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Savior 1

O documento narra a história de Kihyun, um príncipe das fadas que, após a invasão de seu reino por humanos gananciosos, é capturado e aprisionado em uma jaula. Ele é vendido como mercadoria e, apesar de sua resistência, acaba se vendo forçado a aceitar ajuda de um humano misterioso que o acolhe. A narrativa explora temas de perda, orgulho e a luta pela sobrevivência em um mundo hostil.

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Savior 1

O documento narra a história de Kihyun, um príncipe das fadas que, após a invasão de seu reino por humanos gananciosos, é capturado e aprisionado em uma jaula. Ele é vendido como mercadoria e, apesar de sua resistência, acaba se vendo forçado a aceitar ajuda de um humano misterioso que o acolhe. A narrativa explora temas de perda, orgulho e a luta pela sobrevivência em um mundo hostil.

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Há muito tempo, quando criaturas mágicas e humanos ainda coexistiam em uma

frágil paz, fadas e outros seres feéricos corriam e voavam livremente pelas florestas
e prados, dançando diante dos olhos de todos, sem maiores preocupações.

Os humanos, até então desprovidos de magia, preocupavam-se apenas com as


criaturas das trevas, aquelas que realmente podiam lhes causar mal. Quando
necessário, recorriam ao pouco conhecimento mágico que possuíam para
exterminar os monstros que se aproximavam de vilarejos e propriedades.

Mas tudo mudou quando os estudos sobre poções e manipulação de energia


avançaram. Ao conquistar o poder da magia, os humanos deixaram de usá-la
apenas como defesa. Logo, ela se tornou um recurso de captura, exploração e
comércio de todo ser mágico, sem distinção.

A ganância e o desejo de poder cresceram de forma desmedida. Aqueles que antes


apenas se defendiam passaram a se autoproclamar magos e feiticeiros, subjugando
criaturas que, até então, viviam livres.

Cegos por ambição, muitos humanos matavam por prazer ou para enriquecer.
Espécies inteiras, ou partes delas, eram comercializadas em rituais, alimentando um
mercado sombrio. Matanças em larga escala espalharam-se, obrigando os povos
mágicos a buscar refúgio. Alguns fugiram para o plano astral, uma camada entre
mundos que oferecia relativa proteção; outros se esconderam nas trevas.

As fadas, assim como tantas outras espécies, também desapareceram dos olhos
humanos. Mas foi no plano etéreo muito mais profundo e inacessível que
encontraram sua maior segurança. Ali, acreditavam-se intocáveis.

E, durante algum tempo, estavam certos. Foi nesse abrigo que Oberon, rei dos
duendes, e sua esposa, Titânia, rainha das fadas, puderam criar em paz seu filho
precioso: o príncipe Kihyun.

O jovem príncipe, dono de uma beleza verdadeiramente etérea, amava correr pelas
florestas e bosques, apreciando a proteção de seu mundo, ainda que com cautela.
Assim, mantinham-se distantes da maldade humana, e a paz, ao menos entre as
fadas, reinou por eras.
Até que, em uma noite de outono, o impossível aconteceu. O plano etéreo foi
invadido. A destruição veio rápida e impiedosa, devastando tudo o que as fadas
amavam.

Assim, o reino feérico caiu em ruínas.

🎃
Com o trepidar da carroça e o balanço constante da estrada, Kihyun recobrou os sentidos
aos poucos. A primeira coisa que sentiu foi a dor latejante em sua cabeça. Confuso, olhou
ao redor e logo percebeu as algemas de ferro que prendiam seus pulsos e tornozelos,
limitando seus movimentos e queimando sua pele delicada. Sabia que a prata e o ferro
eram nocivos às criaturas como ele, mas jamais havia experimentado tamanha agonia.

Fraco e abalado, notou que estava dentro de uma jaula minúscula, improvisada de madeira,
presa à carroça conduzida por um homem de aspecto brutal, cuja silhueta revelava a frieza
necessária para tamanha crueldade.

Um solavanco mais forte, ao passarem por um buraco na estrada, fez a memória lhe
assaltar de repente. Como uma lança atravessando seu peito, lembrou-se da invasão, do
massacre, da queda de seus pais e de seu povo. A urgência em escapar o consumiu, mas
seu corpo mal respondia.

Recordou-se do momento em que fora atingido pelas costas, pouco antes de ver rajadas
luminosas e letais destruírem tudo ao redor. Criaturas encapuzadas invadiram o plano
etéreo naquela noite clara de outono, sem dar qualquer chance de rendição.

O que seu povo havia feito para merecer tamanha brutalidade?

Não houve tempo para salvar ninguém. Nem a si mesmo.

Preso e ferido, Kihyun tentou em vão forçar as grades da jaula, apenas para confirmar o
pior: estava fora do plano etéreo, aprisionado no mundo físico em um corpo humano,
privado de seus poderes.

Como aquilo era possível?

Respirou fundo, engolindo a angústia, e forçou-se outra vez. O cocheiro percebeu a


movimentação e parou a carroça bruscamente. Desceu, praguejando insultos que pareciam
tão cortantes quanto lâminas. Antes que pudesse reagir, Kihyun desmaiou de exaustão.

Quando recobrou a consciência, encontrava-se em um lugar escuro, malcheiroso e úmido,


cercado por inúmeras gaiolas como a sua. Dentro delas, seres de toda sorte: unicórnios
enfraquecidos, banshees, uma serpente de oito cabeças e criaturas que ele nunca havia
visto. Todos feridos, amedrontados e à beira do desespero.
A cada dia, o homem que o capturara levava uma nova criatura, e logo Kihyun
compreendeu que sua vez também chegaria. Não sabia se sobreviveria, mas já não via
sentido em resistir. Sua família e seu povo haviam sido aniquilados; restava-lhe apenas a
humilhação.

Tentou se entregar à escuridão, mas um estrondo o arrancou de seus devaneios.

— Acorde, criatura maldita! — vociferou o homem barbudo, golpeando a grade com um


porrete.

Kihyun devolveu-lhe apenas um olhar cheio de ódio. Em resposta, recebeu mais insultos e
ameaças, até que a inconsciência o venceu novamente.

Quando despertou outra vez, estava em movimento. A carroça cruzava uma ponte de
pedra, aproximando-se de um vilarejo cercado por abetos. Pelas construções e pela
movimentação das pessoas, logo entendeu: seria vendido como mercadoria.

Seu corpo debilitado atrapalhava a negociação. O captor tentava convencer possíveis


compradores de que, em sua verdadeira forma, Kihyun era belíssimo. Mas poucos se
interessaram. Por um instante, ele quase se alegrou, significava mais tempo para respirar,
ainda que dentro daquela prisão.

Até que seu destino foi decidido.

Arrancado da jaula com brutalidade, caiu de joelhos diante de um homem de longas vestes
negras. O sol ofuscava sua visão, mas conseguiu distinguir a silhueta firme e serena de
quem parecia um nobre.

— Coloque-o dentro da carruagem — ordenou, a voz grave e calma.

O comerciante tentou protestar, mas se calou diante da firmeza do homem de manto negro.
Kihyun desmaiou antes de compreender o que aquilo significava.

Quando abriu os olhos novamente, já não estava acorrentado. Seus pulsos e tornozelos
ardiam, marcados pelo ferro. Respirou fundo, tentando manter o orgulho que ainda lhe
restava. Era um príncipe, afinal, mesmo sem reino.

À sua frente, sentado com expressão serena, estava o homem que o havia comprado.
Diferente dos outros humanos, não exalava nojo nem repulsa. Seus olhos eram
enigmáticos, sua postura calma. Mas Kihyun não se deixou enganar. Sabia, por histórias e
pela própria dor, que os humanos eram mestres da mentira.

E antes que a escuridão o reclamasse de novo, viu pela janela da carruagem a floresta se
aproximando.

O destino, agora, o conduzia a um sombrio casarão na floresta de abetos adentro.

🎃
Ofegante e coberto de suor, Kihyun despertou de sobressalto. Para sua surpresa, já não
estava mais na jaula imunda, mas deitado em uma cama simples, em um quarto pequeno.
Uma mesa de cabeceira, uma cadeira, uma lareira e o cheiro intenso de ervas medicinais
substituíam o odor de ferro e podridão.

Seu corpo estava pesado, envolto em faixas, e a dor, embora ainda presente, não se
comparava ao tormento anterior. Tentou levantar-se às pressas, mas suas pernas falharam
e ele tombou no chão.

O barulho chamou a atenção de um jovem que entrou carregando uma bandeja nas mãos.
Ao vê-lo caído, correu em seu socorro. Kihyun, porém, o repeliu com um olhar furioso.

— Você ainda não está recuperado. Tenha cuidado — pediu o rapaz, tentando aproximar-se
novamente.

Kihyun se arrastou para longe, desconfiado. O jovem saiu e logo voltou acompanhado de
outro, alto, magro e semblante enfadonho, que o ergueu com gentileza, colocando-o
novamente sobre a cama.

Zonzo, Kihyun mal percebeu a saída do segundo rapaz. Já o primeiro, de sorriso tímido e
olhos pequenos, ajeitou a bandeja sobre a mesa.
— Coma um pouco — insistiu, aproximando uma colher com caldo morno dos lábios do
príncipe. — Meu nome é Jooheon — disse com um sorriso exibindo covinhas na bochecha.
— Qual é o seu nome?

Kihyun virou o rosto. A respiração saiu pesada, e a chama de orgulho queimou mais alto do
que a fome. Se ele cedesse, seria apenas mais um prisioneiro sem nome.

— Não preciso dizer nada a humanos. — A voz dele ecoou, firme apesar da fraqueza. —
Mas para que se lembre muito bem, sou Kihyun, príncipe das fadas.

As palavras saíram como espada desembainhada, afiadas, quase cruéis. Ele as saboreou
com dureza, sentindo o coração inflar no peito. Mesmo ali, enfraquecido, marcado pelas
correntes, seu sangue real corria indomável. Mas, sob o orgulho, havia outra coisa: uma
pontada de dor, como se cada sílaba fosse também uma lembrança de tudo que perdera.
Não tinha trono, não tinha súditos, não tinha sequer asas para mostrar. Ainda assim, era
príncipe, e precisava que todos acreditassem nisso, até mesmo ele próprio.

Jooheon piscou, surpreso, e recuou um instante, como se não soubesse se devia tratar
aquilo com reverência ou cautela.
— Então, Vossa Alteza… pelo menos aceite algo para recuperar as forças.

A resposta foi um gesto brusco: Kihyun golpeou a bandeja, derrubando caldo, pão e frutas
no chão.
— Olhe o que você fez — suspirou Jooheon, recolhendo os cacos, emburrado.
Kihyun pouco se importou. Se fosse para morrer, que viesse logo. Tinha aprendido no
pouco tempo nesse corpo humano, que alimentos e água eram essenciais. Então os
recusaria até que o corpo cedesse.

Kihyun franziu os lábios, mantendo a máscara firme. A altivez que o protegia era também
sua prisão. Ele preferiria morrer de fome a ser visto como um pássaro ferido, dependente de
mãos humanas.

Essa era a ideia, até que, no meio da noite, a porta se abriu.

A figura de manto negro entrou, trazendo uma bandeja com as próprias mãos. Era a
primeira vez que Kihyun via claramente o homem que o acolhera.

— Jooheon me contou que você se recusa a comer e beber — disse em voz calma, mas
firme. — Trouxe sopa. Disse, se acomodando em uma cadeira colocada ao lado da cama.

Mas antes, precisa de água. Está desidratado.

Kihyun o fitou com ódio e virou o rosto, recusando o copo. O orgulho ardia como fogo na
garganta seca.

Então, a voz dele desceu em tom grave, autoritário, carregada de convicção:


— Beba. Agora.

A ordem não foi gritada. Não havia necessidade. Era como se o ar se curvasse àquela voz,
como se cada sílaba tivesse peso próprio. Kihyun sentiu a espinha se eriçar, o coração
disparar. Era diferente de qualquer comando humano que já ouvira, não era ameaça, mas
certeza.

Seu orgulho gritou por resistência: Sou príncipe da corte etérea. Não abaixo a cabeça. Mas
o corpo, traidor, implorava. A cada segundo, aquela autoridade invisível o esmagava, até
que, sem perceber, já levava o copo aos lábios.

A água desceu áspera, quase amarga pelo gosto da obediência. Tossiu, engasgou, mas
parte ficou. Ao pousar o copo, as mãos tremiam, não de fraqueza, mas de fúria contra si
mesmo.

O mago recolheu o recipiente, o olhar fixo nele, pequeno e firme.


— Melhor. Agora, a sopa. Vai comer.

Kihyun desviou os olhos, mordendo a própria vergonha. Não é humano. Não pode ser. Há
algo nele que me faz ceder sem querer.

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