0% acharam este documento útil (0 voto)
0 visualizações133 páginas

Poderes executórios do árbitro

A dissertação investiga os poderes executórios do árbitro na arbitragem doméstica brasileira, enfatizando a importância da efetividade das decisões arbitrais. A pesquisa analisa a natureza jurisdicional da arbitragem, as possibilidades de execução direta e indireta, e os limites dos poderes do árbitro, destacando a necessidade de cooperação com o Poder Judiciário para a efetivação de certas medidas. Conclui-se que o equilíbrio entre a autonomia da arbitragem e a colaboração com a jurisdição estatal é crucial para a eficácia na resolução de disputas.

Enviado por

oscarbma
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
0 visualizações133 páginas

Poderes executórios do árbitro

A dissertação investiga os poderes executórios do árbitro na arbitragem doméstica brasileira, enfatizando a importância da efetividade das decisões arbitrais. A pesquisa analisa a natureza jurisdicional da arbitragem, as possibilidades de execução direta e indireta, e os limites dos poderes do árbitro, destacando a necessidade de cooperação com o Poder Judiciário para a efetivação de certas medidas. Conclui-se que o equilíbrio entre a autonomia da arbitragem e a colaboração com a jurisdição estatal é crucial para a eficácia na resolução de disputas.

Enviado por

oscarbma
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

PUC-SP

Marcos Diaz Junior

Poderes executórios do árbitro

MESTRADO EM DIREITO

São Paulo
2026
MARCOS DIAZ JUNIOR

Poderes executórios do árbitro

MESTRADO EM DIREITO

Dissertação apresentada à Banca Examinadora


da Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo, como exigência parcial para a obtenção
do título de MESTRE em Direito (Núcleo de
Pesquisa em Direito Civil), sob a orientação
do Professor Doutor Francisco José Cahali.

São Paulo
2026
Marcos Diaz Junior

Poderes executórios do árbitro

Dissertação apresentada à Banca Examinadora da


Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como
exigência parcial para a obtenção do título de MESTRE
em Direito (Núcleo de Pesquisa em Direito Civil), sob
a orientação do Professor Doutor Francisco José Cahali.

Aprovação em: ____/____/____

BANCA EXAMINADORA

___________________________________________

Prof. Dr. Francisco José Cahali

___________________________________________

Prof. Dra. Maria Helena Marques Braceiro Daneluzzi

___________________________________________

Prof. Dr. Daniel Chacur de Miranda


AGRADECIMENTOS

Concluir esta dissertação e, com ela, o curso de mestrado em Direito Civil pela
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo representa, para mim, não apenas uma
realização acadêmica, mas também a superação de um dos maiores desafios da minha
trajetória pessoal e profissional.
Foram anos de intenso esforço, dedicação e, por vezes, exaustão. Durante boa parte do
curso, residia no Rio de Janeiro e, semanalmente, me deslocava até São Paulo para assistir
às aulas e cumprir com todas as obrigações acadêmicas, conciliando com uma advocacia
árdua, em um ritmo que eu não havia inicialmente previsto. Essa rotina exigente só foi
possível graças a uma rede de apoio sólida e ao comprometimento que mantive com este
projeto desde o início.
Em primeiro lugar, agradeço à minha esposa, Paula, com quem tive a felicidade de me
casar durante o mestrado. Neste ano de 2025, completamos 10 (dez) anos juntos. Seu amor,
compreensão e apoio incondicional foram fundamentais em todos os momentos,
especialmente nos dias mais difíceis. Ter você ao meu lado foi — e é — uma fonte constante
de força e motivação.
Agradeço ao meu pai, Marcos, que sempre acreditou em mim e me ensinou o valor da
responsabilidade e da persistência. À minha irmã, Raquel, ao meu cunhado, Fabricio, e aos
meus sobrinhos, Rafael e Felipe, meu carinho e gratidão pelo incentivo, apoio e pelo afeto
constante, que tornaram o caminho mais leve e significativo.
Não posso deixar de prestar uma homenagem emocionada à minha avó Abner e à
minha tia Carlinda, ambas já falecidas, mas eternamente presentes no meu coração. Foram
elas que me criaram, que plantaram em mim o amor pelos estudos e que sempre acreditaram
no poder transformador da educação. Esta conquista também é delas — e por elas.
Agradeço, ainda, aos meus colegas e amigos de trabalho, que acompanharam de perto
essa jornada e sempre me incentivaram: André, Vinicius, Ricardo, Índio, Marcela, Joana,
Filipe, Luciana e Carlos. Estendo meu reconhecimento aos demais companheiros de
escritório, que compreenderam as ausências e dividiram comigo os desafios do dia a dia
profissional sem jamais deixar de apoiar a minha formação acadêmica.
Agradeço, também, à PUC-SP, aos professores, colegas de turma e a todos que, direta
ou indiretamente, contribuíram para que este trabalho fosse possível. Cada sacrifício valeu a
pena. Este momento é também de vocês.
Agradeço à Professora Maria Helena Daneluzzi, que me orientou durante o estágio
docente e cuja generosidade intelectual foi essencial para minha formação acadêmica. Ao
seu lado, tive a oportunidade de vivenciar de perto a prática do magistério em Direito Civil,
aprendendo lições valiosas que levarei para toda a vida. Sua dedicação ao ensino, seu rigor
técnico e sua paixão pela docência foram fontes de inspiração constantes, contribuindo de
forma significativa para o amadurecimento do meu olhar sobre a sala de aula e sobre a
responsabilidade de transmitir o conhecimento jurídico com excelência e compromisso.
Agradeço, por fim, ao Professor Francisco José Cahali, pela orientação nesta
dissertação e por todos os ensinamentos que tive o privilégio de receber. Sua generosidade
intelectual e profissional justificam a imensa reputação que possui.
RESUMO

A presente dissertação tem por objetivo investigar a extensão e os limites dos poderes
executórios do árbitro no âmbito da arbitragem doméstica brasileira, a partir da premissa de
que a efetividade da decisão arbitral constitui elemento essencial para a consolidação da
arbitragem como verdadeiro equivalente jurisdicional ao processo estatal. A pesquisa
analisa, inicialmente, a natureza jurisdicional da arbitragem e a equiparação de suas decisões
às sentenças judiciais, destacando a autoridade conferida pela Lei nº 9.307/1996 e pelo
Código de Processo Civil de 2015. Em seguida, examina as hipóteses de execução direta,
que englobam provimentos autossatisfativos de natureza declaratória e constitutiva,
hipóteses de sub-rogação ideal como as garantias autoexecutáveis, bem como novas
possibilidades advindas da utilização de blockchain e smart contracts, além da chamada
execução imprópria, exemplificada por determinações dirigidas a registros públicos.
Também são estudadas as hipóteses de execução indireta, representadas por medidas de
coerção psicológica e econômica, tais como astreintes, sanções corporativas, prêmios
condicionais e formas de ostracismo comercial, além de medidas cautelares e de urgência,
inclusive proferidas por árbitro de emergência. Apesar dessa ampla gama de instrumentos, a
pesquisa conclui que subsistem limites intransponíveis, notadamente no que se refere à
prática de atos de constrição patrimonial forçada, cuja efetivação depende necessariamente
da cooperação com o Poder Judiciário, por meio da expedição de carta arbitral ou do
cumprimento de sentença arbitral. A análise evidencia, ainda, que a atividade executiva do
árbitro envolve função cognitiva relevante, seja na definição dos meios adequados de
satisfação do direito reconhecido, seja na apreciação de defesas do executado, reforçando a
natureza jurisdicional do instituto. Por fim, ressalta-se a tendência de expansão dos poderes
executórios arbitrais diante das inovações tecnológicas, que se apresentam como potenciais
instrumentos para garantir maior efetividade à arbitragem. Conclui-se que o equilíbrio entre
a autonomia da jurisdição arbitral e a necessária cooperação com a jurisdição estatal é a chave
para assegurar a concretização eficaz dos direitos reconhecidos em sede arbitral,
consolidando a arbitragem como meio jurisdicional adequado de solução de controvérsias
plenamente efetivo no Brasil.
Palavras-chaves:
Arbitragem; Execução arbitral; Jurisdição; Poderes do árbitro; Processo civil.
ABSTRACT

This Master’s Thesis aims to investigate the extent and limits of the arbitrator's executive
powers within the scope of Brazilian domestic arbitration, based on the premise that the
effectiveness of the arbitral decision is an essential element for consolidating arbitration as a
true jurisdictional equivalent to state proceedings. The research initially analyzes the
jurisdictional nature of arbitration and the equivalence of its decisions to judicial judgments,
highlighting the authority granted by Law No. 9.307/1996 and the 2015 Code of Civil
Procedure. It then examines cases of direct enforcement, which encompass self-enforcing
remedies of a declaratory and constitutive nature, instances of ideal subrogation such as self-
executing guarantees, as well as new possibilities arising from the use of blockchain and
smart contracts, in addition to so-called improper enforcement, exemplified by orders
directed to public registries. The hypotheses of indirect enforcement are also studied,
represented by measures of psychological and economic coercion, such as coercitive fines,
corporate sanctions, conditional awards, and forms of commercial ostracism, as well as
precautionary and urgent measures, including those issued by an emergency arbitrator.
Despite this wide array of instruments, the research concludes that insurmountable limits
persist, particularly regarding the performance of forced patrimonial constriction acts, whose
implementation necessarily depends on cooperation with the Judiciary, through the issuance
of an arbitral letter rogatory or the enforcement of an arbitral award. The analysis further
reveals that the arbitrator's executive activity involves a significant cognitive function,
whether in defining the appropriate means to satisfy the recognized right or in assessing the
defenses of the executed party, thereby reinforcing the jurisdictional nature of the institute.
Finally, it emphasizes the trend toward expanding arbitral executive powers in light of
technological innovations, which present themselves as potential instruments to ensure
greater effectiveness in arbitration. It is concluded that the balance between the autonomy of
arbitral jurisdiction and the necessary cooperation with state jurisdiction is the key to
ensuring the effective realization of rights recognized in arbitral proceedings, thereby
consolidating arbitration as a fully effective jurisdictional means for resolving disputes in
Brazil.
Keywords: Arbitration; Arbitral enforcement; Jurisdiction; Powers of the arbitrator; Civil
procedure.
SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO..................................................................................................12
1.2. Considerações iniciais sobre a arbitragem............................................................17
1.3. Breve histórico......................................................................................................18
1.4. Evolução do conceito de jurisdição do árbitro no direito brasileiro.......................21
2. ESTADO, JURISDIÇÃO, TEORIA GERAL DO PROCESSO E
ARBITRAGEM..................................................................................................26
2.1 As tutelas jurisdicionais no direito brasileiro........................................................34
2.1.1. A tutela de conhecimento......................................................................................37
2.1.2. A tutela de execução.............................................................................................37
2.1.3. A tutela cautelar....................................................................................................38
2.2. As diferentes eficácias das sentenças....................................................................40
2.2.1. Eficácia declaratória.............................................................................................41
2.2.2. Eficácia constitutiva.............................................................................................43
2.2.3. Eficácia condenatória...........................................................................................44
2.2.4. Eficácia mandamental...........................................................................................45
2.2.5. Eficácia executiva.................................................................................................46
2.2.6. Entendimento da doutrina de que, em razão da adoção do processo sincrético, com
o advento da Lei nº 11.232/2005, a classificação quinaria perdeu a sua relevância
prática...................................................................................................................47
3. A SENTENÇA ARBITRAL, COISA JULGADA E O ESGOTAMENTO DO
PODER JURISDICIONAL DOS ÁRBITROS.................................................50
3.1. O conceito de sentença no processo civil brasileiro.............................................50
3.2. O conceito de sentença arbitral.............................................................................52
3.3. A coisa julgada na arbitragem...............................................................................53
3.4. O esgotamento do poder jurisdicional dos árbitros (functus
officio)..................................................................................................................57
4. PODERES EXECUTÓRIOS DO ÁRBITRO...................................................60
4.1. O Poder de Império (Ius Imperium) do Árbitro...................................................60
4.2. A utilização da força física, na execução, não é uma regra e a possibilidade de
atuar com força jurídica........................................................................................63
4.3. O conceito de poderes executórios do árbitro.......................................................65
4.4. Atos executivos do árbitro....................................................................................66
4.5. Os poderes executórios do árbitro, o princípio da vedação ao non factibile e o
processo arbitral de resultados..............................................................................68
4.6. Tendência mundial à descentralização da execução e a execução da sentença
arbitral no direito comparado................................................................................76
4.7. Atos de execução direta pelo árbitro.....................................................................75
4.7.1. Provimentos autossatisfativos...............................................................................76
[Link].
Sentença arbitral meramente declaratória.............................................................77
[Link]
Sentença arbitral constitutiva................................................................................78
[Link]-rogação ideal pelo árbitro..............................................................................81
[Link].
Garantias autoexecutáveis....................................................................................83
[Link].
Blockchain e smart contracts................................................................................85
[Link]ção imprópria pelo árbitro...........................................................................88
4.8. Atos de execução indireta pelo árbitro..................................................................91
4.9. Limitações aos poderes executórios do árbitro......................................................94
4.10. Tabela exemplificativa dos poderes executórios do árbitro...................................97
4.11. Sugestão de lege ferenda para o aprimoramento legislativo no que se refere aos
poderes executórios do árbitro..............................................................................98
5. COGNIÇÃO NA EXECUÇÃO DA SENTENÇA
ARBITRAL.......................................................................................................100
5.1. A sentença arbitral ilíquida e competência para a liquidação.............................100
5.2. Defesas do executado..........................................................................................103
6. CARTA ARBITRAL E A DIVISÃO DE COMPETÊNCIA ENTRE O
ÁRBITRO E O JUIZ ESTATAL.....................................................................106
6.1. Relação de cooperação e suporte com o Poder Judiciário....................................106
6.2. Carta arbitral e juízo de delibação.......................................................................109
6.3. Árbitro de emergência e seus poderes executórios..............................................110
7. CONSIDERAÇÕES FINAIS...........................................................................113
REFERÊNCIAS................................................................................................................116
12

1. INTRODUÇÃO

A arbitragem é um relevante, e cada vez mais difundido 1 , meio jurisdicional de


resolução de conflitos e tem como finalidade a pacificação social. Não é incomum que, ao
optarem por métodos extrajudiciais de solução de conflitos, como a arbitragem, as partes
pretendam, ao máximo, evitar, pelas mais variadas razões, que o seu conflito seja resolvido
pelo Poder Judiciário2.
Dessa forma, é instintivo que a arbitragem, com o passar dos anos e amadurecimento
do instituto, tome rumos de autonomia e autossuficiência em relação ao Poder Judiciário.
Nesse sentido, uma análise histórica da arbitragem moderna demonstra que, por razões
históricas, de mercado ou mesmo diplomáticas, a sentença arbitral era voluntariamente
cumprida pelas partes3.
Por outro lado, essa autonomia e autossuficiência da arbitragem em relação ao Poder
Judiciário encontra óbice no seguinte problema prático: a parte sucumbente que resiste em
cumprir a decisão arbitral.
Embora o nosso estudo se restrinja à arbitragem doméstica, é possível verificar que
essa preocupação sobre o não cumprimento das decisões arbitrais não está adstrita ao Brasil.
A propósito, a convocação para a Conferência Internacional denominada Enforcement of
Arbitral Awards, promovida pela Juris Conferences LLC, na cidade de Nova Iorque,
realizada em 2017, consta

“Houve um tempo em que o único desafio para os autores e seus advogados


era obter uma sentença arbitral. Posteriormente, os réus pagariam sem a
necessidade de o autor vitorioso tomar medidas adicionais. Hoje, contudo,
há evidências consideráveis de que as sentenças arbitrais não resultam,
automaticamente, em pagamento. Em vez disso, devedores potenciais ou

1
LEMES, Selma. Arbitragem em números 2020/2021. Disponível em:
<[Link] Acesso
em 01.07.2024.
2
GRINOVER, Ada Pellegrini. O processo – I Série: Estudos e pareceres de processo civil. Brasília: Gazeta
Jurídica, 2013. Pág. 734.
3
“Por todo o seu histórico, e em especial pela proximidade que há entre os protagonistas da arbitragem – os
árbitros escolhidos pelas partes –, a tendência natural é o cumprimento espontâneo das decisões arbitrais.
Ora, é intuitivo que se submeta o vencido `posição de quem foi por ele próprio eleito para resolver uma
questão exatamente pela confiança e credibilidade na sua capacidade de encontrar a melhor solução para o
conflito”. CAHALI, Francisco José. Curso de arbitragem : mediação : conciliação : resolução CNJ
125/2010. 5ª ed. revista e atualizada, de acordo com a Lei nº 13.129/2015 (Reforma da Lei de Arbitragem),
com a Lei 13.140/2015 (Marco Legal da Mediação) e o Novo CPC. São Paulo: Editora Revista dos
Tribunais, 2015. p. 345.
13

reais da sentença podem se envolver em litígios adicionais ou tomar


medidas para dificultar a execução das sentenças, por meio da ocultação de
bens, transferências fraudulentas ou outras atividades. A conferência
examinará as questões cada vez mais importantes da execução de
sentenças, por meio de advogados experientes na representação tanto de
credores quanto de devedores de sentenças.”4

Nesse sentido, é de extrema relevância o aprofundamento no estudo do poder do árbitro


para implementar e executar as suas próprias decisões, sem a necessidade de intervenção do
Poder Judiciário, quando não forem cumpridas voluntariamente pela parte sucumbente ou
quando precisarem da prática, por terceiros, de atos para produzirem amplos efeitos.
As decisões dos árbitros, como se sabe, são títulos executivos judiciais, fazem coisa
julgada material e possuem a mesma eficácia executiva de uma decisão judicial. Logo,
devem ser cumpridas e respeitadas, seja pelas partes, seja por terceiros. E, em razão dessa
tendência à autonomia e autossuficiência, é natural que seja evitada, sempre que possível, a
intervenção, muitas vezes onerosa e morosa, do Poder Judiciário para o cumprimento das
decisões arbitrais.
No entanto, ainda há, em nossa visão, uma zona cinzenta sobre quais seriam os limites
dos poderes executórios do árbitro, a fim de implementar os comandos contidos em suas
decisões arbitrais.
Essa temática, ao nosso ver, ainda foi pouco explorada em trabalhos acadêmicos5, a
despeito de sua inegável relevância. Essa circunstância decorre do fato de, do ponto de vista
histórico, o diálogo entre processo arbitral e a execução sempre ter sido escasso, no Brasil e
no mundo, de modo que, a todo momento, emergem dúvidas entre os operadores do direito
sobre o que seria permitido (ou não) ao árbitro ou ao tribunal arbitral, a fim de promover a
execução de suas decisões.

4
Tradução livre para “Time was when the only challenge for claimants and their counsel was to obtain an
arbitral award. Thereafter, respondents would pay without the need for the successful claimant to take
further measures. Today, however, there is considerable evidence that arbitral awards do not automatically
produce financial remuneration. Rather, prospective or actual award debtors may engage in further
litigation or take steps to make awards difficult to enforce, through secreting of assets, fraudulent
conveyances or other activities. The conference will examine the increasingly important issues of award
enforcement through counsel experienced in representing both award creditors and debtors.” Disponível
em: <[Link] Acesso em 30.01.2025.
5
Em nível de Pós-Graduação, há as dissertações de Mestrado de Fernanda Gouvêa Leão e de Caio César
Bueno Schinemann, defendidas na USP, respectivamente, em 2010 e 2023, e as Teses de Doutorado de
Asdrubal Franco Nascimbeni, defendida na PUC-SP em 2019, e de Daniel Chacur de Miranda, defendida
na USP em 2024.
14

Isso se explica, em grande parte, pelo contexto jurídico vigente no momento da edição
da Lei de Arbitragem. Naquele período, predominava no processo civil a concepção de que
a autoridade da coisa julgada implicava o encerramento completo da análise do objeto do
litígio, bem como o término definitivo de qualquer atividade cognitiva relacionada ao caso.
Tal entendimento era reforçado pela redação original da primeira parte do artigo 463 do
Código de Processo Civil de 1973, que dispunha: “Ao publicar a sentença de mérito, o juiz
cumpre e acaba o ofício jurisdicional”.
Embora o artigo 1º da Lei de Arbitragem atribuísse expressamente ao árbitro a função
de resolver o litígio, não havia, naquele momento, qualquer incômodo relevante — em parte
devido à pouca relevância prática da arbitragem à época — com a redação do artigo 29 da
mesma norma, que encerrava de forma categórica a jurisdição arbitral após a prolação da
sentença. Assim, consolidava-se, no cenário nacional, o princípio do functus officio,
amplamente aceito no contexto da arbitragem internacional.
Contudo, a partir das reformas introduzidas no processo civil em 2005, a doutrina
passou, de forma progressiva, a revisar a separação rígida entre as fases de cognição e de
execução, bem como a rejeitar a ideia de que não existiria atividade cognitiva no âmbito
executivo.
Atualmente, é pacífico na teoria processual que o magistrado exerce função cognitiva
mesmo durante a execução, restando apenas discutir quais são os limites e a intensidade dessa
cognição, seja diante das objeções apresentadas pelo executado, seja em razão de eventual
atuação ex officio.
Nesse sentido, não se pode perder de vista o número de procedimentos arbitrais em
trâmite no Brasil aumenta a cada ano, de modo que o cumprimento e efetividade das decisões
proferidas em procedimentos arbitrais é um tema que tem ganhado cada vez mais relevância.
Assim, a presente dissertação tem por objetivo o estudo aprofundado dos poderes
executórios do árbitro no âmbito da arbitragem doméstica brasileira. A Lei nº 9.307/1996,
marco fundamental na evolução do instituto em nosso ordenamento, equiparou a sentença
arbitral à sentença judicial, conferindo-lhe o status de título executivo judicial. Contudo, para
uma maior efetividade dessa equiparação e, por conseguinte, a própria utilidade da
arbitragem como meio de resolução de disputas, é de suma importância que o árbitro tenha
a capacidade de se fazer cumprir o que decidiu. A problemática central que impulsiona esta
15

pesquisa reside justamente na investigação da extensão e dos limites dos poderes do árbitro
para garantir a execução de suas próprias decisões, transformando o direito reconhecido em
uma realidade fática para as partes.
A arbitragem, para que se consolide como um verdadeiro equivalente jurisdicional, não
pode se limitar a ser uma mera "fábrica de sentenças inexequíveis". É imperativo que o
árbitro, na qualidade de juiz de fato e de direito, disponha de mecanismos coercitivos –
diretos e indiretos – para assegurar o cumprimento de seus provimentos, sejam eles finais,
sejam eles de natureza acautelatória ou antecipatória. A discussão sobre a ausência de ius
imperium (poder de império) do árbitro, frequentemente invocada para limitar sua atuação,
merece ser revisitada sob a ótica dos princípios a instrumentalidade do processo e da vedação
ao non factibile, ou seja, a proibição de que um direito se torne irrealizável por ausência de
meios para sua efetivação.
Nesse contexto, esta dissertação sustenta a tese de que o árbitro possui uma gama de
poderes executórios mais ampla do que a doutrina tradicional costuma admitir, operando em
uma zona de autonomia que, embora encontre limites na necessidade de cooperação com o
Poder Judiciário para atos de força, é robusta e suficiente para garantir a efetividade da
grande maioria das decisões arbitrais.
Para desenvolver de forma lógica e progressiva a tese aqui proposta, a presente
dissertação foi estruturada em capítulos que se sucedem de modo a construir o conhecimento
do leitor, partindo das bases conceituais até as implicações práticas do tema. A organização
capitular foi pensada da seguinte forma:
O primeiro capítulo, além desta introdução ao tema proposto e de apresentar um
brevíssimo histórico do instituto da arbitragem, é dedicado à análise da natureza jurisdicional
da arbitragem. Este é o pilar fundamental de todo o trabalho. Ao revisitar a evolução histórica
do instituto no Brasil e ao demonstrar que a arbitragem é, de fato, jurisdição, estabelecemos
a premissa maior de que o árbitro exerce uma função pública delegada pelo Estado e, como
tal, é investido dos poderes necessários para o desempenho eficaz dessa função. Sem a
consolidação deste conceito, a discussão sobre poderes executórios restaria esvaziada.
Nos segundo e terceiro capítulos, a dissertação aborda, respectivamente, as diferentes
espécies de tutelas jurisdicionais e as diferentes eficácias das sentenças. A compreensão das
16

diferentes tutelas jurisdicionais e as eficácias das sentenças é imprescindível para o perfeito


entendimento dos poderes executórios do árbitro, bem como seu alcance e limitações.
O quarto capítulo tem por objeto a sentença arbitral e seus efeitos, como a coisa julgada
e o esgotamento do poder jurisdicional do árbitro (functus officio), com a ressalva de que a
regra do functus officio tem sido flexibilizada pela doutrina, seja na hipótese de prolação de
sentença parcial, seja de modo a permitir que o árbitro promova a liquidação de sentença e
até a execução da sentença arbitral.
No quinto capítulo, adentramos o cerne da pesquisa: os poderes executórios do árbitro.
Uma vez firmada a premissa da jurisdicionalidade, este capítulo explora e categoriza os
diversos meios executivos à disposição do julgador privado. A análise foi dividida em atos
de execução direta (como as sentenças autossuficientes e a sub-rogação ideal) e atos de
execução indireta (como a imposição de astreintes e o ostracismo comercial), detalhando as
hipóteses de cabimento e o fundamento jurídico de cada um. Além disso, o capítulo aborda
os exatos limites e alcance da atividade executória do árbitro, tratando das hipóteses em que
a atuação do árbitro é vedada – notadamente os atos de sub-rogação real que exigem o uso
da força estatal. Este é o momento em que a tese central da dissertação é densamente
desenvolvida e justificada.
O sexto capítulo aborda a necessária cooperação com o Poder Judiciário. Após
explorarmos a extensão dos poderes do árbitro, é crucial, para a solidez acadêmica do
trabalho, delinear suas fronteiras. Este capítulo funciona como o contraponto necessário
explicando como a cooperação com a jurisdição estatal, formalizada pela via da carta arbitral,
garante a completude do sistema. A ordem deste capítulo justifica-se por ser o passo lógico
seguinte à exploração da autonomia, tratando de sua harmonização com o sistema estatal.
O sétimo capítulo trata de um tema específico e de grande relevância prática: a
cognição na fase de execução da sentença arbitral. Tendo já estabelecido os poderes e os
limites, este capítulo aprofunda a discussão sobre o papel do árbitro após a prolação da
sentença, na fase de cumprimento. Discute-se, para além da relativização do princípio do
functus officio, a competência do árbitro para processar a liquidação da sentença e para julgar
as defesas do executado, demonstrando que sua função jurisdicional não se exaure com a
decisão de mérito. A escolha por posicionar este capítulo ao final permite um
17

aprofundamento em uma questão técnica que pressupõe a compreensão dos conceitos


desenvolvidos anteriormente.
Por fim, o oitavo capítulo apresenta as conclusões desta dissertação, na qual, a partir
do desenvolvimento teórico desse trabalho, identificou-se uma tendência contemporânea de
ampliação dos poderes executórios do árbitro, impulsionada pela imperiosa necessidade de
conferir efetividade às decisões arbitrais. A doutrina contemporânea reconhece que o árbitro
detém instrumentos adequados para executar diretamente seus próprios comandos. Essa
evolução decorre do entendimento de que a arbitragem, enquanto atividade jurisdicional,
deve produzir não apenas decisões válidas, mas sobretudo resultados práticos, eficazes e úteis
às partes envolvidas.
Dessa forma, a estrutura da dissertação foi concebida para guiar o leitor em uma
jornada que se inicia na base conceitual da jurisdição arbitral, avança para o núcleo dos
poderes executórios, contextualiza seus limites e sua relação com o Judiciário, e culmina na
análise de questões práticas da fase de cumprimento, oferecendo um panorama completo e
sistemático sobre a capacidade do árbitro de entregar uma tutela jurisdicional efetiva.

1.2. Considerações iniciais sobre a arbitragem

Para se compreender corretamente instituto da Arbitragem, é necessário não apenas


esclarecer seu conteúdo jurídico, mas também reconhecer os traços que o caracterizam como
um meio de solução de controvérsias desenvolvido fora da estrutura estatal tradicional.
A arbitragem, segundo Carlos Alberto Carmona, pode ser definida como um meio
adequado de solução de controvérsias, segundo o qual uma ou mais pessoas recebem poderes
de uma convenção privada para decidir, com base nela, sem intervenção estatal, sendo a
decisão destinada a assumir eficácia idêntica da sentença judicial6.
Para Gary B. Born, praticamente todas as autoridades no assunto concordam que
arbitragem é um processo pelo qual as partes, de forma consensual, submetem uma
controvérsia a um decisor não governamental, escolhido por elas ou em seu nome, para

6
CARMONA, Carlos Alberto. Arbitragem e Processo: um comentário à lei nº 9.307/96. 4. ed. Barueri - SP:
Atlas, 2023, p. 29.
18

proferir uma decisão vinculante que resolva o litígio conforme procedimentos neutros e
adjudicatórios, garantindo a cada parte a oportunidade de apresentar sua argumentação7.
Francisco Cahali assevera que, na arbitragem, as partes capazes, de comum acordo,
diante de uma controvérsia, ou por meio de cláusula contratual, estabelecem que um terceiro,
ou colegiado, terá poderes para solucionar o litígio, sem a intervenção do Estado, sendo certo
que a decisão terá a mesma eficácia de uma sentença judicial8.
A arbitragem, segundo Charles Jarroson, é “a instituição pela qual um terceiro decide
o litígio que opõe duas ou mais partes, exercendo a missão jurisdicional que lhe foi conferida
por elas”9.
Como ensina Selma Lemes: “[o] Direito da Arbitragem é um direito em formação e ser
fiel às suas origens históricas, aos seus princípios e conceitos jurídicos é que lhe propiciará
vida longa, unidade, coerência e segurança jurídica” 10 , sendo certo que a arbitragem
“constitui um microssistema com princípios e conceitos próprios que lhe dá unidade e
coerência”.11
É sob esse conceito que se passa, nos próximas capítulos, será desenvolvida a
dissertação.

1.3. breve histórico

A arbitragem não é uma novidade, mas sim um meio muito antigo de solução de
litígios, existente desde tempos imemoriais. Não obstante essa circunstância, o estudo da

7
No original: “There is general agreement on what the term ‘arbitration’ means. With some variations,
virtually all authorities accept that arbitration is - and only is - a process by which parties consensually
submit a dispute to a non governmental decision-maker, selected by or for the parties, to render a binding
decision resolving a dispute in accordance with neutral, adjudicatory procedures affording each party an
opportunity to present its case.” BORN. Gary B. International Arbitration. Law and Practice. Second
Edition. Haia: Kluwer Lae International, 2016. p. 2.
8
CAHALI, Francisco José. Curso de arbitragem : mediação : conciliação : resolução CNJ 125/2010. 5ª ed.
revista e atualizada, de acordo com a Lei nº 13.129/2015 (Reforma da Lei de Arbitragem), com a Lei
13.140/2015 (Marco Legal da Mediação) e o Novo CPC. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015.
p. 115.
9
JARROSSON, Charles. La notion d´arbitrage. Paris: Dalloz, 1987. p. 327.
10
LEMES, Selma M. Ferreira. A importância e a origem do princípio da competência–competência para a
consolidação da arbitragem e a jurisprudência brasileira. In: Revista Internacional de Arbitragem e
Conciliação, Coimbra: Edições Almedina, v. XXII, jul./set. 2024, p. 34.
11
LEMES, Selma M. Ferreira. A importância e a origem do princípio da competência–competência para a
consolidação da arbitragem e a jurisprudência brasileira. In: Revista Internacional de Arbitragem e
Conciliação, Coimbra: Edições Almedina, v. XXII, jul./set. 2024, p. 9.
19

história da arbitragem revela que não foram objeto de preocupação os poderes executórios
do árbitro, aqui compreendido como a atividade cognitiva sobre a atuação prática do direito,
além de qualquer provimento jurisdicional do árbitro capaz de atingir o resultado prático
desejado independentemente de atos de invasão da esfera patrimonial do devedor12. Não à
toa, Lord Mustill adverte que “a arbitragem tem um longo passado, porém quase nenhuma
história”13.
Seja como for, por volta do ano 500 a.C., o pensamento grego teve papel essencial para
o estudo da arbitragem. Naquela época, Atenas enfrentava os efeitos de diversos conflitos
armados ocorridos ao longo do século anterior, período em que alcançou o auge de sua
influência política e militar. Tanto a mitologia quanto a narrativa histórica da Grécia antiga
oferecem inúmeros exemplos da utilização da arbitragem e da mediação como mecanismos
para resolver disputas14.
Era comum, dentro da lógica politeísta grega — derivada do termo pan (tudo) e theós
(deus) —, que divindades atuassem como figuras conciliadoras, promovendo a aproximação
entre os povos. Nessas circunstâncias, buscava-se, inicialmente, a mediação como meio de
pacificação; contudo, quando essa alternativa se mostrava ineficaz, especialmente em
controvérsias territoriais entre as Cidades-Estado, recorria-se à arbitragem como forma
definitiva de resolução do impasse.
Na Grécia antiga, os gregos tinham à sua disposição, então, os diaitetai, que eram os
árbitros públicos para litígios privados, sendo certo que os “juízes arbitrais” eram escolhidos
pelas partes e poderiam ser tanto um rei, um magistrado, um homem público qualquer; por
vezes aparecem instituições religiosas como o Conselho Anfictônico ou Oráculos de
Delfos15.
Corroborando os relatos de utilização da arbitragem na Grécia antiga, José Cretella
Neto, assevera que “a mais antiga arbitragem teria ocorrido entre Messenia e Esparta, em

12
CHACUR DE MIRANDA, Daniel. Poderes executórios do árbitro. São Paulo: Quartier Latin, 2025. p. 31.
13
MUSTILL, Michael. Arbitration: history and background. In: Journal of International Arbitration, volume
6, issue 2, Kluwer Law International, 1989, p. 44.
14
MORAIS, José Luiz Bolzan de. Mediação e Arbitragem: Alternativas à Jurisdição. 2ª Edição. Porto Alegre:
Livraria do Advogado, 2008. p. 168.
15
CAHALI, Francisco José. Curso de arbitragem : mediação : conciliação : resolução CNJ 125/2010. 5ª ed.
revista e atualizada, de acordo com a Lei nº 13.129/2015 (Reforma da Lei de Arbitragem), com a Lei
13.140/2015 (Marco Legal da Mediação) e o Novo CPC. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015.
p. 35.
20

740 a.C.”16. Aristóteles ratifica a existência da figura do árbitro na Grécia antiga, em sua
obra “Arte retórica e arte poética”, na qual compara um árbitro e um juiz17.
Na Roma Antiga, a arbitragem assumiu estrutura jurídica específica, em razão da
técnica jurisprudencial e da política pretoriana do período clássico18 e que possui especial
relevo para a história dos poderes executórios do árbitro.
A jurisprudência romana criou o “compromissum” formada por recíprocas
“stipulationes poenae”, pelas quais as partes em conflito prometiam pagar uma determinada
pena pecuniária, na hipótese de uma delas desrespeitar ou ignorar a decisão proferida pelo
árbitro escolhido.
Pelo “compromissum”, o direito romano provia uma solução indireta à execução da
sentença. Não se executava a decisão do árbitro, mas, por meio da aplicação da pena
compromissada, obrigavam-se as partes a respeitá-la. Além disso, funcionava como
instrumento para garantia de que a sentença viria a ser proferida, pois estabelecia parâmetros
à lealdade das partes19.
Os poderes do árbitro eram fixados no compromisso, que servia como a fórmula do
pretor ao juiz. O árbitro devia conservar a liberdade de julgar conforme sua consciência. As
partes não podiam impor que decidisse em um sentido determinado (ut certam sententiam
dicat). Pode-se dizer, assim, que o compromisso regulava toda a parte externa da arbitragem,
mas deve deixar livre seu lado interno, ou seja, o conteúdo da sentença20.

16
CRETELLA NETO, José. Curso de arbitragem: arbitragem comercial, arbitragem internacional, Lei
brasileira de arbitragem, Instituições internacionais de arbitragem, Convenções internacionais sobre
arbitragem. Rio de Janeiro: Forense, 2004. p. 6
17
“É ainda suportar a injustiça que nos fere, preferir resolver uma desavença amigavelmente a apresentar uma
ação no tribunal; recorrer a uma arbitragem mais do que a um processo, porque o árbitro considera a
equidade e o juiz a lei.” ARISTÓTELES. Arte retórica e arte poética. Tradução de Antônio Pinto de
Carvalho; introdução e notas de Jean Voilquin e Jean Capelle; estudo introdutório de Goffredo Telles Júnior.
17. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005. p. 82.
18
PARICIO, Javier. CREMADES, Ignacio. La responsabilidade del juez em el derecho romano clássico,
AHDE 54 (1954). p. 179/208.
19
COSTA, Gabriel José Bernardi. Arbitragem: origens romanas. 1ª ed. São Paulo: YK Editora, 2022. p. 6/7.
20
VALLE, Martin Della. Da Decisão por Equidade na Arbitragem Comercial Internacional. [Tese de
Doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Direito da Universidade de São
Paulo, sob a orientação do Prof. Dr. Luiz Olavo Baptista]. USP, São Paulo, 2009. p. 25.
21

Além da sobrevivência por meio do direito romano, a arbitragem também era


encontrada, durante a Idade Média, nas compilações “bárbaras”, como no caso da Lex
Visigothorum21.
Ademais, “em várias partes da Europa Medieval, decretos locais atribuíam aos bispos
o conhecimento de causas que versassem sobre conflitos entre parentes em matéria de
partilha ou de tutela, alargando o âmbito do decreto justinianeu que lhes atribuía competência
arbitral obrigatória em questões entre clérigos e leigos”22.
Com a estrutura jurisdicional oferecida pelo Estado em descrédito, inclusive pelo
precário e inadequado sistema normativo de então, a arbitragem teve espaço como útil
instrumento à solução de diversos conflitos23.
Alguns autores chegam mesmo a afirmar que as sentenças arbitrais eram mais
freqüentes que as sentenças judiciais, em razão da perda de credibilidade do sistema judicial
feudal.

1.4. Evolução do conceito de jurisdição do árbitro no direito brasileiro

O reconhecimento da arbitragem como uma forma de exercício da jurisdição foi fruto


de um processo histórico complexo e gradual, até alcançar ampla aceitação nos países com
tradição nesse campo. Ainda assim, persiste uma incongruência: frequentemente se nega ao
árbitro a competência jurisdicional para atuar nas fases cognitivas do cumprimento da
sentença arbitral. Essa negação é paradoxal, considerando que a obrigação executada decorre
da mesma controvérsia analisada e decidida na fase principal do processo arbitral, decisão
esta que gerou o próprio título executivo.

21
VALLE, Martin Della. Da Decisão por Equidade na Arbitragem Comercial Internacional. [Tese de
Doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Direito da Universidade de São
Paulo, sob a orientação do Prof. Dr. Luiz Olavo Baptista]. USP, São Paulo, 2009. p. 26.
22
SOARES. Guido Fernando Silva. Arbitragem internacional (introdução histórica). In: FRANÇA, Rubens
Limongi (coord.). Enciclopédia saraiva de direito: verbete. São Paulo: Saraiva, 1978. Vol. 7. p. 377-378.
23
CAHALI, Francisco José. Curso de arbitragem : mediação : conciliação : resolução CNJ 125/2010. 5ª ed.
revista e atualizada, de acordo com a Lei nº 13.129/2015 (Reforma da Lei de Arbitragem), com a Lei
13.140/2015 (Marco Legal da Mediação) e o Novo CPC. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015.
p. 36.
22

Como efeito, atualmente, o Brasil é amplamente reconhecido como um país com uma
jurisdição favorável ao instituto da arbitragem. De fato, a arbitragem é identificada no
sistema jurídico brasileiro desde a época em que o Brasil era colonizado por Portugal24.
As Ordenações Filipinas, em seu Livro III, Título XVI, já previa que as partes deveriam
aceitar e se submeter à decisão proferida pelos árbitros, comprometendo-se a não recorrer de
sua determinação25. No aludido dispositivo, portanto, já havia previsão da irrecorribilidade
das decisões proferidas pelos árbitros, bem como a ausência de necessidade de homologação
da decisão arbitral pelo juiz estatal para adquirirem força executória.
A Constituição do Império, promulgada em 1824, logo após a independência do reino
de Portugal, prestigiou o instituto da arbitragem, ao permitir que as partes, em causas cíveis
e nas penas civilmente intentadas, escolhessem juízes-árbitros, cujas decisões seriam
executadas sem possibilidade de recurso, se as partes assim convencionassem26.
O Código Comercial brasileiro, editado em 1850, deu ainda mais notoriedade ao
instituto da arbitragem, ao estabelecer a sua obrigatoriedade para solucionar litígios
decorrentes de contratos de locação mercantil (art. 24527) e também as questões societárias
controvertidas (art. 29428).
Em 1867, foi editado o Decreto 3.900, que regulava o Juízo Arbitral do Commercio,
que mencionava, inclusive, a possibilidade de julgar por equidade quando autorizado pelas

24
DELGADO, José Augusto. A Arbitragem no Brasil: Evolução Histórica e Conceitual. In: Revista de Direito
Renovar, n.17, p.1-24, maio/ago. 2000. p. 6-7.
25
“Título XVI. Dos Juízes árbitros. Posto que as partes comprometam em algum Juiz, ou Juizes árbitros, e se
obriguem no compromisso star por sua determinação e sentença, e que dela não possam appellar, nem
agravar, e o que o contrario fizer pague à outra parte certa pena, e ainda que no compromisso se diga, que
paga a pena, ou não paga, fique sempre a sentença dos árbitros firme e valiosa; poderá a parte, que se
sentir agravada, sem embargo de tudo isto, appellar de sua sentença para os superiores, sem pagar a dita
pena; e se os árbitros lhe denegarem a appellação, façam-lha dar os Juízes ordinários. Porém, se os Juizes
da appellação confirmarem a sentença dos árbitros, de que for appellado, pagará o appellante ao vencedor
a pena conteúda no compromisso, que não se póde escusar de a pagar, pois prometeu não vir contra a
sentença, e he achado que instamente dela appellou. E posto que as partes renunciem o beneficio desta Lei,
tal renunciação será de nenhum efeito.”. Disponível em:
<[Link] Acesso em 12.02.2025.
26
“Art. 160. Nas civeis, e nas penaes civilmente intentadas, poderão as Partes nomear Juizes Arbitros. Suas
Sentenças serão executadas sem recurso, se assim o convencionarem as mesmas Partes.” Disponível em:
<[Link] Acesso em 12.02.2025.
27
“Art. 245. Todas as questões que resultarem de contratos de locação mercantil serão decididas em juízo
arbitral.”
28
“Art. 294. Todas as questões sociais que se suscitarem entre sócios durante a existência de sociedade ou
companhia, sua liquidação ou partilha, serão decididas em juízo arbitral”.
23

partes (art. 4629) e tinha a preocupação de definir o conceito de equidade no art. 47 30, que
seria o poder de julgar independente de regras formais do direito.
A Constituição de 1891, por sua vez, não homenageou o instituto da arbitragem,
sobretudo por opção do constituinte, que atribuiu aos Estados da federação recém-criada a
competência para legislar sobre matéria processual31.
Somente em 1916, com Código Civil de Beviláqua, a arbitragem voltou a ter
regulamentação de âmbito federal. O capítulo X do aludido Código foi denominado “Do
compromisso” e permitiu as partes pudessem, mediante compromisso escrito, nomear
árbitros para solução de litígios judiciais e extrajudiciais. Um compromisso arbitral poderia
ser celebrado no curso de uma ação judicial, via protocolo judicial ou em um documento
público ou privado, assinado pelas partes e por duas testemunhas (art. 1.038, CC/16 32 ),
devendo prever uma descrição do objeto do litígio, bem como designar os árbitros e seus
substitutos33. O Código Beviláqua, contudo, fez a ressalva de que a sentença só poderia ser
executada depois de homologada34.
A necessidade de homologação da sentença arbitral por um juiz estatal se coaduna com
a concepção clássica de jurisdição, que sempre era exercida pelo poder estatal, através de

29
“Art. 46. Os árbitros julgarão de fato e de direito conforme a lei, e as cláusulas do compromisso; salvo se
no compromisso (art. 10, § 4.º) as partes os autorizarem para julgar por eqüidade, independentemente das
regras e formas do direito.“
30
“Art. 47. Quando os árbitros tiverem poderes para julgar por eqüidade, independentemente das regras
formais do direito, poderão prescindir do processo estabelecido nos artigos antecedentes, e darão a sua
decisão ouvindo verbal e sumariamente as partes e testemunhas; reduzindo a termo os depoimentos das
testemunhas, e admitindo os memoriais que as partes oferecerem.”
31
RANZOLIN, Ricardo Borges. Controle judicial da arbitragem. Rio de Janeiro: GZ Editora, 2011. p. 23.
32
“Art. 1.038. O compromisso é judicial ou extrajudicial. O primeiro pode celebrar-se por termo nos autos,
perante o juízo ou tribunal, por onde correr a demanda; o segundo, por instrumento público ou particular,
assinado pelas partes e duas testemunhas.”
33
SAMTLEBEN, Jürgen. Arbitration in Brazil. Miami: University of Mimi Inter-American Law Review,
1986. Pág. 8-9. Disponível em:
<[Link] Acesso em
13.09.2025.
34
Art. 1.045. A sentença arbitral só se executará, depois de homologada, salvo se for proferida por juiz de
primeira ou segunda instancia, como arbitro nomeado pelas partes.
24

juízes 35 . Assim, durante essa época, a arbitragem tinha uma natureza contratual, não se
confundindo com a natureza da jurisdição exercida exclusivamente pelo Estado36.
A Constituição de 1934, em seu art. 5º, § 3º, voltou a fazer alusão à arbitragem, ao
estabelecer a competência federal para legislar sobre a matéria37.
Contudo, em que pese estar inserida na legislação, a arbitragem não se consolidou
como uma opção viável e nem preferível nos contratos celebrados no mercado brasileiro à
época38.
O próprio Código de Processo Civil de 1973 foi parcimonioso em conferir maiores
poderes ao árbitro. Talvez pelo apego à ideia de que a jurisdição sempre deve ser exercida
por membro do Poder Judiciário ou, ainda, pelo receio de que uma decisão arbitral
estrangeira pudesse constranger o país frente a credores internacionais.39
Com o advento da Carta Constitucional de 1988, a arbitragem surgiu tal como é
compreendido e utilizado atualmente, indicando que litígios de natureza trabalhistas
poderiam ser solucionados por meio do instituto40.

35
“Há por isso um ramo do direito destinado precisamente à tarefa de garantir a eficácia prática do
ordenamento jurídico, instituindo órgãos públicos com a incumbência de atuar essa garantia e
disciplinando as modalidades e formas da sua atividade. Esses são os órgãos judiciários e a sua atividade
chama-se, desde os tempos imemoriais, jurisdição (iurisdictio); as pessoas que exercem a jurisdição
chamam-se juízes e formam, em seu conjunto, a Magistratura (Const., arts. 101, 102 e 104); sua atividade
desenvolve-se em direção dupla, através da cognição [giudizio] e da execução forçada.” LIEBMAN.
Enrico Tullio. Manual de Direito Processual Civil. Tradução e notas de Cândido Rangel Dinamarco. 3ª
edição. Ed. Malheiros: São Paulo, 2005. p. 20.
36
GIUSTI, Gilberto. O Árbitro e o juiz: da função jurisdicional do árbitro e do juiz. In Revista Brasileira de
Arbitragem, Comitê Brasileiro de Arbitragem, vol. II, issue 5, 2005, p. 8.
37
Art. 5º Compete privativamente á União: (...) XIX, legislar sobre: (...) c) normas, fundamentaes do direito
rural, do regime penitenciario, da arbitragem commercial, da assistencia social, da assistencia judiciaria e
das estatisticas de interesse collectivo;
(...)
§ 3º A competencia federal para legislar sobre as materias dos ns. XIV e XIX letras c e i, in fine, e sobre
registos publicos, desapropriações, arbitragem commercial, juntas commerciaes e respectivos processos;
requisições civis e militares, radio-communicação, emigração, immigração e caixas economicas; riquezas
do sub-solo, mineração, metallurgia, aguas, energia hydro-electrica, florestas, caça e pesca e a sua
exploração, não exclue a legislação estadual suppletiva ou complementar sobre as mesmas materias. As leis
estaduaes, nestes casos, poderão, attendendo ás peculiaridades locaes, supprir as lacunas ou deficiencias da
legislação federal, sem dispensar as exigencias desta.
38
FINKELSTEIN, Cláudio. Arbitragem no Brasil: Evolução Histórica. Disponível em
<[Link] Acesso em 19.02.2025.
39
SHIMURA, Sergio. Título executivo. São Paulo: Saraiva, 1997. p. 233
40
“Art. 114. Compete à Justiça do Trabalho processar e julgar:
(...)
§ 1º Frustrada a negociação coletiva, as partes poderão eleger árbitros.
25

No fim do ano de 1991, capitaneado pelo Instituto Liberal de Pernambuco, com apoio,
desde logo, pela Associação Comercial de São Paulo e promovida Associação dos
Advogados de Empresas de Pernambuco foi iniciada a denominada Operação Arbiter, cujo
objeto era discutir o instituto da arbitragem, que estava praticamente em desuso, através da
elaboração de anteprojeto de lei. O anteprojeto, elaborado por Selma Lemes, Pedro Batista
Martins e Carlos Alberto Carmona, foi apresentado em reunião realizada em 09.12.1991.
Após a incorporação de sugestões, a versão final do anteprojeto foi apresentada no Seminário
Nacional sobre Arbitragem Comercial, realizado em Curitiba, PR, em 27.04.199241.
Mas foi em 1996, com a promulgação da Lei nº 9.307/1996 (“Lei Brasileira de
Arbitragem”) é que o instituto começou a ser objeto de discussões mais profundas, tanto no
âmbito acadêmico, quanto no âmbito profissional. A Lei nº 9.307/1996 estabeleceu, no que
é relevantíssimo para esta dissertação, que a sentença arbitral se equiparava à sentença
judicial, sendo desnecessária, pois, a sua homologação por um juiz estatal. A toda evidência,
a sentença arbitral, uma vez proferida, produzia os mesmos efeitos de uma sentença judicial,
prevendo, ainda, cooperação e colaboração entre os árbitros e juízes estatais.

§ 2º Recusando-se qualquer das partes à negociação ou à arbitragem, é facultado aos respectivos sindicatos
ajuizar dissídio coletivo, podendo a Justiça do Trabalho estabelecer normas e condições, respeitadas as
disposições convencionais e legais mínimas de proteção ao trabalho.”
41
CARMONA. Carlos Alberto. Arbitragem e processo. 4ª ed. Barueri [SP]: Atlas, 2023. p. 8/9.
26

2. ESTADO, JURISDIÇÃO, TEORIA GERAL DO PROCESSO E ARBITRAGEM

O conceito de Estado é central para a compreensão da organização política e jurídica


das sociedades. Em sua essência, o Estado é uma entidade soberana, com capacidade de
autorregulação e de imposição de sua vontade dentro de um determinado território. O poder
político inerente ao Estado está diretamente relacionado à sua autoridade, que lhe permite
governar, regular e organizar a sociedade. O poder político inerente ao Estado, uno,
indivisível e indelegável, manifesta-se pelos órgãos responsáveis por desenvolver suas
funções essenciais: legislativa, executiva ou administrativa e jurisdicional42.
O Estado exerce seu poder com vistas a determinados objetivos aglutinados em torno
de uma função. Feitas as leis, não deve ser considerada plenamente realizada a função do
direito. As leis prescrevem as regras de conduta a serem observadas por todos, mas, como
essas regras têm conteúdo geral e abstrato, é necessário assegurar, na medida do possível, a
sua estrita observância, em nome da liberdade e dos direitos de cada um na ordem objetiva
da convivência social43.
Por isso, a jurisdição é a atividade pública e exclusiva, com a qual o Estado substitui a
atividade das pessoas interessadas e propicia a atuação da vontade do direito em casos
concretos, seja revelando-a mediante uma declaração (processo de conhecimento), seja
promovendo com meios práticos os resultados por ela apontados (execução forçada). A
jurisdição não se esgota no simples “declarar o direito”. Ela também compreende o poder de
fazer cumprir suas decisões, ou seja, o denominado “poder de coerção”, que decorre
diretamente do ius imperium. O ius imperium é um conceito clássico do Direito Público que
remonta ao Direito Romano, representando o poder de comando e de coerção do Estado.
Trata-se da prerrogativa estatal de impor sua vontade de forma unilateral e imperativa,
inclusive com o uso da força, para garantir a eficácia do ordenamento jurídico e a proteção
da paz social. A jurisdição é, portanto, manifestação do poder44.

42
BEDAQUE, José Roberto dos Santos. Breves notas sobre jurisdição e ação. In: 40 anos da teoria geral do
processo no Brasil. Passado, presente e futuro. Org. Camilo Zufelato e Flavio Luiz Yarshell. São Paulo:
Ed. Malheiros, 2013. p. 537.
43
LIEBMAN, Enrico Tullio. Manual de direito processual civil. 3ª edição. Vol. I. Tradução e notas de
Candido Rangel Dinamarco. São Paulo: Malheiros, 2005. p. 19.
44
DINAMARCO, Candido Rangel. Fundamentos do processo civil moderno. 2ª Edição. São Paulo: Editora
Revista dos Tribunais, 1987. p. 77.
27

Nesse contexto, o Estado cumpre a função social da jurisdição quando proporciona o


acesso à ordem jurídica justa, garantindo, de forma ampla, a prestação da tutela jurisdicional
a todos os cidadãos, em igualdade de condições, fazendo cumprir os ditames do princípio do
devido processo legal, com a aplicação de todos os direitos fundamentais consagrados na
Constituição que se deve obter a celeridade processual a qualquer custo. E mais: no
cumprimento do exercício da função social da jurisdição, o Estado não pode se exmir de
sentenciar alegando lacunas na lei ou estado de dúvidas sobre a existência do direito. O
magistrado não pode mais manter atitude passiva na colheita de provas, e deve buscar, ao
máximo, a obtenção da verdade real45.
A jurisdição pressupõe um conflito de interesses, qualificado pela pretensão de alguém
e a resistência de outrem. Daí porque a jurisdição consiste na justa composição da lide,
mediante sentença de natureza declarativa, por meio da qual o juiz dicit ius46. Para José
Joaquim Calmon de Passos, “jurisdição é aplicação autoritativa da lei, mediante a
substituição por uma atividade pública da atividade alheia”47.
O processo, por sua vez, na clássica lição de Liebman, é “a atividade mediante a qual
se desempenha em concreto a função jurisdicional”48 e, segundo Chiovenda, possui uma
finalidade pública: funciona mediante o interesse das partes para a realização concreta da
lei49.
E a disciplina jurídica dedicada à elaboração, à organização e à articulação dos
conceitos jurídicos fundamentais (lógico-jurídico) processuais, indispensáveis à
compreensão jurídica do fenômeno processual, onde quer que ele ocorra é a teoria geral do
processo50.

45
AURELLI, Arlete Inês. Função social da jurisdição. In: 40 anos da teoria geral do processo no Brasil.
Passado, presente e futuro. Org. Camilo Zufelato e Flavio Luiz Yarshell. São Paulo: Ed. Malheiros, 2013.
p. 124/146.
46
SILVA, Ovídio A. Baptista da. Gomes, Fabio. Teoria geral do processo civil. 2ª ed. rev. e atual. São Paulo:
Editora Revista dos Tribunais, 2000. p. 67.
47
PASSOS, José Joaquim Calmon de. Da jurisdição. 2ª ed. rev. e atual. São Paulo: Editora JusPodivm, 2025.
p. 116.
48
LIEBMAN, Enrico Tullio. Manual de Direito Processual Civil. Vol. I. Tradução de Cândido Rangel
Dinamarco. 3ª Edição. São Paulo: Malheiros, 2005. p. 55.
49
REZENDE FILHO, Gabriel José Rodrigues de. Curso de direito processual civil. Vol. I. 4ª ed. São Paulo:
Saraiva, 1954. p. 19.
50
DIDIER, Jr., Fredie. Teoria geral do processo, essa desconhecida. 5ª ed. Salvador: Juspodivm, 2020. p. 80.
28

Dinamarco, com extrema precisão, conceitua a teoria geral do processo como “um
sistema de conceitos e princípios elevados ao grau máximo de generalização útil e
condensados indutivamente a partir do confronto dos diversos ramos do direito
processual”51.
Em suma, a teoria geral do processo objetiva a condensação de conceitos, princípios e
institutos comuns e que servem de base para os diversos ramos do direito processual. José
Frederico Marques destaca a importância do estudo de uma teoria geral do processo:

Quando se afirma a unidade de Direito Processual, não se está admitindo


que seus dois ramos principais sejam idênticos.
O que se pretende, com a afirmativa, é mostrar que existe uma base comum
entre o processo civil e o processo penal, onde pode assentar-se uma Teoria
Geral do Direito Processual.
A unificação dessas duas ciências jurídicas é de profundo interesse prático.
Evitar-se-á, com isso, regulamentação diversa (e às vezes até mesmo
contraditória) de institutos em tudo iguais, de um e outro ramo do processo.
Dar-se-á maior precisão técnica aos conceitos e princípios. Propiciar-se-á,
enfim, um trabalho de sistematização mais coerente e útil, mais científico
e perfeito. E isso com profundos reflexos no ensino universitário e no
trabalho legislativo.
A Teoria Geral do Processo, como disse Grispini, deve procurar determinar
os conceitos comuns do processo civil e do processo penal. E acrescenta:
“A elaboração dessa doutrina não é apenas legítima, como ainda
corresponde a uma exigência científica de tão elementar evidência que é
desnecessário alinhar argumentos em seu prol... Uma elaboração unitária,
portanto, de todo o Direito Processual corresponde não só a uma
necessidade lógica, como também àquele princípio de economia que de
modo particular deve imperar na ciência – como o demonstrou o empírico-
criticismo de Mach, Avenarius etc. – uma vez que um de seus principais
fins consiste em oferecer meios mais eficazes e rápidos de domínio das
coisas do universo.52

No Brasil, a teoria geral do processo foi desenvolvida a partir do estudo dos seus
institutos fundamentais, quais sejam jurisdição, ação, defesa e processo. Esses institutos
foram estudados, nessa mesma ordem, com mais nitidez por Eduardo Couture em obra

51
DINAMARCO, Candido Rangel. A instrumentalidade do processo. 15ª ed. rev. e atual. São Paulo:
Malheiros, 2013.
52
MARQUES, José Frederico. Instituições de direito processual civil. Vol. 1. Campinas: Millennium, 2000.
P. 27/28.
29

clássica53. Atualmente, além da jurisdição, ação, defesa e processo, há, na doutrina, quem
acrescente ao rol de institutos fundamentais do processo a tutela jurisdicional, a demanda e
a cognição judicial54.
Assim que começou a se a desenvolver, no Brasil, o estudo mais aprofundado da teoria
geral do processo, o grande desafio foi unificar foi o de unificar o processo civil e o processo
penal. Posteriormente, incluíram, no estudo da teoria geral do processo, os processos
trabalhista, eleitoral e militar55. Floriano Azevedo Marques Neto, inclusive, sustenta que
outras modalidades de processos não-jurisdicionais deveriam ser objeto de estudo na teoria
geral do processo, como é o caso do procedimento administrativo, o processo legislativo e
os processos perante associações civis e partidos políticos56.
Logo, se é admitido o estudo de processos não-jurisdicionais à luz do da teoria geral
do processo, não qualquer razão para se excluir a arbitragem do âmbito desta teoria, já que,
na arbitragem, há um processo e através dele é exercida a jurisdição57.
A etimologia da palavra jurisdição – jurisdictio, em latim – já lhe revela o conteúdo.
A palavra é formada pela aglutinação de duas outras: juris, genitivo singular da 3ª declinação,
significando do direito, e dictio, nominativo singular da mesma declinação, isto é, dicção, ou
dição, ato de dizer. Nisto consiste, essencialmente, a jurisdição: dizer o direito, no sentido de
identificar a norma de direito objetivo preexistente (ou elaborá-la, se inexistente) e de fazê-

53
“Não constitui novidade a conclusão que vem de ser alcançada, indicando jurisdição, ação, defesa e processo
como institutos situados a esse nível. Existe mesmo, em doutrina, uma acentuada tendência a considerá-los
assim, inclusive (em algumas obras) para o fim de distribuição sistemática da exposição da disciplina. A
meu ver, a colocação mais nítida nesse sentido ainda é a de Eduardo Couture, cuja obra clássica estuda,
nessa ordem, os quatro institutos básicos. Seu plano de trabalho serviu de modelo ao livro diático (Teoria
geral do processo) de cuja elaboração participei, em cooperação com os colegas na docência do direito
processual no Largo de São Francisco, Ada P. Grinover e Araújo Cintra. Tal é realmente a orientação mais
moderna.” (DINAMARCO, Candido Rangel. Fundamentos do processo civil moderno. 2ª ed. São Paulo,
Editora Revista dos Tribunais, 1987, p. 730)
54
Nesse sentido: SICA. Heitor Vitor Mendonça. Velhos e novos institutos fundamentais do direito processual
civil. In: 40 anos da teoria geral do processo no Brasil. Passado, presente e futuro. Org. Camilo Zufelato
e Flavio Luiz Yarshell. São Paulo: Ed. Malheiros, 2013. p. 430/466.
55
SICA, Heitor Vitor Mendonça. Perspectivas atuais da teoria geral do processo. In: Bases científicas para
um renovado direito processual. Org. Athos Gusmão Carneiro e Petrônio Calmon. 2ª edição. Salvador,
Juspodivm, 2008. p. 67.
56
MARQUES NETO, Floriano Peixoto de Azevedo. Ensaio sobre o processo como disciplina do exercício
da atividade estatal. In: Teoria do processo: panorama doutrinário mundial. Coord. Eduardo Ferreira
Jordão e Fredie Souza Didier Jr. Salvador, Juspodivm, 2007. P. 266/268.
57
CHACUR DE MIRANDA, Daniel. Poderes executórios do árbitro. São Paulo: Quartier Latin, 2025. p.
152.
30

la atuar numa determinada situação58. Não é por outra razão que José Frederico Marques
conceitua jurisdição como sendo “a aplicação do direito objetivo em relação a uma
pretensão”59 e, mais a frente, estabelece, como escopo da jurisdição, é tornar efetiva a ordem
jurídica e impor, através dos órgãos estatais do Poder Judiciário, “a regra jurídica concreta
que, por força do direito vigente, deve regular determinada situação jurídica”60.
Chiovenda, por sua vez, define jurisdição como

a função do Estado que tem por escopo a atuação da vontade concreta da


lei por meio da substituição, atividade de órgãos públicos, da atividade de
particulares ou de outros órgãos públicos, já no afirmar a existência da
vontade da lei, já no torná-la, praticamente, efetiva.61

A natureza jurisdicional da arbitragem ainda é objeto de divergência na doutrina.


Alguns autores, como Luiz Guilherme Marinoni, sustentam que o conceito de jurisdição está
intrinsecamente ligado à atuação do Estado, razão pela qual a arbitragem não poderia ser
enquadrada nesse conceito.
Segundo Marinoni, reconhecer a arbitragem como exercício jurisdicional violaria o
princípio da unicidade da jurisdição, uma vez que esta não poderia ser compartilhada entre
o Judiciário estatal e um sistema privado de resolução de conflitos 62. O autor argumenta,
ainda, que os poderes estatais são indelegáveis, o que impediria sua transferência a árbitros
ou instituições privadas63.
Por outro lado, Carlos Alberto Carmona, quando da redação do anteprojeto da Lei de
Arbitragem, já defendia o caráter jurisdicional da arbitragem, com base nos efeitos e reflexos

58
BERMUDES, Sergio. Introdução ao processo civil. Revista e atualizada. Rio de Janeiro: Forense, 2006. p.
19.
59
MARQUES, José Frederico. Instituições de direito processual civil. Vol. 1. Campinas: Millennium, 2000.
P. 258.
60
MARQUES, José Frederico. Instituições de direito processual civil. Vol. 1. Campinas: Millennium, 2000.
P. 261.
61
CHIOVENDA, Giuseppe. Instituições de direito processual civil. Vol. 2, 2ªed., Bookseller: Campinas,
2000. p. 8.
62
MARINONI, Luiz Guilherme. Rápidas observações sobre arbitragem e jurisdição. Disponível em
<chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/[Link]
content/uploads/2010/09/arbitragem-e-jurisdicao_marinoni.pdf>. Acesso em 20/09/2025. p. 16.
63
MARINONI, Luiz Guilherme. Rápidas observações sobre arbitragem e jurisdição. Disponível em
<chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/[Link]
content/uploads/2010/09/arbitragem-e-jurisdicao_marinoni.pdf>. Acesso em 20/09/2025. p. 17.
31

produzidos pela sentença arbitral, que, a partir da edição dessa lei não mais necessitaria de
homologação por um juiz. Confira-se:

Resta esclarecer, sobre a sentença arbitral, um último ponto. O art. 32


determina que a decisão final dos árbitros produzirá os mesmos efeitos da
sentença estatal, constituindo a sentença condenatória título executivo que,
embora não oriundo do Poder Judiciário, assume a categoria de judicial. A
comissão optou assim por adotar a tese da jurisdicionalidade da arbitragem,
pondo termo à atividade homologatória do juiz, fator de emperramento da
arbitragem. Certamente surgirão críticas, especialmente de processualistas
ortodoxos que não conseguem ver atividade processual - e muito menos
jurisdicional - fora do âmbito da tutela estatal estrita. Para rebater tal idéia
tacanha de jurisdição, não encontramos lição mais concisa e direta que a de
Giovanni Verde: ‘A experiência tumultuosa destes últimos 40 anos nos
demonstra que a imagem do Estado onipotente e centralizador é um mito,
que não pode (e talvez não mereça) ser cultivado. Deste mito faz parte a
idéia que a justiça deva ser administrada em via exclusiva pelos seus
juízes’64.

No mesmo sentido, Carreira Alvim sustenta o caráter jurisdicional da arbitragem,


asseverando que a função do árbitro é exatamente a mesma que aquela exercida pelos juízes
estatais:

o juízo arbitral seria um juízo como qualquer outro quanto a função


de julgar. É um órgão privado, que cumpre idêntica função à do órgão
judicial na administração da Justiça.65

A propósito, Ada Pellegrini Grinover desenvolveu um novo conceito de jurisdição, de


modo que abrangesse a justiça estatal, a justiça arbitral e a justiça consensual:

Se, conforme nosso pensamento, a jurisdição compreende a justiça estatal,


a justiça arbitral e a justiça consensual, é evidente que fica superado o
conceito clássico de jurisdição. Definida como poder, função e atividade,
verifica-se que não há exercício de poder na justiça consensual, onde o
conflito é dirimido exclusivamente pelas partes.
Os elementos que a definiam também mudam. No estudo tradicional, os
elementos principais seriam a lide, a substitutividade, a coisa julgada e
inércia. No entanto, a existência desses elementos oferece dúvidas até em

64
CARMONA, Carlos Alberto. A arbitragem no Brasil: em busca de uma nova lei. In: WALD, Arnoldo
(Org.). Doutrinas Essenciais: Arbitragem e Mediação. São Paulo: Revista dos Tribunais, ano 1, v. 1, p. 305,
ago. 2014 - texto original publicado na RePro 72/53 – out. 1993.
65
CARREIRA ALVIM, José Eduardo. Direito arbitral. [Link]. Rio de Janeiro: Forense, 2007, p. 250.
32

relação ao processo estatal: onde estaria a lide no processo penal? E no


processo civil necessário? E por que o juiz se substituiria às partes para
julgar? Uma coisa são as partes, outra completamente é o juiz. A coisa
julgada, verdadeiro dogma clássico, perdeu seu absolutismo e relevância.
Hoje a preclusão administrativa daz as vezes da coisa julgada, e há
processos judiciais em que a satisfação do direito ocorre sem a coisa
julgada (como em diversos procedimentos sumários, na monitória, na
estabilização da tutela antecipada, na decisão sobre ilegitimidade, etc).
Chega-se a falar na relativização ou desconsideração da coisa julgada,
perante o princípio da proporcionalidade.
E, certamente, não há lide na Justiça consensual, pois não há resistência à
pretensão, uma vez que ambas as partes se situam no mesmo plano para
solucionar o conflito amigavelmente. Nem há substitutividade, pois são as
próprias partes que atuam e o terceiro facilitador, como a própria palavra
diz, é um mero auxiliar que as ajuda em relação ao estabelecimento do
diálogo e ao atingimento da tutela. E tampouco há inércia, uma vez que o
juiz pode, de ofício, remeter as partes às vias conciliativas. E as partes
podem sempre ser estimuladas e chamadas para a elas se submeterem, não
lhes aplicando o princípio da demanda.
Por outro lado, é preciso inserir no conceito de jurisdição a função de
garantia, sobretudo em face do Estado Democrático de Direito e da
moderna visão do princípio da separação dos poderes, que serão
examinados em capítulo próprio (VII). Garantia das aprtes, para que
possam atingir a tutela jurisdicional adequada pela via do acesso à Justiça;
garantia do próprio processo e do procedimento, pela observância das
garantias constitucionais e legais, em busca da pacificação com justiça.
Jurisdição, na atualidade, não é mais poder, mas apenas função, atividade
e garantia. E, sobretudo, seu principal indicador é o de garantia do acesso
à Justiça, estatal ou não, e seu objetivo, o de pacificar com justiça.66

A arbitragem revela, portanto, a vontade do próprio Estado, para a resolução de


determinados conflitos de interesses. Ou seja, o mesmo Estado que outorga poderes ao juiz,
também os dá ao árbitro, para a mesma função de resolverem os conflitos67.
Trata-se, pois, de atividades essencialmente similares, uma desempenhada pelo Estado,
outra por julgadores escolhidos pelas partes. Por essa razão que o art. 18 da Lei de
Arbitragem68 determina que o árbitro é juiz de fato e de direito.
De fato, ao longo dos anos, foram desenvolvidas, basicamente, 4 (quatro) diversas
teorias acerca da natureza jurídica da arbitragem: privatista (contratual), jurisdicional

66
GRINOVER, Ada Pellegrini. Ensaio sobre a processualidade: fundamentos para uma nova teoria geral do
processo. Brasília: Gazeta Jurídica, 2016. P. 18/20.
67
NASCIMBENI, Asdrubal Franco. Cumprimento das decisões arbitrais: estudos para aprimoramento do
sistema. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2019. p. 93.
68
Art. 18. O árbitro é juiz de fato e de direito, e a sentença que proferir não fica sujeita a recurso ou a
homologação pelo Poder Judiciário.
33

(publicista), intermediária ou mista (contratual-publiscista) e a autônoma 69 . Não é o


propósito desta dissertação explorar cada uma dessas teorias, mas é importante ressaltar que
as 3 (três) últimas teorias reconhecem uma carga jurisdicional na arbitragem.
O próprio Código de Processo Civil confirma essa posição, ao estabelecer, em seu art.
3º, a inafastabilidade da “apreciação jurisdicional” para ameaça ou lesão ao direito, fazendo
expressa referência, em seu parágrafo 1º, de que “é permitida a arbitragem, na forma da
lei”70. Ou seja, a utilização da arbitragem garante a apreciação jurisdicional do conflito
previsto no caput.
Além disso, o art. 42 do Código de Processo Civil, inserto no Livro II destinado à
“Função Jurisdicional”, no “Título III – Da Competência Interna”, “Capítulo I – Da
Competência”, “Seção I – Disposições Gerais”, também confirma essa posição, ao dispor
que “As causas cíveis serão processadas e decididas pelo juiz nos limites de sua
competência, ressalvado às partes o direito de instituir juízo arbitral, na forma da lei” 71.
Por mais esses motivos, a arbitragem deve ser estuda à luz da teoria geral do processo.
Nesse sentido, em estudo específico sobre o tema, Dinamarco, com precisão, assevera que,

“Existindo na arbitragem um processo e nesse processo exercendo-se


jurisdição, ação e defesa, é natural que seu estudo sistemático passe pela
teoria geral do processo e por esses seus institutos fundamentais”72.

Contudo, a jurisdição estatal e a arbitral, passe o truísmo, são diferentes e não se


confundem. A primeira é oferecida pelo Estado, está à disposição de qualquer interessado, e
uma vez provocada, exige submissão daquele em face de quem é apresentada. Na jurisdição
arbitral, por sua vez, as partes, livremente, pactuam submeter a controvérsia ao árbitro. Ou

69
CAHALI, Francisco José. Curso de arbitragem : mediação : conciliação : resolução CNJ 125/2010. 5ª ed.
revista e atualizada, de acordo com a Lei nº 13.129/2015 (Reforma da Lei de Arbitragem), com a Lei
13.140/2015 (Marco Legal da Mediação) e o Novo CPC. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015.
p. 124.
70
Art. 3º Não se excluirá da apreciação jurisdicional ameaça ou lesão a direito.
§ 1º É permitida a arbitragem, na forma da lei.
71
CAHALI, Francisco José. Curso de arbitragem : mediação : conciliação : resolução CNJ 125/2010. 5ª ed.
revista e atualizada, de acordo com a Lei nº 13.129/2015 (Reforma da Lei de Arbitragem), com a Lei
13.140/2015 (Marco Legal da Mediação) e o Novo CPC. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015.
p. 128/129.
72
DINAMARCO, Cândido Rangel. A arbitragem na teoria geral do processo. São Paulo: Malheiros, 2013.
p. 15.
34

seja, as partes atribuem, de forma livre e consciente, autoridade ao árbitro para a solucionar
do conflito existente73.
Nesse mesmo sentido, o próprio Dinamarco alerta que “essa inserção proposta pelo
legislador não significa equiparar o processo arbitral ao processo estatal, desconsiderando o
seu espírito diferenciado ou as peculiaridades dos modos pelos quais nessa sede se exerce a
jurisdição”74.
É inegável, portanto, a natureza jurisdicional da arbitragem, o que não permite que ela
seja estudada de forma isolada do sistema processual civil. Dessa forma, os conceitos
lógicos-jurídicos processuais, abrangidos pela teoria geral do processo, bem como as regras
processuais fundamentais, previstas no Código de Processo Civil, podem ser aplicados ao
processo arbitral de forma subsidiária e excepcional, respeitadas, sempre, as peculiaridades
da arbitragem e a compatibilidade entre as normas processuais e as características específicas
do processo arbitral75.

2.1. As tutelas jurisdicionais no direito brasileiro

O processo, em sua concepção clássica, era visto primordialmente como um


instrumento destinado a conduzir as partes até a prolação de uma sentença judicial que
resolvesse o conflito de interesses submetido ao Poder Judiciário. A sentença representava o
ápice da atividade jurisdicional, sendo considerada a finalidade essencial do processo.
Contudo, essa visão tradicional revelou-se insuficiente diante das demandas da sociedade
contemporânea e das exigências do Estado Democrático de Direito, que impõe ao Judiciário
não apenas a solução formal de litígios, mas a realização concreta e efetiva dos direitos.
Nas últimas décadas, verifica-se uma profunda transformação paradigmática no direito
processual, que passa a valorizar não apenas o resultado final (a sentença), mas todo o iter
procedimental, compreendido como um complexo de atos interdependentes destinados à

73
CAHALI, Francisco José. Curso de arbitragem : mediação : conciliação : resolução CNJ 125/2010. 5ª ed.
revista e atualizada, de acordo com a Lei nº 13.129/2015 (Reforma da Lei de Arbitragem), com a Lei
13.140/2015 (Marco Legal da Mediação) e o Novo CPC. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015.
p. 129.
74
DINAMARCO, Cândido Rangel. O processo arbitral. 2ª edição. Curitiba: Editora Direito Contemporâneo,
2022, p. 20.
75
CHACUR DE MIRANDA, Daniel. Poderes executórios do árbitro. São Paulo: Quartier Latin, 2025. p.
153.
35

efetiva tutela dos direitos materiais. Essa evolução encontra respaldo nos princípios
constitucionais do devido processo legal (art. 5º, LIV, CF), do contraditório e da ampla
defesa (art. 5º, LV, CF) e da inafastabilidade da jurisdição (art. 5º, XXXV, CF), que impõem
ao Judiciário o dever de prestar uma tutela justa, tempestiva e eficaz.
Nesse novo enfoque, a tutela jurisdicional não se limita à mera entrega da sentença
como ato final. Busca-se uma tutela plena e efetiva, que “vai além deste ato final e permeia
todo o processo”, garantindo às partes e a eventuais terceiros igualdade de oportunidades de
participação, produção de provas e manifestação sobre os atos processuais. Essa concepção
reflete o chamado processo cooperativo ou participativo, no qual o juiz, as partes e os
auxiliares da justiça atuam de forma colaborativa para a construção da decisão, respeitando
os direitos fundamentais processuais e evitando desequilíbrios que possam comprometer a
legitimidade do resultado.
Ademais, a tutela jurisdicional contemporânea deve visar não apenas à justiça formal,
mas também à justiça substancial da decisão, de modo que o provimento jurisdicional seja
capaz de satisfazer concretamente o direito reconhecido, garantindo a sua realização prática.
Daí decorre a valorização dos mecanismos de efetividade processual, como as tutelas
provisórias, as técnicas de execução atípica e os meios de coerção indireta, que permitem ao
juiz adaptar os instrumentos processuais à finalidade de entregar uma proteção jurisdicional
útil e tempestiva.
Portanto, o sistema processual contemporâneo transcende a ideia de processo como
mero caminho para uma sentença. Ele se estrutura como um instrumento de realização da
justiça, que deve propiciar participação isonômica, respeito às garantias fundamentais e
efetividade do direito material reconhecido, atendendo não só ao interesse das partes, mas
também ao ideal de pacificação social com justiça. Essa mudança de perspectiva representa
um dos pilares do neoprocessualismo e da constitucionalização do processo, que orientam o
modelo processual brasileiro atual.
A doutrina processualista clássica classificou as tutelas jurisdicionais a partir das ações
de conhecimento (visando solucionar uma relação jurídica de direito material controvertida),
de execução (com o objetivo de satisfazer uma obrigação) e cautelar (para a hipótese de ser
36

necessária a garantia de efetivação das tutelas anteriormente citadas) 76 . Nesse sentido,


confira-se a lição de Luiz Guilherme Marinoni, Sérgio Cruz Arenhart e Daniel Mitidiero:

“O Código de 1973 apresenta três modalidades de processo –


conhecimento, execução e cautelar. O processo de execução tem a função
de viabilizar a realização do direito contido na sentença condenatória e nos
títulos executivos extrajudiciais e a sua instauração depende da propositura
de ação de execução. Essa requer a presença de título executivo
extrajudicial ou de sentença condenatória transitada em julgado (título
executivo judicial), embora tenha sido admitida a “execução provisória”
(rectius: execução baseada em título provisório) em hipóteses
excepcionais. A execução se liga às modalidades executivas tipificadas no
Código. O processo de conhecimento, nessa lei, não continha técnica
processual capaz de viabilizar a antecipação da tutela final, mostrando-se
em sintonia com a regra da nulla executio sine titulo. As sentenças do
processo de conhecimento não detinham qualquer força executiva. As
sentenças declaratória e constitutiva são autossuficientes, no sentido de que
não dependem de qualquer atuação judicial posterior, enquanto a sentença
condenatória encerra uma fase da estrutura técnica destinada à ‘tutela do
direito’, na medida em que abre oportunidade para a propositura de ação
que, ao instaurar o processo de execução, permite o alcance da ‘tutela do
direito’ reconhecido no processo de conhecimento. O processo cautelar,
embora não tenha sido delineado como simples acessório para a segurança
da tutela final repressiva, foi pensado como instrumento a serviço da função
do processo de conhecimento, que também consistia na declaração e na
constituição ou desconstituição. Porém, certamente não foi concebido para
permitir a antecipação da tutela. O processo cautelar nasceu para ser
instrumento do instrumento, exigindo-se, da parte que obteve a efetivação
da ‘medida cautelar’, a propositura de ação no prazo de trinta dias. [...] O
processo de conhecimento, nessa lei, não foi estruturado para permitir a
prestação da tutela preventiva ou da tutela inibitória. Embora o art. 287 do
Código de 1973 tenha dado ao juiz a possibilidade de ordenar um não fazer,
mediante cominação de astreinte, esta autorização foi muito tímida e, bem
vistas as coisas, não teve qualquer propósito de viabilizar tutela inibitória.
[...] A tutela cautelar, em outras palavras, foi pensada como instrumento do
processo e não como tutela de segurança da tutela de direito ambicionada
por intermédio da ação de conhecimento. Ver a tutela cautelar como
instrumento não pode ser surpresa num sistema que desconsidera os
resultados do processo no plano do direito material, limitando-se a enxergar
os provimentos processuais destinados a fechar o ciclo da ação autônoma e
abstrata”. 77

76
CINTRA. Antônio Carlos de Araújo. GRINOVER, Ada Pellegrini. DINAMARCO, Cândido Rangel. Teoria
Geral do Processo. 16ª edição. São Paulo: Malheiros, 2001. p. 264/265.
77
MARINONI, Luiz Guilherme; ARENHART, Sérgio Cruz; MITIDIERO, Daniel. O novo processo civil -
atualizado com a Lei n. 13.256/2016. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2017. p. 53-55.
37

Assim, serão analisadas, a seguir, cada uma das espécies de tutelas acima mencionadas,
em detalhes.

2.1.1. A tutela de conhecimento

A tutela de conhecimento (ou cognitiva) tem por objetivo dizer o direito aplicável ao
caso concreto (juris dictio), produzindo decisão com eficácia de coisa julgada material (arts.
487 e 502 do CPC). Na tutela de conhecimento, há um procedimento que assegura às partes
contraditório pleno, produção de provas e ampla defesa, culminando com a sentença de
mérito.
Kazuo Watanabe leciona que cognição é prevalentemente um ato de inteligência,
consistente em considerar, analisar e valorar as alegações e as provas produzidas pelas partes,
vale dizer, as questões de fato e as de direito que são deduzidas no processo e cujo resultado
é o alicerce, o fundamento do judicium, do julgamento do objeto litigioso do processo78.
Ela pode apresentar-se sob diversas formas (declaratória, constitutiva, condenatória,
mandamental e executiva lato sensu), mas sempre pressupõe a atividade cognitiva do juiz,
destinada a definir a existência e o conteúdo do direito.

2.1.2. A tutela de execução

Já a tutela de execução tem por finalidade realizar concretamente uma obrigação


reconhecida em título executivo, seja judicial (como a sentença condenatória transitada em
julgado) seja extrajudicial (art. 784 do CPC). Diferentemente da tutela de conhecimento, na
execução não há atividade cognitiva plena do juiz sobre o mérito, pois a existência do direito
já se encontra pré-constituída.
A atividade jurisdicional aqui é eminentemente coercitiva e satisfativa, buscando
efetivar, de forma prática, o direito do credor — por exemplo, por meio da penhora e
alienação de bens, bloqueio de valores, expropriação e atos sub-rogatórios. A execução pode
ser promovida em processo autônomo (execução fundada em título extrajudicial) ou no bojo

78
WATANABE. Kazuo. Da cognição no processo civil. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 1987. p.
41.
38

do processo de conhecimento (fase de cumprimento de sentença — art. 513 e seguintes do


CPC).
Nesse sentido, Leonardo Greco assevera que

Na jurisdição de execução, a atividade jurisdicional não é


preponderantemente intelectual, cognitiva, mas sim uma atividade coativa,
satisfativa. É a modalidade de tutela jurisdicional na qual o juiz desencadeia
uma série de atos coativos contra o devedor ou sobre o seu patrimônio, para
satisfazer um crédito consubstanciado num título executivo. É uma
atividade eminentemente prática. O juiz penetra no mundo da vida,
podendo agir por meio de pressões, coações, ou então praticar atos de força
para entregar ao credor a prestação a que ele faz jus, presente no título
executivo79.

Contudo, na tutela de execução ainda há atividade cognitiva. Afinal de contas, como


anota Kazuo Watanabe, inexiste ação em que o juiz não exerça qualquer espécie de cognição;
até mesmo na ação de execução por título judicial, o juiz é seguidamente chamado a proferir
juízos de valor80. O próprio Leonardo Greco admite a existência de cognição na execução,
mas ressalvando que essa cognição seria acessória, complementar.

2.1.3. A tutela cautelar

Sob o Código de Processo Civil de 1973, a tutela cautelar era tratada como uma espécie
autônoma de tutela jurisdicional, com procedimento próprio. Seu objetivo era assegurar a
utilidade do processo principal, preservando o resultado útil da futura tutela definitiva.
O CPC/2015, porém, reformulou a sistemática, e a tutela cautelar deixou de ser uma
categoria autônoma para integrar o gênero tutela provisória (arts. 294 a 311). Assim, o
sistema atual prevê duas espécies de tutela provisória: (i) a tutela de urgência, que se
subdivide em cautelar e antecipada; e, ainda, (ii) a tutela de evidência.
A tutela cautelar, agora como espécie de tutela provisória de urgência, visa apenas
proteger o resultado útil do processo, sem satisfazer diretamente o direito material, sendo
concedida quando houver probabilidade do direito e perigo de dano ou risco ao resultado útil

79
GRECO, Leonardo. Instituições de Processo Civil. vol. I, 4ªed. Rio de Janeiro: Forense, 2013. p. 73.
80
WATANABE. Kazuo. Da cognição no processo civil. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 1987. p.
28.
39

do processo (art. 300). Pode ser requerida em caráter antecedente ou incidental (arts. 305 e
294, parágrafo único).
Sua principal função é estabilizar a situação fática e jurídica enquanto se desenvolve a
atividade cognitiva ou executiva, evitando que a demora processual frustre a efetividade da
tutela jurisdicional definitiva.
Afinal de contas, o que justifica a concessão da tutela cautelar, ao lado da probabilidade
do direito, é o temor de que ao final, quando da sentença de mérito, não haja mais
possibilidade de realização do direito81.
Ovídio A. Baptista da Silva leciona que a tutela cautelar é uma “forma essencialmente
preventiva de proteção jurisdicional, destinada a preservar a incolumidade dos direitos ou
de algum interesse legítimo, ante uma situação de emergência que os coloque em posição
de risco iminente de periclitação”82.
A classificação das tutelas jurisdicionais em conhecimento, execução e cautelar
(provisória) permite compreender a estrutura funcional do processo civil brasileiro
contemporâneo, que não se limita à simples declaração do direito, mas também busca
assegurar e satisfazer o direito material em tempo útil.
A reforma introduzida pelo Código de Processo Civil de 2015, ao inserir a tutela
cautelar no gênero tutela provisória, reflete a preocupação com a efetividade e celeridade da
tutela jurisdicional, ao possibilitar medidas urgentes mais flexíveis e adequadas às
necessidades do caso concreto, sem o formalismo excessivo do sistema anterior.
Assim, o atual modelo processual consagra uma jurisdição plena e multifacetada, capaz
de atuar de forma declaratória, satisfativa e preventiva, garantindo ao jurisdicionado não
apenas uma sentença final, mas uma proteção jurisdicional efetiva desde o início até o
cumprimento da decisão.
Essas diferentes formas de tutela possuem especial relevo para o estudo da ciência
processual e, por consequência, para o estudo da do processo arbitral, inclusive pelos reflexos
que produzem.

81
LEONEL, Ricardo de Barros. Teoria geral do processo. São Paulo: Malheiros/Juspodivm, 2023. p. 269.
82
SILVA, Ovídio A. Baptista da. GOMES, Fabio. Teoria Geral do Processo Civil. 2ª edição revista e
atualizada. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2000. p. 339.
40

2.2. As diferentes eficácias das sentenças

A classificação das sentenças, quanto à sua eficácia, é discussão na doutrina processual


alemã do final do século XIX e o início do século XX, quando Wach mencionou três espécies
de tutela sentencial (classificação ternária): (i) a “sentença em sentido estrito”, consistente
no reconhecimento ou na negação de um direito; (ii) a “sentença condenatória”,
consubstanciada na imposição de realizar uma prestação ou ato”, que seria o fundamento do
direito à modificação coativa direta do estado de coisas (a saber, a execução); e, por fim, (iii)
a “sentença constitutiva”, que aquela capaz de estabelecer de imediato o resultado
pretendido, sem necessidade de ato executivo algum, no momento do trânsito em julgado83.
Na famosa prelusione (palestra) intitulada “L’azione nel sistema dei diritti”, realizada
em 03.02.1903 na Università di Bologna.84, Chiovenda, sob a nítida influência alemã, já
aderia expressis verbis à tripartição: sentenças “di condanna”, “d’acertamento”, “di
constituzione”85.
E essa classificação tem enorme relevância – exatamente para que seja possível
diferenciar as ações de conhecimento – a natureza do provimento judicial e a sua eficácia
(que será de declarar, constituir ou condenar), que equivale justamente ao resultado da
atividade cognitiva exercida pelo juiz.
Essa classificação era tão difundida que, por pouco, não foi positivada no direito
brasileiro. O Anteprojeto de Código Civil elaborado por Alfredo Buzaid estabelecia, em seu
art. 499, que “A sentença, que julga procedente a ação; é: I – condenatória, se impõe ao réu
uma prestação, cujo inadimplemento autoriza a execução forçada; II – constitutiva, se cria,
modifica ou extingue relação ou situação jurídica; III – meramente declaratória, se se
limitar a afirmar a vontade da lei”. Abstraindo-se as suas impropriedades 86 , esse texto
demonstra a importância, na doutrina, a classificação ternária.

83
MOREIRA, José Carlos Barbosa. Questões velhas e novas em matéria de classificação das sentenças. In:
Temas de direito processual: oitava série. São Paulo: Saraiva, 2004. pag. 125.
84
CABRAL, Antonio do Passo. Alguns mitos do processo (i): a contribuição da prolusione de Chiovenda em
Bolonha para a teoria da ação. In: Revista do Ministério Público do Rio de Janeiro: MPRJ, n. 51, jan/mar.
2014. p. 3/14.
85
CHIOVENDA, Giuseppe. L’azione nel sistema del diritti, in Saggi di diritto processuale civile. vol. I.
Milão, 1993, p, 96/98, nota 118.
86
Não se julga procedente a ação, mas, sim, o pedido.
41

Em lugar de destaque na doutrina, necessário mencionar a classificação quinária das


sentenças, elaborada por Pontes de Miranda, quando da realização dos seus comentários ao
CPC/1939, que sustentou a existência de 5 (cinco) espécies de ações, classificando-as
segundo a carga de eficácia da sentença: (i) a meramente declaratória; (ii) a constitutiva; (iii)
a condenatória; (iv) mandamental; e, ainda, (v) a executiva lato sensu87. Segundo Pontes de
Miranda, inexiste realmente esse “grau de pureza” em cada uma das espécies de de sentença,
entendimento que passou a ser compartilhado pela doutrina. Confira-se a lição do autor:

(...) não há nenhuma ação, nenhuma sentença, que seja pura. Nenhuma é
somente declarativa. Nenhuma é somente constitutiva. Nenhuma é somente
condenatória. Nenhuma é somente mandamental. Nenhuma é somente
executiva”. Assim, para cada espécie de ação, continua, haveria uma carga
maior, a preponderar sobre as demais: “A ação somente é declaratória
porque a sua eficácia maior é a de declarar. Ação declaratória é ação
predominantemente declaratória. [...] A ação somente é constitutiva porque
a sua carga maior é a de constitutividade. Ação constitutiva é ação
predominantemente constitutiva [...]”. E assim por diante segue ele, quanto
às demais ações. A referida tabela, que está à p. 130 da referida obra,
contém pontos que vão de um (menor grau de eficácia contido na sentença)
a cinco (maior grau). Assim, uma sentença condenatória, por exemplo, teria
grau “1” de eficácia mandamental; “2” de eficácia constitutiva; “3” de
executiva; “4” de declarativa e o grau máximo, “5”, quanto à eficácia
condenatória (preponderante, portanto). De tal sorte que, sempre, a soma
do peso dessas eficácias deveria dar o total de 15 “pontos”.88

Feito esse esclarecimento, discorreremos um pouco mais por cada um dos tipos de
tutelas de conhecimento, na lição da doutrina processualística clássica.

2.2.1. Eficácia declaratória

No Brasil, a primeira previsão legislativa da ação declaratória ocorreu em 1922, no


Código de Processo Civil do Estado do Rio de Janeiro (à época Distrito Federal), que
estabelecia a possibilidade de certificação de “um direito, uma relação jurídica ou
autenticidade ou falsidade de um documento”89.

87
MOREIRA, José Carlos Barbosa. Questões velhas e novas em matéria de classificação das sentenças. In:
Temas de direito processual: oitava série. São Paulo: Saraiva, 2004. pag. 129.
88
MIRANDA, Francisco Cavalcanti Pontes de. Tratado das ações - Tomo I - Ação, Classificação e Eficácia.
São Paulo: Revista dos Tribunais, 1970. p. 117.
89
BARBI, Celso Agrícola. Ação declaratória principal e incidente. Rio de Janeiro: Forense, 1977. p. 49.
42

A eficácia declaratória, de acordo com o entendimento encampado tradicionalmente


pela doutrina, possui como objetivo essencial dissipar um estado de dúvida surgida no
convívio social. A eliminação desse estado de dúvida por meio de uma declaração judicial,
por sua vez, com os inerentes efeitos da coisa julgada material, confere segurança jurídica
aos indivíduos e permite maior previsibilidade acerca de qual interpretação será conferida no
que diz respeito ao objeto da declaração90.
Pontes de Miranda destaca que a finalidade essencial da ação declaratória “é
estabelecer-se a certeza no mundo jurídico, ou para se dar por certa a existência da relação
jurídica ou a autenticidade de documento, o que se mostra no mundo jurídico”91. No mesmo
sentido, Gabriel José Rodrigues de Rezende Filho, nesse sentido, conceitua a ação
declaratória como cujo objeto é “apenas a declaração judicial da existência ou inexistência
de uma relação jurídica ou da autenticidade ou falsidade de um documento”92.
A sentença declarativa é a prestação jurisdicional que se entrega a quem pediu tutela
jurídica sem querer “exigir”. No fundo, protege-se o direito ou a pretensão somente, ou o
interesse em que alguma relação jurídica não exista, ou em que seja verdadeiro, ou falso,
algum documento93.
Por essa razão, a eficácia declaratória tem um caráter “prescritivo”, já que a parte
adquire o direito incontestável de comportar-se em consonância ao comando sentencial, e,
principalmente, não é dado àqueles que se vincularam a declaração impedi-la. Para ilustrar
esse caráter “prescritivo”, tem-se a ação declaratória da inteligência e do alcance da cláusula
contratual, cujo objetivo é a de prescrever aos parceiros do negócio, sucessivamente,
determinada pauta de conduta, independentemente de execução alguma, de que não se cogita
e de que não se pode cogitar94.
Esses casos, em regra, não possuem tanta relevância porque inexiste uma obrigação
exigível reconhecida. Contudo, deve ser ressalvado que a necessidade de prática de atos

90
GONÇALVES, Felipe Oliveira. Ação declaratória de fatos. Rio de Janeiro: Editora Lumem Juris, 2023. p.
13/14.
91
PONTES DE MIRANDA, Francisco Cavalcanti. Tratado das ações. t. II. Campinas: Bookseller, 1998. p.
23.
92
REZENDE FILHO. Gabriel José Rodrigues. Curso de Direito Processual Civil. Vol. I. 4ª ed. São Paulo:
Saraiva, 1954. p. 185.
93
MIRANDA, Francisco Cavalcanti Pontes de. Comentários ao Código de Processo Civil, tomo V: arts.
444 a 475, Rio de Janeiro, Forense, 1997. p. 39.
94
ASSIS, Araken. Manual da execução. 15ª ed. rev. e atual. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2013.
p. 86.
43

posteriores à prolação desse tipo de sentença, na seara arbitral, poderá impactar a eficácia do
referido comando judicial.

2.2.2. Eficácia constitutiva

Como leciona Pontes de Miranda, quem constitui faz mais do que declarar. Quem
somente declara não constitui. Quem somente declara necessariamente se abstém de
constituir. “Declaração constitutiva” não seria classe de declaração, mas soma de declaração
e constituição. A constitutividade muda em algum ponto, por mínimo que seja, o mundo
jurídico95.
A ação constitutiva, portanto, implica uma alteração/modificação (criação,
modificação ou extinção) da relação jurídica96. Chiovenda leciona que, se a sentença realiza
um dos direitos potestativos que, para ser atuados, requerem o concurso do juiz, a eficácia é
constitutiva97.
As pretensões constitutivas podem ser (i) positivas, quando criam uma nova situação
jurídica; (ii) modificativas, quando alteram o estado jurídico existente; e (iii) negativas,
quando tornam sem efeito, ou cancelam, um estado jurídico anterior.
O exercício do direito de ação, quando deduzido pleito constitutivo, significa colocar
em prática o direito potestativo do autor à alteração postulada. Em outras palavras, uma vez
acolhida sua iniciativa, inevitavelmente isso se traduzirá em modificação, extinção ou
constituição de situação jurídica, independentemente da anuência ou resistência por parte do
demandado98.
Essa eficácia está presente em ações nas quais se postulam certos direitos subjetivos,
como por exemplo, (i) a separação dos cônjuges, haja vista grave infração aos deveres
conjugais que torne insuportável a vida comum (art. 1.572, caput, CC); (ii) a resolução de
negócio jurídico bilateral, em face de inadimplemento imputável a uma das partes (art. 475,
CC); e (iii) a anulação de negócio jurídico, que versou sobre objeto impossível (art. 166, II e

95
MIRANDA, Francisco Cavalcanti Pontes de. Comentários ao Código de Processo Civil, tomo V: arts.
444 a 475, Rio de Janeiro, Forense, 1997. p. 42/43.
96
MEDINA, José Miguel. Execução civil – princípios fundamentais. São Paulo: RT, 2002. p. 135/136.
97
CHIOVENDA, Giuseppe. Instituições de direito processual civil. Vol. 1, 2ªed., Bookseller: Campinas,
2000. p. 54.
98
LEONEL, Ricardo de Barros. Teoria geral do processo. São Paulo: Malheiros/Juspodivm, 2023. p. 259.
44

art. 182, CC). Nessas hipóteses, o efeito principal da sentença de procedência é um estado
jurídico novo. Não é por outra razão que Araken de Assis, citando, Pontes de Miranda, ao
analisar a eficácia constitutiva, assevera que, por mínimo que seja, o mundo jurídico
mudou99.
Desse modo, em relação ao conteúdo, a sentença constitutiva reconhece e efetiva um
direito potestativo – que, por não se relacionar a qualquer prestação do sujeito passivo, não
é posteriormente executado (isto é, não se faz necessária a prática de atos materiais para a
efetivação da prestação). E é assim porque o objetivo do autor consiste na pretensão de
produzir uma mudança jurídica, e não simplesmente fática, motivo pelo qual esta mudança
produz uma satisfação jurídica para o demandante.
Contudo, muitas vezes a eficácia constitutiva necessita de efeitos anexos, sendo preciso
dar publicidade ao novo estado surgido a partir da sua prolação, o que importará, em muitos
casos, a realização de atos práticos a serem realizados por terceiros, como anotações da
própria decisão proferida100.

2.2.3. Eficácia condenatória

A eficácia condenatória da sentença corresponde à aptidão do provimento jurisdicional


para impor a uma das partes o dever de cumprir uma prestação, seja ela de dar, fazer ou não
fazer algo. A sentença condenatória se distingue por gerar, como efeito direto, a obrigação
de adimplir uma prestação jurídica determinada, cuja execução poderá ser exigida
coercitivamente caso não seja cumprida espontaneamente.
Cassio Scapinella Bueno define a sentença declaratória como preparatória da execução,
“porque ela limita-se a declarar a existência de uma violação a alguma obrigação ou dever
jurídicos e a necessidade de se aplicar a sanção daí decorrente”101.

99
MIRANDA, Francisco Cavalcanti Pontes de. Tratado das ações. t. II. Campinas: Bookseller, 1998. p. 23.
100
NASCIMBENI, Asdrubal Franco. Cumprimento das decisões arbitrais: estudos para aprimoramento do
sistema. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2019. p. 268.
101
BUENO. Cassio Scarpinella. Cumprimento da sentença e processo de execução: ensaio sobre o
cumprimento das sentenças condenatórias. In: DIDIER JR. Fredie. Execução civil- Estudos em homenagem
ao Professor Paulo Furtado. Rio de Janeiro: Lumem Juris, 2006. p. 48.
45

Pontes de Miranda já alertava que o essencial à condenação, passe o truísmo, é a


própria condenação102.
Importante destacar que a eficácia condenatória não se confunde com a exigibilidade
imediata da obrigação. A exigibilidade depende do trânsito em julgado da decisão, salvo nas
hipóteses em que a sentença é provisoriamente executável, conforme autoriza o próprio CPC
em determinadas circunstâncias. Ainda, é possível que a sentença seja condenatória mesmo
que não declare expressamente a condenação em seu dispositivo, desde que dela decorra
logicamente a imposição de uma obrigação a ser cumprida. Nesse sentido, o bem da vida
almejado na demanda não é obtido através da simples emissão do pronunciamento judicial.
É preciso que o vencido cumpra o julgado (“execução” voluntária) ou, então, o vencedor
promova a execução “forçada”103.
A sentença com eficácia condenatória ocupa papel central na realização do direito
material por meio do processo, funcionando como instrumento efetivo de tutela jurisdicional.
Ela garante ao vencedor do processo não apenas o reconhecimento de seu direito, mas
também a possibilidade de vê-lo efetivado, inclusive pela via coercitiva do Estado.

2.2.4. Eficácia mandamental

A quarta e autônoma classe de eficácia das sentenças, no regime de classificação


quinária, é a eficácia mandamental. O provimento mandamental contém a declaração do
direito e a ordem, proferidas pelo juiz, dirigidas a alguma autoridade. Em outras palavras, a
eficácia mandamental da sentença consiste na aptidão do provimento jurisdicional para
ordenar diretamente a prática ou abstenção de um ato por parte do destinatário da ordem
judicial, sob a autoridade coercitiva do Estado. Diferente da eficácia condenatória, que impõe
uma obrigação passível de execução forçada por meios típicos (como penhora e
expropriação), a sentença mandamental opera mediante a imposição de um comando
imediato, cuja inobservância pode ensejar medidas diretas, inclusive sancionatórias, contra
o destinatário da ordem.

102
MIRANDA, Francisco Cavalcanti Pontes de. Tratado das ações - Tomo I - Ação, Classificação e Eficácia.
São Paulo: Revista dos Tribunais, 1970. p. 209.
103
ASSIS, Araken. Manual da execução. 15 ed. rev. e atual. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2013.
p. 92/93.
46

Pontes de Miranda definiu ação mandamental como aquela que “prende-se a atos que
o juiz ou outra autoridade deve mandar que se pratique. O juiz expede mandado, porque o
autor tem pretensão ao mandamento e, exercendo a pretensão à tutela jurídica, propôs a ação
mandamental”104.
Esse tipo de eficácia é tradicionalmente vinculada às denominadas ações
mandamentais, em que a tutela jurisdicional é prestada por meio de ordens judiciais
específicas e individualizadas, voltadas à efetivação de deveres jurídicos já existentes no
plano do direito material. A sentença mandamental não cria a obrigação, tampouco declara
a sua existência. A sentença mandamental, portanto, determina a sua realização direta,
utilizando-se, em muitas oportunidades, de medidas coercitivas, como multas diárias
(astreintes), busca e apreensão, entre outras.

2.2.5. Eficácia executiva

A eficácia executiva “é aquela em que o preceito deve ser cumprido pelo próprio
Estado independentemente da vontade do demandado pela simples emissão de mandados
(busca e apreensão etc.), haja vista a prévia individualização na sentença do ilícito ou do
dano que com ela se quer superar”105. A eficácia executiva é, portanto, imediata, porque a
incursão na esfera jurídica do vencido mira algum bem previamente identificado, que lá se
encontra de maneira já reconhecida como ilegítima no pronunciamento judicial, já que
integra o patrimônio do vencedor, e, portanto, dispensará a instituição de novo processo para
reavê-lo106.
Eduardo Talamini assevera que

[...] o provimento mandamental normalmente será acompanhado da


ameaça de imposição de alguma outra medida processual coercitiva (multa,
prisão civil etc.), além daquelas primordialmente postas como mecanismos
de censura à desobediência (sanções penais, administrativas...). Quando
isso ocorre, a medida processual de coerção, além de funcionar como

104
MIRANDA, Francisco Cavalcanti Pontes de. Tratado das ações - Tomo I - Ação, Classificação e Eficácia.
São Paulo: Revista dos Tribunais, 1970, p. 122 e ss.
105
MARINONI, Luiz Guilherme; ARENHART, Sérgio Cruz; MITIDIERO, Daniel. Novo código de processo
civil comentado. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015, p. 507.
106
ASSIS, Araken. Manual da execução. 15 ed. rev. e atual. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2013.
p. 96/97.
47

técnica de indução da conduta do destinatário, presta-se a chancelar a


autoridade estatal do ato que a veicula. Todavia, o aspecto essencial do
provimento em exame não reside tanto em fazer-se acompanhar da medida
processual de coerção, mas em veicular uma ordem diretamente voltada à
parte. [...] Em síntese, o que confere ‘força coercitiva’ ao provimento
mandamental não é a medida processual de coerção que eventualmente o
acompanhe, mas a previsão de que seu descumprimento caracterizará
afronta à autoridade, juridicamente censurável (pouco importando se a
repreensão tem caráter administrativo, penal ou estritamente processual)
[...]. A efetivação da ordem normalmente se dará no próprio processo em
que foi proferida a sentença – independentemente do processo
subseqüente.107

Assim, no caso da tutela executiva lato sensu o cumprimento se dá por simples


determinação judicial (ofício ou mandado), cuja eficácia se opera de modo praticamente
imediato, sem aplicação de procedimento especial específico para tal fim. Bom exemplo
disso é a ação de despejo por falta de pagamento de aluguéis. Nesse caso, uma vez acolhida
a pretensão deduzida pelo autor e determinado o despejo, será expedida uma ordem judicial,
a ser encaminhada por ofício ou mandado, cujo cumprimento será realizado pelo oficial de
justiça108.
Dessa forma, a sentença executiva engloba todos os provimentos judiciais capazes de
viabilizar a satisfação de um direito por meios executivos, mesmo que não expressem, em
seu dispositivo, uma condenação clássica. Essa concepção é coerente com a ideia de
efetividade da tutela jurisdicional, consagrada como um dos pilares do processo civil
contemporâneo, e reforçada pelo princípio da instrumentalidade do processo.

2.2.6. Entendimento da doutrina de que, em razão da adoção do processo sincrético,


com o advento da Lei nº 11.232/2005, a classificação quinaria perdeu a sua relevância
prática

Não se pode deixar de mencionar que, com a promulgação da Lei nº 11.232/2005, parte
a doutrina adotou o entendimento a tradicional distinção entre diferentes espécies de
sentenças – condenatórias, mandamentais e executivas – perdeu grande parte de sua

107
TALAMINI, Eduardo. Tutela relativa aos deveres de fazer e de não fazer. CPC, art. 461; CDC, art. 84.
São Paulo: Revista dos Tribunais, 2001. p. 191.
108
LEONEL, Ricardo de Barros. Teoria geral do processo. São Paulo: Malheiros/Juspodivm, 2023. p. 263.
48

relevância prática109. A referida norma modificou substancialmente o Código de Processo


Civil de 1973, ao permitir que qualquer decisão que reconhecesse uma obrigação de prestar
– seja de fazer, não fazer, entregar coisa ou pagar quantia – pudesse ser cumprida dentro do
mesmo processo em que fora proferida, dispensando a instauração de um processo autônomo
de execução110.
Antes dessa mudança, o critério que diferenciava essas espécies de sentenças era
justamente a necessidade de instauração de uma nova fase processual para viabilizar sua
efetividade: a sentença condenatória exigia execução ex intervalo, ou seja, em processo
apartado, enquanto as sentenças mandamentais ou executivas podiam ser cumpridas sine
intervalo, no próprio feito originário.
A evolução legislativa, contudo, foi gradualmente eliminando essa distinção funcional.
A partir da alteração promovida no artigo 461 do CPC de 1973 111 , em 1994, tornou-se
possível a execução imediata das sentenças que impusessem obrigações de fazer ou não
fazer. Posteriormente, em 2002, com a inclusão do artigo 461-A no mesmo diploma112, o
mesmo regime foi estendido às decisões que determinavam a entrega de coisa. Finalmente,
em 2005, com a introdução do artigo 475-J, as obrigações pecuniárias também passaram a
ser exequíveis dentro do processo de conhecimento (processo sincrético), sem necessidade
de ação autônoma.
Esse movimento legislativo foi consolidado no Código de Processo Civil de 2015, que
adota como regra geral a possibilidade de cumprimento da sentença no próprio processo em

109
Nesse sentido, confira-se: MOREIRA, José Carlos Barbosa. “Cumprimento” e “execução” de sentença:
necessidade de esclarecimentos conceituais. In: Revista Dialética de Direito Processual. São Paulo:
Dialética, 2006, n. 42; DIDIER, Fredie. Curso de direito processual civil: teoria da prova, direito
probatório, ações probatórias, decisão, precedente, coisa julgada e antecipação dos efeitos da tutela. 10ª
ed. Salvador: Ed. Jus Podivm, 2015.
110
MOREIRA, José Carlos Barbosa. “Cumprimento” e “execução” de sentença: necessidade de
esclarecimentos conceituais. In: Revista Dialética de Direito Processual. São Paulo: Dialética, 2006, n. 42,
item 6.
111
Art. 461. Na ação que tenha por objeto o cumprimento de obrigação de fazer ou não fazer, o juiz concederá
a tutela específica da obrigação ou, se procedente o pedido, determinará providências que assegurem o
resultado prático equivalente ao do adimplemento. [...] § 5 Para a efetivação da tutela específica ou para a
obtenção do resultado prático equivalente, poderá o juiz, de ofício ou a requerimento, determinar as medidas
necessárias, tais como a busca e apreensão, remoção de pessoas e coisas, desfazimento de obras,
impedimento de atividade nociva, além de requisição de força policial.
112
Art. 461-A. Na ação que tenha por objeto a entrega de coisa, o juiz, ao conceder a tutela específica, fixará
o prazo para o cumprimento da obrigação. [...] § 2o Não cumprida a obrigação no prazo estabelecido,
expedir-se-á em favor do credor mandado de busca e apreensão ou de imissão na posse, conforme se tratar
de coisa móvel ou imóvel. § 3 o Aplica-se à ação prevista neste artigo o disposto nos §§ 1 o a 6 o do art. 461.
49

que foi proferida, independentemente do tipo de obrigação imposta. Assim, todas as


sentenças que impõem uma prestação passaram a ser efetiváveis sine intervalo, o que
permite, sem prejuízo das distinções conceituais, que todas sejam compreendidas sob a
denominação ampla de sentenças condenatórias, ainda que essa expressão tenha assumido
um significado mais abrangente do que outrora113.

113
DIDIER, Fredie. Curso de direito processual civil: teoria da prova, direito probatório, ações probatórias,
decisão, precedente, coisa julgada e antecipação dos efeitos da tutela. 10ª ed. Salvador: Ed. Jus Podivm,
2015. p. 419
50

3. A SENTENÇA ARBITRAL, COISA JULGADA E O ESGOTAMENTO DO PODER


JURISDICIONAL DOS ÁRBITROS

3.1. O conceito de sentença no processo civil brasileiro

É senso comum dizer que a sentença é o meio pelo qual o julgador decide e dá a solução
para a pretensão deduzida no processo. A antiga redação do art. 162, § 1º do Código de
Processo Civil de 1973 definia a sentença como sendo o ato pelo qual o juiz põe termo ao
processo, decidindo ou não o mérito da causa.
Nesse sentido, José Frederico Marques assevera que

A sentença é ato processual que põe termo, julgado ou não o mérito, ao


processo de primeira instância. Como cabe recurso de apelação contra a
sentença (art. 513), é óbvio que a relação processual não se encerra com a
sentença, como também poderá não se findar com o julgamento de
apelação, embargos infringentes, ou recurso extraordinário, desde que seja
possível, contra quaisquer desses atos decisórios, a interposição de novo
recurso.
A relação processual, na realidade, somente se encerra e se finda quando
ocorrer a coisa julgada formal, isto é, quando proferido pronunciamento
tornado irrecorrível e que ponha fim ao processo.
Com a sentença de mérito não há entrega da prestação jurisdicional, e sim,
apresentação desta; e com a sentença que não resolve o mérito, tão-só
apresentação do ato de encerramento do processo, por inadmissibilidade da
tutela jurisdicional pedida pelo autor.
Assim sendo, a sentença é nomem iuris de ato processual dos juízos
monocráticos de primeiro grau, que põe fim ao processo de conhecimento
na instância inferior. Se não houver recurso contra a sentença de mérito, o
processo se encerrará, definitivamente, em primeira instância, com a
entrega da prestação jurisdicional, ou com a entrega final de declaração de
encerramento do processo, por inadmissibilidade da tutela jurisdicional.
Daí se infere que o processo se finda quando há entrega de ato jurisdicional
decisório, atp esse qie pode resolver, ou não o mérito da causa.114

Com base na interpretação do aludido conceito de sentença, a doutrina majoritária


sustentava que a sua definição não se baseava no conteúdo da decisão, mas sim em um

114
MARQUES, José Frederico. Manual de direito processual civil. Vol. III. Pt. 2. Processo de Conhecimento.
São Paulo: Saraiva, 1986-1988. p.23.
51

critério topográfico, ou seja, na posição que ela ocupava dentro da estrutura processual115.
Da mesma forma, esse mesmo parâmetro era utilizado para caracterizar as decisões
interlocutórias, que, embora pudessem conter conteúdo decisório relevante — como, por
exemplo, a decisão que determina a exclusão de um litisconsorte —, não recebiam a
qualificação de sentença justamente em razão do estágio processual em que eram
proferidas116.
Posteriormente, com a redação dada pela Lei nº 11.232/2005, a sentença foi definida
como o ato do juiz que implica alguma das situações previstas no art. 267 e 269 do CPC/73.
Assim, a partir desse momento, a legislação reconhece que a sentença pode ser definida pelo
seu conteúdo, com a possibilidade, inclusive, de serem proferidas, inclusive, sentenças
parciais, surgindo controvérsias sobre os recursos cabíveis contra estas decisões.
Além disso, com o advento da Lei nº 11.232/2005, foi adotado o “processo sincrético”,
com o fim dicotomia “processo de conhecimento” e “processo de execução”, no que tange
às obrigações de pagar quantia certa. Assim, o processo só chega ao fim, em regra, quando
o demandante obtém uma tutela jurisdicional justa e satisfativa.
Com a vigência do Código de Processo Civil de 2015, a sentença passou a ser o
pronunciamento por meio do qual o juiz, com fundamento nos arts. 485 e 487, põe fim à fase
cognitiva do procedimento comum, bem como extingue a execução.
Nesse sentido Cássio Scarpinella Bueno, leciona que a prolação da sentença é tão
somente o encerramento de uma “etapa” do processo (fase do processo jurisdicional), não
podendo se considerar que o processo foi encerrado, e mais ainda, que o juiz tenha encerrado
a sua atividade jurisdicional117.
Carmona, citando Eduardo Couture, descreve a sentença como

[...] fato jurídico e como documento, asseverando ver ali um juízo, formado
por um raciocínio crítico, por meio do qual o órgão do Poder Judiciário

115
“Impõe-se frisar que o conceito de sentença, à luz da nova sistemática, deixa de fundar-se em critério
topológico para ligar-se ao conteúdo do ato”. In BARBOSA MOREIRA, José Carlos. A nova definição de
sentença. Revista de Processo, São Paulo, ano 31, n. 136, ano 31, p. 272, jun. 2006.
116
LEÃO, Fernanda de Gouvêa. Arbitragem e execução. [Dissertação de mestrado apresentada à Faculdade de
Direito da Universidade de São Paulo - USP, sob orientação do Prof. Dr. Carlos Alberto Carmona]. USP,
São Paulo, 2012. p. 24.
117
BUENO, Cassio Scarpinela. A nova etapa da reforma do Código de Processo Civil: comentários
sistemáticos às Leis n 11.187, de 19-10-2005, e 11.232, de 22-12-2005. São Paulo: Saraiva, 2006. v. 1, p.
15.
52

elege, entre as razões do autor e do réu (ou até mesmo de um terceiro), a


solução que lhe parecer mais adequada ao caso concreto; e o juiz chega a
este momento culminante mediante um processo intelectual, de elaboração
progressiva, denominado de gênese lógica da sentença.118

À luz do art. 489 do Código de Processo Civil de 2015 119 , a sentença possui três
elementos essenciais: (i) o relatório, contendo uma síntese dos fatos processuais; (ii) os
fundamentos, nos quais o juiz analisará as questões de fato e de direito; e (iii) a parte
dispositiva, na qual o juiz decidirá as questões principais que as partes lhe submeterem.

3.2. O conceito de sentença arbitral

A despeito de não ter previsto uma definição expressa para “sentença arbitral”, a Lei
de Arbitragem, em seu art. 31, dispôs que a sentença arbitral “produz, entre as partes e seus
sucessores, os mesmos efeitos da sentença proferida pelos órgãos do Poder Judiciário”. Em
outras palavras, a legislação equiparou a sentença arbitral à sentença estatal. É por isso que
a doutrina tem conceituado sentença, em sentido amplo, como a decisão por meio da qual, a
partir dos argumentos e provas trazidos ao longo do processo, o julgador – juiz ou árbitro –
resolve questões fáticas e jurídicas defendidas pelas partes120.
Luiz Olavo Baptista assevera que a sentença arbitral, tal como a sentença judicial, é “o
ato pelo qual o árbitro (ou juiz) decide uma questão que lhe foi submetida, após o trâmite
estabelecido no devido processo legal”121.
Assim como na sentença estatal, são elementos essenciais da sentença arbitral, nos
termos do art. 26 da Lei de Arbitragem122, o relatório, os fundamentos da decisão e a parte

118
CARMONA, Carlos Alberto. Arbitragem e processo: um comentário à Lei nº 9.307/96. 4ª edição. São
Paulo: Gen/Atlas, 2023. p. 355/354
119
Art. 489. São elementos essenciais da sentença:
I - o relatório, que conterá os nomes das partes, a identificação do caso, com a suma do pedido e da
contestação, e o registro das principais ocorrências havidas no andamento do processo;
II - os fundamentos, em que o juiz analisará as questões de fato e de direito;
III - o dispositivo, em que o juiz resolverá as questões principais que as partes lhe submeterem.
120
DALL’AGNOL. Ana Carolina. MARTINI, Pedro C. de Castro e. A sentença arbitral parcial: novos
paradigmas. In: Arbitragem: estudos sobre a Lei nº 13.129, de 26-5-2015. Org. Francisco José Cahali,
Thiago Rodovalho e Alexandre Freire. São Paulo: Saraiva, 2016. p. 22.
121
BAPTISTA, Luiz Olavo. Arbitragem comercial e internacional, São Paulo: Lex Ed., 2011. p. 232.
122
Art. 26. São requisitos obrigatórios da sentença arbitral:
I - o relatório, que conterá os nomes das partes e um resumo do litígio;
53

dispositiva. O aludido dispositivo acresce à sentença um quarto elemento essencial: a data e


o lugar em que a sentença foi proferida. A ausência de um desses quatro elementos enseja a
desconstituição da sentença arbitral pelo Poder Judiciário, ante o vício intrínseco. Se a
decisão é falha a ponto de desconsiderar por completo seus comandos obrigatórios, é passível
de ser anulada, para que outra seja prolatada. A ausência de tais requisitos tem de ser
absoluta, não bastando que a alegação de nulidade seja ligada ao inconformismo da parte
com o que foi decidido123.

3.3 A coisa julgada na arbitragem

Firmado o entendimento do caráter jurisdicional da arbitragem e, ainda, que a sentença


arbitral produz os mesmos efeitos da sentença proferida pelos órgãos do Poder Judiciário, é
importante pontuar que a sentença proferida no âmbito da arbitragem faz coisa julgada.
A coisa julgada constitui um instrumento técnico destinado a assegurar estabilidade e
previsibilidade às decisões judiciais, sendo adotada universalmente pelos ordenamentos
processuais como forma de impedir que os conflitos se prolonguem indefinidamente.
A coisa julgada é formal quando não mais se pode discutir no processo o que se decidiu.
A coisa julgada material é que impede discutir-se, noutro processo, o que se decidiu124.
Nesse sentido, coisa julgada material (auctoritas rei iudicatae) é a qualidade que torna
imutável e indiscutível a sentença de mérito não mais sujeita a recursos. A coisa julgada tem
fundamento constitucional no artigo 5º, inciso XXXVI, da Constituição Federal, que
assegura a proteção à coisa julgada como garantia de segurança jurídica e estabilidade das
relações jurídicas.
A propósito, Jordi Nieva-Fenoll, destacando a importância da coisa julgada, leciona
que, “se a coisa julgada não existisse em um ordenamento jurídico, haveria que inventá-la,

II - os fundamentos da decisão, onde serão analisadas as questões de fato e de direito, mencionando-se,


expressamente, se os árbitros julgaram por eqüidade;
III - o dispositivo, em que os árbitros resolverão as questões que lhes forem submetidas e estabelecerão o
prazo para o cumprimento da decisão, se for o caso; e
IV - a data e o lugar em que foi proferida.
123
NANNI, Giovani Ettore. Anulação da sentença arbitral. In: Fundamentos básicos sobre arbitragem: um
guia dos principais conceitos sobre a arbitragem e suas práticas. São Paulo: Comitê Brasileiro de
Arbitragem, 2023, p. 59-62. p. 49
124
MIRANDA, Francisco Cavalcanti Pontes. Comentários ao Código de Processo Civil, tomo V: arts. 444 a
475. Rio de Janeiro: Forense, 1997. p. 111.
54

porque é perfeitamente imaginável a insegurança jurídica que se derivaria da sua


inexistência”125.
No campo processual, a coisa julgada material impede que a mesma lide seja
rediscutida entre as mesmas partes, acerca do mesmo objeto e sob a mesma causa de pedir.
De fato, a coisa julgada exerce a função de evitar que a lide venha a ser examinada e decidida
mais de uma vez pelo Poder Judiciário. Cuida-se de matéria que não interessa apenas às
partes, mas ao Estado, que tem o dever de emitir, por meio da Justiça, um único
pronunciamento acerca de cada litígio, e para o qual ir além disso seria, entre outras coisas,
assumir o grave risco de incorrer em contradições126.
E a coisa julgada material somente ocorre se e quando a sentença de mérito estiver
preclusa, de modo que a coisa julgada formal é pressuposto para que ocorra a coisa julgada
material, mas não o contrário127.
Nesse contexto, considerando que a sentença arbitral é a aplicação do direito ao caso
concreto por um árbitro escolhido pelas partes, a sentença arbitral é, indubitavelmente,
manifestação de atividade jurisdicional. Logo, a sentença arbitral está revestida da autoridade
da coisa julgada material.
De fato, a sentença arbitral produz os mesmos efeitos da sentença proferida pelos
órgãos do Poder Judiciário e constitui um título executivo, nos termos do art. 31 da Lei de
Arbitragem 128 e do art. 515, VII, do Código de Processo Civil 129. Desse modo, uma vez
esgotada a jurisdição arbitral com a prolação da sentença, a controvérsia não pode mais ser
submetida a novo julgamento, seja perante outro tribunal arbitral, seja perante o Poder
Judiciário, sob pena de violação à coisa julgada.

125
NIEVA-FENOLL, Jordi. Coisa Julgada. Tradução de Antonio do Passo Cabral. São Paulo: Editora Revista
dos Tribunais, 2016. p. 89.
126
MOREIRA, José Carlos Barbosa. Direito aplicado II – Pareceres. 2ª ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro:
Forense, 2005. p. 443.
127
NERY JUNIOR, Nelson. Princípios no Processo na Constituição Federal - processo civil, penal e
administrativo. 11. ed., São Paulo: RT, 2012, n. 4.1. p. 56.
128
Art. 31. A sentença arbitral produz, entre as partes e seus sucessores, os mesmos efeitos da sentença
proferida pelos órgãos do Poder Judiciário e, sendo condenatória, constitui título executivo.
129
Art. 515. São títulos executivos judiciais, cujo cumprimento dar-se-á de acordo com os artigos previstos
neste Título: (...) VII - a sentença arbitral;
55

Além disso, o mérito da sentença arbitral não é passível de recurso e não é suscetível
de controle por parte do Poder Judiciário, a não ser nas restritíssimas hipóteses previstas nos
arts. 32 e 33, § 3º da Lei de Arbitragem130.
Ou seja, no ordenamento jurídico brasileiro, a existência de uma coisa julgada na
arbitragem tem fundamento em uma dupla realidade: (i) da autonomia da arbitragem, que
não necessita de participação do Poder Judiciário na formação e eficácia das declarações e
comandos manifestados na sentença arbitrais (art. 18 da Lei de Arbitragem; e, ainda, (ii) da
norma prevista no art. 31 da Lei de Arbitragem, que estabelece que a sentença arbitral tem
os mesmos efeitos da sentença proferida em um processo judicial131.
José Manoel Arruda Alvim assevera, com precisão, que “a sentença arbitral produz
coisa julgada, de molde que seus efeitos se revestem da característica da imutabilidade,
inerente à atividade jurisdicional, que é definitiva por natureza”132.
Giordani Flenik pontua, ainda, que a sentença arbitral “é uma decisão que opera a coisa
julgada e integra o mundo jurídico definitivamente, já que não pode ser objeto de recurso
revisional de seu mérito, exceto em casos específicos de nulidade ou anulabilidade”133.

130
Art. 32. É nula a sentença arbitral se:
I - for nula a convenção de arbitragem;
II - emanou de quem não podia ser árbitro;
III - não contiver os requisitos do art. 26 desta Lei;
IV - for proferida fora dos limites da convenção de arbitragem;
VI - comprovado que foi proferida por prevaricação, concussão ou corrupção passiva;
VII - proferida fora do prazo, respeitado o disposto no art. 12, inciso III, desta Lei; e
VIII - forem desrespeitados os princípios de que trata o art. 21, § 2º, desta Lei.
Art. 33. A parte interessada poderá pleitear ao órgão do Poder Judiciário competente a declaração de
nulidade da sentença arbitral, nos casos previstos nesta Lei.
(...)
§ 3o A decretação da nulidade da sentença arbitral também poderá ser requerida na impugnação ao
cumprimento da sentença, nos termos dos arts. 525 e seguintes do Código de Processo Civil, se houver
execução judicial.
131
DINAMARCO, Candido Rangel. O processo arbitral. 2ª edição. Curitiba: Editora Direito Contemporâneo,
2022. p. 230.
132
ALVIM, José Manoel Arruda. Sobre a natureza jurisdicional da arbitragem. In: Arbitragem: estudos sobre
a Lei n. 13.129, de 26-5-2015. Org. Francisco José Cahali, Thiago Rodovalho, Alexandre Freire. São Paulo:
Saraiva, 2016. p. 143.
133
FLENIK, Giordani. A eficácia máxima da sentença arbitral: um estudo comparado dos direitos norte-
americano, francês e brasileiro sobre a homologação de sentenças estrangeiras. Belo Horizonte: Arraes
Editores, 2019. p. 6.
56

No mesmo sentido, Pedro A. Batista Martins leciona que “a sentença proferida pelo
juízo privado, assim que não mais se torna passível de recurso, transitará em julgado,
operando-se, por sua vez, a coisa julgada”134.
Nem se cogite que o fato que a possibilidade do ajuizamento da ação anulatória (LA,
arts. 32 e 33) que, uma vez julgada procedente, interromperiam os efeitos da sentença arbitral
e, por conseguinte, da coisa julgada material, que art. 502 do Código de Processo Civil define
como “a autoridade que torna imutável e indiscutível a decisão de mérito não mais sujeita a
recurso”. Isso porque a garantia constitucional da coisa julgada da sentença estatal é relativa,
dada a possibilidade de ajuizamento de uma ação rescisória (arts. 102, I, alínea “j”, e art. 105,
I, alínea “e” da CF e art. 966, do CPC). Há, portanto, um inegável paralelismo entre a ação
rescisória, cujo objeto é a rescisão de uma sentença estatal, e a ação anulatória arbitral. A
negação da incidência da autoridade da coisa julgada sobre os efeitos da sentença arbitral por
conta de sua vulnerabilidade à ação anulatória deveria, por coerência, conduzir a negá-la
também à estatal, por conta da possibilidade de ser desconstituída em ação rescisória135.
A propósito, Barbosa Moreira, com seu costumeiro rigor intelectual, já chamava a
atenção sobre imprecisão terminológica da expressão “relativização da coisa julgada”
justamente porque a coisa julgada nunca foi absoluta, apresentando justamente a
possibilidade do ajuizamento de ação rescisória. Confira-se:

Vem ganhando espaço entre nós, nos últimos tempos, debate doutrinário,
com alguns reflexos na jurisprudência, em torno da proposta a que se tem
chamado de “relativização” da coisa julgada material. E um dos tópicos
mais salientes dessa discussão é o da denominada “coisa julgada
inconstitucional”. Utilizamos as aspas não apenas para indicar que ambas
as expressões foram cunhadas por outros autores; elas indicam também,
logo de saída, reservas de ordem terminológica que nos ocorrem.
Comecemos pela palavra “relativização”. Não nos impressiona muito a
circunstância de estar ela ausente da maioria dos dicionários, como ausente
também está o verbo “relativizar”: uma das formas da natural evolução da
língua é a criação de vocábulos novos, e esses se afiguram forjados de
maneira compatível com a índole do idioma português. Nossa estranheza
tem outro motivo. É que, quando se afirma que algo deve ser relativizado,
logicamente se dá a entender que se está enxergando nesse algo um
absoluto: não faz sentido que se pretenda “relativizar” o que já é relativo.

134
MARTINS, Pedro A. Batista. Anotações sobre a sentença proferida em sede arbitral. Aspectos
fundamentais da lei de arbitragem. Rio de Janeiro: Forense, 1999, p. 404.
135
DINAMARCO, Candido Rangel. O processo arbitral. 2ª edição. Curitiba: Editora Direito Contemporâneo,
2022. p. 231/232.
57

Ora, até a mais superficial mirada ao ordenamento jurídico brasileiro


mostra que nele está longe de ser absoluto o valor da coisa julgada material:
para nos cingirmos, de caso pensado, aos dois exemplos mais ostensivos,
eis aí, no campo civil, a ação rescisória e, no penal, a revisão criminal,
destinadas, ambas, primariamente, à eliminação da coisa julgada. O que se
pode querer – e é o que no fundo se quer, com dicção imperfeita – é a
ampliação do terreno “relativizado, o alargamento dos limites da
“relativização”.136

É evidente, portanto, que a sentença proferida no âmbito da arbitragem faz coisa


julgada e deve ser respeitada, observada e cumprida pelas partes. Além disso, a possibilidade
de formação de coisa julgada na arbitragem demonstra a confiança do ordenamento jurídico
na autonomia da vontade das partes e na eficácia das decisões privadas, quando proferidas
em observância ao devido processo legal.
Mais do que isso, a existência de coisa julgada na arbitragem possibilita uma
coexistência pacífica entre jurisdição estatal e jurisdição arbitral, que representa um avanço
na busca por soluções mais céleres, técnicas e eficientes, sem prejuízo da segurança jurídica
garantida pela coisa julgada.
A toda evidência, a coisa julgada na arbitragem representa a culminância da jurisdição
arbitral e garante a estabilidade e a definitividade da sentença proferida pelos árbitros,
impedindo a rediscussão do litígio. Essa eficácia é condição essencial para que a arbitragem
se afirme como verdadeiro equivalente jurisdicional, oferecendo às partes a mesma
segurança e previsibilidade que teriam na jurisdição estatal.

3.4. O esgotamento do poder jurisdicional dos árbitros (functus officio)

Há na doutrina quem entenda que, uma vez proferida a sentença final, encerra a
jurisdição do árbitro, utilizando-se a expressão latina “functus officio”, que significa
“esgotado o poder jurisdicional” ou, ainda, “findo o mandato”.
A Lei de Arbitragem incorporou expressamente o princípio do functus officio, ao
estabelecer, em seu art. 29, que, uma vez proferida a sentença arbitral, considera-se encerrado
o procedimento arbitral. Apesar disso, a própria norma admite exceções a essa regra: o artigo

136
MOREIRA, José Carlos Barbosa. Considerações sobre a chamada “relativização” da coisa julgada
material. In: Temas de direito processual. Nona Série. São Paulo: Saraiva, 2007. p. 235/236.
58

30 da Lei de Arbitragem autoriza a retificação da sentença nos casos de erro material,


contradição ou obscuridade, enquanto o §4º do artigo 33 possibilita a emissão de uma
sentença arbitral complementar, caso algum dos pedidos submetidos ao juízo arbitral não
tenha sido objeto de decisão.
Outra relevante relativização da regra da functus officio é a possibilidade de prolação
de uma sentença parcial pelo árbitro, nos termos do art. 356 do Código de Processo Civil137
e art. 23, §1º da Lei de Arbitragem138. Afinal de contas, mesmo proferida a sentença parcial
de mérito, o árbitro não encerrará a sua jurisdição, restando-lhe apreciar os demais pedidos
formulados na arbitragem e que não foram objeto da sentença parcial.
Nesse sentido, toda sentença arbitral é “final” no sentido de que possui efeito
vinculante e produz efeito res judicata entre as partes, de modo que não pode ser reapreciada
pelo tribunal arbitral; mas nem toda sentença é “final” no sentido de que põe fim ao
procedimento, resolvendo todas as controvérsias e fazendo com que o tribunal encerre sua
missão (que se tornará, então, functus officio)139.
Em que pesem as relativizações à regra da functus officio, a maior parte da doutrina
entende pelo término da função do árbitro quando da prolação da sentença final, na medida
em que a sua eventual execução ficará a cargo exclusivamente do juiz estatal competente140.
Opondo-se ao entendimento de que a jurisdição do árbitro se encerra com a prolação
da sentença, Flávio Yarshell assevera que, “tendo havido convenção de arbitragem, os

137
Art. 356. O juiz decidirá parcialmente o mérito quando um ou mais dos pedidos formulados ou parcela
deles:
I - mostrar-se incontroverso;
II - estiver em condições de imediato julgamento, nos termos do art. 355 .
§ 1º A decisão que julgar parcialmente o mérito poderá reconhecer a existência de obrigação líquida ou
ilíquida.
§ 2º A parte poderá liquidar ou executar, desde logo, a obrigação reconhecida na decisão que julgar
parcialmente o mérito, independentemente de caução, ainda que haja recurso contra essa interposto.
§ 3º Na hipótese do § 2º, se houver trânsito em julgado da decisão, a execução será definitiva.
§ 4º A liquidação e o cumprimento da decisão que julgar parcialmente o mérito poderão ser processados em
autos suplementares, a requerimento da parte ou a critério do juiz.
§ 5º A decisão proferida com base neste artigo é impugnável por agravo de instrumento.
138
Art. 23. (...)
§ 1o Os árbitros poderão proferir sentenças parciais.
139
DALL’AGNOL. Ana Carolina. MARTINI, Pedro C. de Castro e. A sentença arbitral parcial: novos
paradigmas. In: Arbitragem: estudos sobre a Lei nº 13.129, de 26-5-2015. Org. Francisco José Cahali,
Thiago Rodovalho e Alexandre Freire. São Paulo: Saraiva, 2016. p. 24.
140
Nesse sentido, confira-se: CARMONA, Carlos Alberto. Arbitragem e processo: um comentário à Lei nº
9.307/96. 4ª edição. São Paulo: Gen/Atlas, 2023. p. 366; DINAMARCO, Candido Rangel. O processo
arbitral. 2ª edição. Curitiba. Editora Direito Contemporâneo, 2022, p. 197.
59

árbitros têm competência para apreciar e resolver as questões surgidas quando da atuação
prática do direito”141. Ademais, a rejeição da competência do árbitro para a cognição exigida
no momento do cumprimento de sentença representaria verdadeira incoerência com o caráter
unitário e sincrético do processo142.
Do mesmo modo, Heitor Vitor Mendonça Sica sustenta que “é preciso reconhecer que
compete ao árbitro decidir as questões atinentes à relação jurídica de direito material surgidas
em sede de execução da sentença arbitral, as quais estejam submetidas à convenção de
arbitragem”143.
De outra banda, há que se destacar que a relativização da regra da functus officio com
a continuação da arbitragem para o cumprimento da sentença arbitral não significaria, em
hipótese alguma, uma revisão ou mesmo uma via recursal144.
Assim, sob a ótica do processo civil moderno e na hipótese de descumprimento da
sentença arbitral condenatória, haverá absoluta incompatibilidade entre o dever do árbitro de
“dirimir o litígio” e a regra que lhe suprime, de forma abrupta e prematura a sua jurisdição
sobre o objeto litigioso, que permanece insatisfeito no cumprimento de sentença arbitral145.

141
YARSHELL, Flávio. A cognição a cargo dos árbitros no cumprimento da sentença arbitral. TEIXEIRA,
Tarcisio; LEGMANOVSKI, Patricia Ayub C. (coord.). Arbitragem em evolução: aspectos relevantes após
a reforma da Lei Arbitral. Barueri, Manole, 2018. p. 167.
142
YARSHELL, Flávio. A cognição a cargo dos árbitros no cumprimento da sentença arbitral. TEIXEIRA,
Tarcisio; LEGMANOVSKI, Patricia Ayub C. (coord.). Arbitragem em evolução: aspectos relevantes após
a reforma da Lei Arbitral. Barueri, Manole, 2018, p. 165.
143
SICA, Heitor Vitor Mendonça. Cognição do juiz na execução civil. São Paulo, RT, 2017. 242/243.
144
NASCIMBENI, Asdrubal Franco. Cumprimento das decisões arbitrais: estudos para aprimoramento do
sistema. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2019. p. 301
145
CHACUR DE MIRANDA, Daniel. Poderes executórios do árbitro. São Paulo: Quartier Latin, 2025. p.
108/109.
60

4. PODERES EXECUTÓRIOS DOS ÁRBITROS

4.1. O poder de império (ius imperium) do árbitro

O poder de império (ius imperium) do Estado merece um capítulo exclusivo a fim ser
melhor e devidamente compreendido, dada a sua importância para o tema. A palavra
imperium, como já destacado, tem origem em Roma, ou antes dela, nas suas possíveis raízes
etruscas. No direito romano, imperium é o poder público dinâmico conferido a magistrados
com autoridade máxima para mandar, governar, usar a força militar, julgar e administrar em
determinadas esferas territoriais146.
Atualmente, o poder de império, em sentido estrito, deve ser conceituado como sendo
o poder de impor obrigações aos todos, independentemente de sua concordância. Essa
imperatividade permite ao Poder Público emitir provimentos que vão além da sua própria
esfera jurídica, produzindo efeitos na esfera jurídica de outras pessoas, constituindo-as
unilateralmente em obrigações147. A rigor, portanto, os atos de império não são de atribuição
exclusiva do Poder Judiciário, mas do Poder Público.
Tal supremacia do interesse público, no entanto, não está diretamente presente em toda
e qualquer atuação sua. Limita-se, notadamente, aos atos em que o Poder Público manifesta
esse seu poder. A estes, dá-se o nome de atos de império, porque são impostos
coercitivamente, criando, unilateralmente, para o cidadão, obrigações; ou restringindo ou
condicionando o exercício de direitos ou de atividades privadas; são os atos que originam
relações jurídicas entre o particular e o Estado caracterizadas pela verticalidade, pela
desigualdade jurídica148.
Há uma percepção na doutrina de que a jurisdição do árbitro está restrita à fase de
conhecimento, já que lhe falta o poder de impor suas decisões aos jurisdicionados. Segundo
esse racional, a execução civil só pode ser praticada pelo Estado, que é o detentor do ius

146
MEIRA, Sílvio A. B. O “imperium” no direito romano. In: Revista de informação legislativa, v. 23, n. 90,
abr./jun. 1986. Disponível em
<[Link] Acesso em 16.09.2025. p.
100-101.
147
MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Curso de Direito Administrativo. 23 ed. São Paulo: Malheiros, p. 403.
Nota-se, pois que os atos de império independem do Judiciário.
148
NASCIMBENI, Asdrubal Franco. Cumprimento das decisões arbitrais: estudos para aprimoramento do
sistema. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2019. p. 138
61

imperium, isto é, do poder de compelir o particular ao cumprimento da obrigação contida no


título executivo.

“o árbitro tem jurisdictio, mas não tem imperium. Enquanto o juiz estatal
tem a jurisdictio e o imperium, o árbitro só conta com a jurisdictio.”149

“Enquanto no exercício de função jurisdicional o árbitro detém a vocatio,


a notio e a jurisdictio, sendo-lhe defeso, unicamente, a prática da coertio e
da executio.”150

“o juiz arbitral não detém os poderes inerentes ao imperium, ou seja, para


ordenar ou efetuar modificações no plano dos fatos.”151

O árbitro, então, somente teria poderes para atuar na fase cognitiva da arbitragem e,
por não ser detentor do ius imperium, não poderia promover atos executivos para a
implementação de suas próprias decisões.
O fundamento desse raciocínio no sentido de proibir o árbitro promover atividade
executiva reside na premissa de que somente o Estado pode exercer o uso da força, coagindo
os executados a adimplirem suas obrigações152.
Ao nosso ver, no entanto, essa percepção se revela, ao menos em parte, equivocada, já
que o árbitro é dotado de jurisdição. E, nesse contexto, Chiovenda já alertava sobre a
impossibilidade de contrapor império e jurisdição, como qualitativamente diversos:
jurisdição não é, ao contrário, mais que um complexo de atos de império reagrupados por
determinado escopo que os caracteriza, e emanados em virtude dos correspondentes poderes
postos a serviços desse escopo e da função jurisdicional153. E jurisdição, como já mencionado
acima, é o poder de dizer o direito diante de determinada situação concreta, de modo a
vincular as partes à decisão154.

149
THEODORO JR, Humberto. Arbitragem e terceiros - litisconsórcio fora do pacto arbitral - outras
intervenções de terceiros. In: Doutrinas Essenciais Arbitragem e Mediação. vol. 2/2014. Set / 2014. p. 517.
150
MARTINS, Pedro A. Batista. Arbitragem e intervenção voluntária de terceiros: uma proposta. In: Revista
de Arbitragem e Mediação. vol. 33/2012. Abr - Jun / 2012. p. 246.
151
CARNEIRO, Athos Gusmão. Arbitragem e execução. Cognição e império. Medidas cautelares e
antecipatórias. Civil law e common law. In: BUENO, Cassio Scarpinella. WAMBIER, Teresa Arruda
Alvim. Aspectos Polêmicos da nova execução. São Paulo: RT, 2008. p. 57.
152
SILVA, Paula Costa e. A nova face da justiça: os meios extrajudiciais de resolução de controvérsias.
Lisboa: Coimbra editora, 2009. p. 94.
153
CHIOVENDA, Giuseppe. Instituições de direito processual civil. Vol. 2, 2ªed., Bookseller: Campinas,
2000. p. 21.
154
PINA, Pedro. Arbitragem e jurisdição. In: Revista julgar, n. 6, 2008. p. 146.
62

O árbitro, no exercício da jurisdição, decide com força vinculante, ainda que não
possua poderes de constrição para impor as suas próprias decisões caso a sua determinação
não seja cumprida pela parte155. Logo, se decide de forma vinculante, é possível concluir que
a sentença arbitral é dotada de algum grau de imperatividade e o árbitro dispõe, em alguma
medida, mecanismos para promover, sozinho, a execução de suas próprias decisões.
Nesse sentido, o árbitro dispõe, em alguma medida, de mecanismos para promover a
execução de suas próprias decisões, o que pode, por exemplo, verificado nas sentenças
arbitrais com natureza meramente declaratórias ou constitutivas negativas, em que se busca
a modificação ou a extinção de um estado jurídico anterior. Uma sentença arbitral
constitutiva negativa, que, por exemplo, declare a invalidade de uma assembleia de
acionistas, não dependerá, necessariamente, de uma intervenção do Poder Judiciário para o
conteúdo decisório da sentença arbitral seja cumprido pelas partes. Bastaria, nessa hipótese,
o mero comando contido na sentença arbitral para que produza os seus efeitos.
Além disso, o árbitro possui poderes para implementar mecanismos de execução
indireta. Esse é o caso da imposição de medidas coercitivas ao devedor executado. O árbitro
pode, por exemplo, cominar uma multa pelo inadimplemento da obrigação contida na
sentença arbitral. O risco de incidência da aludida multa é uma forma de pressionar o
sucumbente a adimplir a sua dívida156.
Outro exemplo execução indireta ao alcance do árbitro é a hipótese do árbitro proíbe
que uma das partes na arbitragem multipartes distribua dividendos para o sucumbente até
que este último cumpra determinada obrigação de fazer imposta numa sentença arbitral.
Dessa forma, a imposição da referida medida serviria como uma espécie de incentivo para
que o sucumbente cumpra a obrigação contida na sentença arbitral, sendo certo que, uma vez
cumprido, o sucumbente seria “premiado” com a distribuição dos dividendos a que teria
direito.
A propósito, há que se mencionar, ainda, a possibilidade de o árbitro manter ou não
medida cautelar ou de urgência antecedente à instituição da arbitragem, bem como conceder
ou não medida cautelar ou de urgência requeridas incidentalmente à arbitragem (arts. 22-A

155
DINAMARCO, Candido Rangel. O processo arbitral. 2ª edição. Curitiba: Editora Direito Contemporâneo,
2022. p. 56.
156
CLAY, Thomas. As medidas cautelares requeridas ao árbitro. In: Revista de Arbitragem e Mediação, São
Paulo: Revista dos Tribunais, v. 18, jul.-set. 2008. [livro eletrônico].
63

e 22-B, Lei de Arbitragem). Em última análise, ao evitar o perigo de dano ou o risco ao


resultado útil do processo, essas medidas não deixam de ter uma natureza executória, já
buscam assegurar a fruição do direito pleiteado ou o cumprimento e execução de uma futura
decisão arbitral.
Sobre esse assunto, deve ser destacada, ademais, a possibilidade de medidas cautelares
e de urgências serem determinadas pelo denominado árbitro de emergência (também
chamado de árbitro de urgência). Embora não encontre menção expressa na legislação
brasileira, a figura do árbitro de emergência está prevista no regulamento de algumas
importantes instituições, nacionais e estrangeiras como alternativa à jurisdição estatal, na
apreciação de pedidos de medida de urgência e cautelares em caráter antecedente, antes da
formação do tribunal arbitral157.
Desse modo, sabe-se que o árbitro pode determinar a aplicação de algumas das medidas
executivas atípicas previstas no art. 139, IV, do Código de Processo Civil158, que, lembre-se,
atribui ao juiz estatal a incumbência de determinar todas as medidas indutivas, coercitivas,
mandamentais ou sub-rogatórias necessárias para assegurar o cumprimento de ordem
judicial, inclusive nas ações que tenham por objeto prestação pecuniária. É o que se verá, em
maiores detalhes, nos próximos capítulo deste trabalho.

4.2. A utilização da força física, na execução, não é uma regra e a possibilidade de atuar
com força jurídica

157
Sobre a tema, veja-se: GOUVEIA, Mariana França. ANTUNES, João Gil. The suitability of the emergency
arbitrator for investment disputes. In: e-Pública, Vol. 6, nº 2, setembro 2019, p. 9/35. Disponível
em: [Link] Acesso em 02.03.2025; GRION, Renato Stephan.
Árbitro de emergência – perspectiva brasileira à luz da experiência internacional. In: CARMONA, Carlos
Alberto, LEMES, Selma Ferreira & MARTINS, Pedro Batista. 20 anos da lei de arbitragem. São Paulo:
Atlas, 2017, p. 403-448; MARQUES, Paula Menna Barreto. Árbitro de emergência. In: CARNEIRO, Paulo
Cezar Pinheiro, GRECO, Leonardo & DALLA, Humberto. Temas controvertidos na arbitragem à luz do
código de processo civil de 2015. Rio de Janeiro: LMJ Mundo Jurídico, 2018, p. 209-223.
158
Art. 139. O juiz dirigirá o processo conforme as disposições deste Código, incumbindo-lhe: (...) IV -
determinar todas as medidas indutivas, coercitivas, mandamentais ou sub-rogatórias necessárias para
assegurar o cumprimento de ordem judicial, inclusive nas ações que tenham por objeto prestação pecuniária;
64

Há uma clara diferença entre a atuação física sobre bens e pessoas e a atuação jurídica
sobre bens “intangíveis” 159. A força jurídica, ao contrário da força física, não tem o seu
exercício submetido ao monopólio da jurisdição estatal. Pode ser exercida por meio da
jurisdição privada (arbitragem) ou por mecanismo autotutelar (como nos casos de autotutela
satisfativa)160.
Enquanto o processo de conhecimento tem por objetivo a formulação, na sentença
definitiva, da regra jurídica concreta que deve disciplinar a situação litigiosa, outra é a
finalidade do processo de execução, que é atuar de forma prática da norma jurídica. No
processo de conhecimento, a atividade jurisdicional é essencialmente intelectiva, ao passo
que no de execução se manifesta de maneira preponderante, através de atos materiais,
destinados a modificar a realidade sensível, aperfeiçoando-a, na medida do possível, àquilo
que, segundo o direito, ela deve ser161.
Nesse contexto, não obstante a natureza jurisdicional da arbitragem, o ordenamento
jurídico brasileiro não outorgou ao árbitro o poder de invadir a esfera patrimonial do devedor.
Contudo, o emprego de força física para dar cumprimento a uma decisão judicial ou arbitral
não é uma regra, mas, sim, uma eventualidade162.
A propósito, Dinamarco admite, como sendo ato executivo, as medidas de pressão
psicológicas exercidas sobre o obrigado, para que cumpra a obrigação, tais como medidas de
direito material, multas e etc,. Essas medidas têm o condão de colocar o executado em um
dilema, de modo que, se não cumprida a obrigação, ele pode sofrer reflexos ainda piores163.
Nessa hipótese, não é utilizada a força física e tampouco medidas sub-rogatórias.
De fato, a execução civil não pode ser resumida no desapossamento de bens porque a
satisfação de direitos não pressupõe, necessariamente, a alteração no plano físico. A alteração

159
“Movable property may be taken physically into custody by the enforcing officer. Intangible property - such
as a bank account or shares of stock - may be "seized" through a court order, traditionally called a writ of
garnishment, directing that the judgment creditor be recognized as having priority. Real property is seized
by recording the judgment in the public land records.” (HARZARD, Geoffrey C.; TARUFFO, Michele.
American civil procedure: an introduction. New Haven: Yale University Press, 1993. p. 194)
160
SCHINEMANN, Caio César Bueno. Arbitragem e execução: divisão de competências, poderes do árbitro
e limites subjetivos. São Paulo: Thompson Reuters Brasil, 2023. p. 126.
161
MOREIRA, José Carlos Barbosa. O novo processo civil brasileiro: exposição sistemática do procedimento.
Ed. rev. e atual.. Rio de Janeiro: Forense, 2007. p. 203.
162
YARSHELL, Flávio Luiz. A cognição a cargo dos árbitros no cumprimento da sentença arbitral. In:
Arbitragem em evolução: aspectos relevantes após a reforma da Lei Arbitral. Coord. Tarcísio Teixeira e
Patrícia Ayub C. Ligmanovski. Barueri: Manole, 2018, p. 163.
163
DINAMARCO, Candido Rangel. Execução civil. 6ª ed., rev. e atual. São Paulo: Malheiros, 1998. p. 101.
65

da situação física do bem é uma das maneiras de se praticar o ato executivo, mas não a única,
já que há medidas de execução que implementam direitos tão somente a partir da atuação no
plano jurídico164. Quando o ato é praticado com a utilização de força meramente jurídica (e
não força física), de maneira que não estabelece a “subtração forçada de patrimônio
corpóreo”165.
Dessa maneira, nas hipóteses em que não há vedação decorrente do monopólio estatal,
é possível a atuação do árbitro a partir do autorregramento das partes, com a implementação
de direitos, desde que tais medidas não impliquem constrição física sobre bens e pessoas166,
em substituição à vontade do executado.
Em suma, o poder para invadir a esfera patrimonial do devedor é uma eventualidade
da execução, e a ausência desse poder, por consequência, não retira do árbitro os demais
poderes inerentes da sua atividade jurisdicional167.

4.3. O conceito de poderes executórios do árbitro

Embora o uso da força seja uma possibilidade no processo de execução, a incapacidade


do árbitro para intervir diretamente no patrimônio do devedor não lhe retira os demais
poderes executivos vinculados à sua função jurisdicional. Em outras palavras, salvo o
emprego da força — cuja titularidade é reservada exclusivamente ao Estado, por escolha do
legislador —, e respeitados os limites previamente pactuados na convenção arbitral, o árbitro
possui prerrogativas equivalentes às do magistrado estatal.
Como a aplicação da força é uma medida excepcional, é possível afirmar que a maioria
das competências executivas do árbitro não está condicionada a ela. Assim, o árbitro pode
exercer plenamente os poderes cujos efeitos práticos não exigem a penetração forçada na
esfera patrimonial do devedor. Entre esses poderes, destacam-se os atos declaratórios, os

164
SCHINEMANN, Caio César Bueno. Arbitragem e execução: divisão de competências, poderes do árbitro
e limites subjetivos. São Paulo: Thompson Reuters Brasil, 2023. p. 126.
165
CABRAL, Antonio do Passo. Processo e tecnologia: novas tendências. In: LUCON, Paulo Henrique dos
Santos; WOLKART, Erik Navarro; LAUX, Francisco de Mesquita; RAVAGNANI, Giovani dos Santos.
Direito, processo e tecnologia. 2ª ed., São Paulo: Revista dos Tribunais, 2021. p. 103.
166
DINAMARCO, Candido Rangel. O processo arbitral. 2ª edição. Curitiba: Editora Direito Contemporâneo,
2022. p. 260.
167
CHACUR DE MIRANDA, Daniel. Poderes executórios do árbitro. São Paulo: Quartier Latin, 2025. p.
165.
66

provimentos de natureza constitutiva — como a sub-rogação ideal e certas formas de


execução atípica —, bem como a execução indireta.
Mais que isso, é atribuição do árbitro, tanto na fase de cumprimento de sentença arbitral
quanto na execução de título extrajudicial, deliberar sobre o mérito da execução, a estrutura
da relação processual, o rito aplicável e os instrumentos executivos mais adequados ao caso
concreto.168. Afinal de contas, a sentença dos árbitros é portadora de aptidão a produzir seus
efeitos por si própria, independentemente de qualquer chancela judicial, conforme estabelece
os arts. 18 e 31 da Lei de Arbitragem169170171.
Diante disso, e para os objetivos desta pesquisa, compreende-se por poder executório
do árbitro aquele que permite ao árbitro adotar atos executivos, seja de forma direta ou
indireta, voltados à efetividade prática da sentença arbitral ou da tutela jurisdicional prestada
no curso do procedimento.

4.4. Atos executivos do árbitro

Enquanto no processo de conhecimento, a composição do litígio se faz pela apreciação


ideal da norma jurídica e declaração do direito concreto das partes por meio da sentença, na
execução a prestação jurisdicional consiste na atuação material para a efetiva realização do
direito do credor172. Afinal de contas, na lição de Dinamarco, “fala-se em execução, num
sentido muito amplo, para designar a realização das obrigações”173.
Logo, a finalidade da execução, nas palavras de Leonardo Greco, é

“o desenvolvimento de atividades práticas para propiciar ao credor o


mesmo bem que ele alcançaria através do adimplemento voluntário da
obrigação pelo devedor, para produzir na situação de fato as modificações
necessárias à efetivação da regra sancionadora.

168
CHACUR DE MIRANDA, Daniel. Poderes executórios do árbitro. São Paulo: Quartier Latin, 2025. p.119.
169
Art. 18. O árbitro é juiz de fato e de direito, e a sentença que proferir não fica sujeita a recurso ou a
homologação pelo Poder Judiciário.
170
Art. 31. A sentença arbitral produz, entre as partes e seus sucessores, os mesmos efeitos da sentença
proferida pelos órgãos do Poder Judiciário e, sendo condenatória, constitui título executivo.
171
DINAMARCO, Candido Rangel. O processo arbitral. 2ª edição. Curitiba: Editora Direito Contemporâneo,
2022. p. 205.
172
THEODORO JÚNIOR, Humberto. Processo de execução. 19ª ed. São Paulo: Livraria e Editora
Universitária de Direito - LEUD, 1999. p. 58.
173
DINAMARCO, Candido Rangel. Execução civil. 6ª ed., rev. e atual. São Paulo: Malheiros, 1998. p. 100.
67

Incumprida a obrigação pelo devedor, póe o Direito à disposição do credor


um conjunto de sanções, cuja atuação se realiza sem a colaboração
voluntária do adimplente”174

A execução, por sua vez, se realiza por meio de uma série de atos da mais variada
índole, atos materiais e atos jurídicos, atos dos órgãos judiciais e atos das partes e de terceiros,
atos que se sucedem segundo ordem mais ou menos rigorosamente estabelecido por lei, até
chegar à terminação do processo, tendo todos eles a finalidade de realizar progressivamente
a efetiva satisfação do exequente175.
Quanto ao ato executivo, a doutrina o define como o ato do juiz que impõe
coativamente às partes e a quaisquer outros sujeitos a obediência às suas ordens para a
realização prática da atividade jurisdicional satisfativa, de modo a invadir a sua esfera de
liberdade pessoal e patrimonial, e atos dos auxiliares da justiça em cumprimento das ordens
do juiz176.
Uma característica comum a todos os atos de execução é a invasão da esfera jurídica
do devedor. Considerado isoladamente, cada ato executivo tem como finalidade deslocar, de
forma coercitiva, pessoas ou bens, gerando também uma transferência forçada de valores
para o patrimônio do credor. Contudo, é na análise do conjunto desses atos que se revela uma
perspectiva mais relevante. De fato, permanecendo fiel à finalidade essencial do processo de
execução — que é a obtenção da satisfação do direito do exequente — os atos executivos se
conectam e se organizam em operações mais amplas, denominadas meios executórios. Nesse
contexto, o Estado, por meio de seus órgãos jurisdicionais, age em favor da pretensão do
credor, utilizando os meios executórios disponíveis para promover a efetivação do seu
direito177.
No âmbito do presente trabalho, portanto, os atos executivos do árbitro devem ser
compreendidos como aqueles praticados pelo árbitro com vistas à satisfação do direito
reconhecido na decisão arbitral.

174
GRECO, Leonardo. O processo de execução. Rio de Janeiro: Renovar, 1999. p. 164
175
LIEBMAN, Enrico Tullio. Processo de execução (com notas de atualização do Prof. Joaquim Munhoz de
Mello). 5ª ed., São Paulo, Saraiva, 1986. p. 60/61.
176
GRECO, Leonardo. O processo de execução. Rio de Janeiro: Renovar, 1999. p. 190
177
ASSIS, Araken. Manual da execução. 15 ed. rev. e atual. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2013.p.
142.
68

Os próximos capítulos desta dissertação serão dedicados a uma tentativa de


sistematização dos atos executivos do árbitro.
Como se verá no capítulo 12 adiante, existem atos executivos que podem ser praticados
diretamente pelo árbitro que são capazes de, por si só, produzir os efeitos práticos
pretendidos, o que denominamos de atos execução direta pelo árbitro.
Além disso, no capítulo 13, delimitamos o que são os atos de execução indireta pelo
árbitro, que são medidas coercitivas, que exercem uma pressão psicológica no devedor com
o objetivo de que ele cumpra com a obrigação prevista na sentença arbitral.
Abordaremos, no capítulo 14, as limitações dos atos executivos do árbitro e quando é
necessário, por conseguinte, socorrer-se ao Poder Judiciário para satisfazer a obrigação
prevista na sentença arbitral.
No capítulo 15, será objeto de discussão a função cognitiva com o objetivo de
concretizar o direito em sua dimensão prática.
Por fim, o capítulo 16 versará sobre a carta arbitral e a divisão de competência ente o
árbitro e o juiz estatal.

4.5. Os poderes executórios do árbitro, o princípio da vedação ao non factibile e o


princípio da instrumentalidade do processo arbitral

A expressão latina non liquet “é uma abreviatura da frase ‘iuravi mihi non liquere,
atque ita iudicatu illo solutus sum’, que significa, em tradução livre, “jurei que o caso não
estava claro o suficiente e, em consequência, fiquei livre daquele julgamento”178.
No período das ações do processo civil romano clássico, na fase apud iudicem, o iudex,
não estando subordinado hierarquicamente a ninguém, poderia não julgar se não formasse
convicção sobre a causa que apreciada179. De fato, o iudex “poderia simplesmente declarar
sibi non liquere (não me parece claro), ensejando que as partes retornassem ao magistrado

178
ARMELSTEIN, George. O asno de Buridano, o non liquet e as katchangas. Disponível em:
<[Link] Acesso
em: 20.10.2024.
179
MINAMI. Marcos Youji. Da vedação ao non factibile: uma introdução às medidas executivas atípicas. 2ª
ed. rev. atual. e ampl. Salvador: Editora Juspodivm, 2020. p. 129.
69

para a escolha de novo julgador”180. Remonta, pois, ao império romano a expressão non
liquet, cuja principal causa ocorre quando o contexto probatório não é suficiente para que o
juiz possa formar a sua convicção do juiz acerca do direito postulado.
No Brasil, é vedado ao juiz deixar de julgar, alegando não estar convencido da tese
vencedora ou não saber qual o direito aplicável, nos termos do art. 126 do Código de Processo
Civil181. Afinal de contas, o princípio da vedação ao non liquet é corolário lógico do princípio
constitucional da inafastabilidade da jurisdição, consagrado no art. 5º, XXXV, da
Constituição Federal182, de modo a resguardar o sistema jurídico do colapso, cuja finalidade
é a pacificação social183.
O princípio da vedação ao non factibile é decorrência lógica do princípio da vedação
ao non liquet. Marcos Youji Minami explica a origem da expressão non factibile:

[...] não advém de nenhum brocardo latino consagrado, mas da


tradução, em latim, de algo como “não é factível”. A locução traduz
certa abstração, equivalendo: determinado acontecimento (no caso, a
realização do título executivo) não é viável, exequível, possível.
Preferiu-se não utilizar essa expressão em português para se fazer um
paralelo com o non liquet e sua vedação, facilitando, dessa forma, a
veiculação da ideia.184

O princípio do non factibile consiste no fato de que não se pode permitir que se deixe
de efetivar prestação prevista em uma decisão ou em título executivo com a justificativa de
não ser possível essa realização. Proibir o non liquet, mas permitir o non factibile seria uma
contradição185.

180
TUCCI, José Rogério Cruz e. Azevedo, Luís Carlos. Lições de história do processo civil romano. 2ª ed.
São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2013. P. 49.
181
Art. 140. O juiz não se exime de decidir sob a alegação de lacuna ou obscuridade do ordenamento jurídico.
182
Art. 5º. [...] XXXV - a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito;
183
KOATZ. Rafael Lorenzo- Fernandes. A proibição do non liquet e o princípio da inafastabilidade do
controle jurisdicional. In: RDA – Revista de Direito Administrativo, Rio de Janeiro, v. 270, p. 171/205,
set./dez., 2015. p. 174.
184
MINAMI. Marcos Youji. Uma justificativa às medidas executivas atípicas – da vedação ao non factibile.
In: Medidas executivas atípicas. (coord. Eduardo Talamini e Marcos Youji Minami). 4ª ed. rev. e atual. São
Paulo: Editora JusPodivm, 2023. p. 71-94. p. 74.
185
MINAMI. Marcos Youji. Da vedação ao non factibile: uma introdução às medidas executivas atípicas. 2ª
ed. rev. atual. e ampl. Salvador: Editora Juspodivm, 2020. p. 129.
70

Por essa razão, entendemos que admitir que poderes executórios sejam emanados do
árbitro é, antes de mais nada, um prestígio ao princípio da vedação ao non factibile, que
reforça a ideia de uma jurisdição arbitral eficaz dentro dos seus próprios limites estruturais.
O princípio da vedação ao non factibile está, em nosso entendimento, intimamente
associado ao método instrumentalista, que, nas palavras de Dinamarco, consiste “no
empenho em extrair do processo e do exercício da jurisdição o maior e mais adequado
proveito útil possível”186. Logo, na visão instrumentalista, o processo deve ser compreendido
como um instrumento, um meio, para se atingir os seus escopos.
Em sua clássica obra “a instrumentalidade do processo”, considerada um dos marcos
da nova perspectiva do processo civil moderno, como instrumento da concretização do
direito e realização da justiça, Dinamarco enumera os escopos da jurisdição elencando os
escopos de natureza social, política e jurídica187, sendo o escopo social o mais relevante, que
“é a pacificação de pessoas mediante a eliminação de conflitos com justiça”188.
De fato, com esse suporte doutrinário, superando o procedimentalismo em voga e
alcançando o atual estágio de evolução, o processo apresentou-se como excelente meio de
pacificação social. Essa nova postura do processo é uma imposição dos novos tempos,
conquista de uma sociedade que exige do Estado mais que uma justiça simplesmente legal,
impondo-lhe, em lugar da mera resolução da lide, o papel de ente pacificador de conflitos189.
Nesse contexto, a satisfação do comando contido na sentença arbitral é que, ao fim e
ao cabo, vai pacificar e eliminar o conflito existente entre as partes da arbitragem. Em outras
palavras, o inadimplemento de obrigação reconhecida em uma sentença arbitral, passe o
truísmo, gera insatisfação ao credor. Sem o adimplemento, não há a pacificação social.
O árbitro, por sua vez, atua como julgador com autoridade plena para decidir o mérito
da controvérsia e determinar providências executivas viáveis no plano prático e jurídico, mas,
sem usurpar competências exclusivas do Estado, cabe ao árbitro, sempre que possível, lançar
mão de seus poderes executórios com o objetivo de satisfazer a obrigação contida na sentença

186
DINAMARCO, Candido Rangel. BADARÓ, Gustavo Henrique Righi Ivahy. LOPES, Bruno Vasconcelos
Carrilho. Teoria geral do processo. 34ª ed., rev. e ampl. São Paulo: Malheiros, 2023. p. 30.
187
DINAMARCO, Cândido Rangel. A instrumentalidade do processo. 15ª ed. rev. e atual. São Paulo:
Malheiros, 2013. p.188/263.
188
DINAMARCO, Candido Rangel. BADARÓ, Gustavo Henrique Righi Ivahy. LOPES, Bruno Vasconcelos
Carrilho. Teoria geral do processo. 34ª ed., rev. e ampl. São Paulo: Malheiros, 2023. p. 30.
189
ALVIM, José Eduardo Carreira. Tutela específica das obrigações de fazer e não fazer. Belo Horizonte: Del
Rey, 1997. p. 25.
71

arbitral e pacificar o conflito, em observância aos princípios da vedação ao non factibile e da


instrumentalidade. Quando necessário, a parte interessada pode valer-se do Poder Judiciário
para promover a execução forçada da sentença arbitral, conforme previsto nos artigos 515,
VII, e 784, X, do CPC/2015.
Os princípios da vedação ao non factibile e da instrumentalidade, portanto, reforçam a
perspectiva de que o árbitro pratique todas as medidas executivas possíveis, de modo a
satisfazer a obrigação contida no título executivo.

4.6. Tendência mundial à descentralização da execução e a execução da sentença


arbitral no direito comparado

A execução de decisões (judiciais e arbitrais) é um dos principais institutos do nosso


ordenamento jurídico que mais precisam de alterações e refinamentos, a fim de alcançar uma
efetiva pacificação social, a ser percebida não apenas pelas partes no processo (percepção
imediata), mas, também, por toda a sociedade.
Essas possíveis melhorias são objeto de constante preocupação entre a doutrina,
abrangendo alterações de aspectos normativos e, principalmente, mudanças em mecanismos
postos à disposição dos operadores do direito.
Nesse contexto, é cada vez mais crescente a tendência contemporânea em sugerir o
modelo de desjudicialização, que, nas palavras de Joel Dias Figueira Júnior, pode ser
denominada como

[...] todas as maneiras de delegação ou retirada de atribuições,


competências, atos inclusive de natureza decisória e até mesmo uma
parcela da jurisdição (v.g., arbitragem) do Estado-juiz para as serventias
extrajudiciais, órgãos ou organismos paraestatais, entidades particulares ou
para o privado, como se verifica, por exemplo, no caso da arbitragem190.

190
FIGUEIRA JÚNIOR, Joel Dias. Execução simplificada e a desjudicialização do processo civil. In: ALVIM
NETTO, José Manoel de Arruda; et al (coord.). Execução civil e temas afins do CPC/1973 ao Novo CPC:
estudos em homenagem ao professor Araken de Assis. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2014, p. 579.
72

Especificamente sobre a desjudicialização da execução, é possível denomina-la, em


sentido amplo, como a concentração e a prática de atos do procedimento executivo sob a
responsabilidade de terceiros, sem a intervenção do Poder Judiciário191.
No Brasil, desde a década de 60 do século passado, legislação prevê hipóteses de
execução extrajudicial, tais como (i) o art. 63 da Lei 4591/64, que prevê o leilão extrajudicial
de unidade imobiliária em contratos de promessa de compra e venda inseridos em um
contexto de incorporação imobiliária192; (ii) o Decreto-Lei 70/1966, que estabelece previsão
de execução extrajudicial consubstanciada no leilão extrajudicial de imóvel do devedor
inadimplente dentro do Sistema Financeiro de Habitação (SFH), permitindo que os credores
vinculados ao SFH executem seus créditos sem a necessidade de recorrer ao poder
judiciário193.
Além disso, a Lei nº 9.514/1997, como nas hipóteses anteriores, estabelece a execução
extrajudicial prevê o leilão extrajudicial do imóvel em contratos de concessão de crédito para
aquisição de imóvel, garantidos pela alienação fiduciária do bem194.
A Lei nº 13.606/2018, por fim, para a cobrança de dívida tributária, autoriza o bloqueio
de bens pela União sem a exigência de autorização prévia, por meio de averbação da certidão
de dívida ativa nos órgãos de registros de bens e direitos. Em que pese a sua natureza
executória, com inegável invasão do patrimônio do devedor, não houve, no entanto, a
desjudicialização completa do procedimento de execução, vez que após tornar os bens
indisponíveis, a União precisa ir ao judiciário para adjudica-los ou aliená-los.
No entanto, comparado a outros países, a desjudicialização da execução no Brasil ainda
tem um longo caminho a percorrer. A maior parte dos países da Europa, por exemplo, adotam
a desjudicialização da execução, que, em regra, é realizada por meio de um agente de

191
CILURZO, Luiz Fernando. A desjudicialização da execução por quantia. [Dissertação de Mestrado
apresentada à Universidade de São Paulo – USP, sob a orientação do Pro. Dr. Ricardo de Barros Leonel].
São Paulo, 2010. p. 188.
192
CHALHUB, Melhim Namem. Incorporação Imobiliária. São Paulo: Forense, 2017, p. 391.
193
FARIAS, Rachel Nunes de Carvalho. A desjudicialização do processo executivo português como um
possível modelo para o processo de execução brasileiro. Dissertação apresentada no âmbito do 2o Ciclo de
Estudos em Direito da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Coimbra, 2013, p. 89-90.
194
GRANADO, Daniel Willian. SANTOS, Rosane Pereira dos. GIANFRANCESCO, Genosos. Execução
extrajudicial da Lei 9.514/97 e a figura do terceiro arrematante. In: Execução civil e temas afins – do
CPC/1973 ao novo CPC. Coordenação Arruda Alvim... [et al.]. São Paulo: RT, 2014, p. 198.
73

execução de status privado195. É esse o exemplo de Holanda, Bélgica, Escócia, França e


Portugal196.
A título de ilustração, a execução civil na França é disciplinada pelo code des
procédures civiles d’exécucion, que prevê que o procedimento executivo será conduzido pelo
huissier de justice, espécie de agente de execução francês197. Trata-se de profissional liberal,
cuja atuação, de caráter privado e com ampla independência, não exige uma autorização
prévia do Poder Judiciário para a deflagração da execução198.
Em relação aos atos constritivos que recaírem sobre móveis, a execução é dirigida
exclusivamente pelo huissier até a satisfação do crédito, salvo na hipótese em que são
opostos embargos à execução pelo devedor, situação na qual o litígio instaurado é levado ao
conhecimento do órgão jurisdicional199.
Quando a constrição recair sobre bens imóveis e sobre bens móveis que se encontrarem
em posse de terceiros, no interior de sua residência, o ordenamento francês é mais
conservador, prevendo uma atuação conjunta do huissier e do Tribunal de Grande
Instância200201.

195
RIBEIRO, Flávia Pereira. Desjudicialização da Execução Civil. [Tese de doutorado apresentada à Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP, sob a orientação do Prof. Dr. João Batista Lopes]. São
Paulo, 2012. p. 111.
196
CILURZO, Luiz Fernando. A desjudicialização da execução por quantia. [Dissertação de Mestrado
apresentada à Universidade de São Paulo – USP, sob a orientação do Pro. Dr. Ricardo de Barros Leonel].
São Paulo, 2010. p. 138-139.
197
Art. 1er (Décr. no 55-604 du 20 mai 1955, art. 32) Les huissiers de justice sont les officiers ministériels qui
ont seuls qualité pour signifier les actes et les exploits, faire les notifications prescrites par les lois et
règlements lorsque le mode de notification n'a pas été précisé et ramener à exécution les décisions de justice,
ainsi que les actes ou titres en forme exécutoire. Ordonnance no 45-2592 du 2 novembre 1945.
198
RIBEIRO, Flávia Pereira. Desjudicialização da Execução Civil. [Tese de doutorado apresentada à Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP, sob a orientação do Prof. Dr. João Batista Lopes]. São
Paulo, 2012. p. 92/93.
199
RIBEIRO, Flávia Pereira. Desjudicialização da Execução Civil. [Tese de doutorado apresentada à Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP, sob a orientação do Prof. Dr. João Batista Lopes]. São
Paulo, 2012. p. 103.
200
RIBEIRO, Flávia Pereira. Desjudicialização da Execução Civil. Tese de doutorado apresentada à
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo, 2012, p. 93.
201
Code des procédures civiles d’exécution: Art. L. 222-1[...] Lorsque le meuble se trouve entre les mains d'un
tiers et dans les locaux d'habitation de ce dernier, il ne peut être appréhendé que sur autorisation du juge de
l'exécution.
74

Especificamente em relação à execução de decisões arbitrais, entre os anos de 2008 e


2013, o ordenamento jurídico português permitiu a execução pela via arbitral, inspirados no
huisser de justice202.
O Decreto-Lei nº 226/2008 regulamentou a denominada arbitragem institucionalizada
no âmbito da ação executiva203. Assim, era possível que “centros de arbitragem” realizassem
tanto os atos jurisdicionais quanto os estritamente executivos, desde que as partes, por meio
de compromisso arbitral firmado sob os requisitos da lei de arbitragem voluntária, assim
optassem204.
O Código de Processo Civil português de 2013, no entanto, revogou as normas que
autorizavam a execução judicial pela via arbitral.
Além do direito português, merece destaque, ainda, o direito equatoriano, que,
aparentemente, possui sistemática única no que se refere à atribuição de poderes executórios
ao árbitro. Com efeito, o artigo 9º da Ley de Arbitraje y Mediación, no que se refere à
execução de medidas cautelares, e desde que haja estipulação pelas partes, permite que o
árbitro solicite de funcionários públicos, judiciais, policiais e administrativos, necessário à
efetivação da medida, sem ter que recorrer ao juiz ordinário. O árbitro tem, ainda,
competência para determinar a medida cautelar que entender adequada ao caso concreto,
inclusive as de caráter inominado205.
A amplitude dos poderes outorgados ao árbitro pela Legislação do Equador recebe
tratamento pouco sistemático quando se verifica que tais poderes se restringem à
implementação de decisões cautelares. As sentenças arbitrais finais devem ser executadas
perante o Poder Judiciário (art. 32). Há contrassenso sistemático da legislação equatoriana
ao permitir a execução das decisões provisórias e não permitir a das decisões finais. Afinal
de contas, se é possível que árbitros exerçam poder de império em relação a decisões

202
CHACUR DE MIRANDA, Daniel. Poderes executórios do árbitro. São Paulo: Quartier Latin, 2025. p.
137.
203
Decreto-Lei 226/2008, Art. 11: Pode ser autorizada a criação de centros de arbitragem voluntária com
competência para resolução de litígios resultantes do processo de execução e para realização das diligências
de execução previstas em lei.
204
Decreto-Lei 226/2008, art. 12: A submissão de processos de execução aos centros de arbitragem previstos
no artigo anterior depende da celebração de convenção de arbitragem em conformidade com os requisitos
estabelecidos na legislação que regula a arbitragem voluntária.
205
CHACUR DE MIRANDA, Daniel. Poderes executórios do árbitro. São Paulo: Quartier Latin, 2025. p.
142.
75

provisórias, a coerência exigiria que os mesmo mecanismos estivessem à disposição da


implementação das decisões finais206.
Nesse sentido, María Elena Jara Vásquez leciona que

Por su parte, la LAM (art. 32) se ha adscrito a la corriente predominante y


ha reservado a los jueces ordinarios toda posibilidad de ejecución de los
laudos, siempre que se les presente una copia certificada del laudo o del
acta transaccional otorgada por el secretario del tribunal, el director del
centro, o del árbitro o de los árbitros que intervieneron, con la razón de
estar ejecutoriada. Esta posición es incoherente con la atribución de
facultades de imperium que esta misma ley reconoce a los árbitros para
ejecutar medidas cautelares por acuerdo entre las partes (art. 9), a la que se
ha hecho previa referencia en este mismo capítulo.
Cabe preguntarse entonces si la facultad de los árbitros de ejecutar sus
resoluciones en materia de medidas cautelares y ordenar directamente la
intervención de los funcionarios públicos, judiciales, policiales y
administrativos que consideren conveniente sin tener que acudir a juez
alguno, de existir acuerdo entre las partes, podría ser contemplada para la
ejecución de los laudos arbitrales. El argumento que tradicionalmente se ha
sostenido en contra de esta posibilidad es que dotar a los árbitros de
facultades de imperium rebasa el ámbito de la autonomía de voluntad, pues
el imperium constituye una expresión de la soberanía que solo puede ser
ejercida por los jueces estatales. Sin embargo, como se sostuvo al analizar
las facultades de los árbitros en materia de medidas cautelares en este
mismo capítulo, la atribución de facultades de ejecución a los árbitros,
inclusive de requerirse el auxilio de funcionarios policiales y judiciales, se
justifica siempre que el mismo Estado, mediante el órgano legislativo, –
cauce de expresión de la soberanía popular– lo autorice, conclusión
previamente explicada en detalle, sin que sea necesario en este momento
repetir in extenso los argumentos esgrimidos. En conclusión, si la LAM ha
permitido que los árbitros soliciten directamente el auxilio de funcionarios
policiales, judiciales y administrativos, para la ejecución de medidas
cautelares, lo lógico parece ser que las mismas facultades sean
contempladas para la ejecución de los laudos arbitrales.207

Compreendido minimamente o panorama da desjudicialização no Brasil e, ainda, o


estado da arte dos poderes executórios do árbitro no direito comparado, é possível concluir
que a atribuição de poderes executórios ao árbitro é um norte a ser perseguido.

4.7. Atos de execução direta pelo árbitro

206
SCHINEMANN, Caio César Bueno. Arbitragem e execução: divisão de competências, poderes do árbitro
e limites subjetivos. São Paulo: Thompson Reuters Brasil, 2023. p. 118/119.
207
VÁSQUEZ, Maria Elena Jara. Tutela arbitral efectiva em Ecuador. Quito: Corporación de Estudios y
Publicaciones, 2017. p. 289/290.
76

Os atos de execução direta pelo árbitro são aqueles atos praticados exclusivamente
pelo árbitro que possuem o condão de satisfazer, por si só, o comando contido na decisão
arbitral, a despeito da vontade do devedor e sem a intervenção do Poder Judiciário.
Nesse sentido, os atos de execução direta pelo árbitro, como será visto a seguir, podem
ser divididos em (i) provimentos autossatisfativos, (ii) os atos de sub-rogação ideal pelo
árbitro e, ainda, (iii) a execução imprópria.

4.7.1. Provimentos autossatisfativos pelo árbitro

É plenamente admissível que a sentença arbitral contenha comandos autossatisfativos,


que possuem, desde o momento da prolação da sentença arbitral, eficácia executiva prática
e imediata, de modo que a obrigação prevista na sentença seja adimplida.
Dentre os provimentos autossatisfativos, que prescindem, por exemplo, de uma
atuação do Poder Judiciário, estão os provimentos meramente declaratórios, os provimentos
constitutivos e os provimentos de tutela substitutiva da prestação de declaração de vontade.
Todos esses provimentos exaurem, por si mesmos, a tutela jurisdicional postulada pela parte.
Sobre o assunto, Araken de Assis assevera que

Em dois casos há tutela autossatisfativa: a emissão de pronunciamento do


juiz, dotado de força preponderante declaratória ou constitutiva, atende e
esgota, integralmente, a aspiração do autor. Escopo atingido, nada há mais
para integrar ou acrescentar ao comando judicial, que opera de modo livre,
pleno e satisfatório, considerando o interesse deduzido na demanda.208

No mesmo sentido e referindo-se especificamente às hipóteses de provimentos


autossatisfativos emanados pelo árbitro, confira-se Dinamarco leciona que

Tanto quanto se dá nos processos estatais, quando a crise jurídica levada


aos árbitros não é de adimplemento a sentença arbitral de procedência da
demanda não terá eficácia condenatória mas, conforme o caso, declaratória
ou constitutiva. Não só ações condenatórias comportam propositura e
julgamento em sede arbitral, mas também as constitutivas ou meramente

208
ASSIS, Araken. Manual da execução. 15 ed. rev. e atual. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2013.
p. 99.
77

declaratórias. Como também se dá no processo comum, as sentenças que


as julgam procedentes não são títulos para a execução forçada, exaurindo
por si mesmas a tutela jurisdicional postulada pela parte.209

Ainda no mesmo sentido, Francisco José Cahali destaca que

Enfim, em ambas as situações narradas (tutela declaratória ou tutela


constitutiva), o provimento será em si bastante para se realizar entre as
partes, sem necessidade de outro ato ou providência, podendo entre os
envolvidos ser exigido reciprocamente eventual cumprimento da
obrigação, se o caso, na forma decidida.210

A existência desses comandos autossatisfativos demonstra que o árbitro possui, sim,


uma carga de poderes para executar suas próprias decisões. Afinal de contas, a sentença dos
árbitros é portadora de aptidão a produzir seus efeitos por si própria, independentemente de
qualquer chancela judicial211.

[Link]. Sentença arbitral meramente declaratória

A sentença arbitral meramente declaratória, como já mencionado no capítulo 7.1, é


aquela que reconhece a existência, inexistência ou modo de ser de uma relação jurídica ou
situação jurídica, ou autenticidade ou falsidade de um documento212, sem, contudo, impor
diretamente uma prestação a ser cumprida por qualquer das partes.
Na arbitragem, a sentença declaratória é plenamente admissível e comum,
principalmente em litígios que envolvem interpretação contratual, validade de cláusulas,
existência de obrigações, ou mesmo verificação de eventos relevantes para a aplicação de
determinada norma negocial. Em tais casos, o árbitro exerce um juízo de cognição que se

209
DINAMARCO, Cândido Rangel. O processo arbitral. 2ª edição. Curitiba: Editora Direito Contemporâneo,
2022. p. 212.
210
CAHALI, Francisco José. Curso de arbitragem : mediação : conciliação : resolução CNJ 125/2010. 5ª ed.
revista e atualizada, de acordo com a Lei nº 13.129/2015 (Reforma da Lei de Arbitragem), com a Lei
13.140/2015 (Marco Legal da Mediação) e o Novo CPC. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015.
p. 352.
211
DINAMARCO, Cândido Rangel. O processo arbitral. 2ª edição. Curitiba: Editora Direito Contemporâneo,
2022. p. 205.
212
GRECO, Leonardo. Instituições de Processo Civil. Vol. I. 4ª ed. e atual. Rio de Janeiro: Forense, 2013. p.
182.
78

limita a esclarecer o conteúdo ou a situação jurídica posta em debate, sem que, de imediato,
se imponha um dever de fazer, não fazer ou pagar.
Um exemplo de sentença arbitral meramente declaratória é aquela sentença que declara
a nulidade de uma cláusula contratual ou mesmo de todo o contrato, por um dos vícios
reconhecidos no direito213.
A ausência de conteúdo condenatório ou mandamental na sentença declaratória não
significa que ela seja desprovida de eficácia prática ou de consequências executivas indiretas.
Com efeito, o reconhecimento arbitral de determinado direito pode, posteriormente, servir
como base para a adoção de medidas executivas, caso uma das partes insista em descumprir
o que foi reconhecido ou continue a atuar em desconformidade com a situação jurídica
declarada.
Dinamarco leciona, ainda, que a eficácia da sentença arbitral declaratória é imediata,
produzindo seus efeitos no momento de sua prolação, ao passo que a eficácia da sentença
estatal declaratória não é imediata, uma vez que dependerá da interposição de recurso214.
Logo, se a eficácia é imediata, a simples prolação da sentença arbitral declaratória é
suficiente para que o comando contido na aludida sentença para a plena satisfação do
exequente.

[Link] Sentença arbitral constitutiva

A sentença constitutiva consiste em dar efetividade ao direito do autor à alteração de


uma situação jurídica que ele não deseja e pretende afastar, com a implementação de outra.
Desse modo, como implantam desde logo a nova situação jurídico-material postulada, as
sentenças constitutivas são suficientes em si mesma215.

213
CAHALI, Francisco José. Curso de arbitragem : mediação : conciliação : resolução CNJ 125/2010. 5ª ed.
revista e atualizada, de acordo com a Lei nº 13.129/2015 (Reforma da Lei de Arbitragem), com a Lei
13.140/2015 (Marco Legal da Mediação) e o Novo CPC. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015.
p. 351.
214
DINAMARCO, Cândido Rangel. O processo arbitral. 2ª edição. Curitiba: Editora Direito Contemporâneo,
2022. p. 213.
215
DINAMARCO, Cândido Rangel. O processo arbitral. 2ª edição. Curitiba: Editora Direito Contemporâneo,
2022. p. 212.
79

Utiliza-se a tutela jurisdicional constitutiva quando o direito potestativo em discussão


não autoriza a autotutela ou quando o titular do direito entende ser mais conveniente recorrer
à via jurisdicional216.
A sentença arbitral constitutiva é autossuficiente, já que assegura “de modo pleno e
completo a realização das situações jurídicas deduzidas em juízo”217. Há carga executória na
sentença constitutiva porque “o resultado do processo constitutivo corresponde, mutatis
mutandis, ao resultado somado dos processos condenatório e executivo”218.
São exemplos de sentenças arbitrais constitutivas aquelas que acolhem ação revisional
de aluguel, renovatória da locação; a rescisão de um acordo de quotistas ou de um contrato
(não o eventual impacto patrimonial daí decorrente, como multa, indenização etc.)219.
Dentre as sentenças arbitrais constitutivas, encontra-se as sentenças arbitrais
substitutivas da vontade do obrigado, pelas quais o julgador impõe uma manifestação que
“produzirá todos os efeitos da declaração não emitida”, nos termos do art. 501 do Código de
Processo Civil220.
Dentre as hipóteses de tutela substitutiva de declaração de vontade, deve se mencionar
aquela destinada ao suprimento de votos e outras manifestações de vontade exigíveis com
base em acordo de acionistas (Lei nº 6.404/1976, art. 118, § 3)221.
Outro exemplo de tutela substitutiva de declaração de vontade é aquela destinada a
transferir o domínio de um imóvel (adjudicação compulsória), cujo direito e ação estavam
previstos em promessa de compra e venda já quitada pelo comprador. Nessa hipótese, a
sentença arbitral valerá, tanto quanto a judicial, como título a ser levado ao registro
imobiliário para a efetivação da transferência. Não será necessário solicitar a cooperação

216
SCHINEMANN, Caio César Bueno. Arbitragem e execução: divisão de competências, poderes do árbitro
e limites subjetivos. São Paulo: Thompson Reuters Brasil, 2023. p. 128.
217
DINAMARCO, Candido Rangel. Momento de eficácia da sentença constitutiva. In: Fundamentos do
processo civil moderno, tomo II. 4ª ed. São Paulo: Malheiros, 2010. p. 1089.
218
DINAMARCO, Candido Rangel. Momento de eficácia da sentença constitutiva. In: Fundamentos do
processo civil moderno, tomo II. 4ª ed. São Paulo: Malheiros, 2010. p. 1091.
219
CAHALI, Francisco José. Curso de arbitragem : mediação : conciliação : resolução CNJ 125/2010. 5ª ed.
revista e atualizada, de acordo com a Lei nº 13.129/2015 (Reforma da Lei de Arbitragem), com a Lei
13.140/2015 (Marco Legal da Mediação) e o Novo CPC. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015.
p. 352.
220
Art. 501. Na ação que tenha por objeto a emissão de declaração de vontade, a sentença que julgar procedente
o pedido, uma vez transitada em julgado, produzirá todos os efeitos da declaração não emitida.
221
YARSHELL, Flávio Luiz. Tutela jurisdicional específica nas obrigações de declaração de vontade. São
Paulo: Malheiros, 1993. p. 129.
80

judiciária para esse fim, sendo dever do órgão registrador cumprir a sentença arbitral da
mesma maneira como cumpre a estatal222.
Nesse caso, bastaria um ofício para o registrador de imóveis registre a transferência do
bem. Não há qualquer necessidade de que esse ofício passe pelo Poder Judiciário, já que as
partes do processo arbitral são capazes, o objeto da lide é direito patrimonial disponível e
não já risco de lesão a terceiros. Afinal de contas, se o juiz togado não tem competência, em
sentido estrito, para alterar o mérito da decisão arbitral, submeter o ofício a uma apreciação
prévia seria uma formalidade absolutamente desnecessária223.
Nesse sentido, perante o registro de imóveis, a sentença arbitral tem eficácia idêntica à
sentença judicial, inclusive quando transfere o domínio, e o expediente a ser utilizado será
similar àquele disponível ao juízo estatal 224 . Sobre o assunto, Eduardo Pacheco Souza
leciona:

Com efeito, não há como negar o ingresso no fólio real das sentenças
arbitrais que decidam questões referentes a direitos patrimoniais relativos
a imóveis. Tendo os mesmos efeitos da sentença judicial, não pode ser
vedado o acesso ao registro da propriedade e produzindo os mesmos efeitos
da sentença judicial, não pode ser vedado o acesso ao registro da
propriedade, como aquela e todo e qualquer título apresentado a registro
(em sentido lato), sujeita à qualificação registral. Vale a advertência de
Álvaro Pinto de Arruda, ao se referir à qualificação dos títulos: Todos eles
estão sujeitos à obediência aos mesmos princípios e ao cumprimento de
idênticas cautelas ("Merecendo o título (carta de sentença arbitral)
qualificação positiva, o ato será praticado, cabendo ressaltar que ao
registrados não se permite ingressar no mérito da decisão arbitral quando
do exame.225

A propósito, confira-se expressivo precedente da 1ª Vara de Registros Públicos de São


Paulo, cuja ementa é a seguinte: “Juízo arbitral. Divisão amigável de condomínio pro

222
DINAMARCO, Cândido Rangel. O processo arbitral. 2ª edição. Curitiba: Editora Direito Contemporâneo,
2022. p. 214.
223
BERALDO, Leonardo de Faria. A eficácia das decisões do árbitro perante o registro de imóveis. In: Revista
de Arbitragem e Mediação. Ano 15, Vol. 58, jul./set. 2018. p. 175.
224
CAHALI, Francisco José. Curso de arbitragem : mediação : conciliação : tribunal multiportas. 9ª ed.
revista e atualizada. São Paulo: Thomson Reuters Brasil, 2022. p. 394.
225
SOUZA, Eduardo Pacheco Ribeiro de. Noções fundamentais de direito registral e notarial. São Paulo:
Saraiva, 2011. p. 263-265.
81

indiviso. Extinção. Carta de sentença. Qualificação registrária. Possibilidade. ITBI. Título.


Instrumento público x privado"226. Releva destacar, ainda, de suas razões de decidir, que:

"Assim, da mesma forma que um formal de partilha; a carta de adjudicação


expedida em processo expropriatório; a carta de arrematação; a carta de
sentença expedida em processo de separação judicial ou uma carta de
sentença em processo de divisão, a 'carta de sentença' expedida pelo juízo
arbitral tem força para acessar o fólio real, conquistando a devida
qualificação registrária."

Com o mesmo raciocínio, poderá ser expedido ofício pelo árbitro a qualquer órgão
público de registro de propriedade de bens móveis, como por exemplo, Detran, quando não
bastar a apresentação de sentença pela parte interessada227.
É inegável, pois, a carga executória do árbitro na prolação de sentenças constitutivas,
já que elas, por si mesmas, satisfazem a pretensão do demandante, que foi reconhecida na
sentença arbitral.

4.7.2. Sub-rogação ideal pelo árbitro

Além dos provimentos autossatisfativos, outro mecanismo de execução direta pelo


árbitro ocorre nas hipóteses de sub-rogação ideal.
Nas palavras de Humberto Theodoro Júnior, nos atos executivos, há “uma verdadeira
agressão ao patrimônio do devedor, para dele extrair-se, sem a sua participação ou
consentimento, o bem ou valor necessário à satisfação do exequente”228. E os atos executivos,
que invadem a esfera patrimonial do executado e que abstraem a participação do executado,
são denominados sub-rogatórios229.

226
Procedimento Administrativo de Dúvida Registral n. 000.05.032549-3, São Paulo, j. 06.06.2005.
227
CAHALI, Francisco José. Curso de arbitragem : mediação : conciliação : tribunal multiportas. 9ª ed.
revista e atualizada. São Paulo: Thomson Reuters Brasil, 2022. p. 394.
228
THEODORO JÚNIOR, Humberto. Processo de execução. 19ª ed. São Paulo: Livraria e Editora
Universitária de Direito Ltda., 1999. p. 59/60.
229
ASSIS, Araken. Manual da execução. 15 ed. rev. e atual. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2013.
p. 151.
82

A palavra sub-rogação tem origem do latim sub rogare, sub rogatio, e exprime a ideia
de substituição230, ou seja, significa a substituição de uma pessoa ou de uma coisa por outra
pessoa ou coisa numa relação jurídica231. Nas palavras de Maria Helena Diniz, sub-rogação
é “substituição de uma coisa por outra com os mesmos ônus e atributos, caso em que se tem
sub-rogação real, ou substituição de uma pessoa por outra, que terá os mesmos direitos e
ações daquela” 232 . A sub-rogação é bastante estudada pelos civilistas por ser uma das
modalidades de pagamento da obrigação adimplemento de obrigação.
Assim, no âmbito da execução, quando se menciona medida executiva sub-rogatória
significa que a implementação da medida executiva de invasão da esfera jurídica do devedor
será feita à despeito da vontade deste, cuja vontade será substituída (sub-rogada) pela vontade
do juiz233.
Esclarecido o conceito de sub-rogação, o árbitro, em regra, jamais poderia implementar
medidas executivas sub-rogatórias, já que ele poderia invadir a esfera jurídica do executado,
em substituição à vontade deste234. De fato, a sub-rogação é historicamente associada a atos
de força física, cuja prática é vedada ao árbitro, por opção legislativa, no Brasil e demais
países com tradição em arbitragem. Todavia, há atos de sub-rogação que se operam de forma
plena sem a utilização de força física alguma. Nesses casos, ao invés da sub-rogação
material, opera-se a sub-rogação meramente ideal. A sub-rogação ideal sempre precede a
sub-rogação material, mas é possível que a sub-rogação (ou seja, a mera alteração no plano

230
PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de direito civil. Vol. 2. Teoria geral das obrigações. 25ª ed.
Rio de Janeiro: Forense, 2013. p. 212.
231
WALD, Arnoldo. Direito civil: direito das obrigações e teoria geral dos contratos, vol. 2. 18ª ed.
reformulada com colaboração dos Professores Semy Glanz, Ana Elizabeth L. W. Cavalcanti e Liliana
Minardi Paesami. São Paulo: Saraiva, 2009. p. 114.
232
DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro, vol. 2, teoria geral das obrigações. 31ª ed. São
Paulo: Saraiva, 2016. p. 291.
233
“Apenas para se esclarecer os conceitos, as atividades sub-rogatórias, ou medidas de sub-rogação, consistem
em autêntica substituição de atividades, inclusive no plano físico, através das quais o Estado desenvolve
atividade que substitui a atuação do executado, dispensando-a, e que se revela capaz de produzir resultado
prático equivalente ao que se teria caso o próprio executado tivesse adimplido a obrigação. Há sub-rogação,
por outras palavras, quando o Estado apanha bens pertencentes ao executado (penhora, busca-e-apreensão),
faz incidir sobre eles as providências adequadas (avaliação, adjudicação, alienação em leilão judicial etc) e
termina por fazer aqui que, desde antes do processo, deveria ter feito o devedor: a entrega do bem ou do
dinheiro ao credor. Justamente por isso, denomina-se tal atividade de “medidas de sub-rogação”, ou seja,
medidas realizadas por um sujeito, em substituição à conduta de outro sujeito, que é o obrigado inadimplente
(sub-rogar, em direito, é ‘pôr no lugar de’).” CHACUR DE MIRANDA, Daniel. Poderes executórios do
árbitro. São Paulo: Quartier Latin, 2025. p.167/168.
234
Sobre a impossibilidade do árbitro implementar medidas executivas sub-rogatórias, vide capítulo 4.9 desta
dissertação.
83

jurídico) seja suficiente para proporcionar ao litigante a tutela almejada. É possível,


inclusive, que haja sub-rogação ideal em relação a situação de crise de inadimplemento,
bastando-se que se desenvolva um mecanismo contratual hábil a proporcionar a sub-rogação
sem a necessidade de invasão da esfera patrimonial do devedor ou mesmo que autorize,
previamente, que o árbitro invada a esfera jurídica durante a fase executiva da arbitragem235.
A sub-rogação ideal possui a natureza de um negócio jurídico processual, que, por sua
vez, previsto no art. 190 do Código de Processo Civil236 e decorre do princípio processual do
respeito ao autoregramento da vontade237. Esse princípio tem por objetivo a obtenção de um
ambiente processual em que o direito fundamental de autorregular-se possa ser exercido
pelas partes sem restrições irrazoáveis ou injustificadas.
No processo arbitral, na qual somente se discute direitos patrimoniais disponíveis (art.
1º da Lei de Arbitragem238), não há dúvidas sobre a possibilidade de se celebrar negócios
jurídicos processuais. A doutrina também entende que não há vedação para a celebração de
negócios processuais que estabeleça regras para a execução239.
Entre as hipóteses de sub-rogação ideal pelo árbitro, estão as garantias autoexecutáveis
e os smart contracts, que serão explorados adiante.

[Link] Garantias autoexecutáveis

235
CHACUR DE MIRANDA, Daniel. Poderes executórios do árbitro. São Paulo: Quartier Latin, 2025. p.
294.
236
Art. 190. Versando o processo sobre direitos que admitam autocomposição, é lícito às partes plenamente
capazes estipular mudanças no procedimento para ajustá-lo às especificidades da causa e convencionar
sobre os seus ônus, poderes, faculdades e deveres processuais, antes ou durante o processo.
Parágrafo único. De ofício ou a requerimento, o juiz controlará a validade das convenções previstas neste
artigo, recusando-lhes aplicação somente nos casos de nulidade ou de inserção abusiva em contrato de
adesão ou em que alguma parte se encontre em manifesta situação de vulnerabilidade.
237
DIDIER JR., Fredie. Princípio do autorregramento da vontade no processo civil. In: CABRAL, Antonio
do Passo. NOGUEIRA, Pedro Henrique (org.). Negócios processuais. Vol. I, (Grandes temas do novo CPC;
coord. Geral Fredie Didier Jr.). Salvador: Editora JusPodivm, 2015. p. 19/26. p. 22.
238
Art. 1º As pessoas capazes de contratar poderão valer-se da arbitragem para dirimir litígios relativos a
direitos patrimoniais disponíveis.
§ 1o A administração pública direta e indireta poderá utilizar-se da arbitragem para dirimir conflitos relativos
a direitos patrimoniais disponíveis.
§ 2o A autoridade ou o órgão competente da administração pública direta para a celebração de convenção
de arbitragem é a mesma para a realização de acordos ou transações.
239
SILVA, João Paulo Hecker da. Convenções processuais na execução e a desjudicialização da atividade
satisfativa. In: ASSUMPÇÃO, Marcio Calil de. BRAGANÇA, Gabriel José de Orleans (coord.). Direito
Bancário – Estudos da Comissão de Direito Bancário OAB/SP. São Paulo: Quartier Latin, 2018. 168.
84

São autoexecutáveis as garantias que, sob ponto de vista funcional, de maneira direta
ou indireta, por conduta ativa ou passiva, em momento anterior ou posterior ao
inadimplemento, atingem sua finalidade prática sem que haja, a princípio, a atuação
jurisdicional, forçando o adimplemento, possibilitando o autopagamento ou permitindo a
excussão e a tomada de bem em satisfação do crédito sem a participação do Poder
Judiciário240. Nesse sentido, uma simples sentença arbitral constitutiva seria suficiente para
possibilitar o autopagamento ou permitir a excussão e a tomada de bem para a satisfação do
crédito.
Com garantias autoexecutáveis, a lógica executiva das garantias é alterada. Em vez
de só se concretizarem com auxílio do Poder Judiciário, recebem efeito prático por ato do
próprio credor. Trata-se de uma tendência e de uma necessidade.
Quanto mais o credor confiar que as obrigações serão cumpridas pontualmente e de
maneira célere, melhor é para o mercado. Essa rapidez, contudo, não é própria do Poder
Judiciário, que não possui estrutura adequada para lidar com o número de ações judiciais
cada vez mais crescentes. É nesse contexto que o mercado tem buscado garantias não
dependa da intervenção judicial241. Como alerta Antonio Junqueira de Azevedo, “da fuga
para o juiz, cabe hoje falar em fuga do juiz – e isso, diga-se, não diminui o Poder Judiciário,
eis que este fica limitado a agir nas hipóteses em que, de fato, é necessário como julgador”242.
De fato, a modalidade de garantia autoexecutável que mais interessa aos poderes
executórios do árbitro são os negócios fiduciários, uma vez que a decisão do árbitro é capaz
de atingir o resultado prático desejado independentemente de atos de invasão da esfera
patrimonial do devedor. E a razão é muito simples: o bem ou direito, objeto da ordem arbitral,
não é mais titularizado pelo devedor, na medida em que foi transferido em fidúcia ao
credor243.

240
LEVADA. Filipe Antônio Marchi. Garantias autoexecutáveis. [Tese de doutorado apresentada à Faculdade
de Direito da Universidade de São Paulo - USP, sob orientação do Prof. Dr. Nestor Duarte]. USO, São
Paulo, 2021. p. 70.
241
LEVADA. Filipe Antônio Marchi. Garantias autoexecutáveis. [Tese de doutorado apresentada à Faculdade
de Direito da Universidade de São Paulo - USP, sob orientação do Prof. Dr. Nestor Duarte]. USO, São
Paulo, 2021. p. 73.
242
AZEVEDO, Antonio Junqueira de. O direito pós-moderno. Revista da USO, v. 42, p. 96-101, 1999. P. 102.
243
CHACUR DE MIRANDA, Daniel. Poderes executórios do árbitro. São Paulo: Quartier Latin, 2025. p.
229.
85

[Link]. Blockchain e smart contracts

Além disso, as novas tecnologias disruptivas tem impactado diretamente a sociedade


e, em especial, o direito. A tecnologia blockchain, cuja tradução literal é “cadeia de blocos”
tem sido reconhecida como uma infraestrutura descentralizada e inovadora, com potencial
para transformar radicalmente diversos setores da economia, incluindo finanças, saúde e
propriedade intelectual244.
A referida tecnologia foi desenvolvida por uma pessoa ou grupo de pessoas que se
autodenominou Satoshi Nakamoto para ser utilizada em sistemas de moedas virtuais, como
por exemplo, o Bitcoin245. O formato de operação dessa tecnologia é uma espécie de “arquivo
digital, que se mantém atualizado e disponível a todos os usuários da rede”246, com o registro
de todas as transações realizadas pelos usuários e que foram verificadas e armazenadas em
ordem cronológica. Essa tecnologia assemelha-se a um livro-razão contábil, que contém o
histórico de todas as movimentações financeiras de uma empresa, de modo que as
informações ali contidas não podem ser apagados e ficam permanentemente registradas,
podendo ser utilizada como prova das transações realizadas e as futuras247.
Com o advento da tecnologia blockchain, abriu a possibilidade para a celebração de
contratos inteligentes (smart contracts) até então inimagináveis. O smart contract é “um
protocolo de transação computadorizado que executa os termos do contrato”248, cujo objeto
consiste em “satisfazer condições contratuais comuns (tais como condições de pagamento,

244
KATZ, Igor Santos. Os impactos da blockchain nas relações econômicas internacionais [Tese de doutorado
apresentada à Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP, sob a
orientação do Prof. Dr. Carlos Roberto Dusek]. PUC/SP, São Paulo, 2023. p. 18.
245
NAKAMOTO, Satoshi. Bitcoin: Peer-toPeer Eletronic Cash System. <chrome-
extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/[Link] Acesso em 22.09.2025.
246
RIBEIRO, Lucas; MENDIZABAL, Odorico. Introdução à Blockchain e Contratos Inteligentes: Apostila
para Iniciante. Universidade Federal de Santa Catarina – Departamento de Informática e Estatística, 2019,
p. 21. Disponível em <[Link]
[Link]?sequence=1&isAllowed=y>. Acesso em: 10 dez. 2023.
247
JESUS, Luana Esselin Perdiz de Jesus. A aplicação do Direito Autoral no Contrato Inteligente. [Dissertação
de mestrado apresentada à Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo –
PUC/SP, sob a orientação do Prof. Dr. Francisco José Cahali]. PUC/SP, São Paulo, 2024. p. 99.
248
“A smart contract is a computerized transaction protocol that executes the terms of a contract”. SZABO,
Nick. Smart Contracts. Universiteit van Amsterdam. (1994). Disponível em:
[Link]
Twinterschool2006/[Link]/[Link]. Acesso em: 22 set. 2025.
86

gravames, confidencialidade e até mesmo execução), minimizar exceções tanto maliciosas


como acidentais e minimizar a necessidade de intermediários confiáveis” 249.
A ideia de smart contract é bem anterior ao advento da tecnologia de blockchain.
Nick Szabo, m 1997, desenvolveu de forma mais aprofundada a ideia de contratos capazes
de executar automaticamente determinadas cláusulas, sem depender da atuação de um
intermediário. E, para ilustrar o conceito, utilizou como exemplo uma situação rotineira e
amplamente conhecida no consumo moderno: o uso das máquinas automáticas de venda (as
chamadas vending machines). Nesse tipo de interação, quando alguém deseja adquirir um
refrigerante, basta inserir o valor correspondente na máquina para que, de maneira autônoma
e sem a necessidade de envolvimento humano direto, o produto seja disponibilizado ao
consumidor.250.
Nesse contexto, com o advento da blockchain, o contrato inteligente foi pensado
como uma nova forma de constituição e adimplemento das obrigações contratuais, por meio
da transformação de cláusulas contratuais em linhas de código de programação inseridas em
uma blockchain que executam determinadas transações automaticamente quando uma
condição contratual prevista é atendida251.
Eduardo Talamini e André Guskow Cardoso, em profundo estudo sobre tema,
lecionam sobre smart contract:

“O conceito de smart contract relaciona-se à utilização de código


computacional, registrado em determinada plataforma tecnológica, para a
definição de hipóteses que, uma vez verificadas, acarretam a execução
automática de determinadas consequências previamente estabelecidas no
código. Isso permite que sejam utilizados para o estabelecimento de
relações obrigacionais simples ou complexas (embora, com relação a essas

249
“The general objectives of smart contract design are to satisfy common contractual conditions (such as
payment terms, liens, confidentiality, and even enforcement), minimize exceptions both malicious and
accidental, and minimize the need for trusted intermediaries.” SZABO, Nick. Smart Contracts. Universiteit
van Amsterdam. (1994). Disponível em:
<[Link]
Twinterschool2006/[Link]/[Link]>. Acesso em: 22 set. 2025.
250
SZABO, Nick. The Idea of Smart Contracts. (1997). Disponível em
<[Link]
0 6/[Link]/[Link]>. Acesso em: 22 set. 2025.
251
JESUS, Luana Esselin Perdiz de Jesus. A aplicação do Direito Autoral no Contrato Inteligente. [Dissertação
de mestrado apresentada à Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo –
PUC/SP, sob a orientação do Prof. Dr. Francisco José Cahali]. PUC/SP, São Paulo, 2024. p. 113.
87

últimas, a utilização de smart contracts possa ser mais problemática, como


será examinado mais adiante).”252.

Para Shermin Voshmgir, smart contract é um acordo autoexecutável incorporado em


código de computador gerenciado por uma blockchain. Esse código contém um conjunto de
regras com base nas quais as partes envolvidas no contrato concordam em interagir entre si.
Se e quando essas regras previamente estabelecidas forem cumpridas, o acordo é
automaticamente executado253.
Nesse contexto, os smart contracts, com o advento da tecnologia em blockchain,
certamente, abrirão um novo mundo para a execução civil, incluindo-se a ampliação e
efetividade dos poderes executórios do árbitro. É possível que, quando cumpridos os
requisitos da Lei de Arbitragem, a sentença arbitral seja automaticamente cumprida
executada. Em outras palavras, mediante ordem do árbitro, a ser executada na própria
blockchain, é possível invadir a esfera patrimonial (digital) do devedor e satisfazer a
obrigação inadimplida através da expropriação forçada de um ativo digital254.
Nessa hipótese, a presença de um árbitro, mesmo diante de elementos a tornar o
contrato autoexecutável, torna-se relevante porque, ainda que se esteja diante de disputas
simplificadas, no atual estágio tecnológico, os smarts contracts são incapazes de reproduzir
a decisão humana diante de conceitos jurídicos indeterminados. A instabilização contratual
que recaia sobre o evento-gatilho e faça surgir o litígio pode tornar a codificação do smart
contract insuficiente, sendo necessário o exercício cognitivo humano. Assim, os smart
contracts representam, de forma inequívoca, potencial acréscimo de efetividade às relações
jurídicas de direito material e de jurisdição255, em especial para os poderes executórios do
árbitro.

252
TALAMINI, Eduardo. CARDOSO, André Guskow. Smart contracts, “autotutela” e tutela jurisdicional.
In: BELIZZE, Marco Aurélio. MENDES, Aluísio Gonçalves de Castro. ARRUDA ALVIM, Teresa.
CABRAL, Trícia Navarro Xavier (org.). Execução civil – novas tendências: estudos em homenagem ao
professor Arruda Alvim. Indaiatuba: Editora Foco, 2022. p. 47.
253
No original, “A smart contract is a self-enforcing agreement embedded in computer code managed by a
blockchain. The code contains a set of rules under which the parties of that smart contract agree to interact
with each other. If and when the predefined rules are met, the agreement is automatically enforced.”
(VOSHMGIR, Shermin. Token Economy: how Blockchains and smart contracts revolutionize the economy.
Berlim: Amazon Media, 2019. p. 88)
254
CHACUR DE MIRANDA, Daniel. Poderes executórios do árbitro. São Paulo: Quartier Latin, 2025. p.
238.
255
SCHINEMANN, Caio César Bueno. Arbitragem e execução: divisão de competências, poderes do árbitro
e limites subjetivos. São Paulo: Thompson Reuters Brasil, 2023. p. 152.
88

4.7.3. Execução imprópria pelo árbitro

A atividade desenvolvida por órgãos públicos, não pertencentes ao Poder Judiciário,


consistente na transcrição ou inscrição de um ato em registro público, em cumprimento a um
provimento jurisdicional, é denominada execução imprópria 256 . Com efeito, a execução
imprópria se processa perante terceiro que não é vinculado à relação jurídica de direito
material subjacente à decisão, como, por exemplo, a Junta Comercial, Registro de Imóveis e
o Cartório de Pessoas Naturais257.
Identifica-se a execução imprópria com as sentenças declaratórias e constitutivas, por
caber, nesses casos, a mera documentação da sentença como meio de efetivar o comando
sentencial258. Nesse sentido, Cassio Scarpinella Bueno leciona, ao explicar o que seria um
“processo de execução”, que nas sentenças declaratórias ou constitutivas não demanda um
processo de execução, mas, no máximo, uma “execução imprópria”, consistente em atos
materiais de documentação do quanto decidido pelo juiz, dando-lhe publicidade259.

256
LIEBMAN. Enrico Tulio. Processo de execução, 4ª ed. São Paulo: Saraiva, 1980. p. 9.
257
CHACUR DE MIRANDA, Daniel. Poderes executórios do árbitro. São Paulo: Quartier Latin, 2025. p.
175.
258
SCHINEMANN, Caio César Bueno. Arbitragem e execução: divisão de competências, poderes do árbitro
e limites subjetivos. São Paulo: Thompson Reuters Brasil, 2023. p. 207.
259
“1.3) O que é um “processo de execução”? Não há como negar que a súmula que acabei de enunciar é
bastante frustrante. Ela, vou ser honesto, não leva a lugar nenhum e ainda pode ser acusada de ser tautológica
porque, em última análise, ela diz que sentença condenatória é aquela que condena. Para contornar estas
críticas — pertinentes —, não há como não reconhecer que, realmente, falta, ao conceito de sentença
condenatória um complemento. Sentença condenatória reclama, por definição, o processo de execução,
porque sua estrutura, em si mesma considerada, não é diferente de nenhuma outra classe de sentença, as
declaratórias ou constitutivas. O que a diferencia — e sobre isto não há divergências maiores em doutrina
— das demais “sentenças” é justamente seu reconhecimento de que ela, sentença condenatória, é muito
mais ato preparatório do que qualquer outra coisa. A sentença condenatória não se basta. Ela precisa de algo
mais e este algo mais é o processo de execução.10 Ela é só causa; não o efeito. Vamos a ele. Mantendo,
ainda, uma forma mais tradicional de exposição, o chamado “processo de execução”, que se contrapõe ao
“processo de conhecimento” e ao “processo cautelar”, é aquele voltado à realização concreta de uma
sentença condenatória.11 Interessante frisar e refrisar este ponto: se a sentença não for condenatória, não há
processo de execução. Uma sentença declaratória ou uma sentença constitutiva não reclama um processo
de execução, ela não se executa (o termo é técnico); realizando-se ou tornando-se realidade, sem necessidade
de um outro processo para sua implementação concreta. No máximo, tolera-se uma execução “imprópria”
que, como o próprio nome diz, nada tem de execução mas de meros atos materiais de documentação do
quanto decidido pelo juiz, dando-lhe publicidade.12 O que interessa nos casos de sentença declaratória e
constitutiva é que a sentença basta por si só.” (BUENO. Cassio Scarpinella. Cumprimento da sentença e
processo de execução: ensaio sobre o cumprimento das sentenças condenatórias. In: DIDIER JR. Fredie.
Execução civil- Estudos em homenagem ao Professor Paulo Furtado. Rio de Janeiro: Lumem Juris, 2006)
89

A execução é imprópria porque não são exercidas atividades sub-rogatórias e


coercitivas. Por vincular terceiros não vinculados relação jurídica de direito material, mas
que exercem funções públicas, como o Registrador de Imóveis, o Cartório de Notas, a Junta
Comercial etc., a execução imprópria suscita dúvidas no que relacionadas à arbitragem260.
Sobre a problemática da execução imprópria da sentença arbitral perante órgãos
registradores, Dinamarco leciona:

A preconceituosa resistência oposta à efetivação dos efeitos de sentenças


arbitrais, notadamente por órgãos registradores, prende-se a uma
circunstância muito peculiar ao direito brasileiro, consistente na supervisão
e controle dos serviços do chamado foro extrajudicial pelo Poder
Judiciário. Essa é, porém, uma relação hierárquica presente no plano
administrativo, com os juízes corregedores comandando a organização de
cartórios, suas finanças, disciplina de funcionamento, recrutamento de
funcionários (delegatários de funções públicas) etc., realizando atividades
censórias e correicionais. Tais características não devem, porém ser levadas
em conta quando se trata do cumprimento de medidas jurisdicionais pelos
registradores, não importando se tais medidas vêm de um juiz togado ou de
árbitro. O que importa é a existência de um preceito ditado no exercício da
jurisdição, seja por estes ou por aquele. Mesmo no âmbito do Poder
Judiciário e das decisões produzidas em sede contenciosa, todo juiz, mesmo
não dotado de funções correcionais, edita medidas como essas e os
cartórios cumprem – sem que entre uns e outros haja qualquer relação
hierárquica. Seria conveniente que os órgãos competentes do Poder
Judiciário, responsáveis pela administração superior do foro extrajudicial,
editassem normas, ou instruções, no sentido de obrigar aqueles
serventuários a cumprir sentenças arbitrais. Houve um caso no qual o painel
arbitral presidido pelo conceituado prof. José Carlos Magalhães, antevendo
uma dessas negaças do órgão registrador, determinou que, “havendo
qualquer resistência do cartório, deveria a parte vencida outorgar, às suas
expensas, escritura pública” do imóvel, apta a ser registrada (apud
Carmona).261

De fato, o órgão público tem o encargo de adotar as providências a efetivar a sentença


arbitral não por alguma relação com o direito material objeto da decisão, mas em razão da
“relação de serviço público” que o submete ao dever de implementar decisões jurisdicionais
que, para produzir os seus efeitos, dependam do apoio daquele órgão público. Se o terceiro
é obrigado a efetivar uma sentença judiciária, não há circunstância que o exima de conferir

260
SCHINEMANN, Caio César Bueno. Arbitragem e execução: divisão de competências, poderes do árbitro
e limites subjetivos. São Paulo: Thompson Reuters Brasil, 2023. p. 207.
261
DINAMARCO, Cândido Rangel. O processo arbitral. 2ª edição. Curitiba: Editora Direito Contemporâneo,
2022. p. 215.
90

a mesma efetivação a uma sentença arbitral. Por isso, cabe ao órgão público acatar a decisão
arbitral e promover diretamente a efetivação da sentença arbitral que lhe foi apresentada a
partir dos mesmos critérios que utilizaria para efetivação de uma sentença judiciária, sendo
desnecessária qualquer homologação da sentença arbitral por um juiz estatal262.
E não é só. A sentença arbitral deve receber o mesmo tratamento da que as decisões
judiciais no que se refere à possibilidade de constituição de hipoteca judiciária, prevista no
art. 495, do Código de Processo Civil263. A hipoteca judiciária é definida como o “direito
real conferido ao exequente, em garantia da execução do julgado”264. Trata-se de efeito anexo
da decisão condenatória, ocorrendo mesmo sem pedido da parte ou decisão expressa do
julgador265.
Do mesmo modo, a sentença arbitral inadimplida também deve receber o mesmo
tratamento da decisão judicial transitada em julgada, no que tange à possibilidade de se tornar

262
SCHINEMANN, Caio César Bueno. Arbitragem e execução: divisão de competências, poderes do árbitro
e limites subjetivos. São Paulo: Thompson Reuters Brasil, 2023. p. 208.
263
Art. 495. A decisão que condenar o réu ao pagamento de prestação consistente em dinheiro e a que
determinar a conversão de prestação de fazer, de não fazer ou de dar coisa em prestação pecuniária valerão
como título constitutivo de hipoteca judiciária.
§ 1º A decisão produz a hipoteca judiciária:
I - embora a condenação seja genérica;
II - ainda que o credor possa promover o cumprimento provisório da sentença ou esteja pendente arresto
sobre bem do devedor;
III - mesmo que impugnada por recurso dotado de efeito suspensivo.
§ 2º A hipoteca judiciária poderá ser realizada mediante apresentação de cópia da sentença perante o cartório
de registro imobiliário, independentemente de ordem judicial, de declaração expressa do juiz ou de
demonstração de urgência.
§ 3º No prazo de até 15 (quinze) dias da data de realização da hipoteca, a parte informá-la-á ao juízo da
causa, que determinará a intimação da outra parte para que tome ciência do ato.
§ 4º A hipoteca judiciária, uma vez constituída, implicará, para o credor hipotecário, o direito de preferência,
quanto ao pagamento, em relação a outros credores, observada a prioridade no registro.
§ 5º Sobrevindo a reforma ou a invalidação da decisão que impôs o pagamento de quantia, a parte
responderá, independentemente de culpa, pelos danos que a outra parte tiver sofrido em razão da
constituição da garantia, devendo o valor da indenização ser liquidado e executado nos próprios autos.
264
TUCCI, José Rogério Cruz e. Hipoteca judiciária e devido processo legal. In: Revista do Instituto dos
Advogados de São Paulo, vol. 7/2001, p. 70-75, Jan-Jun/2001.
265
SCHINEMANN, Caio César Bueno. Arbitragem e execução: divisão de competências, poderes do árbitro
e limites subjetivos. São Paulo: Thompson Reuters Brasil, 2023. p. 212.
91

um título protestável, nos termos do art. 517 do Código de Processo Civil266. Igualmente, a
sentença arbitral pode determinar a sustação e o cancelamento de protesto267.

4.8. Atos de execução indireta pelo árbitro

Bem entendida as hipóteses de atos de execução direta pelo árbitro, deve objeto de
análise mais detida os atos de execução indireta pelo árbitro.
Excetuando as hipóteses em que é possível a execução direta pelo árbitro, como a
satisfação de obrigação depende, em princípio, da vontade do obrigado, buscam-se meios
capazes de influir sobre a sua vontade (meios de coação)268.
Dinamarco designa, como execução indireta, as medidas coercitivas, que exercem uma
pressão psicológica no devedor para que este cumpra a obrigação estabelecida no título
executivo. Na realidade, tais medidas não dão efetividade aos preceitos jurídicos, mas
somente põem o executado em verdadeiros dilemas269.
Sobre o assunto, Fredie Didier Jr. leciona que

Chama-se essa execução de “execução indireta” ou “execução por coerção


indireta”, assim entendida aquela em que não há substituião da conduta do
devedor. Nesses casos, a vontade do executado é importante; as medidas
executivas contam com a participação do executado, sendo eficazes se
houver essa participação. [...] Os meios de executivos de coerção indireta
atuam na vontade do executado, servindo como uma espécie de “estímulo”
ao cumprimento da prestação. Esta coerção pode dar-se pelo medo (temor),
como é o caso da prisão civil e da multa coercitiva, como também pelo
incentivo, como é o caso das chamadas sanções premiais, de que serve de

266
Art. 517. A decisão judicial transitada em julgado poderá ser levada a protesto, nos termos da lei, depois de
transcorrido o prazo para pagamento voluntário previsto no art. 523.
§ 1º Para efetivar o protesto, incumbe ao exequente apresentar certidão de teor da decisão.
§ 2º A certidão de teor da decisão deverá ser fornecida no prazo de 3 (três) dias e indicará o nome e a
qualificação do exequente e do executado, o número do processo, o valor da dívida e a data de decurso do
prazo para pagamento voluntário.
§ 3º O executado que tiver proposto ação rescisória para impugnar a decisão exequenda pode requerer, a
suas expensas e sob sua responsabilidade, a anotação da propositura da ação à margem do título protestado.
§ 4º A requerimento do executado, o protesto será cancelado por determinação do juiz, mediante ofício a
ser expedido ao cartório, no prazo de 3 (três) dias, contado da data de protocolo do requerimento, desde que
comprovada a satisfação integral da obrigação.
267
SCHINEMANN, Caio César Bueno. Arbitragem e execução: divisão de competências, poderes do árbitro
e limites subjetivos. São Paulo: Thompson Reuters Brasil, 2023. p. 214/217.
268
ALVIM, José Eduardo Carreira. Tutela específica das obrigações de fazer e não fazer. Belo Horizonte:
Del Rey, 1997. p. 105.
269
DINAMARCO, Candido Rangel. Execução civil. 6ª ed., rev. e atual. São Paulo: Malheiros, 1998. p. 101.
92

exemplo a isenção de custas e honorários para o réu que cumpra o mandado


monitório.270

Há, na doutrina, quem entenda que as medidas coercitivas não constituiriam atividade
propriamente executiva271, mas, data maxima venia, a execução indireta constitui autêntica
atividade executiva, já que diz respeito a mecanismos sancionatórios, voltados à satisfação
do direito do credor272.
Desde a Roma antiga, havia previsão de execução indireta. O direito romano previa o
instituto da manus injectio, que se caracterizava pelo emprego da força contra o próprio
obrigado. Acorrentado na praça pública, ele era exprobrado a solver a dívida e, finalmente,
remanescendo insatisfeito o crédito reclamado pelo credor, padecia o devedor a brutal e
irreversível sanção de morte273.
Atualmente, as astreintes são um mecanismo de execução indireta por excelência274 e,
no dizer de Maria Helena Diniz, podem ser conceituadas como “a multa destinada a forçar o
devedor indiretamente a fazer o que deve, e não a reparar dano decorrente” 275. No mesmo
sentido, Alexandre Câmara leciona que

[...] a astreinte pode ser caracterizada como uma multa periódica, imposta
pelo juiz em função da demora no cumprimento da obrigação de fazer ou

270
DIDIER JR., Fredie. CUNHA, Leonardo Carneiro da. BRAGA, Paula Sarno. OLIVEIRA, Rafael
Alexandria. Curso de direito processual civil: execução. Vol. 5. 5ª ed. Salvador: Editora Jus Podivm, 2013.
p. 35.
271
“O emprego desses meios de coerção não constitui atividade propriamente executiva. A execução forçada,
em sentido técnico, tem como característica a virtude de atuar praticamente a norma jurídica concreta,
satisfazendo o credor, independentemente da colaboração do devedor, e mesmo contra a sua vontade, que
se despe de qualquer relevância. Aqui bem ao contrário, em vez de prescindir-se da atividade do devedor,
o que se procura é influenciá-lo psicologicamente, para que se disponha a realiza-la ele próprio. Atividade
executiva autêntica pode, sim, vir a realizar-se, quando se for cobrar do devedor, pelo procedimento da
execução por quantia certa, o montante da multa em que porventura incorra, pelo atraso no cumprimento da
condenação principal. Fora daí, o mecanismo que ora se estuda é menos uma execução propriamente dita
do que um sucedâneo da execução.” (MOREIRA, José Carlos Barbosa. O novo processo civil brasileiro:
exposição sistemática do procedimento. 23ª ed. rev. e atual. Rio de Janeiro: Forense, 2005. p. 218.)
272
DIDIER JR., Fredie. CUNHA, Leonardo Carneiro da. BRAGA, Paula Sarno. OLIVEIRA, Rafael
Alexandria. Curso de direito processual civil: execução. Vol. 5. 5ª ed. Salvador: Editora Jus Podivm, 2013.
p. 35.
273
ASSIS, Araken. Manual da execução. 15 ed. rev. e atual. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2013.p.
146.
274
SCHINEMANN, Caio César Bueno. Arbitragem e execução: divisão de competências, poderes do árbitro
e limites subjetivos. São Paulo: Thompson Reuters Brasil, 2023. p. 153.
275
DINIZ, Maria Helena. Dicionário Jurídico. São Paulo: Saraiva, 1998. p. 301.
93

não fazer, com o principal objetivo de pressionar psicologicamente o


devedor a cumprir com a sua prestação.276

Nesse contexto, como já adiantado no capítulo 10, o árbitro possui poderes para
implementar mecanismos de execução indireta, que exercem uma pressão psicológica no
devedor para que este cumpra voluntariamente a obrigação277. O árbitro pode, por exemplo,
cominar uma multa ou astreintes pelo inadimplemento da obrigação contida na sentença
arbitral. O risco de incidência da aludida multa é uma forma de pressionar o sucumbente a
adimplir a sua dívida278.
As astreintes, assim, cumprem duas funções fundamentais: (a) função cominatória, que
surge da decisão judicial que impõe uma condenação pecuniária a quem não cumpre uma
ordem dada pelo juiz no uso de seus poderes; e, ainda, (b) função sancionatória, que se dá no
suposto de que o obrigado – em que pese a cominação – não cumpra sua obrigação, caso em
que não existe mera coação psicológica, senão pena stricto sensu, traduzida na aplicação
direta do que até então constituiu só uma ameaça279.
Para além das astreintes, a mais tradicional sanção privada a quem descumpre uma
decisão arbitral é o ostracismo comercial, que tem o condão de isolar o devedor no seu
mercado, de modo dificultar o exercício de sua atividade econômica. E o ostracismo
comercial prescinde em absoluto da tutela executiva estatal280. Sobre esse aspecto, Carmona,
ao comentar sobre cumprimento da sentença arbitral, leciona que

Considerando-se que é cada vez mais raro encontrar contratos


internacionais que não contenham cláusulas compromissórias, cláusulas
essas que, em sua graned maioria, reportam-se a um órgão institucional,
emerge da experiência internacional um paulatino aumento do número de
sentenças cumpridas espontaneamente pelo vencido: o ambiente comercial
e industrial, onde a arbitragem viceja, não tolera o inadimplemento, que
cria uma atmosfera de perigosa desconfiança em relação à parte que não

276
CÂMARA, Alexandre Freitas. Lições de direito processual civil. 18ª ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2010.
p. 256.
277
APRIGLIANO, Ricardo de Carvalho. Normas processuais aplicáveis à arbitragem. [Tese de Livre-
docência em Direito Processual Civil] USP, São Paulo, 2022. p. 291/292.
278
CLAY, Thomas. As medidas cautelares requeridas ao árbitro. In: Revista de Arbitragem e Mediação, São
Paulo: Revista dos Tribunais, v. 18, jul.-set. 2008. [livro eletrônico].
279
ALVIM, José Eduardo Carreira. Tutela específica das obrigações de fazer e não fazer. Belo Horizonte:
Del Rey, 1997. p. 110.
280
SCHINEMANN, Caio César Bueno. Arbitragem e execução: divisão de competências, poderes do árbitro
e limites subjetivos. São Paulo: Thompson Reuters Brasil, 2023. p. 153.
94

cumpre os ditames do laudo, especialmente no que se refere às empresas


de maior porte e às multinacionais, que arriscam perder sua credibilidade.
O mercado, portanto, ganha protagonismo no sentido de avaliar
positivamente as sociedades que cumprem as sentenças arbitrais,
encarregando-se de arruinar a reputação daquelas que, depois, de vencidas,
inventam motivos para furtar-se ao cumprimento de suas obrigações.281

Além do ostracismo comercial, pode ser entendido, como medida coercitiva de


execução indireta, as sanções corporativas (alguns órgãos arbitrais, especialmente aqueles
que se dedicam a resolver litígios de determinados setores, mantêm cadastro com a relação
daqueles que deixam de cumprir decisões282.
Assim, é possível concluir que o juízo arbitral é capaz de implementar medidas
coercitivas indiretas para o fim de satisfazer o comando contido na decisão arbitral, evitando-
se socorrer-se do Poder Judiciário.

4.9. Limitações aos poderes executórios do árbitro

Embora o árbitro tenha poderes para a prática de diversos atos executivos que, por si
só, têm o condão de satisfazer a obrigação prevista na sentença arbitral, é evidente que esses
poderes executórios encontram limitações.
A limitação aos poderes executórios do árbitro é para as hipóteses em que é necessária
a implementação de atos executivos sub-rogatórios em sentido estrito, que são, nas palavras
de Araken de Assis, “os meios que abstraem a participação do executado”283. Ou seja, atos
que substituem, de maneira forçada, a vontade do devedor.
De fato, quando os mecanismos de execução direta e a indireta pelo árbitro,
veiculados nos capítulos anteriores, não são suficientes para satisfazer o comando contido na
sentença arbitral, é necessário substituir forçosamente a vontade do executado, através de
atos executivos sub-rogatórios em sentido estrito.

281
CARMONA, Carlos Alberto. Arbitragem e Processo: um comentário à lei nº 9.307/96. 4ª ed. Barueri - SP:
Atlas, 2023. p. 397.
282
CARMONA, Carlos Alberto. Arbitragem e Processo: um comentário à lei nº 9.307/96. 4ª ed. Barueri - SP:
Atlas, 2023. p. 397/398.
283
ASSIS, Araken. Manual da execução. 15ª ed. rev. e atual. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2013.
p. 151.
95

Os árbitros não detêm poder, por exemplo, para determinar a penhora de ativos
financeiros do executado. Para efetivar o bloqueio de dinheiro na conta corrente do
executado, é necessário substituir forçosamente a vontade do devedor. Nessas hipóteses, em
que os poderes executórios do árbitro não são suficientes, é necessário socorrer-se do Poder
Judiciário para o fim de satisfazer a obrigação estabelecida na sentença arbitral, através de
medidas executivas sub-rogatórias stricto sensu. Essas medidas executivas sub-rogatórias
stricto sensu, por sua vez, serão concretizadas pelo Poder Judiciário em pedido de
cumprimento de sentença a ser apresentado pelo credor, já que a sentença arbitral nacional é
considerada título executivo judicial (art. 515, VII, CPC284).
A segunda limitação aos poderes executórios do árbitro está intimamente ligada às
hipóteses de nulidade de sentença arbitral. Explique-se: como os atos executórios do árbitro
estão inseridos no domínio decisório do árbitro, esses atos, em regra, não se submetem ao
controle do Poder Judiciário. Exceções a essa regra estão expressamente previstas em lei,
notadamente nas hipóteses de cabimento de ação declaratória de nulidade da sentença arbitral
(arts. 32 e 33 da Lei de Arbitragem285286).
Tais exceções devem ser interpretadas de modo a permitir a revisão de possíveis
vícios processuais (errores in procedendo) nas deliberações do árbitro tomadas após a

284
Art. 515. São títulos executivos judiciais, cujo cumprimento dar-se-á de acordo com os artigos previstos
neste Título: [...] VII - a sentença arbitral;
285
Art. 32. É nula a sentença arbitral se:
I - for nula a convenção de arbitragem;
II - emanou de quem não podia ser árbitro;
III - não contiver os requisitos do art. 26 desta Lei;
IV - for proferida fora dos limites da convenção de arbitragem;
VI - comprovado que foi proferida por prevaricação, concussão ou corrupção passiva;
VII - proferida fora do prazo, respeitado o disposto no art. 12, inciso III, desta Lei; e
VIII - forem desrespeitados os princípios de que trata o art. 21, § 2º, desta Lei.
286
Art. 33. A parte interessada poderá pleitear ao órgão do Poder Judiciário competente a declaração de
nulidade da sentença arbitral, nos casos previstos nesta Lei.
§ 1o A demanda para a declaração de nulidade da sentença arbitral, parcial ou final, seguirá as regras do
procedimento comum, previstas na Lei n o 5.869, de 11 de janeiro de 1973 (Código de Processo Civil), e
deverá ser proposta no prazo de até 90 (noventa) dias após o recebimento da notificação da respectiva
sentença, parcial ou final, ou da decisão do pedido de esclarecimentos.
§ 2o A sentença que julgar procedente o pedido declarará a nulidade da sentença arbitral, nos casos do art.
32, e determinará, se for o caso, que o árbitro ou o tribunal profira nova sentença arbitral.
§ 3o A decretação da nulidade da sentença arbitral também poderá ser requerida na impugnação ao
cumprimento da sentença, nos termos dos arts. 525 e seguintes do Código de Processo Civil, se houver
execução judicial.
§ 4o A parte interessada poderá ingressar em juízo para requerer a prolação de sentença arbitral
complementar, se o árbitro não decidir todos os pedidos submetidos à arbitragem.
96

sentença arbitral. Essa possibilidade configura situação excepcional em que se admite o


controle judicial de decisões arbitrais distintas da sentença final — como ocorre, por
exemplo, nos casos em que se concede tutela de urgência no curso do procedimento287.
Diga-se de outro modo, para que não pairem dúvidas: a ação declaratória de nulidade
da sentença arbitral não corresponde ao recurso de apelação no processo civil. Logo, não visa
ela a modificar a decisão de mérito que deslindou a controvérsia. É importante que se insista
que o mérito da sentença arbitral é intocável pelo Poder Judiciário, cabendo a este, isso sim,
anular a sentença arbitral exclusivamente à ocorrência de uma ou mais das hipóteses contidas
no art. 32 da Lei de Arbitragem288.
Nesse sentido, o Superior Tribunal de Justiça já assentou o entendimento no sentido
de que, em sede de ação declaratória de nulidade da sentença arbitral, é descabida a análise
do mérito da sentença arbitral, devendo a análise se restringir aos aspectos de ordem formal
da sentença arbitral:

“RECURSO ESPECIAL. PROCESSUAL CIVIL. AÇÃO DE


IMPUGNAÇÃO DE SENTENÇA ARBITRAL. VÍCIOS FORMAIS.
AUSÊNCIA.
1. Demanda na qual se questiona a validade de sentença arbitral por ofensa
aos princípios da motivação e do contraditório, além de outros vícios
formais.
2. Na ação de invalidação de sentença arbitral, o controle judicial, exercido
somente após a sua prolação, está circunscrito a aspectos de ordem formal,
a exemplo dos vícios previamente elencados pelo legislador (art. 32 da Lei
nº 9.307/1996), em especial aqueles que dizem respeito às garantias
constitucionais aplicáveis a todos os processos, que não podem ser
afastados pela vontade das partes.
3. Hipótese em que a sentença arbitral não está fundada em meras
suposições, mas, sobretudo, na ausência de cláusula penal para a hipótese
de resolução antecipada do contrato e na vedação ao enriquecimento sem
causa.
4. Aplica-se à arbitragem, à semelhança do processo judicial, a teoria da
substanciação, segundo a qual apenas os fatos vinculam o julgador, que
poderá atribuir-lhes a qualificação jurídica que entender adequada ao
acolhimento ou à rejeição do pedido, não se podendo afirmar, no caso em
exame, que a solução apresentada desbordou das postulações inicialmente
propostas.

287
SCHINEMANN, Caio César Bueno. Arbitragem e execução: divisão de competências, poderes do árbitro
e limites subjetivos. São Paulo: Thompson Reuters Brasil, 2023. p. 166.
288
PINTO, José Emilio Nunes. Anulação de sentença arbitral infra petita, extra petita ou ultra petita. In:
JOBIM, Eduardo; MACHADO, Rafael Bicca (coord.). Arbitragem no Brasil: Aspectos Jurídicos
Relevantes. São Paulo: Quartier Latin, 2008. p. 251.
97

5. No procedimento arbitral, é plenamente admitida a prorrogação dos


prazos legalmente previstos por livre disposição entre as partes e
respectivos árbitros, sobretudo em virtude da maior flexibilidade desse
meio alternativo de solução de conflitos, no qual deve prevalecer, em regra,
a autonomia da vontade.
6. Se a anulação da sentença proferida fora do prazo está condicionada à
prévia notificação do árbitro ou do presidente do tribunal arbitral,
concedendo-lhe um prazo suplementar de dez dias (art. 32, VII, da Lei de
Arbitragem), não há motivo razoável para não aplicar a mesma disciplina
ao pedido de esclarecimentos, que, em última análise, visa tão somente
aclarar eventuais dúvidas, omissões, obscuridades ou contradições, ou
corrigir possíveis erros materiais.
7. Sentença arbitral pautada em princípios basilares do direito civil, não
importando se houve ou não referência expressa aos dispositivos legais que
lhes conferem sustentação, não havendo como afirmar que houve
julgamento por equidade, em desrespeito às condições estabelecidas no
compromisso arbitral.
8. O mero inconformismo quanto ao conteúdo meritório da sentença
arbitral não pode ser apreciado pelo Poder Judiciário. Precedentes.
9. Recursos especiais não providos.289

Desse modo, qualquer ato executório oriundo de decisão inquinada de um dos vícios
indicados no arts. 32 da Lei de Arbitragem será considerado nulo e estará sujeito ao controle
jurisdicional estatal, por meio da ação de declaração de nulidade da sentença arbitral (art. 33,
caput, da Lei de Arbitragem).

4.10. Tabela exemplificativa dos poderes executórios do árbitro

Como se viu até aqui, há diversas hipóteses em que o árbitro pode, sem intervenção
do Poder Judiciário, praticar atos com o objetivo de dar efetividade à decisão arbitral. E não
são poucos esses atos que podem ser praticados pelos árbitros.
E, para melhor visualização, confira-se a tabela demonstrativa a seguir, na qual são
elencados quais atos executórios a serem praticados pelo árbitro dependem, ou não, da
intervenção do juiz estatal, acompanhados de um exemplo prático para cada uma das
hipóteses de ato executório:

289
STJ, 3ª Turma, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, REsp n. 1.636.102/SP, julgado em 13.6.2017.
98

Necessidade de
intervenção do
Descrição juiz estatal Exemplo
Meramente Sentença arbitral que declara a nulidade de um
declaratório Não contrato.

Sentença que julga procedente ação revisional de


aluguel, fixando um novo valor para o aluguel de
Constitutivo Não determinado imóvel.
Execução da sentença arbitral diretamente pelo
árbitro, através de uma ordem a ser executada por
meio de um smart contract incorporado em
código de computador gerenciado por uma
Sub-rogação ideal blockchain, no sentido de que determinado ativo
pelo árbitro Não digital seja transferido para o exequente.
Execução imprópria Decisão arbitral que determina a constituição de
pelo árbitro Não hipoteca judiciária, prevista no art. 495, CPC
Decisão arbitral que fixa medida coercitiva, como
Execução indireta multa diária, para o cumprimento de determinada
pelo árbitro Não obrigação.
Atos executivos sub- Penhora on line de quantia em dinheiro que
rogatórios em sentido recairá sobre contas bancárias e aplicações
estrito Sim financeiras do executado.

Assim, é possível concluir que o árbitro está, sim, revestido de poderes para a prática
de atos executórios, observando-se, evidentemente, as limitações já descritas no capítulo 4.9
desta dissertação.

4.11. Sugestão de lege ferenda para o aprimoramento legislativo no que se refere aos
poderes executórios do árbitro

Como já destacado ao longo do capítulo 3 e 4 desta dissertação, não há vedação legal


para a prática de atos executórios pelo árbitro, sendo certo que os poderes executórios do
árbitro encontram limites para as hipóteses em que é necessária a implementação de atos
executivos sub-rogatórios em sentido estrito ou, ainda, quando o ato executório é oriundo de
decisão que está inquinada de uma das hipóteses de nulidade da sentença arbitral previstas
no art. 32 da Lei de Arbitragem.
99

Contudo, deve se reconhecer que, além dessas hipóteses, seria sustentável, numa
interpretação estritamente literal do art. 29 da Lei de Arbitragem, a tese de que, uma vez
proferida a sentença arbitral, estaria encerrada a jurisdição do árbitro (functus officio) e,
portanto, seria vedado ao árbitro praticar atos como o objetivo de implementar os comandos
contidos na sentença arbitral.
Essa tese, como exaustivamente demonstrado no 3.4. desta dissertação, não se
sustém, já que a regra do functus officio tem sido reiteradamente flexibilizada. Seja como
for, seria conveniente e bem-vinda uma alteração legislativa no sentido de modificar a
redação do art. 29 da Lei de Arbitragem, a fim de constar expressamente a ressalva de que o
arbitro, mesmo após proferida a sentença arbitral, pode praticar atos com o objetivo de
implementar os comandos contidos na sentença arbitral.
Assim, propõe-se o acréscimo de um parágrafo único ao art. 29 da Lei de Arbitragem,
com a seguinte redação:

Art. 29. Proferida a sentença arbitral, dá-se por finda a arbitragem, devendo
o árbitro, ou o presidente do tribunal arbitral, enviar cópia da decisão às
partes, por via postal ou por outro meio qualquer de comunicação, mediante
comprovação de recebimento, ou, ainda, entregando-a diretamente às
partes, mediante recibo.
Parágrafo único. O encerramento da arbitragem previsto no caput não
impede que o árbitro pratique todos os atos necessários para a
implementação dos comandos contidos na sentença arbitral, sendo vedado
ao árbitro apenas a prática de atos executivos sub-rogatórios em sentido
estrito.

Essa sugestão de lege ferenda afastaria, de uma vez por todas, o entendimento
respaldado em uma simples interpretação literal do art. 29, que constitui um verdadeiro óbice
para que o processo arbitral satisfaça o jurisdicionado, com a efetivação da solução adequada
do litígio.
100

5. COGNIÇÃO NA EXECUÇÃO DA SENTENÇA ARBITRAL

O processo de cognição e o processo de execução são duas formas igualmente


importantes da atividade jurisdicional, que se complementam, estando uma a serviço da
outra. Afinal de contas, julgamento sem execução implicaria na proclamação do direito em
concreto sem sua efetiva realização prática; e, por sua vez, execução sem cognição poderia
resultar no arbítrio mais evidente290.
Nesse sentido, sobre a cognição do juiz na execução Heitor Vitor Mendonça Sica
leciona que

Cognição e execução são atividades judiciais distintas que se


complementam e se combinam de variadíssimas formas com o fim de
outorgar tutela jurisdicional. Embora a atividade cognitiva possa ser
excepcionalmente exercida sem socorro ulterior a qualquer medida
executiva, o inverso dela não há. O sistema processual brasileiro continua
a confiar ao juiz, na esmagadora maioria dos casos, o poder para autorizar
a execução, ele efetivamente se vale de atividade cognitiva, tanto sobre o
direito material carecedor de tutela, quanto sobre o direito processual
aplicável aos instrumentos executivos. Essa atividade cognitiva em sede de
execução se dá, é importante esclarecer, mesmo sem provocação do
executado, por meio dos variados meios de defesa (embargos, impugnação,
exceção de pré-executividade ou simples petições sem forma ou figura de
juízo). O juiz, efetivamente, exerce cognição na execução pelo simples fato
de lhe caber autorizar sua deflagração e seu processamento.291

Nesse sentido, dentro do estudo sobre os poderes executórios do árbitro, há hipóteses


em que o árbitro exerce a atividade cognitiva no processo de execução.

5.1. A sentença arbitral ilíquida e competência para a liquidação

A liquidez do título é uma das condições de exigibilidade do título executivo. Ausente


a liquidez, o título executivo torna-se inexigível. Ilíquida que seja a sentença,
necessariamente se terá de proceder à respectiva liquidação, antes de dar-lhe cumprimento

290
LIEBMAN, Enrico Tullio. Processo de execução. Com notas de atualização do Prof. Joaquim Munhoz de
Mello. 5ª edição. São Paulo: Saraiva, 1986. p. 4.
291
SICA. Heitor Vitor Mendonça. Cognição do juiz na execução civil. 1ª ed. São Paulo: Editora Revista dos
Tribunais, 2017. p. 269.
101

ou execução292, nos termos do art. 509 do Código de Processo Civil 293. A liquidação de
sentença destina-se apenas a determinação do valor (quantum debeatur)294.
Sobre o assunto, é relevante destacar a lição de Eduardo Talamini e Felipe Scribes
Wladeck:

Embora a liquidez do título consista em pressuposto de cabimento e


validade da atividade executiva, é evidente que a liquidação da condenação
não é mera formalidade acessória da execução. Não se trata de simples
providência procedimental preparatória dos atos executivos. Muito mais do
que isso, liquidar a condenação significa definir a exata extensão
quantitativa, normalmente o valor econômico da obrigação que se
reconheceu como devida e cujo cumprimento foi imposto. Trata-se de
matéria que é objeto de uma atuação cognitiva exauriente. A decisão de
liquidação veicula verdadeiro julgamento de mérito [...]. Não há dívidas de
que o mérito (i.e., o objeto processual, a “lide”) da liquidação é distinto do
mérito que foi objeto de resolução pela sentença liquidanda. Mas a verdade
é que o litígio, o conflito de interesses, apenas estará integralmente dirimido
quando se definir não apenas que a obrigação existe e deve ser cumprida,
mas, mais do que isso, qual o seu valor. E essa constatação não é mero
capricho teórico. Tem imensa relevância prática. Basta um mínimo de
experiência forense para saber que a obtenção de uma sentença
condenatória pode não passar de vitória de Pirro, conforme o resultado que
se obtenha na liquidação.295

No âmbito da arbitragem, a prolação uma sentença arbitral genérica (ilíquida) é


admitida, basicamente, por duas razões fundamentais: a uma, porque as partes podem, por
expressa manifestação de vontade, convencionar que a apuração do quantum debeatur não
seja realizada na arbitragem 296 ; a duas, porque as condenações genéricas emitidas por

292
MOREIRA, José Carlos Barbosa. O novo processo civil brasileiro: exposição sistemática do procedimento.
25ª ed. rev. e atual. Rio de Janeiro, Forense, 2007. p. 186.
293
Art. 509. Quando a sentença condenar ao pagamento de quantia ilíquida, proceder-se-á à sua liquidação, a
requerimento do credor ou do devedor: I - por arbitramento, quando determinado pela sentença,
convencionado pelas partes ou exigido pela natureza do objeto da liquidação; II - pelo procedimento
comum, quando houver necessidade de alegar e provar fato novo.
294
ARAÚJO, Luciano Vianna. A natureza jurídica da liquidação do título executivo judicial, a partir do
modelo sincrético de processo. [Tese de doutorado apresentada à Faculdade de Direito da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP, sob orientação do Prof. Dr. Cassio Scarpinella Bueno].
PUC/SP, São Paulo, 2019. p. 68.
295
TALAMINI, Eduardo. WLADECK, Felipe Scripes. Sentença arbitral e liquidez. In: Arbitragem e Poder
Público. São Paulo: Saraiva, 2010. 163/164.
296
CAHALI, Francisco José. Curso de arbitragem : mediação : conciliação : resolução CNJ 125/2010. 5ª ed.
revista e atualizada, de acordo com a Lei nº 13.129/2015 (Reforma da Lei de Arbitragem), com a Lei
13.140/2015 (Marco Legal da Mediação) e o Novo CPC. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015.
p. 340.
102

árbitros contam com aceitação geral, enquadrando-se no conceito de sentenças parciais, que
o art. 23, § 1º da Lei de Arbitragem297 expressamente autoriza298.
Além disso, outro problema dessa temática diz respeito à competência para liquidar
a sentença arbitral ilíquida. A questão é controvertida na doutrina.
Alguns juristas defendem que a liquidação de sentença deve ser realizada,
obrigatoriamente, no âmbito do Poder Judiciário299. Em contrapartida, há quem entenda que,
via de regra, não cabe ao Judiciário promover a liquidação da sentença arbitral, devendo a
fixação do valor da condenação ser feita diretamente na arbitragem300.
Nesse contexto, é aplicável o princípio geral da competência dos árbitros inclusive
para a liquidação, segundo o qual cabe ao próprio juízo arbitral definir o montante que é
objeto da condenação a pagamento por ela emitida. Logo, quando o título executivo for uma
sentença arbitral, em regra, destinar-se-á apenas o cumprimento de sentença (CPC, 515, VII),
uma vez que a liquidação deverá ter lugar na própria esfera arbitral, não perante o Poder
Judiciário301.
Na hipótese de prolação de sentença parcial que conclua somente pela existência do
direito do autor (an debeatur), deixando para um momento posterior a declaração do valor
devido (quantum debeatur), dificuldade alguma haverá para determinação da competência
para essa liquidação, a qual será feita pelos próprios árbitros no prosseguimento do mesmo
processo, mediante a prolação da sentença final.
Por outro lado, na hipótese de prolação de sentença final ilíquida pelo árbitro, será
necessário, antes de mais nada, analisar a convenção de arbitragem. Caso as partes ajustem
expressamente que a liquidação de sentença não será realizada no âmbito da arbitragem, a

297
Art. 23. A sentença arbitral será proferida no prazo estipulado pelas partes. Nada tendo sido convencionado,
o prazo para a apresentação da sentença é de seis meses, contado da instituição da arbitragem ou da
substituição do árbitro.
Parágrafo único. As partes e os árbitros, de comum acordo, poderão prorrogar o prazo estipulado.
§ 1o Os árbitros poderão proferir sentenças parciais.
298
DINAMARCO, Cândido Rangel. O processo arbitral. 2ª edição. Curitiba: Editora Direito Contemporâneo,
2022. p. 211.
299
Nesse sentido, confira-se: THEODORO JÚNIOR, Humberto. As novas reformas do código de processo
civil. São Paulo: Forense, 2006. p. 152; NERY JUNIOR, Nelson. NERY, Rosa de Andrade. Código de
processo civil comentado e legislação extravagante, 9ª ed., São Paulo: Revista dos Tribunais, 2006. p. 657.
300
Nesse sentido, confira-se: CARMONA, Carlos Alberto. Arbitragem e Processo: um comentário à lei nº
9.307/96. 4ª ed. Barueri - SP: Atlas, 2023. p. 314; TALAMINI, Eduardo. WLADECK, Felipe Scripes.
Sentença arbitral e liquidez. In: Arbitragem e Poder Público. São Paulo: Saraiva, 2010. 163
301
TALAMINI, Eduardo. WLADECK, Felipe Scripes. Sentença arbitral e liquidez. In: Arbitragem e Poder
Público. São Paulo: Saraiva, 2010. 162/163.
103

liquidação de sentença deverá ser processada perante o Poder Judiciário302. Caso as partes
ajustem que todo o litígio será solucionado pelo árbitro, a liquidação de sentença deverá ser
processada no âmbito da arbitragem303.

5.2. Defesas do executado

O tipo de obrigação e a origem do título executivo influenciam diretamente os meios


de defesa disponíveis ao devedor. No contexto arbitral, essa lógica também se aplica. Quando
se trata da execução de um título extrajudicial, a via adequada para o executado se defender
é por meio dos embargos à execução, que constituem uma forma de defesa heterotópica. Já
nos casos de cumprimento de sentença arbitral, a resposta do executado deve ocorrer por
meio de impugnação, em razão da natureza judicial do título arbitral. É admitida, também, a
defesa via simples petição, que pode ser dividida em exceção de pré-executividade ou (art.
518 e art. 803, § único CPC304305) e a defesa via simples petição em sentido estrito (art. 525,
§ 11, CPC306)307.
Todos esses meios de defesa são julgados pelo juiz togado e não pelo árbitro.
Contudo, vale ressaltar o entendimento de que, no âmbito da execução de título extrajudicial,

302
CAHALI, Francisco José. Curso de arbitragem : mediação : conciliação : resolução CNJ 125/2010. 5ª ed.
revista e atualizada, de acordo com a Lei nº 13.129/2015 (Reforma da Lei de Arbitragem), com a Lei
13.140/2015 (Marco Legal da Mediação) e o Novo CPC. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015.
p. 340.
303
DINAMARCO, Cândido Rangel. O processo arbitral. 2ª edição. Curitiba: Editora Direito Contemporâneo,
2022. p. 211.
304
Art. 518. Todas as questões relativas à validade do procedimento de cumprimento da sentença e dos atos
executivos subsequentes poderão ser arguidas pelo executado nos próprios autos e nestes serão decididas
pelo juiz.
305
Art. 803. É nula a execução se:
I - o título executivo extrajudicial não corresponder a obrigação certa, líquida e exigível;
II - o executado não for regularmente citado;
III - for instaurada antes de se verificar a condição ou de ocorrer o termo.
Parágrafo único. A nulidade de que cuida este artigo será pronunciada pelo juiz, de ofício ou a requerimento
da parte, independentemente de embargos à execução.
306
Art. 525. [...] § 11. As questões relativas a fato superveniente ao término do prazo para apresentação da
impugnação, assim como aquelas relativas à validade e à adequação da penhora, da avaliação e dos atos
executivos subsequentes, podem ser arguidas por simples petição, tendo o executado, em qualquer dos
casos, o prazo de 15 (quinze) dias para formular esta arguição, contado da comprovada ciência do fato ou
da intimação do ato.
307
CHACUR DE MIRANDA, Daniel. Poderes executórios do árbitro. [Tese de doutorado apresentada à
Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo - USP, sob orientação do Prof. Dr. Flávio Luiz Yarshell].
USP, São Paulo, 2024. p. 140.
104

uma vez apresentados embargos à execução que discutam o mérito, isto é, o próprio título
executivo extrajudicial ou às obrigações nele consignadas, a execução deverá ser
imediatamente suspensa, devendo essas questões serem decididas na arbitragem. Confira-se
os expressivos precedentes:

“AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL -


EMBARGOS À EXECUÇÃO - DECISÃO MONOCRÁTICA QUE
NEGOU PROVIMENTO AO RECLAMO. INSURGÊNCIA RECURSAL
DA EMBARGANTE.
1. As questões postas em discussão foram dirimidas pelo Tribunal de
origem de forma suficiente, fundamentada e sem omissões, devendo ser
afastada a alegada violação aos artigos 489 e 1022 do CPC/15. Consoante
entendimento desta Corte, não importa negativa de prestação jurisdicional
o acórdão que adota, para a resolução da causa, fundamentação suficiente,
porém diversa da pretendida pelo recorrente, decidindo de modo integral a
controvérsia posta. Precedentes.
2. A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça é firme no sentido de
que a execução do título extrajudicial com cláusula arbitral deve ser
suspensa e nesse estado permanecerá até que ultimado o procedimento
arbitral, que decidirá pela validade ou
não do título. Precedentes.
3. Agravo interno desprovido.”308

“RECURSO ESPECIAL. TÍTULO EXECUTIVO EXTRAJUDICIAL.


CONTRATO DE MÚTUO. PREVISÃO DE CLÁUSULA ARBITRAL.
EXECUÇÃO JUDICIAL DO TÍTULO. IMPUGNAÇÃO DE QUESTÕES
REFERENTES À EXISTÊNCIA DO PRÓPRIO TÍTULO. SUSPENSÃO
DA EXECUÇÃO ATÉ DECISÃO DO JUÍZO ARBITRAL ACERCA DA
MATÉRIA IMPUGNADA.
(...) 3. Na ação de execução lastreada em contrato com cláusula arbitral,
apresentada impugnação pelo executado, o Juízo Estatal estará
materialmente limitado a apreciar a defesa, não sendo de sua competência
a resolução de questões que digam respeito ao próprio título ou às
obrigações nele consignadas.
4. Nos casos em que a impugnação disser respeito à existência, constituição
ou extinção do crédito objeto do título executivo ou às obrigações nele
consignadas, sendo incompetente o Juízo Estatal para sua apreciação,
revela-se inviável o prosseguimento da execução, dada a imperativa
necessidade de solução pelo Juízo Arbitral de questão de mérito que
antecede à continuidade da ação instaurada.
5. O art. 313, V, a, do CPC orienta que, quando um acontecimento
voluntário, ou não, acarretar a paralisação da marcha dos atos processuais
e a paralisação temporária for suficiente à garantia de retorno regular do
feito, por razões de ordem lógica, o processo deve ser suspenso, e não
extinto (...)

308
STJ, AgInt no AREsp n. 2.386.681/RS, Relator Ministro Marco Buzzi, Quarta Turma, julgado em
4.12.2023, DJe de 7.12.2023.
105

7. No caso concreto, a execução do título extrajudicial com cláusula


arbitral deve ser suspensa e nesse estado permanecerá até que ultimado o
procedimento arbitral, que decidirá pela validade ou não do Termo de
Cessão do Crédito exequendo, essencial à higidez do próprio título.
8. Recurso especial a que se nega provimento.309

Nessa hipótese, em que o executado apresenta embargos à execução veiculando


questão de mérito, considerando que o prosseguimento da execução de título extrajudicial só
terá prosseguimento após o julgamento da questão de mérito no âmbito da arbitragem, é
evidente que o árbitro exerce uma atividade cognitiva na execução.
Em algumas situações, o executado deverá desdobrar sua defesa em duas: a atinente
ao mérito, na arbitragem; e a atinente ao processo, no juízo estatal. Como as defesas são
analisadas de forma concomitante em ambientes distintos (judicial e arbitral), há a
possibilidade de requerer a outorga de efeito suspensivo em ambas as esferas jurisdicionais.
Não há risco de prolação de decisões conflitantes. Ainda que as decisões determinem ordens
diversas (uma deferindo e outra indeferindo o pedido de suspensão da execução), não haverá
contradição porque cada decisão foi proferida a partir de um substrato fático-jurídico próprio.
Basta que se demonstre a presença dos requisitos para a suspensão em uma das vias para que
a execução seja suspensa310.

309
STJ, REsp n. 1.949.566/SP, Relator Ministro Luís Felipe Salomão, Quarta Turma, julgamento em
14.09.2021, DJe 19.10.2021.
310
SCHINEMANN, Caio César Bueno. Arbitragem e execução: divisão de competências, poderes do árbitro
e limites subjetivos. São Paulo: Thompson Reuters Brasil, 2023. p. 63/64.
106

6. CARTA ARBITRAL E A DIVISÃO DE COMPETÊNCIA ENTRE O ÁRBITRO E


O JUIZ ESTATAL

6.1. Relação de cooperação e suporte com o Poder Judiciário

Quando da edição da Lei de Arbitragem, não havia dispositivos legais que previssem
mecanismos capazes de viabilizar a atuação conjunta entre o árbitro e o Poder Judiciário.
Diante dessa omissão legislativa, doutrinadores passaram a sugerir uma solução prática: que
o árbitro encaminhasse ao juiz estatal um ofício, acompanhado da convenção de arbitragem
— documento que atestaria sua investidura —, para informar a necessidade de medidas que
exigissem intervenção judicial, como a condução de testemunhas que se recusassem a
comparecer ou a execução de providências urgentes. Confirmada pelo magistrado a validade
da convenção arbitral, caberia a ele adotar as medidas requeridas, dando efetividade à decisão
proferida no âmbito da arbitragem311.
Assim, na reforma da Arbitragem em 2015, com a edição do Código de Processo
Civil de 2015312 e a Lei nº 13.129/2015313, foi positivado esse mecanismo de colaboração
entre o árbitro e o Poder Judiciário, que foi denominado de carta arbitral.
A carta arbitral, portanto, destina-se a formalizar a solicitação, pelo árbitro, de
cooperação pelo poder Judiciário para adoção das medidas que estejam alheias à sua esfera
jurisdicional314. Tal como uma carta precatória, não dispondo de poderes para a realização
de determinado ato, o árbitro “depreca (solicita, pede, roga) a quem tenha tal poder”315.

311
CARMONA, Carlos Alberto. Arbitragem e Processo: um comentário à lei nº 9.307/96. 4ª ed. Barueri - SP:
Atlas, 2023. p. 349.
312
Art. 260. [...] § 3º A carta arbitral atenderá, no que couber, aos requisitos a que se refere o caput e será
instruída com a convenção de arbitragem e com as provas da nomeação do árbitro e de sua aceitação da
função.
313
Art. 22-C. O árbitro ou o tribunal arbitral poderá expedir carta arbitral para que o órgão jurisdicional
nacional pratique ou determine o cumprimento, na área de sua competência territorial, de ato solicitado pelo
árbitro.
Parágrafo único. No cumprimento da carta arbitral será observado o segredo de justiça, desde que
comprovada a confidencialidade estipulada na arbitragem.
314
SCHINEMANN, Caio César Bueno. Arbitragem e execução: divisão de competências, poderes do árbitro
e limites subjetivos. São Paulo: Thompson Reuters Brasil, 2023. p. 48/49.
315
CARMONA, Carlos Alberto. Das boas relações entre juízes e árbitros. In: Revista do Advogado – AASP,
v. 51, p. 17-24, 1997, p. 20.
107

Sobre a importância da criação desse mecanismo uniforme de cooperação entre


árbitro e Poder Judiciário, Francisco José Cahali relatou os bastidores da criação da carta
arbitral:

Diversamente do quanto sustentam alguns, defensores da informalidade


completa, até a 4ª edição deste Curso sustentamos conveniente que fossem
estabelecidas regras no sistema processual civil para a cooperação entre a
jurisdição estatal e a arbitral. O ideal, assim, seria a regulamentação,
preferencialmente flexível, evitando burocracias desnecessárias,
desencontros e embaraços na comunicação entre o juízo arbitral e juízo
estatal.
E assim se disse por diversos motivos: uniformidade do procedimento em
juízo estatal, e, como as providências são processuais no Judiciário, esta
razão tem relevância tal qual toda norma relativa a processo civil em geral;
segurança na prática dos atos em favor das partes na efetivação da tutela
jurisdicional, evitando-se que venham a ser exigidas dos atores da
arbitragem (partes e árbitros) formas, protocolos, providências ou
documentos diversos, a critério pessoal do magistrado, congestionando ou
mesmo inviabilizando a realização, oportuno tempore, da medida; ainda,
confere-se segurança ao próprio juízo estatal, para se preservar de medidas
cuja autenticidade ou legitimidade sejam duvidosas, sem afrontar a
autoridade arbitral.
Como a comunicação é destinada exatamente à prática de atos processuais
no juízo estatal (e não no arbitral), entendeu-se pertinente, como qualquer
outro ato desta natureza, o seu regramento, principalmente no momento em
que se consolida a utilização da arbitragem para diversas questões, de maior
ou menor complexidade.
Daí por que nosso apoio à iniciativa do Grupo de Pesquisa em Arbitragem-
GPA, criado no programa de pós-graduação da PUC-SP, em apresentar
proposta de aperfeiçoamento ao então Projeto do novo Código de Processo
Civil em conjunto com a Comissão de Arbitragem e a Procuradoria Geral
da OAB-RJ, para a criação do que nomeamos de carta arbitral.
E foi enorme a satisfação em ver acolhida a proposta, com a importante
inclusão da carta arbitral no ambiente de cooperação entre os órgãos do
Poder Judiciário, para constar no Livro II – Da função Jurisdicional, Título
III – Da Competência Interna, Capítulo II – Da Cooperação Nacional,
conforme acima transcrito (arts. 68 e 69). [...]
Ainda em andamento o Projeto de novo Código de Processo Civil, mas
reconhecendo a total pertinência e oportunidade da “Carta Arbitral”, o que
muito nos orgulha por termos participado diretamente de sua criação,
conforme inicialmente referido, a proposta de reforma da Lei de
Arbitragem acolheu integralmente a ideia e fez constar a criação de
“Capítulo IV-B D Carta Arbitral”,[...]316

316
CAHALI, Francisco José. Curso de arbitragem : mediação : conciliação : resolução CNJ 125/2010. 5ª ed.
revista e atualizada, de acordo com a Lei nº 13.129/2015 (Reforma da Lei de Arbitragem), com a Lei
13.140/2015 (Marco Legal da Mediação) e o Novo CPC. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015.
p. 312/314..
108

Desse modo, foi concebida a carta arbitral, que consiste num procedimento específico
de cooperação entre a jurisdição arbitral e estatal, por meio do qual o árbitro pode solicitar a
cooperação do Poder Judiciário, na área de sua competência, para prática de determinado
ato, como, por exemplo: (i) a condução de alguma testemunha renitente; (ii) a efetivação de
tutela de urgência ou de evidência deferida pelo árbitro; (iii) ou ainda, que um terceiro
entregue documento ou coisa, bem como conceda informações específicas317.
Nesse sentido, “a carta arbitral é um instrumento que confere maior eficiência a este
método adequado de solução de conflitos, permitindo que o árbitro exerça o seu múnus de
forma ainda mais segura e eficaz, com a devida cooperação do juiz estatal"318.
Os requisitos da carta arbitral são os previstos no art. 260, § 3º, do Código de Processo
Civil, os quais remetem à carta precatória e rogatória (art. 260, caput), acrescidos da prova
da convenção de arbitragem, nomeação do árbitro e sua aceitação. Em âmbito regulamentar,
o Conselho Nacional de Justiça editou a Resolução nº 421/2021, que não traz maiores
novidades quanto aos requisitos da carta arbitral, mas é relevante por confirmar que os
pedidos de cooperação judiciária decorrem diretamente do árbitro ou órgão arbitral (art. 2º,
parágrafo único), e não da parte. Sem prejuízo, é lícito que o árbitro incumba a parte de
realizar a distribuição da carta arbitral por ele elaborada, o que já ocorre com cartas
precatórias319.
Além disso, a I Jornada de Prevenção e Solução Extrajudicial de Litígios 320 , foi
aprovado enunciado sobre a competência para o processamento da carta arbitral, cujo teor é
o seguinte: “3. A carta arbitral poderá ser processada diretamente pelo órgão do Poder
Judiciário do foro onde se dará a efetivação da medida ou decisão”.

317
SIQUEIRA, Fernando de. Carta arbitral: um mecanismo de cooperação. Disponível em: <
[Link] Acesso em
27.09.2025.
318
FORBES, Carlos Suplicy de Figueiredo; KOBAYASHI, Patrícia Shiguemi. Carta Arbitral: instrumento de
cooperação jurisdicional. In: 20 anos da lei de arbitragem: homenagem a Petrônio R. Muniz. Coord. Carlos
Alberto Carmona, Selma Ferreira Lemes, Pedro Batista Martins. São Paulo: Atlas, 2017. p.521-536. p. 535.
319
SCHINEMANN, Caio César Bueno. Arbitragem e execução: divisão de competências, poderes do árbitro
e limites subjetivos. São Paulo: Thompson Reuters Brasil, 2023. p. 49/50.
320
Promovida entre 22 e 23 de agosto de 2016 pelo Centro de Estudos Judiciários do Conselho da Justiça
Federal. Os enunciados aprovados estão disponíveis em <[Link]
federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/prevencao-e-solucao-extrajudicial-de-litigios/enunciados-
aprovados/@@download/arquivo>. Acesso em 11.12.2025.
109

Desse modo, foi criada uma estrutura formal para a comunicação através da carta
arbitral quando pertinente este expediente, e desta forma é facilitado o entrosamento entre
ambas as jurisdições, na medida em que uma saberá como solicitar e outra como receber
solicitações, evitando desencontro de posições a respeito, nocivas, certamente, à efetividade
pretendida na tutela dos interesses da parte321.
Dentro do estudo dos poderes executórios do árbitro, a carta arbitral é um mecanismo
para que, com a interveniência do Poder Judiciário, sejam concretizadas as decisões
proferidas pelos árbitros no curso do procedimento arbitral.

6.2. Carta arbitral e juízo de delibação

Em regra, cabe ao juiz cumprir a carta arbitral. É descabido ao juiz estatal exercer
juízo de valor sobre o ato a ser praticado. O juiz, no entanto, poderá recusar-se a cumprir a
carta arbitral, com fundamento no art. 267 do Código de Processo Civil322, se detectar a
algum impedimento de natureza formal, quais sejam, falta dos requisitos legais,
incompetência ou dúvida acerca de sua autenticidade323.
Na primeira hipótese, se não estiverem preenchidos os requisitos da carta arbitral, o
juiz deverá determinar a devolução a carta arbitral, através de decisão fundamentada,
informando, evidentemente, qual requisito não está presente. Sanado o requisito faltante, a
carta voltará a ser remetida para o juiz togado para cumprimento. Na segunda hipótese –
incompetência do juiz togado – o juiz togado deverá remeter a carta ao órgão judicial
competente. Por fim, em caso de dúvida sobre a autenticidade da carta, o juiz deverá solicitar
ao tribunal arbitral (ou ao centro arbitral) as informações que julgar adequadas para o fim de

321
CAHALI, Francisco José. Curso de arbitragem : mediação : conciliação : tribunal multiportas. 9ª ed. rev.,
ampl., e atual. São Paulo: Thompson Reuters Brasil, 2022. p. 352.
322
Art. 267. O juiz recusará cumprimento a carta precatória ou arbitral, devolvendo-a com decisão motivada
quando:
I - a carta não estiver revestida dos requisitos legais;
II - faltar ao juiz competência em razão da matéria ou da hierarquia;
III - o juiz tiver dúvida acerca de sua autenticidade.
Parágrafo único. No caso de incompetência em razão da matéria ou da hierarquia, o juiz deprecado,
conforme o ato a ser praticado, poderá remeter a carta ao juiz ou ao tribunal competente.
323
CARMONA, Carlos Alberto. Arbitragem e Processo: um comentário à lei nº 9.307/96. 4ª ed. Barueri - SP:
Atlas, 2023. p. 351.
110

atestar a idoneidade do ato324. Com exceção dessas hipóteses, o juiz não poderá, portanto,
recusar-se a cumprir a carta arbitral.
Assim, o juiz deverá “cumprir aquilo que consta da carta arbitral, não podendo
reapreciar aquilo já decidido e/ou definido pelo árbitro, uma vez que ele não tem poderes
jurisdicionais para tanto" 325 . O juízo exercido pelo magistrado é, portanto, de mera
delibação.

6.3. Árbitro de emergência e seus poderes executórios

A Lei de Arbitragem, em seu art. 22-A, estabeleceu a possibilidade das partes, antes
da instituição da arbitragem, recorrerem ao Poder Judiciário para a concessão de medida
cautelar ou de urgência.
Contudo, os regulamentos das principais câmaras de arbitragem colocaram preveem
o instituto do árbitro de emergência, em alternativa à jurisdição estatal, atribuindo-lhe
competência para a apreciação de medidas urgentes postuladas antes da constituição do
tribunal arbitral.
A título de exemplo, deve ser mencionada a existência de previsão do instituto do
árbitro de emergência na Câmara de Arbitragem do Mercado (CAM-B3)326, no Centro de
Arbitragem e Mediação da Câmara de Comércio Brasil-Canadá (CAM-CCBC)327, no Centro

324
CARMONA, Carlos Alberto. Arbitragem e Processo: um comentário à lei nº 9.307/96. 4ª ed. Barueri - SP:
Atlas, 2023. p. 351.
325
BERALDO, Leonardo de Faria. O Impacto do Novo Código de Processo Civil na Arbitragem. In: Revista
de Arbitragem e Mediação. vol. 49/16. p. 175 - 200. Abr - Jun. 2016.
326
Confira-se o item 5.1 do Regulamento da CAM-B3: 5.1. Medidas de Urgência antes de constituído o
Tribunal Arbitral. Caso ainda não tenha sido constituído o Tribunal Arbitral, e se façam necessárias medidas
conservatórias ou reparatórias revestidas de caráter de urgência, a fim de prevenir dano iminente ou prejuízo
irreparável, a questão poderá ser submetida ao Presidente da Câmara de Arbitragem, que nomeará um
integrante do Corpo de Árbitros da Câmara de Arbitragem como árbitro de apoio, cuja função será deliberar
sobre a medida de urgência, a qual vigerá até que o Tribunal Arbitral decida sobre a matéria (“Árbitro de
Apoio”). Na indicação do Árbitro de Apoio será observado o disposto no art. 13, § 6º da Lei nº 9.307, de
23.9.1996. Disponível em < [Link] Acesso em
28.09.2025.
327
Confira-se o art. 21 do Regulamento da CAM-CCBC: Artigo 21 – Árbitro de Emergência
21.1 Antes da constituição do tribunal arbitral, a parte que necessitar de medidas de urgência poderá requerer
a designação de um árbitro de emergência, salvo se as partes tiverem convencionado em sentido contrário.
21.2 O árbitro de emergência poderá adotar quaisquer medidas, conforme artigo 22.1, que, por sua natureza,
não possam aguardar a constituição do tribunal arbitral.
111

Brasileiro de Mediação e Arbitragem (CBMA)328 e na International Chamber of Commerce


(ICC)329.
Nesse sentido, a possibilidade de nomeação de um árbitro de emergência parecer
muito mais adequada, na medida em que, além de resguardar o acesso adequado e efetivo da
parte à justiça, garante que a questão seja apreciada por um árbitro, nomeado pelas partes
previamente ou escolhido pela Câmara Arbitral na forma do seu regulamento (reserva de
jurisdição arbitral). Isso porque há que se ter em mente que as partes, ao celebrarem a
cláusula compromissória, pactuaram, exercendo a autonomia de suas vontades, que eventual
litígio seria resolvido, não pelo Poder Judiciário, mas, sim, por árbitros, por meio do
procedimento arbitral330.
O árbitro de emergência tem competência limitada à apreciação das medidas de
urgência postuladas antes da instauração da arbitragem. Ademais, a competência do árbitro
de emergência é precária e transitória, pois sua decisão será revista pelo tribunal arbitral,
assim que instituída a arbitragem, seja para manter, modificar ou até revogar a medida de
urgência adotada331.
Havendo, pois, árbitro que possa imediatamente socorrer a parte, deve o Juiz estatal
se afastar da controvérsia, restringindo-se, em regra, apenas ao eventual uso de força. Isso

21.3 O árbitro de emergência sujeitar-se-á aos mesmos deveres de independência e imparcialidade previstos
no artigo 9.2.
21.4 A instituição de procedimento de árbitro de emergência não implica a renúncia, pelas partes, de outras
medidas de urgência perante a autoridade judicial competente.
21.5 O procedimento de árbitro de emergência seguirá as regras previstas no anexo I. Disponível em
<[Link]
disputas/arbitragem/regulamento-de-arbitragem-2022/>. Acesso em 28.09.2025.
328
Confira-se o item 17 do Regulamento do CBMA: 17.1. Antes da constituição do Tribunal Arbitral, as partes
também poderão requerer perante o Centro medida cautelar e/ou medidas preparatórias, tais como produção
antecipada de prova (“Árbitro de Emergência”), nos termos das Regras sobre o Árbitro de Emergência
dispostas no Anexo II. Disponível em < [Link]
[Link]>. Acesso em 28.09.2025.
329
Confira-se o art. 1º, item 1, Apêndice V do Regulamento da ICC: A parte que desejar recorrer a um árbitro
de emergência nos termos do artigo 29 do Regulamento de Arbitragem da CCI (o “Regulamento”) deverá
apresentar a sua Solicitação de Medidas Urgentes (a “Solicitação”) à Secretaria, em qualquer dos escritórios
indicados no Regulamento Interno da Corte, no Apêndice II do Regulamento. Disponível em <
[Link]
[Link]>. Acesso em 28.09.2025.
330
MARQUES, Paula Menna Barreto. Árbitro de emergência. In: Temas controvertidos na arbitragem à luz
do Código de Processo Civil de 2015. Vol. I. (org. Paulo Cezar Pinheiro Carneiro, Leonardo Grco e
Humberto Dalla). 1ª ed. Rio de Janeiro: LMJ Mundo Jurídico, 2018. p. 215.
331
CHACUR DE MIRANDA, Daniel. Poderes executórios do árbitro. São Paulo: Quartier Latin, 2025. p.
202.
112

sempre dependerá, é claro, do exame do caso. Se restar constatado que, mesmo com a
previsão do árbitro de emergência, a situação é tão premente que impede o seu acionamento,
então haverá de se admitir a intervenção judicial332.
Assim, o árbitro de emergência dispõe dos mesmos poderes executórios do Tribunal
Arbitral, já que, ao convencionarem que eventual litígio será submetido a uma arbitragem,
consoante os regulamento de uma câmara de arbitragem que prevê expressamente a
possibilidade do mecanismo do árbitro de emergência, as partes optaram por atribuir ao
árbitro de emergência a competência para decidir sobre medidas de urgência e, por
conseguinte, lançar mão de todos os expediente legalmente possíveis para implementar os
comandos contidos em sua decisão. E, na hipótese, de ser necessária a implementação e uma
medida sub-rogatória, o árbitro de emergência poderá (deverá) expedir a carta arbitral para
o Poder Judiciário.

332
YARSHELL, Flávio Luiz. MEIJAS, Lucas Britto. Tutelas de urgência e produção antecipada de prova à
luz da Lei n. 13.129/2015. In: Arbitragem: estudos sobre a Lei nº 13.129, de 26-5-2015. Org. Francisco José
Cahali, Thiago Rodovalho e Alexandre Freire. São Paulo: Saraiva, 2016. p. 245.
113

7. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A presente dissertação buscou examinar a exata extensão dos poderes executórios do


árbitro no âmbito da arbitragem doméstica brasileira, partindo da premissa de que a
efetividade das decisões arbitrais é elemento essencial para a consolidação da arbitragem
como verdadeiro equivalente jurisdicional ao processo estatal.
A partir do desenvolvimento teórico aqui empreendido, foi possível identificar uma
tendência contemporânea de expansão dos poderes executórios do árbitro, orientada pela
necessidade de assegurar efetividade às decisões arbitrais. A doutrina tem admitido que o
árbitro dispõe de instrumentos suficientes para implementar, ele próprio, os seus próprios
comandos. Essa tendência decorre do reconhecimento de que a arbitragem, enquanto
jurisdição, deve ser capaz de produzir não apenas decisões válidas, mas decisões eficazes —
e, sobretudo, úteis.
Nesse cenário, observou-se também que a aplicação rígida da regra do functus officio
tem sido mitigada. A doutrina contemporânea demonstra que, tal como ocorre no processo
estatal, há espaço para atuação cognitiva e executiva do árbitro mesmo após a prolação da
sentença, seja para corrigir, integrar ou esclarecer o julgado, seja para assegurar sua plena
efetivação. A cisão absoluta entre cognição e execução, outrora pressuposta, revela-se
incompatível com as exigências de eficiência e completude da tutela jurisdicional arbitral. A
relativização do functus officio, naturalmente, não autoriza reexame do mérito, mas apenas
permite que o árbitro pratique atos indispensáveis à compreensão, ao adimplemento e à
funcionalidade prática de sua própria decisão.
A presente dissertação destacou que a atribuição de poderes executórios ao árbitro
encontra fundamento nos princípios da instrumentalidade do processo arbitral e da vedação
ao non factibile. A instrumentalidade impõe que o procedimento — estatal ou arbitral — seja
orientado ao resultado, e não ao formalismo, de modo a permitir que a decisão proferida
alcance eficácia concreta. Já a vedação ao non factibile impede que o sistema institua direitos
cujo exercício seja inviável ou esvaziado por falta de mecanismos adequados de
implementação. Assim, negar ao árbitro poderes executórios que não envolvam uso da força
estatal significaria admitir a existência de decisões arbitrais formalmente perfeitas, porém
114

materialmente inúteis — resultado incompatível com o modelo constitucional de tutela


jurisdicional adequada e efetiva.
Nesse contexto, constatou-se que a sentença arbitral goza de autoridade e eficácia
próprias, equiparando-se, nos termos da Lei de Arbitragem e do Código de Processo Civil,
às decisões judiciais estatais. Essa equiparação, entretanto, encontra limites na
impossibilidade de o árbitro empregar força física ou determinar atos executivos sub-
rogatórios em sentido estrito, prerrogativa exclusiva do Estado. Ainda assim, o estudo
demonstrou que, mesmo com essa limitação estrutural, o árbitro dispõe de relevantes
instrumentos executivos, que podem ser classificados em atos de execução direta e indireta.
No âmbito da execução direta, identificaram-se hipóteses como a prolação de
provimentos autossatisfativos, a exemplo das sentenças arbitrais meramente declaratórias,
capazes de resolver a controvérsia de forma imediata, e das sentenças constitutivas, que
criam, modificam ou extinguem relações jurídicas, inclusive em situações de suprimento de
vontade, como nos casos de assembleias de acionistas em que um voto é suprido pela decisão
arbitral. Ainda no campo da execução direta, destaca-se a possibilidade de sub-rogação ideal,
materializada em mecanismos de garantias autoexecutáveis, como os negócios fiduciários
em que a transferência do bem ao credor prescinde da intervenção judicial, e também a
utilização de tecnologias emergentes, como blockchain e smart contracts, que viabilizam a
satisfação automática da obrigação em ambiente digital. A execução imprópria também se
insere nesse contexto, como ocorre quando a sentença arbitral basta para que o árbitro oficie
órgãos registrais ou cartórios, permitindo, por exemplo, a transferência de propriedade de
imóvel sem necessidade de chancela estatal.
No que se refere aos atos de execução indireta, a dissertação evidenciou que o árbitro
pode se valer de instrumentos voltados à indução ou coerção psicológica e econômica do
devedor. Nesse sentido, as multas coercitivas (astreintes) desempenham papel relevante
como meio de pressão para o cumprimento da obrigação. Também se mostraram possíveis
mecanismos como a imposição de prêmios ou incentivos, condicionando, por exemplo, a
distribuição de dividendos ao adimplemento da obrigação arbitral; a adoção de medidas de
ostracismo comercial, mediante a exclusão ou isolamento do inadimplente em seu meio de
atuação, afetando sua credibilidade e reputação; e ainda a aplicação de sanções corporativas
por câmaras arbitrais, que podem manter cadastros de descumpridores e, assim, limitar sua
115

atuação em futuros contratos ou procedimentos. Além dessas medidas, é de se destacar a


importância das providências cautelares e de urgência, inclusive aquelas determinadas por
árbitros de emergência, que, ao assegurar o resultado útil do processo, também exercem
função executiva na medida em que garantem o cumprimento futuro da decisão.
Essas hipóteses revelam que a execução arbitral não depende, em regra, da
intervenção judicial, reforçando a autonomia e a efetividade do instituto. Não obstante,
verificou-se que a atuação do árbitro encontra barreiras intransponíveis quando se trata da
prática de atos de constrição patrimonial forçada, como bloqueio de ativos financeiros ou
penhora de bens. Nessas situações, a cooperação com o Poder Judiciário, por meio do
cumprimento de sentença arbitral ou da expedição de carta arbitral, mostra-se
imprescindível, garantindo-se, assim, a harmonização entre jurisdição privada e jurisdição
estatal.
Ademais, a análise da cognição na execução arbitral evidenciou que o árbitro exerce,
mesmo na fase executiva, função cognitiva relevante, delimitando os meios mais adequados
de satisfação do direito reconhecido, bem como apreciando defesas do executado. Essa
constatação aproxima ainda mais a atividade arbitral da jurisdição estatal, reafirmando seu
caráter jurisdicional.
Por fim, destacou-se a tendência de expansão dos poderes executórios do árbitro
diante dos avanços tecnológicos, como o uso de blockchain e smart contracts, que abrem
novos horizontes para a efetividade da execução, permitindo, em determinadas
circunstâncias, a satisfação automática das obrigações.
Em conclusão, a arbitragem brasileira caminha para uma crescente consolidação
como sistema jurisdicional autônomo, dotado de instrumentos próprios de execução. O
equilíbrio entre autonomia e cooperação com o Estado constitui a chave para assegurar a
efetividade das decisões arbitrais, sem afastar a necessária reserva estatal sobre o uso da
força. Assim, a arbitragem se consolida como mecanismo apto não apenas a resolver litígios,
mas também a concretizar, de modo eficaz e seguro, os direitos reconhecidos em suas
decisões.
116

REFERÊNCIAS

ALVIM, José Eduardo Carreira. Direito arbitral. 3ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 2007.

ALVIM, José Eduardo Carreira. Tutela específica das obrigações de fazer e não fazer. Belo
Horizonte: Del Rey, 1997.

ALVIM, José Manoel Arruda. Sobre a natureza jurisdicional da arbitragem. In: Arbitragem:
estudos sobre a Lei n. 13.129, de 26-5-2015. Org. Francisco José Cahali, Thiago Rodovalho,
Alexandre Freire. São Paulo: Saraiva, 2016.

APRIGLIANO, Ricardo de Carvalho. Normas processuais aplicáveis à arbitragem. [Tese


de Livre-docência em Direito Processual Civil] USP, São Paulo, 2022.

ARISTÓTELES. Arte retórica e arte poética. Tradução de Antônio Pinto de Carvalho;


introdução e notas de Jean Voilquin e Jean Capelle; estudo introdutório de Goffredo Telles
Júnior. 17. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005.

ARMELSTEIN, George. O asno de Buridano, o non liquet e as katchangas. Disponível em:


<[Link]
katchangas/>. Acesso em: 20.10.2024.

ASSIS, Araken. Manual da execução. 15 ed. rev. e atual. São Paulo: Editora Revista dos
Tribunais, 2013.

AURELLI, Arlete Inês. Função social da jurisdição. In: 40 anos da teoria geral do processo
no Brasil. Passado, presente e futuro. Org. Camilo Zufelato e Flavio Luiz Yarshell. São
Paulo: Ed. Malheiros, 2013. p. 124/146.

AZEVEDO, Antonio Junqueira de. O direito pós-moderno. In: Revista da USO, v. 42, p. 96-
101, 1999.
117

BAPTISTA, Luiz Olavo. Arbitragem comercial e internacional, São Paulo: Lex Ed., 2011.
p. 232.

BARBI, Celso Agrícola. Ação declaratória principal e incidente. Rio de Janeiro: Forense,
1977.

BEDAQUE, José Roberto dos Santos. Breves notas sobre jurisdição e ação. In: 40 anos da
teoria geral do processo no Brasil. Passado, presente e futuro. Org. Camilo Zufelato e Flavio
Luiz Yarshell. São Paulo: Ed. Malheiros, 2013.

BERALDO, Leonardo de Faria. A eficácia das decisões do árbitro perante o registro de


imóveis. In: Revista de Arbitragem e Mediação. Ano 15, Vol. 58, jul./set. 2018. p. 175.

BERALDO, Leonardo de Faria. O Impacto do Novo Código de Processo Civil na


Arbitragem. In: Revista de Arbitragem e Mediação. vol. 49/16. p. 175 - 200. Abr - Jun. 2016.

BERMUDES, Sergio. Introdução ao processo civil. Revista e atualizada. Rio de Janeiro:


Forense, 2006. p. 19.

BORN. Gary B. International Arbitration. Law and Practice. Second Edition. Haia: Kluwer
Lae International, 2016.

BUENO. Cassio Scarpinella. Cumprimento da sentença e processo de execução: ensaio


sobre o cumprimento das sentenças condenatórias. In: DIDIER JR. Fredie. Execução civil-
Estudos em homenagem ao Professor Paulo Furtado. Rio de Janeiro: Lumem Juris, 2006.

BUENO, Cassio Scarpinela. A nova etapa da reforma do Código de Processo Civil:


comentários sistemáticos às Leis n 11.187, de 19-10-2005, e 11.232, de 22-12-2005. v. 1.
São Paulo: Saraiva, 2006.
118

CABRAL, Antonio do Passo. Alguns mitos do processo (i): a contribuição da prolusione de


Chiovenda em Bolonha para a teoria da ação. In: Revista do Ministério Público do Rio de
Janeiro: MPRJ, n. 51, jan/mar. 2014.

CABRAL, Antonio do Passo. Processo e tecnologia: novas tendências. In: LUCON, Paulo
Henrique dos Santos; WOLKART, Erik Navarro; LAUX, Francisco de Mesquita;
RAVAGNANI, Giovani dos Santos. Direito, processo e tecnologia. 2ª ed., São Paulo:
Revista dos Tribunais, 2021.

CAHALI, Francisco José. Curso de arbitragem : mediação : conciliação : resolução CNJ


125/2010. 5ª ed. revista e atualizada, de acordo com a Lei nº 13.129/2015 (Reforma da Lei
de Arbitragem), com a Lei 13.140/2015 (Marco Legal da Mediação) e o Novo CPC. São
Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2015.

CAHALI, Francisco José. Curso de arbitragem : mediação : conciliação : tribunal


multiportas. 9ª ed. revista e atualizada. São Paulo: Thomson Reuters Brasil, 2022.

CÂMARA, Alexandre Freitas. Lições de direito processual civil. 18ª ed. Rio de Janeiro:
Lumen Juris, 2010.

CARMONA, Carlos Alberto. A arbitragem no Brasil: em busca de uma nova lei. In: WALD,
Arnoldo (Org.). Doutrinas Essenciais: Arbitragem e Mediação, São Paulo: Revista dos
Tribunais, ano 1, v. 1, p. 305, ago. 2014 - texto original publicado na RePro 72/53 – out.
1993.

CARMONA, Carlos Alberto. Arbitragem e Processo: um comentário à lei nº 9.307/96. 4ª


ed. Barueri - SP: Atlas, 2023.

CARMONA, Carlos Alberto. Das boas relações entre juízes e árbitros. In: Revista do
Advogado – AASP, v. 51, p. 17-24, 1997.
119

CARNEIRO, Athos Gusmão. Arbitragem e execução. Cognição e império. Medidas


cautelares e antecipatórias. Civil law e common law. In: BUENO, Cassio Scarpinella.
WAMBIER, Teresa Arruda Alvim. Aspectos Polêmicos da nova execução. São Paulo: RT,
2008.

CHACUR DE MIRANDA, Daniel. Poderes executórios do árbitro. [Tese de doutorado


apresentada à Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo - USP, sob orientação do
Prof. Dr. Flávio Luiz Yarshell]. USP, São Paulo, 2024.

CHACUR DE MIRANDA, Daniel. Poderes executórios do árbitro. São Paulo: Quartier


Latin, 2025.

CHALHUB, Melhim Namem. Incorporação Imobiliária. São Paulo: Forense, 2017.

CHIOVENDA, Giuseppe. Instituições de direito processual civil. Vol. 1, 2ªed., Bookseller:


Campinas, 2000.

CHIOVENDA, Giuseppe. Instituições de direito processual civil. Vol. 2, 2ªed., Bookseller:


Campinas, 2000.

CHIOVENDA, Giuseppe. L’azione nel sistema del diritti, in Saggi di diritto processuale
civile. vol. I. Milão, 1993.

CILURZO, Luiz Fernando. A desjudicialização da execução por quantia. [Dissertação de


Mestrado apresentada à Universidade de São Paulo – USP, sob a orientação do Pro. Dr.
Ricardo de Barros Leonel]. São Paulo, 2010.

CLAY, Thomas. As medidas cautelares requeridas ao árbitro. In: Revista de Arbitragem e


Mediação, São Paulo: Revista dos Tribunais, v. 18, jul.-set. 2008. [livro eletrônico].
120

CINTRA. Antônio Carlos de Araújo. GRINOVER, Ada Pellegrini. DINAMARCO, Cândido


Rangel. Teoria Geral do Processo. 16ª edição. São Paulo: Malheiros, 2001.

COSTA, Gabriel José Bernardi. Arbitragem: origens romanas. 1ª ed. São Paulo: YK Editora,
2022.

CRETELLA NETO, José. Curso de arbitragem: arbitragem comercial, arbitragem


internacional, Lei brasileira de arbitragem, Instituições internacionais de arbitragem,
Convenções internacionais sobre arbitragem. Rio de Janeiro: Forense, 2004.

DALL’AGNOL. Ana Carolina. MARTINI, Pedro C. de Castro e. A sentença arbitral


parcial: novos paradigmas. In: Arbitragem: estudos sobre a Lei nº 13.129, de 26-5-2015.
Org. Francisco José Cahali, Thiago Rodovalho e Alexandre Freire. São Paulo: Saraiva, 2016.

DELGADO, José Augusto. A Arbitragem no Brasil: Evolução Histórica e Conceitual. In


Revista de Direito Renovar, n.17, p.1-24, maio/ago. 2000.

DIDIER JR., Fredie. Teoria geral do processo, essa desconhecida. 5ª ed. Salvador:
Juspodivm, 2020.

DIDIER JR., Fredie. CUNHA, Leonardo Carneiro da. BRAGA, Paula Sarno. OLIVEIRA,
Rafael Alexandria. Curso de direito processual civil: execução. Vol. 5. 5ª ed. Salvador:
Editora Jus Podivm, 2013.

DIDIER JR., Fredie. Princípio do autorregramento da vontade no processo civil. In:


CABRAL, Antonio do Passo. NOGUEIRA, Pedro Henrique (org.). Negócios processuais.
Vol. 1, (Grandes temas do novo CPC; coord. Geral Fredie Didier Jr.). Salvador: Editora
JusPodivm, 2015. p. 19/26.

DINAMARCO, Cândido Rangel. A arbitragem na teoria geral do processo. São Paulo:


Malheiros, 2013.
121

DINAMARCO, Candido Rangel. A instrumentalidade do processo. 15ª ed. rev. e atual. São
Paulo: Malheiros, 2013.

DINAMARCO, Candido Rangel. Execução civil. 6ª ed., rev. e atual. São Paulo: Malheiros,
1998.

DINAMARCO, Candido Rangel. Fundamentos do processo civil moderno. 2ª Edição. São


Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 1987.

DINAMARCO, Cândido Rangel. O processo arbitral. 2ª edição. Curitiba: Editora Direito


Contemporâneo, 2022.

DINAMARCO, Candido Rangel. Momento de eficácia da sentença constitutiva. In:


Fundamentos do processo civil moderno, tomo II. 4ª ed. São Paulo: Malheiros, 2010.

DINAMARCO, Candido Rangel. BADARÓ, Gustavo Henrique Righi Ivahy. LOPES,


Bruno Vasconcelos Carrilho. Teoria geral do processo. 34ª ed., rev. e ampl. São Paulo:
Malheiros, 2023.

DINIZ, Maria Helena. Curso de direito civil brasileiro, vol. 2, teoria geral das obrigações.
31ª ed. São Paulo: Saraiva, 2016.

DINIZ, Maria Helena. Dicionário Jurídico. São Paulo: Saraiva, 1998.

DELGADO, José Augusto. A Arbitragem no Brasil: Evolução Histórica e Conceitual. In


Revista de Direito Renovar, n.17, p.1-24, maio/ago. 2000.

FARIAS, Rachel Nunes de Carvalho. A desjudicialização do processo executivo português


como um possível modelo para o processo de execução brasileiro. Dissertação apresentada
122

no âmbito do 2o Ciclo de Estudos em Direito da Faculdade de Direito da Universidade de


Coimbra. Coimbra, 2013.

FIGUEIRA JÚNIOR, Joel Dias. Execução simplificada e a desjudicialização do processo


civil. In: ALVIM NETTO, José Manoel de Arruda; et al (coord.). Execução civil e temas
afins do CPC/1973 ao Novo CPC: estudos em homenagem ao professor Araken de Assis.
São Paulo: Revista dos Tribunais, 2014, p. 579.

FINKELSTEIN, Cláudio. Arbitragem no Brasil: Evolução Histórica. Disponível em


<[Link] Acesso em 19.02.2025.

FLENIK, Giordani. A eficácia máxima da sentença arbitral: um estudo comparado dos


direitos norte-americano, francês e brasileiro sobre a homologação de sentenças
estrangeiras. Belo Horizonte: Arraes Editores, 2019.

FORBES, Carlos Suplicy de Figueiredo; KOBAYASHI, Patrícia Shiguemi. Carta Arbitral:


instrumento de cooperação jurisdicional. In: 20 anos da lei de arbitragem: homenagem a
Petrônio R. Muniz. Coord. Carlos Alberto Carmona, Selma Ferreira Lemes, Pedro Batista
Martins. São Paulo: Atlas, 2017. p.521-536.

GIUSTI, Gilberto. O Árbitro e o juiz: da função jurisdicional do árbitro e do juiz. In Revista


Brasileira de Arbitragem, Comitê Brasileiro de Arbitragem, vol. II, issue 5, 2005.

GONÇALVES, Felipe Oliveira. Ação declaratória de fatos. Rio de Janeiro: Editora Lumem
Juris, 2023.

GOUVEIA, Mariana França. ANTUNES, João Gil. The suitability of the emergency
arbitrator for investment disputes. In: e-Pública, Vol. 6, nº 2, setembro 2019, p. 9/35.
Disponível em: [Link] Acesso em 02.03.2025.
123

GRANADO, Daniel Willian. SANTOS, Rosane Pereira dos. GIANFRANCESCO, Genosos.


Execução extrajudicial da Lei 9.514/97 e a figura do terceiro arrematante. In: Execução
civil e temas afins – do CPC/1973 ao novo CPC. Coordenação Arruda Alvim... [et al.]. São
Paulo: RT, 2014.

GRECO, Leonardo. Instituições de Processo Civil. Vol. I, 4ªed. Rio de Janeiro: Forense,
2013.

GRECO, Leonardo. O processo de execução. Rio de Janeiro: Renovar, 1999.

GRINOVER, Ada Pellegrini. O processo – I Série: Estudos e pareceres de processo civil.


Brasília: Gazeta Jurídica, 2013.

GRINOVER, Ada Pellegrini. Ensaio sobre a processualidade: fundamentos para uma nova
teoria geral do processo. Brasília: Gazeta Jurídica, 2016.

GRION, Renato Stephan. Árbitro de emergência – perspectiva brasileira à luz da


experiência internacional. In: CARMONA, Carlos Alberto, LEMES, Selma Ferreira.
MARTINS, Pedro Batista. 20 anos da lei de arbitragem. São Paulo: Atlas, 2017.

HARZARD, Geoffrey C.; TARUFFO, Michele. American civil procedure: an introduction.


New Haven: Yale University Press, 1993.

JARROSSON, Charles. La notion d´arbitrage. Paris: Dalloz, 1987.

JESUS, Luana Esselin Perdiz de Jesus. A aplicação do Direito Autoral no Contrato


Inteligente. [Dissertação de mestrado apresentada à Faculdade de Direito da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP, sob a orientação do Prof. Dr. Francisco José
Cahali]. PUC/SP, São Paulo, 2024.
124

KATZ, Igor Santos. Os impactos da blockchain nas relações econômicas internacionais.


[Tese de doutorado apresentada à Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo – PUC/SP, sob a orientação do Prof. Dr. Carlos Roberto Dusek]. PUC/SP, São
Paulo, 2023.

KOATZ. Rafael Lorenzo- Fernandes. A proibição do non liquet e o princípio da


inafastabilidade do controle jurisdicional. In: RDA – Revista de Direito Administrativo, Rio
de Janeiro, v. 270, p. 171/205, set./dez., 2015.

LEÃO, Fernanda de Gouvêa. Arbitragem e execução. [Dissertação de mestrado apresentada


à Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo - USP, sob orientação do Prof. Dr.
Carlos Alberto Carmona]. USP, São Paulo, 2012.

LEONEL, Ricardo de Barros. Teoria geral do processo. São Paulo: Malheiros/Juspodivm,


2023.

LEMES, Selma M. Ferreira. A importância e a origem do princípio da competência–


competência para a consolidação da arbitragem e a jurisprudência brasileira. Revista
Internacional de Arbitragem e Conciliação, Coimbra: Edições Almedina, v. XXII, jul./set.
2024.

LEMES, Selma. Arbitragem em números 2020/2021. Disponível em:


<[Link]
[Link]>. Acesso em 01.07.2024.

LEVADA. Filipe Antônio Marchi. Garantias autoexecutáveis. [Tese de doutorado


apresentada à Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo - USP, sob orientação do
Prof. Dr. Nestor Duarte]. USO, São Paulo, 2021.

LIEBMAN. Enrico Tullio. Manual de Direito Processual Civil. Tradução e notas de


Cândido Rangel Dinamarco. 3ª edição. Ed. Malheiros: São Paulo, 2005.
125

LIEBMAN, Enrico Tullio. Processo de execução (com notas de atualização do Prof.


Joaquim Munhoz de Mello). 5ª ed., São Paulo, Saraiva, 1986.

MARINONI, Luiz Guilherme. Rápidas observações sobre arbitragem e jurisdição.


Disponível em <chrome-
extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/[Link]
content/uploads/2010/09/arbitragem-e-jurisdicao_marinoni.pdf>. Acesso em 20/09/2025.

MARINONI, Luiz Guilherme; ARENHART, Sérgio Cruz; MITIDIERO, Daniel. O novo


processo civil - atualizado com a Lei n. 13.256/2016. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2017.

MARQUES, José Frederico. Instituições de direito processual civil. Vol. 1. Campinas:


Millennium, 2000.

MARQUES, José Frederico. Manual de direito processual civil. Vol. III. Pt. 2. Processo de
Conhecimento. São Paulo: Saraiva, 1986-1988. p.23.

MARQUES, Paula Menna Barreto. Árbitro de emergência. In: CARNEIRO, Paulo Cezar
Pinheiro, GRECO, Leonardo & DALLA, Humberto. Temas controvertidos na arbitragem à
luz do código de processo civil de 2015. Rio de Janeiro: LMJ Mundo Jurídico, 2018.

MARQUES NETO, Floriano Peixoto de Azevedo. Ensaio sobre o processo como disciplina
do exercício da atividade estatal. In: Teoria do processo: panorama doutrinário mundial.
Coord. Eduardo Ferreira Jordão e Fredie Souza Didier Jr. Salvador, Juspodivm, 2007.

MARTINS, Pedro A. Batista. Anotações sobre a sentença proferida em sede arbitral.


Aspectos fundamentais da lei de arbitragem. Rio de Janeiro: Forense, 1999.

MARTINS, Pedro A. Batista. Arbitragem e intervenção voluntária de terceiros: uma


proposta. In: Revista de Arbitragem e Mediação, vol. 33/2012. Abr - Jun / 2012.
126

MEDINA, José Miguel. Execução civil – princípios fundamentais. São Paulo: RT, 2002.

MEIRA, Sílvio A. B. O “imperium” no direito romano. In: Revista de informação


legislativa, v. 23, n. 90, abr./jun. 1986. Disponível em
<[Link] Acesso em
16.09.2025.

MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Curso de Direito Administrativo. 23 ed. São Paulo:
Malheiros.

MINAMI. Marcos Youji. Da vedação ao non factibile: uma introdução às medidas


executivas atípicas. 2ª ed. rev. atual. e ampl. Salvador: Editora Juspodivm, 2020.

MINAMI. Marcos Youji. Uma justificativa às medidas executivas atípicas – da vedação ao


non factibile. In: Medidas executivas atípicas. (coord. Eduardo Talamini e Marcos Youji
Minami). 4ª ed. rev. e atual. São Paulo: Editora JusPodivm, 2023. p. 71-94.

MIRANDA, Francisco Cavalcanti Pontes. Comentários ao Código de Processo Civil, tomo


V: arts. 444 a 475, Rio de Janeiro, Forense, 1997.

MIRANDA, Francisco Cavalcanti Pontes de. Tratado das ações - Tomo I - Ação,
Classificação e Eficácia. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1970.

MIRANDA, Francisco Cavalcanti Pontes de. Tratado das ações. t. II. Campinas: Bookseller,
1998.

MORAIS, José Luiz Bolzan de. Mediação e Arbitragem: Alternativas à Jurisdição. 2ª


Edição. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2008.
127

MOREIRA, José Carlos Barbosa. O novo processo civil brasileiro: exposição sistemática do
procedimento. Ed. rev. e atual. Rio de Janeiro: Forense, 2007.

MOREIRA, José Carlos Barbosa. “Cumprimento” e “execução” de sentença: necessidade


de esclarecimentos conceituais. In: Revista Dialética de Direito Processual. São Paulo:
Dialética, 2006, n. 42.

MOREIRA, José Carlos Barbosa. Direito aplicado II – Pareceres. 2ª ed. rev. e ampl. Rio de
Janeiro: Forense, 2005.

MOREIRA, José Carlos Barbosa. Considerações sobre a chamada “relativização” da coisa


julgada material. In: Temas de direito processual. Nona Série. São Paulo: Saraiva, 2007.

MOREIRA, José Carlos Barbosa. Questões velhas e novas em matéria de classificação das
sentenças. In: Temas de direito processual: oitava série. São Paulo: Saraiva, 2004.

MOREIRA, José Carlos Barbosa. A nova definição de sentença. In: Revista de Processo, São
Paulo, ano 31, n. 136, ano 31, p. 272, jun. 2006.

MUSTILL, Michael. Arbitration: history and background, em Journal of International


Arbitration, volume 6, issue 2, Kluwer Law International, 1989.

NAKAMOTO, Satoshi. Bitcoin: Peer-toPeer Eletronic Cash System. <chrome-


extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/[Link] Acesso em
22.09.2025.

NANNI, Giovani Ettore. Anulação da sentença arbitral. In: Fundamentos básicos sobre
arbitragem: um guia dos principais conceitos sobre a arbitragem e suas práticas. São Paulo:
Comitê Brasileiro de Arbitragem, 2023, p. 59-62.
128

NASCIMBENI, Asdrubal Franco. Cumprimento das decisões arbitrais: estudos para


aprimoramento do sistema. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2019. p. 93.

NERY JUNIOR, Nelson. NERY, Rosa de Andrade. Código de processo civil comentado e
legislação extravagante, 9ª ed., São Paulo: Revista dos Tribunais, 2006.

NERY JUNIOR, Nelson. Princípios no Processo na Constituição Federal - processo civil,


penal e administrativo, 11. ed., São Paulo: RT, 2012, n. 4.

NIEVA-FENOLL, Jordi. Coisa Julgada. Tradução de Antonio do Passo Cabral. São Paulo:
Editora Revista dos Tribunais, 2016.

PARICIO, Javier. CREMADES, Ignacio. La responsabilidade del juez em el derecho


romano clássico, AHDE 54 (1954).

PASSOS, José Joaquim Calmon de. Da jurisdição. 2ª ed. rev. e atual. São Paulo: Editora
JusPodivm, 2025.

PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de direito civil. Vol. 2. Teoria geral das
obrigações. 25ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 2013.

PINA, Pedro. Arbitragem e jurisdição. In: Revista julgar, n. 6, 2008.

PINTO, José Emilio Nunes. Anulação de sentença arbitral infra petita, extra petita ou ultra
petita. In: JOBIM, Eduardo; MACHADO, Rafael Bicca (coord.). Arbitragem no Brasil:
Aspectos Jurídicos Relevantes. São Paulo: Quartier Latin, 2008.

RANZOLIN, Ricardo Borges. Controle judicial da arbitragem. Rio de Janeiro: GZ Editora,


2011.
129

REZENDE FILHO, Gabriel José Rodrigues de. Curso de direito processual civil. Vol. I. 4ª
ed. São Paulo: Saraiva, 1954.

RIBEIRO, Flávia Pereira. Desjudicialização da Execução Civil. [Tese de doutorado


apresentada à Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP, sob a orientação do
Prof. Dr. João Batista Lopes]. São Paulo, 2012.

RIBEIRO, Lucas; MENDIZABAL, Odorico. Introdução à Blockchain e Contratos


Inteligentes: Apostila para Iniciante. Universidade Federal de Santa Catarina –
Departamento de Informática e Estatística, 2019, p. 21. Disponível em
<[Link]
[Link]?sequence=1&isAllowed=y> Acesso em: 10 dez. 2025.

SAMTLEBEN, Jürgen. Arbitration in Brazil. Miami: University of Mimi Inter-American


Law Review, 1986. Pág. 8-9. Disponível em:
<[Link]
Acesso em 13.09.2025.

SHIMURA, Sergio. Título executivo. São Paulo: Saraiva, 1997.

SCHINEMANN, Caio César Bueno. Arbitragem e execução: divisão de competências,


poderes do árbitro e limites subjetivos. São Paulo: Thompson Reuters Brasil, 2023.

SICA, Heitor Vitor Mendonça. Perspectivas atuais da teoria geral do processo. In: Bases
científicas para um renovado direito processual. Org. Athos Gusmão Carneiro e Petrônio
Calmon. 2ª edição. Salvador, Juspodivm, 2008.

SICA. Heitor Vitor Mendonça. Velhos e novos institutos fundamentais do direito processual
civil. In: 40 anos da teoria geral do processo no Brasil. Passado, presente e futuro. Org.
Camilo Zufelato e Flavio Luiz Yarshell. São Paulo: Ed. Malheiros, 2013.
130

SICA, Heitor Vitor Mendonça. Cognição do juiz na execução civil. São Paulo, RT, 2017.

SILVA, João Paulo Hecker da. Convenções processuais na execução e a desjudicialização


da atividade satisfativa. In: ASSUMPÇÃO, Marcio Calil de. BRAGANÇA, Gabriel José de
Orleans (coord.). Direito Bancário – Estudos da Comissão de Direito Bancário OAB/SP.
São Paulo: Quartier Latin, 2018. 168.

SILVA, Ovídio A. Baptista da. Gomes, Fabio. Teoria geral do processo civil. 2ª ed. rev. e
atual. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2000.

SILVA, Paula Costa e. A nova face da justiça: os meios extrajudiciais de resolução de


controvérsias. Lisboa: Coimbra editora, 2009.

SIQUEIRA, Fernando de. Carta arbitral: um mecanismo de cooperação. Disponível em: <
[Link]
cooperacao> Acesso em 27.09.2025.

SOARES. Guido Fernando Silva. Arbitragem internacional (introdução histórica). In:


FRANÇA, Rubens Limongi (coord.). Enciclopédia saraiva de direito: verbete. São Paulo:
Saraiva, 1978. Vol. 7. p. 377-378.

SOUZA, Eduardo Pacheco Ribeiro de. Noções fundamentais de direito registral e notarial.
São Paulo: Saraiva, 2011.

SZABO, Nick. Smart Contracts. Universiteit van Amsterdam. (1994). Disponível em:
[Link]

SZABO, Nick. The Idea of Smart Contracts. (1997). Disponível em


[Link]
nterschool200 6/[Link]/[Link]. Acesso em: 22 set. 2025.
131

TALAMINI, Eduardo. CARDOSO, André Guskow. Smart contracts, “autotutela” e tutela


jurisdicional. In: BELIZZE, Marco Aurélio. MENDES, Aluísio Gonçalves de Castro.
ARRUDA ALVIM, Teresa. CABRAL, Trícia Navarro Xavier (org.). Execução civil – novas
tendências: estudos em homenagem ao professor Arruda Alvim. Indaiatuba: Editora Foco,
2022.

TALAMINI, Eduardo. Tutela relativa aos deveres de fazer e de não fazer. CPC, art. 461;
CDC, art. 84. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2001.

TALAMINI, Eduardo. WLADECK, Felipe Scripes. Sentença arbitral e liquidez. In:


Arbitragem e Poder Público. São Paulo: Saraiva, 2010.

THEODORO JÚNIOR, Humberto. Arbitragem e terceiros - litisconsórcio fora do pacto


arbitral - outras intervenções de terceiros. In: Doutrinas Essenciais Arbitragem e Mediação.
vol. 2/2014. Set / 2014.

THEODORO JÚNIOR, Humberto. As novas reformas do código de processo civil. São


Paulo: Forense, 2006.

THEODORO JÚNIOR, Humberto. Processo de execução. 19ª ed. São Paulo: Livraria e
Editora Universitária de Direito - LEUD, 1999.

TUCCI, José Rogério Cruz e. Azevedo, Luís Carlos. Lições de história do processo civil
romano. 2ª ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2013.

TUCCI, José Rogério Cruz e. Hipoteca judiciária e devido processo legal. In: Revista do
Instituto dos Advogados de São Paulo, vol. 7/2001, p. 70-75, Jan-Jun/2001.

VALLE, Martin Della. Da Decisão por Equidade na Arbitragem Comercial Internacional.


[Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Direito da
132

Universidade de São Paulo, sob a orientação do Prof. Dr. Luiz Olavo Baptista]. USP, São
Paulo, 2009.

VÁSQUEZ, Maria Elena Jara. Tutela arbitral efectiva em Ecuador. Quito: Corporación de
Estudios y Publicaciones, 2017.

VOSHMGIR, Shermin. Token Economy: how Blockchains and smart contracts revolutionize
the economy. Berlim: Amazon Media, 2019.

WALD, Arnoldo. Direito civil: direito das obrigações e teoria geral dos contratos, vol. 2.
18ª ed. reformulada com colaboração dos Professores Semy Glanz, Ana Elizabeth L. W.
Cavalcanti e Liliana Minardi Paesami. São Paulo: Saraiva, 2009. p. 114.

WATANABE. Kazuo. Da cognição no processo civil. São Paulo: Editora Revista dos
Tribunais, 1987.

YARSHELL, Flávio Luiz. A cognição a cargo dos árbitros no cumprimento da sentença


arbitral. In: Arbitragem em evolução: aspectos relevantes após a reforma da Lei Arbitral.
Coord. Tarcísio Teixeira e Patricia Ayub C. Ligmanovski. Barueri: Manole, 2018.

YARSHELL, Flávio Luiz. MEIJAS, Lucas Britto. Tutelas de urgência e produção


antecipada de prova à luz da Lei n. 13.129/2015. In: Arbitragem: estudos sobre a Lei nº
13.129, de 26-5-2015. Org. Francisco José Cahali, Thiago Rodovalho e Alexandre Freire.
São Paulo: Saraiva, 2016.

YARSHELL, Flávio Luiz. Tutela jurisdicional específica nas obrigações de declaração de


vontade. São Paulo: Malheiros, 1993.

DECISÕES JUDICIAIS
133

STJ, Terceira Turma, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, REsp n. 1.636.102/SP, julgado
em 13.6.2017, DJe 1.8.2017.

STJ, Quarta Turma, Relator Ministro Luís Felipe Salomão, REsp n. 1.949.566/SP,
julgamento em 14.09.2021, DJe 19.10.2021.

STJ, Quarta Turma, Relator Ministro Marco Buzzi, AgInt no AREsp n. 2.386.681/RS, Quarta
Turma, julgado em 4.12.2023, DJe de 7.12.2023.

TJSP, 1ª Vara de Registros Públicos de São Paulo, Procedimento Administrativo de Dúvida


Registral n. 000.05.032549-3, São Paulo, j. 06.06.2005.

Você também pode gostar