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Victoria 2010 RBC

O documento analisa a influência da escala na delimitação automática de Áreas de Preservação Permanente (APPs) em topos de morro e montanha, destacando que a metodologia atual não é adequada para escalas detalhadas superiores a 1:50,000. Foram propostas modificações para adaptar o método a escalas mais detalhadas, mas a metodologia ainda requer inspeção por um intérprete capacitado devido à suscetibilidade a problemas nos dados topográficos. A pesquisa utiliza quatro modelos digitais de elevação para avaliar o efeito da escala na delimitação das APPs no município de Campinas, SP.

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O documento analisa a influência da escala na delimitação automática de Áreas de Preservação Permanente (APPs) em topos de morro e montanha, destacando que a metodologia atual não é adequada para escalas detalhadas superiores a 1:50,000. Foram propostas modificações para adaptar o método a escalas mais detalhadas, mas a metodologia ainda requer inspeção por um intérprete capacitado devido à suscetibilidade a problemas nos dados topográficos. A pesquisa utiliza quatro modelos digitais de elevação para avaliar o efeito da escala na delimitação das APPs no município de Campinas, SP.

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INFLUÊNCIA DA ESCALA EM UMA METODOLOGIA DE DELIMITAÇÃO

AUTOMÁTICA DE ÁREAS DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE EM TOPO


DE MORRO E MONTANHA E ADAPTAÇÃO DO MÉTODO PARA
ESCALAS DETALHADAS

The Scale Influence in an Automated Delineation Method for Mountain and Hill Top
Permanent Preservation Areas and Corrections for Large Scale Applications

Daniel de Castro Victoria


Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – EMBRAPA
EMBRAPA Monitoramento por Satélite
Av. Soldado Passarinho, 303 – Fazenda Chapadão. Campinas, SP
daniel@[Link]

RESUMO
O código florestal brasileiro e a resolução CONAMA 303/2002 estabelecem dentre as áreas de preservação permanente
(APPs) os topos de morro e montanha, que vem recebendo grande atenção devido à divergências em sua delimitação.
Métodos automatizados, baseados nas ferramentas dos Sistemas de Informação Geográfica (SIG), foram desenvolvidos
e testados para auxiliar na identificação destas APPs porém, a escala dos dados influencia fortemente o resultado obtido.
Quatro modelos digitais de elevação (MDE) do município de Campinas (SP) foram utilizados para avaliar o efeito da
escala na delimitação destas APPs. Foi constatado que o método testado não é adequado para escalas detalhadas,
maiores que 1:50,000. Duas modificações foram efetuadas no método para adequá-lo a escalas detalhadas e corrigir um
problema na interpretação da resolução CONAMA. Esta metodologia serve apenas como auxílio na delimitação das
APPs, pois não identifica outras áreas de preservação como linhas de cumeadas. Além disso, a metodologia mostrou-se
muito suscetível a problemas nos dados topográficos, sendo recomendada a inspeção do resultado final por intérprete
capacitado.

Palavras Chave: Modelo Digital de Elevação do Terreno, Topo de Morro e Montanha, Áreas de Preservação
Permanente, Código Florestal Brasileiro.

ABSTRACT
Brazilian environmental legislation establishes the Permanent Preservation Areas (APPs). These include river margins,
marshes and mountain and hill tops, among other terrain features. Geoprocessing methods for estimating mountain and
hill tops preservation areas have been developed but these are very susceptible to the mapping scale. Four digital
elevation models (DEM) covering Campinas (SP) municipality were used to evaluate the scale effect in the delineation
of such preservation areas. Modifications in the method to derive such preservation areas are proposed in order to make
it more suitable for high detailed maps. This method should be taken as a tool to help delineate the preservation areas
and should not be considered a complete solution to the matter since it does not identify other preservation areas such as
drainage divides. An inspection by a trained interpreter is still necessary to eliminate misclassifications and refine the
final result.

Keywords: Digital Elevation Model, Mountain and Hilltop, Permanent Preservation Areas, Brazilian Environmental
Legislation.

1. INTRODUÇÃO altura mínima da elevação em relação a base”


(CONAMA, 2002). A resolução também define morro,
A Resolução CONAMA 303/2002 dispões montanha e a base da elevação porém, existem
sobre os parâmetros, definições e limites das Áreas de divergências quanto à interpretação destes conceitos,
Preservação Permanente (APP), incluindo os topos de principalmente quanto à identificação da cota de base, o
morro e montanha. Estes são definidos como a área “a que dificulta a aplicação da legislação. No entendimento
partir da curva de nível correspondente a dois terços da do Departamento Estadual de Proteção de Recursos

Revista Brasileira de Cartografia No 62/03, 2010. (ISSN 0560-4613) 479


Naturais (DEPRN), a base é a cota mais baixa da área No entendimento do Ministério Público de São
de captação/escoamento superficial da elevação (Fig. 1). Paulo (MP-SP) e do DEPRN, o ponto de sela não pode
ser considerado como base da elevação (MINISTÉRIO
PÚBLICO DE SÃO PAULO, 2008). As metodologias
empregadas pelo DEPRN e por Hott et al. (2005)
mostram que o argumento de que é preciso garantir uma
curva de nível fechada ao redor do cume não procede.
Ambas entendem que a APP de topo de morro e
montanha deve ser confinada à área de influência da
elevação, o que impede o extravasamento da cota do
terço superior ou seja, a APP abrange somente as áreas
que podem receber escoamento superficial proveniente
do cume da elevação avaliada.
Outra argumentação contra a tese do ponto de
sela como base vem da geomorfologia e do conceito de
nível de base. Este é o “nível abaixo do qual não pode
Fig. 1. Área de influência e cota de base da elevação, de ocorrer erosão pelas águas superficiais. O nível de base
acordo com o DEPRN. Fonte: DEPRN (2008). final é considerado como sendo o nível do mar” (IBGE,
2004). Este conceito não implica que a base de um
Outro entendimento argumenta que a base do morro seja o nível do mar, uma vez que existem níveis
morro ou montanha deveria necessariamente circundar a de base local de erosão. Para cada elevação existe um
elevação, sendo representada por uma curva de nível nível de base local, que pode ser considerado a base da
fechada em torno do cume (CORTIZO, 2008). Esta elevação, onde processos de sedimentação predominam
interpretação seria necessária por garantir que a cota da sobre processos erosivos. O ponto de sela é um local
APP de topo de morro ou montanha seja representada onde predominam processos erosivos, não podendo ser,
por uma curva de nível fechada, sem que haja portanto, a base de uma elevação.
extravasamento da APP para elevações vizinhas. Assim, Visando auxiliar na delimitação destas APPs e
a base de um morro ou montanha deveria ser a cota do facilitar a aplicação da legislação, alguns trabalhos vem
“ponto de sela” (CORTIZO, 2008). A Figura 2 ilustra utilizando Sistemas de Informações Geográficas (SIGs)
este entendimento, que argumenta que no morro com o (CATELANI et al. 2003; COSTA et al. 1996;
cume a 771 m, a interpretação do DEPRN colocaria a JACOVINE et al, 2008; OLIVEIRA et al. 2007;
base do morro a 708 m e a cota da APP a 750 m de SANTOS et al. 2007;). Porém, muitos destes
altitude. Isso resultaria em um extravasamento da cota necessitaram da intervenção de um analista para definir
da APP, abrangendo outras elevações e tomando a cota de base, estando sujeitos a diferentes
proporções muito grandes. No entanto, ao interpretações. Santos et al. (2007) trabalharam em uma
considerarmos a base da elevação como sendo o ponto microbacia de 4000 ha onde a altitude da planície foi
de sela (756 m), a cota da APP seria de 766 m, definida como a cota de base de todos os morros. Costa
circundando o morro sem que houvesse extravasamento. et al. (1996), trabalhando em uma área de 185 ha com
relevo fortemente ondulado e dados topográficos na
escala 1:10.000, consideraram “como base dos morros,
os locais com declives superiores a 20°, o que
corresponde a classe de relevo fortemente ondulado”
(COSTA et al., 1996) enquanto Catelani et al. (2003)
não explicam como definiram as cotas de base. Jacovine
et al. (2008) utilizaram as funções de hidrologia de um
SIG para identificar os morros e montanhas, sendo a
base no “terraço, ou o leito maior, onde se encontra o
curso d'água mais próximo” (JACOVINE et al., 2008).
Com o intuito de padronizar e simplificar a
delimitação das APPs em topo de morro e montanha,
Ribeiro et al. (2002; 2005) e Hott et al. (2005)
utilizaram as funções de hidrologia dos SIGs para
identificar a cota de base das elevações de forma
automatizada, dispensando intérprete. Ambos métodos
utilizam as ferramentas de direção de fluxo para
Fig. 2. Necessidade de se utilizar o ponto de sela como identificar a área de influência de cada elevação, de
cota de base de um morro. No entendimento do DEPRN forma semelhante ao método empregado pelo DEPRN
e na metodologia de Hott este argumento é falho, uma (DEPRN, 2008).
vez que a APP deve ser confinada à elevação que a A metodologia de Hott foi aplicada com
gerou. Fonte: Cortizzo (2008). sucesso para o estado de São Paulo, em escala

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compatível com 1:250.000, estimando em 14.613 km2 a no “Shuttle Radar Topography Mission” (SRTM90 e
APP em topo de morro e montanha (HOTT et al. 2005). SRTM30), e dois interpolados a partir de curvas de
Victoria et al. (2008) aplicaram a mesma metodologia nível nas escalas 1:50.000 e 1:10.000.
para o território nacional, estimando em 14.344 km2 a
APP em topo de morro e montanha para o estado de SP
e 389.619 km2 para todo o país (Tabela 1).

Tabela 1. Áreas de Preservação Permanente em topo de


morro e montanha nos estados brasileiros, seguindo
metodologia original de Hott.
Estado Topo de morro Estado Topo de morro
(km2) (%) (km2) (%)
SC 17.679 18,53 PB 3.140 5,33
ES 7.739 16,41 RR 11.700 5,18
RJ 6.759 15,23 CE 7.771 5,06
MG 74.016 12,46 PA 51.615 4,13
DF 724 12,42 RN 1.875 3,4
PR 18.210 9,13 TO 8.086 2,9 Fig. 3. Localização do município de Campinas, SP.
PI 18.073 7,05 AP 4.122 2,88
BA 37.972 6,58 RO 5.642 2,35 O “Shuttle Radar Topography Mission”
AL 1.855 6,39 MT 20.180 2,23 (SRTM) mapeou a superfície da Terra utilizando
interferometria por radar (ZYL et al., 2001) e gerou
MA 20.498 6,11 SE 506 2,22
MDEs com resolução espacial de 90 m. Os dados do
RS 16.289 6,06 MS 5.977 1,67 SRTM90 foram obtidos do banco de dados “Brasil em
GO 19.701 5,77 AM 9.132 0,57 Relevo” da Embrapa – CNPM (MIRANDA et al.,
SP 14.344 5,76 AC 140 0,08 2005). Os dados com 30 m de resolução espacial
PE 5.870 5,75 BRASIL 389.616 4,53 (SRTM30) foram obtidos do projeto TOPODATA
Fonte: Victoria et al. (2008) (VALERIANO, 2008) que utilizou técnicas de
geoestatística para refinar os dados SRTM originais.
Por ser um procedimento baseado em mapas e Cartas topográficas na escala 1:50.000 da
modelos digitais de elevação (MDE), a escala utilizada região de Campinas foram obtidas do banco de dados do
influencia no total das áreas delimitadas como de Projeto PiraCena ([Link] e
preservação. O efeito da escala na metodologia de Hott do servidor de mapas do IBGE
foi avaliado, utilizando MDEs com diferentes graus de ([Link] As curvas de
detalhe para o município de Campinas, SP. Duas nível e os pontos cotados das cartas de Amparo,
alterações na metodologia original foram propostas. A Campinas, Cosmópolis, Indaiatuba e Valinos foram
primeira visou corrigir uma interpretação equivocada da unidas em um só plano de informação. Para a escala
resolução CONAMA, que diz respeito a morros ou 1:10.000, quarenta e sete cartas topográficas produzidas
montanhas distantes a menos de 500 metros. A segunda pelo Instituto Geográfico e Cartográfico do Estado de
visou adequar a metodologia original para uso em São Paulo (IGC), referentes ao município de Campinas
escalas mais detalhadas. foram digitalizadas, georreferenciadas, vetorizadas e
É importante ressaltar que a metodologia aqui unidas. A topologia dos mapas vetoriais em ambas
apresentada não é completa, uma vez que não escalas foi utilizada para verificar a junção das folhas e
contempla as áreas de preservação em linhas de eliminar erros de cruzamentos e sobreposições de
cumeada e outras feições de relevo. Portanto, esta curvas de nível. A interpolação dos dados vetoriais para
metodologia serve como uma primeira aproximação da um MDE hidrologicamente consistente, condição
delimitação das APPs de relevo, sendo necessária a imprescindível para a metodologia de Hott, foi realizada
inclusão das APPs de linha de cumeada e a inspeção por pela função Topo to Raster do SIG ArcGIS 9.2. A
um técnico capacitado das APPs delimitadas . resolução espacial dos MDEs nas escalas 1:50.000 e
1:10.000 foram de 20 e 10 m, respectivamente.
2. MATERIAL E MÉTODOS
2.2. Metodologia de identificação das APPs em topo
2.1. Área de estudo e MDEs em diferentes escalas de morro e montanha

O município de Campinas se localiza no estado A metodologia original de Hott se baseia nas


de São Paulo, nas coordenadas 22°53’S e 47°04’O e funções de hidrologia dos SIGs e pode ser resumida nos
ocupa 796 km2 (Fig. 3). seguintes passos:
Quatro MDE foram utilizados para avaliar o a) Delimitação da área de influência de cada
efeito da escala na metodologia de Hott, dois baseados elevação, aplicando-se as ferramentas de direção

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de fluxo e delimitação de bacias hidrográficas no São Paulo totalizaram 14.346 km2 (5,8% do estado).
MDE invertido (Fig. 4). Pelo MDE SRTM30, estas contabilizaram 24.827 km2
(10%) um aumento considerável (Fig. 5). Para o
município de Campinas, as APPs passaram de 25 km2
para 213 km2, quando calculadas utilizando o SRTM90
e o levantamento topográfico na escala 1:10.000,
respectivamente (Tabela 2 e Fig. 6).
É esperado que produtos baseados em modelos
e representações da realidade, como mapas
topográficos, sejam influenciados pela escala pois,
dependendo do nível de detalhe, algumas feições podem
ou não serem observadas. Especificamente na
metodologia aqui empregada, a necessidade de
identificar “encostas com declividade superior a trinta
por cento (aproximadamente dezessete graus) na linha
de maior declividade” (CONAMA, 2002) para uma
elevação ser considerada morro ocasiona a forte
Fig. 4. Representação esquemática da identificação da influência da escala.
área dos morros e montanhas. Durante o processamento dos mapas as
elevações são classificadas de acordo com a altura e
b) Obtenção das cotas de cume e base de cada declividade das rampas, verificando a presença de
elevação e declividade máxima, correspondentes a células com elevada inclinação. A presença de apenas
altitude máxima, mínima e a declividade máxima uma célula com elevada declividade faz com que uma
em cada elevação. elevação seja classificada como morro. Tal
c) Identificação dos morros e montanhas e cálculo da procedimento é válido para escalas grosseiras, como
cota do terço superior, sendo montanhas as representações com 90 m de resolução, pois identifica
elevações com altura (cota do cume – cota da base) longas rampas com declividade constante e elevada. Ao
superior a 300 m e morros as elevações com altura utilizarmos MDEs detalhados, com 20 ou 10 m de
entre 50 e 300 m e declividade máxima superior a
resolução espacial, acidentes locais no terreno ou
30%. A cota do terço superior é dada por: terço =
imperfeições no MDE podem resultar em células com
(cume – (cume – base)/3).
d) Agrupamento de morros e montanhas com cumes elevada declividade em local predominantemente plano,
distantes a menos de 500 m. Círculos com identificando morros de forma equivocada. Portanto, o
distância de 250 metros (buffer) são gerados em procedimento utilizado não é adequado para escalas
cada cume e unidos no caso de sobreposição. As detalhadas
áreas formadas pela junção dos buffers Como conseqüência deste procedimento,
representam morros ou montanhas que devem ser pequenas alterações nos mapas de entrada podem
agrupados. Para todos os morros e montanhas resultar em grandes diferenças nas áreas delimitadas.
dentro de um conjunto, a cota do terço superior Para o município de Campinas, Hott et al. (2005)
será igual a cota da APP mais baixa do conjunto. encontraram 116 km2 de APPs em topo de morro e
e) Delimitação da APP de topo de morro ou montanha utilizando a escala 1:50.000. No presente
montanha, identificada pela área com altitude igual trabalho e com a mesma escala, esta área foi estimada
ou acima da cota do terço superior. em aproximadamente 174 km2. A principal diferença
entre os dois trabalhos pode estar relacionada a erros
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO nos mapas topográficos utilizados por Hott et al. (2005),
que apresentavam cotas com altitude equivocada (Hott,
3.1. APPs em topo de morro e montanha em comunicação pessoal). Outra fonte de sensibilidade no
diferentes escalas, utilizando a metodologia original método esta no processo de vetorização dos mapas. Um
desvio de apenas 1 mm nas curvas na escala 1:50.000
Os MDEs SRTM90 e SRTM30 foram representa um erro de 50 metros. Dado que a
utilizados para identificar as áreas de topo de morro e eqüidistância vertical das curvas é de 20 m, um erro de
montanha em todo o estado de São Paulo utilizando a 50 metros na horizontal pode significar a inclusão de
metodologia de Hott. Os MDEs provenientes das cartas uma elevação na categoria de morro ou não. Com isso,
topográficas foram utilizados na delimitação das áreas pequenos erros podem alterar a quantidade de morros
de preservação do município de Campinas, SP. identificados.
A metodologia original mostrou marcado efeito
da escala, identificando maior quantidade de APPs nos
mapas mais detalhados. Utilizando o MDE SRTM90, as
áreas de APP de topo de morro e montanha no estado de

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Fig. 5. APP em topo de morro e montanha no estado de São Paulo a) com base no MDE do SRTM90 (90m de
resolução) e b) SRTM30 (resolução reamostrada para 30m). Delimitação feita a partir da metodologia original de Hott.

Tabela 2. Área de preservação permanente em topo de morro e montanha para o município de Campinas, utilizando
resoluções espaciais distintas. Delimitação feita a partir da metodologia original de Hott et al. (2005).
Área de APP em topo
Mapa % do município
de morro (km2)
SRTM 90 25,4 3,2%
SRTM 30 56,0 7,0%
1:50.000
116,0 15,0%
(HOTT et al., 2005)
1:50.000 173,8 21,8%
1:10.000 213,1 26,3%

Fig. 6. APP em topo de morro e montanha no município de Campinas, estimadas com a metodologia original de Hott
utilizando a) SRTM90, b) SRTM30 e cartas topográficas nas escalas c) 1:50.000 e d) 1:10.000.

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3.2. Alterações na rotina de Hott

3.2.1. Cálculo da declividade das encostas

Foi constatado que a metodologia empregada


para classificar as elevações quanto a declividade não
era adequada para escalas detalhadas, podendo
superestimar as APPs. O entendimento das instituições
que trabalham com a temática das APPs em topo de Fig 7. Contorno dos morros identificados no município
morro e montanha é que a declividade deve ser de Campinas (polígono cinza) a partir do MDE na
analisada para toda a encosta e não apenas em um escala 1:10.000 usando a) metodologia original e b)
ponto. O procedimento acordado entre o DEPRN e o metodologia das rampas.
MP-SP considera que áreas com menos de 10% de
declividade não fazem parte da encosta e devem ser No entanto a presença de pequenas rampas,
ignoradas. Nas áreas restantes, a declividade das compostas de algumas células, ainda persiste, o que
rampas é avaliada e, a existência de encostas com pode fazer com que elevações sejam equivocadamente
declividade superior a 30% caracteriza um morro classificadas como morros (Fig. 8). A aplicação de
(MINISTÉRIO PÚBLICO DE SÃO PAULO, 2008). filtros de moda ou algum critério para a eliminação de
Foi desenvolvida uma sequência de operações pequenas rampas pode diminuir este problema.
em SIG para estimar a declividade das encostas,
conforme procedimento descrito acima, e não apenas
de um ponto:
a) Geração do mapa de aspecto: classifica cada pixel
do MDE quanto a orientação da rampa numa escala
de 0 a 360 graus (0 = N, 90 = E, 180 = S, 270 = O).
b) Identificação das rampas: reclassificação do mapa
de aspecto em 8 direções e uma classe plana,
agrupando células adjacentes e com mesma direção
(N, NE, E, SE etc). Fig 8. Locais com elevada declividade e contorno dos
c) Obtenção da declividade das rampas: declividade morros identificados a) na metodologia original (linha
média de cada rampa, excluindo as áreas planas contínua) e b) pelo método das rampas (linha grossa,
(declividade < 10%). A presença de uma rampa contínua. Linha tracejada apresenta morros na
com declividade >= 30% em uma elevação com 50 metodologia original).
a 300 m de altura caracteriza um morro.
Este procedimento avalia a declividade das A modificação também foi testada em uma
rampas como um todo, diferente da formulação área de terreno mais acidentado, em escala detalhada
original que considera declividades pontuais. Ao (carta topográfica Fazenda São José dos Campos,
avaliar a declividade de uma área mais extensa escala 1:10.000). Constatou-se que ambas as
(rampa), a presença de algumas células com elevada metodologias (declividade pontual ou rampas)
inclinação tem menor interferência, adequando a apresentam resultados semelhantes. A alteração na
metodologia para MDEs mais detalhados, com 10 a 20 maneira de identificar a declividade não modificou o
m de resolução espacial. resultado, uma vez que a declividade média da área já é
A alteração fez com que muitas elevações, superior a 30%. Portanto, a alteração na metodologia
antes classificadas como morros devido à presença de foi eficiente em eliminar elevações equivocadamente
pequenas áreas com elevada declividade, não fossem identificadas como morros em áreas mais planas,
mais identificadas como tal. Para o município de reduzindo a superestimativa do método original quando
Campinas, na escala 1:10.000, o procedimento original aplicado em MDEs com escala detalhadas, sem afetar o
identificou 1120 morros. Utilizando a declividade em resultado nas áreas mais acidentadas.
rampas foram identificados 470 morros na mesma área
(Fig. 7). 3.3. Morros e montanhas distantes até 500 metros

A metodologia de Hott também foi alterada


em relação à interpretação da resolução CONAMA
303/2002 que trata da junção de morros e montanhas
próximas. A metodologia original considerava que
morros e montanhas com cumes distantes até 500 m
formariam um conjunto que poderia conter cumes
distantes a mais de 500 m, contanto que houvessem

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outros cumes entre eles, numa sequência de morros. A Tabela 3. APP em topo de morro e montanha para o
cota da APP dos morros e montanhas dentro deste município de Campinas (km2) em diferentes escalas,
conjunto seria dada pela cota do terço superior mais utilizando: a) metodologia original de Hott; b)
baixo do conjunto. Em locais com relevo mais modificação para impedir agrupamento de sequencia
acidentado, tal interpretação resulta em grandes de morros e c) limitando agrupamento de sequencia de
agrupamentos, ligando morros distantes a mais de 500 morros e calculando declividade por rampas.
m. O procedimento foi alterado de forma a limitar os Metodologia
conjuntos de forma a conter apenas cumes distantes até Escala Original Limite 500 Rampa+
500 m. Para cada conjunto, a cota da APP é dada pela Limite 500
menor cota de APP do conjunto. SRTM90 25,4 24,5 2,7
Testes efetuados na carta topográfica Fazenda SRTM30 56,0 54,0 13,9
São José dos Campos, escala 1:10.000, mostraram que 1:50.000 173,8 166,7 23,3
a alteração apresenta resultados significativos em 1:10.000 213,1 154,2 55,7
locais com grande presença de morro e montanhas. Na
metodologia original, os conjuntos incluíam elevações A alteração na forma do cálculo da
muito distantes entre si, transferindo o terço superior declividade surte grande efeito em locais mais planos,
de um morro localizado na parte baixa do terreno para como na região de Campinas. Já as APPs em regiões
um morro localizado em local mais elevado. Desta mais acidentada não são alteradas pela forma de se
forma, a APP em topo de morro e montanha foi calcular a declividade.
estimada em aproximadamente 76 km2 (71 % da Nota-se que, independentemente da escala,
região). A alteração na forma de gerar os conjuntos ambas alterações da metodologia reduziram a APP de
reduziu a APP em topo de morro e montanha para topo de morro e montanha, sem contudo remover o
aproximadamente 41 km2 (44 % da região) (Fig. 9). efeito de escala dentro de cada método. A APP em
Para todo o estado de São Paulo, a limitação topo de morro e montanha para o município de
no agrupamento das elevações reduziu a APP em topo Campinas, na escala 1:10.000, reduziu quase quatro
de morro e montanha de 24.827 km2 vezes quando estimada utilizando a metodologia
(aproximadamente 10% do estado) para 22.198 km2 original e com as modificações (Tabela 3 e Fig. 10).
(aprox. 9 % do estado), quando calculada utilizando os Está claro que os procedimentos utilizados
dados do SRTM30. Este é um indício de que os dados para delimitar as áreas de APP em topo de morro e
publicados por Victoria et al. (2008), elaborados montanha em escalas mais grosseiras não devem ser os
utilizando a metodologia original, podem estar mesmos utilizados em escalas detalhadas. A
superestimados, principalmente nas regiões com modificação que diz respeito ao agrupamento de
grande agrupamento de morros e montanhas, como morros deve ser aplicada em qualquer escala de
Santa Catarina, Espirito Santo, Rio de Janeiro e Minas trabalho, uma vez que corrige uma interpretação
Gerais. equivocada da resolução. A metodologia descrita para
se obter as declividades nas rampas deve somente ser
3.4. Considerações sobre as modificações propostas aplicada em mapas com escala detalhada.
A dificuldade esta em definir até qual escala a
A alteração na forma de gerar o conjunto de metodologia das rampas é adequada. A estimativa das
morros tem grande efeito na estimativa das APPs de APPs feita pelos diferentes métodos não deixa dúvidas
regiões mais acidentadas, com morros e montanhas que ambas as modificações são necessárias na escala
próximas, como na região de São José dos Campos. 1:10.000. Provavelmente, para a escala 1:50.000,
Nesta área, houve uma redução de aproximadamente também seja mais indicado a utilização da metodologia
38% na APP ao se adequar a metodologia. Em áreas das rampas. Já para os mapas baseados no SRTM30 e
menos acidentadas, como no município de Campinas, a escalas mais grosseiras, a metodologia das rampas
menor quantidade de morros e montanhas próximas fez reduziu muito as áreas de preservação do município
com que a forma de agrupar as elevações surtisse enquanto que a área delimitada pela metodologia
menor efeito, mesmo em diferentes escalas. Utilizando original foi semelhante à estimada a partir das cartas
MDEs com base no SRTM90, SRTM30 e topografia 1:10.000 utilizando a declividade em rampas (Fig. 10).
1:50.000, a alteração na forma de agrupar os morros Portanto, a metodologia que utiliza a declividade
reduziu a APP em aproximadamente 4%, quando pontual parece ser mais adequada para os dados
comparada com a metodologia original. Já para a SRTM90 e SRTM30.
escala 1:10.000, a redução foi maior (28%), uma vez
que mais morros são identificados (Tabela 3).

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Fig. 9. APP de topo de morro e montanha para a carta topográfica Faz. São José dos Campos, escala 1:10.000 esquerda)
calculada pela metodologia original (76 km2) e direita) calculada limitando o agrupamento de cumes (41 km2).

Fig. 10. APP em topo de morro e montanha no município de Campinas, estimada a partir de diferentes métodos
(colunas) e escalas (linhas).

4. CONCLUSÕES primeira visou corrigir o agrupamento dos morros e


montanhas distantes a menos de 500 m. A metodologia
Duas modificações foram efetuadas na original permitia que elevações distantes a mais de 500
metodologia original de Hott et al. (2005) para a m fossem agrupadas, aumentando as APPs em terrenos
delimitação das APPs em topo de morro e montanha. A acidentados. A segunda visou adaptar a metodologia à

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escalas mais detalhadas, como 1:50.000 e 1:10.000. Foi permanente, por meio de um sistema de informações
alterada a maneira como a declividade máxima das geográficas (SIG). In: SIMPÓSIO BRASILEIRO DE
elevações é avaliada, utilizando rampas ao invés de SENSORIAMENTO REMOTO, 8., 1996, Salvador.
pontos isolados. Tal modificação reduziu o número de Anais... São José dos Campos: INPE, 1996. p. 121-
elevações que antes eram classificados como morros 127.
devido a presença de acidentes locais no terreno.
Independentemente da metodologia utilizada, DEPRN. Departamento Estadual de Proteção e
a utilização de mapas topográficos mais detalhados faz Recursos Naturais. A APP (topo de morro) na
com que um maior número de APPs seja identificado. legislação. 2a Reunião do GT Definição dos conceitos
de 'topo de morro' e de 'linha de cumeada' referidos na
Portanto, a metodologia utilizada deve ser adequada a
Resolução CONAMA nº 303/02. Brasília, DF, maio
escala de trabalho.
2008. Disponível em: <
Esta metodologia ainda carece de validação,
[Link]
através da comparação com delimitações efetuadas por C00/[Link]>. Acesso
outros métodos e grupos de trabalho. É preciso em: 6 abr. 2009.
estabelecer, com certeza, se os procedimentos aqui
descritos satisfazem a resolução CONAMA 303/2002 HOTT, M. C.; GUIMARÃES, M.; MIRANDA, E. E.
quanto à delimitação das APPs de topo de moro e de. Um método para a determinação automática de
montanha. áreas de preservação permanente em topos de morros
A metodologia apresentada identifica somente para o Estado de São Paulo. In: SIMPÓSIO
as APPs de topos de morro e montanha e não inclui as BRASILEIRO DE SENSORIAMENTO REMOTO
linhas de cumeada, bem como outras áreas (SBSR), 12., 2005, Goiânia. Anais... São José dos
consideradas como de preservação. Portanto, esta é Campos: INPE, 2005. p. 3061-3068.
uma ferramenta que auxilia na delimitação das APPs,
não devendo ser encarada como um procedimento IBGE. Vocabulário básico de recursos naturais e
completo, que dispense a intervenção e o trabalho de meio ambiente. 2. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2004.
especialistas. Disponível em: <
[Link]
AGRADECIMENTOS [Link] >. Acesso em: 6 abr. 2009.

O autor agradece Marcos Cicarini Hott pela JACOVINE, L. A. G. et al. Quantificação das áreas de
rotina computacional original e Márcio Morisson preservação permanente e de reserva legal em
Valeriano pelo auxílio com os dados TOPODATA. propriedades da bacia do Rio Pomba-MG. Revista
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