Poderes executórios do árbitro
Poderes executórios do árbitro
PUC-SP
MESTRADO EM DIREITO
São Paulo
2026
MARCOS DIAZ JUNIOR
MESTRADO EM DIREITO
São Paulo
2026
Marcos Diaz Junior
BANCA EXAMINADORA
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___________________________________________
___________________________________________
Concluir esta dissertação e, com ela, o curso de mestrado em Direito Civil pela
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo representa, para mim, não apenas uma
realização acadêmica, mas também a superação de um dos maiores desafios da minha
trajetória pessoal e profissional.
Foram anos de intenso esforço, dedicação e, por vezes, exaustão. Durante boa parte do
curso, residia no Rio de Janeiro e, semanalmente, me deslocava até São Paulo para assistir
às aulas e cumprir com todas as obrigações acadêmicas, conciliando com uma advocacia
árdua, em um ritmo que eu não havia inicialmente previsto. Essa rotina exigente só foi
possível graças a uma rede de apoio sólida e ao comprometimento que mantive com este
projeto desde o início.
Em primeiro lugar, agradeço à minha esposa, Paula, com quem tive a felicidade de me
casar durante o mestrado. Neste ano de 2025, completamos 10 (dez) anos juntos. Seu amor,
compreensão e apoio incondicional foram fundamentais em todos os momentos,
especialmente nos dias mais difíceis. Ter você ao meu lado foi — e é — uma fonte constante
de força e motivação.
Agradeço ao meu pai, Marcos, que sempre acreditou em mim e me ensinou o valor da
responsabilidade e da persistência. À minha irmã, Raquel, ao meu cunhado, Fabricio, e aos
meus sobrinhos, Rafael e Felipe, meu carinho e gratidão pelo incentivo, apoio e pelo afeto
constante, que tornaram o caminho mais leve e significativo.
Não posso deixar de prestar uma homenagem emocionada à minha avó Abner e à
minha tia Carlinda, ambas já falecidas, mas eternamente presentes no meu coração. Foram
elas que me criaram, que plantaram em mim o amor pelos estudos e que sempre acreditaram
no poder transformador da educação. Esta conquista também é delas — e por elas.
Agradeço, ainda, aos meus colegas e amigos de trabalho, que acompanharam de perto
essa jornada e sempre me incentivaram: André, Vinicius, Ricardo, Índio, Marcela, Joana,
Filipe, Luciana e Carlos. Estendo meu reconhecimento aos demais companheiros de
escritório, que compreenderam as ausências e dividiram comigo os desafios do dia a dia
profissional sem jamais deixar de apoiar a minha formação acadêmica.
Agradeço, também, à PUC-SP, aos professores, colegas de turma e a todos que, direta
ou indiretamente, contribuíram para que este trabalho fosse possível. Cada sacrifício valeu a
pena. Este momento é também de vocês.
Agradeço à Professora Maria Helena Daneluzzi, que me orientou durante o estágio
docente e cuja generosidade intelectual foi essencial para minha formação acadêmica. Ao
seu lado, tive a oportunidade de vivenciar de perto a prática do magistério em Direito Civil,
aprendendo lições valiosas que levarei para toda a vida. Sua dedicação ao ensino, seu rigor
técnico e sua paixão pela docência foram fontes de inspiração constantes, contribuindo de
forma significativa para o amadurecimento do meu olhar sobre a sala de aula e sobre a
responsabilidade de transmitir o conhecimento jurídico com excelência e compromisso.
Agradeço, por fim, ao Professor Francisco José Cahali, pela orientação nesta
dissertação e por todos os ensinamentos que tive o privilégio de receber. Sua generosidade
intelectual e profissional justificam a imensa reputação que possui.
RESUMO
A presente dissertação tem por objetivo investigar a extensão e os limites dos poderes
executórios do árbitro no âmbito da arbitragem doméstica brasileira, a partir da premissa de
que a efetividade da decisão arbitral constitui elemento essencial para a consolidação da
arbitragem como verdadeiro equivalente jurisdicional ao processo estatal. A pesquisa
analisa, inicialmente, a natureza jurisdicional da arbitragem e a equiparação de suas decisões
às sentenças judiciais, destacando a autoridade conferida pela Lei nº 9.307/1996 e pelo
Código de Processo Civil de 2015. Em seguida, examina as hipóteses de execução direta,
que englobam provimentos autossatisfativos de natureza declaratória e constitutiva,
hipóteses de sub-rogação ideal como as garantias autoexecutáveis, bem como novas
possibilidades advindas da utilização de blockchain e smart contracts, além da chamada
execução imprópria, exemplificada por determinações dirigidas a registros públicos.
Também são estudadas as hipóteses de execução indireta, representadas por medidas de
coerção psicológica e econômica, tais como astreintes, sanções corporativas, prêmios
condicionais e formas de ostracismo comercial, além de medidas cautelares e de urgência,
inclusive proferidas por árbitro de emergência. Apesar dessa ampla gama de instrumentos, a
pesquisa conclui que subsistem limites intransponíveis, notadamente no que se refere à
prática de atos de constrição patrimonial forçada, cuja efetivação depende necessariamente
da cooperação com o Poder Judiciário, por meio da expedição de carta arbitral ou do
cumprimento de sentença arbitral. A análise evidencia, ainda, que a atividade executiva do
árbitro envolve função cognitiva relevante, seja na definição dos meios adequados de
satisfação do direito reconhecido, seja na apreciação de defesas do executado, reforçando a
natureza jurisdicional do instituto. Por fim, ressalta-se a tendência de expansão dos poderes
executórios arbitrais diante das inovações tecnológicas, que se apresentam como potenciais
instrumentos para garantir maior efetividade à arbitragem. Conclui-se que o equilíbrio entre
a autonomia da jurisdição arbitral e a necessária cooperação com a jurisdição estatal é a chave
para assegurar a concretização eficaz dos direitos reconhecidos em sede arbitral,
consolidando a arbitragem como meio jurisdicional adequado de solução de controvérsias
plenamente efetivo no Brasil.
Palavras-chaves:
Arbitragem; Execução arbitral; Jurisdição; Poderes do árbitro; Processo civil.
ABSTRACT
This Master’s Thesis aims to investigate the extent and limits of the arbitrator's executive
powers within the scope of Brazilian domestic arbitration, based on the premise that the
effectiveness of the arbitral decision is an essential element for consolidating arbitration as a
true jurisdictional equivalent to state proceedings. The research initially analyzes the
jurisdictional nature of arbitration and the equivalence of its decisions to judicial judgments,
highlighting the authority granted by Law No. 9.307/1996 and the 2015 Code of Civil
Procedure. It then examines cases of direct enforcement, which encompass self-enforcing
remedies of a declaratory and constitutive nature, instances of ideal subrogation such as self-
executing guarantees, as well as new possibilities arising from the use of blockchain and
smart contracts, in addition to so-called improper enforcement, exemplified by orders
directed to public registries. The hypotheses of indirect enforcement are also studied,
represented by measures of psychological and economic coercion, such as coercitive fines,
corporate sanctions, conditional awards, and forms of commercial ostracism, as well as
precautionary and urgent measures, including those issued by an emergency arbitrator.
Despite this wide array of instruments, the research concludes that insurmountable limits
persist, particularly regarding the performance of forced patrimonial constriction acts, whose
implementation necessarily depends on cooperation with the Judiciary, through the issuance
of an arbitral letter rogatory or the enforcement of an arbitral award. The analysis further
reveals that the arbitrator's executive activity involves a significant cognitive function,
whether in defining the appropriate means to satisfy the recognized right or in assessing the
defenses of the executed party, thereby reinforcing the jurisdictional nature of the institute.
Finally, it emphasizes the trend toward expanding arbitral executive powers in light of
technological innovations, which present themselves as potential instruments to ensure
greater effectiveness in arbitration. It is concluded that the balance between the autonomy of
arbitral jurisdiction and the necessary cooperation with state jurisdiction is the key to
ensuring the effective realization of rights recognized in arbitral proceedings, thereby
consolidating arbitration as a fully effective jurisdictional means for resolving disputes in
Brazil.
Keywords: Arbitration; Arbitral enforcement; Jurisdiction; Powers of the arbitrator; Civil
procedure.
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO..................................................................................................12
1.2. Considerações iniciais sobre a arbitragem............................................................17
1.3. Breve histórico......................................................................................................18
1.4. Evolução do conceito de jurisdição do árbitro no direito brasileiro.......................21
2. ESTADO, JURISDIÇÃO, TEORIA GERAL DO PROCESSO E
ARBITRAGEM..................................................................................................26
2.1 As tutelas jurisdicionais no direito brasileiro........................................................34
2.1.1. A tutela de conhecimento......................................................................................37
2.1.2. A tutela de execução.............................................................................................37
2.1.3. A tutela cautelar....................................................................................................38
2.2. As diferentes eficácias das sentenças....................................................................40
2.2.1. Eficácia declaratória.............................................................................................41
2.2.2. Eficácia constitutiva.............................................................................................43
2.2.3. Eficácia condenatória...........................................................................................44
2.2.4. Eficácia mandamental...........................................................................................45
2.2.5. Eficácia executiva.................................................................................................46
2.2.6. Entendimento da doutrina de que, em razão da adoção do processo sincrético, com
o advento da Lei nº 11.232/2005, a classificação quinaria perdeu a sua relevância
prática...................................................................................................................47
3. A SENTENÇA ARBITRAL, COISA JULGADA E O ESGOTAMENTO DO
PODER JURISDICIONAL DOS ÁRBITROS.................................................50
3.1. O conceito de sentença no processo civil brasileiro.............................................50
3.2. O conceito de sentença arbitral.............................................................................52
3.3. A coisa julgada na arbitragem...............................................................................53
3.4. O esgotamento do poder jurisdicional dos árbitros (functus
officio)..................................................................................................................57
4. PODERES EXECUTÓRIOS DO ÁRBITRO...................................................60
4.1. O Poder de Império (Ius Imperium) do Árbitro...................................................60
4.2. A utilização da força física, na execução, não é uma regra e a possibilidade de
atuar com força jurídica........................................................................................63
4.3. O conceito de poderes executórios do árbitro.......................................................65
4.4. Atos executivos do árbitro....................................................................................66
4.5. Os poderes executórios do árbitro, o princípio da vedação ao non factibile e o
processo arbitral de resultados..............................................................................68
4.6. Tendência mundial à descentralização da execução e a execução da sentença
arbitral no direito comparado................................................................................76
4.7. Atos de execução direta pelo árbitro.....................................................................75
4.7.1. Provimentos autossatisfativos...............................................................................76
[Link].
Sentença arbitral meramente declaratória.............................................................77
[Link]
Sentença arbitral constitutiva................................................................................78
[Link]-rogação ideal pelo árbitro..............................................................................81
[Link].
Garantias autoexecutáveis....................................................................................83
[Link].
Blockchain e smart contracts................................................................................85
[Link]ção imprópria pelo árbitro...........................................................................88
4.8. Atos de execução indireta pelo árbitro..................................................................91
4.9. Limitações aos poderes executórios do árbitro......................................................94
4.10. Tabela exemplificativa dos poderes executórios do árbitro...................................97
4.11. Sugestão de lege ferenda para o aprimoramento legislativo no que se refere aos
poderes executórios do árbitro..............................................................................98
5. COGNIÇÃO NA EXECUÇÃO DA SENTENÇA
ARBITRAL.......................................................................................................100
5.1. A sentença arbitral ilíquida e competência para a liquidação.............................100
5.2. Defesas do executado..........................................................................................103
6. CARTA ARBITRAL E A DIVISÃO DE COMPETÊNCIA ENTRE O
ÁRBITRO E O JUIZ ESTATAL.....................................................................106
6.1. Relação de cooperação e suporte com o Poder Judiciário....................................106
6.2. Carta arbitral e juízo de delibação.......................................................................109
6.3. Árbitro de emergência e seus poderes executórios..............................................110
7. CONSIDERAÇÕES FINAIS...........................................................................113
REFERÊNCIAS................................................................................................................116
12
1. INTRODUÇÃO
1
LEMES, Selma. Arbitragem em números 2020/2021. Disponível em:
<[Link] Acesso
em 01.07.2024.
2
GRINOVER, Ada Pellegrini. O processo – I Série: Estudos e pareceres de processo civil. Brasília: Gazeta
Jurídica, 2013. Pág. 734.
3
“Por todo o seu histórico, e em especial pela proximidade que há entre os protagonistas da arbitragem – os
árbitros escolhidos pelas partes –, a tendência natural é o cumprimento espontâneo das decisões arbitrais.
Ora, é intuitivo que se submeta o vencido `posição de quem foi por ele próprio eleito para resolver uma
questão exatamente pela confiança e credibilidade na sua capacidade de encontrar a melhor solução para o
conflito”. CAHALI, Francisco José. Curso de arbitragem : mediação : conciliação : resolução CNJ
125/2010. 5ª ed. revista e atualizada, de acordo com a Lei nº 13.129/2015 (Reforma da Lei de Arbitragem),
com a Lei 13.140/2015 (Marco Legal da Mediação) e o Novo CPC. São Paulo: Editora Revista dos
Tribunais, 2015. p. 345.
13
4
Tradução livre para “Time was when the only challenge for claimants and their counsel was to obtain an
arbitral award. Thereafter, respondents would pay without the need for the successful claimant to take
further measures. Today, however, there is considerable evidence that arbitral awards do not automatically
produce financial remuneration. Rather, prospective or actual award debtors may engage in further
litigation or take steps to make awards difficult to enforce, through secreting of assets, fraudulent
conveyances or other activities. The conference will examine the increasingly important issues of award
enforcement through counsel experienced in representing both award creditors and debtors.” Disponível
em: <[Link] Acesso em 30.01.2025.
5
Em nível de Pós-Graduação, há as dissertações de Mestrado de Fernanda Gouvêa Leão e de Caio César
Bueno Schinemann, defendidas na USP, respectivamente, em 2010 e 2023, e as Teses de Doutorado de
Asdrubal Franco Nascimbeni, defendida na PUC-SP em 2019, e de Daniel Chacur de Miranda, defendida
na USP em 2024.
14
Isso se explica, em grande parte, pelo contexto jurídico vigente no momento da edição
da Lei de Arbitragem. Naquele período, predominava no processo civil a concepção de que
a autoridade da coisa julgada implicava o encerramento completo da análise do objeto do
litígio, bem como o término definitivo de qualquer atividade cognitiva relacionada ao caso.
Tal entendimento era reforçado pela redação original da primeira parte do artigo 463 do
Código de Processo Civil de 1973, que dispunha: “Ao publicar a sentença de mérito, o juiz
cumpre e acaba o ofício jurisdicional”.
Embora o artigo 1º da Lei de Arbitragem atribuísse expressamente ao árbitro a função
de resolver o litígio, não havia, naquele momento, qualquer incômodo relevante — em parte
devido à pouca relevância prática da arbitragem à época — com a redação do artigo 29 da
mesma norma, que encerrava de forma categórica a jurisdição arbitral após a prolação da
sentença. Assim, consolidava-se, no cenário nacional, o princípio do functus officio,
amplamente aceito no contexto da arbitragem internacional.
Contudo, a partir das reformas introduzidas no processo civil em 2005, a doutrina
passou, de forma progressiva, a revisar a separação rígida entre as fases de cognição e de
execução, bem como a rejeitar a ideia de que não existiria atividade cognitiva no âmbito
executivo.
Atualmente, é pacífico na teoria processual que o magistrado exerce função cognitiva
mesmo durante a execução, restando apenas discutir quais são os limites e a intensidade dessa
cognição, seja diante das objeções apresentadas pelo executado, seja em razão de eventual
atuação ex officio.
Nesse sentido, não se pode perder de vista o número de procedimentos arbitrais em
trâmite no Brasil aumenta a cada ano, de modo que o cumprimento e efetividade das decisões
proferidas em procedimentos arbitrais é um tema que tem ganhado cada vez mais relevância.
Assim, a presente dissertação tem por objetivo o estudo aprofundado dos poderes
executórios do árbitro no âmbito da arbitragem doméstica brasileira. A Lei nº 9.307/1996,
marco fundamental na evolução do instituto em nosso ordenamento, equiparou a sentença
arbitral à sentença judicial, conferindo-lhe o status de título executivo judicial. Contudo, para
uma maior efetividade dessa equiparação e, por conseguinte, a própria utilidade da
arbitragem como meio de resolução de disputas, é de suma importância que o árbitro tenha
a capacidade de se fazer cumprir o que decidiu. A problemática central que impulsiona esta
15
pesquisa reside justamente na investigação da extensão e dos limites dos poderes do árbitro
para garantir a execução de suas próprias decisões, transformando o direito reconhecido em
uma realidade fática para as partes.
A arbitragem, para que se consolide como um verdadeiro equivalente jurisdicional, não
pode se limitar a ser uma mera "fábrica de sentenças inexequíveis". É imperativo que o
árbitro, na qualidade de juiz de fato e de direito, disponha de mecanismos coercitivos –
diretos e indiretos – para assegurar o cumprimento de seus provimentos, sejam eles finais,
sejam eles de natureza acautelatória ou antecipatória. A discussão sobre a ausência de ius
imperium (poder de império) do árbitro, frequentemente invocada para limitar sua atuação,
merece ser revisitada sob a ótica dos princípios a instrumentalidade do processo e da vedação
ao non factibile, ou seja, a proibição de que um direito se torne irrealizável por ausência de
meios para sua efetivação.
Nesse contexto, esta dissertação sustenta a tese de que o árbitro possui uma gama de
poderes executórios mais ampla do que a doutrina tradicional costuma admitir, operando em
uma zona de autonomia que, embora encontre limites na necessidade de cooperação com o
Poder Judiciário para atos de força, é robusta e suficiente para garantir a efetividade da
grande maioria das decisões arbitrais.
Para desenvolver de forma lógica e progressiva a tese aqui proposta, a presente
dissertação foi estruturada em capítulos que se sucedem de modo a construir o conhecimento
do leitor, partindo das bases conceituais até as implicações práticas do tema. A organização
capitular foi pensada da seguinte forma:
O primeiro capítulo, além desta introdução ao tema proposto e de apresentar um
brevíssimo histórico do instituto da arbitragem, é dedicado à análise da natureza jurisdicional
da arbitragem. Este é o pilar fundamental de todo o trabalho. Ao revisitar a evolução histórica
do instituto no Brasil e ao demonstrar que a arbitragem é, de fato, jurisdição, estabelecemos
a premissa maior de que o árbitro exerce uma função pública delegada pelo Estado e, como
tal, é investido dos poderes necessários para o desempenho eficaz dessa função. Sem a
consolidação deste conceito, a discussão sobre poderes executórios restaria esvaziada.
Nos segundo e terceiro capítulos, a dissertação aborda, respectivamente, as diferentes
espécies de tutelas jurisdicionais e as diferentes eficácias das sentenças. A compreensão das
16
6
CARMONA, Carlos Alberto. Arbitragem e Processo: um comentário à lei nº 9.307/96. 4. ed. Barueri - SP:
Atlas, 2023, p. 29.
18
proferir uma decisão vinculante que resolva o litígio conforme procedimentos neutros e
adjudicatórios, garantindo a cada parte a oportunidade de apresentar sua argumentação7.
Francisco Cahali assevera que, na arbitragem, as partes capazes, de comum acordo,
diante de uma controvérsia, ou por meio de cláusula contratual, estabelecem que um terceiro,
ou colegiado, terá poderes para solucionar o litígio, sem a intervenção do Estado, sendo certo
que a decisão terá a mesma eficácia de uma sentença judicial8.
A arbitragem, segundo Charles Jarroson, é “a instituição pela qual um terceiro decide
o litígio que opõe duas ou mais partes, exercendo a missão jurisdicional que lhe foi conferida
por elas”9.
Como ensina Selma Lemes: “[o] Direito da Arbitragem é um direito em formação e ser
fiel às suas origens históricas, aos seus princípios e conceitos jurídicos é que lhe propiciará
vida longa, unidade, coerência e segurança jurídica” 10 , sendo certo que a arbitragem
“constitui um microssistema com princípios e conceitos próprios que lhe dá unidade e
coerência”.11
É sob esse conceito que se passa, nos próximas capítulos, será desenvolvida a
dissertação.
A arbitragem não é uma novidade, mas sim um meio muito antigo de solução de
litígios, existente desde tempos imemoriais. Não obstante essa circunstância, o estudo da
7
No original: “There is general agreement on what the term ‘arbitration’ means. With some variations,
virtually all authorities accept that arbitration is - and only is - a process by which parties consensually
submit a dispute to a non governmental decision-maker, selected by or for the parties, to render a binding
decision resolving a dispute in accordance with neutral, adjudicatory procedures affording each party an
opportunity to present its case.” BORN. Gary B. International Arbitration. Law and Practice. Second
Edition. Haia: Kluwer Lae International, 2016. p. 2.
8
CAHALI, Francisco José. Curso de arbitragem : mediação : conciliação : resolução CNJ 125/2010. 5ª ed.
revista e atualizada, de acordo com a Lei nº 13.129/2015 (Reforma da Lei de Arbitragem), com a Lei
13.140/2015 (Marco Legal da Mediação) e o Novo CPC. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015.
p. 115.
9
JARROSSON, Charles. La notion d´arbitrage. Paris: Dalloz, 1987. p. 327.
10
LEMES, Selma M. Ferreira. A importância e a origem do princípio da competência–competência para a
consolidação da arbitragem e a jurisprudência brasileira. In: Revista Internacional de Arbitragem e
Conciliação, Coimbra: Edições Almedina, v. XXII, jul./set. 2024, p. 34.
11
LEMES, Selma M. Ferreira. A importância e a origem do princípio da competência–competência para a
consolidação da arbitragem e a jurisprudência brasileira. In: Revista Internacional de Arbitragem e
Conciliação, Coimbra: Edições Almedina, v. XXII, jul./set. 2024, p. 9.
19
história da arbitragem revela que não foram objeto de preocupação os poderes executórios
do árbitro, aqui compreendido como a atividade cognitiva sobre a atuação prática do direito,
além de qualquer provimento jurisdicional do árbitro capaz de atingir o resultado prático
desejado independentemente de atos de invasão da esfera patrimonial do devedor12. Não à
toa, Lord Mustill adverte que “a arbitragem tem um longo passado, porém quase nenhuma
história”13.
Seja como for, por volta do ano 500 a.C., o pensamento grego teve papel essencial para
o estudo da arbitragem. Naquela época, Atenas enfrentava os efeitos de diversos conflitos
armados ocorridos ao longo do século anterior, período em que alcançou o auge de sua
influência política e militar. Tanto a mitologia quanto a narrativa histórica da Grécia antiga
oferecem inúmeros exemplos da utilização da arbitragem e da mediação como mecanismos
para resolver disputas14.
Era comum, dentro da lógica politeísta grega — derivada do termo pan (tudo) e theós
(deus) —, que divindades atuassem como figuras conciliadoras, promovendo a aproximação
entre os povos. Nessas circunstâncias, buscava-se, inicialmente, a mediação como meio de
pacificação; contudo, quando essa alternativa se mostrava ineficaz, especialmente em
controvérsias territoriais entre as Cidades-Estado, recorria-se à arbitragem como forma
definitiva de resolução do impasse.
Na Grécia antiga, os gregos tinham à sua disposição, então, os diaitetai, que eram os
árbitros públicos para litígios privados, sendo certo que os “juízes arbitrais” eram escolhidos
pelas partes e poderiam ser tanto um rei, um magistrado, um homem público qualquer; por
vezes aparecem instituições religiosas como o Conselho Anfictônico ou Oráculos de
Delfos15.
Corroborando os relatos de utilização da arbitragem na Grécia antiga, José Cretella
Neto, assevera que “a mais antiga arbitragem teria ocorrido entre Messenia e Esparta, em
12
CHACUR DE MIRANDA, Daniel. Poderes executórios do árbitro. São Paulo: Quartier Latin, 2025. p. 31.
13
MUSTILL, Michael. Arbitration: history and background. In: Journal of International Arbitration, volume
6, issue 2, Kluwer Law International, 1989, p. 44.
14
MORAIS, José Luiz Bolzan de. Mediação e Arbitragem: Alternativas à Jurisdição. 2ª Edição. Porto Alegre:
Livraria do Advogado, 2008. p. 168.
15
CAHALI, Francisco José. Curso de arbitragem : mediação : conciliação : resolução CNJ 125/2010. 5ª ed.
revista e atualizada, de acordo com a Lei nº 13.129/2015 (Reforma da Lei de Arbitragem), com a Lei
13.140/2015 (Marco Legal da Mediação) e o Novo CPC. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015.
p. 35.
20
740 a.C.”16. Aristóteles ratifica a existência da figura do árbitro na Grécia antiga, em sua
obra “Arte retórica e arte poética”, na qual compara um árbitro e um juiz17.
Na Roma Antiga, a arbitragem assumiu estrutura jurídica específica, em razão da
técnica jurisprudencial e da política pretoriana do período clássico18 e que possui especial
relevo para a história dos poderes executórios do árbitro.
A jurisprudência romana criou o “compromissum” formada por recíprocas
“stipulationes poenae”, pelas quais as partes em conflito prometiam pagar uma determinada
pena pecuniária, na hipótese de uma delas desrespeitar ou ignorar a decisão proferida pelo
árbitro escolhido.
Pelo “compromissum”, o direito romano provia uma solução indireta à execução da
sentença. Não se executava a decisão do árbitro, mas, por meio da aplicação da pena
compromissada, obrigavam-se as partes a respeitá-la. Além disso, funcionava como
instrumento para garantia de que a sentença viria a ser proferida, pois estabelecia parâmetros
à lealdade das partes19.
Os poderes do árbitro eram fixados no compromisso, que servia como a fórmula do
pretor ao juiz. O árbitro devia conservar a liberdade de julgar conforme sua consciência. As
partes não podiam impor que decidisse em um sentido determinado (ut certam sententiam
dicat). Pode-se dizer, assim, que o compromisso regulava toda a parte externa da arbitragem,
mas deve deixar livre seu lado interno, ou seja, o conteúdo da sentença20.
16
CRETELLA NETO, José. Curso de arbitragem: arbitragem comercial, arbitragem internacional, Lei
brasileira de arbitragem, Instituições internacionais de arbitragem, Convenções internacionais sobre
arbitragem. Rio de Janeiro: Forense, 2004. p. 6
17
“É ainda suportar a injustiça que nos fere, preferir resolver uma desavença amigavelmente a apresentar uma
ação no tribunal; recorrer a uma arbitragem mais do que a um processo, porque o árbitro considera a
equidade e o juiz a lei.” ARISTÓTELES. Arte retórica e arte poética. Tradução de Antônio Pinto de
Carvalho; introdução e notas de Jean Voilquin e Jean Capelle; estudo introdutório de Goffredo Telles Júnior.
17. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005. p. 82.
18
PARICIO, Javier. CREMADES, Ignacio. La responsabilidade del juez em el derecho romano clássico,
AHDE 54 (1954). p. 179/208.
19
COSTA, Gabriel José Bernardi. Arbitragem: origens romanas. 1ª ed. São Paulo: YK Editora, 2022. p. 6/7.
20
VALLE, Martin Della. Da Decisão por Equidade na Arbitragem Comercial Internacional. [Tese de
Doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Direito da Universidade de São
Paulo, sob a orientação do Prof. Dr. Luiz Olavo Baptista]. USP, São Paulo, 2009. p. 25.
21
21
VALLE, Martin Della. Da Decisão por Equidade na Arbitragem Comercial Internacional. [Tese de
Doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Direito da Universidade de São
Paulo, sob a orientação do Prof. Dr. Luiz Olavo Baptista]. USP, São Paulo, 2009. p. 26.
22
SOARES. Guido Fernando Silva. Arbitragem internacional (introdução histórica). In: FRANÇA, Rubens
Limongi (coord.). Enciclopédia saraiva de direito: verbete. São Paulo: Saraiva, 1978. Vol. 7. p. 377-378.
23
CAHALI, Francisco José. Curso de arbitragem : mediação : conciliação : resolução CNJ 125/2010. 5ª ed.
revista e atualizada, de acordo com a Lei nº 13.129/2015 (Reforma da Lei de Arbitragem), com a Lei
13.140/2015 (Marco Legal da Mediação) e o Novo CPC. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015.
p. 36.
22
Como efeito, atualmente, o Brasil é amplamente reconhecido como um país com uma
jurisdição favorável ao instituto da arbitragem. De fato, a arbitragem é identificada no
sistema jurídico brasileiro desde a época em que o Brasil era colonizado por Portugal24.
As Ordenações Filipinas, em seu Livro III, Título XVI, já previa que as partes deveriam
aceitar e se submeter à decisão proferida pelos árbitros, comprometendo-se a não recorrer de
sua determinação25. No aludido dispositivo, portanto, já havia previsão da irrecorribilidade
das decisões proferidas pelos árbitros, bem como a ausência de necessidade de homologação
da decisão arbitral pelo juiz estatal para adquirirem força executória.
A Constituição do Império, promulgada em 1824, logo após a independência do reino
de Portugal, prestigiou o instituto da arbitragem, ao permitir que as partes, em causas cíveis
e nas penas civilmente intentadas, escolhessem juízes-árbitros, cujas decisões seriam
executadas sem possibilidade de recurso, se as partes assim convencionassem26.
O Código Comercial brasileiro, editado em 1850, deu ainda mais notoriedade ao
instituto da arbitragem, ao estabelecer a sua obrigatoriedade para solucionar litígios
decorrentes de contratos de locação mercantil (art. 24527) e também as questões societárias
controvertidas (art. 29428).
Em 1867, foi editado o Decreto 3.900, que regulava o Juízo Arbitral do Commercio,
que mencionava, inclusive, a possibilidade de julgar por equidade quando autorizado pelas
24
DELGADO, José Augusto. A Arbitragem no Brasil: Evolução Histórica e Conceitual. In: Revista de Direito
Renovar, n.17, p.1-24, maio/ago. 2000. p. 6-7.
25
“Título XVI. Dos Juízes árbitros. Posto que as partes comprometam em algum Juiz, ou Juizes árbitros, e se
obriguem no compromisso star por sua determinação e sentença, e que dela não possam appellar, nem
agravar, e o que o contrario fizer pague à outra parte certa pena, e ainda que no compromisso se diga, que
paga a pena, ou não paga, fique sempre a sentença dos árbitros firme e valiosa; poderá a parte, que se
sentir agravada, sem embargo de tudo isto, appellar de sua sentença para os superiores, sem pagar a dita
pena; e se os árbitros lhe denegarem a appellação, façam-lha dar os Juízes ordinários. Porém, se os Juizes
da appellação confirmarem a sentença dos árbitros, de que for appellado, pagará o appellante ao vencedor
a pena conteúda no compromisso, que não se póde escusar de a pagar, pois prometeu não vir contra a
sentença, e he achado que instamente dela appellou. E posto que as partes renunciem o beneficio desta Lei,
tal renunciação será de nenhum efeito.”. Disponível em:
<[Link] Acesso em 12.02.2025.
26
“Art. 160. Nas civeis, e nas penaes civilmente intentadas, poderão as Partes nomear Juizes Arbitros. Suas
Sentenças serão executadas sem recurso, se assim o convencionarem as mesmas Partes.” Disponível em:
<[Link] Acesso em 12.02.2025.
27
“Art. 245. Todas as questões que resultarem de contratos de locação mercantil serão decididas em juízo
arbitral.”
28
“Art. 294. Todas as questões sociais que se suscitarem entre sócios durante a existência de sociedade ou
companhia, sua liquidação ou partilha, serão decididas em juízo arbitral”.
23
partes (art. 4629) e tinha a preocupação de definir o conceito de equidade no art. 47 30, que
seria o poder de julgar independente de regras formais do direito.
A Constituição de 1891, por sua vez, não homenageou o instituto da arbitragem,
sobretudo por opção do constituinte, que atribuiu aos Estados da federação recém-criada a
competência para legislar sobre matéria processual31.
Somente em 1916, com Código Civil de Beviláqua, a arbitragem voltou a ter
regulamentação de âmbito federal. O capítulo X do aludido Código foi denominado “Do
compromisso” e permitiu as partes pudessem, mediante compromisso escrito, nomear
árbitros para solução de litígios judiciais e extrajudiciais. Um compromisso arbitral poderia
ser celebrado no curso de uma ação judicial, via protocolo judicial ou em um documento
público ou privado, assinado pelas partes e por duas testemunhas (art. 1.038, CC/16 32 ),
devendo prever uma descrição do objeto do litígio, bem como designar os árbitros e seus
substitutos33. O Código Beviláqua, contudo, fez a ressalva de que a sentença só poderia ser
executada depois de homologada34.
A necessidade de homologação da sentença arbitral por um juiz estatal se coaduna com
a concepção clássica de jurisdição, que sempre era exercida pelo poder estatal, através de
29
“Art. 46. Os árbitros julgarão de fato e de direito conforme a lei, e as cláusulas do compromisso; salvo se
no compromisso (art. 10, § 4.º) as partes os autorizarem para julgar por eqüidade, independentemente das
regras e formas do direito.“
30
“Art. 47. Quando os árbitros tiverem poderes para julgar por eqüidade, independentemente das regras
formais do direito, poderão prescindir do processo estabelecido nos artigos antecedentes, e darão a sua
decisão ouvindo verbal e sumariamente as partes e testemunhas; reduzindo a termo os depoimentos das
testemunhas, e admitindo os memoriais que as partes oferecerem.”
31
RANZOLIN, Ricardo Borges. Controle judicial da arbitragem. Rio de Janeiro: GZ Editora, 2011. p. 23.
32
“Art. 1.038. O compromisso é judicial ou extrajudicial. O primeiro pode celebrar-se por termo nos autos,
perante o juízo ou tribunal, por onde correr a demanda; o segundo, por instrumento público ou particular,
assinado pelas partes e duas testemunhas.”
33
SAMTLEBEN, Jürgen. Arbitration in Brazil. Miami: University of Mimi Inter-American Law Review,
1986. Pág. 8-9. Disponível em:
<[Link] Acesso em
13.09.2025.
34
Art. 1.045. A sentença arbitral só se executará, depois de homologada, salvo se for proferida por juiz de
primeira ou segunda instancia, como arbitro nomeado pelas partes.
24
juízes 35 . Assim, durante essa época, a arbitragem tinha uma natureza contratual, não se
confundindo com a natureza da jurisdição exercida exclusivamente pelo Estado36.
A Constituição de 1934, em seu art. 5º, § 3º, voltou a fazer alusão à arbitragem, ao
estabelecer a competência federal para legislar sobre a matéria37.
Contudo, em que pese estar inserida na legislação, a arbitragem não se consolidou
como uma opção viável e nem preferível nos contratos celebrados no mercado brasileiro à
época38.
O próprio Código de Processo Civil de 1973 foi parcimonioso em conferir maiores
poderes ao árbitro. Talvez pelo apego à ideia de que a jurisdição sempre deve ser exercida
por membro do Poder Judiciário ou, ainda, pelo receio de que uma decisão arbitral
estrangeira pudesse constranger o país frente a credores internacionais.39
Com o advento da Carta Constitucional de 1988, a arbitragem surgiu tal como é
compreendido e utilizado atualmente, indicando que litígios de natureza trabalhistas
poderiam ser solucionados por meio do instituto40.
35
“Há por isso um ramo do direito destinado precisamente à tarefa de garantir a eficácia prática do
ordenamento jurídico, instituindo órgãos públicos com a incumbência de atuar essa garantia e
disciplinando as modalidades e formas da sua atividade. Esses são os órgãos judiciários e a sua atividade
chama-se, desde os tempos imemoriais, jurisdição (iurisdictio); as pessoas que exercem a jurisdição
chamam-se juízes e formam, em seu conjunto, a Magistratura (Const., arts. 101, 102 e 104); sua atividade
desenvolve-se em direção dupla, através da cognição [giudizio] e da execução forçada.” LIEBMAN.
Enrico Tullio. Manual de Direito Processual Civil. Tradução e notas de Cândido Rangel Dinamarco. 3ª
edição. Ed. Malheiros: São Paulo, 2005. p. 20.
36
GIUSTI, Gilberto. O Árbitro e o juiz: da função jurisdicional do árbitro e do juiz. In Revista Brasileira de
Arbitragem, Comitê Brasileiro de Arbitragem, vol. II, issue 5, 2005, p. 8.
37
Art. 5º Compete privativamente á União: (...) XIX, legislar sobre: (...) c) normas, fundamentaes do direito
rural, do regime penitenciario, da arbitragem commercial, da assistencia social, da assistencia judiciaria e
das estatisticas de interesse collectivo;
(...)
§ 3º A competencia federal para legislar sobre as materias dos ns. XIV e XIX letras c e i, in fine, e sobre
registos publicos, desapropriações, arbitragem commercial, juntas commerciaes e respectivos processos;
requisições civis e militares, radio-communicação, emigração, immigração e caixas economicas; riquezas
do sub-solo, mineração, metallurgia, aguas, energia hydro-electrica, florestas, caça e pesca e a sua
exploração, não exclue a legislação estadual suppletiva ou complementar sobre as mesmas materias. As leis
estaduaes, nestes casos, poderão, attendendo ás peculiaridades locaes, supprir as lacunas ou deficiencias da
legislação federal, sem dispensar as exigencias desta.
38
FINKELSTEIN, Cláudio. Arbitragem no Brasil: Evolução Histórica. Disponível em
<[Link] Acesso em 19.02.2025.
39
SHIMURA, Sergio. Título executivo. São Paulo: Saraiva, 1997. p. 233
40
“Art. 114. Compete à Justiça do Trabalho processar e julgar:
(...)
§ 1º Frustrada a negociação coletiva, as partes poderão eleger árbitros.
25
No fim do ano de 1991, capitaneado pelo Instituto Liberal de Pernambuco, com apoio,
desde logo, pela Associação Comercial de São Paulo e promovida Associação dos
Advogados de Empresas de Pernambuco foi iniciada a denominada Operação Arbiter, cujo
objeto era discutir o instituto da arbitragem, que estava praticamente em desuso, através da
elaboração de anteprojeto de lei. O anteprojeto, elaborado por Selma Lemes, Pedro Batista
Martins e Carlos Alberto Carmona, foi apresentado em reunião realizada em 09.12.1991.
Após a incorporação de sugestões, a versão final do anteprojeto foi apresentada no Seminário
Nacional sobre Arbitragem Comercial, realizado em Curitiba, PR, em 27.04.199241.
Mas foi em 1996, com a promulgação da Lei nº 9.307/1996 (“Lei Brasileira de
Arbitragem”) é que o instituto começou a ser objeto de discussões mais profundas, tanto no
âmbito acadêmico, quanto no âmbito profissional. A Lei nº 9.307/1996 estabeleceu, no que
é relevantíssimo para esta dissertação, que a sentença arbitral se equiparava à sentença
judicial, sendo desnecessária, pois, a sua homologação por um juiz estatal. A toda evidência,
a sentença arbitral, uma vez proferida, produzia os mesmos efeitos de uma sentença judicial,
prevendo, ainda, cooperação e colaboração entre os árbitros e juízes estatais.
§ 2º Recusando-se qualquer das partes à negociação ou à arbitragem, é facultado aos respectivos sindicatos
ajuizar dissídio coletivo, podendo a Justiça do Trabalho estabelecer normas e condições, respeitadas as
disposições convencionais e legais mínimas de proteção ao trabalho.”
41
CARMONA. Carlos Alberto. Arbitragem e processo. 4ª ed. Barueri [SP]: Atlas, 2023. p. 8/9.
26
42
BEDAQUE, José Roberto dos Santos. Breves notas sobre jurisdição e ação. In: 40 anos da teoria geral do
processo no Brasil. Passado, presente e futuro. Org. Camilo Zufelato e Flavio Luiz Yarshell. São Paulo:
Ed. Malheiros, 2013. p. 537.
43
LIEBMAN, Enrico Tullio. Manual de direito processual civil. 3ª edição. Vol. I. Tradução e notas de
Candido Rangel Dinamarco. São Paulo: Malheiros, 2005. p. 19.
44
DINAMARCO, Candido Rangel. Fundamentos do processo civil moderno. 2ª Edição. São Paulo: Editora
Revista dos Tribunais, 1987. p. 77.
27
45
AURELLI, Arlete Inês. Função social da jurisdição. In: 40 anos da teoria geral do processo no Brasil.
Passado, presente e futuro. Org. Camilo Zufelato e Flavio Luiz Yarshell. São Paulo: Ed. Malheiros, 2013.
p. 124/146.
46
SILVA, Ovídio A. Baptista da. Gomes, Fabio. Teoria geral do processo civil. 2ª ed. rev. e atual. São Paulo:
Editora Revista dos Tribunais, 2000. p. 67.
47
PASSOS, José Joaquim Calmon de. Da jurisdição. 2ª ed. rev. e atual. São Paulo: Editora JusPodivm, 2025.
p. 116.
48
LIEBMAN, Enrico Tullio. Manual de Direito Processual Civil. Vol. I. Tradução de Cândido Rangel
Dinamarco. 3ª Edição. São Paulo: Malheiros, 2005. p. 55.
49
REZENDE FILHO, Gabriel José Rodrigues de. Curso de direito processual civil. Vol. I. 4ª ed. São Paulo:
Saraiva, 1954. p. 19.
50
DIDIER, Jr., Fredie. Teoria geral do processo, essa desconhecida. 5ª ed. Salvador: Juspodivm, 2020. p. 80.
28
Dinamarco, com extrema precisão, conceitua a teoria geral do processo como “um
sistema de conceitos e princípios elevados ao grau máximo de generalização útil e
condensados indutivamente a partir do confronto dos diversos ramos do direito
processual”51.
Em suma, a teoria geral do processo objetiva a condensação de conceitos, princípios e
institutos comuns e que servem de base para os diversos ramos do direito processual. José
Frederico Marques destaca a importância do estudo de uma teoria geral do processo:
No Brasil, a teoria geral do processo foi desenvolvida a partir do estudo dos seus
institutos fundamentais, quais sejam jurisdição, ação, defesa e processo. Esses institutos
foram estudados, nessa mesma ordem, com mais nitidez por Eduardo Couture em obra
51
DINAMARCO, Candido Rangel. A instrumentalidade do processo. 15ª ed. rev. e atual. São Paulo:
Malheiros, 2013.
52
MARQUES, José Frederico. Instituições de direito processual civil. Vol. 1. Campinas: Millennium, 2000.
P. 27/28.
29
clássica53. Atualmente, além da jurisdição, ação, defesa e processo, há, na doutrina, quem
acrescente ao rol de institutos fundamentais do processo a tutela jurisdicional, a demanda e
a cognição judicial54.
Assim que começou a se a desenvolver, no Brasil, o estudo mais aprofundado da teoria
geral do processo, o grande desafio foi unificar foi o de unificar o processo civil e o processo
penal. Posteriormente, incluíram, no estudo da teoria geral do processo, os processos
trabalhista, eleitoral e militar55. Floriano Azevedo Marques Neto, inclusive, sustenta que
outras modalidades de processos não-jurisdicionais deveriam ser objeto de estudo na teoria
geral do processo, como é o caso do procedimento administrativo, o processo legislativo e
os processos perante associações civis e partidos políticos56.
Logo, se é admitido o estudo de processos não-jurisdicionais à luz do da teoria geral
do processo, não qualquer razão para se excluir a arbitragem do âmbito desta teoria, já que,
na arbitragem, há um processo e através dele é exercida a jurisdição57.
A etimologia da palavra jurisdição – jurisdictio, em latim – já lhe revela o conteúdo.
A palavra é formada pela aglutinação de duas outras: juris, genitivo singular da 3ª declinação,
significando do direito, e dictio, nominativo singular da mesma declinação, isto é, dicção, ou
dição, ato de dizer. Nisto consiste, essencialmente, a jurisdição: dizer o direito, no sentido de
identificar a norma de direito objetivo preexistente (ou elaborá-la, se inexistente) e de fazê-
53
“Não constitui novidade a conclusão que vem de ser alcançada, indicando jurisdição, ação, defesa e processo
como institutos situados a esse nível. Existe mesmo, em doutrina, uma acentuada tendência a considerá-los
assim, inclusive (em algumas obras) para o fim de distribuição sistemática da exposição da disciplina. A
meu ver, a colocação mais nítida nesse sentido ainda é a de Eduardo Couture, cuja obra clássica estuda,
nessa ordem, os quatro institutos básicos. Seu plano de trabalho serviu de modelo ao livro diático (Teoria
geral do processo) de cuja elaboração participei, em cooperação com os colegas na docência do direito
processual no Largo de São Francisco, Ada P. Grinover e Araújo Cintra. Tal é realmente a orientação mais
moderna.” (DINAMARCO, Candido Rangel. Fundamentos do processo civil moderno. 2ª ed. São Paulo,
Editora Revista dos Tribunais, 1987, p. 730)
54
Nesse sentido: SICA. Heitor Vitor Mendonça. Velhos e novos institutos fundamentais do direito processual
civil. In: 40 anos da teoria geral do processo no Brasil. Passado, presente e futuro. Org. Camilo Zufelato
e Flavio Luiz Yarshell. São Paulo: Ed. Malheiros, 2013. p. 430/466.
55
SICA, Heitor Vitor Mendonça. Perspectivas atuais da teoria geral do processo. In: Bases científicas para
um renovado direito processual. Org. Athos Gusmão Carneiro e Petrônio Calmon. 2ª edição. Salvador,
Juspodivm, 2008. p. 67.
56
MARQUES NETO, Floriano Peixoto de Azevedo. Ensaio sobre o processo como disciplina do exercício
da atividade estatal. In: Teoria do processo: panorama doutrinário mundial. Coord. Eduardo Ferreira
Jordão e Fredie Souza Didier Jr. Salvador, Juspodivm, 2007. P. 266/268.
57
CHACUR DE MIRANDA, Daniel. Poderes executórios do árbitro. São Paulo: Quartier Latin, 2025. p.
152.
30
la atuar numa determinada situação58. Não é por outra razão que José Frederico Marques
conceitua jurisdição como sendo “a aplicação do direito objetivo em relação a uma
pretensão”59 e, mais a frente, estabelece, como escopo da jurisdição, é tornar efetiva a ordem
jurídica e impor, através dos órgãos estatais do Poder Judiciário, “a regra jurídica concreta
que, por força do direito vigente, deve regular determinada situação jurídica”60.
Chiovenda, por sua vez, define jurisdição como
58
BERMUDES, Sergio. Introdução ao processo civil. Revista e atualizada. Rio de Janeiro: Forense, 2006. p.
19.
59
MARQUES, José Frederico. Instituições de direito processual civil. Vol. 1. Campinas: Millennium, 2000.
P. 258.
60
MARQUES, José Frederico. Instituições de direito processual civil. Vol. 1. Campinas: Millennium, 2000.
P. 261.
61
CHIOVENDA, Giuseppe. Instituições de direito processual civil. Vol. 2, 2ªed., Bookseller: Campinas,
2000. p. 8.
62
MARINONI, Luiz Guilherme. Rápidas observações sobre arbitragem e jurisdição. Disponível em
<chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/[Link]
content/uploads/2010/09/arbitragem-e-jurisdicao_marinoni.pdf>. Acesso em 20/09/2025. p. 16.
63
MARINONI, Luiz Guilherme. Rápidas observações sobre arbitragem e jurisdição. Disponível em
<chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/[Link]
content/uploads/2010/09/arbitragem-e-jurisdicao_marinoni.pdf>. Acesso em 20/09/2025. p. 17.
31
produzidos pela sentença arbitral, que, a partir da edição dessa lei não mais necessitaria de
homologação por um juiz. Confira-se:
64
CARMONA, Carlos Alberto. A arbitragem no Brasil: em busca de uma nova lei. In: WALD, Arnoldo
(Org.). Doutrinas Essenciais: Arbitragem e Mediação. São Paulo: Revista dos Tribunais, ano 1, v. 1, p. 305,
ago. 2014 - texto original publicado na RePro 72/53 – out. 1993.
65
CARREIRA ALVIM, José Eduardo. Direito arbitral. [Link]. Rio de Janeiro: Forense, 2007, p. 250.
32
66
GRINOVER, Ada Pellegrini. Ensaio sobre a processualidade: fundamentos para uma nova teoria geral do
processo. Brasília: Gazeta Jurídica, 2016. P. 18/20.
67
NASCIMBENI, Asdrubal Franco. Cumprimento das decisões arbitrais: estudos para aprimoramento do
sistema. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2019. p. 93.
68
Art. 18. O árbitro é juiz de fato e de direito, e a sentença que proferir não fica sujeita a recurso ou a
homologação pelo Poder Judiciário.
33
69
CAHALI, Francisco José. Curso de arbitragem : mediação : conciliação : resolução CNJ 125/2010. 5ª ed.
revista e atualizada, de acordo com a Lei nº 13.129/2015 (Reforma da Lei de Arbitragem), com a Lei
13.140/2015 (Marco Legal da Mediação) e o Novo CPC. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015.
p. 124.
70
Art. 3º Não se excluirá da apreciação jurisdicional ameaça ou lesão a direito.
§ 1º É permitida a arbitragem, na forma da lei.
71
CAHALI, Francisco José. Curso de arbitragem : mediação : conciliação : resolução CNJ 125/2010. 5ª ed.
revista e atualizada, de acordo com a Lei nº 13.129/2015 (Reforma da Lei de Arbitragem), com a Lei
13.140/2015 (Marco Legal da Mediação) e o Novo CPC. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015.
p. 128/129.
72
DINAMARCO, Cândido Rangel. A arbitragem na teoria geral do processo. São Paulo: Malheiros, 2013.
p. 15.
34
seja, as partes atribuem, de forma livre e consciente, autoridade ao árbitro para a solucionar
do conflito existente73.
Nesse mesmo sentido, o próprio Dinamarco alerta que “essa inserção proposta pelo
legislador não significa equiparar o processo arbitral ao processo estatal, desconsiderando o
seu espírito diferenciado ou as peculiaridades dos modos pelos quais nessa sede se exerce a
jurisdição”74.
É inegável, portanto, a natureza jurisdicional da arbitragem, o que não permite que ela
seja estudada de forma isolada do sistema processual civil. Dessa forma, os conceitos
lógicos-jurídicos processuais, abrangidos pela teoria geral do processo, bem como as regras
processuais fundamentais, previstas no Código de Processo Civil, podem ser aplicados ao
processo arbitral de forma subsidiária e excepcional, respeitadas, sempre, as peculiaridades
da arbitragem e a compatibilidade entre as normas processuais e as características específicas
do processo arbitral75.
73
CAHALI, Francisco José. Curso de arbitragem : mediação : conciliação : resolução CNJ 125/2010. 5ª ed.
revista e atualizada, de acordo com a Lei nº 13.129/2015 (Reforma da Lei de Arbitragem), com a Lei
13.140/2015 (Marco Legal da Mediação) e o Novo CPC. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015.
p. 129.
74
DINAMARCO, Cândido Rangel. O processo arbitral. 2ª edição. Curitiba: Editora Direito Contemporâneo,
2022, p. 20.
75
CHACUR DE MIRANDA, Daniel. Poderes executórios do árbitro. São Paulo: Quartier Latin, 2025. p.
153.
35
efetiva tutela dos direitos materiais. Essa evolução encontra respaldo nos princípios
constitucionais do devido processo legal (art. 5º, LIV, CF), do contraditório e da ampla
defesa (art. 5º, LV, CF) e da inafastabilidade da jurisdição (art. 5º, XXXV, CF), que impõem
ao Judiciário o dever de prestar uma tutela justa, tempestiva e eficaz.
Nesse novo enfoque, a tutela jurisdicional não se limita à mera entrega da sentença
como ato final. Busca-se uma tutela plena e efetiva, que “vai além deste ato final e permeia
todo o processo”, garantindo às partes e a eventuais terceiros igualdade de oportunidades de
participação, produção de provas e manifestação sobre os atos processuais. Essa concepção
reflete o chamado processo cooperativo ou participativo, no qual o juiz, as partes e os
auxiliares da justiça atuam de forma colaborativa para a construção da decisão, respeitando
os direitos fundamentais processuais e evitando desequilíbrios que possam comprometer a
legitimidade do resultado.
Ademais, a tutela jurisdicional contemporânea deve visar não apenas à justiça formal,
mas também à justiça substancial da decisão, de modo que o provimento jurisdicional seja
capaz de satisfazer concretamente o direito reconhecido, garantindo a sua realização prática.
Daí decorre a valorização dos mecanismos de efetividade processual, como as tutelas
provisórias, as técnicas de execução atípica e os meios de coerção indireta, que permitem ao
juiz adaptar os instrumentos processuais à finalidade de entregar uma proteção jurisdicional
útil e tempestiva.
Portanto, o sistema processual contemporâneo transcende a ideia de processo como
mero caminho para uma sentença. Ele se estrutura como um instrumento de realização da
justiça, que deve propiciar participação isonômica, respeito às garantias fundamentais e
efetividade do direito material reconhecido, atendendo não só ao interesse das partes, mas
também ao ideal de pacificação social com justiça. Essa mudança de perspectiva representa
um dos pilares do neoprocessualismo e da constitucionalização do processo, que orientam o
modelo processual brasileiro atual.
A doutrina processualista clássica classificou as tutelas jurisdicionais a partir das ações
de conhecimento (visando solucionar uma relação jurídica de direito material controvertida),
de execução (com o objetivo de satisfazer uma obrigação) e cautelar (para a hipótese de ser
36
76
CINTRA. Antônio Carlos de Araújo. GRINOVER, Ada Pellegrini. DINAMARCO, Cândido Rangel. Teoria
Geral do Processo. 16ª edição. São Paulo: Malheiros, 2001. p. 264/265.
77
MARINONI, Luiz Guilherme; ARENHART, Sérgio Cruz; MITIDIERO, Daniel. O novo processo civil -
atualizado com a Lei n. 13.256/2016. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2017. p. 53-55.
37
Assim, serão analisadas, a seguir, cada uma das espécies de tutelas acima mencionadas,
em detalhes.
A tutela de conhecimento (ou cognitiva) tem por objetivo dizer o direito aplicável ao
caso concreto (juris dictio), produzindo decisão com eficácia de coisa julgada material (arts.
487 e 502 do CPC). Na tutela de conhecimento, há um procedimento que assegura às partes
contraditório pleno, produção de provas e ampla defesa, culminando com a sentença de
mérito.
Kazuo Watanabe leciona que cognição é prevalentemente um ato de inteligência,
consistente em considerar, analisar e valorar as alegações e as provas produzidas pelas partes,
vale dizer, as questões de fato e as de direito que são deduzidas no processo e cujo resultado
é o alicerce, o fundamento do judicium, do julgamento do objeto litigioso do processo78.
Ela pode apresentar-se sob diversas formas (declaratória, constitutiva, condenatória,
mandamental e executiva lato sensu), mas sempre pressupõe a atividade cognitiva do juiz,
destinada a definir a existência e o conteúdo do direito.
78
WATANABE. Kazuo. Da cognição no processo civil. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 1987. p.
41.
38
Sob o Código de Processo Civil de 1973, a tutela cautelar era tratada como uma espécie
autônoma de tutela jurisdicional, com procedimento próprio. Seu objetivo era assegurar a
utilidade do processo principal, preservando o resultado útil da futura tutela definitiva.
O CPC/2015, porém, reformulou a sistemática, e a tutela cautelar deixou de ser uma
categoria autônoma para integrar o gênero tutela provisória (arts. 294 a 311). Assim, o
sistema atual prevê duas espécies de tutela provisória: (i) a tutela de urgência, que se
subdivide em cautelar e antecipada; e, ainda, (ii) a tutela de evidência.
A tutela cautelar, agora como espécie de tutela provisória de urgência, visa apenas
proteger o resultado útil do processo, sem satisfazer diretamente o direito material, sendo
concedida quando houver probabilidade do direito e perigo de dano ou risco ao resultado útil
79
GRECO, Leonardo. Instituições de Processo Civil. vol. I, 4ªed. Rio de Janeiro: Forense, 2013. p. 73.
80
WATANABE. Kazuo. Da cognição no processo civil. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 1987. p.
28.
39
do processo (art. 300). Pode ser requerida em caráter antecedente ou incidental (arts. 305 e
294, parágrafo único).
Sua principal função é estabilizar a situação fática e jurídica enquanto se desenvolve a
atividade cognitiva ou executiva, evitando que a demora processual frustre a efetividade da
tutela jurisdicional definitiva.
Afinal de contas, o que justifica a concessão da tutela cautelar, ao lado da probabilidade
do direito, é o temor de que ao final, quando da sentença de mérito, não haja mais
possibilidade de realização do direito81.
Ovídio A. Baptista da Silva leciona que a tutela cautelar é uma “forma essencialmente
preventiva de proteção jurisdicional, destinada a preservar a incolumidade dos direitos ou
de algum interesse legítimo, ante uma situação de emergência que os coloque em posição
de risco iminente de periclitação”82.
A classificação das tutelas jurisdicionais em conhecimento, execução e cautelar
(provisória) permite compreender a estrutura funcional do processo civil brasileiro
contemporâneo, que não se limita à simples declaração do direito, mas também busca
assegurar e satisfazer o direito material em tempo útil.
A reforma introduzida pelo Código de Processo Civil de 2015, ao inserir a tutela
cautelar no gênero tutela provisória, reflete a preocupação com a efetividade e celeridade da
tutela jurisdicional, ao possibilitar medidas urgentes mais flexíveis e adequadas às
necessidades do caso concreto, sem o formalismo excessivo do sistema anterior.
Assim, o atual modelo processual consagra uma jurisdição plena e multifacetada, capaz
de atuar de forma declaratória, satisfativa e preventiva, garantindo ao jurisdicionado não
apenas uma sentença final, mas uma proteção jurisdicional efetiva desde o início até o
cumprimento da decisão.
Essas diferentes formas de tutela possuem especial relevo para o estudo da ciência
processual e, por consequência, para o estudo da do processo arbitral, inclusive pelos reflexos
que produzem.
81
LEONEL, Ricardo de Barros. Teoria geral do processo. São Paulo: Malheiros/Juspodivm, 2023. p. 269.
82
SILVA, Ovídio A. Baptista da. GOMES, Fabio. Teoria Geral do Processo Civil. 2ª edição revista e
atualizada. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2000. p. 339.
40
83
MOREIRA, José Carlos Barbosa. Questões velhas e novas em matéria de classificação das sentenças. In:
Temas de direito processual: oitava série. São Paulo: Saraiva, 2004. pag. 125.
84
CABRAL, Antonio do Passo. Alguns mitos do processo (i): a contribuição da prolusione de Chiovenda em
Bolonha para a teoria da ação. In: Revista do Ministério Público do Rio de Janeiro: MPRJ, n. 51, jan/mar.
2014. p. 3/14.
85
CHIOVENDA, Giuseppe. L’azione nel sistema del diritti, in Saggi di diritto processuale civile. vol. I.
Milão, 1993, p, 96/98, nota 118.
86
Não se julga procedente a ação, mas, sim, o pedido.
41
(...) não há nenhuma ação, nenhuma sentença, que seja pura. Nenhuma é
somente declarativa. Nenhuma é somente constitutiva. Nenhuma é somente
condenatória. Nenhuma é somente mandamental. Nenhuma é somente
executiva”. Assim, para cada espécie de ação, continua, haveria uma carga
maior, a preponderar sobre as demais: “A ação somente é declaratória
porque a sua eficácia maior é a de declarar. Ação declaratória é ação
predominantemente declaratória. [...] A ação somente é constitutiva porque
a sua carga maior é a de constitutividade. Ação constitutiva é ação
predominantemente constitutiva [...]”. E assim por diante segue ele, quanto
às demais ações. A referida tabela, que está à p. 130 da referida obra,
contém pontos que vão de um (menor grau de eficácia contido na sentença)
a cinco (maior grau). Assim, uma sentença condenatória, por exemplo, teria
grau “1” de eficácia mandamental; “2” de eficácia constitutiva; “3” de
executiva; “4” de declarativa e o grau máximo, “5”, quanto à eficácia
condenatória (preponderante, portanto). De tal sorte que, sempre, a soma
do peso dessas eficácias deveria dar o total de 15 “pontos”.88
Feito esse esclarecimento, discorreremos um pouco mais por cada um dos tipos de
tutelas de conhecimento, na lição da doutrina processualística clássica.
87
MOREIRA, José Carlos Barbosa. Questões velhas e novas em matéria de classificação das sentenças. In:
Temas de direito processual: oitava série. São Paulo: Saraiva, 2004. pag. 129.
88
MIRANDA, Francisco Cavalcanti Pontes de. Tratado das ações - Tomo I - Ação, Classificação e Eficácia.
São Paulo: Revista dos Tribunais, 1970. p. 117.
89
BARBI, Celso Agrícola. Ação declaratória principal e incidente. Rio de Janeiro: Forense, 1977. p. 49.
42
90
GONÇALVES, Felipe Oliveira. Ação declaratória de fatos. Rio de Janeiro: Editora Lumem Juris, 2023. p.
13/14.
91
PONTES DE MIRANDA, Francisco Cavalcanti. Tratado das ações. t. II. Campinas: Bookseller, 1998. p.
23.
92
REZENDE FILHO. Gabriel José Rodrigues. Curso de Direito Processual Civil. Vol. I. 4ª ed. São Paulo:
Saraiva, 1954. p. 185.
93
MIRANDA, Francisco Cavalcanti Pontes de. Comentários ao Código de Processo Civil, tomo V: arts.
444 a 475, Rio de Janeiro, Forense, 1997. p. 39.
94
ASSIS, Araken. Manual da execução. 15ª ed. rev. e atual. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2013.
p. 86.
43
posteriores à prolação desse tipo de sentença, na seara arbitral, poderá impactar a eficácia do
referido comando judicial.
Como leciona Pontes de Miranda, quem constitui faz mais do que declarar. Quem
somente declara não constitui. Quem somente declara necessariamente se abstém de
constituir. “Declaração constitutiva” não seria classe de declaração, mas soma de declaração
e constituição. A constitutividade muda em algum ponto, por mínimo que seja, o mundo
jurídico95.
A ação constitutiva, portanto, implica uma alteração/modificação (criação,
modificação ou extinção) da relação jurídica96. Chiovenda leciona que, se a sentença realiza
um dos direitos potestativos que, para ser atuados, requerem o concurso do juiz, a eficácia é
constitutiva97.
As pretensões constitutivas podem ser (i) positivas, quando criam uma nova situação
jurídica; (ii) modificativas, quando alteram o estado jurídico existente; e (iii) negativas,
quando tornam sem efeito, ou cancelam, um estado jurídico anterior.
O exercício do direito de ação, quando deduzido pleito constitutivo, significa colocar
em prática o direito potestativo do autor à alteração postulada. Em outras palavras, uma vez
acolhida sua iniciativa, inevitavelmente isso se traduzirá em modificação, extinção ou
constituição de situação jurídica, independentemente da anuência ou resistência por parte do
demandado98.
Essa eficácia está presente em ações nas quais se postulam certos direitos subjetivos,
como por exemplo, (i) a separação dos cônjuges, haja vista grave infração aos deveres
conjugais que torne insuportável a vida comum (art. 1.572, caput, CC); (ii) a resolução de
negócio jurídico bilateral, em face de inadimplemento imputável a uma das partes (art. 475,
CC); e (iii) a anulação de negócio jurídico, que versou sobre objeto impossível (art. 166, II e
95
MIRANDA, Francisco Cavalcanti Pontes de. Comentários ao Código de Processo Civil, tomo V: arts.
444 a 475, Rio de Janeiro, Forense, 1997. p. 42/43.
96
MEDINA, José Miguel. Execução civil – princípios fundamentais. São Paulo: RT, 2002. p. 135/136.
97
CHIOVENDA, Giuseppe. Instituições de direito processual civil. Vol. 1, 2ªed., Bookseller: Campinas,
2000. p. 54.
98
LEONEL, Ricardo de Barros. Teoria geral do processo. São Paulo: Malheiros/Juspodivm, 2023. p. 259.
44
art. 182, CC). Nessas hipóteses, o efeito principal da sentença de procedência é um estado
jurídico novo. Não é por outra razão que Araken de Assis, citando, Pontes de Miranda, ao
analisar a eficácia constitutiva, assevera que, por mínimo que seja, o mundo jurídico
mudou99.
Desse modo, em relação ao conteúdo, a sentença constitutiva reconhece e efetiva um
direito potestativo – que, por não se relacionar a qualquer prestação do sujeito passivo, não
é posteriormente executado (isto é, não se faz necessária a prática de atos materiais para a
efetivação da prestação). E é assim porque o objetivo do autor consiste na pretensão de
produzir uma mudança jurídica, e não simplesmente fática, motivo pelo qual esta mudança
produz uma satisfação jurídica para o demandante.
Contudo, muitas vezes a eficácia constitutiva necessita de efeitos anexos, sendo preciso
dar publicidade ao novo estado surgido a partir da sua prolação, o que importará, em muitos
casos, a realização de atos práticos a serem realizados por terceiros, como anotações da
própria decisão proferida100.
99
MIRANDA, Francisco Cavalcanti Pontes de. Tratado das ações. t. II. Campinas: Bookseller, 1998. p. 23.
100
NASCIMBENI, Asdrubal Franco. Cumprimento das decisões arbitrais: estudos para aprimoramento do
sistema. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2019. p. 268.
101
BUENO. Cassio Scarpinella. Cumprimento da sentença e processo de execução: ensaio sobre o
cumprimento das sentenças condenatórias. In: DIDIER JR. Fredie. Execução civil- Estudos em homenagem
ao Professor Paulo Furtado. Rio de Janeiro: Lumem Juris, 2006. p. 48.
45
102
MIRANDA, Francisco Cavalcanti Pontes de. Tratado das ações - Tomo I - Ação, Classificação e Eficácia.
São Paulo: Revista dos Tribunais, 1970. p. 209.
103
ASSIS, Araken. Manual da execução. 15 ed. rev. e atual. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2013.
p. 92/93.
46
Pontes de Miranda definiu ação mandamental como aquela que “prende-se a atos que
o juiz ou outra autoridade deve mandar que se pratique. O juiz expede mandado, porque o
autor tem pretensão ao mandamento e, exercendo a pretensão à tutela jurídica, propôs a ação
mandamental”104.
Esse tipo de eficácia é tradicionalmente vinculada às denominadas ações
mandamentais, em que a tutela jurisdicional é prestada por meio de ordens judiciais
específicas e individualizadas, voltadas à efetivação de deveres jurídicos já existentes no
plano do direito material. A sentença mandamental não cria a obrigação, tampouco declara
a sua existência. A sentença mandamental, portanto, determina a sua realização direta,
utilizando-se, em muitas oportunidades, de medidas coercitivas, como multas diárias
(astreintes), busca e apreensão, entre outras.
A eficácia executiva “é aquela em que o preceito deve ser cumprido pelo próprio
Estado independentemente da vontade do demandado pela simples emissão de mandados
(busca e apreensão etc.), haja vista a prévia individualização na sentença do ilícito ou do
dano que com ela se quer superar”105. A eficácia executiva é, portanto, imediata, porque a
incursão na esfera jurídica do vencido mira algum bem previamente identificado, que lá se
encontra de maneira já reconhecida como ilegítima no pronunciamento judicial, já que
integra o patrimônio do vencedor, e, portanto, dispensará a instituição de novo processo para
reavê-lo106.
Eduardo Talamini assevera que
104
MIRANDA, Francisco Cavalcanti Pontes de. Tratado das ações - Tomo I - Ação, Classificação e Eficácia.
São Paulo: Revista dos Tribunais, 1970, p. 122 e ss.
105
MARINONI, Luiz Guilherme; ARENHART, Sérgio Cruz; MITIDIERO, Daniel. Novo código de processo
civil comentado. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015, p. 507.
106
ASSIS, Araken. Manual da execução. 15 ed. rev. e atual. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2013.
p. 96/97.
47
Não se pode deixar de mencionar que, com a promulgação da Lei nº 11.232/2005, parte
a doutrina adotou o entendimento a tradicional distinção entre diferentes espécies de
sentenças – condenatórias, mandamentais e executivas – perdeu grande parte de sua
107
TALAMINI, Eduardo. Tutela relativa aos deveres de fazer e de não fazer. CPC, art. 461; CDC, art. 84.
São Paulo: Revista dos Tribunais, 2001. p. 191.
108
LEONEL, Ricardo de Barros. Teoria geral do processo. São Paulo: Malheiros/Juspodivm, 2023. p. 263.
48
109
Nesse sentido, confira-se: MOREIRA, José Carlos Barbosa. “Cumprimento” e “execução” de sentença:
necessidade de esclarecimentos conceituais. In: Revista Dialética de Direito Processual. São Paulo:
Dialética, 2006, n. 42; DIDIER, Fredie. Curso de direito processual civil: teoria da prova, direito
probatório, ações probatórias, decisão, precedente, coisa julgada e antecipação dos efeitos da tutela. 10ª
ed. Salvador: Ed. Jus Podivm, 2015.
110
MOREIRA, José Carlos Barbosa. “Cumprimento” e “execução” de sentença: necessidade de
esclarecimentos conceituais. In: Revista Dialética de Direito Processual. São Paulo: Dialética, 2006, n. 42,
item 6.
111
Art. 461. Na ação que tenha por objeto o cumprimento de obrigação de fazer ou não fazer, o juiz concederá
a tutela específica da obrigação ou, se procedente o pedido, determinará providências que assegurem o
resultado prático equivalente ao do adimplemento. [...] § 5 Para a efetivação da tutela específica ou para a
obtenção do resultado prático equivalente, poderá o juiz, de ofício ou a requerimento, determinar as medidas
necessárias, tais como a busca e apreensão, remoção de pessoas e coisas, desfazimento de obras,
impedimento de atividade nociva, além de requisição de força policial.
112
Art. 461-A. Na ação que tenha por objeto a entrega de coisa, o juiz, ao conceder a tutela específica, fixará
o prazo para o cumprimento da obrigação. [...] § 2o Não cumprida a obrigação no prazo estabelecido,
expedir-se-á em favor do credor mandado de busca e apreensão ou de imissão na posse, conforme se tratar
de coisa móvel ou imóvel. § 3 o Aplica-se à ação prevista neste artigo o disposto nos §§ 1 o a 6 o do art. 461.
49
113
DIDIER, Fredie. Curso de direito processual civil: teoria da prova, direito probatório, ações probatórias,
decisão, precedente, coisa julgada e antecipação dos efeitos da tutela. 10ª ed. Salvador: Ed. Jus Podivm,
2015. p. 419
50
É senso comum dizer que a sentença é o meio pelo qual o julgador decide e dá a solução
para a pretensão deduzida no processo. A antiga redação do art. 162, § 1º do Código de
Processo Civil de 1973 definia a sentença como sendo o ato pelo qual o juiz põe termo ao
processo, decidindo ou não o mérito da causa.
Nesse sentido, José Frederico Marques assevera que
114
MARQUES, José Frederico. Manual de direito processual civil. Vol. III. Pt. 2. Processo de Conhecimento.
São Paulo: Saraiva, 1986-1988. p.23.
51
critério topográfico, ou seja, na posição que ela ocupava dentro da estrutura processual115.
Da mesma forma, esse mesmo parâmetro era utilizado para caracterizar as decisões
interlocutórias, que, embora pudessem conter conteúdo decisório relevante — como, por
exemplo, a decisão que determina a exclusão de um litisconsorte —, não recebiam a
qualificação de sentença justamente em razão do estágio processual em que eram
proferidas116.
Posteriormente, com a redação dada pela Lei nº 11.232/2005, a sentença foi definida
como o ato do juiz que implica alguma das situações previstas no art. 267 e 269 do CPC/73.
Assim, a partir desse momento, a legislação reconhece que a sentença pode ser definida pelo
seu conteúdo, com a possibilidade, inclusive, de serem proferidas, inclusive, sentenças
parciais, surgindo controvérsias sobre os recursos cabíveis contra estas decisões.
Além disso, com o advento da Lei nº 11.232/2005, foi adotado o “processo sincrético”,
com o fim dicotomia “processo de conhecimento” e “processo de execução”, no que tange
às obrigações de pagar quantia certa. Assim, o processo só chega ao fim, em regra, quando
o demandante obtém uma tutela jurisdicional justa e satisfativa.
Com a vigência do Código de Processo Civil de 2015, a sentença passou a ser o
pronunciamento por meio do qual o juiz, com fundamento nos arts. 485 e 487, põe fim à fase
cognitiva do procedimento comum, bem como extingue a execução.
Nesse sentido Cássio Scarpinella Bueno, leciona que a prolação da sentença é tão
somente o encerramento de uma “etapa” do processo (fase do processo jurisdicional), não
podendo se considerar que o processo foi encerrado, e mais ainda, que o juiz tenha encerrado
a sua atividade jurisdicional117.
Carmona, citando Eduardo Couture, descreve a sentença como
[...] fato jurídico e como documento, asseverando ver ali um juízo, formado
por um raciocínio crítico, por meio do qual o órgão do Poder Judiciário
115
“Impõe-se frisar que o conceito de sentença, à luz da nova sistemática, deixa de fundar-se em critério
topológico para ligar-se ao conteúdo do ato”. In BARBOSA MOREIRA, José Carlos. A nova definição de
sentença. Revista de Processo, São Paulo, ano 31, n. 136, ano 31, p. 272, jun. 2006.
116
LEÃO, Fernanda de Gouvêa. Arbitragem e execução. [Dissertação de mestrado apresentada à Faculdade de
Direito da Universidade de São Paulo - USP, sob orientação do Prof. Dr. Carlos Alberto Carmona]. USP,
São Paulo, 2012. p. 24.
117
BUENO, Cassio Scarpinela. A nova etapa da reforma do Código de Processo Civil: comentários
sistemáticos às Leis n 11.187, de 19-10-2005, e 11.232, de 22-12-2005. São Paulo: Saraiva, 2006. v. 1, p.
15.
52
À luz do art. 489 do Código de Processo Civil de 2015 119 , a sentença possui três
elementos essenciais: (i) o relatório, contendo uma síntese dos fatos processuais; (ii) os
fundamentos, nos quais o juiz analisará as questões de fato e de direito; e (iii) a parte
dispositiva, na qual o juiz decidirá as questões principais que as partes lhe submeterem.
A despeito de não ter previsto uma definição expressa para “sentença arbitral”, a Lei
de Arbitragem, em seu art. 31, dispôs que a sentença arbitral “produz, entre as partes e seus
sucessores, os mesmos efeitos da sentença proferida pelos órgãos do Poder Judiciário”. Em
outras palavras, a legislação equiparou a sentença arbitral à sentença estatal. É por isso que
a doutrina tem conceituado sentença, em sentido amplo, como a decisão por meio da qual, a
partir dos argumentos e provas trazidos ao longo do processo, o julgador – juiz ou árbitro –
resolve questões fáticas e jurídicas defendidas pelas partes120.
Luiz Olavo Baptista assevera que a sentença arbitral, tal como a sentença judicial, é “o
ato pelo qual o árbitro (ou juiz) decide uma questão que lhe foi submetida, após o trâmite
estabelecido no devido processo legal”121.
Assim como na sentença estatal, são elementos essenciais da sentença arbitral, nos
termos do art. 26 da Lei de Arbitragem122, o relatório, os fundamentos da decisão e a parte
118
CARMONA, Carlos Alberto. Arbitragem e processo: um comentário à Lei nº 9.307/96. 4ª edição. São
Paulo: Gen/Atlas, 2023. p. 355/354
119
Art. 489. São elementos essenciais da sentença:
I - o relatório, que conterá os nomes das partes, a identificação do caso, com a suma do pedido e da
contestação, e o registro das principais ocorrências havidas no andamento do processo;
II - os fundamentos, em que o juiz analisará as questões de fato e de direito;
III - o dispositivo, em que o juiz resolverá as questões principais que as partes lhe submeterem.
120
DALL’AGNOL. Ana Carolina. MARTINI, Pedro C. de Castro e. A sentença arbitral parcial: novos
paradigmas. In: Arbitragem: estudos sobre a Lei nº 13.129, de 26-5-2015. Org. Francisco José Cahali,
Thiago Rodovalho e Alexandre Freire. São Paulo: Saraiva, 2016. p. 22.
121
BAPTISTA, Luiz Olavo. Arbitragem comercial e internacional, São Paulo: Lex Ed., 2011. p. 232.
122
Art. 26. São requisitos obrigatórios da sentença arbitral:
I - o relatório, que conterá os nomes das partes e um resumo do litígio;
53
125
NIEVA-FENOLL, Jordi. Coisa Julgada. Tradução de Antonio do Passo Cabral. São Paulo: Editora Revista
dos Tribunais, 2016. p. 89.
126
MOREIRA, José Carlos Barbosa. Direito aplicado II – Pareceres. 2ª ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro:
Forense, 2005. p. 443.
127
NERY JUNIOR, Nelson. Princípios no Processo na Constituição Federal - processo civil, penal e
administrativo. 11. ed., São Paulo: RT, 2012, n. 4.1. p. 56.
128
Art. 31. A sentença arbitral produz, entre as partes e seus sucessores, os mesmos efeitos da sentença
proferida pelos órgãos do Poder Judiciário e, sendo condenatória, constitui título executivo.
129
Art. 515. São títulos executivos judiciais, cujo cumprimento dar-se-á de acordo com os artigos previstos
neste Título: (...) VII - a sentença arbitral;
55
Além disso, o mérito da sentença arbitral não é passível de recurso e não é suscetível
de controle por parte do Poder Judiciário, a não ser nas restritíssimas hipóteses previstas nos
arts. 32 e 33, § 3º da Lei de Arbitragem130.
Ou seja, no ordenamento jurídico brasileiro, a existência de uma coisa julgada na
arbitragem tem fundamento em uma dupla realidade: (i) da autonomia da arbitragem, que
não necessita de participação do Poder Judiciário na formação e eficácia das declarações e
comandos manifestados na sentença arbitrais (art. 18 da Lei de Arbitragem; e, ainda, (ii) da
norma prevista no art. 31 da Lei de Arbitragem, que estabelece que a sentença arbitral tem
os mesmos efeitos da sentença proferida em um processo judicial131.
José Manoel Arruda Alvim assevera, com precisão, que “a sentença arbitral produz
coisa julgada, de molde que seus efeitos se revestem da característica da imutabilidade,
inerente à atividade jurisdicional, que é definitiva por natureza”132.
Giordani Flenik pontua, ainda, que a sentença arbitral “é uma decisão que opera a coisa
julgada e integra o mundo jurídico definitivamente, já que não pode ser objeto de recurso
revisional de seu mérito, exceto em casos específicos de nulidade ou anulabilidade”133.
130
Art. 32. É nula a sentença arbitral se:
I - for nula a convenção de arbitragem;
II - emanou de quem não podia ser árbitro;
III - não contiver os requisitos do art. 26 desta Lei;
IV - for proferida fora dos limites da convenção de arbitragem;
VI - comprovado que foi proferida por prevaricação, concussão ou corrupção passiva;
VII - proferida fora do prazo, respeitado o disposto no art. 12, inciso III, desta Lei; e
VIII - forem desrespeitados os princípios de que trata o art. 21, § 2º, desta Lei.
Art. 33. A parte interessada poderá pleitear ao órgão do Poder Judiciário competente a declaração de
nulidade da sentença arbitral, nos casos previstos nesta Lei.
(...)
§ 3o A decretação da nulidade da sentença arbitral também poderá ser requerida na impugnação ao
cumprimento da sentença, nos termos dos arts. 525 e seguintes do Código de Processo Civil, se houver
execução judicial.
131
DINAMARCO, Candido Rangel. O processo arbitral. 2ª edição. Curitiba: Editora Direito Contemporâneo,
2022. p. 230.
132
ALVIM, José Manoel Arruda. Sobre a natureza jurisdicional da arbitragem. In: Arbitragem: estudos sobre
a Lei n. 13.129, de 26-5-2015. Org. Francisco José Cahali, Thiago Rodovalho, Alexandre Freire. São Paulo:
Saraiva, 2016. p. 143.
133
FLENIK, Giordani. A eficácia máxima da sentença arbitral: um estudo comparado dos direitos norte-
americano, francês e brasileiro sobre a homologação de sentenças estrangeiras. Belo Horizonte: Arraes
Editores, 2019. p. 6.
56
No mesmo sentido, Pedro A. Batista Martins leciona que “a sentença proferida pelo
juízo privado, assim que não mais se torna passível de recurso, transitará em julgado,
operando-se, por sua vez, a coisa julgada”134.
Nem se cogite que o fato que a possibilidade do ajuizamento da ação anulatória (LA,
arts. 32 e 33) que, uma vez julgada procedente, interromperiam os efeitos da sentença arbitral
e, por conseguinte, da coisa julgada material, que art. 502 do Código de Processo Civil define
como “a autoridade que torna imutável e indiscutível a decisão de mérito não mais sujeita a
recurso”. Isso porque a garantia constitucional da coisa julgada da sentença estatal é relativa,
dada a possibilidade de ajuizamento de uma ação rescisória (arts. 102, I, alínea “j”, e art. 105,
I, alínea “e” da CF e art. 966, do CPC). Há, portanto, um inegável paralelismo entre a ação
rescisória, cujo objeto é a rescisão de uma sentença estatal, e a ação anulatória arbitral. A
negação da incidência da autoridade da coisa julgada sobre os efeitos da sentença arbitral por
conta de sua vulnerabilidade à ação anulatória deveria, por coerência, conduzir a negá-la
também à estatal, por conta da possibilidade de ser desconstituída em ação rescisória135.
A propósito, Barbosa Moreira, com seu costumeiro rigor intelectual, já chamava a
atenção sobre imprecisão terminológica da expressão “relativização da coisa julgada”
justamente porque a coisa julgada nunca foi absoluta, apresentando justamente a
possibilidade do ajuizamento de ação rescisória. Confira-se:
Vem ganhando espaço entre nós, nos últimos tempos, debate doutrinário,
com alguns reflexos na jurisprudência, em torno da proposta a que se tem
chamado de “relativização” da coisa julgada material. E um dos tópicos
mais salientes dessa discussão é o da denominada “coisa julgada
inconstitucional”. Utilizamos as aspas não apenas para indicar que ambas
as expressões foram cunhadas por outros autores; elas indicam também,
logo de saída, reservas de ordem terminológica que nos ocorrem.
Comecemos pela palavra “relativização”. Não nos impressiona muito a
circunstância de estar ela ausente da maioria dos dicionários, como ausente
também está o verbo “relativizar”: uma das formas da natural evolução da
língua é a criação de vocábulos novos, e esses se afiguram forjados de
maneira compatível com a índole do idioma português. Nossa estranheza
tem outro motivo. É que, quando se afirma que algo deve ser relativizado,
logicamente se dá a entender que se está enxergando nesse algo um
absoluto: não faz sentido que se pretenda “relativizar” o que já é relativo.
134
MARTINS, Pedro A. Batista. Anotações sobre a sentença proferida em sede arbitral. Aspectos
fundamentais da lei de arbitragem. Rio de Janeiro: Forense, 1999, p. 404.
135
DINAMARCO, Candido Rangel. O processo arbitral. 2ª edição. Curitiba: Editora Direito Contemporâneo,
2022. p. 231/232.
57
Há na doutrina quem entenda que, uma vez proferida a sentença final, encerra a
jurisdição do árbitro, utilizando-se a expressão latina “functus officio”, que significa
“esgotado o poder jurisdicional” ou, ainda, “findo o mandato”.
A Lei de Arbitragem incorporou expressamente o princípio do functus officio, ao
estabelecer, em seu art. 29, que, uma vez proferida a sentença arbitral, considera-se encerrado
o procedimento arbitral. Apesar disso, a própria norma admite exceções a essa regra: o artigo
136
MOREIRA, José Carlos Barbosa. Considerações sobre a chamada “relativização” da coisa julgada
material. In: Temas de direito processual. Nona Série. São Paulo: Saraiva, 2007. p. 235/236.
58
137
Art. 356. O juiz decidirá parcialmente o mérito quando um ou mais dos pedidos formulados ou parcela
deles:
I - mostrar-se incontroverso;
II - estiver em condições de imediato julgamento, nos termos do art. 355 .
§ 1º A decisão que julgar parcialmente o mérito poderá reconhecer a existência de obrigação líquida ou
ilíquida.
§ 2º A parte poderá liquidar ou executar, desde logo, a obrigação reconhecida na decisão que julgar
parcialmente o mérito, independentemente de caução, ainda que haja recurso contra essa interposto.
§ 3º Na hipótese do § 2º, se houver trânsito em julgado da decisão, a execução será definitiva.
§ 4º A liquidação e o cumprimento da decisão que julgar parcialmente o mérito poderão ser processados em
autos suplementares, a requerimento da parte ou a critério do juiz.
§ 5º A decisão proferida com base neste artigo é impugnável por agravo de instrumento.
138
Art. 23. (...)
§ 1o Os árbitros poderão proferir sentenças parciais.
139
DALL’AGNOL. Ana Carolina. MARTINI, Pedro C. de Castro e. A sentença arbitral parcial: novos
paradigmas. In: Arbitragem: estudos sobre a Lei nº 13.129, de 26-5-2015. Org. Francisco José Cahali,
Thiago Rodovalho e Alexandre Freire. São Paulo: Saraiva, 2016. p. 24.
140
Nesse sentido, confira-se: CARMONA, Carlos Alberto. Arbitragem e processo: um comentário à Lei nº
9.307/96. 4ª edição. São Paulo: Gen/Atlas, 2023. p. 366; DINAMARCO, Candido Rangel. O processo
arbitral. 2ª edição. Curitiba. Editora Direito Contemporâneo, 2022, p. 197.
59
árbitros têm competência para apreciar e resolver as questões surgidas quando da atuação
prática do direito”141. Ademais, a rejeição da competência do árbitro para a cognição exigida
no momento do cumprimento de sentença representaria verdadeira incoerência com o caráter
unitário e sincrético do processo142.
Do mesmo modo, Heitor Vitor Mendonça Sica sustenta que “é preciso reconhecer que
compete ao árbitro decidir as questões atinentes à relação jurídica de direito material surgidas
em sede de execução da sentença arbitral, as quais estejam submetidas à convenção de
arbitragem”143.
De outra banda, há que se destacar que a relativização da regra da functus officio com
a continuação da arbitragem para o cumprimento da sentença arbitral não significaria, em
hipótese alguma, uma revisão ou mesmo uma via recursal144.
Assim, sob a ótica do processo civil moderno e na hipótese de descumprimento da
sentença arbitral condenatória, haverá absoluta incompatibilidade entre o dever do árbitro de
“dirimir o litígio” e a regra que lhe suprime, de forma abrupta e prematura a sua jurisdição
sobre o objeto litigioso, que permanece insatisfeito no cumprimento de sentença arbitral145.
141
YARSHELL, Flávio. A cognição a cargo dos árbitros no cumprimento da sentença arbitral. TEIXEIRA,
Tarcisio; LEGMANOVSKI, Patricia Ayub C. (coord.). Arbitragem em evolução: aspectos relevantes após
a reforma da Lei Arbitral. Barueri, Manole, 2018. p. 167.
142
YARSHELL, Flávio. A cognição a cargo dos árbitros no cumprimento da sentença arbitral. TEIXEIRA,
Tarcisio; LEGMANOVSKI, Patricia Ayub C. (coord.). Arbitragem em evolução: aspectos relevantes após
a reforma da Lei Arbitral. Barueri, Manole, 2018, p. 165.
143
SICA, Heitor Vitor Mendonça. Cognição do juiz na execução civil. São Paulo, RT, 2017. 242/243.
144
NASCIMBENI, Asdrubal Franco. Cumprimento das decisões arbitrais: estudos para aprimoramento do
sistema. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2019. p. 301
145
CHACUR DE MIRANDA, Daniel. Poderes executórios do árbitro. São Paulo: Quartier Latin, 2025. p.
108/109.
60
O poder de império (ius imperium) do Estado merece um capítulo exclusivo a fim ser
melhor e devidamente compreendido, dada a sua importância para o tema. A palavra
imperium, como já destacado, tem origem em Roma, ou antes dela, nas suas possíveis raízes
etruscas. No direito romano, imperium é o poder público dinâmico conferido a magistrados
com autoridade máxima para mandar, governar, usar a força militar, julgar e administrar em
determinadas esferas territoriais146.
Atualmente, o poder de império, em sentido estrito, deve ser conceituado como sendo
o poder de impor obrigações aos todos, independentemente de sua concordância. Essa
imperatividade permite ao Poder Público emitir provimentos que vão além da sua própria
esfera jurídica, produzindo efeitos na esfera jurídica de outras pessoas, constituindo-as
unilateralmente em obrigações147. A rigor, portanto, os atos de império não são de atribuição
exclusiva do Poder Judiciário, mas do Poder Público.
Tal supremacia do interesse público, no entanto, não está diretamente presente em toda
e qualquer atuação sua. Limita-se, notadamente, aos atos em que o Poder Público manifesta
esse seu poder. A estes, dá-se o nome de atos de império, porque são impostos
coercitivamente, criando, unilateralmente, para o cidadão, obrigações; ou restringindo ou
condicionando o exercício de direitos ou de atividades privadas; são os atos que originam
relações jurídicas entre o particular e o Estado caracterizadas pela verticalidade, pela
desigualdade jurídica148.
Há uma percepção na doutrina de que a jurisdição do árbitro está restrita à fase de
conhecimento, já que lhe falta o poder de impor suas decisões aos jurisdicionados. Segundo
esse racional, a execução civil só pode ser praticada pelo Estado, que é o detentor do ius
146
MEIRA, Sílvio A. B. O “imperium” no direito romano. In: Revista de informação legislativa, v. 23, n. 90,
abr./jun. 1986. Disponível em
<[Link] Acesso em 16.09.2025. p.
100-101.
147
MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Curso de Direito Administrativo. 23 ed. São Paulo: Malheiros, p. 403.
Nota-se, pois que os atos de império independem do Judiciário.
148
NASCIMBENI, Asdrubal Franco. Cumprimento das decisões arbitrais: estudos para aprimoramento do
sistema. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2019. p. 138
61
“o árbitro tem jurisdictio, mas não tem imperium. Enquanto o juiz estatal
tem a jurisdictio e o imperium, o árbitro só conta com a jurisdictio.”149
O árbitro, então, somente teria poderes para atuar na fase cognitiva da arbitragem e,
por não ser detentor do ius imperium, não poderia promover atos executivos para a
implementação de suas próprias decisões.
O fundamento desse raciocínio no sentido de proibir o árbitro promover atividade
executiva reside na premissa de que somente o Estado pode exercer o uso da força, coagindo
os executados a adimplirem suas obrigações152.
Ao nosso ver, no entanto, essa percepção se revela, ao menos em parte, equivocada, já
que o árbitro é dotado de jurisdição. E, nesse contexto, Chiovenda já alertava sobre a
impossibilidade de contrapor império e jurisdição, como qualitativamente diversos:
jurisdição não é, ao contrário, mais que um complexo de atos de império reagrupados por
determinado escopo que os caracteriza, e emanados em virtude dos correspondentes poderes
postos a serviços desse escopo e da função jurisdicional153. E jurisdição, como já mencionado
acima, é o poder de dizer o direito diante de determinada situação concreta, de modo a
vincular as partes à decisão154.
149
THEODORO JR, Humberto. Arbitragem e terceiros - litisconsórcio fora do pacto arbitral - outras
intervenções de terceiros. In: Doutrinas Essenciais Arbitragem e Mediação. vol. 2/2014. Set / 2014. p. 517.
150
MARTINS, Pedro A. Batista. Arbitragem e intervenção voluntária de terceiros: uma proposta. In: Revista
de Arbitragem e Mediação. vol. 33/2012. Abr - Jun / 2012. p. 246.
151
CARNEIRO, Athos Gusmão. Arbitragem e execução. Cognição e império. Medidas cautelares e
antecipatórias. Civil law e common law. In: BUENO, Cassio Scarpinella. WAMBIER, Teresa Arruda
Alvim. Aspectos Polêmicos da nova execução. São Paulo: RT, 2008. p. 57.
152
SILVA, Paula Costa e. A nova face da justiça: os meios extrajudiciais de resolução de controvérsias.
Lisboa: Coimbra editora, 2009. p. 94.
153
CHIOVENDA, Giuseppe. Instituições de direito processual civil. Vol. 2, 2ªed., Bookseller: Campinas,
2000. p. 21.
154
PINA, Pedro. Arbitragem e jurisdição. In: Revista julgar, n. 6, 2008. p. 146.
62
O árbitro, no exercício da jurisdição, decide com força vinculante, ainda que não
possua poderes de constrição para impor as suas próprias decisões caso a sua determinação
não seja cumprida pela parte155. Logo, se decide de forma vinculante, é possível concluir que
a sentença arbitral é dotada de algum grau de imperatividade e o árbitro dispõe, em alguma
medida, mecanismos para promover, sozinho, a execução de suas próprias decisões.
Nesse sentido, o árbitro dispõe, em alguma medida, de mecanismos para promover a
execução de suas próprias decisões, o que pode, por exemplo, verificado nas sentenças
arbitrais com natureza meramente declaratórias ou constitutivas negativas, em que se busca
a modificação ou a extinção de um estado jurídico anterior. Uma sentença arbitral
constitutiva negativa, que, por exemplo, declare a invalidade de uma assembleia de
acionistas, não dependerá, necessariamente, de uma intervenção do Poder Judiciário para o
conteúdo decisório da sentença arbitral seja cumprido pelas partes. Bastaria, nessa hipótese,
o mero comando contido na sentença arbitral para que produza os seus efeitos.
Além disso, o árbitro possui poderes para implementar mecanismos de execução
indireta. Esse é o caso da imposição de medidas coercitivas ao devedor executado. O árbitro
pode, por exemplo, cominar uma multa pelo inadimplemento da obrigação contida na
sentença arbitral. O risco de incidência da aludida multa é uma forma de pressionar o
sucumbente a adimplir a sua dívida156.
Outro exemplo execução indireta ao alcance do árbitro é a hipótese do árbitro proíbe
que uma das partes na arbitragem multipartes distribua dividendos para o sucumbente até
que este último cumpra determinada obrigação de fazer imposta numa sentença arbitral.
Dessa forma, a imposição da referida medida serviria como uma espécie de incentivo para
que o sucumbente cumpra a obrigação contida na sentença arbitral, sendo certo que, uma vez
cumprido, o sucumbente seria “premiado” com a distribuição dos dividendos a que teria
direito.
A propósito, há que se mencionar, ainda, a possibilidade de o árbitro manter ou não
medida cautelar ou de urgência antecedente à instituição da arbitragem, bem como conceder
ou não medida cautelar ou de urgência requeridas incidentalmente à arbitragem (arts. 22-A
155
DINAMARCO, Candido Rangel. O processo arbitral. 2ª edição. Curitiba: Editora Direito Contemporâneo,
2022. p. 56.
156
CLAY, Thomas. As medidas cautelares requeridas ao árbitro. In: Revista de Arbitragem e Mediação, São
Paulo: Revista dos Tribunais, v. 18, jul.-set. 2008. [livro eletrônico].
63
4.2. A utilização da força física, na execução, não é uma regra e a possibilidade de atuar
com força jurídica
157
Sobre a tema, veja-se: GOUVEIA, Mariana França. ANTUNES, João Gil. The suitability of the emergency
arbitrator for investment disputes. In: e-Pública, Vol. 6, nº 2, setembro 2019, p. 9/35. Disponível
em: [Link] Acesso em 02.03.2025; GRION, Renato Stephan.
Árbitro de emergência – perspectiva brasileira à luz da experiência internacional. In: CARMONA, Carlos
Alberto, LEMES, Selma Ferreira & MARTINS, Pedro Batista. 20 anos da lei de arbitragem. São Paulo:
Atlas, 2017, p. 403-448; MARQUES, Paula Menna Barreto. Árbitro de emergência. In: CARNEIRO, Paulo
Cezar Pinheiro, GRECO, Leonardo & DALLA, Humberto. Temas controvertidos na arbitragem à luz do
código de processo civil de 2015. Rio de Janeiro: LMJ Mundo Jurídico, 2018, p. 209-223.
158
Art. 139. O juiz dirigirá o processo conforme as disposições deste Código, incumbindo-lhe: (...) IV -
determinar todas as medidas indutivas, coercitivas, mandamentais ou sub-rogatórias necessárias para
assegurar o cumprimento de ordem judicial, inclusive nas ações que tenham por objeto prestação pecuniária;
64
Há uma clara diferença entre a atuação física sobre bens e pessoas e a atuação jurídica
sobre bens “intangíveis” 159. A força jurídica, ao contrário da força física, não tem o seu
exercício submetido ao monopólio da jurisdição estatal. Pode ser exercida por meio da
jurisdição privada (arbitragem) ou por mecanismo autotutelar (como nos casos de autotutela
satisfativa)160.
Enquanto o processo de conhecimento tem por objetivo a formulação, na sentença
definitiva, da regra jurídica concreta que deve disciplinar a situação litigiosa, outra é a
finalidade do processo de execução, que é atuar de forma prática da norma jurídica. No
processo de conhecimento, a atividade jurisdicional é essencialmente intelectiva, ao passo
que no de execução se manifesta de maneira preponderante, através de atos materiais,
destinados a modificar a realidade sensível, aperfeiçoando-a, na medida do possível, àquilo
que, segundo o direito, ela deve ser161.
Nesse contexto, não obstante a natureza jurisdicional da arbitragem, o ordenamento
jurídico brasileiro não outorgou ao árbitro o poder de invadir a esfera patrimonial do devedor.
Contudo, o emprego de força física para dar cumprimento a uma decisão judicial ou arbitral
não é uma regra, mas, sim, uma eventualidade162.
A propósito, Dinamarco admite, como sendo ato executivo, as medidas de pressão
psicológicas exercidas sobre o obrigado, para que cumpra a obrigação, tais como medidas de
direito material, multas e etc,. Essas medidas têm o condão de colocar o executado em um
dilema, de modo que, se não cumprida a obrigação, ele pode sofrer reflexos ainda piores163.
Nessa hipótese, não é utilizada a força física e tampouco medidas sub-rogatórias.
De fato, a execução civil não pode ser resumida no desapossamento de bens porque a
satisfação de direitos não pressupõe, necessariamente, a alteração no plano físico. A alteração
159
“Movable property may be taken physically into custody by the enforcing officer. Intangible property - such
as a bank account or shares of stock - may be "seized" through a court order, traditionally called a writ of
garnishment, directing that the judgment creditor be recognized as having priority. Real property is seized
by recording the judgment in the public land records.” (HARZARD, Geoffrey C.; TARUFFO, Michele.
American civil procedure: an introduction. New Haven: Yale University Press, 1993. p. 194)
160
SCHINEMANN, Caio César Bueno. Arbitragem e execução: divisão de competências, poderes do árbitro
e limites subjetivos. São Paulo: Thompson Reuters Brasil, 2023. p. 126.
161
MOREIRA, José Carlos Barbosa. O novo processo civil brasileiro: exposição sistemática do procedimento.
Ed. rev. e atual.. Rio de Janeiro: Forense, 2007. p. 203.
162
YARSHELL, Flávio Luiz. A cognição a cargo dos árbitros no cumprimento da sentença arbitral. In:
Arbitragem em evolução: aspectos relevantes após a reforma da Lei Arbitral. Coord. Tarcísio Teixeira e
Patrícia Ayub C. Ligmanovski. Barueri: Manole, 2018, p. 163.
163
DINAMARCO, Candido Rangel. Execução civil. 6ª ed., rev. e atual. São Paulo: Malheiros, 1998. p. 101.
65
da situação física do bem é uma das maneiras de se praticar o ato executivo, mas não a única,
já que há medidas de execução que implementam direitos tão somente a partir da atuação no
plano jurídico164. Quando o ato é praticado com a utilização de força meramente jurídica (e
não força física), de maneira que não estabelece a “subtração forçada de patrimônio
corpóreo”165.
Dessa maneira, nas hipóteses em que não há vedação decorrente do monopólio estatal,
é possível a atuação do árbitro a partir do autorregramento das partes, com a implementação
de direitos, desde que tais medidas não impliquem constrição física sobre bens e pessoas166,
em substituição à vontade do executado.
Em suma, o poder para invadir a esfera patrimonial do devedor é uma eventualidade
da execução, e a ausência desse poder, por consequência, não retira do árbitro os demais
poderes inerentes da sua atividade jurisdicional167.
164
SCHINEMANN, Caio César Bueno. Arbitragem e execução: divisão de competências, poderes do árbitro
e limites subjetivos. São Paulo: Thompson Reuters Brasil, 2023. p. 126.
165
CABRAL, Antonio do Passo. Processo e tecnologia: novas tendências. In: LUCON, Paulo Henrique dos
Santos; WOLKART, Erik Navarro; LAUX, Francisco de Mesquita; RAVAGNANI, Giovani dos Santos.
Direito, processo e tecnologia. 2ª ed., São Paulo: Revista dos Tribunais, 2021. p. 103.
166
DINAMARCO, Candido Rangel. O processo arbitral. 2ª edição. Curitiba: Editora Direito Contemporâneo,
2022. p. 260.
167
CHACUR DE MIRANDA, Daniel. Poderes executórios do árbitro. São Paulo: Quartier Latin, 2025. p.
165.
66
168
CHACUR DE MIRANDA, Daniel. Poderes executórios do árbitro. São Paulo: Quartier Latin, 2025. p.119.
169
Art. 18. O árbitro é juiz de fato e de direito, e a sentença que proferir não fica sujeita a recurso ou a
homologação pelo Poder Judiciário.
170
Art. 31. A sentença arbitral produz, entre as partes e seus sucessores, os mesmos efeitos da sentença
proferida pelos órgãos do Poder Judiciário e, sendo condenatória, constitui título executivo.
171
DINAMARCO, Candido Rangel. O processo arbitral. 2ª edição. Curitiba: Editora Direito Contemporâneo,
2022. p. 205.
172
THEODORO JÚNIOR, Humberto. Processo de execução. 19ª ed. São Paulo: Livraria e Editora
Universitária de Direito - LEUD, 1999. p. 58.
173
DINAMARCO, Candido Rangel. Execução civil. 6ª ed., rev. e atual. São Paulo: Malheiros, 1998. p. 100.
67
A execução, por sua vez, se realiza por meio de uma série de atos da mais variada
índole, atos materiais e atos jurídicos, atos dos órgãos judiciais e atos das partes e de terceiros,
atos que se sucedem segundo ordem mais ou menos rigorosamente estabelecido por lei, até
chegar à terminação do processo, tendo todos eles a finalidade de realizar progressivamente
a efetiva satisfação do exequente175.
Quanto ao ato executivo, a doutrina o define como o ato do juiz que impõe
coativamente às partes e a quaisquer outros sujeitos a obediência às suas ordens para a
realização prática da atividade jurisdicional satisfativa, de modo a invadir a sua esfera de
liberdade pessoal e patrimonial, e atos dos auxiliares da justiça em cumprimento das ordens
do juiz176.
Uma característica comum a todos os atos de execução é a invasão da esfera jurídica
do devedor. Considerado isoladamente, cada ato executivo tem como finalidade deslocar, de
forma coercitiva, pessoas ou bens, gerando também uma transferência forçada de valores
para o patrimônio do credor. Contudo, é na análise do conjunto desses atos que se revela uma
perspectiva mais relevante. De fato, permanecendo fiel à finalidade essencial do processo de
execução — que é a obtenção da satisfação do direito do exequente — os atos executivos se
conectam e se organizam em operações mais amplas, denominadas meios executórios. Nesse
contexto, o Estado, por meio de seus órgãos jurisdicionais, age em favor da pretensão do
credor, utilizando os meios executórios disponíveis para promover a efetivação do seu
direito177.
No âmbito do presente trabalho, portanto, os atos executivos do árbitro devem ser
compreendidos como aqueles praticados pelo árbitro com vistas à satisfação do direito
reconhecido na decisão arbitral.
174
GRECO, Leonardo. O processo de execução. Rio de Janeiro: Renovar, 1999. p. 164
175
LIEBMAN, Enrico Tullio. Processo de execução (com notas de atualização do Prof. Joaquim Munhoz de
Mello). 5ª ed., São Paulo, Saraiva, 1986. p. 60/61.
176
GRECO, Leonardo. O processo de execução. Rio de Janeiro: Renovar, 1999. p. 190
177
ASSIS, Araken. Manual da execução. 15 ed. rev. e atual. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2013.p.
142.
68
A expressão latina non liquet “é uma abreviatura da frase ‘iuravi mihi non liquere,
atque ita iudicatu illo solutus sum’, que significa, em tradução livre, “jurei que o caso não
estava claro o suficiente e, em consequência, fiquei livre daquele julgamento”178.
No período das ações do processo civil romano clássico, na fase apud iudicem, o iudex,
não estando subordinado hierarquicamente a ninguém, poderia não julgar se não formasse
convicção sobre a causa que apreciada179. De fato, o iudex “poderia simplesmente declarar
sibi non liquere (não me parece claro), ensejando que as partes retornassem ao magistrado
178
ARMELSTEIN, George. O asno de Buridano, o non liquet e as katchangas. Disponível em:
<[Link] Acesso
em: 20.10.2024.
179
MINAMI. Marcos Youji. Da vedação ao non factibile: uma introdução às medidas executivas atípicas. 2ª
ed. rev. atual. e ampl. Salvador: Editora Juspodivm, 2020. p. 129.
69
para a escolha de novo julgador”180. Remonta, pois, ao império romano a expressão non
liquet, cuja principal causa ocorre quando o contexto probatório não é suficiente para que o
juiz possa formar a sua convicção do juiz acerca do direito postulado.
No Brasil, é vedado ao juiz deixar de julgar, alegando não estar convencido da tese
vencedora ou não saber qual o direito aplicável, nos termos do art. 126 do Código de Processo
Civil181. Afinal de contas, o princípio da vedação ao non liquet é corolário lógico do princípio
constitucional da inafastabilidade da jurisdição, consagrado no art. 5º, XXXV, da
Constituição Federal182, de modo a resguardar o sistema jurídico do colapso, cuja finalidade
é a pacificação social183.
O princípio da vedação ao non factibile é decorrência lógica do princípio da vedação
ao non liquet. Marcos Youji Minami explica a origem da expressão non factibile:
O princípio do non factibile consiste no fato de que não se pode permitir que se deixe
de efetivar prestação prevista em uma decisão ou em título executivo com a justificativa de
não ser possível essa realização. Proibir o non liquet, mas permitir o non factibile seria uma
contradição185.
180
TUCCI, José Rogério Cruz e. Azevedo, Luís Carlos. Lições de história do processo civil romano. 2ª ed.
São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2013. P. 49.
181
Art. 140. O juiz não se exime de decidir sob a alegação de lacuna ou obscuridade do ordenamento jurídico.
182
Art. 5º. [...] XXXV - a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito;
183
KOATZ. Rafael Lorenzo- Fernandes. A proibição do non liquet e o princípio da inafastabilidade do
controle jurisdicional. In: RDA – Revista de Direito Administrativo, Rio de Janeiro, v. 270, p. 171/205,
set./dez., 2015. p. 174.
184
MINAMI. Marcos Youji. Uma justificativa às medidas executivas atípicas – da vedação ao non factibile.
In: Medidas executivas atípicas. (coord. Eduardo Talamini e Marcos Youji Minami). 4ª ed. rev. e atual. São
Paulo: Editora JusPodivm, 2023. p. 71-94. p. 74.
185
MINAMI. Marcos Youji. Da vedação ao non factibile: uma introdução às medidas executivas atípicas. 2ª
ed. rev. atual. e ampl. Salvador: Editora Juspodivm, 2020. p. 129.
70
Por essa razão, entendemos que admitir que poderes executórios sejam emanados do
árbitro é, antes de mais nada, um prestígio ao princípio da vedação ao non factibile, que
reforça a ideia de uma jurisdição arbitral eficaz dentro dos seus próprios limites estruturais.
O princípio da vedação ao non factibile está, em nosso entendimento, intimamente
associado ao método instrumentalista, que, nas palavras de Dinamarco, consiste “no
empenho em extrair do processo e do exercício da jurisdição o maior e mais adequado
proveito útil possível”186. Logo, na visão instrumentalista, o processo deve ser compreendido
como um instrumento, um meio, para se atingir os seus escopos.
Em sua clássica obra “a instrumentalidade do processo”, considerada um dos marcos
da nova perspectiva do processo civil moderno, como instrumento da concretização do
direito e realização da justiça, Dinamarco enumera os escopos da jurisdição elencando os
escopos de natureza social, política e jurídica187, sendo o escopo social o mais relevante, que
“é a pacificação de pessoas mediante a eliminação de conflitos com justiça”188.
De fato, com esse suporte doutrinário, superando o procedimentalismo em voga e
alcançando o atual estágio de evolução, o processo apresentou-se como excelente meio de
pacificação social. Essa nova postura do processo é uma imposição dos novos tempos,
conquista de uma sociedade que exige do Estado mais que uma justiça simplesmente legal,
impondo-lhe, em lugar da mera resolução da lide, o papel de ente pacificador de conflitos189.
Nesse contexto, a satisfação do comando contido na sentença arbitral é que, ao fim e
ao cabo, vai pacificar e eliminar o conflito existente entre as partes da arbitragem. Em outras
palavras, o inadimplemento de obrigação reconhecida em uma sentença arbitral, passe o
truísmo, gera insatisfação ao credor. Sem o adimplemento, não há a pacificação social.
O árbitro, por sua vez, atua como julgador com autoridade plena para decidir o mérito
da controvérsia e determinar providências executivas viáveis no plano prático e jurídico, mas,
sem usurpar competências exclusivas do Estado, cabe ao árbitro, sempre que possível, lançar
mão de seus poderes executórios com o objetivo de satisfazer a obrigação contida na sentença
186
DINAMARCO, Candido Rangel. BADARÓ, Gustavo Henrique Righi Ivahy. LOPES, Bruno Vasconcelos
Carrilho. Teoria geral do processo. 34ª ed., rev. e ampl. São Paulo: Malheiros, 2023. p. 30.
187
DINAMARCO, Cândido Rangel. A instrumentalidade do processo. 15ª ed. rev. e atual. São Paulo:
Malheiros, 2013. p.188/263.
188
DINAMARCO, Candido Rangel. BADARÓ, Gustavo Henrique Righi Ivahy. LOPES, Bruno Vasconcelos
Carrilho. Teoria geral do processo. 34ª ed., rev. e ampl. São Paulo: Malheiros, 2023. p. 30.
189
ALVIM, José Eduardo Carreira. Tutela específica das obrigações de fazer e não fazer. Belo Horizonte: Del
Rey, 1997. p. 25.
71
190
FIGUEIRA JÚNIOR, Joel Dias. Execução simplificada e a desjudicialização do processo civil. In: ALVIM
NETTO, José Manoel de Arruda; et al (coord.). Execução civil e temas afins do CPC/1973 ao Novo CPC:
estudos em homenagem ao professor Araken de Assis. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2014, p. 579.
72
191
CILURZO, Luiz Fernando. A desjudicialização da execução por quantia. [Dissertação de Mestrado
apresentada à Universidade de São Paulo – USP, sob a orientação do Pro. Dr. Ricardo de Barros Leonel].
São Paulo, 2010. p. 188.
192
CHALHUB, Melhim Namem. Incorporação Imobiliária. São Paulo: Forense, 2017, p. 391.
193
FARIAS, Rachel Nunes de Carvalho. A desjudicialização do processo executivo português como um
possível modelo para o processo de execução brasileiro. Dissertação apresentada no âmbito do 2o Ciclo de
Estudos em Direito da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Coimbra, 2013, p. 89-90.
194
GRANADO, Daniel Willian. SANTOS, Rosane Pereira dos. GIANFRANCESCO, Genosos. Execução
extrajudicial da Lei 9.514/97 e a figura do terceiro arrematante. In: Execução civil e temas afins – do
CPC/1973 ao novo CPC. Coordenação Arruda Alvim... [et al.]. São Paulo: RT, 2014, p. 198.
73
195
RIBEIRO, Flávia Pereira. Desjudicialização da Execução Civil. [Tese de doutorado apresentada à Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP, sob a orientação do Prof. Dr. João Batista Lopes]. São
Paulo, 2012. p. 111.
196
CILURZO, Luiz Fernando. A desjudicialização da execução por quantia. [Dissertação de Mestrado
apresentada à Universidade de São Paulo – USP, sob a orientação do Pro. Dr. Ricardo de Barros Leonel].
São Paulo, 2010. p. 138-139.
197
Art. 1er (Décr. no 55-604 du 20 mai 1955, art. 32) Les huissiers de justice sont les officiers ministériels qui
ont seuls qualité pour signifier les actes et les exploits, faire les notifications prescrites par les lois et
règlements lorsque le mode de notification n'a pas été précisé et ramener à exécution les décisions de justice,
ainsi que les actes ou titres en forme exécutoire. Ordonnance no 45-2592 du 2 novembre 1945.
198
RIBEIRO, Flávia Pereira. Desjudicialização da Execução Civil. [Tese de doutorado apresentada à Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP, sob a orientação do Prof. Dr. João Batista Lopes]. São
Paulo, 2012. p. 92/93.
199
RIBEIRO, Flávia Pereira. Desjudicialização da Execução Civil. [Tese de doutorado apresentada à Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP, sob a orientação do Prof. Dr. João Batista Lopes]. São
Paulo, 2012. p. 103.
200
RIBEIRO, Flávia Pereira. Desjudicialização da Execução Civil. Tese de doutorado apresentada à
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo, 2012, p. 93.
201
Code des procédures civiles d’exécution: Art. L. 222-1[...] Lorsque le meuble se trouve entre les mains d'un
tiers et dans les locaux d'habitation de ce dernier, il ne peut être appréhendé que sur autorisation du juge de
l'exécution.
74
202
CHACUR DE MIRANDA, Daniel. Poderes executórios do árbitro. São Paulo: Quartier Latin, 2025. p.
137.
203
Decreto-Lei 226/2008, Art. 11: Pode ser autorizada a criação de centros de arbitragem voluntária com
competência para resolução de litígios resultantes do processo de execução e para realização das diligências
de execução previstas em lei.
204
Decreto-Lei 226/2008, art. 12: A submissão de processos de execução aos centros de arbitragem previstos
no artigo anterior depende da celebração de convenção de arbitragem em conformidade com os requisitos
estabelecidos na legislação que regula a arbitragem voluntária.
205
CHACUR DE MIRANDA, Daniel. Poderes executórios do árbitro. São Paulo: Quartier Latin, 2025. p.
142.
75
206
SCHINEMANN, Caio César Bueno. Arbitragem e execução: divisão de competências, poderes do árbitro
e limites subjetivos. São Paulo: Thompson Reuters Brasil, 2023. p. 118/119.
207
VÁSQUEZ, Maria Elena Jara. Tutela arbitral efectiva em Ecuador. Quito: Corporación de Estudios y
Publicaciones, 2017. p. 289/290.
76
Os atos de execução direta pelo árbitro são aqueles atos praticados exclusivamente
pelo árbitro que possuem o condão de satisfazer, por si só, o comando contido na decisão
arbitral, a despeito da vontade do devedor e sem a intervenção do Poder Judiciário.
Nesse sentido, os atos de execução direta pelo árbitro, como será visto a seguir, podem
ser divididos em (i) provimentos autossatisfativos, (ii) os atos de sub-rogação ideal pelo
árbitro e, ainda, (iii) a execução imprópria.
208
ASSIS, Araken. Manual da execução. 15 ed. rev. e atual. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2013.
p. 99.
77
209
DINAMARCO, Cândido Rangel. O processo arbitral. 2ª edição. Curitiba: Editora Direito Contemporâneo,
2022. p. 212.
210
CAHALI, Francisco José. Curso de arbitragem : mediação : conciliação : resolução CNJ 125/2010. 5ª ed.
revista e atualizada, de acordo com a Lei nº 13.129/2015 (Reforma da Lei de Arbitragem), com a Lei
13.140/2015 (Marco Legal da Mediação) e o Novo CPC. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015.
p. 352.
211
DINAMARCO, Cândido Rangel. O processo arbitral. 2ª edição. Curitiba: Editora Direito Contemporâneo,
2022. p. 205.
212
GRECO, Leonardo. Instituições de Processo Civil. Vol. I. 4ª ed. e atual. Rio de Janeiro: Forense, 2013. p.
182.
78
limita a esclarecer o conteúdo ou a situação jurídica posta em debate, sem que, de imediato,
se imponha um dever de fazer, não fazer ou pagar.
Um exemplo de sentença arbitral meramente declaratória é aquela sentença que declara
a nulidade de uma cláusula contratual ou mesmo de todo o contrato, por um dos vícios
reconhecidos no direito213.
A ausência de conteúdo condenatório ou mandamental na sentença declaratória não
significa que ela seja desprovida de eficácia prática ou de consequências executivas indiretas.
Com efeito, o reconhecimento arbitral de determinado direito pode, posteriormente, servir
como base para a adoção de medidas executivas, caso uma das partes insista em descumprir
o que foi reconhecido ou continue a atuar em desconformidade com a situação jurídica
declarada.
Dinamarco leciona, ainda, que a eficácia da sentença arbitral declaratória é imediata,
produzindo seus efeitos no momento de sua prolação, ao passo que a eficácia da sentença
estatal declaratória não é imediata, uma vez que dependerá da interposição de recurso214.
Logo, se a eficácia é imediata, a simples prolação da sentença arbitral declaratória é
suficiente para que o comando contido na aludida sentença para a plena satisfação do
exequente.
213
CAHALI, Francisco José. Curso de arbitragem : mediação : conciliação : resolução CNJ 125/2010. 5ª ed.
revista e atualizada, de acordo com a Lei nº 13.129/2015 (Reforma da Lei de Arbitragem), com a Lei
13.140/2015 (Marco Legal da Mediação) e o Novo CPC. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015.
p. 351.
214
DINAMARCO, Cândido Rangel. O processo arbitral. 2ª edição. Curitiba: Editora Direito Contemporâneo,
2022. p. 213.
215
DINAMARCO, Cândido Rangel. O processo arbitral. 2ª edição. Curitiba: Editora Direito Contemporâneo,
2022. p. 212.
79
216
SCHINEMANN, Caio César Bueno. Arbitragem e execução: divisão de competências, poderes do árbitro
e limites subjetivos. São Paulo: Thompson Reuters Brasil, 2023. p. 128.
217
DINAMARCO, Candido Rangel. Momento de eficácia da sentença constitutiva. In: Fundamentos do
processo civil moderno, tomo II. 4ª ed. São Paulo: Malheiros, 2010. p. 1089.
218
DINAMARCO, Candido Rangel. Momento de eficácia da sentença constitutiva. In: Fundamentos do
processo civil moderno, tomo II. 4ª ed. São Paulo: Malheiros, 2010. p. 1091.
219
CAHALI, Francisco José. Curso de arbitragem : mediação : conciliação : resolução CNJ 125/2010. 5ª ed.
revista e atualizada, de acordo com a Lei nº 13.129/2015 (Reforma da Lei de Arbitragem), com a Lei
13.140/2015 (Marco Legal da Mediação) e o Novo CPC. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015.
p. 352.
220
Art. 501. Na ação que tenha por objeto a emissão de declaração de vontade, a sentença que julgar procedente
o pedido, uma vez transitada em julgado, produzirá todos os efeitos da declaração não emitida.
221
YARSHELL, Flávio Luiz. Tutela jurisdicional específica nas obrigações de declaração de vontade. São
Paulo: Malheiros, 1993. p. 129.
80
judiciária para esse fim, sendo dever do órgão registrador cumprir a sentença arbitral da
mesma maneira como cumpre a estatal222.
Nesse caso, bastaria um ofício para o registrador de imóveis registre a transferência do
bem. Não há qualquer necessidade de que esse ofício passe pelo Poder Judiciário, já que as
partes do processo arbitral são capazes, o objeto da lide é direito patrimonial disponível e
não já risco de lesão a terceiros. Afinal de contas, se o juiz togado não tem competência, em
sentido estrito, para alterar o mérito da decisão arbitral, submeter o ofício a uma apreciação
prévia seria uma formalidade absolutamente desnecessária223.
Nesse sentido, perante o registro de imóveis, a sentença arbitral tem eficácia idêntica à
sentença judicial, inclusive quando transfere o domínio, e o expediente a ser utilizado será
similar àquele disponível ao juízo estatal 224 . Sobre o assunto, Eduardo Pacheco Souza
leciona:
Com efeito, não há como negar o ingresso no fólio real das sentenças
arbitrais que decidam questões referentes a direitos patrimoniais relativos
a imóveis. Tendo os mesmos efeitos da sentença judicial, não pode ser
vedado o acesso ao registro da propriedade e produzindo os mesmos efeitos
da sentença judicial, não pode ser vedado o acesso ao registro da
propriedade, como aquela e todo e qualquer título apresentado a registro
(em sentido lato), sujeita à qualificação registral. Vale a advertência de
Álvaro Pinto de Arruda, ao se referir à qualificação dos títulos: Todos eles
estão sujeitos à obediência aos mesmos princípios e ao cumprimento de
idênticas cautelas ("Merecendo o título (carta de sentença arbitral)
qualificação positiva, o ato será praticado, cabendo ressaltar que ao
registrados não se permite ingressar no mérito da decisão arbitral quando
do exame.225
222
DINAMARCO, Cândido Rangel. O processo arbitral. 2ª edição. Curitiba: Editora Direito Contemporâneo,
2022. p. 214.
223
BERALDO, Leonardo de Faria. A eficácia das decisões do árbitro perante o registro de imóveis. In: Revista
de Arbitragem e Mediação. Ano 15, Vol. 58, jul./set. 2018. p. 175.
224
CAHALI, Francisco José. Curso de arbitragem : mediação : conciliação : tribunal multiportas. 9ª ed.
revista e atualizada. São Paulo: Thomson Reuters Brasil, 2022. p. 394.
225
SOUZA, Eduardo Pacheco Ribeiro de. Noções fundamentais de direito registral e notarial. São Paulo:
Saraiva, 2011. p. 263-265.
81
Com o mesmo raciocínio, poderá ser expedido ofício pelo árbitro a qualquer órgão
público de registro de propriedade de bens móveis, como por exemplo, Detran, quando não
bastar a apresentação de sentença pela parte interessada227.
É inegável, pois, a carga executória do árbitro na prolação de sentenças constitutivas,
já que elas, por si mesmas, satisfazem a pretensão do demandante, que foi reconhecida na
sentença arbitral.
226
Procedimento Administrativo de Dúvida Registral n. 000.05.032549-3, São Paulo, j. 06.06.2005.
227
CAHALI, Francisco José. Curso de arbitragem : mediação : conciliação : tribunal multiportas. 9ª ed.
revista e atualizada. São Paulo: Thomson Reuters Brasil, 2022. p. 394.
228
THEODORO JÚNIOR, Humberto. Processo de execução. 19ª ed. São Paulo: Livraria e Editora
Universitária de Direito Ltda., 1999. p. 59/60.
229
ASSIS, Araken. Manual da execução. 15 ed. rev. e atual. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2013.
p. 151.
82
A palavra sub-rogação tem origem do latim sub rogare, sub rogatio, e exprime a ideia
de substituição230, ou seja, significa a substituição de uma pessoa ou de uma coisa por outra
pessoa ou coisa numa relação jurídica231. Nas palavras de Maria Helena Diniz, sub-rogação
é “substituição de uma coisa por outra com os mesmos ônus e atributos, caso em que se tem
sub-rogação real, ou substituição de uma pessoa por outra, que terá os mesmos direitos e
ações daquela” 232 . A sub-rogação é bastante estudada pelos civilistas por ser uma das
modalidades de pagamento da obrigação adimplemento de obrigação.
Assim, no âmbito da execução, quando se menciona medida executiva sub-rogatória
significa que a implementação da medida executiva de invasão da esfera jurídica do devedor
será feita à despeito da vontade deste, cuja vontade será substituída (sub-rogada) pela vontade
do juiz233.
Esclarecido o conceito de sub-rogação, o árbitro, em regra, jamais poderia implementar
medidas executivas sub-rogatórias, já que ele poderia invadir a esfera jurídica do executado,
em substituição à vontade deste234. De fato, a sub-rogação é historicamente associada a atos
de força física, cuja prática é vedada ao árbitro, por opção legislativa, no Brasil e demais
países com tradição em arbitragem. Todavia, há atos de sub-rogação que se operam de forma
plena sem a utilização de força física alguma. Nesses casos, ao invés da sub-rogação
material, opera-se a sub-rogação meramente ideal. A sub-rogação ideal sempre precede a
sub-rogação material, mas é possível que a sub-rogação (ou seja, a mera alteração no plano
230
PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de direito civil. Vol. 2. Teoria geral das obrigações. 25ª ed.
Rio de Janeiro: Forense, 2013. p. 212.
231
WALD, Arnoldo. Direito civil: direito das obrigações e teoria geral dos contratos, vol. 2. 18ª ed.
reformulada com colaboração dos Professores Semy Glanz, Ana Elizabeth L. W. Cavalcanti e Liliana
Minardi Paesami. São Paulo: Saraiva, 2009. p. 114.
232
DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro, vol. 2, teoria geral das obrigações. 31ª ed. São
Paulo: Saraiva, 2016. p. 291.
233
“Apenas para se esclarecer os conceitos, as atividades sub-rogatórias, ou medidas de sub-rogação, consistem
em autêntica substituição de atividades, inclusive no plano físico, através das quais o Estado desenvolve
atividade que substitui a atuação do executado, dispensando-a, e que se revela capaz de produzir resultado
prático equivalente ao que se teria caso o próprio executado tivesse adimplido a obrigação. Há sub-rogação,
por outras palavras, quando o Estado apanha bens pertencentes ao executado (penhora, busca-e-apreensão),
faz incidir sobre eles as providências adequadas (avaliação, adjudicação, alienação em leilão judicial etc) e
termina por fazer aqui que, desde antes do processo, deveria ter feito o devedor: a entrega do bem ou do
dinheiro ao credor. Justamente por isso, denomina-se tal atividade de “medidas de sub-rogação”, ou seja,
medidas realizadas por um sujeito, em substituição à conduta de outro sujeito, que é o obrigado inadimplente
(sub-rogar, em direito, é ‘pôr no lugar de’).” CHACUR DE MIRANDA, Daniel. Poderes executórios do
árbitro. São Paulo: Quartier Latin, 2025. p.167/168.
234
Sobre a impossibilidade do árbitro implementar medidas executivas sub-rogatórias, vide capítulo 4.9 desta
dissertação.
83
235
CHACUR DE MIRANDA, Daniel. Poderes executórios do árbitro. São Paulo: Quartier Latin, 2025. p.
294.
236
Art. 190. Versando o processo sobre direitos que admitam autocomposição, é lícito às partes plenamente
capazes estipular mudanças no procedimento para ajustá-lo às especificidades da causa e convencionar
sobre os seus ônus, poderes, faculdades e deveres processuais, antes ou durante o processo.
Parágrafo único. De ofício ou a requerimento, o juiz controlará a validade das convenções previstas neste
artigo, recusando-lhes aplicação somente nos casos de nulidade ou de inserção abusiva em contrato de
adesão ou em que alguma parte se encontre em manifesta situação de vulnerabilidade.
237
DIDIER JR., Fredie. Princípio do autorregramento da vontade no processo civil. In: CABRAL, Antonio
do Passo. NOGUEIRA, Pedro Henrique (org.). Negócios processuais. Vol. I, (Grandes temas do novo CPC;
coord. Geral Fredie Didier Jr.). Salvador: Editora JusPodivm, 2015. p. 19/26. p. 22.
238
Art. 1º As pessoas capazes de contratar poderão valer-se da arbitragem para dirimir litígios relativos a
direitos patrimoniais disponíveis.
§ 1o A administração pública direta e indireta poderá utilizar-se da arbitragem para dirimir conflitos relativos
a direitos patrimoniais disponíveis.
§ 2o A autoridade ou o órgão competente da administração pública direta para a celebração de convenção
de arbitragem é a mesma para a realização de acordos ou transações.
239
SILVA, João Paulo Hecker da. Convenções processuais na execução e a desjudicialização da atividade
satisfativa. In: ASSUMPÇÃO, Marcio Calil de. BRAGANÇA, Gabriel José de Orleans (coord.). Direito
Bancário – Estudos da Comissão de Direito Bancário OAB/SP. São Paulo: Quartier Latin, 2018. 168.
84
São autoexecutáveis as garantias que, sob ponto de vista funcional, de maneira direta
ou indireta, por conduta ativa ou passiva, em momento anterior ou posterior ao
inadimplemento, atingem sua finalidade prática sem que haja, a princípio, a atuação
jurisdicional, forçando o adimplemento, possibilitando o autopagamento ou permitindo a
excussão e a tomada de bem em satisfação do crédito sem a participação do Poder
Judiciário240. Nesse sentido, uma simples sentença arbitral constitutiva seria suficiente para
possibilitar o autopagamento ou permitir a excussão e a tomada de bem para a satisfação do
crédito.
Com garantias autoexecutáveis, a lógica executiva das garantias é alterada. Em vez
de só se concretizarem com auxílio do Poder Judiciário, recebem efeito prático por ato do
próprio credor. Trata-se de uma tendência e de uma necessidade.
Quanto mais o credor confiar que as obrigações serão cumpridas pontualmente e de
maneira célere, melhor é para o mercado. Essa rapidez, contudo, não é própria do Poder
Judiciário, que não possui estrutura adequada para lidar com o número de ações judiciais
cada vez mais crescentes. É nesse contexto que o mercado tem buscado garantias não
dependa da intervenção judicial241. Como alerta Antonio Junqueira de Azevedo, “da fuga
para o juiz, cabe hoje falar em fuga do juiz – e isso, diga-se, não diminui o Poder Judiciário,
eis que este fica limitado a agir nas hipóteses em que, de fato, é necessário como julgador”242.
De fato, a modalidade de garantia autoexecutável que mais interessa aos poderes
executórios do árbitro são os negócios fiduciários, uma vez que a decisão do árbitro é capaz
de atingir o resultado prático desejado independentemente de atos de invasão da esfera
patrimonial do devedor. E a razão é muito simples: o bem ou direito, objeto da ordem arbitral,
não é mais titularizado pelo devedor, na medida em que foi transferido em fidúcia ao
credor243.
240
LEVADA. Filipe Antônio Marchi. Garantias autoexecutáveis. [Tese de doutorado apresentada à Faculdade
de Direito da Universidade de São Paulo - USP, sob orientação do Prof. Dr. Nestor Duarte]. USO, São
Paulo, 2021. p. 70.
241
LEVADA. Filipe Antônio Marchi. Garantias autoexecutáveis. [Tese de doutorado apresentada à Faculdade
de Direito da Universidade de São Paulo - USP, sob orientação do Prof. Dr. Nestor Duarte]. USO, São
Paulo, 2021. p. 73.
242
AZEVEDO, Antonio Junqueira de. O direito pós-moderno. Revista da USO, v. 42, p. 96-101, 1999. P. 102.
243
CHACUR DE MIRANDA, Daniel. Poderes executórios do árbitro. São Paulo: Quartier Latin, 2025. p.
229.
85
244
KATZ, Igor Santos. Os impactos da blockchain nas relações econômicas internacionais [Tese de doutorado
apresentada à Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP, sob a
orientação do Prof. Dr. Carlos Roberto Dusek]. PUC/SP, São Paulo, 2023. p. 18.
245
NAKAMOTO, Satoshi. Bitcoin: Peer-toPeer Eletronic Cash System. <chrome-
extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/[Link] Acesso em 22.09.2025.
246
RIBEIRO, Lucas; MENDIZABAL, Odorico. Introdução à Blockchain e Contratos Inteligentes: Apostila
para Iniciante. Universidade Federal de Santa Catarina – Departamento de Informática e Estatística, 2019,
p. 21. Disponível em <[Link]
[Link]?sequence=1&isAllowed=y>. Acesso em: 10 dez. 2023.
247
JESUS, Luana Esselin Perdiz de Jesus. A aplicação do Direito Autoral no Contrato Inteligente. [Dissertação
de mestrado apresentada à Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo –
PUC/SP, sob a orientação do Prof. Dr. Francisco José Cahali]. PUC/SP, São Paulo, 2024. p. 99.
248
“A smart contract is a computerized transaction protocol that executes the terms of a contract”. SZABO,
Nick. Smart Contracts. Universiteit van Amsterdam. (1994). Disponível em:
[Link]
Twinterschool2006/[Link]/[Link]. Acesso em: 22 set. 2025.
86
249
“The general objectives of smart contract design are to satisfy common contractual conditions (such as
payment terms, liens, confidentiality, and even enforcement), minimize exceptions both malicious and
accidental, and minimize the need for trusted intermediaries.” SZABO, Nick. Smart Contracts. Universiteit
van Amsterdam. (1994). Disponível em:
<[Link]
Twinterschool2006/[Link]/[Link]>. Acesso em: 22 set. 2025.
250
SZABO, Nick. The Idea of Smart Contracts. (1997). Disponível em
<[Link]
0 6/[Link]/[Link]>. Acesso em: 22 set. 2025.
251
JESUS, Luana Esselin Perdiz de Jesus. A aplicação do Direito Autoral no Contrato Inteligente. [Dissertação
de mestrado apresentada à Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo –
PUC/SP, sob a orientação do Prof. Dr. Francisco José Cahali]. PUC/SP, São Paulo, 2024. p. 113.
87
252
TALAMINI, Eduardo. CARDOSO, André Guskow. Smart contracts, “autotutela” e tutela jurisdicional.
In: BELIZZE, Marco Aurélio. MENDES, Aluísio Gonçalves de Castro. ARRUDA ALVIM, Teresa.
CABRAL, Trícia Navarro Xavier (org.). Execução civil – novas tendências: estudos em homenagem ao
professor Arruda Alvim. Indaiatuba: Editora Foco, 2022. p. 47.
253
No original, “A smart contract is a self-enforcing agreement embedded in computer code managed by a
blockchain. The code contains a set of rules under which the parties of that smart contract agree to interact
with each other. If and when the predefined rules are met, the agreement is automatically enforced.”
(VOSHMGIR, Shermin. Token Economy: how Blockchains and smart contracts revolutionize the economy.
Berlim: Amazon Media, 2019. p. 88)
254
CHACUR DE MIRANDA, Daniel. Poderes executórios do árbitro. São Paulo: Quartier Latin, 2025. p.
238.
255
SCHINEMANN, Caio César Bueno. Arbitragem e execução: divisão de competências, poderes do árbitro
e limites subjetivos. São Paulo: Thompson Reuters Brasil, 2023. p. 152.
88
256
LIEBMAN. Enrico Tulio. Processo de execução, 4ª ed. São Paulo: Saraiva, 1980. p. 9.
257
CHACUR DE MIRANDA, Daniel. Poderes executórios do árbitro. São Paulo: Quartier Latin, 2025. p.
175.
258
SCHINEMANN, Caio César Bueno. Arbitragem e execução: divisão de competências, poderes do árbitro
e limites subjetivos. São Paulo: Thompson Reuters Brasil, 2023. p. 207.
259
“1.3) O que é um “processo de execução”? Não há como negar que a súmula que acabei de enunciar é
bastante frustrante. Ela, vou ser honesto, não leva a lugar nenhum e ainda pode ser acusada de ser tautológica
porque, em última análise, ela diz que sentença condenatória é aquela que condena. Para contornar estas
críticas — pertinentes —, não há como não reconhecer que, realmente, falta, ao conceito de sentença
condenatória um complemento. Sentença condenatória reclama, por definição, o processo de execução,
porque sua estrutura, em si mesma considerada, não é diferente de nenhuma outra classe de sentença, as
declaratórias ou constitutivas. O que a diferencia — e sobre isto não há divergências maiores em doutrina
— das demais “sentenças” é justamente seu reconhecimento de que ela, sentença condenatória, é muito
mais ato preparatório do que qualquer outra coisa. A sentença condenatória não se basta. Ela precisa de algo
mais e este algo mais é o processo de execução.10 Ela é só causa; não o efeito. Vamos a ele. Mantendo,
ainda, uma forma mais tradicional de exposição, o chamado “processo de execução”, que se contrapõe ao
“processo de conhecimento” e ao “processo cautelar”, é aquele voltado à realização concreta de uma
sentença condenatória.11 Interessante frisar e refrisar este ponto: se a sentença não for condenatória, não há
processo de execução. Uma sentença declaratória ou uma sentença constitutiva não reclama um processo
de execução, ela não se executa (o termo é técnico); realizando-se ou tornando-se realidade, sem necessidade
de um outro processo para sua implementação concreta. No máximo, tolera-se uma execução “imprópria”
que, como o próprio nome diz, nada tem de execução mas de meros atos materiais de documentação do
quanto decidido pelo juiz, dando-lhe publicidade.12 O que interessa nos casos de sentença declaratória e
constitutiva é que a sentença basta por si só.” (BUENO. Cassio Scarpinella. Cumprimento da sentença e
processo de execução: ensaio sobre o cumprimento das sentenças condenatórias. In: DIDIER JR. Fredie.
Execução civil- Estudos em homenagem ao Professor Paulo Furtado. Rio de Janeiro: Lumem Juris, 2006)
89
260
SCHINEMANN, Caio César Bueno. Arbitragem e execução: divisão de competências, poderes do árbitro
e limites subjetivos. São Paulo: Thompson Reuters Brasil, 2023. p. 207.
261
DINAMARCO, Cândido Rangel. O processo arbitral. 2ª edição. Curitiba: Editora Direito Contemporâneo,
2022. p. 215.
90
a mesma efetivação a uma sentença arbitral. Por isso, cabe ao órgão público acatar a decisão
arbitral e promover diretamente a efetivação da sentença arbitral que lhe foi apresentada a
partir dos mesmos critérios que utilizaria para efetivação de uma sentença judiciária, sendo
desnecessária qualquer homologação da sentença arbitral por um juiz estatal262.
E não é só. A sentença arbitral deve receber o mesmo tratamento da que as decisões
judiciais no que se refere à possibilidade de constituição de hipoteca judiciária, prevista no
art. 495, do Código de Processo Civil263. A hipoteca judiciária é definida como o “direito
real conferido ao exequente, em garantia da execução do julgado”264. Trata-se de efeito anexo
da decisão condenatória, ocorrendo mesmo sem pedido da parte ou decisão expressa do
julgador265.
Do mesmo modo, a sentença arbitral inadimplida também deve receber o mesmo
tratamento da decisão judicial transitada em julgada, no que tange à possibilidade de se tornar
262
SCHINEMANN, Caio César Bueno. Arbitragem e execução: divisão de competências, poderes do árbitro
e limites subjetivos. São Paulo: Thompson Reuters Brasil, 2023. p. 208.
263
Art. 495. A decisão que condenar o réu ao pagamento de prestação consistente em dinheiro e a que
determinar a conversão de prestação de fazer, de não fazer ou de dar coisa em prestação pecuniária valerão
como título constitutivo de hipoteca judiciária.
§ 1º A decisão produz a hipoteca judiciária:
I - embora a condenação seja genérica;
II - ainda que o credor possa promover o cumprimento provisório da sentença ou esteja pendente arresto
sobre bem do devedor;
III - mesmo que impugnada por recurso dotado de efeito suspensivo.
§ 2º A hipoteca judiciária poderá ser realizada mediante apresentação de cópia da sentença perante o cartório
de registro imobiliário, independentemente de ordem judicial, de declaração expressa do juiz ou de
demonstração de urgência.
§ 3º No prazo de até 15 (quinze) dias da data de realização da hipoteca, a parte informá-la-á ao juízo da
causa, que determinará a intimação da outra parte para que tome ciência do ato.
§ 4º A hipoteca judiciária, uma vez constituída, implicará, para o credor hipotecário, o direito de preferência,
quanto ao pagamento, em relação a outros credores, observada a prioridade no registro.
§ 5º Sobrevindo a reforma ou a invalidação da decisão que impôs o pagamento de quantia, a parte
responderá, independentemente de culpa, pelos danos que a outra parte tiver sofrido em razão da
constituição da garantia, devendo o valor da indenização ser liquidado e executado nos próprios autos.
264
TUCCI, José Rogério Cruz e. Hipoteca judiciária e devido processo legal. In: Revista do Instituto dos
Advogados de São Paulo, vol. 7/2001, p. 70-75, Jan-Jun/2001.
265
SCHINEMANN, Caio César Bueno. Arbitragem e execução: divisão de competências, poderes do árbitro
e limites subjetivos. São Paulo: Thompson Reuters Brasil, 2023. p. 212.
91
um título protestável, nos termos do art. 517 do Código de Processo Civil266. Igualmente, a
sentença arbitral pode determinar a sustação e o cancelamento de protesto267.
Bem entendida as hipóteses de atos de execução direta pelo árbitro, deve objeto de
análise mais detida os atos de execução indireta pelo árbitro.
Excetuando as hipóteses em que é possível a execução direta pelo árbitro, como a
satisfação de obrigação depende, em princípio, da vontade do obrigado, buscam-se meios
capazes de influir sobre a sua vontade (meios de coação)268.
Dinamarco designa, como execução indireta, as medidas coercitivas, que exercem uma
pressão psicológica no devedor para que este cumpra a obrigação estabelecida no título
executivo. Na realidade, tais medidas não dão efetividade aos preceitos jurídicos, mas
somente põem o executado em verdadeiros dilemas269.
Sobre o assunto, Fredie Didier Jr. leciona que
266
Art. 517. A decisão judicial transitada em julgado poderá ser levada a protesto, nos termos da lei, depois de
transcorrido o prazo para pagamento voluntário previsto no art. 523.
§ 1º Para efetivar o protesto, incumbe ao exequente apresentar certidão de teor da decisão.
§ 2º A certidão de teor da decisão deverá ser fornecida no prazo de 3 (três) dias e indicará o nome e a
qualificação do exequente e do executado, o número do processo, o valor da dívida e a data de decurso do
prazo para pagamento voluntário.
§ 3º O executado que tiver proposto ação rescisória para impugnar a decisão exequenda pode requerer, a
suas expensas e sob sua responsabilidade, a anotação da propositura da ação à margem do título protestado.
§ 4º A requerimento do executado, o protesto será cancelado por determinação do juiz, mediante ofício a
ser expedido ao cartório, no prazo de 3 (três) dias, contado da data de protocolo do requerimento, desde que
comprovada a satisfação integral da obrigação.
267
SCHINEMANN, Caio César Bueno. Arbitragem e execução: divisão de competências, poderes do árbitro
e limites subjetivos. São Paulo: Thompson Reuters Brasil, 2023. p. 214/217.
268
ALVIM, José Eduardo Carreira. Tutela específica das obrigações de fazer e não fazer. Belo Horizonte:
Del Rey, 1997. p. 105.
269
DINAMARCO, Candido Rangel. Execução civil. 6ª ed., rev. e atual. São Paulo: Malheiros, 1998. p. 101.
92
Há, na doutrina, quem entenda que as medidas coercitivas não constituiriam atividade
propriamente executiva271, mas, data maxima venia, a execução indireta constitui autêntica
atividade executiva, já que diz respeito a mecanismos sancionatórios, voltados à satisfação
do direito do credor272.
Desde a Roma antiga, havia previsão de execução indireta. O direito romano previa o
instituto da manus injectio, que se caracterizava pelo emprego da força contra o próprio
obrigado. Acorrentado na praça pública, ele era exprobrado a solver a dívida e, finalmente,
remanescendo insatisfeito o crédito reclamado pelo credor, padecia o devedor a brutal e
irreversível sanção de morte273.
Atualmente, as astreintes são um mecanismo de execução indireta por excelência274 e,
no dizer de Maria Helena Diniz, podem ser conceituadas como “a multa destinada a forçar o
devedor indiretamente a fazer o que deve, e não a reparar dano decorrente” 275. No mesmo
sentido, Alexandre Câmara leciona que
[...] a astreinte pode ser caracterizada como uma multa periódica, imposta
pelo juiz em função da demora no cumprimento da obrigação de fazer ou
270
DIDIER JR., Fredie. CUNHA, Leonardo Carneiro da. BRAGA, Paula Sarno. OLIVEIRA, Rafael
Alexandria. Curso de direito processual civil: execução. Vol. 5. 5ª ed. Salvador: Editora Jus Podivm, 2013.
p. 35.
271
“O emprego desses meios de coerção não constitui atividade propriamente executiva. A execução forçada,
em sentido técnico, tem como característica a virtude de atuar praticamente a norma jurídica concreta,
satisfazendo o credor, independentemente da colaboração do devedor, e mesmo contra a sua vontade, que
se despe de qualquer relevância. Aqui bem ao contrário, em vez de prescindir-se da atividade do devedor,
o que se procura é influenciá-lo psicologicamente, para que se disponha a realiza-la ele próprio. Atividade
executiva autêntica pode, sim, vir a realizar-se, quando se for cobrar do devedor, pelo procedimento da
execução por quantia certa, o montante da multa em que porventura incorra, pelo atraso no cumprimento da
condenação principal. Fora daí, o mecanismo que ora se estuda é menos uma execução propriamente dita
do que um sucedâneo da execução.” (MOREIRA, José Carlos Barbosa. O novo processo civil brasileiro:
exposição sistemática do procedimento. 23ª ed. rev. e atual. Rio de Janeiro: Forense, 2005. p. 218.)
272
DIDIER JR., Fredie. CUNHA, Leonardo Carneiro da. BRAGA, Paula Sarno. OLIVEIRA, Rafael
Alexandria. Curso de direito processual civil: execução. Vol. 5. 5ª ed. Salvador: Editora Jus Podivm, 2013.
p. 35.
273
ASSIS, Araken. Manual da execução. 15 ed. rev. e atual. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2013.p.
146.
274
SCHINEMANN, Caio César Bueno. Arbitragem e execução: divisão de competências, poderes do árbitro
e limites subjetivos. São Paulo: Thompson Reuters Brasil, 2023. p. 153.
275
DINIZ, Maria Helena. Dicionário Jurídico. São Paulo: Saraiva, 1998. p. 301.
93
Nesse contexto, como já adiantado no capítulo 10, o árbitro possui poderes para
implementar mecanismos de execução indireta, que exercem uma pressão psicológica no
devedor para que este cumpra voluntariamente a obrigação277. O árbitro pode, por exemplo,
cominar uma multa ou astreintes pelo inadimplemento da obrigação contida na sentença
arbitral. O risco de incidência da aludida multa é uma forma de pressionar o sucumbente a
adimplir a sua dívida278.
As astreintes, assim, cumprem duas funções fundamentais: (a) função cominatória, que
surge da decisão judicial que impõe uma condenação pecuniária a quem não cumpre uma
ordem dada pelo juiz no uso de seus poderes; e, ainda, (b) função sancionatória, que se dá no
suposto de que o obrigado – em que pese a cominação – não cumpra sua obrigação, caso em
que não existe mera coação psicológica, senão pena stricto sensu, traduzida na aplicação
direta do que até então constituiu só uma ameaça279.
Para além das astreintes, a mais tradicional sanção privada a quem descumpre uma
decisão arbitral é o ostracismo comercial, que tem o condão de isolar o devedor no seu
mercado, de modo dificultar o exercício de sua atividade econômica. E o ostracismo
comercial prescinde em absoluto da tutela executiva estatal280. Sobre esse aspecto, Carmona,
ao comentar sobre cumprimento da sentença arbitral, leciona que
276
CÂMARA, Alexandre Freitas. Lições de direito processual civil. 18ª ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2010.
p. 256.
277
APRIGLIANO, Ricardo de Carvalho. Normas processuais aplicáveis à arbitragem. [Tese de Livre-
docência em Direito Processual Civil] USP, São Paulo, 2022. p. 291/292.
278
CLAY, Thomas. As medidas cautelares requeridas ao árbitro. In: Revista de Arbitragem e Mediação, São
Paulo: Revista dos Tribunais, v. 18, jul.-set. 2008. [livro eletrônico].
279
ALVIM, José Eduardo Carreira. Tutela específica das obrigações de fazer e não fazer. Belo Horizonte:
Del Rey, 1997. p. 110.
280
SCHINEMANN, Caio César Bueno. Arbitragem e execução: divisão de competências, poderes do árbitro
e limites subjetivos. São Paulo: Thompson Reuters Brasil, 2023. p. 153.
94
Embora o árbitro tenha poderes para a prática de diversos atos executivos que, por si
só, têm o condão de satisfazer a obrigação prevista na sentença arbitral, é evidente que esses
poderes executórios encontram limitações.
A limitação aos poderes executórios do árbitro é para as hipóteses em que é necessária
a implementação de atos executivos sub-rogatórios em sentido estrito, que são, nas palavras
de Araken de Assis, “os meios que abstraem a participação do executado”283. Ou seja, atos
que substituem, de maneira forçada, a vontade do devedor.
De fato, quando os mecanismos de execução direta e a indireta pelo árbitro,
veiculados nos capítulos anteriores, não são suficientes para satisfazer o comando contido na
sentença arbitral, é necessário substituir forçosamente a vontade do executado, através de
atos executivos sub-rogatórios em sentido estrito.
281
CARMONA, Carlos Alberto. Arbitragem e Processo: um comentário à lei nº 9.307/96. 4ª ed. Barueri - SP:
Atlas, 2023. p. 397.
282
CARMONA, Carlos Alberto. Arbitragem e Processo: um comentário à lei nº 9.307/96. 4ª ed. Barueri - SP:
Atlas, 2023. p. 397/398.
283
ASSIS, Araken. Manual da execução. 15ª ed. rev. e atual. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2013.
p. 151.
95
Os árbitros não detêm poder, por exemplo, para determinar a penhora de ativos
financeiros do executado. Para efetivar o bloqueio de dinheiro na conta corrente do
executado, é necessário substituir forçosamente a vontade do devedor. Nessas hipóteses, em
que os poderes executórios do árbitro não são suficientes, é necessário socorrer-se do Poder
Judiciário para o fim de satisfazer a obrigação estabelecida na sentença arbitral, através de
medidas executivas sub-rogatórias stricto sensu. Essas medidas executivas sub-rogatórias
stricto sensu, por sua vez, serão concretizadas pelo Poder Judiciário em pedido de
cumprimento de sentença a ser apresentado pelo credor, já que a sentença arbitral nacional é
considerada título executivo judicial (art. 515, VII, CPC284).
A segunda limitação aos poderes executórios do árbitro está intimamente ligada às
hipóteses de nulidade de sentença arbitral. Explique-se: como os atos executórios do árbitro
estão inseridos no domínio decisório do árbitro, esses atos, em regra, não se submetem ao
controle do Poder Judiciário. Exceções a essa regra estão expressamente previstas em lei,
notadamente nas hipóteses de cabimento de ação declaratória de nulidade da sentença arbitral
(arts. 32 e 33 da Lei de Arbitragem285286).
Tais exceções devem ser interpretadas de modo a permitir a revisão de possíveis
vícios processuais (errores in procedendo) nas deliberações do árbitro tomadas após a
284
Art. 515. São títulos executivos judiciais, cujo cumprimento dar-se-á de acordo com os artigos previstos
neste Título: [...] VII - a sentença arbitral;
285
Art. 32. É nula a sentença arbitral se:
I - for nula a convenção de arbitragem;
II - emanou de quem não podia ser árbitro;
III - não contiver os requisitos do art. 26 desta Lei;
IV - for proferida fora dos limites da convenção de arbitragem;
VI - comprovado que foi proferida por prevaricação, concussão ou corrupção passiva;
VII - proferida fora do prazo, respeitado o disposto no art. 12, inciso III, desta Lei; e
VIII - forem desrespeitados os princípios de que trata o art. 21, § 2º, desta Lei.
286
Art. 33. A parte interessada poderá pleitear ao órgão do Poder Judiciário competente a declaração de
nulidade da sentença arbitral, nos casos previstos nesta Lei.
§ 1o A demanda para a declaração de nulidade da sentença arbitral, parcial ou final, seguirá as regras do
procedimento comum, previstas na Lei n o 5.869, de 11 de janeiro de 1973 (Código de Processo Civil), e
deverá ser proposta no prazo de até 90 (noventa) dias após o recebimento da notificação da respectiva
sentença, parcial ou final, ou da decisão do pedido de esclarecimentos.
§ 2o A sentença que julgar procedente o pedido declarará a nulidade da sentença arbitral, nos casos do art.
32, e determinará, se for o caso, que o árbitro ou o tribunal profira nova sentença arbitral.
§ 3o A decretação da nulidade da sentença arbitral também poderá ser requerida na impugnação ao
cumprimento da sentença, nos termos dos arts. 525 e seguintes do Código de Processo Civil, se houver
execução judicial.
§ 4o A parte interessada poderá ingressar em juízo para requerer a prolação de sentença arbitral
complementar, se o árbitro não decidir todos os pedidos submetidos à arbitragem.
96
287
SCHINEMANN, Caio César Bueno. Arbitragem e execução: divisão de competências, poderes do árbitro
e limites subjetivos. São Paulo: Thompson Reuters Brasil, 2023. p. 166.
288
PINTO, José Emilio Nunes. Anulação de sentença arbitral infra petita, extra petita ou ultra petita. In:
JOBIM, Eduardo; MACHADO, Rafael Bicca (coord.). Arbitragem no Brasil: Aspectos Jurídicos
Relevantes. São Paulo: Quartier Latin, 2008. p. 251.
97
Desse modo, qualquer ato executório oriundo de decisão inquinada de um dos vícios
indicados no arts. 32 da Lei de Arbitragem será considerado nulo e estará sujeito ao controle
jurisdicional estatal, por meio da ação de declaração de nulidade da sentença arbitral (art. 33,
caput, da Lei de Arbitragem).
Como se viu até aqui, há diversas hipóteses em que o árbitro pode, sem intervenção
do Poder Judiciário, praticar atos com o objetivo de dar efetividade à decisão arbitral. E não
são poucos esses atos que podem ser praticados pelos árbitros.
E, para melhor visualização, confira-se a tabela demonstrativa a seguir, na qual são
elencados quais atos executórios a serem praticados pelo árbitro dependem, ou não, da
intervenção do juiz estatal, acompanhados de um exemplo prático para cada uma das
hipóteses de ato executório:
289
STJ, 3ª Turma, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, REsp n. 1.636.102/SP, julgado em 13.6.2017.
98
Necessidade de
intervenção do
Descrição juiz estatal Exemplo
Meramente Sentença arbitral que declara a nulidade de um
declaratório Não contrato.
Assim, é possível concluir que o árbitro está, sim, revestido de poderes para a prática
de atos executórios, observando-se, evidentemente, as limitações já descritas no capítulo 4.9
desta dissertação.
4.11. Sugestão de lege ferenda para o aprimoramento legislativo no que se refere aos
poderes executórios do árbitro
Contudo, deve se reconhecer que, além dessas hipóteses, seria sustentável, numa
interpretação estritamente literal do art. 29 da Lei de Arbitragem, a tese de que, uma vez
proferida a sentença arbitral, estaria encerrada a jurisdição do árbitro (functus officio) e,
portanto, seria vedado ao árbitro praticar atos como o objetivo de implementar os comandos
contidos na sentença arbitral.
Essa tese, como exaustivamente demonstrado no 3.4. desta dissertação, não se
sustém, já que a regra do functus officio tem sido reiteradamente flexibilizada. Seja como
for, seria conveniente e bem-vinda uma alteração legislativa no sentido de modificar a
redação do art. 29 da Lei de Arbitragem, a fim de constar expressamente a ressalva de que o
arbitro, mesmo após proferida a sentença arbitral, pode praticar atos com o objetivo de
implementar os comandos contidos na sentença arbitral.
Assim, propõe-se o acréscimo de um parágrafo único ao art. 29 da Lei de Arbitragem,
com a seguinte redação:
Art. 29. Proferida a sentença arbitral, dá-se por finda a arbitragem, devendo
o árbitro, ou o presidente do tribunal arbitral, enviar cópia da decisão às
partes, por via postal ou por outro meio qualquer de comunicação, mediante
comprovação de recebimento, ou, ainda, entregando-a diretamente às
partes, mediante recibo.
Parágrafo único. O encerramento da arbitragem previsto no caput não
impede que o árbitro pratique todos os atos necessários para a
implementação dos comandos contidos na sentença arbitral, sendo vedado
ao árbitro apenas a prática de atos executivos sub-rogatórios em sentido
estrito.
Essa sugestão de lege ferenda afastaria, de uma vez por todas, o entendimento
respaldado em uma simples interpretação literal do art. 29, que constitui um verdadeiro óbice
para que o processo arbitral satisfaça o jurisdicionado, com a efetivação da solução adequada
do litígio.
100
290
LIEBMAN, Enrico Tullio. Processo de execução. Com notas de atualização do Prof. Joaquim Munhoz de
Mello. 5ª edição. São Paulo: Saraiva, 1986. p. 4.
291
SICA. Heitor Vitor Mendonça. Cognição do juiz na execução civil. 1ª ed. São Paulo: Editora Revista dos
Tribunais, 2017. p. 269.
101
ou execução292, nos termos do art. 509 do Código de Processo Civil 293. A liquidação de
sentença destina-se apenas a determinação do valor (quantum debeatur)294.
Sobre o assunto, é relevante destacar a lição de Eduardo Talamini e Felipe Scribes
Wladeck:
292
MOREIRA, José Carlos Barbosa. O novo processo civil brasileiro: exposição sistemática do procedimento.
25ª ed. rev. e atual. Rio de Janeiro, Forense, 2007. p. 186.
293
Art. 509. Quando a sentença condenar ao pagamento de quantia ilíquida, proceder-se-á à sua liquidação, a
requerimento do credor ou do devedor: I - por arbitramento, quando determinado pela sentença,
convencionado pelas partes ou exigido pela natureza do objeto da liquidação; II - pelo procedimento
comum, quando houver necessidade de alegar e provar fato novo.
294
ARAÚJO, Luciano Vianna. A natureza jurídica da liquidação do título executivo judicial, a partir do
modelo sincrético de processo. [Tese de doutorado apresentada à Faculdade de Direito da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP, sob orientação do Prof. Dr. Cassio Scarpinella Bueno].
PUC/SP, São Paulo, 2019. p. 68.
295
TALAMINI, Eduardo. WLADECK, Felipe Scripes. Sentença arbitral e liquidez. In: Arbitragem e Poder
Público. São Paulo: Saraiva, 2010. 163/164.
296
CAHALI, Francisco José. Curso de arbitragem : mediação : conciliação : resolução CNJ 125/2010. 5ª ed.
revista e atualizada, de acordo com a Lei nº 13.129/2015 (Reforma da Lei de Arbitragem), com a Lei
13.140/2015 (Marco Legal da Mediação) e o Novo CPC. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015.
p. 340.
102
árbitros contam com aceitação geral, enquadrando-se no conceito de sentenças parciais, que
o art. 23, § 1º da Lei de Arbitragem297 expressamente autoriza298.
Além disso, outro problema dessa temática diz respeito à competência para liquidar
a sentença arbitral ilíquida. A questão é controvertida na doutrina.
Alguns juristas defendem que a liquidação de sentença deve ser realizada,
obrigatoriamente, no âmbito do Poder Judiciário299. Em contrapartida, há quem entenda que,
via de regra, não cabe ao Judiciário promover a liquidação da sentença arbitral, devendo a
fixação do valor da condenação ser feita diretamente na arbitragem300.
Nesse contexto, é aplicável o princípio geral da competência dos árbitros inclusive
para a liquidação, segundo o qual cabe ao próprio juízo arbitral definir o montante que é
objeto da condenação a pagamento por ela emitida. Logo, quando o título executivo for uma
sentença arbitral, em regra, destinar-se-á apenas o cumprimento de sentença (CPC, 515, VII),
uma vez que a liquidação deverá ter lugar na própria esfera arbitral, não perante o Poder
Judiciário301.
Na hipótese de prolação de sentença parcial que conclua somente pela existência do
direito do autor (an debeatur), deixando para um momento posterior a declaração do valor
devido (quantum debeatur), dificuldade alguma haverá para determinação da competência
para essa liquidação, a qual será feita pelos próprios árbitros no prosseguimento do mesmo
processo, mediante a prolação da sentença final.
Por outro lado, na hipótese de prolação de sentença final ilíquida pelo árbitro, será
necessário, antes de mais nada, analisar a convenção de arbitragem. Caso as partes ajustem
expressamente que a liquidação de sentença não será realizada no âmbito da arbitragem, a
297
Art. 23. A sentença arbitral será proferida no prazo estipulado pelas partes. Nada tendo sido convencionado,
o prazo para a apresentação da sentença é de seis meses, contado da instituição da arbitragem ou da
substituição do árbitro.
Parágrafo único. As partes e os árbitros, de comum acordo, poderão prorrogar o prazo estipulado.
§ 1o Os árbitros poderão proferir sentenças parciais.
298
DINAMARCO, Cândido Rangel. O processo arbitral. 2ª edição. Curitiba: Editora Direito Contemporâneo,
2022. p. 211.
299
Nesse sentido, confira-se: THEODORO JÚNIOR, Humberto. As novas reformas do código de processo
civil. São Paulo: Forense, 2006. p. 152; NERY JUNIOR, Nelson. NERY, Rosa de Andrade. Código de
processo civil comentado e legislação extravagante, 9ª ed., São Paulo: Revista dos Tribunais, 2006. p. 657.
300
Nesse sentido, confira-se: CARMONA, Carlos Alberto. Arbitragem e Processo: um comentário à lei nº
9.307/96. 4ª ed. Barueri - SP: Atlas, 2023. p. 314; TALAMINI, Eduardo. WLADECK, Felipe Scripes.
Sentença arbitral e liquidez. In: Arbitragem e Poder Público. São Paulo: Saraiva, 2010. 163
301
TALAMINI, Eduardo. WLADECK, Felipe Scripes. Sentença arbitral e liquidez. In: Arbitragem e Poder
Público. São Paulo: Saraiva, 2010. 162/163.
103
liquidação de sentença deverá ser processada perante o Poder Judiciário302. Caso as partes
ajustem que todo o litígio será solucionado pelo árbitro, a liquidação de sentença deverá ser
processada no âmbito da arbitragem303.
302
CAHALI, Francisco José. Curso de arbitragem : mediação : conciliação : resolução CNJ 125/2010. 5ª ed.
revista e atualizada, de acordo com a Lei nº 13.129/2015 (Reforma da Lei de Arbitragem), com a Lei
13.140/2015 (Marco Legal da Mediação) e o Novo CPC. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015.
p. 340.
303
DINAMARCO, Cândido Rangel. O processo arbitral. 2ª edição. Curitiba: Editora Direito Contemporâneo,
2022. p. 211.
304
Art. 518. Todas as questões relativas à validade do procedimento de cumprimento da sentença e dos atos
executivos subsequentes poderão ser arguidas pelo executado nos próprios autos e nestes serão decididas
pelo juiz.
305
Art. 803. É nula a execução se:
I - o título executivo extrajudicial não corresponder a obrigação certa, líquida e exigível;
II - o executado não for regularmente citado;
III - for instaurada antes de se verificar a condição ou de ocorrer o termo.
Parágrafo único. A nulidade de que cuida este artigo será pronunciada pelo juiz, de ofício ou a requerimento
da parte, independentemente de embargos à execução.
306
Art. 525. [...] § 11. As questões relativas a fato superveniente ao término do prazo para apresentação da
impugnação, assim como aquelas relativas à validade e à adequação da penhora, da avaliação e dos atos
executivos subsequentes, podem ser arguidas por simples petição, tendo o executado, em qualquer dos
casos, o prazo de 15 (quinze) dias para formular esta arguição, contado da comprovada ciência do fato ou
da intimação do ato.
307
CHACUR DE MIRANDA, Daniel. Poderes executórios do árbitro. [Tese de doutorado apresentada à
Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo - USP, sob orientação do Prof. Dr. Flávio Luiz Yarshell].
USP, São Paulo, 2024. p. 140.
104
uma vez apresentados embargos à execução que discutam o mérito, isto é, o próprio título
executivo extrajudicial ou às obrigações nele consignadas, a execução deverá ser
imediatamente suspensa, devendo essas questões serem decididas na arbitragem. Confira-se
os expressivos precedentes:
308
STJ, AgInt no AREsp n. 2.386.681/RS, Relator Ministro Marco Buzzi, Quarta Turma, julgado em
4.12.2023, DJe de 7.12.2023.
105
309
STJ, REsp n. 1.949.566/SP, Relator Ministro Luís Felipe Salomão, Quarta Turma, julgamento em
14.09.2021, DJe 19.10.2021.
310
SCHINEMANN, Caio César Bueno. Arbitragem e execução: divisão de competências, poderes do árbitro
e limites subjetivos. São Paulo: Thompson Reuters Brasil, 2023. p. 63/64.
106
Quando da edição da Lei de Arbitragem, não havia dispositivos legais que previssem
mecanismos capazes de viabilizar a atuação conjunta entre o árbitro e o Poder Judiciário.
Diante dessa omissão legislativa, doutrinadores passaram a sugerir uma solução prática: que
o árbitro encaminhasse ao juiz estatal um ofício, acompanhado da convenção de arbitragem
— documento que atestaria sua investidura —, para informar a necessidade de medidas que
exigissem intervenção judicial, como a condução de testemunhas que se recusassem a
comparecer ou a execução de providências urgentes. Confirmada pelo magistrado a validade
da convenção arbitral, caberia a ele adotar as medidas requeridas, dando efetividade à decisão
proferida no âmbito da arbitragem311.
Assim, na reforma da Arbitragem em 2015, com a edição do Código de Processo
Civil de 2015312 e a Lei nº 13.129/2015313, foi positivado esse mecanismo de colaboração
entre o árbitro e o Poder Judiciário, que foi denominado de carta arbitral.
A carta arbitral, portanto, destina-se a formalizar a solicitação, pelo árbitro, de
cooperação pelo poder Judiciário para adoção das medidas que estejam alheias à sua esfera
jurisdicional314. Tal como uma carta precatória, não dispondo de poderes para a realização
de determinado ato, o árbitro “depreca (solicita, pede, roga) a quem tenha tal poder”315.
311
CARMONA, Carlos Alberto. Arbitragem e Processo: um comentário à lei nº 9.307/96. 4ª ed. Barueri - SP:
Atlas, 2023. p. 349.
312
Art. 260. [...] § 3º A carta arbitral atenderá, no que couber, aos requisitos a que se refere o caput e será
instruída com a convenção de arbitragem e com as provas da nomeação do árbitro e de sua aceitação da
função.
313
Art. 22-C. O árbitro ou o tribunal arbitral poderá expedir carta arbitral para que o órgão jurisdicional
nacional pratique ou determine o cumprimento, na área de sua competência territorial, de ato solicitado pelo
árbitro.
Parágrafo único. No cumprimento da carta arbitral será observado o segredo de justiça, desde que
comprovada a confidencialidade estipulada na arbitragem.
314
SCHINEMANN, Caio César Bueno. Arbitragem e execução: divisão de competências, poderes do árbitro
e limites subjetivos. São Paulo: Thompson Reuters Brasil, 2023. p. 48/49.
315
CARMONA, Carlos Alberto. Das boas relações entre juízes e árbitros. In: Revista do Advogado – AASP,
v. 51, p. 17-24, 1997, p. 20.
107
316
CAHALI, Francisco José. Curso de arbitragem : mediação : conciliação : resolução CNJ 125/2010. 5ª ed.
revista e atualizada, de acordo com a Lei nº 13.129/2015 (Reforma da Lei de Arbitragem), com a Lei
13.140/2015 (Marco Legal da Mediação) e o Novo CPC. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015.
p. 312/314..
108
Desse modo, foi concebida a carta arbitral, que consiste num procedimento específico
de cooperação entre a jurisdição arbitral e estatal, por meio do qual o árbitro pode solicitar a
cooperação do Poder Judiciário, na área de sua competência, para prática de determinado
ato, como, por exemplo: (i) a condução de alguma testemunha renitente; (ii) a efetivação de
tutela de urgência ou de evidência deferida pelo árbitro; (iii) ou ainda, que um terceiro
entregue documento ou coisa, bem como conceda informações específicas317.
Nesse sentido, “a carta arbitral é um instrumento que confere maior eficiência a este
método adequado de solução de conflitos, permitindo que o árbitro exerça o seu múnus de
forma ainda mais segura e eficaz, com a devida cooperação do juiz estatal"318.
Os requisitos da carta arbitral são os previstos no art. 260, § 3º, do Código de Processo
Civil, os quais remetem à carta precatória e rogatória (art. 260, caput), acrescidos da prova
da convenção de arbitragem, nomeação do árbitro e sua aceitação. Em âmbito regulamentar,
o Conselho Nacional de Justiça editou a Resolução nº 421/2021, que não traz maiores
novidades quanto aos requisitos da carta arbitral, mas é relevante por confirmar que os
pedidos de cooperação judiciária decorrem diretamente do árbitro ou órgão arbitral (art. 2º,
parágrafo único), e não da parte. Sem prejuízo, é lícito que o árbitro incumba a parte de
realizar a distribuição da carta arbitral por ele elaborada, o que já ocorre com cartas
precatórias319.
Além disso, a I Jornada de Prevenção e Solução Extrajudicial de Litígios 320 , foi
aprovado enunciado sobre a competência para o processamento da carta arbitral, cujo teor é
o seguinte: “3. A carta arbitral poderá ser processada diretamente pelo órgão do Poder
Judiciário do foro onde se dará a efetivação da medida ou decisão”.
317
SIQUEIRA, Fernando de. Carta arbitral: um mecanismo de cooperação. Disponível em: <
[Link] Acesso em
27.09.2025.
318
FORBES, Carlos Suplicy de Figueiredo; KOBAYASHI, Patrícia Shiguemi. Carta Arbitral: instrumento de
cooperação jurisdicional. In: 20 anos da lei de arbitragem: homenagem a Petrônio R. Muniz. Coord. Carlos
Alberto Carmona, Selma Ferreira Lemes, Pedro Batista Martins. São Paulo: Atlas, 2017. p.521-536. p. 535.
319
SCHINEMANN, Caio César Bueno. Arbitragem e execução: divisão de competências, poderes do árbitro
e limites subjetivos. São Paulo: Thompson Reuters Brasil, 2023. p. 49/50.
320
Promovida entre 22 e 23 de agosto de 2016 pelo Centro de Estudos Judiciários do Conselho da Justiça
Federal. Os enunciados aprovados estão disponíveis em <[Link]
federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/prevencao-e-solucao-extrajudicial-de-litigios/enunciados-
aprovados/@@download/arquivo>. Acesso em 11.12.2025.
109
Desse modo, foi criada uma estrutura formal para a comunicação através da carta
arbitral quando pertinente este expediente, e desta forma é facilitado o entrosamento entre
ambas as jurisdições, na medida em que uma saberá como solicitar e outra como receber
solicitações, evitando desencontro de posições a respeito, nocivas, certamente, à efetividade
pretendida na tutela dos interesses da parte321.
Dentro do estudo dos poderes executórios do árbitro, a carta arbitral é um mecanismo
para que, com a interveniência do Poder Judiciário, sejam concretizadas as decisões
proferidas pelos árbitros no curso do procedimento arbitral.
Em regra, cabe ao juiz cumprir a carta arbitral. É descabido ao juiz estatal exercer
juízo de valor sobre o ato a ser praticado. O juiz, no entanto, poderá recusar-se a cumprir a
carta arbitral, com fundamento no art. 267 do Código de Processo Civil322, se detectar a
algum impedimento de natureza formal, quais sejam, falta dos requisitos legais,
incompetência ou dúvida acerca de sua autenticidade323.
Na primeira hipótese, se não estiverem preenchidos os requisitos da carta arbitral, o
juiz deverá determinar a devolução a carta arbitral, através de decisão fundamentada,
informando, evidentemente, qual requisito não está presente. Sanado o requisito faltante, a
carta voltará a ser remetida para o juiz togado para cumprimento. Na segunda hipótese –
incompetência do juiz togado – o juiz togado deverá remeter a carta ao órgão judicial
competente. Por fim, em caso de dúvida sobre a autenticidade da carta, o juiz deverá solicitar
ao tribunal arbitral (ou ao centro arbitral) as informações que julgar adequadas para o fim de
321
CAHALI, Francisco José. Curso de arbitragem : mediação : conciliação : tribunal multiportas. 9ª ed. rev.,
ampl., e atual. São Paulo: Thompson Reuters Brasil, 2022. p. 352.
322
Art. 267. O juiz recusará cumprimento a carta precatória ou arbitral, devolvendo-a com decisão motivada
quando:
I - a carta não estiver revestida dos requisitos legais;
II - faltar ao juiz competência em razão da matéria ou da hierarquia;
III - o juiz tiver dúvida acerca de sua autenticidade.
Parágrafo único. No caso de incompetência em razão da matéria ou da hierarquia, o juiz deprecado,
conforme o ato a ser praticado, poderá remeter a carta ao juiz ou ao tribunal competente.
323
CARMONA, Carlos Alberto. Arbitragem e Processo: um comentário à lei nº 9.307/96. 4ª ed. Barueri - SP:
Atlas, 2023. p. 351.
110
atestar a idoneidade do ato324. Com exceção dessas hipóteses, o juiz não poderá, portanto,
recusar-se a cumprir a carta arbitral.
Assim, o juiz deverá “cumprir aquilo que consta da carta arbitral, não podendo
reapreciar aquilo já decidido e/ou definido pelo árbitro, uma vez que ele não tem poderes
jurisdicionais para tanto" 325 . O juízo exercido pelo magistrado é, portanto, de mera
delibação.
A Lei de Arbitragem, em seu art. 22-A, estabeleceu a possibilidade das partes, antes
da instituição da arbitragem, recorrerem ao Poder Judiciário para a concessão de medida
cautelar ou de urgência.
Contudo, os regulamentos das principais câmaras de arbitragem colocaram preveem
o instituto do árbitro de emergência, em alternativa à jurisdição estatal, atribuindo-lhe
competência para a apreciação de medidas urgentes postuladas antes da constituição do
tribunal arbitral.
A título de exemplo, deve ser mencionada a existência de previsão do instituto do
árbitro de emergência na Câmara de Arbitragem do Mercado (CAM-B3)326, no Centro de
Arbitragem e Mediação da Câmara de Comércio Brasil-Canadá (CAM-CCBC)327, no Centro
324
CARMONA, Carlos Alberto. Arbitragem e Processo: um comentário à lei nº 9.307/96. 4ª ed. Barueri - SP:
Atlas, 2023. p. 351.
325
BERALDO, Leonardo de Faria. O Impacto do Novo Código de Processo Civil na Arbitragem. In: Revista
de Arbitragem e Mediação. vol. 49/16. p. 175 - 200. Abr - Jun. 2016.
326
Confira-se o item 5.1 do Regulamento da CAM-B3: 5.1. Medidas de Urgência antes de constituído o
Tribunal Arbitral. Caso ainda não tenha sido constituído o Tribunal Arbitral, e se façam necessárias medidas
conservatórias ou reparatórias revestidas de caráter de urgência, a fim de prevenir dano iminente ou prejuízo
irreparável, a questão poderá ser submetida ao Presidente da Câmara de Arbitragem, que nomeará um
integrante do Corpo de Árbitros da Câmara de Arbitragem como árbitro de apoio, cuja função será deliberar
sobre a medida de urgência, a qual vigerá até que o Tribunal Arbitral decida sobre a matéria (“Árbitro de
Apoio”). Na indicação do Árbitro de Apoio será observado o disposto no art. 13, § 6º da Lei nº 9.307, de
23.9.1996. Disponível em < [Link] Acesso em
28.09.2025.
327
Confira-se o art. 21 do Regulamento da CAM-CCBC: Artigo 21 – Árbitro de Emergência
21.1 Antes da constituição do tribunal arbitral, a parte que necessitar de medidas de urgência poderá requerer
a designação de um árbitro de emergência, salvo se as partes tiverem convencionado em sentido contrário.
21.2 O árbitro de emergência poderá adotar quaisquer medidas, conforme artigo 22.1, que, por sua natureza,
não possam aguardar a constituição do tribunal arbitral.
111
21.3 O árbitro de emergência sujeitar-se-á aos mesmos deveres de independência e imparcialidade previstos
no artigo 9.2.
21.4 A instituição de procedimento de árbitro de emergência não implica a renúncia, pelas partes, de outras
medidas de urgência perante a autoridade judicial competente.
21.5 O procedimento de árbitro de emergência seguirá as regras previstas no anexo I. Disponível em
<[Link]
disputas/arbitragem/regulamento-de-arbitragem-2022/>. Acesso em 28.09.2025.
328
Confira-se o item 17 do Regulamento do CBMA: 17.1. Antes da constituição do Tribunal Arbitral, as partes
também poderão requerer perante o Centro medida cautelar e/ou medidas preparatórias, tais como produção
antecipada de prova (“Árbitro de Emergência”), nos termos das Regras sobre o Árbitro de Emergência
dispostas no Anexo II. Disponível em < [Link]
[Link]>. Acesso em 28.09.2025.
329
Confira-se o art. 1º, item 1, Apêndice V do Regulamento da ICC: A parte que desejar recorrer a um árbitro
de emergência nos termos do artigo 29 do Regulamento de Arbitragem da CCI (o “Regulamento”) deverá
apresentar a sua Solicitação de Medidas Urgentes (a “Solicitação”) à Secretaria, em qualquer dos escritórios
indicados no Regulamento Interno da Corte, no Apêndice II do Regulamento. Disponível em <
[Link]
[Link]>. Acesso em 28.09.2025.
330
MARQUES, Paula Menna Barreto. Árbitro de emergência. In: Temas controvertidos na arbitragem à luz
do Código de Processo Civil de 2015. Vol. I. (org. Paulo Cezar Pinheiro Carneiro, Leonardo Grco e
Humberto Dalla). 1ª ed. Rio de Janeiro: LMJ Mundo Jurídico, 2018. p. 215.
331
CHACUR DE MIRANDA, Daniel. Poderes executórios do árbitro. São Paulo: Quartier Latin, 2025. p.
202.
112
sempre dependerá, é claro, do exame do caso. Se restar constatado que, mesmo com a
previsão do árbitro de emergência, a situação é tão premente que impede o seu acionamento,
então haverá de se admitir a intervenção judicial332.
Assim, o árbitro de emergência dispõe dos mesmos poderes executórios do Tribunal
Arbitral, já que, ao convencionarem que eventual litígio será submetido a uma arbitragem,
consoante os regulamento de uma câmara de arbitragem que prevê expressamente a
possibilidade do mecanismo do árbitro de emergência, as partes optaram por atribuir ao
árbitro de emergência a competência para decidir sobre medidas de urgência e, por
conseguinte, lançar mão de todos os expediente legalmente possíveis para implementar os
comandos contidos em sua decisão. E, na hipótese, de ser necessária a implementação e uma
medida sub-rogatória, o árbitro de emergência poderá (deverá) expedir a carta arbitral para
o Poder Judiciário.
332
YARSHELL, Flávio Luiz. MEIJAS, Lucas Britto. Tutelas de urgência e produção antecipada de prova à
luz da Lei n. 13.129/2015. In: Arbitragem: estudos sobre a Lei nº 13.129, de 26-5-2015. Org. Francisco José
Cahali, Thiago Rodovalho e Alexandre Freire. São Paulo: Saraiva, 2016. p. 245.
113
7. CONSIDERAÇÕES FINAIS
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DECISÕES JUDICIAIS
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em 13.6.2017, DJe 1.8.2017.
STJ, Quarta Turma, Relator Ministro Luís Felipe Salomão, REsp n. 1.949.566/SP,
julgamento em 14.09.2021, DJe 19.10.2021.
STJ, Quarta Turma, Relator Ministro Marco Buzzi, AgInt no AREsp n. 2.386.681/RS, Quarta
Turma, julgado em 4.12.2023, DJe de 7.12.2023.