Log Math
Log Math
e Demonstrações
Prefácio 5
3 Demonstrações Matemáticas 33
3.1 O que é uma demonstração? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 33
3.2 Demonstração direta . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34
3.2.1 Estrutura lógica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34
3.3 Demonstração por contraposição . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35
3.3.1 Estrutura lógica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35
3.4 Demonstração por contradição . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37
3.4.1 Estrutura lógica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37
3
4 Contents
6 Exercícios Gerais 69
6.1 Nível básico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 69
6.2 Nível intermediário . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 70
6.3 Nível avançado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 71
Prefácio
Este texto nasce de uma convicção simples, mas frequentemente subestimada nos cursos
iniciais de graduação: a matemática não é apenas um conjunto de fórmulas e algoritmos,
mas uma linguagem de raciocínio rigoroso. Antes de calcular, integrar, resolver equações
ou construir modelos, o estudante de Matemática, Física, Computação ou Engenharia
precisa aprender a argumentar corretamente. É essa habilidade – a de construir
e reconhecer demonstrações válidas – que separa o cálculo mecânico da compreensão
matemática genuína.
A lógica matemática fornece o esqueleto sobre o qual toda demonstração é construída.
Compreender os conectivos lógicos, os quantificadores, as regras de inferência e as difer-
entes técnicas de demonstração não é um exercício acadêmico isolado: é a ferramenta que
permite ao estudante ler um livro de Análise, entender uma prova em Álgebra Linear,
verificar a correção de um algoritmo ou justificar um resultado físico a partir de axiomas.
Esta apostila foi escrita com um objetivo duplo. Primeiro, apresentar de maneira completa
e rigorosa os fundamentos da lógica proposicional e da lógica de predicados. Segundo – e
talvez mais importante – desenvolver no leitor a capacidade ativa de construir demon-
strações: reconhecer qual técnica utilizar, como interpretar hipóteses, como planejar o
caminho de uma prova e como evitar os erros lógicos mais comuns.
Ao longo dos seis capítulos, procuramos sempre motivar os conceitos antes de formalizá-
los, interpretar intuitivamente cada definição, demonstrar rigorosamente cada resultado e
ilustrar com exemplos comentados passo a passo. Nenhuma passagem relevante é omitida
sob o pretexto de que "é fácil ver"; pelo contrário, o compromisso deste texto é com a
explicitação completa do raciocínio.
Desejamos que esta apostila sirva não apenas como material de consulta, mas como um
verdadeiro guia de iniciação ao pensamento matemático rigoroso.
Bons estudos.
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6 Contents
Capítulo 1
"Se chover, então a rua fica molhada. A rua está molhada. Logo, choveu."
Esse argumento parece razoável à primeira vista, mas é, na verdade, logicamente in-
válido – a rua pode estar molhada por outros motivos (um caminhão-pipa, por exemplo).
A lógica matemática nos dá ferramentas precisas para distinguir argumentos como este,
que apenas parecem corretos, de argumentos genuinamente válidos, cuja conclusão é uma
consequência necessária das premissas, independentemente do conteúdo específico das
afirmações envolvidas.
Essa distinção – entre a forma de um argumento e o seu conteúdo – é a marca registrada
da lógica matemática. Um argumento é válido (ou não) por causa de sua estrutura, e
essa estrutura pode ser estudada de maneira abstrata, independentemente de estarmos
falando de chuva, números ou conjuntos.
1.1.1 Argumentos
Definição 1.1 Argumento
Um argumento é uma sequência finita de proposições P1 , P2 , . . . , Pn , chamadas pre-
missas, seguida de uma proposição Q, chamada conclusão, na qual se afirma que Q
decorre logicamente de P1 , . . . , Pn .
P1 , P2 , . . . , Pn ∴ Q,
7
8 Chapter 1. Fundamentos da Lógica Matemática
Observação 1.3
É fundamental distinguir validade de verdade. A validade é uma propriedade da
forma do argumento; a verdade é uma propriedade do conteúdo de cada proposição
isolada. Um argumento pode ser válido mesmo que suas premissas sejam falsas, e pode
ser inválido mesmo que premissas e conclusão sejam, por acaso, todas verdadeiras.
O que a validade garante é a transmissão da verdade: se as premissas forem
verdadeiras, então a conclusão é necessariamente verdadeira.
Exemplo 1.4
Considere o argumento:
Todo número par maior que 2 é composto. 17 é um número par maior que
2. Logo, 17 é composto.
O objetivo central deste capítulo, e de boa parte desta apostila, é fornecer meios precisos
para verificar a validade de argumentos, começando pelo estudo da lógica proposicional.
1.2 Proposições
Definição 1.5 Proposição
Uma proposição é uma sentença declarativa à qual se pode atribuir exatamente
um dentre dois valores de verdade: verdadeiro (V) ou falso (F), mas nunca ambos
simultaneamente e nunca nenhum dos dois.
Essa é a suposição central da lógica clássica (ou bivalente), sobre a qual toda esta
apostila se apoia: toda proposição tem exatamente um valor de verdade, mesmo que não
saibamos, no momento, qual é esse valor.
Exemplo 1.6
São proposições:
(a) "2 + 2 = 4" (proposição verdadeira);
(b) "7 é um número primo par" (proposição falsa, pois o único primo par é 2);
(c) "Existem infinitos números primos" (proposição verdadeira, como demon-
straremos futuramente);
1.3. Conectivos lógicos 9
(d) "A conjectura de Goldbach é verdadeira" (é uma proposição, ainda que atual-
mente não se saiba, com demonstração, se seu valor de verdade é V ou F – o
que importa é que ela possui um valor de verdade definido, mesmo que descon-
hecido).
Exemplo 1.7
Não são proposições:
(a) "Que horas são?" (sentença interrogativa, não declarativa);
(b) "Estude mais!" (sentença imperativa);
(c) "x + 2 = 5" (sentença aberta: seu valor de verdade depende do valor não
especificado da variável x; trataremos essas sentenças, chamadas predicados,
no Capítulo 2);
(d) "Esta frase é falsa" (o famoso paradoxo do mentiroso: se fosse verdadeira, se-
ria falsa, e vice-versa – não podemos atribuir-lhe um único valor de verdade
consistente, de modo que não é uma proposição no sentido lógico usual).
Observação 1.8
Denotaremos proposições por letras minúsculas: p, q, r, s, . . . , eventualmente com
índices. Diremos "seja p a proposição “tal coisa”" para introduzir uma variável proposi-
cional associada a uma sentença específica.
1.3.1 Negação
A tabela-verdade da negação é:
p ¬p
V F
F V
10 Chapter 1. Fundamentos da Lógica Matemática
Exemplo 1.10
Se p = "hoje chove", então ¬p = "hoje não chove". Se p = "5 é primo" (V), então
¬p = "5 não é primo" (F).
1.3.2 Conjunção
Definição 1.11 Conjunção
Dadas proposições p e q, a conjunção de p e q, denotada p ∧ q (lê-se "p e q"), é a
proposição que é verdadeira se, e somente se, p e q são ambas verdadeiras.
p q p∧q
V V V
V F F
F V F
F F F
1.3.3 Disjunção
Definição 1.12 Disjunção inclusiva
Dadas proposições p e q, a disjunção (inclusiva) de p e q, denotada p ∨ q (lê-se "p
ou q"), é a proposição que é verdadeira se, e somente se, pelo menos uma das
proposições p, q é verdadeira.
p q p∨q
V V V
V F V
F V V
F F F
Observação 1.13
Em português coloquial, a palavra "ou" costuma ser usada em seu sentido exclu-
sivo (um ou outro, mas não ambos), como em "vou de ônibus ou de carro". Em
matemática, salvo indicação contrária, "ou" é sempre inclusivo: p ∨ q é verdadeira
mesmo quando p e q são ambas verdadeiras. Quando se deseja o sentido exclusivo,
utiliza-se o conectivo ou exclusivo, denotado p⊻q, definido por p⊻q ≡ (p∨q)∧¬(p∧q),
verdadeiro exatamente quando p e q têm valores de verdade distintos.
1.3.4 Condicional
O conectivo condicional é, dentre todos, o que mais frequentemente gera confusão inicial,
e por isso merece atenção especial.
1.3. Conectivos lógicos 11
p q p→q
V V V
V F F
F V V
F F V
1.3.5 Bicondicional
Definição 1.18 Bicondicional
Dadas proposições p e q, o bicondicional de p e q, denotado p ↔ q (lê-se "p se,
e somente se, q"), é a proposição que é verdadeira exatamente quando p e q têm o
mesmo valor de verdade.
p q p↔q
V V V
V F F
F V F
F F V
Observação 1.19
Note que p ↔ q é verdadeira exatamente quando (p → q) ∧ (q → p) é verdadeira –
fato que verificaremos formalmente mais adiante por meio de tabela-verdade. Essa
observação justifica a estratégia usual para demonstrar uma afirmação da forma "p
se, e somente se, q": demonstra-se separadamente que p ⇒ q (a chamada "ida") e que
q ⇒ p (a chamada "volta").
1.4 Tabelas-verdade
Exemplo 1.22
Construamos a tabela-verdade de (p ∧ q) → (p ∨ q).
Como há duas proposições atômicas (p e q), a tabela terá 22 = 4 linhas.
p q p ∧ q p ∨ q (p ∧ q) → (p ∨ q)
V V V V V
V F F V V
F V F V V
F F F F V
Note que a última coluna é sempre verdadeira, independentemente dos valores de p
e q. Proposições com essa propriedade recebem um nome especial, que definiremos a
seguir.
Exemplo 1.23
Construamos a tabela-verdade de ¬(p ∧ q) ↔ (¬p ∨ ¬q), que é exatamente uma das
Leis de De Morgan que estudaremos na Seção 1.7.
p q p ∧ q ¬(p ∧ q) ¬p ¬q ¬p ∨ ¬q
V V V F F F F
V F F V F V V
F V F V V F V
F F F V V V V
Comparando a quarta coluna (¬(p ∧ q)) com a sétima (¬p ∨ ¬q), observamos que são
idênticas em todas as linhas. Logo, o bicondicional ¬(p∧q) ↔ (¬p∨¬q) é verdadeiro
em todas as linhas – outro exemplo de tautologia.
14 Chapter 1. Fundamentos da Lógica Matemática
Exemplo 1.27
A proposição p ∨ ¬p (princípio do terceiro excluído) é uma tautologia:
p ¬p p ∨ ¬p
V F V
F V V
Observação 1.28
Tautologias desempenham papel central na lógica matemática: como veremos na Seção
1.6, elas correspondem exatamente às equivalências lógicas e, no Capítulo 2, às
regras de inferência válidas. Verificar que uma fórmula é uma tautologia é, em
essência, verificar que um determinado padrão de raciocínio é sempre correto, não
importando o conteúdo específico envolvido.
1.6. Equivalência lógica 15
Observação 1.30
Note a diferença sutil entre ≡ e ↔: o bicondicional ↔ é um conectivo que combina
duas proposições para formar uma terceira proposição (que pode ser V ou F depen-
dendo da linha); já ≡ é uma relação metalinguística entre proposições, que afirma
que P ↔ Q é sempre verdadeira (uma tautologia). Em outras palavras, P ≡ Q é uma
afirmação sobre as proposições P e Q, não uma nova proposição composta por elas.
p q p → q ¬p ¬q ¬q → ¬p
V V V F F V
V F F F V F
F V V V F V
F F V V V V
Comparando a terceira coluna com a sexta, vemos que são idênticas em todas as linhas.
Logo, p → q ≡ ¬q → ¬p. ■
Observação 1.32
A equivalência (xii), p → q ≡ ¬p ∨ q, é extremamente útil na prática: ela permite
reescrever qualquer condicional em termos de negação e disjunção, o que muitas vezes
facilita a manipulação algébrica de fórmulas lógicas e, como veremos, a negação de
proposições condicionais.
Exemplo 1.33
Vamos usar as equivalências do Teorema anterior para simplificar a fórmula
¬(p → q) ∨ (p ∧ q).
Pelo terceiro excluído (item (x)), ¬q ∨ q ≡ T . Logo, pela identidade (item (vii)):
p ∧ (¬q ∨ q) ≡ p ∧ T ≡ p.
Corolário 1.36
A negação do condicional é: ¬(p → q) ≡ p ∧ ¬q.
Observação 1.37
Este corolário será usado repetidamente no Capítulo 3: para demonstrar p → q por
contradição, supomos a negação da tese, isto é, supomos p ∧ ¬q – ou seja, supomos
simultaneamente que a hipótese p vale e que a conclusão q é falsa – e buscamos derivar
uma contradição.
Exemplo 1.38
Vamos negar a proposição: "se n é primo, então n = 2 ou n é ímpar".
Aqui p: "n é primo", e o consequente é q ∨ r, com q: "n = 2" e r: "n é ímpar". A
18 Chapter 1. Fundamentos da Lógica Matemática
¬(q ∨ r) ≡ ¬q ∧ ¬r.
Logo:
¬ p → (q ∨ r) ≡ p ∧ ¬q ∧ ¬r,
isto é: "n é primo, n ̸= 2, e n é par" (usando ¬r: "n não é ímpar", equivalente a "n
é par"). Em suma, a negação da afirmação original é: "n é primo, n é diferente de 2,
e n é par".
Exemplo 1.39
Traduza para linguagem simbólica: "Não é o caso que, se estudo, então não passo no
exame".
Sejam p: "estudo" e q: "passo no exame". A sentença "se estudo, então não passo" é
p → ¬q. A sentença completa é a negação desta: ¬(p → ¬q).
Podemos simplificar usando o Corolário 1.1 (com q substituído por ¬q):
Exemplo 1.40
Traduza para português, de forma natural: (p ∧ ¬q) → r, onde p: "o número é par",
q: "o número é primo", r: "o número é igual a 2".
Uma tradução literal seria: "Se o número é par e o número não é primo, então o número
é igual a 2". Isso, porém, está logicamente incorreto como afirmação matemática
(por exemplo, n = 4 é par e não primo, mas 4 ̸= 2) – o que ilustra que a tradução
correta de uma fórmula não garante que a proposição resultante seja verdadeira;
apenas garante que a tradução está fielmente representada. Cabe ao matemático,
em seguida, investigar separadamente se a proposição traduzida é de fato verdadeira.
1.9. Exercícios 19
Observação 1.41
Um erro frequente ao traduzir enunciados é confundir "p somente se q" com "p se
q". Lembre-se: "p somente se q" traduz-se como p → q, enquanto "p se q" traduz-se
como q → p. Preste atenção especial a essa inversão, pois é fonte comum de erros em
provas.
1.9 Exercícios
Exercício 1.42. Determine se cada sentença abaixo é uma proposição. Em caso afir-
mativo, diga se é (ou pode-se afirmar que é) verdadeira ou falsa:
(a) "3 é maior que π";
(b) "Feche a porta, por favor";
(c) "x2 − 1 = 0";
(d) "Todo número natural maior que 1 possui um divisor primo";
(e) "Esta sentença possui exatamente sete palavras".
Solução 1.43. A solução do exercícios dados acima estão a seguir.
(a) Preposição
(b) Não é uma preposição
(c) Preposição
(d) Preposição
(e) Preposição
Exercício 1.44. Construa a tabela-verdade completa das seguintes proposições e clas-
sifique cada uma como tautologia, contradição ou contingência:
(a) (p → q) ∨ (q → p);
(b) (p ∧ q) ∧ ¬(p ∨ q);
(c) (p → q) ∧ (p ∧ ¬q);
(d) p → (q → r) ↔ (p ∧ q) → r .
Exercício 1.47. Demonstre, usando tabelas-verdade, os itens (iii), (v) e (ix) do Teorema
1.1 (comutatividade, distributividade e absorção).
Exercício 1.49. Traduza cada sentença para linguagem simbólica, definindo claramente
as proposições atômicas envolvidas:
(a) "É necessário que n seja par para que n2 seja par, mas isso não é suficiente";
(b) "Nem x é positivo, nem y é negativo";
(c) "x é solução da equação somente se x = 1 ou x = −1".
é uma tautologia. (Esta tautologia será revisitada no Capítulo 2 sob o nome de Modus
Tollens.)
1.9. Exercícios 21
P1 , P2 , . . . , Pn ∴ Q
Observação 2.2
Essa definição estabelece a ponte fundamental entre os dois capítulos: verificar que
uma regra de inferência é válida é, precisamente, verificar que uma certa proposição
condicional é uma tautologia – tarefa que já sabemos realizar por tabela-verdade. As
regras de inferência que apresentaremos a seguir foram todas verificadas dessa forma,
e o leitor é convidado a confirmar algumas delas nos exercícios.
p → q, p ∴ q.
23
24 Chapter 2. Regras de Inferência e Lógica de Predicados
p q p → q (p → q) ∧ p (p → q) ∧ p → q
V V V V V
V F F F V
F V V F V
F F V F V
Observação 2.4
Modus Ponens (do latim, "modo que afirma") é, sem dúvida, a regra de inferência
mais utilizada em matemática: sempre que sabemos que "se p então q" e verificamos
que p de fato ocorre, concluímos q. Praticamente toda aplicação de um teorema
previamente demonstrado a um caso particular é uma instância do Modus Ponens.
Exemplo 2.5
Sabemos que "se n é divisível por 4, então n é divisível por 2" (teorema já estabele-
cido) e que "20 é divisível por 4" (fato verificável diretamente). Por Modus Ponens,
concluímos: "20 é divisível por 2".
p → q, ¬q ∴ ¬p.
Observação 2.7
Modus Tollens ("modo que nega") é a base lógica da técnica de demonstração por
contraposição, que estudaremos detalhadamente no Capítulo 3: para provar p → q, é
logicamente equivalente (pelo item (xiv) do Teorema 1.1) provar ¬q → ¬p.
Exemplo 2.8
Sabemos que "se um número é natural e primo maior que 2, então é ímpar" e obser-
vamos que "18 não é ímpar". Por Modus Tollens, concluímos que "18 não é (natural,
primo e maior que 2) simultaneamente" – de fato, 18 não é primo.
p → q, q → r ∴ p → r.
2.2. Regras de inferência fundamentais 25
Observação 2.10
Esta demonstração ilustra um estilo de prova ligeiramente diferente do uso direto de
tabelas-verdade: um argumento semântico, que analisa diretamente o significado dos
valores de verdade envolvidos, em vez de enumerar exaustivamente todas as linhas.
Ambos os estilos são rigorosos; o argumento semântico costuma ser mais esclarece-
dor e é o estilo predominante em demonstrações matemáticas reais, como veremos
amplamente no Capítulo 3.
p ∨ q, ¬p ∴ q.
Exemplo 2.13
Considere as premissas:
1. p → q
2. q → r
3. ¬r
26 Chapter 2. Regras de Inferência e Lógica de Predicados
Exemplo 2.14
Considere as premissas:
1. Se estudo lógica, então compreendo demonstrações (p → q).
2. Se compreendo demonstrações, então terei sucesso em Análise (q → r).
3. Não terei sucesso em Análise, ou obterei uma boa nota final (¬r ∨ s).
4. Não obterei uma boa nota final (¬s).
Vamos deduzir "não estudo lógica" (¬p).
Passo 1: De (3) ¬r ∨ s e (4) ¬s, por Silogismo Disjuntivo (rearranjando ¬r ∨ s como
s ∨ ¬r por comutatividade, e usando ¬s), obtemos ¬r.
Passo 2: De (1) p → q e (2) q → r, por Silogismo Hipotético, obtemos p → r.
Passo 3: De p → r (Passo 2) e ¬r (Passo 1), por Modus Tollens, obtemos ¬p.
Concluímos "não estudo lógica". Esta cadeia de três passos ilustra como argumentos
aparentemente complexos podem ser decompostos em aplicações sucessivas de regras
elementares – exatamente o que ocorre, em escala muito maior, em demonstrações
matemáticas complexas.
Este argumento é intuitivamente válido, mas a lógica proposicional, que trata proposições
como blocos indivisíveis, é incapaz de analisar sua estrutura interna: não há como expres-
sar "todo x" dentro da linguagem que construímos no Capítulo 1. Precisamos, portanto,
de uma linguagem mais expressiva: a lógica de predicados (também chamada lógica
de primeira ordem).
Denotamos um predicado com uma variável por P (x), lido "x satisfaz P " ou simplesmente
"P de x". Predicados com múltiplas variáveis são denotados P (x, y), P (x, y, z), etc.
2.3. Lógica de predicados 27
Exemplo 2.17
Seja P (x): "x2 − 4 = 0", com universo de discurso R. Temos:
• P (2) é verdadeira, pois 22 − 4 = 0;
• P (−2) é verdadeira, pois (−2)2 − 4 = 0;
• P (3) é falsa, pois 32 − 4 = 5 ̸= 0.
Note que P (x), isoladamente (sem substituição de x por um valor específico, e sem
quantificação, que veremos a seguir), não é uma proposição: não podemos atribuir-
lhe um único valor de verdade, pois este depende do valor (não especificado) de x.
Exemplo 2.18
Seja Q(x, y): "x < y", com universo de discurso N × N. Temos Q(2, 5) verdadeira e
Q(7, 3) falsa. Note que Q(x, y) e Q(y, x) não são, em geral, equivalentes (a relação
"<" não é simétrica): Q(2, 5) ̸= Q(5, 2) em valor de verdade.
2.3.2 Quantificadores
Os predicados tornam-se proposições completas por meio da substituição de suas var-
iáveis por valores específicos, ou por meio de quantificação, que afirma algo sobre todos
os elementos do universo, ou sobre a existência de algum elemento com determinada
propriedade.
∀x ∈ U, P (x),
que é verdadeira se, e somente se, P (x) é verdadeira para cada elemento x de U ,
sem exceção.
∃x ∈ U, P (x),
que é verdadeira se, e somente se, existe pelo menos um elemento x de U para o
qual P (x) é verdadeira.
28 Chapter 2. Regras de Inferência e Lógica de Predicados
Observação 2.21
Um terceiro quantificador, útil na prática, é o quantificador de existência e uni-
cidade, denotado ∃! (lido "existe um único"), definido por
∃!x ∈ U, P (x) ≡ ∃x ∈ U, P (x) ∧ ∀x, y ∈ U, (P (x) ∧ P (y)) → x = y .
Exemplo 2.22
Considere o universo de discurso N = {0, 1, 2, 3, . . . }.
(a) ∀n ∈ N, n ≥ 0 é verdadeira (todo natural é não negativo);
(b) ∀n ∈ N, n2 > n é falsa (falha para n = 0 e n = 1: um único contraexemplo já
basta para tornar falsa uma afirmação universal, como discutiremos abaixo);
(c) ∃n ∈ N, n2 = 4 é verdadeira (basta n = 2);
(d) ∃n ∈ N, n + 1 = n é falsa (nenhum natural satisfaz essa equação);
(e) ∃!n ∈ N, n2 = 9 é verdadeira (o único natural que satisfaz é n = 3; note que,
se o universo fosse Z, a unicidade falharia, pois −3 também satisfaria n2 = 9).
o caso que P (x) vale para todo x ∈ U , ou seja, exatamente quando existe algum x ∈ U
para o qual P (x) falha, isto é, para o qual ¬P (x) é verdadeira. Mas essa é exatamente
a condição de verdade de ∃x ∈ U, ¬P (x). Logo, as duas proposições são verdadeiras
exatamente nas mesmas circunstâncias, isto é, são logicamente equivalentes.
A segunda equivalência segue de maneira análoga: ¬ ∃x ∈ U, P (x) é verdadeira exata-
mente quando não existe x ∈ U satisfazendo P (x), isto é, quando todo x ∈ U satisfaz
¬P (x), que é a condição de verdade de ∀x ∈ U, ¬P (x). ■
Observação 2.26
Esta é, de fato, uma generalização das Leis de De Morgan: assim como ¬(p ∧ q) ≡
¬p∨¬q troca ∧ por ∨ ao negar, temos que ¬∀ troca-se por ∃¬; e assim como ¬(p∨q) ≡
¬p ∧ ¬q, temos ¬∃ trocando-se por ∀¬. A negação sempre "empurra" o sinal ¬
para dentro, trocando o tipo de quantificador (ou de conectivo) e negando
o predicado (ou proposição) interno.
Exemplo 2.27
Negue a proposição: "Todo número primo é ímpar" (∀n ∈ U, primo(n) → ímpar(n),
onde U é o conjunto dos números naturais maiores que 1).
Pela regra de negação do quantificador universal:
isto é: "Existe um número primo que é par". Esta afirmação é, de fato, verdadeira
(basta tomar n = 2), o que confirma – consistentemente com nossa expectativa – que
a afirmação original ("todo primo é ímpar") é falsa, pois sua negação é verdadeira.
Exemplo 2.28
Considere o universo de discurso R e as duas sentenças:
A sentença (A) afirma: "para todo real x, existe um real y maior que x" – isto é,
não há um "maior número real"; sempre podemos encontrar um número maior que
qualquer x dado (por exemplo, y = x+1 sempre serve). Esta afirmação é verdadeira.
A sentença (B) afirma: "existe um real y que é maior que todo real x" – isto é, existe
um "maior número real" que supera todos os outros simultaneamente. Esta afirmação
é falsa: dado qualquer candidato a y, o número y + 1 é maior que y, contradizendo
que y seja maior que todo x (em particular, maior que x = y + 1).
Este exemplo mostra, de maneira contundente, que trocar a ordem de ∀ e ∃ pode trans-
formar uma afirmação verdadeira em falsa. A intuição correta é: em ∀x ∃y P (x, y), o
elemento y pode (e geralmente deve) depender de x – lemos "para cada x, existe um
y (que pode depender de x) tal que..."; já em ∃y ∀x P (x, y), o mesmo y deve funcionar
simultaneamente para todos os valores de x – um único y "universal".
Observação 2.29
Uma regra segura (mas não universalmente válida em sentido inverso) é a seguinte:
∃y ∀x P (x, y) implica ∀x ∃y P (x, y) (se existe um y que serve para todos os x, então
em particular, para cada x, este mesmo y serve). A recíproca, como o exemplo anterior
demonstra, é falsa em geral.
Observação 2.30
Quando os quantificadores são do mesmo tipo (ambos ∀ ou ambos ∃), a ordem pode
ser trocada livremente sem alterar o valor de verdade: ∀x ∀y P (x, y) ≡ ∀y ∀x P (x, y), e
∃x ∃y P (x, y) ≡ ∃y ∃x P (x, y). O cuidado é necessário apenas quando quantificadores
de tipos diferentes estão envolvidos.
Exemplo 2.31
Traduza para linguagem simbólica a definição de função contínua em um ponto
(que o leitor revisitará, com mais profundidade, em um curso de Análise): "f é con-
tínua em a se, para todo ε > 0, existe δ > 0 tal que, para todo x, se |x − a| < δ, então
|f (x) − f (a)| < ε".
∀ε > 0, ∃δ > 0, ∀x, |x − a| < δ → |f (x) − f (a)| < ε .
Note a estrutura ∀∃∀: para cada margem de erro ε (por menor que seja), deve existir
uma margem δ (que pode depender de ε) tal que todo x suficientemente próximo de
a (a menos de δ) tenha imagem suficientemente próxima de f (a) (a menos de ε).
A ordem dos quantificadores aqui é absolutamente essencial: δ depende de ε, e essa
dependência é precisamente capturada pela ordem ∀ε ∃δ (e não o contrário).
Exemplo 2.32
Traduza: "Todo número racional pode ser escrito como razão de dois inteiros, com
denominador não nulo".
2.4. Exercícios 31
∀q ∈ Q, ∃a, b ∈ Z, b ̸= 0 ∧ q = ab .
Exemplo 2.33
Traduza e depois negue: "Existe um número natural que é maior que todos os demais
números naturais".
∃n ∈ N, ∀m ∈ N, (m ̸= n → n > m).
Negando, aplicamos as regras sucessivamente:
¬ ∃n ∀m (m ̸= n → n > m) ≡ ∀n ¬ ∀m (m ̸= n → n > m) ≡ ∀n ∃m ¬(m ̸= n → n > m).
∀n ∈ N, ∃m ∈ N, (m ̸= n ∧ n ≤ m),
isto é: "para todo natural n, existe outro natural m (diferente de n) tal que n ≤
m" – ou seja, nenhum natural é o maior de todos, pois sempre existe outro (por
exemplo, maior ou igual). Esta afirmação é, de fato, verdadeira nos naturais, o que
é consistente com a afirmação original ser falsa.
2.4 Exercícios
Exercício 2.34. Verifique, por meio de argumento semântico (como o utilizado na
demonstração do Silogismo Hipotético), a validade das regras de inferência do Teorema
2.3: Adição, Simplificação, Conjunção, Dilema Construtivo e Resolução.
1. ¬p ∨ q
2. ¬q ∨ r
3. p
deduza r por uma cadeia de inferências, justificando cada passo com o nome da regra
utilizada.
2. Se ele produz uma saída correta, então o programa foi bem testado (q → r);
deduza logicamente que "o algoritmo não termina", indicando as regras de inferência
utilizadas em cada passo.
Exercício 2.38. Negue cada uma das seguintes proposições, simplificando ao máximo:
(a) ∀x ∈ R, x2 > 0;
(b) ∃x ∈ R, ∀y ∈ R, x + y = y;
(c) ∀ε > 0, ∃N ∈ N, ∀n ≥ N, |an − L| < ε (esta é a definição de limite de sequência,
que o leitor revisitará em Análise);
(d) ∀n ∈ N, n > 2 → ∃p primo, p | n .
Exercício 2.39. Traduza cada sentença para a linguagem simbólica da lógica de predi-
cados, especificando claramente universos de discurso:
(a) "Todo número inteiro é a soma de quatro quadrados perfeitos" (Teorema de La-
grange);
(b) "Não existe um maior número primo";
(c) "Para cada número real positivo, existe uma raiz quadrada real";
(d) "A equação x2 + 1 = 0 não possui solução real".
Exercício 2.40. Explique, com um exemplo diferente do apresentado no texto, por que
a sentença ∀x ∃y P (x, y) não é, em geral, equivalente a ∃y ∀x P (x, y).
Demonstrações Matemáticas
Q1 , Q2 , . . . , Qk = Q
tal que cada Qi é ou (a) uma das premissas Pj , ou (b) um axioma ou definição, ou
(c) uma consequência lógica de proposições anteriores na sequência, obtida por uma
regra de inferência válida (como as estudadas no Capítulo 2).
Observação 3.2
Esta definição é, em certo sentido, o ideal formal de uma demonstração – o que se
estuda rigorosamente em lógica matemática e teoria da demonstração. Na prática
do dia a dia matemático, as demonstrações são escritas em linguagem natural (com
símbolos matemáticos), omitindo os passos mais elementares e óbvios (como aplicações
triviais de Modus Ponens), mas toda demonstração matemática correta pode, em
princípio, ser expandida até essa forma totalmente formal. É esse fato que confere
às demonstrações matemáticas seu caráter de certeza absoluta, em contraste com
argumentos empíricos ou indutivos das ciências naturais.
∀x ∈ U, H(x) → T (x),
onde H(x) é a hipótese e T (x) é a tese. Demonstrar tal teorema significa mostrar
que, para qualquer elemento x do universo U que satisfaça a hipótese H(x), a tese
T (x) também é satisfeita. É essa estrutura – hipótese e tese, ligadas por um condicional
33
34 Chapter 3. Demonstrações Matemáticas
Proposição 3.7
Se n é um inteiro par, então n2 é par.
Proof. Suponhamos que n seja par. Pela Definição 3.1, existe k ∈ Z tal que n = 2k.
Elevando ao quadrado:
n2 = (2k)2 = 4k 2 = 2(2k 2 ).
Como k ∈ Z, temos que 2k 2 ∈ Z; chamando m = 2k 2 ∈ Z, obtemos n2 = 2m, com m ∈ Z.
Pela Definição 3.1, isso significa exatamente que n2 é par. ■
3.3. Demonstração por contraposição 35
Observação 3.8
Note a estrutura cuidadosa da demonstração: (1) traduzimos a hipótese "n é par"
para sua forma algébrica precisa, via definição; (2) manipulamos algebricamente; (3)
reconhecemos que o resultado tem a forma exigida pela definição de "par"; (4) con-
cluímos. Cada uma dessas etapas é necessária e nenhuma pode ser omitida em uma
demonstração rigorosa, ainda que, em textos mais avançados, alguns desses passos
sejam condensados.
Proposição 3.9
Se a e b são inteiros ímpares, então a + b é par.
Proof. Suponhamos que a e b sejam ímpares. Pela Definição 3.1, existem j, k ∈ Z tais
que a = 2j + 1 e b = 2k + 1. Somando:
a + b = (2j + 1) + (2k + 1) = 2j + 2k + 2 = 2(j + k + 1).
Como j, k ∈ Z, temos j + k + 1 ∈ Z. Denotando m = j + k + 1 ∈ Z, obtemos a + b = 2m,
com m ∈ Z, o que significa, pela Definição 3.1, que a + b é par. ■
Proposição 3.10
Se a divide b e b divide c (com a, b, c ∈ Z, b ̸= 0), então a divide c.
Observação 3.12
Esta última proposição estabelece a transitividade da relação de divisibilidade, pro-
priedade que será usada livremente em capítulos e cursos posteriores (por exemplo, em
Teoria dos Números) sem nova demonstração, exatamente como fazemos com teoremas
já estabelecidos.
Proposição 3.15
Seja n ∈ Z. Se n2 é par, então n é par.
Observação 3.16
Vale a pena comparar esta demonstração com uma tentativa de prova direta: partindo
de "n2 é par", isto é, n2 = 2m para algum m ∈ Z, não há um caminho algébrico
evidente para concluir que n = 2k para algum k (não podemos, em geral, "tirar a
raiz quadrada" de forma a preservar a estrutura inteira de maneira simples). Já a
contrapositiva parte de uma hipótese explícita e manipulável (n ímpar, isto é, n =
2k+1) e chega facilmente à conclusão desejada. Este exemplo ilustra perfeitamente por
que a escolha da técnica de demonstração é uma decisão estratégica, não meramente
formal.
Proposição 3.17
Sejam a, b ∈ Z. Se ab é ímpar, então a é ímpar e b é ímpar.
Por demonstração por casos (técnica que formalizaremos na Seção 3.5), consideremos
separadamente as duas possibilidades da disjunção.
Caso 1: a é par. Então existe k ∈ Z tal que a = 2k. Logo, ab = (2k)b = 2(kb). Como
k, b ∈ Z, temos kb ∈ Z; denotando m = kb, obtemos ab = 2m, ou seja, ab é par.
Caso 2: b é par. De maneira inteiramente análoga (trocando os papéis de a e b), existe
k ∈ Z tal que b = 2k, e ab = a(2k) = 2(ak), com ak ∈ Z, logo ab é par.
Em ambos os casos, ab é par, o que estabelece a contrapositiva e, portanto, a proposição
original. ■
Q ¬Q ¬Q → F (¬Q → F ) → Q
V F V V
F V F V
Teorema 3.21
√
2 é irracional.
√
Proof. Suponhamos, por contradição, que 2 seja racional. Então existem inteiros a, b,
com b ̸= 0, tais que
√ a
2= ,
b
e podemos supor, sem perda de generalidade, que a fração ab está em sua forma irre-
dutível, isto é, que mdc(a, b) = 1 (caso contrário, simplificamos a fração até que isso
ocorra; tal simplificação é sempre possível pois o processo de divisão pelo máximo divisor
comum termina em um número finito de passos).
Elevando ambos os lados ao quadrado:
a2
2= =⇒ a2 = 2b2 .
b2
Isso mostra que a2 é par (pois é igual a 2b2 , que tem a forma 2 · (inteiro)). Pela Proposição
3.4 (demonstrada por contraposição na seção anterior), como a2 é par, segue que a é par.
Logo, existe k ∈ Z tal que a = 2k.
Substituindo na equação a2 = 2b2 :
Isso mostra que b2 também é par, e novamente pela Proposição 3.4, segue que b é par.
Concluímos que tanto a quanto b são pares. Mas isso contradiz o fato de que
mdc(a, b) = 1 (se ambos fossem pares, 2 seria um divisor comum de a e b, maior que
1, contradizendo a irredutibilidade da fração).
Chegamos a uma contradição (a√ saber: mdc(a, b) = 1 e 2 | mdc(a,
√ b), simultaneamente).
Logo, a suposição inicial de que 2 é racional é falsa. Portanto, 2 é irracional. ■
Observação 3.22
Esta demonstração, atribuída aos matemáticos gregos antigos (possivelmente à escola
pitagórica), é um dos exemplos mais célebres e mais antigos de demonstração por
contradição na história da matemática, e ilustra perfeitamente a estrutura: (1) negar
a tese; (2) manipular algebricamente até encontrar uma afirmação que contradiz uma
3.5. Demonstração por casos 39
Proof. Suponhamos, por contradição, que existam apenas finitos números primos. Então
podemos listá-los todos: p1 , p2 , . . . , pn (para algum n ∈ N).
Considere o número
N = p1 · p2 · · · pn + 1.
Como N > 1, pelo Teorema Fundamental da Aritmética (que assumimos aqui como
conhecido; será revisitado em cursos de Teoria dos Números), N possui pelo menos um
divisor primo, digamos q.
Afirmamos que q não pode ser nenhum dos primos p1 , . . . , pn da lista original. De fato,
suponha, por contradição adicional (uma segunda redução ao absurdo, aninhada dentro
da primeira), que q = pi para algum i ∈ {1, . . . , n}. Então q divide o produto p1 p2 · · · pn
(pois q = pi é um dos fatores) e, por hipótese, q divide N = p1 · · · pn + 1. Pela Proposição
de divisibilidade (se q divide dois números, divide sua diferença – fato que se demonstra
facilmente a partir da Definição 3.2, e que deixamos como exercício), q divide
N − p1 p2 · · · pn = 1.
Mas nenhum número primo divide 1 (pois todo primo é, por definição, maior que 1, e um
divisor de 1 deve ser, no máximo, igual a 1 em valor absoluto). Isso é uma contradição.
Logo, q é um primo que não pertence à lista p1 , . . . , pn , contradizendo a suposição de que
essa lista contém todos os números primos.
Concluímos que a suposição inicial (existem apenas finitos primos) é falsa. Portanto,
existem infinitos números primos. ■
Observação 3.24
Esta é outra demonstração clássica, também atribuída a Euclides. Note a estrutura
elegante: não construímos explicitamente um "próximo primo maior", mas mostramos
que, para qualquer lista finita e completa hipotética, é possível encontrar um primo
fora dela – uma contradição direta com a completude da lista.
Proof. Faremos a demonstração para k = 2; o caso geral segue por indução no número
de casos (técnica que formalizaremos no Capítulo 4), aplicando repetidamente o mesmo
argumento.
Suponha p1 ∨ p2 verdadeira, e suponha p1 → q e p2 → q ambas verdadeiras. Como p1 ∨ p2
é verdadeira, ao menos uma das proposições p1 , p2 é verdadeira.
Se p1 é verdadeira: como p1 → q é verdadeira, por Modus Ponens, q é verdadeira.
Se p2 é verdadeira: como p2 → q é verdadeira, por Modus Ponens, q é verdadeira.
Em ambas as situações possíveis (dado que p1 ∨ p2 é verdadeira), concluímos q. Logo, q
é verdadeira. ■
Proposição 3.27
Para todo n ∈ Z, o número n2 + n é par.
Proof. Como todo inteiro é par ou ímpar (fato que assumiremos aqui; formalmente
decorre da divisão euclidiana), consideramos dois casos.
Caso 1: n é par. Então n = 2k para algum k ∈ Z. Logo,
Proposição 3.28
Para todo x ∈ R, |x| ≥ x (onde |x| denota o valor absoluto de x).
Teorema 3.33
Existem números irracionais a, b tais que ab é racional.
√
√ 2
Proof. Consideremos o número 2 . Este número é ou racional ou irracional (pelo
√ √2
Princípio do Terceiro Excluído, Teorema 1.1, item (x), aplicado à proposição " 2 é
42 Chapter 3. Demonstrações Matemáticas
Observação 3.34
Esta é uma demonstração não construtiva, ainda que estruturada como uma demon-
stração por casos: não sabemos, ao final da prova, qual dos dois casos de fato
√ √2
ocorre (isto é, não sabemos, com os métodos elementares aqui apresentados, se 2
é racional ou irracional) – e, ainda assim, a demonstração é completamente rigorosa e
válida: em qualquer dos dois casos possíveis (e eles esgotam todas as possibilidades,
pelo terceiro excluído), a existência afirmada se verifica. Este é um exemplo célebre e
instrutivo de como a lógica clássica permite estabelecer existência sem necessariamente
revelar o objeto que a testemunha. (Observe que, de fato, sabe-se hoje, por resultados
√ √2
mais avançados de teoria dos números transcendentes, que 2 é irracional – e, de
fato, transcendente, pelo Teorema de Gelfond-Schneider – mas isso é irrelevante para
a validade da demonstração acima, que não depende de sabermos qual caso ocorre.)
garante que algum objeto de fato satisfaça P – poderia não haver nenhum.
Teorema 3.36
Para todo a, b ∈ R com a ̸= 0, existe um único x ∈ R tal que ax + b = 0.
b
Proof. Existência. Considere x = − (bem definido, pois a ̸= 0 por hipótese). Substi-
a
tuindo na equação:
b
ax + b = a − + b = −b + b = 0.
a
Logo, x = −b/a satisfaz a equação, o que estabelece a existência.
Unicidade. Suponhamos que x1 , x2 ∈ R satisfaçam ambos ax1 + b = 0 e ax2 + b = 0.
Subtraindo as duas equações:
Como a ̸= 0 (hipótese do teorema), e o produto de dois reais é zero apenas quando pelo
menos um dos fatores é zero (propriedade dos números reais, que assumimos conhecida),
concluímos que x1 − x2 = 0, isto é, x1 = x2 .
Como demonstramos existência e unicidade, concluímos que existe um único x ∈ R sat-
isfazendo ax + b = 0. ■
Proposição 3.41
Para quaisquer conjuntos A, B: (A ∩ B)c = Ac ∪ B c .
(i) (A ∩ B)c ⊆ Ac ∪ B c . Seja x ∈ (A ∩ B)c arbitrário. Pela Definição 3.5, isso significa
x∈/ A ∩ B, isto é, ¬(x ∈ A ∧ x ∈ B). Pelas Leis de De Morgan (Teorema 1.2):
¬(x ∈ A ∧ x ∈ B) ≡ (x ∈
/ A) ∨ (x ∈
/ B).
(x ∈
/ A) ∨ (x ∈
/ B) ≡ ¬(x ∈ A ∧ x ∈ B),
isto é, x ∈
/ A ∩ B, ou seja, x ∈ (A ∩ B)c . Como x era arbitrário, concluímos Ac ∪ B c ⊆
(A ∩ B)c .
Das duas inclusões (i) e (ii), pela Definição 3.4 de igualdade de conjuntos, concluímos
(A ∩ B)c = Ac ∪ B c . ■
Observação 3.42
Esta proposição – uma das Leis de De Morgan para conjuntos – ilustra de maneira
exemplar a tese central desta apostila: a demonstração é, em essência, uma tradução
direta, passo a passo, das Leis de De Morgan proposicionais (Teorema 1.2) para o
contexto de conjuntos, mediada apenas pelas definições de pertinência, união, inter-
seção e complemento. A lógica proposicional não é uma ferramenta auxiliar externa
à teoria dos conjuntos – ela é o mecanismo interno que faz a teoria dos conjuntos
funcionar.
∀y ∈ B, ∃x ∈ A, f (x) = y.
Observação 3.45
Note que a definição de injetividade é frequentemente demonstrada por contra-
posição: em vez de mostrar diretamente "f (x1 ) = f (x2 ) → x1 = x2 ", muitas vezes é
mais natural mostrar a contrapositiva "x1 ̸= x2 → f (x1 ) ̸= f (x2 )".
Proposição 3.46
A função f : R → R dada por f (x) = 3x − 5 é injetiva.
Proposição 3.47
A função g : R → R dada por g(x) = x2 não é injetiva.
Proof. Para refutar a afirmação universal "∀x1 , x2 ∈ R, g(x1 ) = g(x2 ) → x1 = x2 ", basta
um contraexemplo (Observação 2.1). Tome x1 = 1 e x2 = −1. Temos g(x1 ) = 12 = 1 e
g(x2 ) = (−1)2 = 1, logo g(x1 ) = g(x2 ); porém x1 = 1 ̸= −1 = x2 . Logo, a condição de
injetividade falha para este par, e g não é injetiva. ■
Proposição 3.48
A função f : R → R dada por f (x) = 3x − 5 é sobrejetiva.
n·n≥n·1 =⇒ n2 ≥ n.
Proposição 3.50
Sejam a, b, c ∈ Z. Se a | b e a | c, então a | (b + c).
a+b √
≥ ab.
2
■
3.11. Exercícios 47
Observação 3.52
Esta demonstração ilustra uma técnica algébrica recorrente: partir de um fato triv-
ialmente verdadeiro (aqui, "todo quadrado é não negativo") e manipulá-lo algebrica-
mente até obter a desigualdade desejada. Esse tipo de raciocínio "de trás para frente"
na fase de descoberta da demonstração (ainda que apresentado, na versão final, "para
frente") será discutido detalhadamente no Capítulo 4.
3.11 Exercícios
Exercício 3.53. Demonstre diretamente: se m e n são inteiros pares, então mn é
divisível por 4.
Exercício 3.55. Demonstre por contradição que não existem inteiros a, b tais que
6a + 9b = 1. (Sugestão: considere a divisibilidade por 3.)
Exercício 3.57. Demonstre que existe um número real irracional elevado a um expoente
irracional que resulta em um número irracional, sem usar demonstração por casos como no
Teorema 3.4 – ou seja, encontre um exemplo explícito e construtivo. (Sugestão: considere
√ √ √ 2√2 √ √2 2
a = 2 e b = 2 2, sabendo que 2 = ( 2 ) ; ou pesquise outra combinação.)
Exercício 3.58. Demonstre que existe um único número real x tal que x3 = 8, especifi-
cando cuidadosamente as etapas de existência e unicidade.
Exercício 3.62. avançado Utilizando a desigualdade das médias (Teorema 3.5), demon-
1
stre que, para todo x > 0, x + ≥ 2, com igualdade se, e somente se, x = 1.
x
48 Chapter 3. Demonstrações Matemáticas
Capítulo 4
n(n + 1)
1 + 2 + 3 + ··· + n = .
2
" Trata-se de uma afirmação universal sobre um universo infinito (N). Nenhuma das
técnicas do Capítulo 3 – demonstração direta, contraposição, contradição, ou casos –
parece, à primeira vista, aplicável de maneira direta: não há uma manipulação algébrica
óbvia que produza a fórmula fechada n(n+1)
2
a partir apenas da definição da soma, e uma
demonstração "caso a caso" exigiria verificar infinitos casos, um para cada n, o que é
impossível em tempo finito.
49
50 Chapter 4. Indução Matemática e Estratégias de Resolução
Teorema 4.4
Para todo n ∈ N com n ≥ 1,
n(n + 1)
1 + 2 + ··· + n = .
2
n(n + 1)
Proof. Seja P (n) o predicado "1+2+· · ·+n = ". Demonstraremos ∀n ≥ 1, P (n)
2
por indução.
k(k + 1)
1 + 2 + ··· + k =
2
seja verdadeira.
(k + 1)(k + 2)
1 + 2 + · · · + k + (k + 1) = .
2
4.2. O princípio da indução 51
Partindo do lado esquerdo e usando a hipótese de indução para substituir a soma parcial
1 + 2 + · · · + k:
k(k + 1)
1 + 2 + · · · + k + (k + 1) = +(k + 1).
2 }
| {z
hipótese de indução
Observação 4.5
Note, mais uma vez, como cada passagem algébrica foi justificada explicitamente
(colocação em evidência, soma de frações), sem apelar a "é fácil ver que". Essa é a
marca de uma demonstração por indução bem escrita: a base é verificada com todo
cuidado, a hipótese de indução é enunciada com precisão, e o passo indutivo deixa
claro exatamente onde e como a hipótese de indução é utilizada – no exemplo
acima, destacamos explicitamente esse ponto com um sublinhado (underbrace).
Teorema 4.6
Para todo n ∈ N, n ≥ 0: 2n > n.
Proof. Seja P (n): "2n > n". Demonstramos por indução, com base em n0 = 0.
Base (n = 0): 20 = 1 > 0. Logo, P (0) é verdadeira.
Hipótese de indução: suponha 2k > k para um certo k ≥ 0 fixo.
Passo indutivo: devemos mostrar 2k+1 > k + 1. Partindo de 2k+1 :
2k+1 = 2 · 2k .
Pela hipótese de indução, 2k > k, logo (multiplicando ambos os lados por 2 > 0, o que
preserva a desigualdade):
2 · 2k > 2k.
Assim, 2k+1 > 2k. Resta mostrar que 2k ≥ k + 1, o que, somado à desigualdade anterior,
daria 2k+1 > k + 1 (por transitividade da relação >, aplicada a 2k+1 > 2k e 2k ≥ k + 1).
De fato, 2k ≥ k + 1 ⇐⇒ k ≥ 1.
Aqui é necessário um cuidado: a desigualdade k ≥ 1 não decorre da hipótese de indução
k ≥ 0 diretamente para k = 0. Tratamos esse caso à parte: se k = 0, então k + 1 = 1, e
queremos 2k+1 = 21 = 2 > 1 = k + 1, o que é verdade diretamente (verificação direta, sem
uso da hipótese de indução). Se k ≥ 1, a cadeia de desigualdades acima (2k+1 > 2k ≥ k+1)
se aplica integralmente, dando 2k+1 > k + 1.
Em ambos os subcasos (k = 0 e k ≥ 1), concluímos 2k+1 > k + 1, isto é, P (k + 1).
Pelo Princípio da Indução Matemática, 2n > n para todo n ≥ 0. ■
52 Chapter 4. Indução Matemática e Estratégias de Resolução
Observação 4.7
Este exemplo ilustra uma sutileza comum em demonstrações por indução: por vezes, o
passo indutivo requer, ele próprio, uma pequena demonstração por casos, como fizemos
acima. Isso não compromete o rigor da indução; apenas mostra que as técnicas do
Capítulo 3 e a indução matemática combinam-se livremente dentro de uma mesma
demonstração – reforçando, mais uma vez, que as técnicas de demonstração não são
compartimentos estanques, mas ferramentas que se articulam conforme a necessidade.
Proposição 4.8
Para todo n ∈ N com n ≥ 1, o número 7n − 1 é divisível por 6.
7k+1 − 1 = 7 · 7k − 1 = 7 · 7k − 7 + 6 = 7(7k − 1) + 6.
Matemática (simples) apresentado na Seção 4.2 – cada um pode ser deduzido do outro.
A escolha entre um e outro é, portanto, puramente uma questão de conveniência
na exposição da demonstração: usa-se indução forte quando o passo indutivo
naturalmente requer acesso a mais de um caso anterior.
Proof. Seja P (n): "n pode ser escrito como produto de um ou mais primos". Demon-
stramos ∀n ≥ 2, P (n) por indução forte.
Hipótese de indução forte: suponha que, para um certo k > 2, P (j) seja verdadeira
para todo j com 2 ≤ j < k, isto é, todo natural entre 2 e k − 1 (inclusive) pode ser escrito
como produto de primos.
Passo indutivo: devemos mostrar P (k). Há dois casos (demonstração por casos dentro
do passo indutivo, novamente ilustrando a combinação de técnicas):
a = p1 p2 · · · pr , b = q1 q2 · · · qs ,
que é um produto de primos (a concatenação das duas listas). Logo, P (k) vale.
Em ambos os casos, P (k) é verdadeira. Pelo Princípio da Indução Forte, P (n) vale para
todo n ≥ 2. ■
Observação 4.12
Note por que a indução simples seria inadequada aqui: no Caso 2, precisamos da
hipótese de indução aplicada tanto a a quanto a b, dois números que, em geral, não
são iguais a k − 1 (o único caso coberto pela hipótese de indução simples) – podem
ser quaisquer valores entre 2 e k − 1. É exatamente esse tipo de situação – em que
o passo indutivo depende de múltiplos casos anteriores, não necessariamente do caso
imediatamente anterior – que torna a indução forte a ferramenta correta.
54 Chapter 4. Indução Matemática e Estratégias de Resolução
Exemplo 4.14
Considere o conjunto F das fórmulas proposicionais (Capítulo 1), definido recursiva-
mente por:
• Caso base: toda variável proposicional p, q, r, . . . é uma fórmula em F ;
• Regras de construção: se φ, ψ ∈ F , então ¬φ, (φ ∧ ψ), (φ ∨ ψ), (φ → ψ) e
(φ ↔ ψ) também pertencem a F .
Vamos demonstrar, por indução estrutural, que toda fórmula em F possui um número
igual de parênteses de abertura e de fechamento.
Casos base: uma variável proposicional isolada não contém nenhum parêntese; logo,
o número de parênteses de abertura (0) é igual ao de fechamento (0).
Passo indutivo (regra ¬): suponha que φ tenha a parênteses de abertura e a
de fechamento (hipótese de indução estrutural: mesmo número). Então ¬φ tem ex-
atamente os mesmos parênteses de φ (a negação não introduz novos parênteses, por
convenção de notação), logo continua com a de cada tipo – números iguais.
Passo indutivo (regra ∧, e analogamente ∨, →, ↔): suponha que φ tenha
a parênteses de abertura e a de fechamento, e que ψ tenha b de abertura e b de
fechamento (hipótese de indução estrutural, aplicada a ambas as subfórmulas). Então
(φ ∧ ψ) tem a + b + 1 parênteses de abertura (os de φ, os de ψ, mais o parêntese
externo de abertura) e a + b + 1 de fechamento (analogamente) – novamente números
iguais.
Por indução estrutural, toda fórmula em F possui número igual de parênteses de
abertura e de fechamento.
Observação 4.15
Um erro extremamente comum entre estudantes iniciantes é começar a escrever ma-
nipulações algébricas antes de ter escrito claramente hipótese e tese em sua forma
matemática precisa. Isso frequentemente leva a demonstrações confusas, circulares,
ou que silenciosamente assumem aquilo que deveriam provar (um erro lógico que dis-
cutiremos na Seção 4.6).
Exemplo 4.16
Diante da hipótese "f : R → R é uma função crescente", o estudante deve lembrar
(ou consultar) a definição formal:
e reconhecer que essa hipótese, em uma demonstração, tipicamente será usada instan-
ciando x1 , x2 por valores específicos relevantes ao problema em questão (uma aplicação
do quantificador universal a casos particulares, procedimento inverso à generalização
universal mencionada na Observação 3.1).
Exemplo 4.17
a2 + b 2
Deseja-se mostrar que, para a, b > 0 com a ̸= b, vale > ab.
2
a2 + b 2
Trabalhando de trás para frente: a tese é > ab, equivalente (multipli-
2
cando por 2) a a + b > 2ab, equivalente (subtraindo 2ab) a a2 − 2ab + b2 > 0, que
2 2
Proposição 4.18
a2 + b 2
Para todos a, b ∈ R com a, b > 0 e a ̸= b: > ab.
2
a2 + b 2
> ab.
2
4.5. Como matemáticos constroem demonstrações 57
Observação 4.19
Note que a demonstração final, escrita "para frente", não menciona em nenhum mo-
mento o processo de descoberta "de trás para frente" que a originou – ela simplesmente
parte de um fato verdadeiro (o quadrado de um número não nulo é positivo) e cam-
inha diretamente até a tese. Essa é uma característica típica da matemática escrita: o
processo de descoberta (muitas vezes tortuoso, cheio de tentativas e erros) é geral-
mente distinto da apresentação final (linear, organizada, elegante). Reconhecer
essa distinção é essencial para não se frustrar diante da aparente "genialidade instan-
tânea" das demonstrações em livros-texto: por trás de cada demonstração elegante,
geralmente houve um processo de exploração menos elegante.
chamado negação do antecedente: saber que "se chove, a rua molha" e que "não
está chovendo" não permite concluir que "a rua não está molhada" (poderia estar
molhada por outro motivo).
Todos esses valores são primos, e de fato p(n) é primo para todo n de 1 a 40. Seria
tentador concluir, precipitadamente, que "p(n) é primo para todo n ∈ N". Porém,
isso é falso: para n = 41,
que não é primo (é o quadrado de 41). Este exemplo (atribuído a Euler) é um alerta
célebre contra a generalização precipitada: a verificação de um grande número de casos
particulares, por mais impressionante que seja, não constitui uma demonstração
da afirmação universal correspondente.
4.7 Exercícios
Exercício 4.30. Demonstre, por indução matemática, que para todo n ≥ 1:
n(n + 1)(2n + 1)
12 + 22 + · · · + n2 = .
6
Exercício 4.31. Demonstre, por indução, que para todo n ≥ 1, a soma dos n primeiros
números ímpares positivos é n2 , isto é: 1 + 3 + 5 + · · · + (2n − 1) = n2 .
Exercício 4.32. Demonstre, por indução, que para todo n ≥ 0, 3 | (4n − 1).
Exercício 4.35. avançado Utilizando indução forte, demonstre que todo número natural
n ≥ 1 pode ser escrito de maneira única como soma de potências distintas de 2 (isto é,
a existência e unicidade da representação binária). Divida sua demonstração claramente
em uma parte de existência e uma parte de unicidade.
Exercício 4.36. Identifique o erro lógico em cada um dos seguintes argumentos, nome-
ando a falácia correspondente:
(a) "Se um quadrilátero é um quadrado, então tem quatro lados iguais. Este quadrilátero
tem quatro lados iguais. Logo, é um quadrado."
(b) "Se n é múltiplo de 6, então n é múltiplo de 2. 15 não é múltiplo de 6. Logo, 15
não é múltiplo de 2."
√
Exercício 4.37. Um estudante afirma ter demonstrado que " n2 + n nunca é um
número inteiro para n ≥ 1" verificando os casos n = 1, 2, 3, 4, 5. Explique, usando os
conceitos desta seção, por que essa não é uma demonstração válida, e (caso consiga)
forneça uma demonstração correta ou um contraexemplo.
Exercício 4.38. avançado Reflita e escreva, em suas próprias palavras (não mais que
um parágrafo), sobre a diferença entre o processo de descoberta de uma demonstração e
sua apresentação final, ilustrando com um exemplo de sua escolha (pode reutilizar um
exemplo já visto em outro capítulo, desde que explique com suas próprias palavras o
processo heurístico de "trabalhar de trás para frente" ou outra estratégia discutida nesta
seção).
Capítulo 5
Este capítulo tem um objetivo específico: mostrar que a lógica e as técnicas de demon-
stração estudadas nos Capítulos 1 a 4 não são um exercício isolado e abstrato, mas a
ferramenta viva por trás de resultados centrais em diversas áreas da matemática. Em
cada seção, apresentaremos um resultado genuíno de uma área específica, junto com sua
demonstração completa e um comentário explícito sobre qual técnica lógica foi empregada
e por quê.
5.1 Álgebra
Proposição 5.1
Sejam a, b elementos de um corpo (por exemplo, R ou Q). Se ab = 0, então a = 0 ou
b = 0.
Observação 5.2
Esta propriedade – conhecida como "ausência de divisores de zero" em um corpo – é
utilizada constantemente ao "cancelar fatores" em equações algébricas (por exemplo,
ao resolver (x − 1)(x − 3) = 0 concluindo x = 1 ou x = 3). Observe a estrutura lógica:
a demonstração por casos aqui reflete exatamente a estrutura da disjunção presente
61
62 Chapter 5. Aplicações da Lógica nas Demonstrações Matemáticas
na tese.
Proposição 5.3
O elemento neutro da adição em um grupo é único.
e1 + e2 = e2 .
Das duas igualdades (ambas para a mesma expressão e1 + e2 ), concluímos, por transitivi-
dade da igualdade:
e1 = e1 + e2 = e2 =⇒ e1 = e2 .
■
Observação 5.4
Note a estrutura típica de demonstrações de unicidade em Álgebra: supõe-se a ex-
istência de dois objetos com a propriedade desejada e demonstra-se, por manipulação
direta usando as próprias definições (aqui, a definição de elemento neutro), que eles
devem coincidir.
5.2 Análise
Definição 5.5 Limite de sequência
Uma sequência (an )n∈N de números reais converge para L ∈ R, denotado
limn→∞ an = L, quando
Obtivemos |L1 − L2 | < |L1 − L2 |, isto é, a proposição |L1 − L2 | < |L1 − L2 |, que é uma
contradição (nenhum número real é estritamente menor que si mesmo).
Logo, a suposição L1 ̸= L2 é falsa. Portanto, L1 = L2 . ■
Observação 5.7
Esta demonstração ilustra perfeitamente o estilo característico das demonstrações em
Análise: manipulação cuidadosa de quantificadores (∀ε ∃N ∀n), escolha estratégica de
um valor específico de ε (aqui, ε = |L1 − L2 |/2, escolhido exatamente para que a
contradição final apareça de forma limpa), e o uso da desigualdade triangular como
ferramenta algébrica central. A técnica de demonstração empregada – contradição – foi
escolhida porque a hipótese "L1 ̸= L2 " fornece uma quantidade concreta (|L1 − L2 | >
0) que pode ser explorada para construir o ε apropriado, algo que não seria tão natural
em uma tentativa de demonstração direta.
Proposição 5.8
Toda sequência convergente é limitada.
Assim, todos os termos a partir de aN estão limitados por 1 + |L|. Os termos restantes,
a1 , . . . , aN −1 (uma quantidade finita), possuem, cada um, seu próprio valor absoluto, e o
conjunto finito {|a1 |, . . . , |aN −1 |} possui um máximo, digamos M0 (todo conjunto finito
não vazio de reais possui máximo). Tomando
M = max{M0 , 1 + |L|},
Observação 5.10
Compare esta demonstração com a do Silogismo Hipotético (Teorema 2.3): a estrutura
lógica é idêntica – de x ∈ A → x ∈ B e x ∈ B → x ∈ C, concluímos x ∈
A → x ∈ C, exatamente como de p → q e q → r concluímos p → r. Isso não
é coincidência: a inclusão de conjuntos é definida, precisamente, em termos de um
condicional universalmente quantificado, e portanto herda diretamente as propriedades
lógicas dos condicionais estudadas no Capítulo 2.
Proof. Demonstraremos por contradição. Suponha, por absurdo, que exista uma função
sobrejetiva f : A → P(A).
Considere o conjunto
D = {x ∈ A : x ∈
/ f (x)}.
Note que D é, por construção, um subconjunto de A, isto é, D ∈ P(A).
Como f é sobrejetiva (hipótese de contradição) e D ∈ P(A), pela Definição 3.7 de sobre-
jetividade, existe a ∈ A tal que f (a) = D.
Agora, perguntamos: a ∈ D ou a ∈/ D? Pelo Princípio do Terceiro Excluído (Teorema 1.1,
item x), uma das duas alternativas ocorre; analisamos ambas (demonstração por casos,
aninhada dentro da demonstração por contradição).
Caso 1: a ∈ D. Pela definição de D (D = {x ∈ A : x ∈ / f (x)}), a ∈ D significa
precisamente a ∈ / f (a). Mas f (a) = D, logo a ∈
/ D. Isso contradiz diretamente a
suposição deste caso (a ∈ D).
Caso 2: a ∈ / D. Como D = {x ∈ A : x ∈ / f (x)}, dizer que a ∈ / D significa que a não
satisfaz a condição definidora de D, isto é, ¬(a ∈/ f (a)), ou seja, a ∈ f (a). Mas f (a) = D,
logo a ∈ D. Isso contradiz diretamente a suposição deste caso (a ∈ / D).
Em ambos os casos (que são exaustivos, pelo terceiro excluído), chegamos a uma con-
tradição. Logo, a suposição de que existe tal função sobrejetiva f é falsa.
Portanto, não existe função sobrejetiva f : A → P(A). ■
Observação 5.12
Este é o célebre Teorema de Cantor, um dos resultados mais profundos e influentes
da teoria dos conjuntos, com consequências centrais para a compreensão de diferentes
"tamanhos" de infinito (cardinalidades). Note a estrutura lógica extremamente cuida-
dosa: a construção do conjunto D (uma espécie de "conjunto diagonal", análogo, em
5.4. Geometria 65
5.4 Geometria
Teorema 5.13 Pitágoras
Em um triângulo retângulo com catetos a, b e hipotenusa c, vale a2 + b2 = c2 .
a2 + 2ab + b2 = 2ab + c2 .
a2 + b 2 = c 2 .
Observação 5.14
Esta demonstração é um exemplo de demonstração direta apoiada em um ar-
gumento geométrico-visual, combinado com manipulação algébrica (expansão do
quadrado do binômio e cancelamento de termos). Ilustra como, em Geometria, ar-
gumentos visuais rigorosos (quando devidamente formalizados, como a decomposição
de áreas aqui utilizada) constituem demonstrações legítimas, desde que cada etapa –
inclusive a afirmação sobre como as áreas se relacionam – seja justificada.
Proposição 5.15
A soma dos ângulos internos de um triângulo é 180◦ .
Proof. Considere um triângulo ABC, com ângulos internos α (em A), β (em B) e γ (em
C). Trace, pelo vértice C, uma reta r paralela ao lado AB (tal reta existe e é única, pelo
Postulado das Paralelas de Euclides).
66 Chapter 5. Aplicações da Lógica nas Demonstrações Matemáticas
Como r é paralela a AB, e o segmento AC é uma transversal a essas duas retas paralelas,
os ângulos alternos internos são congruentes (propriedade de retas paralelas cortadas por
uma transversal): o ângulo entre r e AC (do lado de A) é congruente a α.
Analogamente, como BC é transversal às paralelas r e AB, o ângulo entre r e BC (do
lado de B) é congruente a β.
Os três ângulos ao longo da reta r, no ponto C – o ângulo congruente a α, o ângulo γ
(interno ao triângulo, entre AC e BC), e o ângulo congruente a β – formam, juntos, um
ângulo raso (isto é, somam 180◦ ), pois estão dispostos ao longo de uma reta.
Logo, α + γ + β = 180◦ , isto é, a soma dos ângulos internos do triângulo é 180◦ . ■
Observação 5.16
Esta é uma demonstração direta clássica, apoiada crucialmente no Postulado das
Paralelas (um axioma da geometria euclidiana) e na propriedade dos ângulos alternos
internos. Observe como a demonstração constrói um objeto auxiliar (a reta r) – uma
técnica comum em Geometria, análoga, em espírito, à criação de lemas discutida na
Seção 4.5: introduzir um elemento auxiliar que não está no enunciado original, mas
que torna o argumento tratável.
Observação 5.19
A demonstração combinatória (por dupla contagem) é uma técnica de demonstração
distinta das apresentadas no Capítulo 3, embora se apoie fundamentalmente na
demonstração por casos: em vez de manipular diretamente a fórmula algébrica de
n
(o que também seria possível, por manipulação direta de fatoriais), interpretamos
k
ambos os lados da igualdade como respostas a uma mesma pergunta combinatória,
contada de duas formas. Esse estilo de argumento é extremamente comum e poderoso
em Matemática Discreta e Combinatória.
dv dU
Proof. Pela Segunda Lei de Newton, F = ma, isto é, m =− (usando a hipótese
dt dx
de que a força é conservativa, isto é, derivada de um potencial U ).
1
Calculamos a derivada temporal da energia mecânica E(t) = mv(t)2 + U (x(t)), usando
2
a regra da cadeia:
dE dv dU dx
= mv + · .
dt dt dx dt
dx dU
Como = v (definição de velocidade), o segundo termo é · v. Substituindo, no
dt dx
dv dU
primeiro termo, m = − (pela Segunda Lei de Newton, acima):
dt dx
dE dU dU dU dU
=v − + · v = −v +v = 0.
dt dx dx dx dx
68 Chapter 5. Aplicações da Lógica nas Demonstrações Matemáticas
dE
Logo, = 0, isto é, a energia mecânica E é constante ao longo do tempo. ■
dt
Observação 5.21
Esta demonstração é um exemplo de demonstração direta em Física Matemática:
partimos de uma lei física fundamental (a Segunda Lei de Newton, aqui tomada como
axioma físico) e, por meio de manipulação algébrica e de cálculo diferencial (regra da
cadeia), chegamos à conclusão de que uma quantidade específica (a energia mecânica)
permanece constante. A estrutura lógica – hipóteses (lei de Newton, força conserva-
tiva) implicando uma tese (conservação de E) – é rigorosamente idêntica à estrutura
de qualquer teorema matemático estudado neste texto; o que distingue esta demon-
stração de uma demonstração "puramente matemática" é apenas a natureza física das
hipóteses envolvidas (leis empíricas, e não axiomas puramente lógicos ou conjuntistas),
não a forma lógica do argumento.
Exercícios Gerais
Este capítulo final reúne uma coleção ampla de exercícios que integram todos os temas
estudados nesta apostila: lógica proposicional, lógica de predicados, regras de inferên-
cia, técnicas de demonstração (direta, contraposição, contradição, casos, indução) e a
construção autônoma de provas. Os problemas estão organizados em três níveis de difi-
culdade crescente. Nenhuma solução é apresentada: o objetivo é que o leitor exercite, de
forma autônoma, as habilidades desenvolvidas ao longo dos capítulos anteriores.
Exercício 6.3. Traduza para linguagem simbólica: "n é par se, e somente se, n + 1 é
ímpar".
Exercício 6.6. Aplique Modus Ponens às premissas: "Se x é solução da equação, então
x2 − 4 = 0" e "x = 2 é solução da equação".
Exercício 6.7. Demonstre diretamente que a soma de dois números pares é par.
69
70 Chapter 6. Exercícios Gerais
Exercício 6.11. Verifique se o seguinte argumento é válido: "Todo número primo maior
que 2 é ímpar. 9 é ímpar. Logo, 9 é primo." Justifique sua resposta.
Exercício 6.12. Dê um exemplo de proposição que seja verdadeira, mas cuja recíproca
seja falsa.
Exercício 6.14. Sejam as premissas: p → (q ∨ r), ¬q, ¬r. Deduza ¬p, indicando
claramente as regras de inferência utilizadas em cada passo.
Exercício 6.15. Traduza para linguagem simbólica e depois negue: "Para todo número
real x, existe um número real y tal que x + y = 0, mas não existe x tal que, para todo y,
xy = 1".
Exercício 6.17. Demonstre por contradição que não existe o menor número real positivo
(isto é, para todo real x > 0, existe um real y com 0 < y < x).
Exercício 6.20. Demonstre que a função h : R \ {0} → R \ {0} dada por h(x) = 1/x é
injetiva e sobrejetiva.
1 1 1
Exercício 6.21. Demonstre por indução que, para todo n ≥ 1: 1 + + + · · · + n−1 =
2 4 2
1
2 − n−1 .
2
Exercício 6.22. Demonstre, usando a Desigualdade das Médias (Teorema 3.5) ou outro
1 1 1
método de sua escolha, que, para a, b, c > 0 com a + b + c = 1: + + ≥ 9.
a b c
Exercício 6.23. Um estudante escreveu a seguinte "demonstração" de que todo número
natural é igual ao seu sucessor menos 1: "Seja n um natural qualquer. Sabemos que n + 1
é o sucessor de n. Logo, n = (n + 1) − 1, que é o que queríamos demonstrar." Critique
esta demonstração: ela é logicamente válida? Ela é informativa? Compare com o conceito
de petição de princípio discutido no Capítulo 4.
Exercício 6.24. Demonstre, por indução forte, que todo número natural n ≥ 2 é primo
ou pode ser escrito como produto de dois naturais menores, cada um maior ou igual a 2
(não é necessário demonstrar a fatoração completa em primos, apenas este passo).
6.3. Nível avançado 71
Exercício 6.27. Demonstre que não existem inteiros positivos a, b, c tais que a2 +
b2 = 3c2 , exceto a = b = c = 0. (Sugestão: utilize descida infinita, uma variante da
demonstração por contradição combinada com indução forte, analisando a paridade ou
divisibilidade por 3 de a, b, c.)
Exercício 6.29. Demonstre, por indução estrutural (Seção 4.4), que toda árvore binária
com n nós internos possui exatamente n + 1 folhas, onde uma árvore binária é definida
recursivamente como: (caso base) uma única folha; ou (regra de construção) um nó interno
com duas subárvores binárias como filhas.
Exercício 6.30. Considere a afirmação: "para todo conjunto finito não vazio S de
números reais, S possui um elemento máximo". Demonstre esta afirmação por indução
forte no número de elementos de S, tomando cuidado especial com a base da indução (con-
juntos unitários) e com o passo indutivo (comparação entre o máximo de um subconjunto
e um novo elemento adicionado).
Exercício 6.31. Demonstre que, para todo conjunto finito S com |S| = n, o conjunto
das partes P(S) possui exatamente 2n elementos. (Sugestão: por indução em n; no passo
indutivo, relacione P(S ∪ {x}), para um novo elemento x ∈/ S, com P(S), dividindo os
subconjuntos de S ∪ {x} conforme contenham ou não x – uma estratégia semelhante à
demonstração da Relação de Pascal, Proposição 5.5.)
Exercício 6.34. síntese final Escolha um teorema de qualquer disciplina que você esteja
cursando atualmente (Física, Cálculo, Álgebra Linear, ou outra), enuncie-o com precisão
(identificando claramente hipótese e tese, e traduzindo-o, na medida do possível, para a
notação lógica e de quantificadores estudada nesta apostila), e escreva uma demonstração
completa e rigorosa, identificando explicitamente qual(is) técnica(s) de demonstração den-
tre as estudadas no Capítulo 3 (direta, contraposição, contradição, casos, existência e
unicidade) e no Capítulo 4 (indução) você utilizou, e por que essa escolha foi apropriada.
Fim da apostila. Esperamos que este material tenha fornecido não apenas um conjunto
de técnicas formais, mas uma nova maneira de enxergar a matemática: como um edifício
de raciocínios rigorosos, construído tijolo a tijolo, sobre os alicerces sólidos da lógica.