CONCEITO DE SAÚDE E DOENÇA
Doença mental → fenômeno da loucura
Sintomas→ Por exemplo: “alterações” do pensamento, da
linguagem, da motricidade, da emotividade, etc.
Doença mental:
A doença mental é produto da
interação das condições de vida
social com a trajetória específica do
indivíduo e sua estrutura psíquica.
✓ Processo orgânico
✓ Processo psicofuncional
Normal e Patológico
Canguilhem
“o indivíduo é doente sempre em relação: em relação aos
outros, em relação a si mesmo”.
“será sempre em relação a uma ordem de
“normalidade”, “racionalidade” ou “saúde” que a loucura
é concebida nos quadros da “anormalidade”,
“irracionalidade” ou “doença””.
(p.20)
Normal e anormal → “se o normal se define mediante a execução
de um projeto normativo, este, ao mesmo tempo que engendra o
anormal (o anormal é condicionado pelo normal), é acionado por
ele (o anormal é condição do normal)” (p.22).
1) a relação normal-anormal,
saúde-doença, se inscreve na
realidade da existência coletiva; e
2) somente levando-se em conta o
conjunto da sociedade, o seu
modo particular de constituição
interna, é que se poderá chegar a
compreender a “doença”
concretamente (p.24).
A história da loucura
Michel Foucault
✓ Pesquisa a partir de
documentos de hospitais,
prisões e hospícios.
✓ Renascimento (Séc. XVI)
✓ Séc. XVII e XVIII
✓ Séc. XIX → asilo para loucos
Sofrimento Psíquico
Quando um sofrimento psíquico pode se tornar
patológico?
➢ Embora o sofrimento psicológico possa levar à
desadaptação social, e ela possa determinar
uma ordem de distúrbio psíquico, não se pode
sempre estabelecer uma relação de causa e
efeito entre ambos.
➢ A importância do olhar profissional: O
indivíduo em relação a si próprio e à sua
estrutura psicológica e não o critério de
adaptação ou desadaptação social.
Psiquiatria social e
a reforma Psiquiátrica brasileira
Psiquiatria Social → denunciou a
manipulação do saber científico,
a retirada da humanidade e da
dignidade do louco, as condições
perversas de tratamento e
reclusão dele e, principalmente, a
concepção da loucura como
fabricada pelo próprio indivíduo e
no seu interior.
➢ Outro jeito de cuidar das pessoas → Proposta antimanicomial
➢ Lei n. 10.216 (2001) → dispõe sobre a proteção e os direitos das
pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o
modelo assistencial em saúde mental, criando as bases legais
para um cuidado que respeite os direitos humanos e busque
tratar em liberdade, com prioridade para a rede ambulatorial de
serviços.
➢ Política Nacional de Saúde Mental
➢ Rede de Assistência Psicossocial (RAPS)
Antonin Artaud: Carta aos Médicos-chefes dos
Manicômios (1925)
Senhores,
As leis e os costumes vos concedem o direito de medir o espírito. Essa jurisdição
soberana e temível é exercida com vossa razão. Deixai-nos rir. A credulidade dos
povos civilizados, dos sábios, dos governos, adorna a psiquiatria de não sei que
luzes sobrenaturais. O processo da vossa profissão já recebeu seu veredito. Não
pretendemos discutir aqui o valor da vossa ciência nem a duvidosa existência
das doenças mentais. Mas para cada cem supostas patogenias nas quais se
desencadeia a confusão da matéria e do espírito, para cada cem classificações
das quais as mais vagas ainda são as mais aproveitáveis, quantas são as
tentativas nobres de chegar ao mundo cerebral onde vivem tantos dos vossos
prisioneiros? Quantos, por exemplo, acham que o sonho do demente precoce,
as imagens pelas quais ele é possuído, são algo mais que uma salada de
palavras?
Não nos surpreendemos com vosso despreparo diante de uma tarefa para a
qual só existem uns poucos predestinados. No entanto nos rebelamos contra o
direito concedido a homens – limitados ou não – de sacramentar com o
encarceramento perpétuo suas investigações no domínio do espírito.
E que encarceramento! Sabe-se – não se sabe o suficiente – que os hospícios,
longe de serem asilos, são pavorosos cárceres onde os detentos fornecem uma
mão-de-obra gratuita e cômoda, onde os suplícios são a regra, e isso é tolerado
pelos senhores. O hospício de alienados, sob o manto da ciência e da justiça, é
comparável à caserna, à prisão, à masmorra.
Não levantaremos aqui a questão das internações arbitrárias, para vos poupar o
trabalho dos desmentidos fáceis. Afirmamos que uma grande parte dos vossos
pensionistas, perfeitamente loucos segundo a definição oficial, estão, eles
também, arbitrariamente internados. Não admitimos que se freie o livre
desenvolvimento de um delírio, tão legítimo e lógico quanto qualquer outra
seqüência de idéias e atos humanos. A repressão dos atos anti-sociais é tão
ilusória quanto inaceitável no seu fundamento. Todos os atos individuais são
anti-sociais. Os loucos são as vítimas individuais por excelência da ditadura
social; em nome dessa individualidade intrínseca ao homem, exigimos que
sejam soltos esses encarcerados da sensibilidade, pois não está ao alcance das
leis prender todos os homens que pensam e agem.
Sem insistir no caráter perfeitamente genial das manifestações de certos loucos,
na medida da nossa capacidade de avaliá-las, afirmamos a legitimidade absoluta
da sua concepção de realidade e de todos os atos que dela decorrem.
Que tudo isso seja lembrado amanhã pela manhã, na hora da visita, quando
tentarem conversar sem dicionário com esses homens sobre os quais,
reconheçam, os senhores só têm a superioridade da força.
Antonin Artaud
[Escritos de Antonin Artaud, tradução, notas e prefácio de Claudio Willer, L&PM,
1983 e reedições]
Diagnóstico
O diagnóstico Psicopatológico
Dois posicionamentos:
1) Diagnóstico não tem valor porque cada pessoa é singular;
2) Diagnóstico como elemento principal e mais importante da
prática psiquiátrica.
→ O diagnóstico nos possibilita compreender o paciente e seu
sofrimento e escolher o tipo de terapêutica mais adequada.
“há, no processo diagnóstico, uma
relação dialética permanente entre
o particular, individual (aquele
paciente específico, aquela pessoa
em especial), e o geral, universal
(categoria diagnóstica à qual essa
pessoa pertence). Portanto, não se
deve esquecer: os diagnósticos são
ideias (construtos), fundamentais
para o trabalho clínico e para o
conhecimento científico” (p.81).
✓ Tanto na natureza como na esfera humana, podem-se distinguir
três grupos de fenômenos em relação à possibilidade de
classificação:
1. Aspectos e fenômenos encontrados em todos os seres
humanos.
2. Aspectos e fenômenos encontrados em algumas pessoas, mas
não em todas.
3. Aspectos e fenômenos encontrados em apenas um ser
humano em particular (totalmente singular).
➢ O diagnóstico só é útil e válido se
for visto como algo mais que
simplesmente rotular o paciente
(p.82).
➢ A legitimidade do diagnóstico
psiquiátrico sustenta-se na
perspectiva de aprofundar o
conhecimento, tanto do
indivíduo em particular como
das entidades nosológicas
utilizadas (p.82).
➢ Aspectos particulares do diagnóstico na psicopatologia:
1. O diagnóstico de um transtorno psiquiátrico é quase sempre
baseado preponderantemente nos dados clínicos.
2. Deve-se manter duas linhas paralelas de raciocínio clínico –
uma linha diagnóstica, baseada fundamentalmente na
cuidadosa descrição evolutiva e atual dos sintomas que de fato
o paciente apresenta, e uma linha etiológica, que busca, na
totalidade dos dados biológicos, psicológicos e sociais, uma
formulação hipotética plausível sobre os possíveis fatores
etiológicos envolvidos no caso.
3. Não existem sinais ou sintomas psicopatológicos específicos de
determinado transtorno mental → o diagnóstico
psicopatológico repousa sobre a totalidade dos dados clínicos,
momentâneos (exame do estado mental) e evolutivos
(anamnese, história dos sintomas e evolução do transtorno).
➢ É essa totalidade clínica que, detectada, avaliada e interpretada
com conhecimento (teórico e científico) e habilidade (clínica e
intuitiva), conduz ao diagnóstico psicopatológico mais preciso e
útil.
4. O diagnóstico psicopatológico é, em inúmeros casos, apenas
possível com a observação do curso do transtorno.
5. O diagnóstico psiquiátrico deve ser sempre pluridimensional
→ Várias dimensões clínicas e psicossociais devem ser
incluídas para uma formulação diagnóstica completa.
➢ Formulação diagnóstica em eixos
➢ Formulação dinâmica do caso
(conflitos conscientes e inconscientes
implicados no caso específico,
mecanismos de defesa, ganho
secundário, aspectos transferenciais,
etc.)
➢ Formulação diagnóstica cultural
(símbolos e linguagem cultural
específica para aquele indivíduo,
representações sociais do indivíduo e
familiares, valores, rituais,
religiosidade envolvidos no caso).
6. Confiabilidade e validade do diagnóstico em psicopatologia.
✓ Confiabilidade: diz respeito a sua capacidade de produzir, em
relação a um mesmo indivíduo ou para pacientes de um mesmo
grupo diagnóstico, em circunstâncias diversas, o mesmo
diagnóstico.
✓ Validade: diz respeito à capacidade de um procedimento
diagnóstico conseguir captar, identificar ou medir aquilo que
realmente se propõe a reconhecer.
Avaliação do paciente e funções psíquicas alteradas
➢ A avaliação do paciente, em psicopatologia, é feita principalmente
por meio da entrevista.
➢ A entrevista psicopatológica permite a realização dos dois
principais aspectos da avaliação:
✓ A anamnese, ou seja, o histórico dos sinais e dos sintomas que o
indivíduo apresenta ao longo de sua vida, seus antecedentes
pessoais e familiares, assim como de sua família e meio social.
✓ O exame psíquico, também chamado exame do estado mental
atual.
Aspectos relevantes a serem considerados:
➢ Avaliação Física:
✓ Aqueles com transtornos mentais graves (TMGs) apresentam
doenças físicas bem mais frequentemente do que a população em
geral.
✓ As patologias físicas são subdiagnosticadas, não sendo
adequadamente reconhecidas e tratadas nesses pacientes.
➢ Avaliação neurológica:
✓ A avaliação neurológica depende de anamnese bem colhida e de
exame neurológico objetivo, que, bem realizado, visa identificar
topograficamente uma possível lesão ou disfunção no sistema
nervoso central e/ou periférico.
✓ O exame neuropsicológico é considerado parte importante da
avaliação psicopatológica, tanto em psiquiatria como em
psicologia clínica e em neurologia.
➢ Avaliação Psicológica: O Psicodiagnóstico
✓ testes de personalidade, inteligência, cognição social, atenção e
memória, além dos rastreamentos (screening) para
“organicidade”, são os mais utilizados na prática clínica diária (para
revisão de testes psicológicos sobre personalidade, inteligência e
cognição social.
➢ Exames Complementares
✓ Os exames complementares laboratoriais, neurofisiológicos e de
neuroimagem também são um auxílio fundamental ao diagnóstico
psicopatológico, particularmente na detecção de disfunções e
patologias neurológicas e sistêmicas que produzem síndromes e
sintomas psiquiátricos.
E a PSICOLOGIA DA SAÚDE (PS)
➢ Entendia-se que a PS se centrava nas doenças físicas e na
saúde, por contradição com a Psicologia Clínica que centrava-
se na saúde mental e nas doenças mentais;
➢ Stone, em 1979, definiu pela primeira vez a PS, como aquela
que é aplicação “científica ou profissional de conceitos e
métodos psicológicos, a todas as situações próprias do campo
da saúde, não apenas nos cuidados de saúde (...)” (RIBEIRO,
2011, p.24);
Para Matarazzo (1980;1982 apud RIBEIRO, 2011, p.24) a PS
"consiste no domínio da Psicologia que recorre aos
conhecimentos provenientes das diversos áreas da Psicologia
com vista à promoção e proteção da saúde, à prevenção e
tratamento das doenças, à identificação da etiologia e
diagnósticos relacionados com a saúde, (...) à análise e melhoria
do sistema de cuidados de saúde, e ao aperfeiçoamento da
política de saúde“.
Conferência de Arden House : PS é um campo genérico da
Psicologia, com o seu corpo próprio de teoria e conhecimento,
que se diferencia de outros campos da Psicologia.
O interesse da Psicologia pelos ambientes tradicionais de saúde
e doença (não mentais) é paralelo ao desenvolvimento da
consciência acerca do papel do comportamento na saúde e nas
doenças mais comuns;
Uma das características da PS é seu foco, também, em deslocar a
atenção do polo "doença" para o polo "saúde“;
O INTERESSE DA PSICOLOGIA PELA
SAÚDE E DOENÇAS NÃO MENTAIS
Dentro do séc. XX, em 1911, na reunião anual da APA, houve
encontros formais entre psicólogos e médicos com o intuito de
discutir a participação dos profissionais de Psicologia nos
contextos tradicionais de saúde e doenças;
Final da dec. de 70, concluindo o relatório da APA (1976) : os
psicólogos americanos não se sentiam atraídos pelas áreas das
doenças físicas e da saúde;
Na década de 80
• fracasso do modelo biomédico na explicação das
doenças e da saúde;
• crescimento da preocupação com a qualidade de vida e
com a prevenção das doenças;
• mudança da atenção dos profissionais de saúde das
doenças infecciosas para as doenças crônicas;
• maturidade da investigação nas ciências
comportamentais;
• aumento dos custos dos cuidados de saúde e procura de
alternativas aos cuidados de saúde tradicionais.
Bibliografia
FREYZE-PEREIRA, J. O que é loucura. 10. ed. São Paulo (SP): Brasiliense, 1994.
(Coleção Primeiros passos).
FOUCAULT, Michel. História da loucura: na Idade clássica. 6. ed. São Paulo (SP):
Perspectiva, 2000.