TÓPICOS ESPECIAIS EM
HISTÓRIA DA ARTE
Aula 3
Prof.a Elisa Kiyoko Gunzi
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CONVERSA INICIAL
Olá, pessoal!
Nesta aula, vamos abordar o movimento neoclássico, que provavelmente
vocês já estudaram na graduação e, aqui, pretendemos aprofundar um pouco
mais sobre o assunto. Nos séculos XVIII-XIX, aconteceram mudanças nos
contextos político, social e cultural, refletindo diretamente no pensamento e na
produção dos artistas da época. Nesse sentido, é fundamental que possamos
compreender qual era o espírito da época e os motivos que impulsionaram os
artistas neoclássicos a uma retomada dos preceitos da Antiguidade Clássica,
mais especificamente no Período Greco-Romano. Para isso, vamos recorrer a
autores tais como Giulio Carlo Argan, com o livro Arte moderna, e Ernst Hans
Gombrich, com A história da arte, que nos ajudarão a desvendar essas tramas
intrincadas do Neoclassicismo Histórico.
CONTEXTUALIZANDO
Nesta aula, estudaremos sobre o Neoclassicismo, movimento artístico
que acontece na França entre os séculos XVIII e XIX, num momento de
efervescência nos contextos social, cultural e político. O pensamento do homem
moderno é regido pelo Iluminismo, em que o sujeito valoriza sua individualidade
ao mesmo tempo que está voltado para as questões que refletem o agora, ou
seja, seu próprio tempo. Essa tônica vai influenciar movimentos posteriores,
como o Realismo francês (século XIX) e o Impressionismo.
Nesse sentido, vamos compreender que o Período Neoclássico surge
como uma crítica aos excessos do Barroco e do Rococó (como vimos na aula
anterior), ao retomar preceitos do Período Greco-Romano. E aqui paramos para
pensar: não parece que o Neoclássico se trata de um retrocesso na história, pois,
ao questionar o Barroco e o Rococó, recorre a um modelo muito mais “antigo”
(no caso, a Antiguidade Clássica)? E se o artista do Iluminismo é um ser que
reflete e age no seu próprio tempo, por que eles “voltam” no tempo? Achamos
que essas duas questões são bem pertinentes para pensarmos um pouco sobre
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a dinâmica linha do tempo na história da arte, que nada tem de linear nesta sua
trajetória. Até mesmo porque o movimento romântico (subsequente ao
neoclássico) acontece quase que simultaneamente ao neoclássico e surge
justamente como seu algoz.
À vista disso, estudaremos os seguintes temas:
1. Neoclassicismo: conceito
2. Neoclassicismo: contexto histórico
3. Jacques-Louis David
4. Jean-Auguste Dominique Ingres
5. Pintura de paisagem (Poussin e Lorrain) e a relação com a
contemporaneidade
TEMA 1 – NEOCLASSICISMO: CONCEITO
O Neoclassicismo1 é um movimento francês que surgiu em meados do
século XVIII – exercendo influência na arte e na cultura ocidental até meados do
século XIX – em contraposição aos pressupostos do Barroco e do Rococó.
Temos, aqui, uma retomada dos princípios estilísticos do Período Clássico2,
revalorizando questões como a beleza (física – externa) idealizada e
intimamente relacionada com os princípios morais e éticos.
Movimento cultural europeu, do século XVIII e parte do século XIX, que
defende a retomada da arte antiga, especialmente greco-romana,
considerada modelo de equilíbrio, clareza e proporção. O movimento,
de grande expressão na escultura, pintura e arquitetura, recusa a arte
imediatamente anterior – o barroco e o rococó, associada ao excesso,
à desmedida e aos detalhes ornamentais. À sinuosidade dos estilos
anteriores, o neoclassicismo opõe a definição e o rigor formal. Contra
uma concepção de arte de atmosfera romântica, apoiada na
imaginação e no virtuosismo individual, os neoclássicos defendem a
supremacia da técnica e a necessidade do projeto – leia-se desenho –
a comandar a execução da obra, seja a tela ou o edifício (Enciclopédia
Itaú Cultural).
1 Nota da autora: nesta aula, não abordaremos os arquitetos do Período Neoclássico e nem os
artistas do Romantismo Histórico para não nos estendermos sobre o assunto.
2 Nota da autora: da Antiguidade Clássica, que segundo Gombrich “[...] os revolucionários
gostavam de se considerar gregos e romanos renascidos, e sua pintura, não menos que a
arquitetura, refletia seu gosto pelo que era designado como grandeza romana” (Gombrich, 1999,
p. 485).
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Segundo Giulio Carlo Argan, no livro Arte moderna, o Neoclassicismo
Histórico centrava-se na crítica pelos “[…] excessos de uma arte que tinha sua
sede na imaginação e aspirava despertá-la nos outros. Como a técnica estava a
serviço da imaginação e a imaginação era ilusão […]” (Argan, 1992, p. 21).
Além disso, Argan alerta que o ideal neoclássico de meados do século
XVIII até meados do século XIX “[…] não é móvel”, já que, no mesmo período,
temos a obra do artista espanhol Francisco Goya com uma produção calcada na
crítica contra tais ideais. Goya foi um dos principais integrantes do Romantismo
Histórico.
A visão romântica anuncia uma ruptura com a estética neoclássica e
com a visão racionalista da época da Ilustração. Se o termo “clássico”
remete à ordem, ao equilíbrio e à objetividade, a designação
“romântico” apela às paixões, às desmedidas e ao subjetivismo. A
dicotomia clássico/romântico, frequentemente acionada pelos
historiadores da arte, não deve levar ao estabelecimento de uma
oposição radical entre os termos, já que as diferentes orientações se
combinam em diversos artistas (Enciclopédia Itaú Cultural).
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Como podemos observar na obra acima, Goya contrapõe-se à
objetividade das obras neoclássicas, abordando temáticas que tratam das
questões mais subjetivas do sujeito moderno, assim como reflete o drama de
sua vida pessoal. No canto inferior esquerdo da composição, lemos a frase que
diz: “O sono da razão produz monstros”. Nesse sentido, podemos interpretar
como uma crítica à tão valorizada racionalidade neoclássica.
TEMA 2 – NEOCLASSICISMO: CONTEXTO HISTÓRICO
O artista dos séculos XVIII-XIX reflete as aspirações do sujeito moderno,
que é “[…] ser e querer ser do seu próprio tempo” (Argan, 1992, p. 12) e retratar
temáticas que abordam questões da atualidade. Nesse sentido, nos deparamos
com o Iluminismo, que vai influenciar profundamente o pensamento dos artistas
dessa época e suas produções pictóricas.
A natureza não é mais a ordem revelada e imutável da criação, mas o
ambiente da existência humana; não é mais o modelo universal, mas
um estímulo a que cada um reage de modo diferente; não é mais a
fonte de todo o saber, mas o objeto da pesquisa cognitiva. É claro que
o sujeito tende a modificar a realidade objetiva, seja nas coisas
concretas (especialmente a arquitetura, a decoração, etc.), seja no
modo como passa a ter noção e consciência dela: o que era o valor a
priori e absoluto da natureza, como criação ne varietur e modelo de
toda invenção humana, é substituído pela ideologia como imagem
formada pela mente, como ela gostaria que fosse tal realidade.[…] A
diferença consiste sobretudo no tipo de postura (predominantemente
racional ou passional) que o artista assume em relação à história e à
realidade natural e social (Argan, 1992, p. 12).
TEMA 3 – JACQUES-LOUIS DAVID
A partir do Iluminismo, temos um dos elementos propulsores do
neoclássico, que foi a Revolução Francesa, em 1789. Aqui, os ideais iluministas
estavam refletidos por meio das pinturas que valorizavam as aspirações
revolucionárias. Nesse sentido, o principal representante desse movimento foi
Jacques-Louis David, que era considerado o artista “official” da revolução e
depois do governo de Napoleão Bonaparte (Gombrich, 1999). Abaixo, temos o
exemplo de uma pintura histórica de David na qual ele retratou Napoleão em seu
escritório. Além de retratar o cotidiano de Bonaparte, ele buscava enaltecer essa
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importante figura política (como comentamos acima sobre a idealização da
figura). Bonaparte está centralizado na pintura, envolto pelos elementos
arquitetônicos clássicos (influência Greco-romana) e pelos móveis que revelam
riqueza e imponência. Se relacionarmos com a aula anterior sobre o
Renascimento, constataremos que a pintura neoclássica tem um caráter
essencialmente linear, conforme apontado por Wölfflin, valorizando o contorno
da figura e dos elementos de seu entorno (fundo).
Na aula sobre história da arte brasileira, veremos que David está
intimamente relacionado com a arte erudita3 brasileira, já que seu primo Jean-
Baptiste Debret veio ao Brasil (em 1816) com a Missão Artística Francesa e
trouxe consigo toda a herança neoclássica que inaugurará a tradição acadêmica
da Escola Imperial de Belas Artes no Rio de Janeiro.
TEMA 4 – JEAN-AUGUSTE DOMINIQUE INGRES
Jean-Auguste Dominique Ingres foi discípulo de David e seguiu os
preceitos neoclássicos por meio de retratos e nus, temáticas preferidas pelo
3 Nota da autora: podemos considerar a “arte erudita” como aquela aprendida nas escolas de
artes, em contraposição com a “arte popular”, que não pressupõe uma formação acadêmica,
mas que revela a cultura e a identidade de um povo.
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artista em detrimento da retratação de cenas mitológicas. Na produção de
Ingres, temos autorretratos, retratos e banhistas, uma produção mais intimista
na qual ele “invade e explora” o universo pessoal de cada um dos seus
retratados.
Além do mais, vislumbramos sua preocupação com as minúcias ao pintar
esses personagens com uma riqueza nos detalhes: nas dobras dos tecidos, na
delicadeza dos rendados, no brilho dos cetins, tudo isso nos impressiona quando
prestamos atenção nas obras de Ingres (figura abaixo).
TEMA 5 – PINTURA DE PAISAGEM (POUSSIN E LORRAIN) E A RELAÇÃO
COM A CONTEMPORANEIDADE
Outro representante do Neoclassicismo é Nicolas Poussin, que
inicialmente teve influência do Barroco mas posteriormente assumiu seu gosto
pelos temas mitológicos da Antiguidade Clássica, como podemos observar na
figura abaixo:
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Poussin prioriza a simplicidade das formas e uma preocupação com o
delineamento das figuras, tudo isso envolto pelo equilíbrio da composição.
Outro artista francês que se inspirou nas temáticas da Antiguidade
Clássica foi Claude Lorrain, como podemos constatar na figura abaixo, em que
no canto esquerdo da composição temos os destroços arquitetônicos que
remetem às colunas do Período Greco-Romano.
Se observarmos atentamente as obras de Poussin e Lorrain,
perceberemos que ambos têm um interesse em retratar paisagens, temática
recorrente na produção dos dois artistas e que influenciará artistas tal como
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Claude Monet do Impressionismo (ver figura abaixo) e que veremos na aula a
seguir.
Lorrain foi um artista que pesquisou minuciosamente a natureza,
realizando esboços e buscando retratá-la o mais fielmente possível, como
vislumbramos abaixo:
Nessa obra, contemplamos a harmonia entre a natureza, o homem e os
animais, imagem cada vez mais idealizada e distante da nossa realidade
contemporânea. Hoje, alguns artistas preocupam-se em reaproximar e
sensibilizar o homem nesse contato com a natureza, assim como denunciar as
barbáries que provocamos contra ela. Aqui, podemos mencionar o artista
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dinamarquês Olafur Eliasson, que realiza grandes instalações na paisagem
urbana para promover essa experiência.
Olafur Eliasson (1967, Copenhagen, Dinamarca) é
conhecido por suas esculturas externas de grande porte,
intervenções no espaço urbano e projetos arquitetônicos.
Os processos de percepção e construção da realidade
estão no centro de sua pesquisa artística. Suas obras
incorporam leis da física, neurologia e óptica convidando o
visitante a experimentar fenômenos naturais como neblina,
luz, cor e reflexos. Em Seu corpo da obra, Olafur insere seu
trabalho e a experiência que ele oferece aos espectadores
em situações espaciais marcadas pela ambiguidade entre
“dentro” e “fora” (Pinacoteca).
Na obra acima, intitulada The New York City Waterfalls (2008), Eliasson
constrói uma estrutura metálica da qual emerge uma cachoeira sob a ponte do
Brooklyn em Nova Iorque. Essa instalação já foi realizada na Bienal de Sydney
em 1998, no Palácio de Versailles no ano de 2016, assim como em outros
países. Aqui, podemos vislumbrar o interesse do artista: aproximar o espectador
dessas experiências que vão além da visualidade mas envolvem o corpo e todos
os sentidos. Além disso, aproxima a arte contemporânea do cotidiano das
pessoas: se o público não vai ao museu, a obra vai até os espaços urbanos.
SÍNTESE
Neste tópico, conhecemos alguns dos principais pressupostos
conceituais, históricos e estilísticos do movimento neoclássico, que surgiu num
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momento em que os excessos de ornamentos e de subjetividade se esgotam em
meio à valorização da razão e da objetividade. É claro que os conteúdos
subjetivos e imaginários do Barroco e do Rococó permaneceram adormecidos
por pouco tempo, já que no Romantismo eles encontraram ressonância para tal
ressurgimento.
Aqui, tivemos a oportunidade de observar produções tão díspares, desde
obras de caráter mais “histórico”, com David, que retratava questões
relacionadas com a Revolução Francesa e o cotidiano de Bonaparte. Já nas
obras de Poussin e Lorrain, vislumbramos o gênero da pintura de paisagem,
amplamente explorada juntamente com figuras mitológicas, e verificamos que,
mais tarde, a pintura ao ar livre será bastante explorada no Impressionismo.
Ademais, Ingres foi outro artista que integrou o movimento, abordando temáticas
como retrato e autorretrato, ao mesmo tempo que pintou incansavelmente
banhistas num caráter mais intimista e também idealizado.
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REFERÊNCIAS
ARGAN, Giulio Carlo. Arte moderna. São Paulo: Companhia das letras, 1992.
ENCICLOPÉDIA ITAÚ CULTURAL. Neoclassicismo. Disponível em:
<[Link] Acesso em:
26 dez. 2016.
_____. Romantismo. Disponível em:
<[Link] Acesso em: 26
dez. 2016.
GOMBRICH, Ernst Hans. A história da arte. Rio de Janeiro: LTC, 1999.
PINACOTECA. Disponível em: <[Link]
pt/[Link]?c=1119>. Acesso em: 26 dez. 2016.
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