RAQUEL ROLNIK
São Paulo
O planejamento da desigualdade
Prefácio
EMICIDA
Sumário
Capa
Folha de rosto
Sumário
Dedicatória
PREFÁCIO - Emicida
INTRODUÇÃO
Da aldeia de Piratininga à cidade do café
A crise dos anos 1920
São Paulo metrópole
São Paulo na virada do milênio: megacidade global?
A cidade confinada: shoppings, condomínios e a agonia dos
espaços públicos
Crise e mudança na São Paulo da pandemia eletrônica
BIBLIOGRAFIA
LISTA DE PREFEITOS DA CIDADE DE SÃO PAULO: 1899-2021
ÍNDICE DE TERMOS PARA A BUSCA
SOBRE A AUTORA
Landmarks
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Body Matter
Table of Contents
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Para minhas meninas Iara e Lia, que aprenderam desde
o berço a compartilhar a mãe com a cidade
Prefácio
No ano de 1859 nascia o primeiro livro de fotografias da América
Latina. Publicado pela Tipografia Nacional, Brazil Pittoresco era um
álbum de autoria de dois exilados franceses, Jean-Victor Frond e
Charles Ribeyrolles. A publicação reunia litografias (fantásticas) feitas
a partir das fotos de Frond realizadas ao longo de suas incursões pelo
império. Junto delas, em francês e português, vinham textos de
Ribeyrolles, jornalista e político, amigo de Victor Hugo e, para alguns,
uma influência do ainda jovem poeta Machado de Assis.
Dentre outras coisas — como o registro da derrubada de árvores e
da diminuição de rios, demonstração de alguma sensibilidade com
questões ambientais que no futuro ganhariam relevância maior ante a
continuidade do descaso —, o livro é tido como propaganda da família
imperial e material de incentivo à imigração europeia. Trazia imagens
de D. Pedro II e sua família junto a livros e a um globo terrestre,
sugerindo se tratar de um “monarca esclarecido”, e muitas imagens da
vida urbana dos lugares visitados pelos autores. Nesse ponto,
cuidadosamente, Victor Frond excluiu a presença escrava de certos
lugares, sobretudo as desumanidades impostas a essa parcela dos
habitantes do Brasil daquele período. Ribeyrolles, por sua vez, afirma
ao analisar a habitação dos escravizados: “nos cubículos dos negros,
jamais vi uma flor: é que lá não existem nem esperanças, nem
recordações”.
Robert W. Slenes, professor do Departamento de História da
Unicamp, erigiu uma obra monumental em resposta às observações do
viajante francês. O livro Na senzala, uma flor, de 1999, observa a
formação da família escrava a partir de tradições centro-africanas e
como essas tradições fundamentam identidades e solidariedade,
mesmo ante um cotidiano que impõe desgraças de toda ordem e a todo
momento para esses seres humanos.
Ribeyrolles provavelmente se encantava mais com a rede do que
com o mar. De maneira que não conseguiu perceber que o fogo presente
na senzala era ele próprio, junto a outros signos que Slenes analisaria
por um prisma original, indo da gastronomia à arquitetura, uma forma
de manutenção das “esperanças e das recordações”. Mano, “lar” vem do
latim lares, que significa deus protetor da casa, domicílio ou
simplesmente lareira segundo o dicionário Oxford. O Houaiss é mais
taxativo ainda em sua definição: “local, na cozinha, onde se acende o
fogo”. Sendo assim, se nas culturas existentes nas terras africanas de
onde aquele povo é oriundo, como entre os Ovimbundu, o fogo sempre
aceso nas habitações era símbolo da continuidade da autoridade do
Soba, o chefe político local, logo a fogueira em si era a própria flor,
reluzindo pela pátria, pela mãe ou pela noiva. Ainda que imersos em
banzo.
É o que meu amigo Rashid costuma chamar de ideias que rimam
mais do que palavras.
Gosto de visitar essa análise de um mesmo ponto, por dois olhares
tão distintos, pois mesmo em tempos diferentes, ela me faz pensar no
direito à subjetividade. Quem merece um segundo olhar, digamos, mais
cuidadoso? Nessa escala grotesca imposta pelo colonialismo, quem
pode ser gente? E quem está amaldiçoado a ser só uma engrenagem?
Engrenagem não tem lar, não precisa, engrenagem repousa num canto
até chegar a hora de ser usada novamente.
Quando me mudei para o extremo norte da Zona Norte de São
Paulo, o bairro Jardim Brasil Novo, que fica entre a serra da Cantareira
e a rodovia Fernão Dias (aliás, mais uma das muitas contradições
brasileiras, em que um invasor de terras e exterminador de nativos
passa a dar nome ao chão onde os descendentes dos derrotados tentam
sobreviver), era um lugar tão ao norte da cidade que meus colegas
faziam piada dizendo que eu poderia me considerar morador da Zona
Sul de Minas Gerais, tamanha a distância. Havia na região apenas seis
casas. Todas elas de famílias pobres, vindas de alguma outra margem
distante da mancha urbana produzida pela densidade populacional
paulistana.
Pouco mais de um ano depois, já com mais algumas casas, fomos
expulsos pelo poder público sem destino certo. Embora todos
estivessem ainda pagando por seus terrenos, descobrimos que na
verdade a empresa que apresentava o loteamento, com planta
urbanística, lotes igualmente divididos, quadras amplas etc., na
verdade não era proprietária do terreno. Estávamos no meio de uma
maracutaia que misturava grilagem, roubo de terras e esquema de
pirâmide, com todas as economias de uma vida comprometidas.
Vimos os tratores, escoltados pela polícia militar, derrubarem casa
por casa, algumas ainda com móveis dentro, não tinha dado tempo de
conseguir um carreto. Numa triste remontagem de “Saudosa maloca” e
“Despejo na favela”, canções doloridas de Adoniran Barbosa,
assistimos a tantos sonhos da casa própria desmoronarem de uma única
vez. Os pobres homens -engrenagem que operavam as máquinas, ou
faziam a escolta delas, só repetiam o refrão do autor de “Trem das
onze” ante o pranto e os gritos dos que ficaram até o fim para ver com
os próprios olhos a desgraça que lhes abateu — é uma ordem superior.
Eduardo Galeano, já no início de seu clássico As veias abertas da
América Latina, nos pergunta: como uma terra tão rica deixou os
homens tão pobres? São Paulo, a terra das oportunidades, poderia
reorganizar a indagação da seguinte maneira: como um lugar cheio de
sonhadores pôde se transformar num pesadelo?
Um ano depois, os moradores entraram em contato uns com os
outros e chegaram ao consenso de que precisavam resistir a tamanha
injustiça. Decidiram sair das casas de parentes onde foram amontoados
às pressas e ocupar o local pelo qual haviam pago com o dinheiro de
toda uma vida. Agora, sem orçamento para casas de alvenaria, lajes
etc., um mutirão conseguiu madeirites e telhas para todos, e centenas
de barracos ocuparam aquela colina no pé da serra.
E assim o Jardim Brasil Novo se tornou idêntico ao velho Brasil.
Expulsão da terra, remoções, endividamento e trabalho forçado
foram alguns dos métodos usados na América Latina, em especial no
México, na Guatemala e no Peru, para forçar a população rural a se
submeter às necessidades dos latifundiários ante os impasses que a
questão do dito elemento servil, mais conhecida como escravatura,
apresentava no século 19. O trabalhador nacional livre recusava-se a
trabalhar regularmente nas fazendas, enquanto o pequeno produtor,
que garantia seu pão de cada dia com a agricultura de subsistência,
precisou ser convertido em mão de obra precarizada para que o
processo de acúmulo da expansão capitalista fosse concluído com
sucesso.
✷
Ribeyrolles e Frond haviam abandonado a França a contragosto.
Militantes republicanos derrotados, presenciaram a ascensão de Luís
Bonaparte III, numa estratégia que reproduzia a mesma tomada de
poder que seu tio Napoleão Bonaparte havia conseguido em 1799. Karl
Marx, em sua crítica ao evento, partilha com o mundo o texto O 18 de
brumário de Luís Bonaparte, em que, recorrendo a uma passagem de
Hegel, conclui com a frase que se tornaria a mais famosa do texto: “a
história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como
farsa”.
Naquele momento pós-revolução de 1848, conhecido como “a
primavera dos povos”, era inconcebível para os republicanos e para os
socialistas que a classe dominante aceitasse uma cópia mais tosca ainda
do ditador de antes. Mas ela aceitou. Os valores democráticos eram um
preço barato a se pagar, desde que a burguesia pudesse manter seu
poder econômico intacto — e qualquer semelhança com o Brasil
contemporâneo não é mera coincidência.
Continuamos dentro da farsa.
Nosso retorno ao “Brasil Novo”, agora na condição de sem-teto
como aqueles trabalhadores do século 19, tinha como característica o
fato de todos construírem a própria casa simultaneamente. Essa era
uma tradição dos mais antigos, algo honroso inclusive, mas naquele
início de adolescência eu nunca tinha visto de dentro um bairro inteiro
se levantar junto. Entrávamos na mata, guiados por meu padrasto,
cortávamos embaúbas, descíamos com os troncos ocos nos ombros,
sendo picados por formigas que habitavam o interior daquela espécie
de árvore. Aqueles troncos se transformariam nas colunas das nossas
moradias. Eram muitas idas e vindas carregando embaúbas, e ali
aprendi um velho jongo criado pelos escravizados no Brasil, uma
maravilhosa manifestação do conceito de formação socioespacial do
grande Milton Santos, segundo o qual a realidade local responde à
imposição da ordem alienígena com as possibilidades que tem a seu
alcance. É a força da cultura através de uma vizinha que nos observava
na labuta, uma velhinha mineira, que também integrava o grupo dos
novos habitantes e cantava enquanto passávamos:
“Com tanto pau no mato,
embaúba é coroné.”
A letra simples e a melodia convidativa ficaram gravadas em mim,
mas apenas anos depois eu fui compreender a profundidade desse
verso. A embaúba é uma árvore oca, por isso insetos a fazem de
moradia. Esse fluxo interno do tronco, junto da seiva da planta, faz
com que se desenvolva em seu interior uma espécie de gosma nojenta e
leva muita gente a concluir que ela está apodrecida por dentro. É uma
árvore alta, esguia, de folhas grandes. Os cativos entoavam esse jongo
num claro afronte ao “coroné” que os tinha posto naquela situação
desumana. O “coroné” era uma árvore vistosa, porém podre por dentro.
E era no meio daquela cantoria melancólica, da derrubada de
árvores e do levantamento de barracos — que me fazia pensar na
quilombagem, tão bem definida por Clóvis Moura —, que meu padrasto
dizia a plenos pulmões: “arquitetura é uma grande frescura”. Mesmo
sem fazer ideia do que arquitetura significava. Para ele era “o luxo de
pagar um almofadinha para dizer a cor das suas paredes”, e num
autoelogio constante ele repetia um pensamento do qual todos ali
partilhavam: planejar, estudar, organizar, projetar o local onde se vai
morar, para nós, não passava de uma grande frescura, um mimo, algo
com o que não se sonhava, por que quem sonha é gente e a cidade na
qual vivíamos já havia nos convencido de que éramos só engrenagens.
A formação dos barracos era idêntica: quarto/cozinha/banheiro
sem porta, apenas com uma cortina protegendo o lugar, ou então
quarto e cozinha, com um banheiro externo. A pouca matéria-prima
disponível limitava as possibilidades de ir muito além disso. Os
barracos eram quadrados ou retângulos na parte mais alta dos terrenos,
com escadas esculpidas na terra vermelha que levavam até a rua.
Famílias com três ou quatro filhos, sem direito a nenhuma privacidade
ou individualidade dentro de suas casas. Sem poder estudar sem ser
incomodado, ver TV sem incomodar, ou fazer amor sem ser ouvido.
Energia elétrica falhando, equipamentos comprados a prestação
pifando ante essa oscilação, falta de água constante, chegando suja
muitas vezes e, para complementar, o assédio das forças policiais que
representam o tentáculo mais violento da aporofobia brasileira,
convertendo-se numa verdadeira máquina de insegurança pública,
especializada em moer pobre. Foram as primeiras vezes em que vi
ônibus inteiros sendo parados por viaturas e todos os homens serem
colocados para fora e revistados, deitados na calçada com a roupa do
trabalho, tendo suas marmitas jogadas no chão. A primeira vez que tive
um revólver apontado para meu rosto foi por demorar a me deitar no
chão numa dessas abordagens.
Então eu entendi a perspectiva do meu padrasto e dos seus
camaradas. Como é que fala de arquitetura ali, mano? Que o desenho
famoso do Leonardo da Vinci é uma interpretação do homem de
Vitrúvio tratando da relação do homem com o universo? Isso é pra
quem é considerado gente.
E nesse sentido, não só nossa cidade, como a nossa sociedade,
falhou.
E se essa preocupação individual com como se ocupa um
determinado lugar era um melindre, um direito que para nós era um
privilégio, a cidade na tradição brasileira acaba por não ser muita coisa
além de um amontoado de coisas privadas. Não deveria ser, mas
infelizmente é.
Não preciso falar dos desabamentos, incêndios, telhados levados
por ventanias, dificuldade de locomoção intrabairro sobretudo em
emergências, que são consequência direta do modo-avião constante que
faz parte da vida de uma pessoa-engrenagem. Como diria Jan Gehl, nós
moldamos as cidades e elas nos moldam.
O modelo de desenvolvimento adotado pela cidade de São Paulo ao
longo de sua história é surdo. Quer prova maior disso do que o primeiro
nome da ocupação desse território ser vila de São Paulo dos Campos de
Piratininga?
Piratininga é topônimo indígena que indica peixe a secar, após a
cheia do rio. Ou seja, é um lugar onde a água sobe e, ao retornar a seu
leito, deixa peixes secando espalhados pelas margens. Se os primeiros
habitantes da região, os povos indígenas tupiniquins, guaianases,
maromomis etc., a batizaram com o nome do fenômeno, como, quase
quinhentos anos depois, a cidade se permite ser surpreendida todo ano
com enchentes? E pior, como coexistem alagamentos e crise hídrica?
Milhares de prédios abandonados e milhares de famílias sem um teto?
A indiferença da lógica eurocêntrica, arbitrando no “mundo novo”,
acabou por funcionar como uma maldição que torna a cidade uma
produtora de contradições em escala industrial, corroendo inclusive o
seu grande potencial. Simplesmente rezamos para um deus que não fala
a nossa língua. O planalto, sugestão dos indígenas, ocupado
inicialmente por propiciar boa visualização do horizonte e garantir,
entre outras coisas, a capacidade de se defender de ataques externos,
foi completamente sequestrado junto de seus arredores pela
especulação imobiliária, que é claramente “horizontefóbica”. Com seu
fetiche por verticalização, ela reduz esse pedaço de terra, e toda
ocupação humana dele, a um efeito colateral da ganância, ontem dos
ibéricos atrás do rio da Prata, hoje dos acionistas em nome da
perversidade neoliberal, que nos levou novamente ao mapa da fome.
A pergunta de um milhão de dólares é: tem solução?
Como diz minha amiga Margareth Valentim lá do Quintal dos
Prettos na Zona Leste, quem tem apenas uma opção na verdade não
tem nenhuma. Logo, é dever dos que aqui estão fazer funcionar para as
pessoas, ou pelo menos tentar. Assim como a linguagem de sinais
oferece um código que comunica aos deficientes auditivos informações
de seu interesse, precisamos refundar essa aldeia e elaborar uma
espécie de libras urbanística, que tenha a capacidade de reorientar
nossa rota e tornar possível um pacto humanístico sem precedentes
nesse lugar. O labirinto nos tornou engrenagens, reivindicar o direito
de sermos gente todos nós é também libertar o labirinto de sua tragédia
e transformá-lo em cidade. Até que possamos nos encontrar na frase de
Fernando Pessoa: “extraviamo-nos a tal ponto que devemos estar no
bom caminho”.
Afinal, é impossível ir de “feliz cabanazinha” a monstruoso gigante
de concreto sem abrir também possibilidades positivas. São Paulo é
mais kafkiana do que o próprio Kafka. Em que outro lugar do mundo
uma pessoa acordaria metamorfoseada em um monstro horrendo e
ficaria preocupada em como vai chegar ao trabalho a tempo? Por outro
lado, também foi aqui que o poeta Mário de Andrade ousou retirar o
espinho da carne do apóstolo que dá nome à cidade, libertando-o de seu
martírio milenar e dando à luz a Pauliceia desvairada. Carolina Maria
de Jesus conheceu o quarto de despejo e também a casa de alvenaria por
aqui, um lugar que gerou sentimentos conflitantes em Caetano Veloso,
mas que, ao final de sua composição “Sampa”, ele chama de “possível
novo quilombo de Zumbi” (e eu concordo).
O concreto é sem dúvidas um grande símbolo da cidade, mas a vida
com sua teimosia e pujança também é. E deve muito aos povos
africanos e ameríndios, que aqui foram oprimidos e, debaixo dessa
opressão, desenvolveram tecnologias sociais complexas para que a vida
se tornasse possível. Seu campo gravitacional conseguiu atrair para
dentro de si e para seus arredores toda sorte de habitantes, criando uma
babilônia tropical que não encontra paralelos no planeta. Sua muralha
natural, a serra do Mar, assim como seus edifícios posteriormente
fariam, impõe um desafio a quem se prostra diante dela. Como
qualquer barreira, ela nos obriga a tomar uma decisão, avançar ou
desistir, não há espaço para a indiferença, tal qual a esfinge de Tebas
(que também foi nome de um arquiteto de São Paulo), a vida se encerra
ou recomeça a partir de seu encontro. Decifra-me ou te devoro.
Seu (nosso) desafio no século 21 é retribuir o assustador
crescimento dos últimos 150 anos propiciando vida digna para todos
que ousaram vir sonhar sob sua garoa, sempre lembrando que quem não
estuda o passado está condenado a reproduzi-lo.
Quando recebi o convite para prefaciar o livro São Paulo — O
planejamento da desigualdade da professora Raquel Rolnik, fiquei antes
de mais nada lisonjeado, honrado de verdade e pensando no tamanho
da responsabilidade que seria tal colaboração. Embora eu seja
paulistano, sou da borda da cidade, minha relação com São Paulo,
sobretudo a minha relação de afeto, foi construída ao longo de anos, em
especial dos últimos vinte, quando alguma mobilidade social se tornou
possível em minha vida e pude conhecer algo que está fora da
programação original de uma pessoa-engrenagem. Sigo desde então
num esforço teimoso que reafirma constantemente dentro de si e
também para fora que a cidade é para todos, precisa ser, caso contrário
o medo a fará não ser de ninguém. É uma utopia, que na verdade só é
utopia devido à falta de vontade política presente em diversas gestões
indiferentes ao drama dos que nasceram ou escolheram Sampa pra
viver. Acredito que nos encontramos, Raquel e eu, nesse desejo de
ajudar a pensar (e também a construir) esse espaço público coletivo e
saudável. Não é fácil, mas, como ela ilustra maravilhosamente bem nas
páginas seguintes, nosso constrangedor abismo social e o gargalo no
qual nos encontramos foram escolhas, assim como construir um futuro
melhor também vai precisar ser.
EMICIDA
dezembro de 2021
Introdução
Quem dela se aproxima é impactado imediatamente por seu tamanho:
quilômetros de ruas e avenidas, bordeadas por construções, vias
iluminadas, blocos de edifícios, casas e galpões, aqui e ali áreas
gigantes circundadas por muros altos, onde se instalam protótipos de
cidades sob o controle privado ou condomínios de dezenas de prédios
iguais. O movimento de pessoas e objetos que circulam 24 horas por dia
é onipresente, gerando fluxos reais e virtuais sobre sua geografia
construída.
A serra da Cantareira, com seu pico do Jaraguá, é um dos poucos
testemunhos contemporâneos do sítio original: São Paulo de vales,
colinas e várzeas irrigados por centenas de rios, nascentes e córregos à
beira de um planalto coberto pela Mata Atlântica e pela umidade que
vem da serra do Mar. Em 2054, quando a cidade estiver completando
quinhentos anos, essa paisagem terá sido transformada sucessivas
vezes.
Seu ponto mais alto — o espigão da avenida Paulista — foi
escolhido como moradia pelos barões do café e capitães da indústria
nascente na São Paulo do início do século 20. Meio século depois, nos
anos 1970, sobre ela se instalaram as torres envidraçadas do chamado
“milagre econômico”, conferindo ao espigão uma altura ainda maior.
Finalmente, a emissão eletrônica de sinais constrói, sobre essas torres
elevadas, antenas iluminadas anunciando uma nova transformação.
Hoje esse espigão é o cenário preferencial de manifestações políticas,
marchas e protestos. A Paulista, como é chamada pelos habitantes de
São Paulo, é hoje um dos pontos de confluência de territórios da cidade:
ali se encontram e se enfrentam tribos, seitas, partidos. Por ser um dos
articuladores do sistema de transportes metropolitano, com estações
de enlace entre diferentes linhas do metrô que levam aos trens da CPTM,
a avenida é povoada por multidões, que tomam as calçadas nos dias de
semana e aos domingos, quando, desde 2016, o evento Paulista Aberta
impede a circulação de carros.
Do alto da avenida se descortinam os dois grandes vales da cidade,
nas antigas várzeas dos rios Tietê e Pinheiros, que, assim como
centenas de córregos antigamente espalhados em meandros, se
transformaram em canais de esgoto espremidos entre vias expressas ou
cobertos por avenidas onde circulam carros, caminhões, motos e
ônibus. Em alguns lugares da cidade, pequenas matas ciliares protegem
um córrego destamponado. São parques desenhados por paisagistas,
encravados em áreas mais consolidadas, ou, ao contrário, áreas que se
desenvolveram sem projeto imobiliário e foram “autourbanizadas”, nas
quais os artefatos da infraestrutura urbana — vias, asfalto, calçadas,
postes de iluminação — ainda não chegaram e não se sabe ao certo se
um dia chegarão. São as frentes de expansão dos territórios populares.
Frentes de expansão de outras geografias ocupam antigos bairros
industriais, acompanhando a várzea do rio Pinheiros: são torres
inteligentes, brilhando em aço e vidro, oferecendo helipontos,
segurança e serviços 24 horas. Às vezes refletem a paisagem agressiva
dos veículos e um rio malcheiroso, mas também as quaresmeiras,
sibipirunas e fícus que teimam em criar raízes, rasgando o asfalto e
invadindo com seus galhos o caótico emaranhado de fios de
eletricidade, internet, TV a cabo, que, através de provedores
corporativos ou de “gatonet”, conecta a cidade.
Com mais de 20 milhões de habitantes, a Região Metropolitana de
São Paulo (RMSP) é hoje uma das cidades-mundo do planeta. Isso
significa que circulam por ela não apenas os que vivem em seus limites
físicos — 900 quilômetros quadrados de área urbanizada, em 39
municípios —, mas também habitantes de outros cantos do país, do
continente, do mundo. Centro de produção, distribuição, gestão e
logística de uma rede de empresas e corporações que atuam em esferas
regionais e globais, São Paulo é um imenso mercado, turbinado pelo
número de pessoas que abarca: moradores, visitantes físicos ou
alcançados por suas redes digitais.
O tamanho da cidade e a vastidão dos espaços por ela alcançados
englobam uma heterogeneidade de territórios: são os circuitos, redes e
tribos que a habitam. É uma cidade de mil povos, capital financeira,
cidade conectada no mundo virtual e real das trocas globais, potência
econômica do país, berço de movimentos sociais, culturais e de
lideranças políticas. No entanto, é uma cidade partida, cravada por
muros visíveis e invisíveis que a esgarçam em guetos e fortalezas.
Estar em São Paulo é estar permanentemente exposto a sua imagem
contraditória de opulência e miséria — carroças e carros blindados,
mansões e barracos, shopping centers e barracas de camelô, food trucks
e ambulantes. Cidade fragmentada, que aparenta não ser fruto da
ordem, mas sim filha do caos, da competição mais selvagem e
desgovernada de projetos individuais de sobrevivência e ascensão, do
sonho de gerações sucessivas de migrantes e imigrantes que vieram em
busca de refúgio e oportunidades e da potência da grande cidade.
Hoje, o futuro da megacidade parece incerto: sobreviverá ao
congestionamento, às consequências da pandemia e à poluição? Aos
alagamentos e à crise hídrica? Reaparecerão os empregos perdidos, vão
se regenerar os rios, matas e a umidade da serra? Voltará a reinar a paz
nas ruas? E aonde vão viver os paulistanos? Vão se multiplicar os
barracos improvisados nas ruas? Haverá serviços públicos de qualidade
para todos? Os espaços públicos sobreviverão? Triunfarão os espaços
comuns?
Para tentar imaginar uma resposta possível a essas questões, é
preciso entender como se chegou a esse ponto, reconhecendo que a
cidade que temos hoje é produto de milhões de ações individuais e
coletivas das gerações que nela investiram seus projetos de vida e que,
longe de ser caótico, esse processo foi diretamente influenciado por
opções de política urbana, tomadas em períodos fundamentais de sua
história. Às políticas urbanas que marcaram as sucessivas
transformações da cidade corresponderam também conflitos,
controvérsias, movimentos e insurgências de seus cidadãos.
É sobre esses momentos e sobre os temas, questões e movimentos
envolvidos nesses conflitos e decisões que vamos nos debruçar nas
próximas páginas. O objetivo é mostrar que a aparente nau
desgovernada corresponde na verdade a territórios marcados por
sucessivos projetos de cidade e métodos de gestão urbana
implementados para administrar um lugar que, em cem anos (entre
1854 e 1954, data de seu quarto centenário), passou de 30 mil para mais
de 2,5 milhões de habitantes, chegando a 10 milhões (20 milhões, se
considerarmos a população da Grande São Paulo) nos cinquenta anos
seguintes, o que o fez transformar-se na principal metrópole de um país
marcado por uma concentração histórica de renda e poder.
Este livro traz uma versão revista, ampliada e atualizada do livro
São Paulo, da coleção Folha Explica, publicado pela primeira vez em
2001. Trata-se de uma história urbanística da cidade, que se inicia com
a implantação da vila no século 16 em território tupiniquim e avança até
2021, segundo ano da pandemia de coronavírus que assolou a cidade e o
planeta. Em cada um dos capítulos, abordo um momento decisivo dessa
história, em que temas, questões ou políticas emergiram, marcando
para sempre o tecido sociopolítico espacial da cidade.
O período que vai da vila bandeirante à construção da cidade
cosmopolita, impulsionada pela máquina da cafeicultura e do Partido
Republicano Paulista (PRP), é tratado no primeiro capítulo, “Da aldeia
de Piratininga à cidade do café”. O segundo acompanha “A crise dos
anos 1920” e a emergência de um novo pacto político-territorial nos
anos 1930, pacto que conforma o processo de urbanização da cidade até
os dias de hoje. O terceiro capítulo, “São Paulo metrópole”, reconstrói a
lógica política — e urbanística — da metropolização, abordando o
momento em que a cidade se solta dos trilhos, espalhando-se em
periferias precárias. Nos seguintes, “São Paulo na virada do milênio” e
“A cidade confinada”, focalizo a desconstituição da cidade industrial, a
emergência do urbanismo dos enclaves fortificados, com a
multiplicação de shopping centers e condomínios fechados, assim como
a formação de um novo polo corporativo-financeiro às margens do rio
Pinheiros. O percurso se completa com “Crise e mudança na São Paulo
da pandemia eletrônica”, que aborda as mudanças no mundo do
trabalho, no consumo e na vida na cidade. Como numa vertigem, tais
mudanças se aceleraram com o advento de uma pandemia que, até
novembro de 2021, já tinha matado mais de 40 mil pessoas na cidade de
São Paulo e 615 mil no Brasil. Esse momento levanta perguntas sobre
passado e futuro que procuraremos abordar aqui.
Escrevi o livro pensando em traduzir os dilemas do urbanismo
paulistano para o leigo, a pessoa não especialista, a estudante, a
curiosa. É um texto para conhecer a história e entender o presente, mas
sobretudo é um manifesto que acredita que, se decisões de política
urbana nos trouxeram até aqui, guinadas em outras direções são sempre
possíveis. Está nas mãos dos residentes dessa cidade construir tais
horizontes utópicos, definindo mais uma camada de sua história.
Da aldeia de Piratininga à cidade do café
A vila de São Paulo foi assim denominada em 1554 por padres jesuítas
no local onde havia se estabelecido um pouco antes a aldeia de
Piratininga. Esta foi fruto da iniciativa de portugueses estabelecidos
em São Vicente, no litoral, que subiram a escarpa densamente recoberta
pela Mata Atlântica — a serra do Mar. Foram indígenas tupiniquins
que apresentaram aos portugueses a trilha que chegava ao planalto.
Nos campos de Piratininga, estes fundaram um colégio sobre uma de
suas colinas, de onde se vislumbrava o vasto panorama da várzea do rio
Tamanduateí, afluente do Tietê, cujas cabeceiras se situam no caminho
do mar.
Até meados do século 19 a cidade não tinha grande importância
para a economia do país, centrada na produção do açúcar no Nordeste
(desde a chegada dos portugueses em 1500 até o século 17) e na
exploração de ouro, diamante e cultivo do café no eixo Rio de Janeiro-
Minas Gerais (do século 18 até meados do século 19). Cidade entreposto
comercial, da troca da subsistência miúda do cinturão caipira, tinha
menos de 9 mil habitantes em 1836 e 30 mil em 1873. Entretanto, foi da
vila de São Paulo que, desde o século 17, partiram “entradas e
bandeiras”, expedições de exploração do território com o objetivo de
escravizar indígenas, tomar posse de terras e procurar minérios.
São Paulo bandeirante: desde sua fundação a marca da cidade é a
fronteira aberta, por onde entram os forasteiros do país e do mundo e
de onde se parte para ocupar territórios, transformar paisagens e
extrair riquezas.
Até o início do século 19, São Paulo era predominantemente
habitada por portugueses, indígenas, e seus descendentes, e a língua
mais falada na cidade era o tupi-guarani. A posição econômica da vila
se transformou totalmente com a expansão do cultivo de café na então
província de São Paulo. Introduzida inicialmente no vale do Paraíba,
por volta de 1850, a cafeicultura começou a ocupar o Oeste Paulista.
Nesse período, com as pressões internas e externas pelo fim da
escravidão, a região importava toda a mão de obra escravizada
disponível no país, de tal forma que, em 1870, dos 32 mil habitantes de
São Paulo, um terço era negro. Eram escravizados domésticos ou de
ganho, cujo trabalho era “alugado” pelo senhor para outrem por horas
ou dias, forros ou libertos, carregadores, lavadeiras e trabalhadores nos
ofícios que moviam o mundo laboral e marcavam a paisagem das ruas
na vila.
Naquele momento a fome de braços para a expansão das lavouras de
café era confrontada pelas pressões de dentro — o movimento
abolicionista — e de fora — a quase extinção da atividade mercantil do
tráfico de escravos —, de forma que a questão dos braços para a lavoura
(e não o destino dos libertos!) se transformaria em tema central da
agenda política econômica do país, que só seria resolvida com os fluxos
imigratórios — inicialmente subsidiados pelo governo e depois
espontâneos — de centenas de milhares de europeus, sobretudo do sul
do continente (Itália, Espanha e Portugal), para trabalhar nas fazendas
do interior da província.
São Paulo em 1890
A cultura cafeeira — e sobretudo os capitais excedentes por ela
gerados — transformaram totalmente a cidade. Por ser o primeiro
ponto no planalto a partir do porto de Santos, São Paulo estabelecia a
conexão entre as regiões produtoras, o porto e o Rio de Janeiro, capital
do país. Assim, a partir de 1867, ano em que foi implantada a primeira
estrada de ferro na cidade interligando Santos e Jundiaí, seus vales
foram sendo atravessados por ferrovias. Entroncamento ferroviário e
sede de uma província em franca expansão econômica no momento da
Abolição da escravidão em 1888, da transição ao regime de trabalho
assalariado e da Proclamação da República em 1889, a cidade nesse
momento começa a passar por uma grande transformação urbanística,
econômica, étnica, política e cultural.
São Paulo, na virada do século, foi uma cidade que rapidamente
acumulava capitais, atraindo um intenso fluxo imigratório europeu.
Mais de 1,7 milhão de europeus passaram pela cidade entre 1890 e 1920,
e em 1900 São Paulo já contava com uma população de 240 mil
habitantes, dos quais mais de 150 mil eram estrangeiros.
O embranquecimento e a europeização passam então a se constituir
como projeto de uma cidade que desejava ocultar não apenas a
escravização de indígenas e negros que foi a base de desenvolvimento,
mas também a presença de seus descendentes, homens e mulheres livres
e pobres: negros, indígenas, caipiras, que constituíam o mundo popular
na São Paulo colonial. Reiterava-se o racismo através da constituição
de uma hierarquia social baseada em cor, religião e referência cultural,
sustentada desumanização de indígenas e negros construída pela
escravidão
O imaginário da cidade branca, espelhada na experiência urbana
europeia — e posteriormente estadunidense, como veremos —, resiste
mesmo diante da realidade das levas sucessivas de imigrantes asiáticos
(japoneses a partir dos anos 1920 e posteriormente chineses e
coreanos), do Oriente Médio (Líbano e Síria em diferentes levas),
latino-americanos (sobretudo bolivianos) e africanos (a mais nova onda
imigratória) que se sucederam ao longo dos séculos 20 e 21, além da
enorme presença de mineiros e nordestinos, pardos e pretos que
afluíram para a cidade a partir dos anos 1940, e das presenças indígena
e negra de diferentes matizes.
A europeização como sinônimo de modernização se inscreve de
forma nítida no espaço urbano: no Centro Histórico, a colina original
estruturada em torno de igrejas e ordens coloniais — do Carmo, São
Francisco, São Bento e seus largos — sofreu uma primeira grande
reforma urbanística no vale do Anhangabaú, com a implantação de um
projeto do engenheiro francês Joseph-Antoine Bouvard, encarregado
de obras públicas de Paris. Foram construídos o Teatro Municipal e sua
esplanada sobre o vale e o viaduto do Chá. Houve também o
alargamento de ruas e vielas coloniais, configurando a “cidade do
triângulo” (delimitada pelas ruas São Bento, Direita e Quinze de
Novembro) e o princípio da ocupação do chamado Centro Novo (região
em torno da praça da República), com bulevares, jardins públicos,
cafés, lojas elegantes e equipamentos culturais, expressão da mudança
radical da identidade proposta para a cidade por sua nova elite
dirigente, composta pelos latifundiários do café e suas famílias, mas
também por comerciantes e industriais que enriqueceram com o
crescimento da cidade.
A construção dessa paisagem francesa implicou demolições,
despejos e remoções em massa de moradias populares que ocupavam o
centro da cidade com sobrados, oficinas e quartos de aluguel.
O Centro era local de moradia e trabalho, inclusive de escravizados,
negros libertos e brancos pobres. A periferia era o cinturão caipira
abrigando também chácaras ricas. As ruas e praças do Centro
misturavam grupos sociais e atividades; a negra com seu tabuleiro de
doces e salgados, os ofícios exercidos em portinholas e nas ruas. No
entanto, os limites e fronteiras entre esses diferentes grupos estavam
claramente definidos, já que as marcas da diferença entre senhores e
escravizados, visíveis na cor da pele, prescindem de signos espaciais.
A grande transformação que ocorreu na cidade do café foi, sem
dúvida, a configuração de uma segregação espacial mais delineada:
territórios específicos e separados para cada atividade e cada grupo
social. Isso se deu por meio da constituição dos bairros proletários e
dos loteamentos burgueses, da ação discriminatória dos investimentos
públicos e da regulação urbanística, que ajudou a construir e perpetuar
as diferenças.
Naquele momento de intensos fluxos imigratórios, a cidade viveu
seu primeiro surto industrial, baseado sobretudo nas indústrias têxteis
e alimentícias, que ocuparam as várzeas por onde passavam as
ferrovias, constituindo as primeiras grandes regiões operárias de São
Paulo: as orlas ferroviárias no Leste, Oeste e Sudeste. Nesses bairros —
Lapa, Bom Retiro, Brás, Pari, Belém, Mooca, Ipiranga — formaram-se
também as primeiras colônias de imigrantes. Casas coletivas e pensões,
vilas e sobrados de aluguel abrigavam os recém-chegados e ofereciam
oportunidades de renda para aqueles que já haviam acumulado
pequenos capitais. Entremeavam-se ainda armazéns, lojas, oficinas e
fábricas. No mesmo período, e seguindo os mesmos eixos ferroviários,
tinha início a primeira ocupação do ABC Paulista, a sudeste do
município, e da região de Osasco, a oeste.
Esse momento correspondeu também ao primeiro grande surto de
“urbanidade” na cidade, quando foram implantados os serviços de água
encanada, o transporte por bondes elétricos, a iluminação pública e a
pavimentação das vias. A política de implantação desses
“melhoramentos” desde logo foi distinta em cada um dos espaços da
cidade.
Nos bairros populares, a paisagem misturava as chaminés de fábrica
à alta densidade populacional das vilas e cortiços, e a infraestrutura
urbana se resumia praticamente ao bonde.
É nesse momento que se constrói um dos primeiros fundamentos da
ordem urbanística que governa a cidade, presente em alguma medida
até nossos dias: uma região central investida pelo urbanismo, destinada
apenas às elites, contraposta a um espaço fora desse centro, onde as
regras urbanísticas e edilícias não são a única referência, onde se
misturam o mundo do trabalho e o da moradia dos pobres.
Nos bairros populares, a paisagem é feita de lotes superocupados
horizontalmente, formando becos e vilas, entremeados por galpões
industriais, ocupando as várzeas pantanosas e inundáveis no entorno
das ferrovias. Exiguidade de espaços privados, profusão de áreas
semipúblicas densamente ocupadas: corredores, ruas internas e pátios.
Geralmente, há barro nas ruas, esgoto a céu aberto e bonde na via
principal. O bairro dos ricos é aquele cujas mansões circundadas por
jardins se fecham em muros, exibindo sua imponência nas avenidas
largas e iluminadas, amplos espaços para uma seleta e íntima vida
social.
Em 1879, um suíço, Frederico Glete, e um alemão, Victor
Nothmann, compram uma chácara e abrem ali um loteamento de ruas
espaçosas, alamedas arborizadas e grandes terrenos. Assim nascia o
bairro dos Campos Elíseos: um Champs-Élysées paulistano, que
definiria o modelo de bairro aristocrático, exclusivamente residencial e
de alta renda. Em 1890, é a vez do recém-aberto bairro de Higienópolis
concentrar os palacetes mais elegantes. Em seguida, a avenida Paulista,
inaugurada em 1891, dá início a uma nova frente de ocupação da
cidade, no alto de seu espigão.
Afastada do núcleo urbanizado, a avenida Paulista contava com
rede de água e esgoto, iluminação e piso macadamizado com
pedregulhos brancos antes de ser ocupada. Em 1894, Joaquim Eugênio
de Lima, incorporador da Paulista, conseguiu aprovar uma lei na
Câmara Municipal exclusivamente para a avenida, obrigando as
futuras construções a obedecer a um afastamento de dez metros em
relação à rua, bem como dois metros de cada lado, a serem ocupados
por, de acordo com a lei, “jardins e arvoredos”. Dessa forma, por meio
de leis que definem um modo de construir que corresponde clara e
exclusivamente a um segmento social, garantiu-se ao longo da história
da cidade que os espaços com melhor qualidade urbanística fossem
destinados a esses grupos, apesar da imensa pressão representada
permanentemente pelo crescimento populacional das massas
imigrantes.
Nesse episódio se esboça o fundamento de uma geografia social da
cidade, da qual até hoje não se conseguiu escapar. O setor sudoeste, que
se constituiu a partir do percurso Campos Elíseos-Higienópolis-
Paulista e depois se completaria, até os anos 1950, com os loteamentos
da Companhia City nos Jardins e outras localidades, configura uma
centralidade da elite paulistana, o espaço que historicamente concentra
os valores imobiliários mais altos, o comércio elegante, as mansões e
apartamentos mais opulentos, o consumo cultural da moda e o maior
volume de investimentos públicos. Na Primeira República (1889-1930),
a imagem dessa topografia social é feita de colinas secas, arejadas e
iluminadas, de palacetes que olham para as baixadas úmidas e
pantanosas, onde se aglomera a pobreza.
Os serviços públicos de transporte urbano sobre trilhos (o bonde),
de energia e de telefonia eram controlados por uma única
concessionária — a empresa de capital misto anglo-canadense The São
Paulo Tramway, Light and Power Co. Esse monopólio simultâneo dos
serviços mais essenciais — que duraria até os anos 1930 — dotou a
companhia de um grande poder de abrir frentes de expansão
imobiliária, uma vez que podia decidir onde e como seria instalada essa
infraestrutura. Associando-se a empreendedores imobiliários no
loteamento dessas áreas, a Light se beneficiava duplamente,
participando tanto do negócio da prestação dos serviços quanto da
valorização imobiliária decorrente da sua implantação.
Em 1909, quando deveria ser renovado o contrato da Light com a
prefeitura, o então prefeito Antônio Prado, resistindo ao assédio da
companhia, emitiu um parecer contrário à prorrogação. Essa decisão
foi festejada como uma vitória pela população, descontente com as
tarifas altas e a péssima qualidade do serviço da empresa. No entanto, a
Comissão de Justiça da Câmara derrubou o parecer do prefeito,
reafirmando o monopólio. Explodiu, então, um motim popular que
ocupou o Centro aos gritos de “Abaixo a Light! Abaixo o monopólio!
Viva Antônio Prado!”. Apesar da revolta, as condições contratuais
foram mantidas e a Light continuou ditando as regras de indexação dos
preços de terrenos, gerando eixos de expansão e definindo, a partir de
critérios de mercado, quem deveria ser beneficiado e quem seria
excluído da provisão de infraestruturas, em uma cidade cuja demanda
por urbanização se expandia em ritmo acelerado.
Na Primeira República, as decisões políticas sobre a gestão
municipal tinham como interlocutores apenas a elite paulistana,
diminuta parcela da população que votava para eleger a Câmara
Municipal e, a partir de 1911, o prefeito da cidade. De acordo com as
regras da Constituição, só votavam os homens, brasileiros, maiores de
21 anos e alfabetizados, e o voto não era secreto. Em uma cidade onde a
maior parte da população era de estrangeiros e/ou analfabetos, a voz
das maiorias contava muito pouco no jogo eleitoral. O que
caracterizava a relação entre eleitores e governantes não era assim,
propriamente, a representação de grupos de interesse, já que, dados a
restrição do número de eleitores, o voto aberto e a seletividade
econômica e social, os únicos segmentos efetivamente representados
pertenciam a um grupo seleto.
Pertencer a essa elite era participar de um círculo restrito de
grandes proprietários rurais, negociantes enriquecidos e banqueiros,
aos quais se somavam profissionais liberais — sobretudo advogados,
médicos e engenheiros —, ligados a eles por vínculos familiares ou de
trabalho. O voto popular, quando existia, era mediado por uma relação
hierárquica baseada em laços de obediência, lealdade e proteção.
Assim, não tinha necessariamente uma conexão com demandas
populares. A participação popular nas eleições era atravessada não por
direitos, mas por redes de relacionamentos pessoais, das quais se
poderiam obter favores e oportunidades.
Eram eleitos, diplomados e reconhecidos os candidatos que as
comissões executivas dos partidos houvessem indicado em seus
boletins. No dia das eleições, seções eleitorais inteiras poderiam não
funcionar, os livros e as atas ficavam nas mãos de juízes ligados ao
grupo que dirigia a política municipal. Mortos e ausentes às vezes
“votavam”. Com esses procedimentos se garantia a então chamada
“degola” de eleitos indesejados. As eleições eram o cumprimento de
uma formalidade com a qual se mantinha a ilusão de se estar seguindo a
Constituição. Prescindiam de um debate sobre as questões da cidade,
do estado ou do país e giravam em torno de figuras políticas — ou
melhor, de figurões e seus círculos.
Ao mesmo tempo que conformam os territórios da riqueza, a
concentração de investimentos em “melhoramentos” e a legislação
também definem aqueles lugares onde deverá se instalar a pobreza. O
movimento da cidade, desde seu nascimento, é centrífugo, ou seja,
delimita as bordas da zona urbana ou mesmo a zona rural como locais
destinados aos mais pobres. Diga-se de passagem, a lógica de destinar
as lonjuras para os pobres atravessou, incólume, o século 20,
adentrando o século 21. Começa com a proibição da instalação de
cortiços na zona central, definida pelos códigos de posturas e sanitários
a partir de 1886, que também permitem que vilas operárias “higiênicas”
sejam construídas fora da aglomeração urbana. E continua com a
delimitação do chamado perímetro urbano, demarcação de áreas que
deveriam obrigatoriamente receber serviços de infraestrutura,
excluindo bairros operários já inteiramente habitados na época, como
Vila Prudente, Tatuapé ou Canindé.
Dessa maneira, demarcava-se uma área “regulada” da cidade, onde a
habitação popular — na época, o cortiço e outras formas de moradia de
aluguel — não poderia acontecer, ao mesmo tempo que se configurava,
fora do perímetro urbano, uma zona de obscuridade sobre a qual o olhar
do poder municipal não vigorava.
Na lógica da cidade dos trilhos, a malha das linhas de bonde e as
estações de trem definiam os limites de uma urbanização densa e
concentrada. Assim, até o final dos anos 1920, apesar de desigual e
dividida, a cidade mantinha ainda algumas relações básicas com sua
geografia natural e possuía uma malha urbana relativamente contínua e
compacta, servida por transporte público na maior parte de sua
extensão. Os grandes rios — Tietê, Anhangabaú, Tamanduateí e
Pinheiros — começam a sofrer intervenções de retificação, por meio da
construção de canais retilíneos, perdem suas curvas e meandros e têm
suas várzeas ocupadas. É o início, a cada janeiro chuvoso, das
inevitáveis inundações provocadas pelas cheias dos rios, que invadem
as várzeas que lhes foram roubadas.
Esse modelo liberal e privatista, e toda a construção de relações
políticas que lhe correspondia, entra em crise na segunda década do
século 20, vítima da voracidade de sua criatura: uma cidade que em
1920 chega aos 600 mil habitantes, densa e concentrada como um barril
de pólvora prestes a explodir.
A crise dos anos 1920
A cidade nos anos 1920 vivia um momento especial: durante as décadas
de expansão da cultura cafeeira na província (e depois no estado), São
Paulo foi o maior ponto de atração de capitais e pessoas de todo o país.
Com isso, nos anos 1930, ultrapassaria a marca de 1 milhão de
habitantes, tornando-se uma das metrópoles cosmopolitas da América,
ao lado do Rio de Janeiro (a capital), Nova York, Chicago, Filadélfia e
Buenos Aires. É a partir dos anos 1920 que São Paulo entra nos
circuitos culturais internacionais, alinhando-se ao sopro modernista
que impactava a produção cultural do Velho Mundo.
A disseminação da prática de esportes, a chegada dos cinemas, dos
automóveis e aviões, além das turnês de grandes artistas, conferiram
um ritmo radicalmente novo a São Paulo. A imagem futurista que
sintetiza essa nova paisagem é o zepelim sobrevoando em 1928 o
edifício Martinelli, o primeiro arranha-céu de uma metrópole cujos
edifícios até então não passavam de onze pavimentos.
Por ter sido a capital da oligarquia do café durante a Primeira
República, São Paulo abrigava a representação do poder econômico e
provia o governo federal de presidentes e ministros. Seu papel era,
portanto, fundamental na definição dos rumos políticos do país.
No contexto da Primeira Guerra Mundial, em virtude do colapso
das linhas de comércio internacional, São Paulo assistira a um grande
surto de crescimento industrial, iniciando o processo de substituição de
importações, voltado para a produção nacional de bens de consumo
para o mercado interno, assim como para a exportação de gêneros
alimentícios. Essa industrialização em larga escala e a disponibilização
de capitais excedentes dela decorrentes significaram, além do
aparecimento de um proletariado urbano, um intenso crescimento
demográfico e aumento da demanda por terrenos e habitações,
responsáveis por uma carestia geral, que multiplicava os preços dos
gêneros alimentícios, vestuário e aluguéis, configurando uma disparada
inflacionária. Ao mesmo tempo, a expansão das atividades econômicas
na cidade constituía a possibilidade de formação de novas fortunas,
não diretamente dependentes da produção e exportação do café.
Por um lado, a guerra encarecia os produtos importados — boa
parte dos insumos para a construção — e, por outro, a política
monetária e fiscal destinada a proteger os preços e lucros do café
provocava uma espiral inflacionária. Ao findar a segunda década do
século 20, o quadro na cidade era de escassez, especulação e inflação.
Emergia pela primeira vez um movimento sindical no meio
operário, fortemente inspirado no anarquismo, que dominava os
círculos operários da Itália e da Espanha no período. Em 1917, ocorria
na cidade uma grande greve geral, impulsionada pelas tensões da
questão social e da carestia urbana. Uma vasta rede de associações
livres (culturais, esportivas, escolares e sindicais), fomentadas pelos
anarquistas no interior dos bairros populares, teve papel fundamental
na ampliação da base desse movimento, ao incorporar questões para
além do mundo do trabalho, como o valor dos aluguéis e o preço e a
qualidade dos produtos de primeira necessidade. Assim, tensões
presentes na cidade emergiam no campo sindical e penetravam rápida e
fortemente nos bairros operários.
Sobreveio ainda a epidemia de gripe espanhola, que em 1918 -19
matou milhares de paulistanos, aumentando a aflição e o
descontentamento na capital. Nesse contexto, acirrava-se todo tipo de
tensão e conflito.
Na cidade em expansão se constituía também um novo grupo social:
a classe média urbana. Esse grupo, formado sobretudo por pequenos
comerciantes, construtores, senhorios de cortiços e vilas, funcionários
públicos mais graduados e proprietários de microindústrias caseiras e
familiares, também não tinha voz na política paulistana e era
diretamente atingido pelas flutuações da economia do país. O destino
dos territórios populares interessava tanto à liderança sindicalista
quanto à pequena burguesia proprietária, que compartilhava com os
operários o espaço das vilas e casas de aluguel. A aliança entre os dois
grupos será fundamental para determinar o grau de radicalidade da
Revolução de 1930 em São Paulo, no bojo da grande transformação
política que ocorreu no país.
A conjuntura 1926-30, que correspondeu à administração do
prefeito José Pires do Rio, vai marcar a transição do modelo político e
territorial liberal da Primeira República para um governo
intervencionista, com fortíssimo acento nacionalista, que dialogava
com os operários, mas também com as classes médias urbanas.
Do ponto de vista da política urbana, o advento e o rápido aumento
do número de automóveis, o surgimento dos primeiros ônibus e a
pressão por novas oportunidades de moradia nos anos 1920 acabam por
entornar o caldo do urbanismo da Primeira República, inaugurando a
era das grandes obras viárias, da ampliação da intervenção do governo
na provisão dos serviços e da emergência da expansão periférica como
estratégia de acomodação das demandas por moradia popular.
Enquanto a cidade se adensava e expandia, a partir de 1920 o
investimento na ampliação da rede viária e no aumento do número de
bondes foi deixando de ser prioritário para a Light. O crescimento
espetacular da indústria paulistana ampliava o mercado consumidor de
energia elétrica, justificando o ousado projeto da Light and Power de
construção da usina Henry Borden, que aproveitaria a queda natural da
escarpa da serra do Mar para gerar energia. Durante toda a década de
1920, o projeto prioritário da Light foi voltado à obtenção da concessão
do rio Pinheiros, afluente do Tietê, a fim de reverter seu curso e
alimentar, no alto da serra, uma grande represa artificial — a Billings
—, capaz de gerar a massa de água necessária para acionar as turbinas.
Ao controlar o fluxo do Tietê por meio das estações elevatórias de
Traição e Pedreira, a Light obteria a água necessária para alimentar o
curso invertido do rio Pinheiros, mantendo seus reservatórios do
sistema hidrelétrico em nível máximo.
Dessa forma, a companhia deixou de investir na melhoria e na
expansão do sistema de bondes. A não ampliação da oferta de
transporte, até então monopólio da Light, agravou as condições de vida
e acirrou a tensão nos bairros populares, até que, em 1924, entraram em
cena os primeiros ônibus, clandestinos, na maioria montados sobre
chassis de caminhões Ford. Dada sua versatilidade, o serviço não
regulamentado de ônibus logo se transformou em sério competidor
para os bondes (qualquer semelhança com as vans clandestinas na São
Paulo dos anos 1990 não é mera coincidência). A Light julgava que os
ônibus agravavam uma situação já por si desfavorável para a
companhia, em virtude do congelamento das tarifas por contrato —
apesar da inflação — e do aumento dos custos causado pelos
congestionamentos, que esticavam a duração média das viagens de
bonde.
Levando em conta todos esses fatores, a Light propôs renovar seu
contrato com o governo da cidade, investindo na implantação de um
metrô na região central, articulado com uma rede expandida de bondes
de superfície com calhas exclusivas, e na criação de um sistema
integrado bonde-ônibus que incorporaria os quase duzentos ônibus
clandestinos em circulação na cidade. Como contrapartida, a empresa
exigia para si o monopólio do serviço de transporte por ônibus, além do
aumento das tarifas e da continuação e ampliação da concessão para
toda a rede de metrô-bonde.
A discussão pública sobre a proposta da Light aumentou a
temperatura política na cidade. O Partido Democrático (PD) — força
emergente de oposição ao Partido Republicano Paulista (PRP), que
havia dominado a cena política por mais de duas décadas — se opôs à
proposta, apresentando argumentos de defesa do papel do Estado na
regulação dos serviços públicos e exigindo o estabelecimento de um
critério público e transparente para os cálculos das tarifas. No entanto,
a oposição à proposta da Light foi agravada pela ocorrência de uma
grande enchente em 1929, atribuída por muitos à atuação da própria
companhia, que controlava o fluxo dos rios.
Dada a condição vulnerável da várzea e do sistema de estações
elevatórias e de reservatórios da Light, sempre mantidos em um nível
máximo, qualquer chuva de verão mais intensa resultava em enchentes.
Desde 1919 já aconteciam inundações consideráveis, principalmente na
confluência dos rios Tietê e Tamanduateí, na Zona Leste e Sudeste da
cidade, áreas ocupadas por assentamentos populares. No entanto, a
enchente de 1929 assumiu novas proporções. Durante os anos 1920,
vastas extensões da várzea — como a Vila Maria Baixa e parte da Vila
Guilherme, nas margens do Tietê, bem como a Vila Independência e a
Vila Carioca, na várzea do Tamanduateí — haviam sido ocupadas.
Além disso, naquele ano, pela primeira vez, a enchente atingiu
propriedades “nobres”, como a Cidade Jardim, área pertencente à
Companhia City, às margens do rio Pinheiros. Em 1929, o movimento
de expansão da capital em direção ao sudoeste já passara para o outro
lado do rio, chegando ao Butantã e ao Morumbi. Os danos causados
pela enchente foram agravados pela severa crise econômica que se
instalou com a quebra da bolsa de valores de Nova York, no mesmo ano.
A situação da Light era politicamente delicada, e a possibilidade de
um consenso sobre sua proposta parecia impossível. Além do mais, uma
contraproposta argumentava que a execução do projeto da empresa
inviabilizaria a implantação do Plano de Avenidas de Francisco Prestes
Maia, com seu sistema de vias que formaria uma grelha radial
perimetral. O governo municipal finalmente decidiu não renovar o
contrato com a Light, implementando o projeto de Prestes Maia e
iniciando a construção da avenida Nove de Julho, uma das vias radiais
propostas no plano.
A concepção urbanística de Prestes Maia, engenheiro de obras da
prefeitura em 1924, se opunha a qualquer obstáculo físico para a
expansão urbana ou a qualquer definição a priori de um limite para o
crescimento da cidade. Essa posição era totalmente compatível com a
percepção de que a alta densidade populacional dos bairros populares,
assim como as demandas não satisfeitas por moradia, contribuíam para
elevar o grau de explosividade dos nascentes movimentos sociais e
sindicais. O uso de ônibus a diesel tornaria os bairros da periferia
acessíveis. Ao contrário dos bondes e trens, cujo raio de influência era
limitado pela distância entre estações, o serviço de ônibus, combinado
com o modelo de expansão horizontal, trazia a solução para a crise de
moradia: a autoconstrução das casas populares em loteamentos
dispersos e sem infraestrutura na periferia. O modelo das casas
autoconstruídas na periferia evitava a desvalorização das regiões
centrais, pressionada por densidades habitacionais cada vez mais altas,
ao mesmo tempo que retirava o peso do pagamento do aluguel do custo
de vida dos trabalhadores.
Dessa forma, configura-se na cidade a opção pelo modelo
rodoviarista do transporte sobre pneus. A implantação efetiva das
avenidas propostas por Prestes Maia só ocorre em 1938 quando este
assume a prefeitura, na qual permaneceu até 1945.
A combinação da construção de avenidas com a canalização de rios
e córregos completou o novo modelo de circulação, com os rios
confinados em canais ou galerias subterrâneas e sobre os quais foram
criadas avenidas de fundo de vale. São exemplos dessa estratégia a
avenida do Estado (sobre o rio Tamanduateí), a avenida Aricanduva
(junto ao córrego de mesmo nome), a avenida Nove de Julho (sobre o
córrego canalizado do Saracura), a avenida Itororó (sobre o córrego de
mesmo nome e futura avenida Vinte e Três de Maio) e as marginais (ao
lado dos rios Pinheiros e Tietê, retificado e encurtado em vinte
quilômetros, para ocupação de sua várzea). Essas obras acabaram por
definir, até os dias de hoje, a estrutura urbana básica de São Paulo.
A expansão horizontal ilimitada, concepção coerente com o modelo
radioconcêntrico de sistema viário proposto pelo plano de Prestes
Maia, viabilizou o lançamento de loteamentos em periferias distantes.
A autoconstrução em lotes próprios era, por sua vez, a resposta, do
ponto de vista da economia imobiliária, à crise da moradia, uma vez que
permitia a trabalhadores de baixa renda comprar um pedaço de terra a
prestação em um loteamento distante e construir pouco a pouco sua
moradia, ao ritmo de sua capacidade de poupança e do emprego do
tempo e esforço familiar no trabalho de construção. Dessa forma,
proporcionava-se um aumento da oferta de moradia, em um quadro de
baixos salários. Esse modelo se expandiu inclusive na escala
metropolitana, contribuindo para viabilizar a instalação de indústrias
multinacionais de bens de consumo modernos, como automóveis e
eletrodomésticos, na medida em que a autoconstrução em loteamentos
periféricos permitia a manutenção de salários deprimidos, que jamais
incorporaram altos custos de moradia, garantindo a competitividade
da indústria multinacional que se estabelecia no país e que teve São
Paulo como um de seus epicentros.
Plano de Avenidas de Prestes Maia
A comparação das plantas da cidade e dos dados populacionais de
1914 e 1930 demonstra um processo claro de expansão horizontal e
desadensamento populacional. Se em 1914 a área ocupada era de 3.760
hectares (1 hectare corresponde a 10 mil metros quadrados ou
aproximadamente um quarteirão) e a densidade, de 110 habitantes por
hectare, já em 1930 a área ocupada seria de 17.653 hectares e a
densidade, de 47 habitantes por hectare. Ou seja, a densidade caiu pela
metade, configurando uma urbanização fragmentada e dispersa. A
partir daí ela se manteve praticamente constante, em torno de 50
habitantes por hectare até a década de 1970, e a cidade se espalhou
vorazmente, engolindo morros e várzeas e conurbando, isto é, unindo
áreas urbanizadas com municípios vizinhos, quase sempre combinando
autoconstrução de loteamentos populares — aprovados pela prefeitura
ou abertos sem licença —, conjuntos habitacionais públicos
construídos nas lonjuras, como Cidade Tiradentes, e ocupações de
áreas vazias nessas mesmas regiões.
Loteamentos longínquos do Centro, dispersos e sem infraestrutura,
uma cidade de baixíssima densidade comparada ao padrão anterior, que
se concentrava em torno dos trilhos: esse novo modelo colocava em
xeque toda a lógica de investimentos públicos e provisão de serviços.
Para poder atender a essa periferia, ocupada pelas classes populares,
era preciso reconhecê-la. Mas, para isso, faltava um elemento essencial:
que estatuto jurídico-urbanístico teria essa parte autoconstruída da
cidade? A questão social — inclusive das condições de vida dos
operários —, tema fundamental em pauta na crise da Primeira
República, exigia também um reposicionamento urbanístico, à medida
que o modelo de expansão periférica se transformava em forma
predominante da moradia popular: até quando a legislação urbana
poderia ignorar a irregularidade da cidade popular? Se a Revolução de
1930 foi feita em nome dos consumidores e produtores da cidade
irregular — classes médias, pequenos investidores urbanos e operários
—, as coalizões políticas que emergiram nesse cenário teriam que
incorporá-los de alguma forma à gestão urbana e à provisão de
serviços.
A resposta a esse dilema foi a introdução de um dispositivo no
Código de Obras, com consequências muito importantes para a
construção de um estilo de gestão e uma cultura política local, que
persistem com força até nossos dias. De acordo com o dispositivo
proposto em 1932, é possível reconhecer, do ponto de vista
administrativo, as casas e loteamentos irregulares das periferias, mas
as condições de reconhecimento não estão predefinidas na lei,
dependendo de critérios específicos estabelecidos caso a caso por
técnicos municipais da Diretoria de Obras.
Dessa forma, estabelece-se uma ordem jurídico-política, na qual a
irregularidade na construção do território ganha o estatuto de uma
extralegalidade, dependente da intermediação discricionária do Estado
— no caso, da prefeitura — para ser reconhecida e, assim, ganhar o
estatuto legal e poder se inserir no campo das obrigações e
responsabilidades públicas na provisão de infraestrutura,
equipamentos e serviços. Por meio dessa fórmula, os assentamentos
populares podem e devem ser incorporados na nova ordem, porém
apenas se passarem pelo filtro da escolha e do arbítrio do governante da
vez.
Inaugura-se, assim, a era da cidadania consentida: a condição de
legalidade urbana, fundamental para a incorporação de vastas massas
às políticas públicas, é uma concessão, seletiva, do Estado. (Qualquer
semelhança com a criação dos direitos trabalhistas da era getulista,
também formulada e vivida como uma outorga do Estado e dele
dependente, é pura convergência…) Por outro lado, para a maioria dos
moradores, “cidadania” não é um substantivo, mas um verbo no
gerúndio, na medida em que sua inserção plena na cidade é um longo
processo, com data de início, mas sem data de conclusão.
Por esse mecanismo, que mais tarde se consubstanciará em anistias
periódicas e investimentos em infraestrutura a conta-gotas, é possível
analisar qual é o novo pacto territorial que se estabelece entre as classes
dominantes e os grupos sociais emergentes. A velha ordem não se
modifica para incorporar outras formas de ocupação do espaço: na
verdade, apenas tolera — seletivamente — exceções à regra, que, ao
serem reconhecidas, são “contempladas” com o direito de receber
investimentos públicos em infraestrutura e serviços urbanos. As
maiorias clandestinas entram, assim, na cena da política urbana como
se devessem um favor a quem discricionariamente as admitiu.
A relação política que funda esse pacto territorial é a que se
convencionou chamar na literatura sobre a questão social de “ideologia
da outorga”, ou seja, o ato fundador da cidadania é uma relação de
doação do Estado ao povo. Finalmente, o verbo que fecha e dá sentido à
relação é “retribuir”. Quem recebe um presente cria um vínculo, que
leva naturalmente à retribuição. Assim, a força da coisa dada está em
produzir, em quem recebe, a consciência de uma obrigação de retribuir,
como um dever político de natureza ética. É interessante destacar a
diferença entre retribuir e pagar uma dívida: a retribuição de uma
doação não tem prazo nem conteúdo previamente definidos. Trata-se,
sim, do reconhecimento de uma obrigação que extrapola a dimensão
utilitária. O vínculo que se estabelece pressupõe, portanto, a
ascendência do doador sobre o receptor e sua condição de devedor. É
um compromisso que a qualquer momento pode ser cobrado e assumir
formas variadas de retribuição.
Durante todo o período getulista, o “doador” foi o próprio Estado,
sem nenhuma intermediação por parte de organizações autônomas dos
trabalhadores/moradores, nem de seus representantes diretamente
eleitos. Entre 1930 e 1953, a cidade não elegeu mais seu prefeito, que
era diretamente indicado pelo interventor do estado, por sua vez
escolhido pelo presidente, e a Câmara Municipal paulistana não
funcionou até 1947. Desse modo, implantou-se no nível municipal o
mesmo modelo tecnocrático de planejamento e administração,
centralizado e supostamente neutro, da ditadura Vargas. A
incorporação das periferias era uma decisão direta do prefeito — e de
seu diretor de obras.
Com a redemocratização, no final dos anos 1940, a concessão do
favor foi pouco a pouco deixando de ser uma decisão direta do prefeito
para se tornar resultante de negociações políticas mais complexas,
processos nos quais as recém-constituídas sociedades de amigos de
bairros (Sabs) e os vereadores por elas eleitos passaram a ter um papel
fundamental. Essa nova relação abriu espaço para a construção de uma
das bases que fundamentam a política municipal paulistana até nossos
dias: são os próprios moradores que autourbanizam a cidade,
construindo suas casas e apostando na obtenção futura de
reconhecimento, equipamentos e serviços. O reconhecimento — ou não
—, assim como a obtenção de serviços e equipamentos (o asfalto, a
água, a eletricidade, as escolas etc.), se transformou no mais potente
ativo eleitoral da política paulistana. Aos melhoramentos obtidos,
retribui-se com o voto ao parlamentar — e ao partido — que pressionou
e negociou com o Executivo pela sua obtenção, muitas vezes em troca
de apoio a projetos de interesse do prefeito.
Foi com o então vereador Jânio Quadros que essa prática ganhou
tais contornos, que persistem até hoje. Jânio, à época do Partido
Democrata Cristão (PDC), assumiu uma vaga na Câmara Municipal em
1948, após a cassação dos representantes eleitos pelo Partido
Comunista (PC). A partir de então, Jânio converteu-se em porta-voz da
periferia, apresentando suas queixas na tribuna da Câmara. Vila Maria,
Vila Guilherme, Vila Formosa, Vila Matilde, sedes de comitês eleitorais
nas campanhas de Jânio para deputado (em 1950) e prefeito (em 1953),
converteram-se em Sabs depois de sua vitória. Dessa forma, as
reivindicações das “vilas” por asfalto, água, esgoto e outras melhorias
penetraram no gabinete do prefeito. Foram intermediadas por
lideranças conectadas a gabinetes de vereadores, através de um modelo
que ainda marca a relação do prefeito com a Câmara e com bairros e
regiões da cidade.
Mais tarde, já nos anos 1960, sob a gestão de José Vicente Faria
Lima, eleito também com apoio da base janista, foram criadas as
administrações regionais, organizando os canais de intermediação
política constituídos por lideranças das Sabs e vereadores. Assim, as
massas populares urbanas penetraram na política sob uma condição
subalternizada de dependência dos favores concedidos pela
administração municipal, obtidos por meio dessa intermediação, já que
a inserção dessas massas na cidade, sempre ambígua, entre irregular,
ilegal ou clandestina, não garantia direitos irrefutáveis, ou seja,
cidadania plena. Por outro lado, foi a partir dessa condição, e da
própria organização popular para construir seu lugar na cidade, que os
envolvidos nos processos de autourbanização negociada se
constituíram como sujeitos políticos. Dessa forma, nasce a periferia,
não no sentido de um lugar geográfico, para além dos limites da cidade
corporativa e regulada, mas em seu sentido político.
São Paulo metrópole
Além da constituição e da expansão das periferias como lócus de
moradia dos trabalhadores, bem como da substituição do transporte
sobre trilhos (trens, bondes) pelo transporte sobre pneus (ônibus,
carros, caminhões), o padrão de crescimento da cidade também mudou,
principalmente, a partir da década de 1940, com a verticalização nos
bairros centrais e a consolidação da região centro-sudoeste da cidade
como polo privilegiado de centralidade, concentrando os bairros
residenciais de alta renda — algumas garden cities (cidades-jardins) — e
os principais centros de comércio e serviços.
O surto rodoviarista dos anos 1940 — nesse período foi
pavimentada a via Dutra (ligação de São Paulo com o Rio de Janeiro) e
implantada a via Anchieta (ligando São Paulo ao porto de Santos) —
mudou a geografia das zonas industriais da cidade. As novas indústrias
— principalmente metalúrgica, metalomecânica e elétrica — se
instalam ao longo das rodovias, gerando uma nova expansão
populacional para o ABC Paulista, a sudeste (ao longo da via Anchieta),
para Guarulhos, a nordeste (ao longo da via Dutra), e para Osasco, a
oeste. O processo é intensificado nos anos 1950, com a instalação da
cadeia automotiva e da indústria petroquímica, que inserem a cidade
definitivamente no circuito da grande produção multinacional.
São Paulo, que então era o centro industrial mais importante do
país, passou a ser também o mais importante centro financeiro e a
maior cidade brasileira, suplantando o Rio de Janeiro. Em 1950, a
cidade de São Paulo tinha mais de 2 milhões de habitantes e, nas
décadas seguintes, cresceria mais de 5% ao ano — até atingir 6 milhões
de habitantes em 1970. Durante a expansão urbana dos anos 1960 e
1970, ocorreria a conurbação com os municípios da atual região
metropolitana, sobretudo Osasco e Taboão da Serra (a oeste),
Guarulhos (a leste) e o ABC (a sudeste).
A imensa pujança econômica de São Paulo atraía migrantes de
todos os pontos do país. As décadas de 1950, 1960 e 1970 serão
marcadas pela diminuição da imigração estrangeira e por um
incremento na migração interna, principalmente de Minas Gerais, do
Nordeste do país e do interior do estado de São Paulo. Com isso, tem
lugar novamente uma recomposição étnico-cultural da cidade: nasce a
São Paulo nordestina, a cidade dos “baianos”, expressão utilizada nos
anos 1960 e 1970, simplificação operada por uma leitura
discriminatória da presença dos nordestinos na cidade, já que jamais o
grupo de migrantes mais numeroso da capital tinha como origem o
estado da Bahia.
A imigração estrangeira também nunca cessou: da década de 1940 à
de 1980, foi constantemente registrada nos censos decenais a presença
de cerca de 300 mil estrangeiros residentes no município de São Paulo.
O que mudou foi a composição desse grupo e, principalmente a partir
dos anos 1940, a sua proporção em relação ao número de migrantes
nacionais. Entre 1940 e 1950, os estrangeiros constituíam metade dos
não nativos na cidade, e os grupos de italianos e portugueses eram os
mais numerosos. Entre 1950 e 1960, dois terços da migração eram de
pessoas que vieram de outros locais do país, sendo metade de origem
mineira. Entre os estrangeiros, já havia quase tantos japoneses como
italianos e espanhóis, mas os portugueses continuavam sendo o grupo
mais numeroso. Em 1970, quase 20% da cidade tinha origem mineira e
nordestina, e os 380 mil estrangeiros se repartiam em mais de setenta
nacionalidades.
Esse movimento (i)migratório, embora tenha diminuído de
intensidade a partir da década de 1970 (em 1991, quando a população
chegou a 9,5 milhões de habitantes, “apenas” 2,5 milhões eram
migrantes e 200 mil, estrangeiros), marcava de forma muito evidente
as transformações culturais da cidade. Desde a estranha combinação,
obrigatória no cardápio de qualquer lanchonete, de pastel, pizza, quibe
e cheeseburger, até os sushimans nordestinos espalhados pelos
restaurantes japoneses, muitos são os sinais desses encontros. Em um
bairro como o Bom Retiro, onde se falava ídiche nas ruas na década de
1950, hoje são os coreanos que controlam as lojas populares e as
confecções, em que a mão de obra é predominantemente boliviana. O
bairro de Santo Amaro, que já foi habitado por uma maioria de pessoas
de origem germânica, agora tem mais moradores pernambucanos do
que a maior parte das cidades do estado de Pernambuco.
A sedução fácil de uma teoria de convivência harmoniosa e
divertida é negada, entretanto, pela geografia socioeconômica das
origens e raças. Se, no final do século 19, o centro da cidade era
brasileiro e mesclava brancos e negros, enquanto os bairros operários
concentravam os estrangeiros, hoje a periferia popular é nordestina e
negra. Quanto mais distante e precária a periferia, mais preta, parda e
migrante. E o Centro, outrora quatrocentão, também terá outro
destino.
Do ponto de vista urbanístico, os anos 1970 marcaram o
deslocamento do consumo das elites do Centro Histórico na direção da
avenida Paulista e dos Jardins. Até então, a São Paulo metropolitana
contava com um único Centro, composto de duas partes: o “Centro
tradicional” (região do triângulo formado pelas ruas Quinze de
Novembro, Direita e São Bento), constituído durante a primeira
industrialização (1910-40), e o “Centro Novo” (da praça Ramos de
Azevedo à praça da República), que se desenvolveu sobretudo no pós-
Segunda Guerra. As vidas cultural, econômica e política de todos os
grupos sociais da metrópole compartilhavam um espaço que abrigava a
Boca do Lixo e a do luxo, sedes de grandes empresas, uma multidão de
vendedores ambulantes, engraxates, pastores e pregadores do fim dos
tempos, magazines elegantes da rua Barão de Itapetininga,
apartamentos luxuosos da avenida São Luís e os chamados “treme-
tremes”, edifícios com quitinetes superpovoadas na Baixada do
Glicério e no Bixiga. A formação de um novo Centro só aconteceu
durante o chamado “milagre brasileiro” (1968-73), período da ditadura
militar marcado por um grande aumento do PIB, quando um poderoso
subcentro se implantou em torno da avenida Paulista.
A partir de meados dos anos 1960, tem início um processo lento de
evasão de sedes de empresas e bancos para a região da Paulista. Ao
mesmo tempo, pela primeira vez na história paulistana, o metro
quadrado do Centro Histórico deixou de ser o mais caro da cidade.
Paradoxalmente, tudo isso ocorreu enquanto um dos investimentos
mais importantes e custosos realizados até então em São Paulo, o
metrô, afirmava a centralidade daquele ponto, ao fazer cruzar ali, na
praça da Sé, as duas primeiras linhas da rede.
Reforçando uma circulação radioconcêntrica, o metrô acabou
atraindo para o Centro grandes terminais de ônibus, como o Terminal
Bandeira, e configurando mega-áreas de transbordo. Por outro lado, a
chegada da indústria automobilística ao país disseminou o uso do carro
particular, relegando o transporte público apenas aos mais pobres. Foi
então que se implantaram os calçadões na região central,
transformando as principais ruas, como São Bento, Direita e Sete de
Abril, em lugares exclusivos de pedestres. Assim, desenhou-se para essa
área um destino de máxima acessibilidade para o transporte público e
de restrição para os automóveis, no momento em que as elites e classes
médias da cidade se confinavam definitivamente dentro de seus carros,
deixando de ser pedestres e usuárias do transporte coletivo. Estavam
lançadas as bases para a popularização do Centro e seu abandono
progressivo pelas elites.
Já nos anos 1960, viam-se os primeiros sinais de esvaziamento
residencial de bairros próximos do Centro que, até os anos 1930, eram
superpovoados: Belenzinho, Brás e Mooca conservavam suas grandes
plantas fabris e tinham as ruas dominadas pelo comércio. Enquanto
isso, a construção de edifícios para moradia e escritórios avançava
sobre a vertente sudoeste do espigão da Paulista, transformando a
paisagem de casas térreas e sobrados de bairros como Higienópolis,
Santa Cecília, Consolação, Pinheiros, Cerqueira César: o centro urbano
se expandia, primeiro com prédios de apartamentos e depois com torres
comerciais.
Um número expressivo de edifícios modernos, inspirados nos
princípios funcionalistas e afirmando uma arquitetura nacional,
marcou a nova paisagem da avenida Paulista a partir dos anos 1950.
Nações Unidas, Pauliceia, Quinta Avenida: condomínios residenciais
substituíram os casarões. A inauguração, em 1956, do Conjunto
Nacional, primeiro edifício de uso misto (comercial e habitacional) na
Paulista, anunciou a liberação do uso comercial e conferiu importante
centralidade a uma de suas fronteiras, a rua Augusta. A cena cultural
das classes médias paulistanas, embalada em jazz, bossa nova e iê-iê-iê,
desenhou um território da Galeria Metrópole, no Centro, ao Conjunto
Nacional, ocupando-o com bares, boates, galerias de arte e cinemas.
Esse movimento foi ainda mais impulsionado com a transferência do
Museu de Arte de São Paulo (Masp) da rua Sete de Abril, no Centro,
para a avenida Paulista. Seu imenso vão livre, projetado por Lina Bo
Bardi, reeditou em 1968 o antigo Belvedere Trianon, um casarão
luxuoso de 1916 que, no momento de inauguração da avenida, foi
projetado como mirante e local de festas e reuniões das elites, sendo
demolido em 1951.
A ocupação cultural da Paulista-Augusta foi a vanguarda de um
movimento que, nos anos 1970, ali plantou, em estilo internacional, os
poderosos beneficiários do “milagre econômico”: grandes empresas,
bancos e sindicatos patronais. A lei de zoneamento do município,
aprovada em 1972, consagrou esse destino para a avenida. A região da
Paulista, assim como o Centro, ganhou o estatuto de “zona comercial
de uso misto de alta densidade”, atraindo os mais altos potenciais de
construção da cidade e permitindo assim o surgimento de prédios altos
comerciais, residenciais e mistos.
Até meados da década de 1950, poucas áreas de São Paulo tinham
formas de ocupação predefinidas e permissão regulamentada de
atividades. Com exceção dos loteamentos da Companhia City (Jardim
Europa, Pacaembu, Cidade Jardim, Morumbi, Alto de Pinheiros e City
Lapa), que definiam nas próprias escrituras o uso exclusivamente
residencial e a relação das casas com seus lotes ajardinados, e de
algumas avenidas para as quais existia um regulamento especial (como
a Paulista), na maioria dos bairros e ruas da cidade as possibilidades de
ocupação eram limitadas apenas a um código de obras que, além de ser
válido somente para as áreas mais consolidadas do tecido urbano, não
definia usos permitidos ou proibidos, nem detalhava formas
obrigatórias de ocupação dos terrenos, como recuos e afastamentos.
A ideia de uma cidade que cresceria indefinidamente para cima e
para os lados foi personificada no lema do então governador do estado
de São Paulo nos anos 1950, Ademar de Barros: “São Paulo não pode
parar”. Mas o paradigma começou a ser questionado, pela primeira vez,
na própria década de 1950, por um grupo de engenheiros e arquitetos
liderados por Luís Inácio de Anhaia Melo, que propôs limites de altura
máxima para edifícios e densidades máximas para prédios de
apartamentos. Assim, em 1957, foi aprovada uma lei que limitou a área
a ser construída a um máximo de seis vezes a área dos terrenos. No
mesmo período, as várzeas do Tamanduateí e do Tietê foram definidas
como zonas predominantemente industriais. Esses locais se
expandiram com o loteamento industrial do Jaguaré e dos arredores de
Santo Amaro, junto à várzea do rio Pinheiros.
Porém, foi apenas em 1972, quando São Paulo já se encontrava
bastante ocupada por edifícios, principalmente em seu centro-
sudoeste, e havia começado a se conurbar com os municípios vizinhos
— sobretudo com o ABC, Guarulhos e Osasco —, que foi promulgado
um zoneamento prevendo usos e formas de ocupação para toda a área
urbana da cidade. O modelo adotado basicamente consagrou as
atividades e formas de ocupação já existentes. Assim, o zoneamento
propunha a construção de prédios nos bairros onde esta já acontecia,
como Perdizes e Vila Mariana; acolhia como norma de ocupação os
loteamentos da Companhia City, passando a denominá-los de zona 1
(Z1), incorporando exatamente as regras que já constavam nas
escrituras desses loteamentos; e definia como exclusiva ou
predominantemente industriais as zonas que já possuíam essa
atividade, como a Mooca e o Jaguaré (zonas 6 e 7).
Para o restante da cidade — áreas em grande parte residenciais de
renda média e baixa que correspondiam a mais de 70% de seu território
—, o zoneamento propunha uma zona mista, de baixa densidade,
limitando a possibilidade de construção de edifícios altos de usos
comerciais e de serviços mais diversificados (zona 2). Porém, nessas
regras jamais foram incorporadas as formas de construir resultantes
dos processos de autoconstrução, consolidadas ao longo do tempo: os
lotes 100% ocupados, as lajes que vão agregando andares, os térreos
sem garagens que se tornam espaços comerciais e de serviços. Dessa
forma, o zoneamento consagrou em lei a estrutura de uma cidade em
que o uso estritamente residencial e os altos potenciais de
edificabilidade (o quanto se pode construir em cada terreno) são
concentrados em menos de 10% de seu território, que correspondem
também às suas áreas de mais alta renda, separadas das periferias
autoconstruídas por uma barreira de zonas industriais.
O modelo proposto pelo zoneamento se completou, em 1981, com a
adoção de um dispositivo na lei que destinou a primeira franja da zona
rural (zona 8-100/1) para construção de conjuntos habitacionais
populares. O objetivo dessa destinação era garantir uma reserva de
terras baratas — porque situadas na zona rural — a serem adquiridas
pela Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo (Cohab-SP),
criada em 1964 para captar para o município os recursos do Banco
Nacional de Habitação (BNH) e construir casas populares.
A política habitacional praticada pela Cohab durante as décadas de
1970 e 1980 consistiu na construção de imensos conjuntos uniformes e
exclusivamente residenciais nas extremas periferias, marcando sua
posição limítrofe em relação à cidade existente e segregando de forma
explícita a população que para ali foi deslocada. Exemplos disso são os
conjuntos Itaquera 1, 2, 3 e 4 (que somam 35 mil moradias e 165 mil
habitantes) e Cidade Tiradentes (com 30 mil moradias e 160 mil
habitantes): no extremo leste da cidade, guetos habitacionais sem
variedade social ou funcional acabaram servindo como ponta de lança
de uma urbanização feita de loteamentos irregulares, ocupações e
favelas para aqueles que não tiveram a “sorte” de residir nos conjuntos.
Essa política teve como consequência a aceleração da expansão
horizontal da cidade, acompanhada pelo agravamento das condições
cada vez mais congestionadas de circulação e drenagem, dois flagelos
que infernizam a vida na metrópole no novo milênio.
Isso ocorreu porque a expansão horizontal foi se implantando em
terrenos cada vez mais impróprios do ponto de vista geomorfológico,
quando a urbanização ultrapassou as áreas da bacia sedimentar (onde
os terrenos têm baixo potencial de erosão), para atingir os solos do
complexo cristalino, de maior declividade e altamente vulneráveis à
erosão. Com a remoção da vegetação e as obras de terraplanagem, os
solos expostos são sistematicamente carregados pelas chuvas,
assoreando rios e córregos. Quando estes já se encontram em galerias
fechadas ou canais, seu assoreamento é ainda mais problemático, já que
os dois fatores contribuem para diminuir a velocidade de escoamento,
agravando a condição dos rios principais e provocando enchentes. Em
1960, o serviço de dragagem do rio Tietê já retirava por ano mais de 1,5
milhão de metros cúbicos de terra do fundo do rio. Como se vê, as
enchentes, calamidades sofridas pela cidade em todo verão chuvoso,
longe de serem um produto da ira dos deuses, são consequência do
próprio modelo urbanístico da cidade.
No entanto, o impacto mais devastador dessa forma de produção e
gestão da cidade é a manutenção e expansão de um modelo urbanístico
discriminatório, no qual moradores de pedaços inteiros da cidade são
condenados a conviver com serviços urbanos ausentes ou deficientes,
além de claramente fora dos locais onde circulam as maiores
oportunidades.
O impacto da implantação desses conjuntos na Zona Sul do
município foi ainda mais grave: a construção do conjunto Bororé, no
Grajaú, em 1976, levou mais de 13 mil moradores para uma região que
exatamente naquele momento estava sendo definida pela legislação
estadual como “área de proteção aos mananciais” e, assim, fortaleceu
um processo que ao longo de quatro décadas já instalou quase 1 milhão
de pessoas em um local que teoricamente nem sequer poderia ser
urbanizado. A lei de proteção aos mananciais, promulgada em 1976
com o objetivo de evitar uma ocupação urbana das bacias tributárias
dos reservatórios Billings, Guarapiranga e Cantareira, que abastecem
de água a região metropolitana, proibiu a extensão de infraestrutura
urbana para a área e definiu como modelo de ocupação das margens um
padrão de baixíssima densidade, basicamente de clubes e chácaras de
recreio.
Entretanto, no mesmo momento em que se definiam as regras de
proteção dos mananciais, a política urbana e habitacional do município
apontava para o contrário: consolidava o polo industrial da Zona Sul e a
expansão da centralidade a sudoeste (reforçada pela priorização dada à
linha norte-sul do metrô, conhecida como linha Azul, que iniciou suas
operações em 1974), gerando uma grande demanda habitacional na
periferia sul em virtude do aumento da oferta de empregos na região. A
resposta a essa demanda — a implantação de grandes conjuntos
habitacionais da Cohab na área — teve como efeito a aceleração da
ocupação irregular. E a qualidade das águas das represas, assim como
dos rios, está hoje bastante comprometida.
Desde o início da implantação do sistema de abastecimento de água
e coleta de esgotos na cidade, final do século 19, os rios e córregos têm
recebido a totalidade da carga poluidora dos dejetos industriais e
domésticos. Porém, foi apenas no final dos anos 1960 que os efeitos da
poluição se fizeram sentir. Naquela época, 41% dos imóveis estavam
ligados à rede coletora de esgotos; mas, do esgoto coletado, apenas 10%
passavam pelas estações de tratamento existentes. Era o mais baixo
índice de cobertura do século: os efeitos do padrão periférico de
crescimento haviam reduzido a porcentagem de domicílios ligados à
rede de 71% em 1940 para 58% em 1970, aumentando em centenas de
vezes o volume coletado e jogado nos rios.
Já no que se refere à poluição do ar, em 1970, 58% do valor de
transformação industrial do país provinha do estado de São Paulo,
sendo 30% da capital. Era enorme a carga poluidora gerada pelas
indústrias: das 350 toneladas/dia de material particulado lançado à
atmosfera, 75% eram produzidas por elas.
Sob a pesada cortina da contaminação atmosférica e o impacto da
poluição das águas, entrou na pauta da gestão da cidade o controle da
poluição. O tema apareceu pela primeira vez no debate público por
meio da voz dos trabalhadores da Companhia Brasileira de Cimento
Portland Perus, um dos maiores focos poluidores da cidade nos anos
1970. Os “queixadas”, como ficaram conhecidos os grevistas da fábrica,
denunciaram essa condição e incluíram em sua lista de reivindicações o
controle da poluição.
Porém, justamente quando, pela primeira vez na história, a face
obscura e malcheirosa de sua pujança econômica emergia no debate
público, a cidade perdia progressivamente a vitalidade política e a
autonomia financeira e administrativa que, desde o golpe de 1964 e a
promulgação dos atos institucionais, passara a ser gradualmente
concentrada na esfera do Executivo federal. Com prefeitos nomeados
pelo governador do estado, em comum acordo com as autoridades
militares, pretendia-se enfrentar o tema do controle de seu
desenvolvimento por meio da montagem de um aparato de
planejamento tecnocrático de tipo autoritário.
Durante a gestão do prefeito José Carlos de Figueiredo Ferraz,
nomeado pelo governador em 1971, pela primeira vez foi aprovado um
plano global da cidade que procurava estabelecer diretrizes para a
totalidade das políticas municipais: desenvolvimento urbano,
econômico e social, organização administrativa da prefeitura, uso do
solo, controle da poluição ambiental, sistemas de circulação e
transportes e áreas verdes. O Plano Diretor de Desenvolvimento
Integrado (PDDI) propunha que, em 1990, São Paulo seria uma
megalópole de 20 milhões de habitantes, formando um contínuo com as
cidades vizinhas, cortada por uma malha quadrangular de vias
expressas, sem cruzamentos, que permitiriam aos carros trafegar a uma
velocidade de cem quilômetros por hora no perímetro urbano. Seu
Centro se multiplicaria em novos centros financeiros, comerciais e de
serviços. “Corrigir distorções do desenvolvimento” era, segundo a
exposição de motivos do próprio Plano, seu grande objetivo, o que seria
alcançado com a implementação de uma estratégia racional de
planejamento e com a predefinição dos investimentos públicos. As
piadas que circulam nos meios urbanísticos denominam essa rede de
vias expressas de vias “ïmpressas”, por terem ficado no papel, assim
como a maior parte das propostas daquele plano. Porém, ali se
inaugurou uma tradição do planejamento urbano da cidade que
imaginava que suas propostas seriam capazes de guiar os investimentos
públicos futuros — sem levar em consideração que elas dependeriam de
decisões tomadas em outro lugar — mas, ao mesmo tempo, consagrava
o zoneamento da cidade como sinônimo do plano. Assim foi em 1972,
quando o primeiro zoneamento era aprovado. E assim permanece até os
dias de hoje.
Enquanto os autores do PDDI sonhavam com uma metrópole
harmônica e veloz, uma nova figura política, a “Região Metropolitana
de São Paulo”, foi criada por decreto federal em 1973. No momento de
sua criação, a acentuada expansão da periferia do município já havia
provocado a conurbação de São Paulo com vários municípios vizinhos.
A Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), ou Grande São Paulo,
foi definida então como um conglomerado de 37 municípios (hoje são
39), que ocupavam uma área de quase 8 mil quilômetros quadrados,
tendo uma população de cerca de 8,5 milhões de habitantes — 10% do
país à época, em apenas 0,5% do território nacional. Além da cidade de
São Paulo, as partes mais populosas da Região Metropolitana eram
Guarulhos (a nordeste), Osasco (a oeste) e o Grande ABC
(conglomerado a sudeste, formado pelos municípios de Santo André,
São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema, Mauá,
Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra).
Atualmente, Guarulhos é a segunda maior cidade do estado, e o
município de São Paulo abriga apenas metade da população
metropolitana, que ultrapassa os 20 milhões de habitantes. A Região
Metropolitana de São Paulo não constitui unidade política, uma vez que
não tem um governo, embora disponha de existência legal.
Desde a sua criação, a Região Metropolitana contou com um órgão
de planejamento (a Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano
S.A. — Emplasa); uma empresa de transportes metropolitanos
responsável por uma parcela pequena do transporte público sobre rodas
que por ela circula (a Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos
— EMTU) e que foi extinta na onda de privatizações de empresas
públicas estaduais nos anos 2010 a 2020; e uma empresa de trens de
subúrbio (a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos — CPTM), sob
o controle do governo estadual. No entanto, nenhuma dessas empresas
tem poder sobre o planejamento do território e a rede de transportes,
uma vez que os 39 municípios possuem autonomia sobre o uso e a
ocupação do solo e dispõem de seus próprios sistemas de transporte
coletivo por ônibus, não necessariamente integrados à malha estadual.
Em nenhum momento a gestão metropolitana ocorreu de fato, nem
mesmo durante o período da ditadura militar, quando um aparato
metropolitano subordinado à estrutura do governo estadual tinha
alguma chance de se impor sobre políticas locais, bastante
desvitalizadas com a desarticulação da representatividade política de
organizações e partidos.
As diretrizes do Plano Metropolitano de Desenvolvimento
Integrado — assim como ocorrera com o PDDI — não se impuseram
sobre a lógica dos investimentos que, apesar da institucionalidade
impositiva do regime militar, continuavam a ser determinados pelo
mesmo tipo de prática anterior. Os interlocutores das políticas
municipais — representantes de interesses de empreiteiras,
concessionários de serviços públicos e negócios imobiliários, por um
lado, e sociedades de amigos de bairros e diretórios de partidos
políticos, por outro — foram mantidos por meio de canais que
passavam por troca de favores, lobbies e, sobretudo no período pós-
democratização, quando aumenta a competição pelo voto, pelo
financiamento de campanhas políticas.
Um exemplo eloquente do que acabamos de afirmar é a permanência
de um vereador como João Brasil Vita por 36 anos na Câmara
Municipal. Tendo passado por quatro partidos (PTB, Arena, PDS e PPB),
sua base de sustentação e seu método de obtenção de ganhos políticos
atravessaram incólumes tanto a ditadura quanto a redemocratização.
Como presidente da Câmara, articulado ao governador Laudo Natel,
do Arena, promoveu o afastamento de Figueiredo Ferraz da prefeitura
em 1973, antes do final de seu mandato, sob a alegação de que ele era
um “tecnocrata”. E sobreviveu ileso até o governo Celso Pitta (1997-
2001), simbolizando um modo de fazer política municipal bastante
arraigado na administração paulistana.
A era dos planos inaugura em São Paulo uma prática que permanece
até nossos dias. Por um lado, cria planos e projetos que reiteram
padrões, modelos e diretrizes de uma cidade produzida racionalmente,
pouco conhecidos e que não se constituem, na prática, como opções
vinculantes de políticas. Por outro, vincula o destino da metrópole a
mecanismos que articulam as máquinas político-partidárias e os
mandatos individuais a interesses econômicos, locais e corporativos,
estruturando decisões mediadas pelos mercados dos votos e dos
negócios que, como a promoção imobiliária e os serviços de transporte,
gravitam em torno da produção e da administração da cidade.
São Paulo na virada do milênio: megacidade
global?
Nas margens do rio Pinheiros, cujo curso já havia sido invertido e
retificado para gerar energia elétrica para a cidade que se
industrializava no século 20, a paisagem de complexos de torres de
escritórios, shopping centers e hotéis de luxo anuncia o novo “centro de
negócios” da São Paulo corporativa do século 21. No final do século
passado e início do atual ainda se viam favelas, ocupações e bairros
populares que ocupavam a região.
Parte dessas favelas foi removida no início dos anos 1990, com o
apoio de um pool de empresas que se instalaram na área e constituíram
um fundo para financiar a estratégia de remoção. As alternativas
oferecidas a esses moradores da várzea foram: uma passagem de volta
para sua terra natal; um valor negociável dos terrenos, que poderia
variar entre R $ 1.500 e R $ 11.000 por família; um apartamento em
conjunto habitacional situado no bairro do Jaguaré ou no Jardim
Educandário, na divisa com Taboão da Serra, a ser pago em prestações
(e um alojamento provisório até que estes fossem construídos); ou um
apartamento em Cidade Tiradentes, conglomerado de conjuntos
habitacionais populares produzidos no extremo leste da cidade desde
os anos 1980.
Aproximadamente 20% das famílias removidas foram transferidas
para os conjuntos residenciais, situados a dez, quinze ou mais de trinta
quilômetros do local onde viviam. O restante aceitou a oferta em
dinheiro e o “caminhão gratuito” para a mudança e foi se instalar em
outras favelas e ocupações próximas ou em áreas de proteção de
mananciais na Zona Sul da cidade. Um pequeno núcleo resistiu à
remoção: o Jardim Edith, marcado como Zona Especial de Interesse
Social (Zeis) no Plano Diretor de 2002. Os moradores que resistiram à
remoção obtiveram do Judiciário uma sentença favorável à sua
permanência no local, o que levou a prefeitura a construir ali um
edifício de habitação social, inaugurado em 2015 e habitado por pouco
mais de duzentas famílias que não foram removidas.
A imagem que acabamos de descrever sintetiza processos de
transformação que ocorreram na cidade nos anos 1980 e 1990,
revelando de forma contraditória tanto os efeitos da entrada do país no
compasso da globalização, da reestruturação produtiva e do ajuste
urbano, como as promessas e instrumentos que derivaram das lutas
pela inclusão territorial dos mais pobres, presentes no processo de
redemocratização do país.
Quando o modelo desenvolvimentista autoritário dos anos 1960 e
1970 já tinha dado claros sinais de esgotamento, um arranjo de forças
sociais de oposição levou ao processo democrático que culminou com a
promulgação da Constituição Federal de 1988. Pressionados pelos
novos movimentos sociais que surgiram principalmente nas grandes
cidades, o novo texto constitucional afirmou uma série de direitos
sociais e representou um avanço no campo jurídico em direção às
políticas de inclusão social. Especificamente no campo da política
urbana, a Constituição de 1988 reconheceu aos ocupantes da cidade
autoconstruída e autourbanizada, como favelas, ocupações e
loteamentos das periferias, o direito de acesso pleno aos serviços e
equipamentos públicos, além de afirmar a função social da cidade e de
todas as propriedades.
Em São Paulo, a gestão de Luiza Erundina (1989-92), então do
Partido dos Trabalhadores (PT), traduziu essas pautas para o campo da
política municipal. Propôs várias políticas redistributivas e de
reconhecimento de direitos, como a demarcação das Zeis,
reconhecendo áreas ocupadas por favelas em consolidação como parte
da cidade, e a tarifa zero nos transportes. Promoveu a construção de
moradias em mutirão apoiada por recursos públicos e introduziu o
Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) progressivo, pelo qual o
percentual do valor dos imóveis a ser pago para a prefeitura cresce de
acordo com seu preço no mercado.
No entanto, tendo sido eleita com menos de 30% dos votos, já que as
eleições da época não tinham dois turnos, e com minoria na Câmara,
Erundina não conseguiu viabilizar parte importante das suas
propostas. Afinal, a transição da ditadura para a democracia não
significou a derrocada das forças políticas que estavam no poder. Ainda
que novos atores— como os movimentos sociais urbanos e o novo
movimento sindical — tenham entrado na cena política por meio da
organização de novos partidos, com participação crescente nos órgãos
executivos e legislativos em nível local, os líderes de antigos partidos e
oligarquias permaneciam presentes e ainda detinham grande influência
e controle do mundo do poder.
Além disso, o cumprimento das promessas da Constituição exigia,
não apenas de São Paulo, mas do conjunto do país, a implementação de
políticas públicas em grande escala, o que não ocorreria sem gastos
públicos elevados e uma reforma radical nas políticas urbanas de
caráter excludente. O cenário econômico global, entretanto, levou os
governos nacionais na direção oposta. No contexto da crise da dívida e
do modelo fordista, em vez da expansão de políticas redistributivas,
ocorreu a escalada do consenso neoliberal, que forçou os países a
adotarem reformas fiscais ortodoxas e políticas de austeridade que
implicaram o corte generalizado dos gastos públicos. Nos anos 1980, o
Brasil passou por uma séria crise financeira que restringiu suas
possibilidades de expansão de políticas sociais, enquanto a
reestruturação produtiva global gerava desemprego e queda
vertiginosa das oportunidades de trabalho assalariado, particularmente
em grandes centros industriais, como São Paulo.
Em toda a sua história, São Paulo foi uma cidade caracterizada pela
demanda voraz de trabalho. A imensa capacidade de absorção de mão
de obra explica o crescimento populacional sem paralelos a partir do
final do século 19, e o esgotamento dessa possibilidade também ajuda a
entender a rápida queda de crescimento populacional que afetou a
cidade nas décadas de 1980 e 1990, como veremos.
A partir dos anos 1980, as transformações na indústria — com a
entrada da tecnologia no gerenciamento e automação da produção, por
um lado, e a mudança das empresas para outras partes do país ou do
mundo, por outro — levaram à demissão de trabalhadores em escala
cada vez maior, resultando no aumento progressivo das taxas de
desemprego. Em 1990, apenas 10% da população total da cidade era
empregada formalmente na indústria; em 1995, esse percentual caiu
pela metade.
O setor de serviços, embora crescente, não chegou a absorver mão
de obra no ritmo de sua expansão. Os empregos do setor terciário
diferiam em qualidade dos postos da indústria. Comércio e serviços
criam empregos nos extremos da estrutura de renda: por um lado,
crescia a demanda por altos executivos, serviços de consultoria,
assistência técnica de ponta, operadores do mercado financeiro,
marketing, publicidade e pesquisadores qualificados; por outro,
multiplicavam-se os serviços de baixa remuneração, como os de
faxineiro, auxiliar de escritório, garçom, bem como os
autoempreendedores, um número imenso de trabalhadores que atua
majoritariamente na informalidade. Os empregos desaparecidos na
indústria eram em grande parte de trabalhadores especializados, de
remuneração média e difícil recolocação no mercado de trabalho.
A inovação, tecnológica ou gerencial, é basicamente poupadora de
mão de obra. Portanto, a reconversão industrial da cidade e da
metrópole implica uma transformação fundamental em relação ao
passado recente: a nova indústria produz mais valor, mas deixa de
produzir empregos.
Até os anos 1980, as condições de emprego, assim como as
oportunidades econômicas disponíveis na metrópole industrial,
geravam expectativas de ascensão social (mais acentuadas para alguns,
em geral os mais ricos e educados). A década de 1990, porém, destruiu
as perspectivas de uma melhora progressiva de vida para os que
moravam na cidade havia algum tempo. Tal fato é evidenciado pelo
aumento do já bastante grande e heterogêneo setor de atividades
econômicas informais, especialmente comércio e serviços, que passa a
responder por uma parcela significativa dos postos de trabalho da
população no município, em ocupações precárias e instáveis. Em 1999,
cerca de metade do pessoal ocupado na Região Metropolitana de São
Paulo era composta por autônomos ou trabalhadores sem carteira
assinada. O desemprego, a instabilidade e a precarização do trabalho
tiveram efeitos devastadores sobre os territórios populares.
A reconversão econômica da cidade, entretanto, não ameaçou sua
hegemonia. São Paulo continuaria centralizando grande parte dos
empregos bem remunerados do país, assim como cada vez mais o
mercado financeiro e as sedes das maiores empresas de comunicação e
do terciário avançado que acabamos de mencionar. Nas décadas
seguintes, até 2010, a Região Metropolitana de São Paulo ainda
concentrava quase 20% do Produto Interno Bruto (PIB) total do Brasil.
O novo modelo econômico produziu uma inserção diferenciada da
cidade em relação ao resto do país. Enquanto em meados do século 20 a
São Paulo industrial era considerada a “locomotiva que puxava o
Brasil”, a São Paulo neoliberal e financeirizada de hoje é um dos pontos
nodais das economias globais situados na periferia do capitalismo.
Os efeitos territoriais desse processo foram enormes: a cidade viu
explodir o número de favelas e ocupações e emergir, além do polo
corporativo terciário globalizado às margens do rio Pinheiros, uma
forma urbana profundamente associada a uma nova cultura de viver a
cidade: os enclaves fortificados, como condomínios fechados e
shopping centers, o que intensificou a fragmentação do tecido
socioterritorial da cidade e reforçou seu modelo dependente do
automóvel.
Em São Paulo, onde o padrão histórico de moradia popular era o
loteamento com terrenos comprados a prestação e casas
autoconstruídas nas periferias, a proporção de habitantes das favelas
até a década de 1980 era menos significativa. Em 1973, um
levantamento da prefeitura indicou que cerca de 70 mil pessoas viviam
em favelas (1% da população total do município). Esse número passou,
em 1991, a 900 mil (9% da população total) e, em 2000, a 1,2 milhão
(11% da população total), permanecendo esse percentual até 2010, ano
do último censo do IBGE.
Foi nesse contexto de empobrecimento, desemprego e aumento da
pobreza que o narcotráfico, entre outros ilegalismos, penetrou nas
cidades, tornando-se referência econômica, uma vez que garantia a
sobrevivência das pessoas, mas também redefinindo as relações
políticas e associativas no interior do território popular. Um
movimento cultural e político se formou entre os trabalhadores que
construíram as periferias e favelas, nos anos 1960 e 1970, a partir de
organizações que emergiram de movimentos de base da Igreja Católica,
de sindicatos e, a partir dos anos 1980, de movimentos sociais e
partidos. Esses movimentos operaram como atores políticos na
transição democrática, articulando o desejo de ascensão social à luta
pela cidadania. No entanto, seus organismos de representação, assim
como sua cultura política, foram perdendo hegemonia nesses
territórios desde a crise dos anos 1990, ao mesmo tempo que
ampliavam seu espaço no establishment político, ainda que de forma
subalterna.
Não apenas cresceu o número de moradores de favelas, como
também foram constituídas e se expandiram novas formas de
organização cultural e política dos bairros populares. No final do século
20, além dos partidos políticos e seus cabos eleitorais, o tráfico de
drogas e as igrejas evangélicas neopentecostais passaram a disputar o
controle desses territórios, sob a onipresença da violência policial.
Nessas mesmas áreas nasceu e se expandiu uma cultura periférica sob
grande influência de movimentos negros. Hip hop, funk, pagode e
samba se encontram em saraus e pixos, afirmando pertencimento e
resistência. A emergência dessa cultura periférica foi fruto da
constituição de territórios negros em bairros autoconstruídos, com
suas escolas de samba e terreiros, e da interlocução com os movimentos
culturais que penetram na cidade, desde o soul que faz emergir os bailes
blacks na cidade nos anos 1970 até o punk rock e o rap dos anos
1980/1990.
A violência — onipresente nas relações sociais brasileiras — se
encontrou com as armas e dali impôs sua linguagem de matar ou
morrer. O número de homicídios em São Paulo cresceu 76% no período
de 1990 a 1999, e o de roubos, 112%, mas a violência, assim como os
modos de combatê-la, não é igualmente distribuída na cidade. Além de
ser efeito, ela é também causa do aumento das tensões. Por um lado,
incide nas periferias impondo seus códigos. Por outro, criminaliza todo
território periférico e o conjunto de seus habitantes.
Em 1999 o risco de morrer assassinado no bairro periférico do
Jardim Ângela (onde ocorriam 94 homicídios para cada grupo de 100
mil habitantes) era 34 vezes maior do que no bairro nobre de Moema
(que contava 2,8 homicídios para cada 100 mil habitantes).
Isso se devia em parte à estratégia dos envolvidos no narcotráfico
— tanto traficantes quanto a política e a polícia — de focar suas ações
nos territórios populares. Mas se devia também a uma espécie de
máquina de insegurança que conforma o imaginário da cidade e que
tomou a parte pelo todo — a presença, em alguns territórios populares,
de traficantes e o envolvimento de alguns moradores nessa atividade
como suficiente para criminalização geral. Isso faz operar uma
estigmatização dos bairros populares da cidade e justifica uma conduta
“diferenciada” da polícia nesses locais, impondo sobre tais áreas um
verdadeiro genocídio e o encarceramento em massa de jovens,
sobretudo negros. É nesse contexto que a cultura periférica tematiza a
cidade, estabelecendo novos contornos sobre a questão da violência
policial, a partir de uma crítica feroz sobre o abismo social e o racismo.
A conduta da Polícia Militar nas favelas e periferias, executando
sumariamente, torturando, invadindo casas sem mandado de busca,
entre outros abusos, além de reafirmar o racismo institucional que
marca a cidade, é também uma herança do regime militar. Durante sua
fase mais repressiva, em 1969, uma parte das polícias foi incorporada
às Forças Armadas para controlar a agitação social e política, inclusive
para combater a guerrilha antiditadura militar, com prerrogativas de
uso de métodos repressivos e violentos. Em 1977, já durante o lento e
gradual processo de abertura política do regime, uma lei concedeu à
Polícia Militar as mesmas garantias legais vigentes no final dos anos
1960, eliminando assim as fronteiras entre a guerra contra a guerrilha e
contra o “crime comum”. Dessa forma se decretou a Guerra às Drogas,
que se tornou sinônimo de guerra aos territórios populares.
A percepção da violência pela população é um dos elementos mais
importantes para entendermos seus efeitos: ela afeta principalmente a
convivência urbana e impessoal, promovendo o autoenclausuramento
das classes média e alta, em seus condomínios fechados e shopping
centers, e o abandono do espaço das ruas, privatizadas por meio de
vigilância ostensiva. Mas também transformando esses produtos —
condomínio fechado, shopping securitário — em objeto de emulação e
desejo. A violência, assim como o medo, não apenas incidiu sobre as
formas de organização social como causou impacto na reestruturação
física das cidades, gerando novas formas de segregação espacial. Mas a
ela também responderam novos movimentos que marcam a cena
política da São Paulo contemporânea.
A cidade confinada: shoppings, condomínios e
a agonia dos espaços públicos
Quem circula pela São Paulo do início do século 21, em qualquer região,
haverá de passar, inevitavelmente, por alguma grande avenida em cujas
margens se instalou um megaprojeto comercial, em meio a um mar de
estacionamentos a céu aberto ou edifícios-garagem. Big, Makro, Extra:
nomes como esses, em caracteres gigantescos, são sugestivos de sua
escala em relação à cidade. Desde o primeiro shopping center — o
Iguatemi, inaugurado em 1966 e que anunciava a expansão da
centralidade sudoeste em direção à região da atual avenida Faria Lima
—, esses equipamentos se multiplicaram e acabaram imprimindo uma
lógica totalmente nova aos hábitos de consumo paulistanos.
Às lojas plantadas em áreas não comerciais foram sendo
adicionados novos ingredientes, como as praças de alimentação e os
complexos de salas de cinema, o que provocou uma dissociação
progressiva das ruas comerciais e das redes de exibição de filmes que
existiam no Centro e nos bairros. Até o final da década de 1980, os
shoppings introduziram essa nova lógica de organização do espaço
comercial no interior da mancha de classe média da cidade, desenhando
tentáculos de expansão no mapa como uma ameba. Ibirapuera,
Morumbi, Paraíso, Água Branca: dentro da área que já concentrava as
centralidades comerciais, foram sendo implantados esses centros
comerciais multiuso misturados a edifícios empresariais, prédios
residenciais de classe média, comércio de rua, casas de espetáculos etc.
A inauguração do shopping Center Norte, em plena Marginal Tietê,
na confluência das zonas Norte e Leste, sinalizou um passo
subsequente: os shoppings aumentaram ainda mais de escala,
incorporando centrais de comercialização de materiais de construção e
hipermercados e penetraram em bairros residenciais populares,
ultrapassando os muros do Centro expandido para se imporem como
forma hegemônica ao conjunto da cidade. A entrada desses artefatos
nos bairros residenciais populares não representou sua
democratização.
Em 2013, 6 mil jovens negros marcaram um encontro no Shopping
Metrô Itaquera. Esse foi o primeiro de uma série de “rolezinhos”, como
eram denominados esses encontros em shoppings pré-organizados
pelas redes sociais. A repressão e proibição desse tipo de encontro
escancarou a segregação presente no projeto privado de protocidade.
Não é para todos nem para todas as formas de ocupar. Apesar de se
apresentar como uma nova forma de organização de espaços
comerciais e de lazer, o shopping center corresponde a uma
reorganização das formas de produção do espaço construído,
controlada pelas finanças. Essa nova organização não se baseia mais na
produção/comercialização de artefatos construídos, mas em sua
exploração e gestão ao longo do tempo. Corresponde também a uma
das frentes pioneiras de aplicação de um capital excedente que circula
no mercado financeiro global, através de instrumentos como fundos
imobiliários, que permitem a esse capital entrar e sair do espaço
construído quase instantaneamente.
Essa mesma mudança também impactou na constituição de uma
nova centralidade empresarial: o polo corporativo instalado na Zona
Sul. Seu surgimento tem início com a criação da Berrini, como é
conhecida a avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini, aberta na várzea
do rio Pinheiros no final dos anos 1970. Ela constituiu o primeiro polo
empresarial fora da região central e da avenida Paulista, no momento
de transição entre a cidade industrial e a cidade de serviços inserida nos
circuitos globais.
A ocupação dessa avenida, assim como a de outros lugares da
região, foi impulsionada pela implementação das vias expressas às
margens do rio, entre 1968 e 1971. A área já havia sido objeto de
operação de supervalorização fundiária nos anos 1930, quando a
multinacional canadense The São Paulo Tramway, Light and Power
embolsou parte da renda resultante do loteamento de suas margens.
Graças à parceria da empresa com a Companhia City, naquela várzea
foram lançados alguns dos loteamentos voltados para famílias de alto
poder aquisitivo na região, como Morumbi, Cidade Jardim e Alto de
Pinheiros. A disponibilidade de terrenos e a existência de setores
residenciais de alta renda, assim como, posteriormente, o lançamento
do shopping Iguatemi, também nas proximidades da marginal,
impulsionaram a expansão terciária naquela direção.
Às transformações nos espaços comerciais e de serviços também
corresponderam mudanças nos espaços residenciais, com o surgimento
dos condomínios fechados, seja sob a forma de torres de edifícios
cercadas por muros, seja de um conjunto de casas que remetem à
paisagem do subúrbio estadunidense que Hollywood exportou para as
telas de cinema do planeta. Uns e outros são locais apartados do
conjunto da cidade e, assim como o shopping, desenham um espaço
“público” virtual, porque exclusivo e de acesso controlado, livre da
heterogeneidade dos espaços públicos reais da cidade.
A expansão desses novos produtos imobiliários foi fortemente
impulsionada pela lógica securitária e seus produtos — circuitos
internos de TV, prestadores privados de serviços de segurança —
perante o medo representado pela onipresença da violência. Por outro
lado, foram constituindo e sedimentando um modelo de gestão
territorial privada, em grande diálogo com a inflexão neoliberal e
empreendedorista do Estado. Aqui confluem um projeto de reforma do
Estado — no sentido de transformá-lo basicamente em indutor de
negócios privados, convertendo os espaços, equipamentos e
infraestrutura públicos em fontes de extração de renda privada — e
modelos concretos de reconfiguração da vida urbana, propostos pelo
complexo imobiliário financeiro e pela indústria securitária.
Tais enclaves residenciais e comerciais foram ocupando antigas
áreas industriais e ferroviárias, especialmente as que constituíram uma
barreira fabril entre a periferia precária (no Norte, Oeste, Leste e
Sudeste) e a cidade rica e equipada no Sudoeste. Ocuparam também, de
forma fragmentada, as margens das grandes avenidas, sobretudo as
marginais, reforçando um modelo de cidade dependente do automóvel,
já que a proliferação dos condomínios fechados, shopping centers,
hipermercados e atacadistas dialoga diretamente com o uso do carro.
Para os que transitam da garagem dos edifícios até o
megaestacionamento dos enclaves, as ruas são meros lugares de
passagem, e é no interior daqueles espaços homogêneos, controlados e
previsíveis que a vida se desenrola.
A constituição e a expansão contínua do novo polo corporativo,
porém, só foi possível graças a um “pacote” de obras viárias —
extensões de avenidas, túneis e pontes sobre o rio — implementadas
por grandes empreiteiras desde o governo do prefeito Jânio Quadros
(1985-88).
No início dos anos 1980, em virtude da crise econômica e fiscal, o
governo federal diminuiu os investimentos, desaquecendo o mercado
de obras de vulto. Com isso, as grandes empreiteiras de obras públicas,
como Camargo Corrêa, Mendes Júnior e Andrade Gutierrez, que se
expandiram durante o período da ditadura militar e do chamado
“milagre econômico”, se voltaram para os estados e capitais municipais.
Em 1985, Jânio Quadros recém-eleito lançou um pacote de grandes
obras em São Paulo. Não eram fruto de uma ação planejada de
intervenção sobre a área urbana de mobilidade por parte do poder
municipal, mas sim resultado de propostas apresentadas por empresas
projetistas diretamente ligadas a empreiteiras influentes, selecionadas
pelo prefeito de acordo com critérios pessoais: túneis sob o Parque
Ibirapuera, construídos pela Companhia Brasileira de Projetos e Obras
(CBPO) e pela Constran; Boulevards JK I e II, a cargo da Serveng-
Civilsan, CBPO e Constran; túneis sob o rio Pinheiros, realizados pela
Camargo Corrêa; minianel viário da Andrade Gutierrez; canal e
avenida ao longo do córrego Água Espraiada feitos pela Mendes Júnior;
conjunto viário Jacu-Pêssego da CR Almeida; e reurbanização do vale
do Anhangabaú, também da Andrade Gutierrez. Entre as obras listadas
no “pacote”, a maior parte estava diretamente relacionada à expansão e
à consolidação do polo empresarial sul.
A crise fiscal, assim como a indisponibilidade de contratação de
financiamentos externos em virtude das dívidas da prefeitura, limitava
a continuidade das obras iniciadas, até que um novo instrumento
passou a ser adotado na cidade para poder solucionar esse impasse: as
operações urbanas. Por meio desse instrumento urbanístico baseado
em parcerias público-privadas (PPPs), os investimentos viários
necessários para constituir e expandir a nova centralidade corporativa
seriam custeados com a venda de potenciais construtivos, ou seja,
direitos de construir acima dos limites impostos pelo zoneamento da
cidade, para a edificação de empreendimentos imobiliários em seu
entorno. Foi o caso da Operação Urbana Faria Lima, regulamentada
em 1995, e da Águas Espraiadas, em 2001.
Desde meados da década de 1980 já ocorriam eleições diretas para
prefeitos das capitais, e a disputa para os cargos no Legislativo e no
Executivo vinha se acirrando, gerando a necessidade de financiamento
de campanhas cada vez mais caras. Com a redemocratização, as
grandes empreiteiras converteram-se nas principais financiadoras de
campanhas políticas, sobretudo para cargos do Executivo —
presidente, governador, prefeito de grandes cidades —, esfera com
maior poder de definir e controlar os contratos de obras. Em geral, as
empresas com maior capacidade de contribuição financeira faziam
doações para vários partidos, apostando valores mais substantivos
naqueles com mais chances de vitória.
Para as empreiteiras, as doações funcionavam como uma espécie de
“seguro”, garantindo que seriam contratadas pelo novo governo e pagas
dentro dos prazos caso tivessem contratos em andamento. Para os
políticos envolvidos, tratava-se de uma “retribuição” pelo apoio
recebido. A reprodução do mecanismo dependia das margens de lucro
obtidas nas obras, sobrelucro que “pagava” seu investimento na
manutenção das articulações políticas. No limite, esse arranjo
possibilitava que as grandes empreiteiras não apenas redirecionassem o
orçamento público — inclusive por meio de lobbies nos Legislativos —,
mas também formulassem os projetos de infraestrutura que iriam
executar, “vendendo-os” para seus potenciais clientes, ou seja, os
governos e empresas estatais. Certamente, esse foi o caso do pacote de
obras que, em conjunto com o aumento dos potenciais construtivos,
constituiu o “plano urbanístico” dessas operações.
O dispositivo se completou com as mudanças que, principalmente a
partir dos anos 1990, ocorreram no mercado imobiliário da cidade,
quando este aumentou sua articulação com os mercados financeiros.
Isso ocorreu por causa das estratégias financeiras das empresas (que
em vez de construírem suas sedes próprias e imobilizarem nelas seu
capital, passaram a ser locatárias de lajes ou edifícios em contratos de
longa duração, constituindo um novo e promissor mercado de aluguel
corporativo), tanto quanto do lançamento de novos produtos
financeiros, como fundos imobiliários e certificados de recebíveis,
papéis que circulam no mercado financeiro representando o direito a
participação de rentabilidades futuras dos empreendimentos, passíveis
de circular independentemente da venda dos próprios edifícios.
Fechou-se, assim, o círculo: as “avenidas imobiliárias” financiavam
o custo das obras propostas pelas empreiteiras, abrindo ao mesmo
tempo novas frentes para a expansão do complexo imobiliário
financeiro na capital e alimentando a máquina de financiamento das
campanhas eleitorais. Exatamente ao lado do novo “cartão-postal da
cidade”, a ponte Octavio Frias de Oliveira (ponte estaiada), construída
pela OAS, estava a já mencionada favela Jardim Edith, que resistiu,
solitária, à remoção, por ter sido definida como Zeis.
As décadas de 1980 e 1990 foram marcadas também por uma
mudança no processo de crescimento populacional da cidade. O
município como um todo, que em 2000 possuía 10,4 milhões de
habitantes, passou a registrar baixas taxas de crescimento
populacional. Essa taxa caiu de 1,16% ao ano, na década de 1980, para
0,91% ao ano, entre 1991 e 2000. Nessa década, o saldo migratório do
período — a diferença entre o número de pessoas que entraram e
saíram da cidade — ficou negativo em 457 mil pessoas. São Paulo só
não viu sua população diminuir em termos absolutos porque na mesma
época nasceram 2 milhões de pessoas na cidade.
Estaríamos diante de uma estagnação do crescimento populacional?
Uma observação mais detida das taxas revela que estas não foram
uniformes para o conjunto da cidade; enquanto nesse período os
bairros centrais diminuíram sua população em termos absolutos e o
Centro Histórico (correspondente ao que hoje constitui a subprefeitura
da Sé) perdeu quase 30% de moradores entre 1980 e 2000, as periferias
registraram os maiores níveis de crescimento populacional. Distritos
como Anhanguera, no Noroeste, e Cidade Tiradentes, no extremo
Leste, cresceram muito: 12,4% e 6% ao ano, respectivamente.
Os distritos do Centro expandido que perderam residentes,
curiosamente, são aqueles mais consolidados e que possuem maior
cobertura de serviços e equipamentos urbanos. São tanto bairros onde
vive a população de renda mais alta (Jardim Paulista, Moema, Alto de
Pinheiros) quanto bairros onde reside a população de menor renda da
região (distritos Sé, Liberdade, Brás e Pari). E mais: nos bairros que se
verticalizaram, substituindo casas e sobrados por edifícios de
apartamentos (como Vila Madalena e Tatuapé), a população moradora
diminuiu ao invés de aumentar, reduzindo a densidade e “exportando”
populações para periferias mais distantes no próprio município e no
entorno metropolitano, em função do aumento do preço dos imóveis e
aluguéis.
Isso significa que a máquina de produção da exclusão territorial
descrita nos capítulos anteriores continuou em plena vigência.
Contudo, é preciso matizar e problematizar essa dualidade: de forma
cumulativa, a cidade autoproduzida pelos próprios moradores vai se
consolidando, conquistando a extensão de infraestrutura, a
implementação de equipamentos públicos, a ampliação das ofertas de
comércio e serviços, possibilitada também pela diminuição do ritmo de
crescimento da capital e pela prosperidade de seus habitantes. Assim,
na São Paulo do século 21, quando se fala em “periferia”, na verdade
está se designando territórios heterogêneos do ponto de vista
socioeconômico e urbanístico. Frentes de expansão sem urbanidade se
encontram hoje predominantemente fora dos limites da capital, mas
áreas inteiras já consolidadas, com infraestrutura completa, ainda
carregam a marca de um processo de ocupação ex post, ou seja, em que
a cidade chegou muito depois dos moradores e suas casas.
Crise e mudança na São Paulo da pandemia
eletrônica
Verão de 2003, janeiro, madrugada. Um carro sai do estacionamento
no subsolo de um prédio corporativo e, enquanto espera o sistema
eletrônico acionar grades e portões, do volante o motorista olha para
cima e vê ainda alguns andares iluminados pela luz dos computadores.
Na calçada, duas pessoas estão remexendo o lixo à procura de latas,
comida e papelão. O carro acelera rapidamente, temendo a
aproximação de um adolescente, cabelo crespo oxigenado, que caminha
em sua direção.
Ao percorrer as ruas estreitas do bairro, o carro é detido pela
enorme fila de táxis e pelo movimento dos manobristas na saída de uma
casa noturna. Mulheres loiras com vestidos brilhantes justíssimos e
saltos agulha e homens de blazer e mocassim se misturam por um
segundo a homens e mulheres que acabam de desembarcar do ônibus,
vestidos de jeans e camiseta e carregando sacolas de plástico.
Finalmente o carro alcança a avenida. Surpresa: congestionamento
às seis e meia da manhã? No rádio, o repórter no helicóptero avisa:
caminhão tombado em certo lugar, árvores caídas e pontos de
alagamento que sobraram da tempestade do dia anterior; evitar a rua
tal e o caminho tal. Da janela do carro parado, o motorista observa
homens e mulheres vestidos com roupas esportivas, correndo ou
caminhando rapidamente pelo canteiro central, ao ritmo da música que
toca em seus fones de ouvido e envoltos por sua utopia de saúde,
longevidade e beleza.
São sete e meia da manhã quando o motorista entra finalmente na
estrada que o levará ao condomínio onde mora. Do outro lado da pista,
na entrada da cidade, há uma imensa fila de caminhões e carros, e os
vendedores de água, suco, eletrônicos e bonecos gigantes de plástico já
instalaram seu camelódromo itinerante.
Quilômetro 30: o motorista para no estacionamento de uma das
megalojas da estrada e, atravessando corredores, chega à padaria em
estilo country. Entre cestinhas decoradas com renda e flores do campo
de plástico, ele escolhe baguetes e croissants. E se lembra por um
segundo de sua avó materna, nascida em casa de chão batido no meio
do sertão, e da avó de sua esposa, que nunca esqueceu o porão do navio
em que viajou até o Brasil, depois de ter sido arrancada, menina, de
uma aldeia à beira-mar no Japão.
Oito e meia da manhã, ele passa pelos controles da guarita e guarda
o carro na garagem de sua casa. Ao lado da xícara de café na mesa já
posta, está a pilha de contas por pagar: luz, água, IPTU, telefone,
internet, celular, escola, academia, natação, aulas de inglês, prestação
do carro, IPVA, multas, seguro… Na TV, já ligada pela empregada na
cozinha, vê a peça publicitária com a mesa arrumada do café da manhã
e a família que acorda feliz por poder passar no pão aquela maravilhosa
margarina.
Enquanto limpa o barro do sapato, a empregada faz as contas de
quanto vai precisar para comprar a laje para cobrir o cômodo que ela
acabou de construir no Jardim Progresso. Fica ali perto, do outro lado
da pista e a apenas quinze minutos de caminhada até o ponto por onde
passa a van que a conduz ao condomínio.
Madrugada, fevereiro, quarta-feira de cinzas, verão de 2016. Os
últimos foliões fantasiados tropeçam nas pilhas de latinhas de cerveja.
Duas pessoas estão recolhendo as que sobraram pelo chão em sacos de
aniagem improvisados, disputando-as com os garis uniformizados que
chegam com vassouras e caminhão de água para lavar as ruas. Três
ciclistas, de capacete e mochila, passam pela faixa pintada de vermelho
na rua. Os foliões se dirigem à estação de metrô mais próxima. Em seu
percurso vão passando por muros pintados de cores fortes, papéis
colados com trechos de poemas, grafias ininteligíveis. Chegam
finalmente à estação de metrô. Ali, em um longo beijo a três se
despedem: as meninas (por que temos que definir o gênero?) entram no
subterrâneo, que as levará a outra estação, que as levará ao trem da
CPTM, que as levará finalmente para casa.
O rapaz tatuado e barbudo continua caminhando até o prédio em
que vive, perto dali. É um edifício modernista dos anos 1950, com uma
entrada majestosa desgastada pelo tempo e pela falta de manutenção.
Como o elevador não funciona mais, o rapaz sobe os 120 degraus que o
levam ao apartamento que compartilha com dois amigos, igualmente
tatuados e barbudos. Da varanda, onde mantém um jardim suspenso
plantado em garrafas PET recicladas, vê uma via expressa elevada, já
movimentada a essa hora.
Enquanto o rapaz limpa a maquiagem do rosto, as meninas
continuam seu percurso atravessando a cidade. Da janela do trem,
avistam uma paisagem de torres de edifícios salpicadas em meio a um
mar de sobrados autoconstruídos. E mais vias expressas e avenidas. E
galpões de onde saem caminhões carregados. Ponto final do trem, já é
dia quando sobem a escadaria da ponte que atravessa a linha. Elas
também se despedem e se dirigem para suas casas. Uma vai em direção
à guarita que marca a entrada do conjunto habitacional da CDHU onde
vive. Repassa mentalmente o que precisa fazer ao chegar: preparar um
café na cafeteira elétrica, acordar o irmão mais novo, pôr a carne do
jantar para descongelar no micro-ondas, ligar o computador para pagar
as contas de luz, água, internet e a prestação do Magazine Luiza. De
repente, um barulho, um corre-corre e, pela enésima vez, ela enxerga
aquela cena maldita: dois meninos negros de boné e mochila são
retirados de suas motos e colados contra a parede. Estão sob a mira de
cinco policiais armados.
24 de julho de 2021. Fogo na estátua do Borba Gato! Naquele
sábado frio de julho a imagem em chamas da gigantesca estátua coberta
de pastilhas construída em 1963 numa praça em Santo Amaro, Zona Sul
da cidade, roubava a cena das manifestações pelo impeachment de
Bolsonaro convocadas para aquela mesma tarde na avenida Paulista. O
grupo Revolução Periférica, liderado por Paulo Lima, o Galo,
reivindicou a autoria do protesto. Segundo Galo, o fogo teve como
objetivo abrir o debate sobre os símbolos que reverenciamos na cidade.
Borba Gato, o bandeirante, é “um genocida, escravizador de índios,
estuprador de mulheres, que enriqueceu com a escravização, a tortura e
a morte”.
Um ano antes, Galo havia sido uma das lideranças da primeira greve
de entregadores de aplicativo, lançando o movimento de Entregadores
Antifascistas, exatamente no momento em que a cidade, assolada pela
pandemia de um vírus altamente contagioso — a Covid-19 — que
custou mais de 40 mil mortos ao município de São Paulo, e pressionada
pelo imperativo de isolamento social, fez intensificar a necessidade do
delivery, do trabalho desses entregadores e do consumo por aplicativo.
O breque dos APPs, como ficou conhecida a greve convocada em julho
de 2020, denunciava que em plena pandemia os entregadores não
recebiam das plataformas que os gerenciam — e exploram — nenhuma
proteção contra o contágio (como máscaras e álcool gel), nenhuma
garantia trabalhista, nenhum apoio contra acidentes e mortes durante
as entregas em motos e bicicletas. Criado no hip hop, foi nas letras de
rap que Galo fez sua formação política; nas ruas e nas redes sociais se
encontrou com movimentos antirracistas e antifascistas, novas vozes
paulistanas que se levantam contra as raízes troncudas das velhas
formas de opressão.
Sábado chuvoso de primavera, final de outubro de 2021. Depois de
quase dois anos, saio do meu isolamento, do meu medo de matar e
morrer de Covid-19, e me atrevo a mergulhar na realidade presencial da
cidade. Nela a vida continua. Entre ônibus e trens lotados, para
percorrer as longas distâncias construídas na cidade industrial, mas
principalmente nos bairros, nas regiões, nos territórios. Ali a vida se
reinventa. Onde era padaria, agora é pet shop, onde era um
mercadinho, agora é adega, e grandes torres despontam em espaços
transformados com a chegada de estações de metrô e trem. Nos
extremos da cidade, em suas margens avançam novas ocupações:
morros inteiros ocupados com barracos e tendas daqueles que não
podem mais pagar aluguel, que foram removidos e despejados pelos que
enxergam, nesse fazer da cidade, uma oportunidade de novos negócios.
Ali se mistura o idioma do direito à moradia, herdado das décadas de
organização e negociação institucional, com o empreendedorismo e a
violência.
Na cidade pós-pandemia, a fome voltou, as ruas se encheram de
barracas de camping e moradores sem-teto. Ao mesmo tempo, o boom
imobiliário não foi detido nem pela pandemia e, combinado a ela, está
transformando mais uma vez a geografia da cidade.
A economia digital e eletrônica vai redefinindo o mundo do
trabalho e do consumo. Menos no sentido das possibilidades abertas
com o chamado home office (o trabalho em domicílio conectado pela
via eletrônica), realidade possível apenas para uma parcela pequena dos
moradores da classe média, mas sobretudo pela onipresença do digital,
através das novas formas de mediação e extração de renda.
Entregadores de comida e pacotes encomendados online, motoristas de
aplicativos, proprietários de pedaços de cidade alugados por frações de
tempo: empreendedores de si mesmos, autoexploradores de seu próprio
trabalho, que remunera numa escala sem precedente os gestores
financeiros, administradores das plataformas digitais aos quais
trabalhadores desempregados precisam se submeter.
O que se passou em São Paulo nos quase vinte anos que separam
essas quatro cenas? Uma primeira década, entre 2003 e 2013, foi
marcada por intenso crescimento econômico, aumento na capacidade
de consumo dos mais pobres, inserção de uma primeira geração de
jovens periféricos nas universidades, combinados com uma agudização
da crise da mobilidade, da motorização da periferia e da incapacidade
do sistema político e administrativo de oferecer qualidade, eficiência,
respeito e dignidade nos serviços de infraestrutura da cidade.
As jornadas de junho de 2013 constituem a inflexão desse momento
e dão início a um novo processo longo e complexo. O estopim dos
protestos foi um aumento da tarifa dos ônibus em R$ 0,20. “Não é só
por 20 centavos” foi uma das frases lidas nos cartazes, pichadas nos
muros. Ela foi lançada pelo Movimento Passe Livre (MPL), grupo de
jovens, inclusive periféricos, organizado em torno da luta pela tarifa
zero, por qualidade e eficiência nos transportes coletivos para todos. O
tema da mobilidade urbana naquele momento também era levantado na
cena pública pela ação de grupos de cicloativistas, que inseriram na
agenda de São Paulo a luta por modos não motorizados de circulação.
Do ponto de vista do governo, políticas como o bilhete único, a
integração das redes de metrô com a CPTM, já vinham sendo
implementadas desde o início do milênio, ampliando a mobilidade da
população. Com a entrada em cena de corredores exclusivos de ônibus,
durante a gestão da prefeita Marta Suplicy (2001-04), do PT, houve uma
priorização inédita do transporte coletivo no sistema viário. A essas
iniciativas se somaram, na gestão Fernando Haddad (2013-16), do
mesmo partido, investimentos em políticas de restrição da circulação
de automóveis, com faixas exclusivas de ônibus, implementação de
ciclovias, redução da velocidade máxima de circulação e fechamento de
avenidas e vias expressas nos domingos e finais de semana, ampliando
assim o poder do transporte coletivo e dos modos de locomoção não
motorizados.
Em 2013, as reivindicações do MPL encontraram-se nas ruas com
dezenas de outros movimentos, como o das mulheres pela livre
circulação na cidade sem assédio, nem medo de estupro; dos
paulistanos negros contra o massacre permanente de jovens pela
polícia; e daqueles que criticavam os investimentos destinados à Copa
do Mundo de 2014 e que não encontravam paralelo na qualidade dos
investimentos em escolas, creches e equipamentos de saúde. Logo
depois, nas ondas massivas de ocupações de escolas públicas pelos
estudantes secundaristas em 2015, assim como em muitas ocupações de
moradia, se encontram coletivos, grupos e pautas: em torno da
alimentação saudável, do direito à cultura, à autonomia e cuidado, da
educação democrática e do feminismo, da ecologia e meio ambiente
urbano.
Essas mudanças, no entanto, não ocorrem sem uma enorme reação
conservadora: desde movimentos de bairros que rejeitam estações de
metrô, por considerar que estas atrairão usuários “indesejados”, ou
corredores exclusivos de ônibus, por não aceitar a perda de espaço dos
automóveis na cena pública, até ações civis que tentam impedir a
implementação de ciclovias ou o fechamento de vias à passagem dos
carros para destinar mais espaços públicos aos pedestres. Logo, em
2016, o lema do prefeito que ganhou a eleição para a capital, João
Dória, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), era “Acelera,
São Paulo”, na contramão das políticas de restrição das velocidades e
liberdades dos automóveis.
O modelo rodoviarista predominante na cidade, reeditado ad
nauseam ao longo das últimas décadas, não suportou a explosão de
consumo de carros e motocicletas por parte da chamada “nova classe
média”. A indústria automobilística, base importante para o
crescimento econômico (foi responsável por 13% do PIB em 1999 e
19,8% em 2009), despejou no Brasil 3 milhões de automóveis
comerciais leves de passageiros por ano, desde 2008, entupindo as
cidades e comprometendo — em razão da poluição, dos acidentes e de
congestionamentos — a saúde de seus habitantes. Em São Paulo, o
pacto de vida e morte dos poderes da cidade com os carros e o não
investimento no transporte coletivo de massa impõem a imobilidade
para o conjunto da sociedade. Na cidade autourbanizada pelos próprios
moradores, nas vias estreitas e ladeiras íngremes sem calçadas, circular
é objeto de negociação permanente entre carros, motos, caminhões,
vans, ônibus e pedestres.
A opção pelo transporte sobre pneus e a priorização dos
investimentos que melhoram a condição de circulação para os carros
têm sido, salvo pouquíssimas interrupções, a política dominante desde
os anos 1940. A rede de metrô é insuficiente ante a demanda de
transporte de alta capacidade. Além disso, embora a metrópole hoje
conte com centralidades importantes como Guarulhos, Osasco e as
cidades do ABC Paulista, o metrô, apesar do nome, continua municipal e
não metropolitano. Mesmo dentro do município de São Paulo, onde a
rede está circunscrita, a maior parte das linhas implantadas obedece a
uma lógica radioconcêntrica, idêntica à que predomina no sistema
viário, levando da periferia para o Centro e vice-versa, e reforçando
apenas alguns dos vários centros existentes hoje no município.
Atualmente, essa centralidade se espraia da avenida Paulista até o vale
do rio Pinheiros, lócus do complexo imobiliário financeiro e das
operações urbanas, onde até a CPTM implantou um sistema de melhor
qualidade.
A rede de trens da CPTM, que se estende por mais de duzentos
quilômetros em território metropolitano, nunca recebeu os
investimentos necessários para se transformar em sistema de
transporte urbano de massa de alta qualidade. Além disso, até hoje não
foi resolvida a questão do uso de parte do sistema de trilhos da
metrópole por empresas privadas de transporte de carga, que
obtiveram o direito de utilizá-lo nos anos 1990, quando parte da Rede
Ferroviária Federal foi privatizada.
O sistema de ônibus, ainda o modo de transporte coletivo
predominante, é operado através de lotes de linhas concedidos a
empresas em modelos e sistemas definidos e geridos de forma
autárquica e pouco integrada em cada um dos 39 municípios da RMSP.
As malhas hoje existentes — de trem, metrô, ônibus urbano e
intermunicipal — pouco se complementam, o que agrava sua
insuficiência. As dificuldades de integração têm natureza política,
sendo atravessadas pelos interesses de empresas envolvidas no negócio
dos transportes — de concessionárias de serviços de ônibus a
empreiteiras, que agora participam com suas subsidiárias não só da
construção, mas também da operação do metrô.
Ao contrário das previsões que imaginavam uma cidade onde as
pessoas trabalhariam em casa e viveriam conectadas à rede de
computadores, portanto com menos necessidade de se deslocarem no
dia a dia, a comunicação eletrônica multiplicou a circulação. Um
exemplo é o e-commerce: depois de feita uma transação, é necessário
enviar fisicamente a mercadoria ao comprador. Ao invés de isolar
indivíduos diante de suas telinhas, como ocorreu com a explosão da TV,
o Facebook e outras redes sociais criaram novas possibilidades de
encontros. A internet, com a vastidão do território por ela atingido, na
verdade aumentou vertiginosamente o número de objetos e pessoas em
circulação. Mas essa também é uma lógica submetida às demais lógicas
de estruturação da cidade: sinal bom de internet, antenas repetidoras e
recursos para pagar bons equipamentos e provedores não estão
homogeneamente distribuídos pelos territórios.
Assim, instaurou-se o paradoxo de uma cidade que, marcada pela
velocidade de circulação das informações e pela instantaneidade da
comunicação, se encontrava na primeira década do milênio entupida
por carros e com suas vias quase paralisadas. É no bojo dessa crise que
emergem importantes movimentos da sociedade civil pressionando por
transformações e tensionando o modelo rodoviarista.
Além do cicloativismo e do MPL, movimentos culturais também
incidiram para questionar a cultura urbana dos enclaves. De ocupações
efêmeras e permanentes dos espaços públicos por uma arte situacional
à multiplicação de blocos de carnaval, festas na rua e bares com mesas
na calçada, ações e movimentos vindos de distintas origens
convergiram para reivindicar uma vida nas ruas, um espaço público que
não se destinasse apenas à circulação.
A essas manifestações se somaram as lutas pelos bens comuns: por
parques abertos e públicos, como as lutas do Parque Augusta e do
Parque do Bixiga. No primeiro, houve forte contestação contrária a um
projeto de altas torres residenciais e escritórios sobre a última área
verde remanescente em um bairro de alta densidade construtiva. No
segundo, viu-se a teatralização dos conflitos existentes no bairro do
Bixiga entre ocupações culturais — como a do Teatro Oficina e a do
Terreyro Coreográfico, além de dezenas de outras — e o interesse do
mercado imobiliário em comprar os terrenos para criar torres e
shoppings. Houve também manifestações contra a privatização de
parques como o Ibirapuera, ameaçados de transformar-se em
shoppings a céu aberto, e tentativas de enfrentamento da agenda de
concessão privada de parques, ginásios e estádios, como o Pacaembu,
pertencentes à prefeitura e ao governo estadual.
Nas periferias, ocupações culturais de equipamentos públicos
abandonados pelo Estado ou de espaços vazios, como a Ocupação
Cultural Ermelino Matarazzo, na Zona Leste, ou a Quilombaque, em
Perus, transformaram esses locais em centralidades, espaços de
reflexão e formação política. São apenas alguns dos exemplos (que
chegam às centenas, talvez milhares) do que tem ocorrido na segunda
década do século 21 em áreas da chamada “periferia consolidada”. Não
se trata apenas de ocupações culturais e de lazer, mas também de lutas
pela moradia, que às vezes ocorrem em um mesmo espaço, por exemplo,
as sucessivas ocupações dos edifícios Prestes Maia, 9 de Julho e do
Hotel Cambridge na área central de São Paulo. Ali movimentos
organizados — ou não — protagonizam disputas que atravessaram as
duas décadas deste século e que persistem, apesar da voracidade do
mercado imobiliário e da submissão dos projetos urbanos lançados pela
prefeitura a seus desígnios.
Desde a década de 1990, um dos grandes temas da política urbana
municipal é o chamado esvaziamento da área central de São Paulo,
iniciado no final dos anos 1960. Movimentos sociais voltados à luta
pela moradia têm promovido ocupações de edifícios vazios na região e
pressionado o governo a implementar políticas habitacionais capazes
de promover a reabilitação desses prédios e sua transformação em
moradia definitiva.
Também desde os anos 1990 programas habitacionais promovidos
pelo governo do estado e pela prefeitura anunciam iniciativas de
reabilitação de edifícios para oferecer moradia de interesse social. Na
prática, alguns prédios foram de fato reformados e estão agora
habitados, entretanto jamais um programa maciço nessa direção foi
deslanchado. Assim, dezenas de edifícios ocupados enfrentam muitas
vezes processos violentos de reintegração de posse — para gerar uma
nova ocupação mais adiante — ou levam anos para ser reformados,
mobilizando os parcos recursos dos próprios moradores.
A ideia de que o “Centro está vazio”, invisibilizando a presença do
comércio popular, de pensões, cortiços e ocupações, alimentou por
parte dos governos da cidade o lançamento de planos e projetos
urbanísticos de “revitalização”. Operação Urbana Centro, Concessão
Urbanística Nova Luz, Projeto de Intervenção Urbanística (PIU)
Central, PPP habitacional — várias têm sido as tentativas de atrair o
mercado imobiliário para o Centro, oferecendo desde potenciais
construtivos maiores do que no restante da cidade até a possibilidade
de expropriarem edificações, como foi o caso da Concessão Urbanística
Nova Luz, derrotada na Justiça depois de uma grande mobilização
contrária.
Na primeira década do século 21, depois de décadas de perda
populacional, todos os bairros centrais veem crescer sua população, de
tal forma que, entre 2000 e 2010, o chamado Centro de São Paulo
ganhou quase 60 mil novos habitantes. Quem são e onde estão os novos
moradores?
Além de ocorrer a ocupação de edifícios e o aumento de pensões e
cortiços na área central, a indústria imobiliária formal lançou na região
uma nova opção de moradia para setores médios, com prédios de
studios e apartamentos de um dormitório, acoplados ou não a ofertas de
serviços on demand, como lavagem de roupa e cozinhas gourmet ou co-
working alugados por hora, mudando o perfil e a renda dos moradores
do Centro.
Em bairros como Vila Buarque, por exemplo, o repovoamento que
ocorreu em razão dos baixos preços de aluguéis, da grande oferta de
transporte e da proximidade com a vida cultural e noturna, assim como
das facilidades de consumo sem a necessidade de usar carro, acabou se
transformando em nova frente de expansão imobiliária.
Dessa forma, a democratização do uso do espaço, permitida pelos
baixos aluguéis e de valor dos imóveis, acaba se desfazendo,
pressionada pela incorporação dos “novos modos de vida” aos preços.
Por outro lado, é a própria pauta da luta por moradia, trazida pelas
lutas dos sem-teto e moradores de rua, que se transmuta para oferecer
um novo nicho do mercado: as parcerias público-privadas de moradia.
Nelas, prédios, terrenos e recursos públicos são oferecidos para
investidores dispostos a construir empreendimentos para “repovoar” o
Centro. Nessas operações, como ocorreu nos Campos Elíseos, dezenas
de pensões foram demolidas, os moradores despejados e as torres
construídas com apartamentos que evidentemente não foram vendidos
para eles. Para “fechar a conta” do modelo de parceria, os apartamentos
são para os sujeitos de crédito, que pagarão suas prestações, garantindo
a rentabilidade do capital investido.
Com 468 anos de vida, quase parando de crescer e envelhecendo
rapidamente, São Paulo chega a uma espécie de idade adulta atingida
por um combo de crises — sanitária, econômica, política, social e
ambiental, que assola o país, a região, o planeta.
A metrópole atravessa a crise de forma ambígua: de um lado, com a
intensidade, a energia e o vigor que sempre marcaram seu crescimento;
de outro, com o igualmente intenso mal-estar que toma conta de seus
habitantes.
O vigor está na dinâmica de seus mercados, turbinados pela década
de abundância de crédito, aumento da renda e queda na taxa de
desemprego ocorridos entre 2003 e 2013. Em seguida, esses mesmos
mercados seriam atingidos pela crise econômica, mas também
transformados pela economia digital e pela pandemia. A diversidade da
produção cultural, assim como a quantidade e a qualidade da sua
produção tecnológica, também são vigorosas.
O mal-estar se encontra na impossibilidade de nos movermos na
cidade, asfixiados pelas distâncias, pelo trânsito e pela poluição de
automóveis, ônibus e caminhões. Está também inscrito em uma espécie
de limite ambiental, com rios enclausurados e malcheirosos e os ciclos
de excesso e falta de água. Está ainda na emergência habitacional
agravada pela financeirização da moradia e pela perda de renda com a
pandemia. Está na presença latente da violência, do racismo e da
homofobia, que boicota no cotidiano as possibilidades de cidadania.
Contra o mal-estar, entretanto, se criam micro e macroativismos: de
defesa e cuidado com nascentes, de plantação de hortas urbanas, de
iniciativas de reciclagem de lixo e compostagem, de construção de
cozinhas solidárias, de auto-organização e solidariedade em ocupações
no Centro e nas periferias.
Em 2020, pela primeira vez a cidade elegia três jovens negras como
vereadoras pelo PSOL — Luana Alves, Erika Hilton e Elaine, da
candidatura coletiva Quilombo Periférico. Oriundas das lutas
antirracistas e movimentos culturais, da educação popular, do
movimento LGBTQIA+ e feminista, elas fazem ressoar na Câmara
Municipal tais vozes soprando ares de mudança.
Nesta cidade de quase quinhentos anos é visível a crise ambiental:
do esgoto, que até agora a cidade não coleta e não trata integralmente
— a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo
(Sabesp), maior empresa de saneamento da América Latina, segundo
ela mesma, trata menos de 40% do esgoto que recolhe na capital; da
água, que em 2015 sumiu das torneiras; das enchentes, que continuam a
invadir as ruas e casas em verões chuvosos; do lixo, que não se recicla.
Como vimos nos capítulos anteriores, ainda produzimos cidades
sem urbanização prévia, o que nos condena a eternamente consolidar o
precário, e não equacionamos a necessidade de uma infraestrutura de
transporte metropolitano ampla, eficiente e acessível. Todos os dias,
páginas e páginas dos jornais estão cobertas de lançamentos
imobiliários. Quem vê pensa: finalmente todos os paulistanos terão
onde morar; adeus, favelas e loteamentos precários em periferias
distantes e em áreas de preservação. Será? Não é o que parece estar
acontecendo: há muita pressão pelo aumento de potenciais de
construção para permitir edifícios altos onde só existem casas, porém
quase nenhuma oferta factível para os trabalhadores não bancarizados,
aqueles para quem a moradia, mais do que um ativo ou patrimônio, é
uma necessidade essencial da sobrevivência. Tais trabalhadores
“insolventes” correspondem a nada menos do que 87% das necessidades
de moradia da cidade.
A história de São Paulo que apresentamos até aqui tem a marca das
decisões de política urbana tomadas em momentos-chave, com maior
ou menor participação de seus moradores. Desde a oligarquia que
administrou a cidade à sua imagem e semelhança até o pacto territorial
que incluiu as massas urbanas no poder, mas excluindo-as de uma
condição de cidadania plena, não há “problema” urbano ou marca
urbanística em São Paulo que não esteja intimamente associado a
decisões no âmbito de sua política urbana, mais ou menos explícitas por
parte de seus governantes. Essas decisões evidentemente incidem sobre
a cidade, mas também refletem movimentos econômicos, culturais e
políticos protagonizados por sua população. No centro do debate sobre
o destino da metrópole está, portanto, a questão do processo decisório,
ou seja, quem — e como — participa das decisões tomadas hoje sobre
seu futuro. Quem e como trará as respostas às perguntas que lançamos
no início deste capítulo. A cidade superará o congestionamento e a
poluição? Os alagamentos e a crise hídrica? Reaparecerão os empregos
perdidos? Teremos paz nas ruas e serviços públicos de qualidade para
todos? Sobreviverão e se multiplicarão os espaços públicos? Mulheres e
negros poderão se apropriar plenamente da cidade? Triunfarão os
espaços comuns? Ninguém mais terá que viver num barraco?
A cidade se reinventa a partir de sua trajetória, de seu legado.
Legado das condições materiais da vida, mas também das culturas do
viver que construíram o lugar. Na cidade artefato imobiliário, essas
formas de viver já estão pré-codificadas e projetadas antes de serem
habitadas. Mas, na maior parte da cidade, economias populares
construíram a cidade enquanto já a estavam habitando, e o fizeram com
seus meios, recursos e seus próprios repertórios. O legado é também
político: o processo de produção da cidade, sua gestão e a criação do
seu imaginário de futuro estão em permanente disputa: pelo lugar de
hoje e pela perspectiva de amanhã. Crises são sempre momentos
difíceis, mas também enormes oportunidades de reinvenção.
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Lista de prefeitos da cidade de São Paulo:
1899-2021
Janeiro de 1899 a janeiro de 1911 — Antônio da Silva Prado — Partido
Republicano Paulista (PRP)
Janeiro de 1911 a janeiro de 1914 — Raymundo da Silva Duprat — Partido
Republicano Paulista (PRP)
Janeiro de 1914 a agosto de 1919 — Washington Luís Pereira de Sousa —
Partido Republicano Paulista (PRP)
Agosto de 1919 a janeiro de 1920 — Álvaro Gomes da Rocha Azevedo —
Partido Republicano Paulista (PRP)
Janeiro de 1920 a janeiro de 1926 — Firmiano de Morais Pinto — Partido
Republicano Paulista (PRP)
Janeiro de 1926 a outubro de 1930 — José Pires do Rio — Partido
Republicano Paulista (PRP)
Outubro de 1930 a dezembro de 1930 — José Joaquim Cardoso de Melo
Neto — Partido Democrático (PD)
Dezembro de 1930 a julho de 1931 — Luís Inácio Romeiro de Anhaia Melo
— Partido Democrático (PD)
Julho de 1931 a novembro de 1931 — Francisco Machado de Campos —
Partido Democrático (PD)
Novembro de 1931 a dezembro de 1931 — Luís Inácio Romeiro de Anhaia
Melo — Partido Democrático (PD)
Dezembro de 1931 a maio de 1932 — Henrique Jorge Guedes — Partido
Republicano Paulista (PRP)
Maio de 1932 a outubro de 1932 — Gofredo Teixeira da Silva Teles —
Partido Republicano Paulista (PRP)
Outubro de 1932 a dezembro de 1932 — Arthur Saboya — Sem partido
Dezembro de 1932 a abril de 1933 — Teodoro Augusto Ramos — Sem
partido
Abril de 1933 a maio de 1933 — Arthur Saboya — Sem partido
Maio de 1933 a julho de 1933 — Osvaldo Gomes da Costa — Sem partido
Julho de 1933 a agosto de 1933 — Carlos dos Santos Gomes — Sem
partido
Agosto de 1933 a setembro de 1934 — Antônio Carlos de Assumpção —
Sem partido
Setembro de 1934 a abril de 1938 — Fábio da Silva Prado — Suspensão
dos partidos políticos pelo Decreto-lei no 37
Abril de 1938 a outubro de 1945 — Francisco Prestes Maia — Suspensão
dos partidos políticos pelo Decreto-lei no 37
Novembro de 1945 a março de 1947 — Abraão Ribeiro — Sem partido
Março de 1947 a agosto de 1947 — Cristiano Stockler das Neves —
Partido Social Progressista (PSP)
Agosto de 1947 a agosto de 1948 — Paulo Lauro — Partido Social
Progressista (PSP)
Agosto de 1948 a janeiro de 1949 — Milton Improta — Sem partido
Janeiro de 1949 a fevereiro de 1950 — Asdrúbal Euritisses da Cunha —
Partido Social Progressista (PSP)
Fevereiro de 1950 a fevereiro de 1951 — Lineu Prestes — Partido Social
Progressista (PSP)
Fevereiro de 1951 a abril de 1953 — Armando de Arruda Pereira —
Partido Social Progressista (PSP)
Abril de 1953 a janeiro de 1955 — Jânio da Silva Quadros — Partido
Democrata Cristão (PDC)
Janeiro de 1955 a junho de 1955 — William Salem — Partido Social
Progressista (PSP)
Junho de 1955 a abril de 1956 — Juvenal Lino de Matos — Partido Social
Progressista (PSP)
Abril de 1956 a abril de 1957 — Vladimir de Toledo Piza — Partido
Trabalhista Brasileiro (PTB)
Abril de 1957 a abril de 1961 — Ademar Pereira de Barros — Partido
Social Progressista (PSP)
Abril de 1961 a abril de 1965 — Francisco Prestes Maia — União
Democrática Nacional (UDN)
Abril de 1965 a abril de 1969 — José Vicente de Faria Lima — Movimento
Trabalhista Renovador (MTR) até 1965, depois Aliança Renovadora
Nacional (Arena)
Abril de 1969 a abril de 1971 — Paulo Salim Maluf — Aliança Renovadora
Nacional (Arena)
Abril de 1971 a agosto de 1973 — José Carlos de Figueiredo Ferraz —
Sem partido
Agosto de 1973 — João Brasil Vita — Aliança Renovadora Nacional
(Arena)
Agosto de 1973 a agosto de 1975 — Miguel Colasuonno — Aliança
Renovadora Nacional (Arena)
Agosto de 1975 a julho de 1979 — Olavo Egydio Setúbal — Aliança
Renovadora Nacional (Arena)
Julho de 1979 a maio de 1982 — Reynaldo Emygdio de Barros — Aliança
Renovadora Nacional (Arena) até 1980, depois Partido Democrático
Social (PDS)
Maio de 1982 a março de 1983 — Antônio Salim Curiati — Partido
Democrático Social (PDS)
Março de 1983 a maio de 1983 — Francisco Altino Lima — Partido do
Movimento Democrático Brasileiro (PMDB)
Maio de 1983 a dezembro de 1985 — Mário Covas Júnior — Partido do
Movimento Democrático Brasileiro (PMDB)
Janeiro de 1986 a dezembro de 1988 — Jânio da Silva Quadros — Partido
Trabalhista Brasileiro (PTB)
Janeiro de 1989 a janeiro de 1993 — Luiza Erundina de Sousa — Partido
dos Trabalhadores (PT)
Janeiro de 1993 a janeiro de 1997 — Paulo Salim Maluf — Partido
Progressista Reformador (PPR), depois Partido Progressista Brasileiro
(PPB)
Janeiro de 1997 a janeiro de 2001 — Celso Roberto Pitta do Nascimento
— Partido Progressista Brasileiro (PPB) até 1999, depois Partido
Trabalhista Nacional (PTN)
Janeiro de 2001 a janeiro de 2005 — Marta Teresa Suplicy — Partido dos
Trabalhadores (PT)
Janeiro de 2005 a março de 2006 — José Serra Chirico — Partido da
Social Democracia Brasileira (PSDB)
Março de 2006 a janeiro de 2013 — Gilberto Kassab — Partido da Frente
Liberal (PFL) até 2007, Democratas (DEM) entre 2007 e 2011, depois
Partido Social Democrático (PSD)
Janeiro de 2013 a janeiro de 2017 — Fernando Haddad — Partido dos
Trabalhadores (PT)
Janeiro de 2017 a abril de 2018 — João Agripino da Costa Dória Júnior —
Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB)
Abril de 2018 a maio de 2021 — Bruno Covas Lopes — Partido da Social
Democracia Brasileira (PSDB)
Maio de 2021 até a data de edição deste livro — Ricardo Luís Reis Nunes
— Movimento Democrático Brasileiro (MDB)
Índice de termos para busca
ABC Paulista
abismo social
Abolição
“Acelera, São Paulo”
africanos
Água Branca
Água Espraiada, córrego
Águas Espraiadas: operação urbana; alagamentos
Alto de Pinheiros
Alves, Luana
ameríndios
Anchieta, via
Andrade Gutierrez [empreiteira]
Andrade, Mario de
Anhaia Melo, Luís Inácio de
Anhangabaú, rio
Anhangabaú, vale do
Anhanguera [distrito]
aporofobia brasileira
Arena (partido)
Aricanduva, avenida
arquitetura
ascensão social
assédio sexual
assentamentos populares
Augusta, rua
autoconstrução
automóveis
Baixada do Glicério
Banco Nacional de Habitação — BNH
Barão de Itapetininga, rua
Barbosa, Adoniran
Bardi, Lina Bo
barracos
Barros, Ademar de
Belém
Belenzinho
Belvedere Trianon
Berrini
Bixiga
bilhete único
Billings, represa
Boca do Lixo
bolivianos
Bolsonaro, manifestações pelo impeachment de
Bom Retiro
boom imobiliário
Borba Gato, estátua do
Bororé, conjunto habitacional
Boulevards JK I e II
Bouvard, Joseph-Antoine
Brás
“Brasil Novo”
Brasil Vita, João
Brazil Pittoresco (Frond & Ribeyrolles)
Buenos Aires
Butantã [bairro]
calçadões
Câmara Municipal de São Paulo
Camargo Corrêa [empreiteira]
Campos Elíseos
Canindé
Cantareira, serra da; reservatório da
Carmo, igreja do
casas: autoconstruídas; coletivas; ver também autoconstrução; moradia
popular
Censo
Center Norte [shopping center]
Centro [ São Paulo ]: Histórico; Novo; popularização do; “repovoar” o;
“tradicional”
Cerqueira César
Chá, viaduto do
Chicago
chineses
ciclovias/cicloativismo
cidadania consentida, era da
Cidade Jardim
“cidade-mundo”
Cidade Tiradentes [distrito]
Cidade Tiradentes, conjunto habitacional
circulação: comunicação eletrônica multiplicando a; de ônibus
clandestinos; diretrizes para; investimentos em modos não
motorizados de; radioconcêntrica; restrição de carros
City Lapa
classe média urbana
Código de Obras
colonialismo
Comissão de Justiça da Câmara de São Paulo
Companhia Brasileira de Cimento Portland Perus
Companhia Brasileira de Projetos e Obras (CBPO)
Companhia City
Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São
Paulo (CDHU)
Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp)
Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo (Cohab-SP)
Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM)
Concessão Urbanística Nova Luz
condomínios fechados
congestionamentos
Conjunto Nacional (São Paulo)
Consolação [bairro]
Constituição Federal
Constran, construtora
coreanos
coronavírus, pandemia de; ver também Covid-19; pandemia
cortiços
Covid-19
cozinhas solidárias
CR Almeida, construtora
crescimento demográfico: densidade populacional; segregação da
população de baixa renda
crise: ambiental; da mobilidade; fiscal; hídrica
cultura cafeeira
D. Pedro II
Da Vinci, Leonardo
demolições
desemprego
“Despejo na favela” (Adoniran Barbosa)
18 de brumário de Luís Bonaparte, O (Marx)
Diadema (SP)
Direita, rua (São Paulo)
Diretoria de Obras
ditadura militar
Dória, João
Dutra, via
edificabilidade
educação popular
eixos ferroviários
elite paulistana
embranquecimento
Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos (EMTU)
Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano S.A. (Emplasa)
enchentes
Engenheiro Luís Carlos Berrini, avenida
“entradas e bandeiras”
erosão
escravidão/escravizados; abolição da; tráfico de
espaços públicos
Espanha/espanhóis
Estado, avenida do
europeização
expansão horizontal
faixas exclusivas
Faria Lima, José Vicente
Faria Lima, avenida
favelas; ver também moradia popular
Fernão Dias, rodovia
ferrovias
Figueiredo Ferraz, José Carlos de
Filadélfia
fluxos imigratórios
Folha Explica (coleção)
Forças Armadas
França
Frond, Jean-Victor
Galeano, Eduardo
Galeria Metrópole
Galo (Paulo Lima)
galpões industriais
garden cities
Gehl, John
gestão urbana, métodos de
Glete, Frederico
Grajaú
grilagem
gripe espanhola, epidemia de
Guarapiranga, represa
Guarulhos (SP)
Guatemala
Haddad, Fernando
Hegel, Georg Wilhelm Friedrich
Henry Borden, usina
Higienópolis
Hilton, Erika
“homens-engrenagem”
homicídios
homofobia
Houaiss (dicionário)
Hugo, Victor
Ibirapuera [bairro]
identidades
“ideologia da outorga”
Igreja Católica
igrejas evangélicas neopentecostais
Iguatemi (shopping center)
imigrantes
Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) progressivo
indígenas
indústria/industrialização: automobilística; petroquímica; alimentícia;
têxtil
infraestrutura urbana
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
internet
Ipiranga
Itália/italianos
Itaquera, conjunto habitacional
Itororó, avenida
Jacu-Pêssego, conjunto viário
Jaguaré
japoneses
Jaraguá, pico do
Jardim Ângela
Jardim Brasil Novo
Jardim Edith
Jardim Edith [favela]
Jardim Educandário
Jardim Europa
Jardim Paulista
Jardim Progresso
Jardins
jesuítas
Jesus, Carolina Maria de
Jundiaí (SP)
Kafka, Franz
Lapa
legalidade urbana
lei de proteção aos mananciais
Líbano
Liberdade
Light and Power Co.
Lima, Joaquim Eugênio de
Lima, Paulo, ver Galo
lobbies
Luís Bonaparte III
Luiza Erundina [de Sousa]
lutas: antirracistas; pela cidadania
Machado de Assis
mananciais: área de proteção de; regras de proteção dos
mancha urbana, evolução da
mapa da fome
Marginal Tietê
Martinelli, edifício
Mar, serra do
Marx, Karl
Mauá (SP)
Mendes Júnior [empreiteira]
mercado de aluguel corporativo
México
migração
“milagre econômico”
Mineiro, Elaine
minianel viário
mobilidade: social; urbana
modelo rodoviarista
Moema
Mooca
moradia popular: acomodação das demandas por; aumento da oferta de;
bairros operários; crise da; de aluguel; despejos; direito à; loteamentos;
lutas pela; modelo de expansão periférica; mutirões para construção;
parcerias público-privadas (PPPs); pensões; ver também conjuntos
habitacionais; favelas; ocupações; periferia
Morumbi
Moura, Clóvis
movimento(s): abolicionista; antifascistas; antirracistas; breque dos APPs;
culturais; Entregadores Antifascistas; feminista; (i)migratório; LGBTQIA
+; sindical; sociais
Movimento Passe Livre (MPL); junho de 2013, jornadas de
Museu de Arte de São Paulo (Masp)
Na senzala, uma flor (Slenes)
Nações Unidas, edifício
Napoleão Bonaparte
Natel, Laudo
negros
neoliberalismo
nordestinos
Nothmann, Victor
Nova York
Nove de Julho, avenida
OAS, Grupo [construtora]
obras viárias
Octavio Frias de Oliveira, ponte
ocupações; cultural Paulista-Augusta, cultural Ermelino Matarazzo; Hotel
Cambridge; Prestes Maia; Nove de Julho; Quilombaque
operações urbanas: Centro; Faria Lima
Osasco (SP)
Ovimbundu, etnia
Oxford (dicionário)
Pacaembu [bairro]
Pacaembu, estádio
pandemia
Paraíba, vale do (SP)
Paraíso
Pari
Paris
Parque Augusta
Parque do Bixiga
Parque do Ibirapuera: túneis sob o
Partido Comunista (PC)
Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB)
Partido Democrata Cristão (PDC)
Partido Democrático (PD)
Partido dos Trabalhadores (PT)
Partido Trabalhista Brasileiro (PTB)
Partido Progressista Brasileiro (PPB)
Partido Republicano Paulista (PRP)
Partido Socialismo e Liberdade (PSOL)
Pauliceia desvairada (Andrade)
Pauliceia, edifício
Paulista, avenida: Aberta
Pedreira, estação elevatória
Perdizes
periferia
“periferia consolidada”
perímetro urbano: delimitação do
Peru
Perus
Pessoa, Fernando
“pessoa-engrenagem”
Pinheiros [bairro]
Pinheiros, rio: concessão do; túneis sob o; marginal do
Piratininga, aldeia de
Pitta, Celso
Plano de Avenidas de Prestes Maia
Plano Diretor de 2002
Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado (PDDI)
Plano Metropolitano de Desenvolvimento Integrado
plano urbanístico
Polícia Militar de São Paulo
políticas: de inclusão social; públicas; urbanas
poluição
Portugal/portugueses
PPP habitacional
Prado, Antônio
Prestes Maia, Francisco
“primavera dos povos”
Primeira Guerra Mundial
Primeira República
processo decisório
Proclamação da República
Produto Interno Bruto (PIB): aumento do
Projeto de Intervenção Urbanística (PIU) Central
protestos: greves; Grupo Revolução Periférica, ver também movimentos;
“rolezinhos”
Quadros, Jânio
“queixadas”
quilombagem
Quilombo Periférico (candidatura coletiva)
Quinta Avenida, edifício
Quintal dos Prettos (evento)
Quinze de Novembro, rua
racismo
Ramos de Azevedo, praça
Rashid [Michel Dias Costa]
reciclagem de lixo
recomposição étnico-cultural
redemocratização
Região Metropolitana de São Paulo (RMSP)
República, praça da
republicanos
Revolução de 1930
Revolução Periférica, grupo
Ribeirão Pires (SP)
Ribeyrolles, Charles
Rio de Janeiro
Rio Grande da Serra (SP)
Rio, José Pires do
rios, ver também rios específicos
“rolezinhos”
“Sampa” (Veloso)
saneamento
Santa Cecília
Santo Amaro
Santo André (SP)
Santos (SP): porto de
Santos, Milton
São Bento, Ordem de
São Bento, rua
São Bernardo do Campo (SP)
São Caetano do Sul (SP)
São Francisco, Ordem de
São Luís, avenida
São Paulo dos Campos de Piratininga, vila de
São Paulo Tramway Light and Power Co.
São Vicente (SP)
Saracura, córrego do
“Saudosa maloca” (Adoniran Barbosa)
Sé [subdistrito]
Sé, praça da
sem-teto
senzala
Serveng-Civilsan, grupo
serviços públicos, regulação dos
Sete de Abril, rua
shopping centers
Shopping Metrô Itaquera
sindicatos
Síria
Slenes, Robert
socialistas
Sociedades de Amigos de Bairros (Sabs)
solidariedade
Suplicy, Marta
surto: de “urbanidade”; de crescimento industrial; rodoviarista
Taboão da Serra
Tamanduateí, rio
Tatuapé
Teatro Municipal de São Paulo
Teatro Oficina
telefonia
Terminal Bandeira
Terreyro Coreográfico
Tietê, rio: marginal do
Tipografia Nacional
tráfico de drogas
Traição, estação elevatória
transformações culturais
transporte coletivo: bondes; corredores exclusivos; integração; metrô;
ônibus; tarifa zero; trem; vans clandestinas
“Trem das onze” (Adoniran Barbosa)
tupi-guarani, língua
urbanismo/urbanização: área urbanizada; autourbanização; uso do solo
Valentim, Margareth
Vargas, Getúlio
veias abertas da América Latina, As (Galeano)
velocidade máxima, redução da
Veloso, Caetano
verticalização
Vila Buarque
Vila Carioca
Vila Formosa
Vila Guilherme
Vila Independência
Vila Madalena
Vila Maria
Vila Maria Baixa
Vila Mariana
Vila Matilde
Vila Prudente
vilas: operárias “higiênicas”
Vinte e Três de Maio, avenida
violência
voto popular
Zepelim [dirigível]
Zonas Especiais de Interesse Social (Zeis)
Zona Leste
Zona Norte
Zona Oeste
Zona Sudeste
Zona Sudoeste
Zona Sul
zoneamento: lei do município
Tomaz Vello
Raquel Rolnik é professora titular da Faculdade de Arquitetura e
Urbanismo da USP. Foi diretora de planejamento da Secretaria
Municipal de Planejamento de São Paulo (1989-92), secretária nacional
de Programas Urbanos do Ministério das Cidades (2003-07) e relatora
especial da ONU para o Direito à Moradia Adequada (2008-14). É
autora, entre outros, de A cidade e a lei: legislação, política urbana e
territórios na cidade de São Paulo (Studio Nobel, 1997) e Guerra dos
lugares: a colonização da terra e da moradia na era das finanças
(Boitempo, 2016).
Copyright © Raquel Rolnik, 2022
Copyright do prefácio © Editora Fósforo, 2022
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser
reproduzida, arquivada ou transmitida de nenhuma forma ou por nenhum
meio sem a permissão expressa e por escrito da Editora Fósforo.
EDITORA Rita Mattar
ASSISTENTE EDITORIAL Cristiane Alves Avelar
PREPARAÇÃO E REVISÃO TÉCNICA Joana Salém Vasconcelos
REVISÃO Luicy Caetano e Eduardo Russo
ÍNDICE REMISSIVO Maria Claudia Carvalho Mattos
DIREÇÃO DE ARTE Julia Monteiro
CAPA Thea Severino
IMAGEM DA CAPA Irene Avramelos
MAPAS E INFOGRÁFICOS Mario Kanno
FONTES DOS MAPAS pp. 38-9 (Raquel Rolnik, A cidade e a lei, ver Bibliografia),
p. 47 (Plano Avenidas), p. 53 (elaboração própria, a partir da base de dados
da Cogep e da Emplasa), p. 62 (Sarah Feldman, São Paulo: Planejamento e
zoneamento, 1947-1972, ver Bibliografia)
PROJETO GRÁFICO Alles Blau
EDITORAÇÃO ELETRÔNICA Página Viva
VERSÃO DIGITAL Marina Pastore
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Rolnik, Raquel
São Paulo [livro eletrônico] : o planejamento da desigualdade
/ Raquel Rolnik. -- São Paulo : Fósforo, 2022.
ePub
ISBN 978-65-89733-76-8
1. Desigualdades sociais - São Paulo, Região Metropolitana 2. São
Paulo (Cidade) - Condições sociais 3. São Paulo (Cidade) -
Descrição 4. São Paulo (Cidade) - História 5. São Paulo
(Cidade) - Planejamento urbano I. Título.
21-94087 CDD-981.611
Índice para catálogo sistemático:
1. São Paulo : Cidade : História 981.611
Cibele Maria Dias - Bibliotecária - CRB-8/9427
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