na expiração
(lado direito)
Fonte: PHITON-CURI, 2013
Resumindo as etapas da respiração (Figura 5):
inspiração: contração do diafragma e dos músculos intercostais → diafragma abaixa
e costelas elevam-se → aumento da caixa torácica → redução da pressão interna →
entrada do ar;
expiração: relaxamento do diafragma e dos músculos intercostais → diafragma
eleva-se e costelas abaixam → diminui o volume da caixa torácica → aumento da
pressão interna → saída do ar.
Figura 5
Fonte: GUYTON; HALL, 2011
Contração e expansão da caixa torácica durante a expiração
e a inspiração, mostrando a contração diafragmática, a
função dos músculos intercostais, a elevação e a depressão
da caixa torácica.
Quando falamos de mecânica respiratória, devemos lembrar também que o pulmão possui
propriedades elásticas, o que devemos associar à complacência pulmonar, que é a capacidade de
distensibilidade do pulmão.
A complacência pulmonar não é constante, ou seja, é variável conforme o momento do ciclo
respiratório, sendo menor em volumes extremos, como no fim da expiração e no fim da
inspiração, pois é mais difícil modificar o volume pulmonar. Já em valores de volume próximo da
normalidade, a complacência é maior, ou seja, é mais fácil modificar o volume do pulmão.
A complacência também é diferente na inspiração e na expiração, o que chamamos de histerese.
Isso ocorre porque na inspiração é necessário romper algumas forças de tensão superficial do
líquido que reveste o pulmão, enquanto na expiração essas forças já estão rompidas, o que torna
mais fácil expirar, ou seja, a complacência na expiração é maior que na inspiração.
Além disso, o líquido surfactante diminui a tensão superficial presente nos alvéolos, o que vai
facilitar a distensibilidade pulmonar, contribuindo para o aumento na complacência pulmonar,
além de colaborar para a diminuição do trabalho respiratório durante a expansão pulmonar. O
líquido surfactante também é responsável por isolar a parede do alvéolo, impedindo, em uma
situação normal, o extravasamento do líquido do capilar para o alvéolo.
Importante!
Assim como o pulmão, a parede torácica também possui propriedades
elásticas e sua complacência é semelhante ao pulmão quando
analisados de forma isolada.
Por que de forma isolada?
Porque, quando associamos o sistema “parede torácica + pulmão”,
observamos uma complacência pulmonar menor do que em cada um
desses componentes isoladamente, pois essa associação torna o
sistema mais resistente, ou seja, difícil de distender.
Enquanto o pulmão possui tendência em querer se retrair,
independentemente do volume em que o sistema se encontra, a parede
torácica pode querer expandir ou retrair dependendo do momento do
ciclo respiratório.
Reflita
Se os pulmões possuem uma retração elástica, como eles conseguem se
manter sempre abertos e não encolhem dentro do tórax?
Isso acontece pela presença da pleura. A pleura parietal fica aderida à
parede do tórax e ao diafragma, enquanto a pleura visceral fica aderida
à parede dos pulmões. Entre essas pleuras, existe um líquido pleural,
que faz existir uma leve pressão negativa entre elas, fazendo com que
os pulmões fiquem sempre abertos quando estão em repouso.
Volumes e Capacidades Pulmonares
Os volumes pulmonares podem ser mensurados por meio de um aparelho denominado
espirômetro, capaz de mensurar o volume de ar inspirado e expirado. Esses volumes são
divididos em quatro, bem como as capacidades pulmonares (Figura 6), e variam em função de
sexo, idade, superfície corporal, prática de atividade física e postura.
De acordo com essas variáveis, existem padrões preestabelecidos para indivíduos de mesmo
sexo, idade e estatura, medidos sob situação de repouso. Os volumes respiratórios incluem
volume corrente, volume residual, volume de reserva expiratório e volume de reserva
inspiratório.
Volume corrente: volume de ar inspirado ou expirado para cada respiração normal
(cerca de 500 mL);
Volume residual: volume de ar que permanece nos pulmões após esforço expiratório
máximo (cerca de 1200 mL);
Volume de reserva expiratório: volume máximo de ar que pode ser expirado, além
do volume corrente normal (cerca de 1100 mL);
Volume de reserva inspiratório: volume máximo de ar que pode ser inspirado, além
do volume corrente normal (cerca de 3000 mL).
A partir desses volumes, podemos definir as seguintes capacidades.
Capacidade funcional residual: volume de reserva expiratório + volume residual
(cerca de 2300 mL);
Capacidade vital: volume de reserva inspiratório + volume de reserva expiratório +
volume corrente (cerca de 4600 mL);
Capacidade pulmonar total: capacidade vital + volume residual;
Capacidade inspiratória: volume máximo inspirado voluntariamente a partir do
final de uma expiração espontânea.
Figura 6 – Diagrama mostrando as excursões respiratórias
durante respiração normal e durante inspiração e
expiração máximas