O trabalho com a oralidade tem se dado presente nas salas de aula devido a
coincidências com a escrita e não por reconhecimento de suas próprias capacidades, que
são fundamentais para a compreensão e desenvolvimento de práticas de interação com a
fala em meios externos ao âmbito cotidiano dos estudantes, sejam eles do ensino
infantil, fundamental ou superior. Por isso, a escola deve fazer uma mediação entre a
comunicação oral espontânea e as formas institucionalizadas desse objeto, para que
capacite seus estudantes a transitarem de modo adequado nas devidas instâncias sociais
reguladas por normas e restrições exteriores ao ambiente cotidiano dos estudantes.
Por exemplo, uma criança que tem um sonho, mesmo que precoce, de se tornar
um jornalista, um advogado ou seguir outra carreira acadêmica, tem o direito de
escolher o seu caminho e a escola deve capacitá-la para esse fim, se atentando em
atividades com diferentes formas de uso do oral como seminários e simulação de
entrevistas, que são formas de uso do oral dos meios exteriores e exigem dos
interlocutores um tipo de linguagem estranha àquela ligada às rotinas cotidianas. Salvo
que essas práticas “ajudam a melhorar a expressão nas formas cotidianas de produção
oral” (pg. 176). Sendo assim, fica reconhecida sua importância, mesmo para aquele que
não deseja para si, seguir uma carreira como estas citadas acima, mas que esse sujeito,
possivelmente um dia esbarrará nas capacidades da linguagem oral fundamentais para a
compreensão dos saberes que circulam através dos códigos orais e principalmente
àqueles ligados à responsabilidade social.
Por isso é importante que o estudante seja estimulado a desvendar os caminhos
que condizem a esse objeto manipulado constantemente e que tem como característica
um aprendizado que se inicia de forma incidental, para que assim, o aperfeiçoe e possa
utilizá-lo em contextos ainda não familiares.
Atualmente, as práticas de uso da oralidade mais comuns utilizadas na escola
estão vinculadas a outro objeto, a escrita. Que também tem sua própria importância, mas
quando a oralidade é aplicada de forma dependente da escrita, essa ação limita suas
potencialidades, não contemplando proporcionalmente as exigências de seu uso em
ambientes não familiares aos dos estudantes.
Na escola, o oral é trabalhado para fazer a transição da aprendizagem da língua
escrita e frequentemente está presente de forma agregada a essa estrutura. Quando é
analisado por professores, eles o fazem a partir da escrita e a atividade oral mais
constante nas salas de aula é a leitura em voz alta, que não passa de uma escrita
oralizada.
Ao analisar o oral é necessário que se atente as suas dimensões essenciais para o
funcionamento da fala, que são elas, a entonação, a acentuação e o ritmo respeitando
suas variações culturalmente codificadas e quando são dominadas conscientemente
percebe-se o quanto a voz é importante para a compreensão dos textos escritos. Aliado a
isso é preciso reconhecer que a comunicação oral se desenvolve também no plano
gestual, as mímicas faciais, as posturas, os olhares, são diferentes modalidades de
expressão dos códigos gestuais e de uma infinita diversidade, tanto no tempo como no
espaço. Tudo está submetido a variações se compararmos os diversos modos de
expressão que se distinguem entre os países. Por isso estudantes estrangeiros devem se
entrosar com as particularidades da interação não verbal para poderem se comunicar
corretamente no país que estão residindo. Mais uma vez fica demonstrada aqui a
importância de utilizar esse objeto em sala de aula de forma responsável, isto é,
respeitando suas particularidades.
Uma justificativa para a insistência de utilizar a oralidade vinculada à escrita na
educação pode estar em dar importância a aspectos confusos do discurso oral quando
comparados ao escrito formal, condenando a oralidade como um fenômeno marginal
por desviar o sentido da comunicação através de suspiros e interrupções que são
naturais da fala. Esse tipo de perspectiva que julga negativamente a fala espontânea tem
sido um entrave para a compreensão da comunicação oral. Razões socioculturais como
esta têm se legitimado a fim de regular as produções orais em função do que se espera
da escrita. O motivo para isso seria uma crença utópica em um locutor-ouvinte-ideal que
se expressa de maneira parecida com a escrita de um gramático. A fala espontânea só
será enxergada como um fenômeno marginal quando comparada a essa estrutura
elaborada do discurso escrito formal. Comparação injusta, pois a fala espontânea se
forma na ação e o discurso escrito formal num processo previsível e revisado.
Se o objetivo do material didático é desenvolver a expressão oral, então ele deve
considerar em suas metas a diversidade que existe das práticas orais de linguagem e as
singulares relações que estas mantêm com a escrita. Por isso, para se trabalhar com o
objeto oral na escola devem ser selecionados textos que possibilitem diversas situações
de comunicação com relação à linguagem oral para que desse modo o professor possa
explorá-las a fim de aplicar em sala de aula atividades que simulam situações do âmbito
exterior ao cotidiano dos estudantes potencializando assim a intencionalidade
pedagógica.
Estas situações diversas de uso da linguagem são os gêneros, e apropriar-se da
fala em seus diferentes usos é dominar estes gêneros que tornam possível a
comunicação. Sendo assim, um gênero nada mais é do que um instrumento de
comunicação lingüística e o trabalho didático com ele capacita aos alunos meios para
analisar condições sociais que constituem as formas de linguagem que apresentam as
regulações do exterior, legitimando assim a integração dos gêneros em projetos
pedagógicos que têm por objetivo a inclusão de seus alunos nas práticas de interação
com a fala nas instâncias sociais reguladas por normas e restrições exteriores ao
ambiente cotidiano dos aprendizes.