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O documento compara o empirismo escolástico, que integra razão e fé, com o racionalismo moderno de Descartes, que prioriza a razão como base do conhecimento. Descartes estabelece quatro preceitos para garantir um conhecimento verdadeiro, utilizando a dúvida metódica como ferramenta para alcançar certezas absolutas. Ser 'cartesiano' implica em uma abordagem racional e metódica, mas pode também ser visto como uma crítica à rigidez e falta de emoção.

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O documento compara o empirismo escolástico, que integra razão e fé, com o racionalismo moderno de Descartes, que prioriza a razão como base do conhecimento. Descartes estabelece quatro preceitos para garantir um conhecimento verdadeiro, utilizando a dúvida metódica como ferramenta para alcançar certezas absolutas. Ser 'cartesiano' implica em uma abordagem racional e metódica, mas pode também ser visto como uma crítica à rigidez e falta de emoção.

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1-

A diferença fundamental entre o empirismo da tradição escolástica e o racionalismo moderno de


René Descartes está relacionada à maneira como cada corrente filosófica compreende a origem
e o fundamento do conhecimento humano.

A tradição escolástica, dominante durante a Idade Média, estava fortemente ligada ao


pensamento de Aristóteles e à teologia cristã. Para os escolásticos, o conhecimento começava
pelos sentidos: o ser humano, ao observar o mundo, recolhe impressões sensoriais que são
depois organizadas pela razão. Assim, o conhecimento era visto como uma progressiva
abstração da experiência concreta. Além disso, a escolástica não separava filosofia e fé: a
razão e a experiência sensível deveriam, em última instância, estar em harmonia com a revelação
divina. Isso significa que o empirismo escolástico não era puramente científico, mas também
teológico, voltado para explicar e justificar a ordem criada por Deus.

Já o racionalismo moderno, iniciado por Descartes no século XVII, rompe com esse vínculo entre
filosofia e teologia. Para Descartes, a razão é o ponto de partida seguro para o conhecimento.
Ele desconfiava dos sentidos, afirmando que estes podem enganar (como nos sonhos ou ilusões
de ótica). Por isso, defendia que apenas as ideias claras e distintas, alcançadas pelo uso
rigoroso da razão, poderiam fundamentar um saber verdadeiro. O exemplo clássico é o “penso,
logo existo”, que mostra que a certeza racional é anterior a qualquer experiência sensível.

Assim, a tradição escolástica é empirista, pois valoriza a experiência e a observação do mundo


como base do conhecimento, sempre integrada ao horizonte religioso. Já o racionalismo
cartesiano é inatista, defendendo que existem princípios racionais inatos no sujeito e que a
verdade só pode ser atingida pelo exercício da razão independente da experiência sensível.

2-No Discurso do Método (1637), René Descartes estabelece quatro preceitos que deveriam
orientar o pensamento humano e garantir um conhecimento verdadeiro, livre de erros e ilusões.
Esses princípios tornaram-se a base do racionalismo moderno e influenciaram profundamente a
filosofia e a ciência.

O primeiro preceito é o da evidência: aceitar como verdadeiro apenas aquilo que se apresenta à
razão de maneira clara e distinta, sem espaço para dúvida. Esse princípio mostra a preocupação
cartesiana em evitar enganos, rejeitando tudo o que não seja absolutamente certo. Assim,
qualquer conhecimento deve começar pela certeza, não por suposições.

O segundo preceito é o da análise: dividir cada problema em tantas partes quanto possível,
para compreendê-lo melhor. Isso reflete a ideia de que problemas complexos podem ser
resolvidos se forem decompostos em elementos menores e mais simples, o que facilita a
investigação racional.

O terceiro preceito é o da síntese ou da ordem: após dividir o problema, o pensador deve


organizar o raciocínio, partindo dos objetos mais simples e fáceis de conhecer até chegar aos
mais complexos. Esse método evita a confusão e garante que o raciocínio siga uma progressão
lógica.

O quarto preceito é o da enumeração e revisão: realizar revisões gerais e verificar se nada foi
omitido. Aqui aparece a exigência de rigor e exatidão, assegurando que o raciocínio seja
completo e que nenhuma etapa fundamental seja esquecida.

3-René Descartes, no início de suas reflexões, emprega aquilo que ele chama de dúvida
metódica. Esse procedimento consistia em colocar em questão tudo aquilo que pudesse
oferecer a menor dúvida, com o objetivo de encontrar um ponto de partida absolutamente
seguro para o conhecimento. No entanto, mesmo utilizando a dúvida, Descartes não pode ser
considerado um cético.

O ceticismo, tanto na Antiguidade quanto no período moderno, é uma corrente que defende a
impossibilidade de alcançar a verdade. O cético radical acredita que não existe conhecimento
seguro e que, portanto, devemos suspender o juízo sobre todas as coisas. Já Descartes adota a
dúvida apenas como um método provisório, não como uma posição definitiva. Ele não duvida
por duvidar, mas duvida para chegar a algo que não possa ser contestado.

O ponto de chegada da dúvida metódica é justamente a famosa proposição “penso, logo existo”
(cogito, ergo sum). Mesmo que todos os sentidos enganem, mesmo que a matemática possa ser
ilusória e até que exista um “gênio maligno” tentando enganá-lo, Descartes percebe que o
simples ato de duvidar prova a existência de quem duvida. Assim, o sujeito pensante se torna a
primeira verdade indubitável e o fundamento de todo o conhecimento.

Portanto, enquanto o cético permanece preso à incerteza, Descartes supera a dúvida ao


encontrar uma certeza absoluta. A dúvida, para ele, é apenas um instrumento para depurar o
pensamento e eliminar falsas crenças, preparando o caminho para a razão encontrar verdades
claras e distintas.

Além disso, Descartes confia que, a partir do cogito e do uso correto da razão, é possível
reconstruir todo o edifício do saber, incluindo a ciência e até a prova da existência de Deus. Isso
mostra que ele está muito distante do espírito cético, já que sua filosofia visa justamente
fundamentar o conhecimento e garantir sua segurança.

Em síntese, Descartes não é cético porque sua dúvida não é um fim em si mesma, mas um
método para alcançar a verdade. Ele inaugura, assim, um racionalismo que busca certeza e
fundamento, diferentemente do ceticismo, que se contenta em negar a possibilidade de
conhecer.

4-Quando alguém é chamado de “cartesiano”, normalmente está sendo comparado ao estilo de


pensamento de René Descartes, filósofo do século XVII. Esse adjetivo não se limita apenas a
uma postura filosófica, mas também pode descrever um modo de agir, raciocinar e se posicionar
diante do mundo.

Uma pessoa cartesiana, em primeiro lugar, tende a ser racional, ou seja, basear suas decisões
mais na lógica do que nas emoções. Esse traço pode ser visto como qualidade, já que garante
clareza, organização e capacidade de resolver problemas de forma objetiva.

Outra característica é a metodicidade: o indivíduo cartesiano costuma ser organizado, analítico


e cuidadoso, procurando dividir situações complexas em partes menores, tal como sugerem os
preceitos do Discurso do Método. Isso o torna eficiente em estudos, planejamentos ou trabalhos
que exigem rigor.

Além disso, um cartesiano valoriza a busca pela certeza. Ele não aceita qualquer ideia sem
reflexão crítica, mas procura fundamentos sólidos antes de tomar uma posição. Essa atitude
pode ser vista como uma forma de prudência intelectual e de seriedade no pensar.

Por outro lado, esse modo de ser também pode trazer defeitos. Alguém excessivamente
cartesiano pode se tornar frio, rígido e inflexível, dando pouco espaço para a intuição, a
criatividade e as emoções humanas. Pode parecer distante ou insensível nas relações pessoais,
já que tende a priorizar a razão acima dos sentimentos.

Outro defeito possível é o excesso de dúvida: a busca constante por certeza pode gerar
indecisão ou demora para agir, já que a pessoa fica esperando provas ou garantias absolutas
antes de se comprometer com algo.

Portanto, ser chamado de “cartesiano” pode significar tanto um elogio quanto uma crítica. Como
elogio, aponta para qualidades como organização, racionalidade, clareza e método. Como
crítica, sugere frieza, racionalismo exagerado e dificuldade em lidar com a espontaneidade da
vida.

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