APOSTILA DE HISTÓRIA DE
PERNAMBUCO
Concurso da Polícia Militar de Pernambuco — PMPE
Elaborada para o Concurso da Polícia Militar de Pernambuco
Esta apostila foi desenvolvida com base no edital do concurso da PMPE e cobre todos
os tópicos de História de Pernambuco exigidos no programa de estudos. O conteúdo
está organizado de forma didática e progressiva, partindo da colonização até as
manifestações culturais contemporâneas, com ênfase nos aspectos mais cobrados em
provas de concursos públicos.
SUMÁRIO
1. Ocupação e colonização — Contatos iniciais, Capitanias Hereditárias, Duarte
Coelho
2. A importância do açúcar para a economia local
3. Formação de Olinda e Recife
4. A presença holandesa e o governo de Maurício de Nassau
5. Movimentos de resistência e emancipacionistas
6. Pernambuco e a República
7. Manifestações da cultura popular pernambucana
8. Herança Afrodescendente em Pernambuco
1. OCUPAÇÃO E COLONIZAÇÃO
1.1 O Território e os Povos Originários
Antes da chegada dos europeus, o vasto território que hoje corresponde ao estado de
Pernambuco era habitado por uma grande diversidade de povos indígenas. Esses
grupos humanos, que viviam nessas terras há milênios, possuíam culturas ricas e
complexas, com línguas, crenças, organizações sociais e modos de vida próprios.
Os principais grupos indígenas que habitavam a região litorânea e a zona da mata
eram os Caetés e os Tabajaras, pertencentes ao tronco linguístico Tupi. Os Caetés,
que habitavam o litoral norte de Pernambuco, eram conhecidos por sua ferocidade em
combate e por práticas de antropofagia ritual. Os Tabajaras, por sua vez, habitavam a
zona da mata e o litoral sul, e foram os principais aliados dos portugueses durante o
processo de colonização. No sertão, viviam os Cariris, os Xucurus e outras etnias do
tronco Jê, que eram seminômades e viviam da caça, da pesca e da coleta de frutos.
A relação entre os diferentes grupos indígenas era marcada por alianças e conflitos.
Essa rivalidade entre as tribos foi habilmente explorada pelos colonizadores
portugueses, que se aliaram a uns para combater outros, acelerando o processo de
conquista e dominação do território.
Grupo Tronco
Localização Relação com os Portugueses
Indígena Linguístico
Caetés Litoral norte Tupi Conflituosa
Zona da mata e
Tabajaras Tupi Aliada
litoral sul
Litoral norte e Inicialmente aliada, depois
Potiguaras Tupi
Paraíba conflituosa
Conflituosa (Guerra dos
Cariris Sertão Jê
Bárbaros)
Xucurus Sertão (Pesqueira) Jê Conflituosa
1.2 O Primeiro Contato: As Feitorias e o Pau-Brasil
Os primeiros contatos entre portugueses e indígenas em Pernambuco foram
estabelecidos no início do século XVI, logo após a chegada de Pedro Álvares Cabral ao
Brasil em 1500. Nessa fase inicial, o principal interesse dos portugueses era a
exploração do pau-brasil (Caesalpinia echinata), uma madeira de grande valor
comercial na Europa, utilizada para a produção de um corante vermelho muito
apreciado na indústria têxtil.
A extração do pau-brasil era realizada através do sistema de escambo: os indígenas
derrubavam e carregavam as pesadas toras de madeira até os navios portugueses em
troca de produtos manufaturados europeus, como facas, machados, espelhos e
tecidos. Esse sistema de troca foi possível porque os indígenas não tinham noção do
valor comercial da madeira para os europeus e porque os objetos de metal
representavam uma grande vantagem tecnológica em relação às suas ferramentas de
pedra e osso.
Para organizar a extração e o comércio do pau-brasil, os portugueses estabeleceram
feitorias ao longo do litoral, pequenos postos comerciais e militares que serviam de
base para as operações. A feitoria de Igarassu, fundada por Cristóvão Jacques por
volta de 1516, foi uma das primeiras instalações portuguesas permanentes em
Pernambuco.
1.3 O Sistema de Capitanias Hereditárias
Com a crescente ameaça de invasões estrangeiras, especialmente de franceses que
também se interessavam pelo pau-brasil, e diante da necessidade de efetivar a
colonização do vasto território brasileiro, o rei Dom João III decidiu, em 1534,
implementar o sistema de Capitanias Hereditárias.
O Brasil foi dividido em quinze faixas de terra paralelas, que se estendiam do litoral até
o meridiano de Tordesilhas. Cada faixa foi doada a um nobre ou comerciante
português, chamado de donatário, por meio de dois documentos: a Carta de Doação,
que concedia ao donatário a posse das terras, e o Foral, que estabelecia os direitos e
deveres do donatário e os impostos a serem pagos à Coroa.
O donatário tinha poderes quase absolutos sobre sua capitania: podia fundar vilas,
nomear autoridades, conceder sesmarias (lotes de terra) e administrar a justiça. Em
contrapartida, era responsável por colonizar, defender e desenvolver
economicamente a capitania com seus próprios recursos, sem receber qualquer ajuda
financeira da Coroa.
O sistema de Capitanias Hereditárias foi, em grande parte, um fracasso. A maioria das
capitanias não conseguiu se desenvolver, seja pela falta de recursos dos donatários,
seja pela resistência indígena, seja pelas dificuldades do terreno. Das quinze
capitanias originais, apenas duas prosperaram de forma significativa: a Capitania de
São Vicente, no sul, e a Capitania de Pernambuco, no nordeste.
1.4 Duarte Coelho e a Capitania de Nova Lusitânia
A Capitania de Pernambuco, inicialmente chamada de Nova Lusitânia, foi doada a
Duarte Coelho Pereira em 10 de março de 1534. Duarte Coelho era um fidalgo
português de origem humilde que se destacou nas campanhas militares portuguesas
na Índia, na Malásia e na China, acumulando fortuna e prestígio. Sua experiência
militar e administrativa o tornaram um candidato ideal para o desafio de colonizar
uma das mais promissoras capitanias do Brasil.
Duarte Coelho chegou a Pernambuco em 1535, acompanhado de sua esposa, Brites de
Albuquerque, de seus filhos e de um grupo de colonos e soldados. Ele desembarcou às
margens do Canal de Santa Cruz, na região de Igarassu, onde já existia uma pequena
feitoria portuguesa.
A colonização de Pernambuco não foi um processo pacífico. Duarte Coelho enfrentou
a resistência feroz dos Caetés, que atacavam constantemente os colonos portugueses.
Para combatê-los, ele estabeleceu alianças com os Tabajaras, inimigos históricos dos
Caetés, e organizou expedições militares para pacificar o território. A guerra contra os
Caetés foi longa e sangrenta, mas os portugueses, com sua superioridade tecnológica
e com o apoio dos Tabajaras, conseguiram gradualmente dominar o litoral e a zona da
mata.
Paralelamente às campanhas militares, Duarte Coelho iniciou o cultivo da cana-de-
açúcar, que se revelou perfeitamente adaptada ao clima e ao solo da capitania. O
sucesso da produção açucareira atraiu novos colonos e investimentos, transformando
Pernambuco na capitania mais próspera do Brasil.
Duarte Coelho governou a capitania por quase duas décadas, até sua morte em 1554.
Seu legado foi imenso: ele fundou as cidades de Olinda e Recife, estabeleceu as bases
da economia açucareira, pacificou grande parte do território e deixou uma capitania
próspera e em pleno desenvolvimento para seus sucessores.
2. A IMPORTÂNCIA DO AÇÚCAR PARA A ECONOMIA
LOCAL
2.1 A Cana-de-Açúcar e o Solo Pernambucano
A cana-de-açúcar (Saccharum officinarum) é uma planta originária da Ásia que foi
introduzida no Brasil pelos portugueses. A capitania de Pernambuco reunia as
condições ideais para o cultivo da cana: um clima quente e úmido, com chuvas
regulares, e um solo argiloso e fértil, conhecido como massapê ou terra roxa, que se
estendia pela zona da mata litorânea. Essas condições naturais, aliadas à proximidade
com a Europa, que facilitava o escoamento da produção, fizeram de Pernambuco o
maior produtor de açúcar do mundo durante os séculos XVI e XVII.
2.2 O Engenho: Coração da Economia Colonial
O engenho de açúcar era a unidade produtiva central da economia colonial
pernambucana. Mais do que uma simples fábrica, o engenho era um complexo
agroindustrial e social que concentrava todas as etapas da produção, desde o plantio
da cana até a fabricação do açúcar refinado.
A estrutura física de um engenho era composta por:
Casa-grande: A residência do senhor de engenho e sua família. Geralmente uma
construção sólida e imponente, que simbolizava o poder e o status social do
proprietário.
Senzala: O alojamento dos escravos, geralmente uma construção simples e
precária, que contrastava com a opulência da casa-grande.
Casa do engenho: O local onde a cana era moída e o caldo era processado para a
produção do açúcar. Continha a moenda (para extrair o caldo da cana), as
fornalhas (para cozinhar o caldo) e as formas (para moldar o açúcar).
Casa de purgar: O local onde o açúcar era purificado e branqueado.
Canavial: As extensas plantações de cana-de-açúcar que cercavam o engenho.
Capelinha: A pequena igreja ou oratório onde o senhor de engenho e sua família
realizavam suas devoções religiosas.
2.3 A Mão de Obra Escravizada
A produção de açúcar em larga escala exigia uma grande quantidade de mão de obra.
Inicialmente, os portugueses tentaram utilizar os indígenas como trabalhadores nos
engenhos, mas essa tentativa fracassou por várias razões: a resistência dos nativos,
que não estavam acostumados ao trabalho regular e compulsório; as doenças trazidas
pelos europeus, que dizimaram as populações indígenas; e a oposição da Igreja
Católica, especialmente dos jesuítas, que defendiam a liberdade dos índios.
A solução encontrada pelos colonizadores foi o tráfico negreiro: a importação de
africanos escravizados para trabalhar nos engenhos. O tráfico negreiro foi um negócio
extremamente lucrativo, que envolvia comerciantes portugueses, brasileiros e de
outras nações europeias. Os africanos eram capturados em guerras tribais ou por
traficantes na África Ocidental e Central, transportados em condições desumanas nos
navios negreiros (os chamados “tumbeiros”) e vendidos nos portos brasileiros.
Em Pernambuco, o porto do Recife foi um dos principais pontos de desembarque de
escravos no Brasil. Estima-se que milhões de africanos foram trazidos para trabalhar
nos engenhos pernambucanos ao longo dos séculos XVI, XVII e XVIII. Essa imensa
massa de trabalhadores escravizados foi a base da prosperidade da capitania e deixou
marcas indeléveis na cultura, na sociedade e no povo pernambucano.
2.4 A Riqueza Gerada pelo Açúcar e seus Impactos
O açúcar foi o produto mais valioso do comércio mundial durante os séculos XVI e XVII,
sendo chamado de “ouro branco”. A produção pernambucana gerou uma enorme
riqueza que se manifestou de diversas formas:
Desenvolvimento urbano: A riqueza do açúcar financiou a construção de igrejas
barrocas, conventos, sobrados e palácios em Olinda e Recife, tornando-as duas das
cidades mais ricas e belas da colônia.
Formação de uma elite agrária: Os senhores de engenho constituíram uma poderosa
elite agrária, que controlava não apenas a economia, mas também a política e a
sociedade da capitania. Essa elite, conhecida como “nobreza da terra”, era orgulhosa
de suas origens e de seu poder, e resistia a qualquer tentativa de interferência externa
em seus negócios.
Diversificação da sociedade: A economia açucareira gerou uma sociedade complexa
e hierarquizada, com o senhor de engenho no topo, seguido pelos lavradores de cana
(que arrendavam terras para plantar), pelos trabalhadores livres (artesãos,
comerciantes, padres), pelos índios aldeados e, na base, pelos escravos africanos.
Dependência econômica: A monocultura do açúcar criou uma economia
extremamente dependente de um único produto e das flutuações do mercado
internacional. Quando o preço do açúcar caía, toda a capitania entrava em crise.
Período Situação da Economia Açucareira Fator Determinante
Séc. XVI Expansão e prosperidade Demanda europeia crescente
Séc. XVII (1ª metade) Apogeu Domínio do mercado mundial
Séc. XVII (2ª metade) Início da crise Concorrência das Antilhas
Séc. XVIII Crise prolongada Queda dos preços internacionais
3. FORMAÇÃO DE OLINDA E RECIFE
3.1 Olinda: A Cidade das Igrejas
A fundação de Olinda remonta ao ano de 1535, quando Duarte Coelho escolheu uma
colina com vista para o mar para estabelecer a sede da Capitania de Nova Lusitânia. A
escolha do local foi estratégica: a posição elevada facilitava a defesa contra ataques
indígenas e de corsários, e a proximidade com o mar permitia o controle do porto e do
comércio.
Segundo a tradição histórica, ao avistar o local, um dos membros da expedição de
Duarte Coelho teria exclamado: “Ó, linda situação para se construir uma vila!”, o
que teria dado origem ao nome da cidade. Embora essa história seja provavelmente
apócrifa, ela captura bem a beleza natural do local.
Em 1537, Olinda foi elevada à categoria de vila, tornando-se a primeira capital de
Pernambuco. A cidade cresceu rapidamente, impulsionada pela prosperidade da
economia açucareira. Conventos, igrejas, mosteiros e sobrados foram construídos ao
longo dos séculos XVI e XVII, criando um conjunto arquitetônico barroco de grande
beleza e valor histórico. Em 1676, Olinda tornou-se a sede do primeiro bispado de
Pernambuco, o que reforçou seu papel como centro religioso e cultural da capitania.
Olinda era a cidade da aristocracia açucareira. Os grandes senhores de engenho
tinham suas residências na cidade, onde desfrutavam de uma vida social intensa, com
festas, missas e procissões. A cidade era também um importante centro intelectual,
com o Colégio dos Jesuítas, fundado em 1576, que era o principal estabelecimento de
ensino da capitania.
Em 1982, o conjunto histórico e paisagístico de Olinda foi declarado Patrimônio
Cultural da Humanidade pela UNESCO, tornando-se a segunda cidade brasileira a
receber essa distinção, depois de Ouro Preto.
3.2 Recife: A Cidade dos Mascates
Recife surgiu como um simples porto, em uma planície de maré baixa, protegida por
uma barreira de recifes de arenito que deu origem ao seu nome. A cidade se
desenvolveu na foz do Rio Capibaribe e do Rio Beberibe, em uma área de ilhas,
mangues e canais que lhe conferiu um caráter único.
Enquanto Olinda era a sede do poder político e da aristocracia rural, Recife se
desenvolveu como o centro comercial e financeiro da capitania. Sua localização
portuária privilegiada atraiu comerciantes, artesãos e trabalhadores de diversas
origens, criando uma população mais diversificada e cosmopolita do que a de Olinda.
Durante o período holandês (1630-1654), Recife foi escolhida como a capital do Brasil
Holandês e passou por uma grande transformação urbana sob o governo de Maurício
de Nassau. Pontes, canais, palácios e jardins foram construídos, transformando a
cidade em uma das mais modernas da época. Após a expulsão dos holandeses, Recife
continuou a crescer e a se desenvolver, tornando-se cada vez mais importante do
ponto de vista econômico e político.
Em 1709, Recife foi elevada à categoria de vila, o que gerou um grande conflito com
Olinda, que se sentiu ameaçada pela ascensão de sua rival. Esse conflito culminou na
Guerra dos Mascates (1710-1711), que será abordada no próximo capítulo.
3.3 A Rivalidade entre Olinda e Recife
A rivalidade entre Olinda e Recife foi uma das marcas mais características da história
colonial de Pernambuco. As duas cidades representavam dois mundos distintos e, por
vezes, antagônicos: Olinda, a cidade da aristocracia agrária, do poder político e da
tradição; Recife, a cidade do comércio, do capital financeiro e da modernidade.
Os senhores de engenho de Olinda, endividados com os comerciantes de Recife,
desprezavam os “mascates” (como chamavam pejorativamente os comerciantes
portugueses) e resistiam à sua ascensão política e econômica. Essa rivalidade foi o
combustível da Guerra dos Mascates e continuou a marcar a política pernambucana
ao longo dos séculos seguintes.
4. A PRESENÇA HOLANDESA E O GOVERNO DE
MAURÍCIO DE NASSAU
4.1 Contexto: A União Ibérica e os Interesses Holandeses
Para compreender a invasão holandesa de Pernambuco, é necessário entender o
contexto político europeu do século XVII. Em 1580, Portugal foi anexado à Espanha,
formando a União Ibérica (1580-1640), sob o reinado de Felipe II de Espanha (Felipe I
de Portugal). Essa união colocou Portugal e suas colônias em guerra com os inimigos
da Espanha, especialmente a Holanda, que lutava pela sua independência.
A Holanda era, naquela época, uma das principais potências comerciais do mundo. Os
holandeses eram os principais distribuidores do açúcar brasileiro na Europa,
comprando o produto nos portos portugueses e revendendo-o com grande lucro para
os países europeus. Com a União Ibérica, os portos portugueses foram fechados para
os navios holandeses, interrompendo esse lucrativo comércio.
Para retomar o controle do comércio de açúcar e atacar o poderio espanhol, os
holandeses criaram, em 1621, a Companhia das Índias Ocidentais (WIC), uma
empresa de capital misto que tinha o monopólio do comércio e da navegação no
Atlântico. A WIC era, na prática, uma empresa de guerra e de comércio, que tinha o
poder de organizar expedições militares, travar guerras e administrar territórios
conquistados.
4.2 A Invasão e a Resistência (1630-1637)
A WIC organizou uma poderosa esquadra de 65 navios e 7.000 soldados, que atacou e
conquistou Olinda e Recife em fevereiro de 1630. A resistência luso-brasileira, liderada
pelo capitão-mor Matias de Albuquerque, foi intensa. Os defensores, incapazes de
enfrentar o exército holandês em campo aberto, adotaram táticas de guerrilha,
formando as chamadas “companhias de emboscada” que atacavam os holandeses
nas matas e nos canaviais.
Um episódio marcante desse período foi a traição de Domingos Fernandes Calabar,
um mestiço brasileiro que conhecia profundamente o território e que passou para o
lado holandês, fornecendo informações valiosas sobre as posições e os movimentos
das tropas luso-brasileiras. Calabar foi capturado e executado em 1635, tornando-se
um símbolo da traição na história pernambucana.
Apesar da resistência, os holandeses conseguiram consolidar seu domínio sobre
Pernambuco e expandir suas conquistas para outras capitanias do Nordeste,
chegando a controlar um território que se estendia do Maranhão ao Rio São Francisco.
4.3 O Governo de Maurício de Nassau (1637-1644)
Para pacificar a região e tornar a colônia lucrativa, a WIC nomeou o conde alemão
João Maurício de Nassau-Siegen como governador-geral do Brasil Holandês. Nassau
chegou a Recife em 23 de janeiro de 1637 e seu governo foi um dos mais notáveis da
história colonial brasileira.
Nassau era um homem culto, tolerante e visionário. Seu governo foi caracterizado por
uma série de medidas que transformaram Pernambuco:
Tolerância religiosa: Nassau concedeu liberdade de culto a católicos e judeus, o que
era incomum para a época. Essa política atraiu para Recife uma grande comunidade
judaica sefardita, que havia sido expulsa da Península Ibérica pela Inquisição. Os
judeus fundaram em Recife a Sinagoga Kahal Zur Israel, a primeira sinagoga das
Américas, em 1636.
Incentivo às artes e às ciências: Nassau trouxe para o Brasil uma comitiva de artistas
e cientistas, com o objetivo de registrar e estudar o novo mundo. Entre eles, destacam-
se:
Frans Post: Pintor holandês que produziu dezenas de paisagens do Brasil, sendo
o primeiro artista europeu a se dedicar sistematicamente à pintura de paisagens
americanas.
Albert Eckhout: Pintor holandês que retratou os habitantes do Brasil (indígenas,
africanos, mestiços e europeus) com um realismo notável.
Georg Marcgraf: Naturalista que realizou o primeiro levantamento sistemático
da fauna e da flora do Brasil, publicando a obra “Historia Naturalis Brasiliae”
(1648).
Willem Piso: Médico que estudou as doenças tropicais e as propriedades
medicinais das plantas brasileiras.
Urbanização de Recife: Nassau promoveu uma grande transformação urbana em
Recife, que passou a ser chamada de Mauritsstad (Cidade Maurícia). Foram
construídos o Palácio de Friburgo (residência do governador), o Palácio de Nassau
(sede do governo), pontes que ligavam as ilhas ao continente, canais, jardins
botânicos e o primeiro observatório astronômico das Américas.
Medidas econômicas: Nassau concedeu empréstimos aos senhores de engenho para
que reconstruíssem suas propriedades e retomassem a produção de açúcar. Ele
também reorganizou a administração e a justiça, buscando garantir a estabilidade e a
prosperidade da colônia.
4.4 A Queda de Nassau e o Início do Declínio Holandês
A partir de 1640, a situação política mudou radicalmente. Portugal restaurou sua
independência da Espanha, e os dois países assinaram uma trégua. Isso enfraqueceu a
justificativa da WIC para manter a guerra no Brasil. Além disso, a WIC estava em sérias
dificuldades financeiras, e Nassau era criticado por seus gastos excessivos.
Em 1644, Nassau foi demitido e retornou à Europa. Sua partida marcou o início do
declínio da colônia holandesa. A administração que o sucedeu era mais rígida e
intolerante, o que gerou um crescente descontentamento entre os colonos luso-
brasileiros.
4.5 A Insurreição Pernambucana e a Expulsão dos Holandeses (1645-
1654)
Em 1645, eclodiu a Insurreição Pernambucana, um movimento de resistência
liderado por senhores de engenho que se recusavam a pagar suas dívidas com a WIC e
que queriam retomar o controle de suas propriedades. Os principais líderes da
insurreição foram:
João Fernandes Vieira: Senhor de engenho que iniciou a revolta.
André Vidal de Negreiros: Militar que liderou importantes batalhas.
Felipe Camarão (Antônio Filipe Camarão): Índio potiguara que liderou as tropas
indígenas aliadas aos portugueses.
Henrique Dias: Negro liberto que liderou as tropas de africanos e
afrodescendentes.
A insurreição foi marcada por duas grandes batalhas no Monte dos Guararapes, em
1648 e 1649, nas quais as tropas luso-brasileiras derrotaram os holandeses de forma
decisiva. Em 26 de janeiro de 1654, os holandeses assinaram a capitulação e deixaram
definitivamente o Brasil.
As Batalhas dos Guararapes são consideradas um marco na história do Brasil, pois
foram travadas por um exército multiétnico, formado por portugueses, indígenas e
africanos, que lutaram juntos pela libertação de sua terra. Por isso, o Monte dos
Guararapes é considerado o “berço da nação brasileira”.
5. MOVIMENTOS DE RESISTÊNCIA E
EMANCIPACIONISTAS
5.1 Formação de Quilombos e a Resistência Negra
A escravidão foi a base da economia colonial, mas os africanos e seus descendentes
nunca aceitaram passivamente essa condição. A resistência negra se manifestou de
diversas formas, desde a sabotagem no trabalho e a preservação de suas culturas e
religiões, até as fugas e a formação de quilombos.
Os quilombos eram comunidades formadas por escravos fugitivos, que se
estabeleciam em locais de difícil acesso, como serras e matas fechadas. Nesses locais,
eles reconstruíam suas vidas em liberdade, com base em suas tradições africanas, e
viviam da agricultura de subsistência, da caça e da pesca. Os quilombos
representavam uma ameaça constante ao sistema escravista, pois incentivavam novas
fugas e, por vezes, atacavam engenhos e vilas em busca de alimentos, armas e para
libertar outros escravos.
O Quilombo dos Palmares
O mais famoso e duradouro quilombo da história do Brasil foi o Quilombo dos
Palmares, que se localizava na Serra da Barriga, na fronteira entre os atuais estados
de Pernambuco e Alagoas. Palmares surgiu no início do século XVII, durante o período
de instabilidade gerado pela invasão holandesa, e chegou a abrigar mais de 20 mil
habitantes, tornando-se uma verdadeira nação africana no coração do Brasil.
O quilombo era formado por vários mocambos (aldeias), cada um com seu próprio
líder, todos subordinados a um rei central. O mais famoso rei de Palmares foi Ganga
Zumba, que governou o quilombo por muitos anos e chegou a negociar um acordo de
paz com os portugueses em 1678. Seu sobrinho e sucessor, Zumbi dos Palmares,
rejeitou o acordo e continuou a resistência.
Zumbi dos Palmares tornou-se um dos maiores heróis da história do Brasil. Guerreiro
habilidoso e líder carismático, ele resistiu por décadas aos ataques dos portugueses.
Em 1694, uma grande expedição militar, liderada pelo bandeirante Domingos Jorge
Velho, conseguiu destruir o quilombo. Zumbi escapou, mas foi capturado e morto em
20 de novembro de 1695. Essa data é hoje comemorada como o Dia da Consciência
Negra no Brasil.
5.2 Guerra dos Mascates (1710-1711)
A Guerra dos Mascates foi um conflito que opôs a aristocracia rural de Olinda aos
comerciantes portugueses de Recife. O conflito teve como estopim a elevação de
Recife à categoria de vila, em 1709, o que desagradou profundamente a elite
olindense.
Os senhores de engenho de Olinda estavam endividados com os comerciantes de
Recife, que haviam financiado a reconstrução dos engenhos após a expulsão dos
holandeses. A elevação de Recife à categoria de vila significava que a cidade teria seu
próprio governo municipal, independente de Olinda, o que representava uma ameaça
ao poder político da aristocracia olindense.
Em 1710, os senhores de engenho de Olinda, liderados pelo capitão Bernardo Vieira de
Melo, invadiram Recife, depuseram as autoridades locais e destruíram o pelourinho,
símbolo da autonomia da vila. Os comerciantes de Recife, por sua vez, organizaram
sua própria resistência e o conflito se espalhou pela capitania.
A guerra só terminou em 1711, com a intervenção do novo governador, Felix José
Machado, que restabeleceu a ordem e confirmou a autonomia de Recife. Os líderes da
revolta de Olinda foram presos e julgados, mas acabaram sendo anistiados.
A Guerra dos Mascates é considerada um dos primeiros movimentos nativistas do
Brasil, pois colocou em lados opostos a elite brasileira (os senhores de engenho de
Olinda) e os portugueses recém-chegados (os comerciantes de Recife).
5.3 Revolução Pernambucana (1817)
A Revolução Pernambucana de 1817 foi um movimento de caráter separatista e
republicano, que proclamou a independência de Pernambuco e de outras províncias
do Nordeste em relação a Portugal. É considerada o último grande movimento
separatista do período colonial e um precursor da Independência do Brasil.
Causas:
Crise econômica causada pela desvalorização do açúcar e do algodão no
mercado internacional.
Altos impostos cobrados pela Coroa para sustentar a corte de Dom João VI no Rio
de Janeiro.
Influência das ideias iluministas e dos exemplos de independência nas Américas
(Estados Unidos, Haiti).
Descontentamento com a presença de portugueses nos principais cargos
administrativos e militares.
Influência das lojas maçônicas, que difundiam ideias republicanas e liberais.
Líderes:
Domingos José Martins (comerciante)
Padre João Ribeiro (sacerdote e intelectual)
José de Barros Lima (militar)
Cruz Cabugá (enviado para buscar apoio nos Estados Unidos)
Desenvolvimento: A revolução começou em 6 de março de 1817, com o assassinato
do militar português Manoel Joaquim Barbosa pelo capitão José de Barros Lima. Os
rebeldes tomaram o poder no Recife e instalaram um governo provisório, que adotou
uma bandeira própria, uma lei orgânica e defendeu a liberdade de imprensa e de
culto. O movimento se espalhou para outras províncias, como Rio Grande do Norte e
Paraíba.
Desfecho: O governo provisório durou apenas 75 dias. As divergências internas entre
os líderes e a forte repressão das tropas enviadas pelo general Luís do Rego Barreto
levaram à derrota da revolução. Em 20 de maio de 1817, os rebeldes se entregaram.
Seus líderes foram presos, julgados e executados. Como punição, Pernambuco teve
seu território desmembrado, com a emancipação da comarca de Alagoas.
O dia 6 de março é feriado estadual em Pernambuco, em comemoração ao início da
Revolução de 1817. A bandeira utilizada pelos revolucionários é a mesma que hoje
representa o estado de Pernambuco.
5.4 Confederação do Equador (1824)
A Confederação do Equador foi um movimento separatista e republicano que eclodiu
em Pernambuco em 2 de julho de 1824, durante o Primeiro Reinado. O movimento foi
uma reação ao autoritarismo de Dom Pedro I, que havia dissolvido a Assembleia
Constituinte de 1823 e outorgado uma Constituição centralizadora em 1824.
Causas:
Dissolução da Assembleia Constituinte de 1823 por Dom Pedro I.
Outorga da Constituição de 1824, que concentrava poderes no imperador.
Descontentamento com o centralismo e a falta de autonomia das províncias.
Influência das ideias federalistas e republicanas.
Nomeação de um presidente de província impopular para Pernambuco.
Líderes:
Manuel de Carvalho Paes de Andrade (presidente da província)
Frei Caneca (padre e intelectual, um dos principais ideólogos do movimento)
Cipriano Barata (jornalista e político)
Desenvolvimento: A Confederação do Equador proclamou a separação das províncias
do Nordeste (Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba) do Império do Brasil
e a formação de uma nova república federativa. O movimento, no entanto, não
conseguiu se consolidar. As tropas imperiais, comandadas pelo almirante Cochrane,
atacaram o Recife e derrotaram os rebeldes.
Desfecho: Frei Caneca foi preso, julgado e executado em 13 de janeiro de 1825,
tornando-se um mártir da causa republicana. Manuel de Carvalho Paes de Andrade
conseguiu fugir para o exterior. A derrota da Confederação do Equador consolidou o
poder centralizado do Império, mas não apagou o ideal republicano que continuaria a
inspirar outras revoltas.
5.5 Guerra dos Cabanos (1832-1835)
A Guerra dos Cabanos, também conhecida como Cabanada, foi um movimento
popular que ocorreu na zona da mata de Pernambuco e Alagoas durante o Período
Regencial (1831-1840). Diferentemente das revoltas anteriores, lideradas pela elite, a
Cabanada foi um movimento de caráter popular e restaurador.
Contexto: Com a abdicação de Dom Pedro I em 1831, o Brasil entrou em um período
de instabilidade política, com disputas entre liberais e conservadores pelo poder. As
reformas liberais implementadas durante a Regência geraram descontentamento
entre setores mais conservadores da sociedade, especialmente no interior do
Nordeste.
Participantes: Os cabanos eram, em sua maioria, trabalhadores rurais pobres,
pequenos proprietários, indígenas e escravos fugitivos, que viviam em cabanas no
meio da mata. Eles eram liderados por figuras populares, como Vicente de Paula, e
contavam com o apoio de alguns padres e comerciantes portugueses.
Reivindicações: Os cabanos defendiam a volta de Dom Pedro I ao trono do Brasil e se
opunham às reformas liberais. O movimento tinha um caráter profundamente
conservador e religioso, com forte influência do catolicismo popular.
Desfecho: A guerra foi marcada por táticas de guerrilha e grande violência de ambos
os lados. O movimento só foi derrotado em 1835, com a nomeação de um novo
presidente de província que anistiou os rebeldes e com a notícia da morte de Dom
Pedro I em Portugal. A Cabanada deixou um rastro de destruição e morte na zona da
mata pernambucana.
5.6 Revolução Praieira (1848-1850)
A Revolução Praieira foi o último grande movimento de contestação ao Império em
Pernambuco. A revolta, de caráter liberal e federalista, foi liderada pelo Partido da
Praia (os “praieiros”), que se opunha ao domínio político da família Cavalcanti, que
representava a elite agrária conservadora.
Contexto: Durante o Segundo Reinado, Pernambuco era dominado politicamente
pela família Cavalcanti, que controlava os cargos públicos e a economia da província.
O Partido da Praia, que tinha sua base de apoio entre a população urbana de Recife e
parte da zona da mata, representava os interesses da classe média urbana, dos
profissionais liberais e de alguns setores da elite que se sentiam excluídos do poder.
Reivindicações: Os praieiros defendiam:
O fim do Poder Moderador (que concentrava grande poder nas mãos do
imperador).
A liberdade de imprensa.
O voto livre e universal.
A nacionalização do comércio a varejo (controlado por portugueses).
A extinção da lei do juro.
O federalismo.
Desenvolvimento: O estopim da revolta foi a nomeação de um presidente de
província ligado aos conservadores. Os praieiros pegaram em armas em novembro de
1848 e chegaram a atacar a cidade de Recife em 2 de fevereiro de 1849, mas foram
derrotados pelas tropas imperiais. O movimento se prolongou até 1850, com focos de
resistência no interior.
Desfecho: Os líderes da revolta foram presos e julgados, mas a maioria acabou sendo
anistiada. A Revolução Praieira marcou o fim do ciclo de revoltas liberais em
Pernambuco e a consolidação do poder centralizado do Império durante o período do
Segundo Reinado.
Movimento Ano Caráter Principais Líderes Resultado
João Fernandes
Vitória:
Insurreição 1645- Vieira, Henrique
Anticolonial expulsão dos
Pernambucana 1654 Dias, Felipe
holandeses
Camarão
Guerra dos 1710- Bernardo Vieira de Derrota: anistia
Nativista
Mascates 1711 Melo dos líderes
Domingos José
Revolução Derrota: líderes
1817 Republicano/Separatista Martins, Padre
Pernambucana executados
João Ribeiro
Frei Caneca, Derrota: Frei
Confederação do
1824 Republicano/Federalista Manuel de Caneca
Equador
Carvalho executado
Guerra dos 1832-
Popular/Restaurador Vicente de Paula Derrota: anistia
Cabanos 1835
Revolução 1848- Pedro Ivo, Nunes
Liberal/Federalista Derrota: anistia
Praieira 1850 Machado
6. PERNAMBUCO E A REPÚBLICA
6.1 A Proclamação da República e seus Reflexos em Pernambuco
A Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, foi recebida com
entusiasmo por setores da elite pernambucana, especialmente os militares e os
republicanos, que há anos lutavam pelo fim da monarquia. No entanto, a transição
para o regime republicano não significou uma mudança radical na estrutura de poder
em Pernambuco. As mesmas famílias da elite agrária que dominavam a política no
Império continuaram a controlar o poder no novo regime.
6.2 A República Velha em Pernambuco (1889-1930)
A República Velha foi marcada pela chamada “política dos governadores”, um acordo
entre o governo federal e as oligarquias estaduais. Em Pernambuco, o poder político
foi controlado por um pequeno grupo de famílias da elite agrária, com destaque para a
família Rosa e Silva, que dominou a política estadual por várias décadas.
Essa política oligárquica, baseada no coronelismo, no voto de cabresto e na troca de
favores, gerava grande insatisfação entre os setores urbanos e as classes médias. A
oposição às oligarquias se manifestou em diversos momentos, como na Revolta de
1911, que derrubou o governador Herculano Bandeira, e no movimento tenentista,
que, na década de 1920, defendia a moralização da política e o fim do poder das
oligarquias.
6.3 A Modernização do Recife
No início do século XX, o Recife passou por um intenso processo de modernização e
reforma urbana. O objetivo era transformar a cidade em uma metrópole moderna,
com avenidas largas, saneamento básico e novos edifícios. Foram construídas
importantes obras de infraestrutura, como a Avenida Martins de Barros, o Teatro de
Santa Isabel e o Palácio da Justiça.
No entanto, essa modernização também teve um lado excludente, pois removeu
cortiços e habitações populares do centro da cidade, empurrando a população pobre
para as periferias e os morros. O processo de modernização urbana gerou novas
formas de segregação social e espacial que marcaram o desenvolvimento do Recife ao
longo do século XX.
6.4 O Cangaço e a Questão Social no Sertão
Enquanto o litoral passava por modernizações, o sertão de Pernambuco vivia uma
realidade de seca, miséria, abandono e violência. Nesse contexto, surgiu o fenômeno
do cangaço, bandos armados que percorriam o sertão, praticando crimes, mas
também sendo vistos como heróis e justiceiros pela população pobre.
O mais famoso líder cangaceiro, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, nasceu em
Serra Talhada, no sertão de Pernambuco. Lampião e seu bando aterrorizaram o sertão
por mais de duas décadas, desafiando o poder dos coronéis e do Estado. O cangaço foi
um fenômeno complexo, que refletia as profundas desigualdades sociais e a ausência
do poder público no sertão nordestino.
6.5 O Assassinato de João Pessoa e a Revolução de 1930
O fim da República Velha foi precipitado pelo assassinato de João Pessoa, governador
da Paraíba e candidato a vice-presidente na chapa de Getúlio Vargas, em Recife, em 26
de julho de 1930. João Pessoa foi morto pelo advogado João Dantas, em um ato que
tinha motivações pessoais e políticas locais.
O assassinato gerou uma grande comoção nacional e serviu de pretexto para que
Getúlio Vargas e seus aliados militares deflagrassem a Revolução de 1930, que depôs
o presidente Washington Luís e pôs fim à República Velha. Pernambuco, assim, teve
um papel central no processo que mudou os rumos da política brasileira.
6.6 Pernambuco no Século XX: Da Era Vargas à Redemocratização
Durante a Era Vargas (1930-1945), Pernambuco perdeu autonomia política com a
nomeação de interventores federais. O período foi marcado pela repressão aos
opositores do regime, como a Intentona Comunista de 1935, que teve um levante em
Recife.
Com a redemocratização de 1945, Pernambuco viveu um período de grande
efervescência política. Surgiram movimentos sociais importantes, como as Ligas
Camponesas, fundadas em 1955 por Francisco Julião, que lutavam pela reforma
agrária e pela melhoria das condições de vida dos trabalhadores rurais.
O Golpe Militar de 1964 depôs o governador Miguel Arraes, que era ligado às forças
de esquerda. Arraes foi preso e exilado, e muitos líderes políticos, estudantes e
trabalhadores foram perseguidos. Com a redemocratização, na década de 1980, Arraes
retornou do exílio e foi eleito novamente governador.
As últimas décadas foram marcadas pelo surgimento do movimento Manguebeat, na
década de 1990, que projetou a cultura pernambucana no cenário nacional e
internacional, com artistas como Chico Science e Nação Zumbi.
7. MANIFESTAÇÕES DA CULTURA POPULAR
PERNAMBUCANA
7.1 Frevo: O Ritmo Fervente do Carnaval
O Frevo é, sem dúvida, a mais conhecida e vibrante expressão da cultura
pernambucana. Nascido no final do século XIX, nas ruas do Recife, o Frevo é um ritmo
musical e uma dança que mistura elementos da marcha militar, do maxixe e da
capoeira.
A origem do Frevo está ligada às disputas entre as bandas militares e os capoeiristas
que acompanhavam os blocos de carnaval. As bandas tocavam marchas aceleradas, e
os capoeiristas dançavam e lutavam ao mesmo tempo, criando um estilo de dança
único e frenético. O nome “Frevo” vem do verbo “ferver”, que descreve a agitação e o
calor dos foliões ao som das orquestras de metais.
Tipos de Frevo:
Frevo de Rua: Instrumental e acelerado, tocado pelas orquestras para animar os
blocos e troças.
Frevo de Bloco: Cantado e com ritmo mais lento e poético, acompanhado por
cordas e sopros.
Frevo-Canção: Semelhante a uma marchinha de carnaval, com letra e melodia
mais acessíveis.
A dança do Frevo, com seus passos acrobáticos e improvisados, executados com uma
sombrinha colorida (o “passista” de frevo), é um espetáculo de agilidade e
criatividade. Em 2012, o Frevo foi declarado Patrimônio Cultural Imaterial da
Humanidade pela UNESCO.
7.2 Maracatu: A Coroação dos Reis Negros
O Maracatu é uma das mais importantes manifestações da cultura afro-brasileira em
Pernambuco. Existem dois tipos principais:
Maracatu Nação (Baque Virado): Tem origem nas coroações dos reis do Congo,
realizadas pelos escravos para manter suas tradições. O cortejo é formado por uma
rainha, um rei, príncipes, princesas, embaixadores e outros personagens da corte
africana, acompanhados por um grupo de percussionistas que tocam grandes
tambores chamados alfaias. As nações de Maracatu mais antigas do Recife são a
Nação do Elefante, a Nação do Leão Coroado e a Nação do Maracatu Porto Rico.
Maracatu Rural (Baque Solto): Típico da zona da mata de Pernambuco, tem um
caráter mais rústico e enérgico. A figura central é o caboclo de lança, um personagem
mascarado com um grande cocar de fitas coloridas, que dança e salta ao som de um
ritmo frenético. O Maracatu Rural está associado ao ciclo da cana-de-açúcar e às
brincadeiras populares do interior.
7.3 Outras Manifestações Culturais
Além do Frevo e do Maracatu, Pernambuco possui uma rica variedade de
manifestações culturais populares:
Cavalo-Marinho: Uma dança dramática típica da zona da mata norte de Pernambuco,
que mistura elementos de teatro, dança e música. O Cavalo-Marinho narra histórias de
vaqueiros, fazendeiros e personagens do folclore nordestino.
Bumba-meu-boi: Também presente em Pernambuco, é uma festa popular que
encena a morte e a ressurreição de um boi, com personagens como o Capitão, a
Catirina e o Padre.
Ciranda: Uma dança coletiva, realizada em roda, ao som de músicas lentas e
melancólicas. A Ciranda é muito popular no litoral de Pernambuco, especialmente na
cidade de Itamaracá.
Coco de Roda: Uma dança e um ritmo de origem africana, muito popular no litoral e
no interior de Pernambuco. O Coco de Roda é caracterizado por palmas, sapateados e
cantos improvisados.
Literatura de Cordel: Embora não seja exclusiva de Pernambuco, a literatura de
cordel tem uma forte tradição no estado, especialmente no sertão. Os folhetos de
cordel narram histórias de heróis, santos, cangaceiros e eventos históricos, com
linguagem rimada e ilustrações em xilogravura.
Movimento Armorial: Criado pelo escritor Ariano Suassuna, em 1970, o Movimento
Armorial buscava criar uma arte erudita brasileira a partir das raízes da cultura
popular nordestina, especialmente da literatura de cordel, da música de viola e da
xilogravura.
7.4 Culinária Pernambucana: Uma Mistura de Sabores
A culinária de Pernambuco é um reflexo de sua história e de sua diversidade cultural. A
base da cozinha pernambucana é a mandioca, o milho, o coco, a rapadura e os frutos
do mar, ingredientes que se misturam em pratos saborosos e originais.
Pratos salgados:
Buchada de bode: Vísceras de bode temperadas e cozidas dentro do bucho do
animal.
Sarapatel: Prato feito com vísceras de porco ou bode, temperadas com sangue e
especiarias.
Dobradinha: Ensopado de bucho de boi com feijão branco.
Chambaril: Joelho de boi cozido lentamente até ficar macio.
Galinhada: Arroz cozido com frango e temperos.
Peixada pernambucana: Ensopado de peixe fresco com legumes e azeite de
dendê.
Cuscuz nordestino: Farinha de milho cozida no vapor, servida com manteiga,
queijo ou carne seca.
Doces e sobremesas:
Bolo de rolo: Pão de ló finíssimo enrolado com goiabada, considerado
Patrimônio Cultural e Imaterial do Estado de Pernambuco.
Bolo Souza Leão: Bolo de mandioca com coco e ovos, criado no século XIX pela
família Souza Leão.
Cartola: Banana frita com queijo manteiga e canela.
Mungunzá: Milho cozido com leite de coco e açúcar.
Pamonha: Massa de milho verde cozida na palha da espiga.
7.5 Festas Populares
Carnaval de Recife e Olinda: Um dos mais famosos e democráticos do Brasil. O
carnaval pernambucano é de rua, com centenas de blocos, troças e agremiações. Os
bonecos gigantes de Olinda são uma atração à parte.
São João: Especialmente no interior, as cidades de Caruaru e Gravatá são famosas por
seus festejos juninos, com shows de forró, quadrilhas e comidas típicas.
Festa de Nossa Senhora dos Prazeres: Realizada no Monte dos Guararapes, em
Jaboatão dos Guararapes, em comemoração à vitória nas Batalhas dos Guararapes.
Paixão de Cristo de Nova Jerusalém: Realizada na cidade de Brejo da Madre de Deus,
é o maior espetáculo teatral ao ar livre do mundo, encenado no período da Semana
Santa.
8. HERANÇA AFRODESCENDENTE EM PERNAMBUCO
8.1 A Diáspora Africana e a Escravidão em Pernambuco
A herança afrodescendente é um dos pilares fundamentais da identidade cultural de
Pernambuco. A presença africana, trazida à força para o trabalho nos engenhos de
açúcar, marcou profundamente a sociedade, a economia, a cultura e a religiosidade
do estado.
Estima-se que, entre os séculos XVI e XIX, milhões de africanos foram trazidos para o
Brasil como escravos. Pernambuco foi um dos principais destinos desses africanos,
que chegavam ao porto do Recife após uma longa e brutal travessia do Atlântico nos
navios negreiros. Os africanos escravizados em Pernambuco pertenciam a diversas
etnias, com destaque para os Bantos (angolanos e congoleses) e os Sudaneses
(iorubás, jejes e minas).
8.2 A Resistência Cultural
Apesar da brutalidade do sistema escravista, os africanos e seus descendentes nunca
deixaram de lutar pela preservação de sua identidade cultural. Essa resistência se
manifestou de diversas formas:
Religião: A religião foi um dos principais meios de preservação da cultura africana. Os
escravos desenvolveram um sincretismo religioso que mesclava elementos do
catolicismo com as religiões de matriz africana. As Casas de Candomblé e as
Irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos foram espaços de
resistência e de preservação da cultura africana.
Música e Dança: O Maracatu, o Coco de Roda, o Afoxé e outros ritmos e danças de
origem africana foram preservados e transmitidos de geração em geração, mesmo sob
a repressão do sistema escravista.
Língua: Muitas palavras de origem africana foram incorporadas ao português falado
em Pernambuco e no Brasil, como “moleque”, “caçula”, “samba”, “quilombo” e muitas
outras.
8.3 Contribuições para a Formação Cultural de Pernambuco
A herança africana está presente em praticamente todas as manifestações culturais de
Pernambuco:
Na música: O Maracatu, o Coco de Roda, o Afoxé e o próprio Frevo têm raízes africanas
profundas.
Na culinária: O uso do azeite de dendê, do coco, da pimenta e de ingredientes como o
quiabo e o inhame reflete a influência africana na cozinha pernambucana.
Na religião: O Candomblé, a Umbanda e outras religiões de matriz africana têm uma
forte presença em Pernambuco, especialmente no Recife e na zona da mata.
Na língua: Inúmeras palavras de origem africana fazem parte do vocabulário
cotidiano dos pernambucanos.
Na medicina popular: O conhecimento das plantas medicinais, transmitido pelos
africanos e seus descendentes, é parte importante da medicina popular
pernambucana.
8.4 Os Quilombos Remanescentes
Pernambuco possui diversas comunidades quilombolas remanescentes, que
preservam as tradições e a cultura de seus ancestrais africanos. Entre as mais
conhecidas, destaca-se a Comunidade Quilombola de Conceição das Crioulas, no
município de Salgueiro, no sertão de Pernambuco. Fundada no século XVIII por
mulheres negras, a comunidade luta pela posse de suas terras e pela preservação de
suas tradições culturais.
8.5 A Luta por Igualdade e Reconhecimento
A abolição da escravatura, em 13 de maio de 1888, não significou o fim do preconceito
e da desigualdade para a população negra. Pelo contrário, os afrodescendentes foram
deixados à própria sorte, sem acesso à terra, à educação e a oportunidades de
trabalho digno.
A luta por igualdade racial e por reconhecimento da contribuição da cultura negra
para a formação do Brasil é uma constante na história do país e de Pernambuco. O
Movimento Negro tem uma forte presença em Pernambuco, com diversas
organizações que lutam contra o racismo e pela valorização da cultura afro-brasileira.
O Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, data da morte de Zumbi
dos Palmares, é um momento de reflexão e de reafirmação da importância da cultura
e da história do povo negro em Pernambuco e no Brasil.
8.6 Lugares de Memória da Cultura Negra em Pernambuco
Pernambuco possui diversos espaços dedicados à preservação e à valorização da
memória e da cultura afrodescendente:
Museu do Homem do Nordeste (Recife): Possui um rico acervo sobre a cultura
afro-brasileira, incluindo objetos de culto, instrumentos musicais e peças de arte
popular.
Sítio Histórico de Palmares (Alagoas/Pernambuco): O local onde se localizava
o Quilombo dos Palmares é hoje um parque histórico e um símbolo da
resistência negra.
Sinagoga Kahal Zur Israel (Recife): A primeira sinagoga das Américas, fundada
durante o período holandês, é um testemunho da diversidade cultural de Recife.
Pátio de São Pedro (Recife): Um dos principais centros de cultura popular do
Recife, onde se realizam shows de frevo, maracatu e outras manifestações
culturais.
CONCLUSÃO
A história de Pernambuco é uma tapeçaria rica e complexa, tecida com os fios da
resistência indígena, da colonização europeia e da herança africana. Dos engenhos de
açúcar às revoluções libertárias, da opulência de Olinda à efervescência cultural do
Recife, Pernambuco sempre foi um protagonista na história do Brasil.
Compreender essa história é fundamental não apenas para o sucesso no concurso da
Polícia Militar de Pernambuco, mas também para a formação de um profissional de
segurança pública consciente da diversidade e da riqueza cultural do estado que irá
servir e proteger.
QUADRO SINÓTICO: CRONOLOGIA HISTÓRICA DE
PERNAMBUCO
Ano Evento
1516 Fundação da Feitoria de Igarassu por Cristóvão Jacques
1534 Doação da Capitania de Nova Lusitânia a Duarte Coelho
1535 Chegada de Duarte Coelho; fundação de Olinda
1537 Elevação de Olinda à categoria de vila; fundação de Recife
1554 Morte de Duarte Coelho
1595 Ingleses e holandeses saqueiam Recife
1597-1695 Quilombo dos Palmares
1621 Criação da Companhia das Índias Ocidentais (WIC)
1630 Invasão holandesa de Olinda e Recife
1636 Fundação da Sinagoga Kahal Zur Israel (1ª das Américas)
1637 Chegada de Maurício de Nassau ao Recife
1644 Partida de Maurício de Nassau
1645 Início da Insurreição Pernambucana
1648-1649 Batalhas dos Guararapes
1654 Expulsão definitiva dos holandeses
1676 Criação do Bispado de Olinda
1695 Morte de Zumbi dos Palmares
1709 Elevação de Recife à categoria de vila
1710-1711 Guerra dos Mascates
1817 Revolução Pernambucana
1824 Confederação do Equador
Ano Evento
1832-1835 Guerra dos Cabanos (Cabanada)
1848-1850 Revolução Praieira
1889 Proclamação da República
1930 Assassinato de João Pessoa; Revolução de 1930
1935 Intentona Comunista (levante em Recife)
1955 Fundação das Ligas Camponesas
1964 Golpe Militar; deposição de Miguel Arraes
1982 Olinda declarada Patrimônio da Humanidade pela UNESCO
1992 Surgimento do Manguebeat (Chico Science e Nação Zumbi)
2012 Frevo declarado Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO
9. APROFUNDAMENTO: CONTEXTO HISTÓRICO E
ANÁLISE CRÍTICA
9.1 A Sociedade Colonial Pernambucana: Hierarquias e Tensões
A sociedade colonial pernambucana era profundamente hierarquizada e marcada por
tensões entre diferentes grupos sociais. No topo da pirâmide social estavam os
senhores de engenho, que detinham o poder econômico, político e social. Abaixo
deles, estavam os lavradores de cana, que arrendavam terras dos senhores de
engenho para plantar cana e entregar a produção para ser processada nos engenhos.
Em seguida, vinham os trabalhadores livres: artesãos, comerciantes, padres, médicos
e outros profissionais que prestavam serviços à sociedade colonial. Os indígenas
aldeados ocupavam uma posição ambígua, entre a liberdade formal e a dependência
real dos colonizadores. Na base da pirâmide estavam os escravos africanos e seus
descendentes, que constituíam a maioria da população e eram a força motriz da
economia colonial.
Essa hierarquia social era reforçada por um sistema de valores que associava o
trabalho manual à desonra e a posse de escravos ao prestígio social. Os senhores de
engenho, mesmo quando endividados, recusavam-se a trabalhar com as próprias
mãos, pois isso seria uma humilhação incompatível com seu status social.
As tensões entre os diferentes grupos sociais eram constantes. Os escravos resistiam à
sua condição de diversas formas. Os lavradores de cana disputavam com os senhores
de engenho as condições de arrendamento das terras. Os comerciantes de Recife
disputavam com os senhores de engenho o poder político e econômico. E os colonos
brasileiros disputavam com os portugueses recém-chegados os cargos públicos e as
oportunidades de negócio.
9.2 A Igreja Católica e a Colonização
A Igreja Católica desempenhou um papel fundamental no processo de colonização de
Pernambuco. Os missionários, especialmente os jesuítas, foram os principais agentes
de catequização dos indígenas, buscando convertê-los ao catolicismo e integrá-los à
sociedade colonial. Os jesuítas fundaram aldeamentos (missões) onde os indígenas
eram concentrados, catequizados e ensinados a trabalhar de acordo com os padrões
europeus.
A relação entre os jesuítas e os colonos foi marcada por conflitos constantes. Os
jesuítas defendiam a liberdade dos indígenas e se opunham à sua escravização, o que
contrariava os interesses dos senhores de engenho, que precisavam de mão de obra.
Essa tensão culminou na expulsão dos jesuítas do Brasil em 1759, por ordem do
Marquês de Pombal.
Além da catequização dos indígenas, a Igreja Católica desempenhou um papel
importante na vida social e cultural da colônia. As igrejas, conventos e mosteiros eram
os principais centros culturais e educacionais, e as festas religiosas eram as principais
ocasiões de sociabilidade da população colonial.
9.3 A Economia Açucareira e o Tráfico Negreiro: Uma Análise Crítica
A economia açucareira de Pernambuco foi construída sobre a base da exploração e da
violência. O tráfico negreiro foi um dos maiores crimes contra a humanidade da
história, que arrancou milhões de africanos de suas terras e os submeteu a condições
desumanas de trabalho e vida.
É importante compreender que a escravidão não foi apenas uma instituição
econômica, mas também um sistema de dominação social e cultural. Os escravizados
eram tratados como propriedade, sem direitos legais ou reconhecimento de sua
humanidade. Eram submetidos a castigos físicos brutais, separados de suas famílias e
impedidos de praticar suas religiões e culturas.
No entanto, como já foi abordado, os africanos e seus descendentes nunca aceitaram
passivamente essa condição. A resistência negra foi constante e multiforme, desde as
fugas individuais e a formação de quilombos até as revoltas coletivas e a preservação
de suas culturas e tradições.
9.4 O Iluminismo e as Revoluções Pernambucanas
As revoluções que sacudiram Pernambuco no final do século XVIII e no século XIX
foram profundamente influenciadas pelas ideias do Iluminismo, um movimento
intelectual europeu que defendia a razão, a liberdade, a igualdade e a fraternidade
como princípios fundamentais da organização social e política.
As ideias iluministas chegaram a Pernambuco através de diversas vias: os livros e
panfletos que circulavam clandestinamente, as lojas maçônicas que reuniam a elite
intelectual da capitania, e os estudantes que iam estudar em Portugal e na França e
voltavam impregnados das novas ideias.
A Revolução Americana (1776) e a Revolução Francesa (1789) serviram de inspiração e
de modelo para os revolucionários pernambucanos. A formação de repúblicas
independentes nas antigas colônias espanholas da América também influenciou o
pensamento político da elite pernambucana.
No entanto, é importante notar que as revoluções pernambucanas tinham um caráter
contraditório. Ao mesmo tempo em que defendiam a liberdade e a igualdade, os seus
líderes eram, em sua maioria, senhores de engenho que não tinham nenhuma
intenção de abolir a escravidão ou de redistribuir a terra. A liberdade que defendiam
era a liberdade da elite local em relação ao domínio português, não a liberdade dos
escravos ou dos trabalhadores pobres.
9.5 Pernambuco e a Identidade Nacional Brasileira
Pernambuco desempenhou um papel fundamental na formação da identidade
nacional brasileira. As lutas e as revoluções que marcaram a história do estado
contribuíram para a construção de um sentimento de pertencimento e de identidade
que transcende as fronteiras estaduais.
As Batalhas dos Guararapes, travadas por um exército multiétnico de portugueses,
indígenas e africanos, são consideradas o marco fundador da nação brasileira. A
Revolução Pernambucana de 1817 foi o primeiro movimento a proclamar a república
no Brasil. A Confederação do Equador de 1824 foi um dos mais corajosos desafios ao
autoritarismo imperial. E o Quilombo dos Palmares é o maior símbolo da resistência
negra e da luta pela liberdade na história do Brasil.
A cultura pernambucana, com sua riqueza e diversidade, também contribuiu para a
formação da identidade cultural brasileira. O Frevo, o Maracatu, a literatura de cordel,
o cinema de Glauber Rocha e o Manguebeat são expressões de uma cultura vibrante e
criativa que se projetou para além das fronteiras do estado e do país.
10. PERNAMBUCO: ASPECTOS GEOGRÁFICOS E
ADMINISTRATIVOS
10.1 Localização e Divisão Territorial
O estado de Pernambuco está localizado na Região Nordeste do Brasil, fazendo
fronteira com os estados do Ceará (norte), Paraíba (norte), Alagoas (sul), Bahia (sul) e
Piauí (oeste). O estado também inclui o Arquipélago de Fernando de Noronha,
localizado no Oceano Atlântico, a cerca de 545 km do litoral.
Pernambuco é dividido em seis mesorregiões geográficas: Metropolitana do Recife,
Zona da Mata, Agreste, Sertão do São Francisco, Sertão Pernambucano e São
Francisco. Cada uma dessas regiões tem características geográficas, climáticas,
econômicas e culturais próprias.
10.2 Recife: A Capital
Recife é a capital e maior cidade de Pernambuco, com uma população de
aproximadamente 1,7 milhão de habitantes (2022). A cidade é conhecida como a
“Veneza Brasileira” por sua geografia marcada por rios, pontes e ilhas. O Recife é um
importante centro econômico, cultural e turístico do Nordeste, com um rico
patrimônio histórico e uma intensa vida cultural.
Alguns dos principais pontos turísticos e históricos do Recife são:
Marco Zero: O ponto central da cidade, localizado na Praça do Marco Zero, no
bairro do Recife Antigo.
Sinagoga Kahal Zur Israel: A primeira sinagoga das Américas, fundada durante o
período holandês.
Forte das Cinco Pontas: Fortaleza construída pelos holandeses em 1630, que
abriga hoje o Museu da Cidade do Recife.
Instituto Ricardo Brennand: Um museu particular que abriga uma das mais
importantes coleções de arte e artefatos históricos do Brasil.
Museu do Homem do Nordeste: Um museu que apresenta a história e a cultura
do Nordeste brasileiro.
10.3 Olinda: A Cidade Histórica
Olinda, declarada Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO em 1982, é uma
das cidades históricas mais bem preservadas do Brasil. Seu conjunto arquitetônico
barroco, com igrejas, conventos, sobrados e ladeiras, é um testemunho da riqueza e
da cultura da época colonial.
Alguns dos principais monumentos históricos de Olinda são:
Igreja da Sé: A primeira catedral de Pernambuco, construída no século XVI.
Convento de São Francisco: O mais antigo convento franciscano do Brasil,
fundado em 1585.
Igreja Nossa Senhora do Monte: Uma das mais antigas igrejas de Olinda, com
uma bela vista para o mar.
Mosteiro de São Bento: Um dos mais importantes mosteiros beneditinos do
Brasil, com uma rica coleção de arte sacra.
10.4 Caruaru: A Capital do Agreste
Caruaru é a maior cidade do interior de Pernambuco e um importante centro cultural
e econômico do Agreste. A cidade é famosa por seu Feira de Caruaru, uma das
maiores feiras livres do Brasil, onde são vendidos produtos artesanais, alimentos e
roupas. Caruaru também é conhecida como a “Capital do Forró” e o “São João de
Caruaru” é considerado um dos maiores e melhores do mundo.
10.5 Caruaru e o Alto do Moura
O Alto do Moura, localizado nos arredores de Caruaru, é um importante centro de
artesanato em barro. O local é famoso pelas figuras de barro criadas pelo mestre
Vitalino (Mestre Vitalino), que retratam cenas do cotidiano nordestino com grande
expressividade e criatividade. O Alto do Moura foi declarado pela UNESCO como o
maior centro de arte figurativa das Américas.
11. PERSONALIDADES HISTÓRICAS DE PERNAMBUCO
11.1 Duarte Coelho (c. 1485-1554)
Duarte Coelho Pereira foi o primeiro donatário da Capitania de Pernambuco e o
principal responsável pela colonização bem-sucedida do território. Nascido em
Portugal, destacou-se nas campanhas militares na Índia e na Malásia antes de ser
nomeado donatário de Pernambuco em 1534. Fundou Olinda e Recife, iniciou o cultivo
da cana-de-açúcar e pacificou grande parte do território, deixando uma capitania
próspera para seus sucessores.
11.2 Maurício de Nassau (1604-1679)
João Maurício de Nassau-Siegen foi o governador-geral do Brasil Holandês de 1637 a
1644. Alemão de nascimento, Nassau foi um administrador tolerante e visionário, que
promoveu o desenvolvimento cultural e científico de Pernambuco, incentivou as artes
e as ciências, e transformou Recife em uma das cidades mais modernas da época. Seu
governo é considerado um dos mais notáveis da história colonial brasileira.
11.3 Zumbi dos Palmares (c. 1655-1695)
Zumbi dos Palmares foi o último e mais famoso líder do Quilombo dos Palmares, a
maior e mais duradoura comunidade de escravos fugitivos da história do Brasil.
Guerreiro habilidoso e líder carismático, Zumbi resistiu por décadas aos ataques dos
portugueses, tornando-se um símbolo da resistência negra e da luta pela liberdade.
Sua morte, em 20 de novembro de 1695, é comemorada como o Dia da Consciência
Negra no Brasil.
11.4 Frei Caneca (1779-1825)
João Ribeiro Pessoa de Melo Montenegro, o Frei Caneca, foi um padre carmelita,
jornalista e político pernambucano que se tornou um dos principais ideólogos e
mártires da Confederação do Equador. Frei Caneca defendia o republicanismo, o
federalismo e a soberania popular, e foi um dos mais corajosos críticos do
autoritarismo de Dom Pedro I. Preso após a derrota da Confederação do Equador, foi
condenado à morte e fuzilado em 13 de janeiro de 1825, tornando-se um símbolo da
luta pela liberdade e pela democracia em Pernambuco.
11.5 João Pessoa (1878-1930)
João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque foi um político paraibano que governou a
Paraíba de 1928 a 1930. Seu assassinato em Recife, em 26 de julho de 1930, foi o
estopim da Revolução de 1930, que pôs fim à República Velha e levou Getúlio Vargas
ao poder. A capital da Paraíba, João Pessoa, recebeu seu nome em sua homenagem.
11.6 Miguel Arraes (1916-2005)
Miguel Arraes de Alencar foi um dos mais importantes políticos pernambucanos do
século XX. Governador de Pernambuco em três mandatos (1963-1964, 1987-1990 e
1995-1998), Arraes foi um defensor da reforma agrária, dos direitos dos trabalhadores
e da democracia. Deposto pelo Golpe Militar de 1964, foi preso e exilado, retornando
ao Brasil com a anistia de 1979. Sua trajetória política marcou profundamente a
história de Pernambuco e do Brasil.
11.7 Ariano Suassuna (1927-2014)
Ariano Vilar Suassuna foi um escritor, dramaturgo e professor pernambucano,
considerado um dos maiores nomes da literatura brasileira do século XX. Autor de
obras como “O Auto da Compadecida” e “A Pedra do Reino”, Suassuna criou o
Movimento Armorial, que buscava criar uma arte erudita brasileira a partir das raízes
da cultura popular nordestina. Sua obra é uma celebração da cultura e da identidade
pernambucana.
11.8 Chico Science (1966-1997)
Francisco de Assis França, o Chico Science, foi um músico pernambucano que
revolucionou a música brasileira na década de 1990. Fundador do grupo Nação Zumbi,
Chico Science criou o Manguebeat, um estilo musical que misturava o maracatu, o
coco e outros ritmos nordestinos com o rock, o funk e o hip-hop. O Manguebeat
projetou a cultura pernambucana no cenário nacional e internacional e influenciou
toda uma geração de músicos brasileiros.
QUESTÕES DE REVISÃO
1. Quais foram os principais grupos indígenas que habitavam o território de
Pernambuco antes da chegada dos europeus? Descreva suas características e sua
relação com os colonizadores.
2. Explique o sistema de Capitanias Hereditárias e as razões pelas quais a Capitania de
Pernambuco foi uma das poucas a prosperar.
3. Qual foi o papel de Duarte Coelho na colonização de Pernambuco? Quais foram suas
principais realizações?
4. Descreva a importância do açúcar para a economia colonial pernambucana,
abordando a estrutura do engenho, a mão de obra utilizada e os impactos sociais e
econômicos.
5. Explique as causas e as consequências da invasão holandesa de Pernambuco. Por
que a Holanda invadiu o Brasil?
6. Quais foram as principais realizações do governo de Maurício de Nassau em
Pernambuco? Por que seu governo é considerado um período notável na história
colonial brasileira?
7. Descreva a Insurreição Pernambucana (1645-1654) e explique a importância das
Batalhas dos Guararapes para a história do Brasil.
8. Compare a Revolução Pernambucana de 1817 com a Confederação do Equador de
1824, identificando semelhanças e diferenças em termos de causas, líderes e
resultados.
9. O que foi a Guerra dos Cabanos? Quais eram as reivindicações dos cabanos e por
que o movimento foi derrotado?
10. Explique a importância do Quilombo dos Palmares para a história da resistência
negra no Brasil. Quem foi Zumbi dos Palmares?
11. Descreva as principais manifestações da cultura popular pernambucana,
abordando o Frevo, o Maracatu e as festas populares.
12. Qual é a herança afrodescendente em Pernambuco? Como a cultura africana
influenciou a música, a culinária, a religião e a língua pernambucana?
Esta apostila foi elaborada com base em fontes históricas confiáveis e tem como
objetivo preparar os candidatos para o concurso da Polícia Militar de Pernambuco.
Recomenda-se a leitura complementar de obras especializadas e a resolução de
questões de concursos anteriores.
12. GABARITO COMENTADO DAS QUESTÕES DE
REVISÃO
Resposta 1: Os principais grupos indígenas de Pernambuco eram os Caretês e
Tabajaras (litoral e zona da mata, tronco Tupi) e os Cariris e Xucurus (sertão, tronco
Jê). Os Caretês eram inimigos dos portugueses, enquanto os Tabajaras foram seus
aliados. Os colonizadores exploraram as rivalidades entre as tribos para facilitar a
conquista.
Resposta 2: O sistema de Capitanias Hereditárias foi criado em 1534 para efetivar a
colonização e defender o território. O Brasil foi dividido em 15 faixas de terra doadas a
donatários. Pernambuco prosperou graças ao solo fértil (massápe), ao clima favorável
para a cana-de-açúcar, à habilidade administrativa de Duarte Coelho e à proximidade
com a Europa.
Resposta 3: Duarte Coelho fundou Olinda (1535) e Recife (1537), iniciou o cultivo da
cana-de-açúcar, estabeleceu alianças com os Tabajaras, combateu os Caretês e deixou
uma capitania próspera. Governou de 1535 a 1554.
Resposta 4: O açúcar era o principal produto da economia colonial pernambucana. O
engenho era a unidade produtiva central, composto por casa-grande, senzala, canavial
e casa do engenho. A mão de obra era inicialmente indígena e depois africana
escravizada. A economia gerou riqueza para a elite agrária, mas criou dependência
econômica e desigualdade social.
Resposta 5: A Holanda invadiu Pernambuco em 1630 porque, com a União Ibérica
(1580-1640), os portos portugueses foram fechados para os holandeses,
interrompendo o lucrativo comércio de açúcar. A WIC (Companhia das Índias
Ocidentais) organizou a invasão para retomar o controle do comércio açucareiro.
Resposta 6: Nassau promoveu tolerância religiosa, trouxe artistas (Frans Post, Albert
Eckhout) e cientistas (Georg Marcgraf, Willem Piso), construiu palácios, pontes e
jardins em Recife, criou o primeiro observatório astronômico das Américas e
incentivou a recuperação da economia açucareira.
Resposta 7: A Insurreição Pernambucana (1645-1654) foi liderada por João Fernandes
Vieira, André Vidal de Negreiros, Felipe Camarão e Henrique Dias. As Batalhas dos
Guararapes (1648 e 1649) foram decisivas para a expulsão dos holandeses. São
consideradas o marco fundador da nação brasileira por terem sido travadas por um
exército multiétnico.
Resposta 8: Ambos os movimentos eram republicanos e separatistas, liderados pela
elite pernambucana. A Revolução de 1817 foi contra o domínio português (Dom João
VI), durou 75 dias e teve seus líderes executados. A Confederação do Equador (1824)
foi contra o autoritarismo de Dom Pedro I, teve Frei Caneca como mártir e também foi
derrotada.
Resposta 9: A Guerra dos Cabanos (1832-1835) foi um movimento popular de caráter
restaurador, que defendia a volta de Dom Pedro I. Era composto por trabalhadores
rurais, indígenas e escravos fugitivos. Foi derrotado pela repressão militar e pela
morte de Dom Pedro I em Portugal.
Resposta 10: O Quilombo dos Palmares foi a maior comunidade de escravos fugitivos
do Brasil, localizado na Serra da Barriga (PE/AL), com mais de 20 mil habitantes.
Resistiu por quase um século. Zumbi dos Palmares foi seu último líder, morto em
20/11/1695. Essa data é o Dia da Consciência Negra.
Resposta 11: O Frevo é um ritmo e dança nascido no Recife no século XIX, misturando
marcha, maxixe e capoeira (Patrimônio da UNESCO desde 2012). O Maracatu tem
origem nas coroações dos reis do Congo e se divide em Nação (Baque Virado) e Rural
(Baque Solto). As festas populares incluem o Carnaval de Recife/Olinda, o São João de
Caruaru e a Paixão de Cristo de Nova Jerusalém.
Resposta 12: A herança afrodescendente em Pernambuco se manifesta na música
(Maracatu, Coco de Roda, Afoxê), na culinária (uso de dendê, coco, quiabo), na religião
(Candomblé, Umbanda), na língua (palavras de origem africana) e nas comunidades
quilombolas remanescentes. O Dia da Consciência Negra (20⁄11) celebra essa herança.
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Pernambuco colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
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