Transtorno do Espectro Autista – Uma breve contextualização
Dra Deborah Kerches
Neurologista da infância e adolescência
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento, de
início precoce, isto é, os sintomas estão presentes desde o início da infância, caracterizado
por prejuízos centrais em 2 domínios: prejuízos persistentes na comunicação e interação
social e padrões restritos e repetitivos de comportamentos, interesses ou atividades (APA,
2013).
Há um universo de possibilidades sintomatológicas dentro do espectro que irão impactar
na gravidade, planos individuais de tratamento e ao longo da vida deste indivíduo.
Ao avaliarmos uma criança, adolescente ou adulto com suspeita de TEA, deve estar claro
na história clínica que os sintomas estavam presentes no início da infância.
O que pode acontecer é que em alguns casos mais brandos, os sintomas eram tão sutis ou
mascarados por estratégias sociais aprendidas, que se tornam mais claros com o aumento
das demandas sociais. Em uma parcela aproximada de 1/3 dos casos, pode ocorrer da
criança apresentar desenvolvimento “aparentemente” dentro do esperado e, em torno de
15-36 meses, apresentar perdas de habilidades anteriormente adquiridas, o que chamamos
de autismo regressivo (que tem sido reportado à uma poda neuronal ineficiente da
primeira infância). Os sintomas precisam trazer prejuízos significativos no
funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida.
Alterações motoras podem ser observadas em cerca de 83% das crianças no espectro
autista e podem somar prejuízos ao desenvolvimento se não tratadas (Quedas et al., 2020).
Precisamos de boa capacidade motora para explorarmos e respondermos aos estímulos
recebidos do ambiente (Lai MC et al. Autism. Lancet, 2014; Rinehart et al, 2010.)
O diagnóstico é clínico seguindo orientações dos critérios diagnósticos estabelecidos pela
5ª edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5 –
American Psychiatric Association, 2013). É realizado por meio de observação direta do
repertório comportamental, entrevistas com os pais, cuidadores e pessoas da convivência,
avaliações multidisciplinares quando presentes e é importante considerar a experiência
do profissional (Lord et al., 2020).
Desde 2013, na 5ª revisão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais
(DSM 5), houve unificação de todos os transtornos relacionados ao autismo em um único
diagnóstico -Transtorno do Espectro Autista (TEA).
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A Organização Mundial de Saúde em 18 de junho de 2018 lançou a 11ª revisão da CID
(CID-11), estabelecendo critérios diagnósticos do autismo semelhantes ao DSM-5. A
CID-11 entrou em vigor em 1º de janeiro de 2022.
Ainda não há marcadores biológicos e exames específicos que confirmem o diagnóstico
de Transtono do Espectro Autista. Nós temos algumas escalas padronizadas para o
rastreio do TEA, mas não são suficientes para excluir ou diagnosticar o espectro autista.
Exames como eletroencefalograma, neuroimagem, exames metabólicos, testes
neuropsicológicos, genéticos, podem ser necessários para investigar condições
associadas.
Critérios diagnósticos para o TEA do DSM-5 (APA, 2013):
A. Déficits persistentes na comunicação social e na interação social manifestadas em
todas as maneiras seguintes, atualmente ou por história prévia:
1- Déficits na reciprocidade socioemocional;
2- Déficits nos comportamentos comunicativos não verbais usados para interação
social;
3- Déficits para desenvolver, manter e compreender relacionamentos, variando, por
exemplo,
de dificuldade em ajustar o comportamento para se adequar a contextos sociais
diversos a
dificuldade em compartilhar brincadeiras imaginativas ou em fazer amigos, a
ausência de
interesse por pares.
B. Padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades,
manifestados por pelo menos dois dos seguintes, atualmente ou por história prévia:
1- Movimentos motores, uso de objetos ou fala estereotipados ou repetitivos;
2- Insistência nas mesmas coisas, adesão inflexível a rotinas ou padrões ritualizados
de comportamento verbal ou não verbal;
3- Interesses fixos e altamente restritos que são anormais em intensidade ou foco;
4- Hiper ou hiporreatividade a estímulos sensoriais ou interesse incomum por
aspectos sensoriais do ambiente.
C. Os sintomas devem estar presentes precocemente no período do desenvolvimento (mas
podem não se tornar plenamente manifestos até que as demandas sociais excedam as
capacidades limitadas ou podem ser mascarados por estratégias aprendidas mais tarde
na vida).
D. Os sintomas causam prejuízo clinicamente significativo no funcionamento social,
profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo no presente.
E. Essas perturbações não são mais bem explicadas por deficiência intelectual
(transtorno do desenvolvimento intelectual) ou por atraso global do desenvolvimento.
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A habilidade de se comunicar e interagir socialmente leva em consideração várias
competências que estão comprometidas no espectro do autismo como:
• Teoria da Mente: refere-se à habilidade em considerar os próprios estados mentais
e o dos outros com a finalidade de compreender e predizer seus comportamentos.
Essa habilidade possibilita considerar o que as pessoas estariam pensando e
fazendo em determinado contexto, ter compreensão do ponto de vista do outro,
predizer o comportamento, pensamento do outro. Esta habilidade é extremamente
necessária nas mais diversas situações sociais. É pré-requisito para padrões de
interação social, desenvolvimento de jogo simbólico, entre outros.
• Teoria da Coerência central: refere-se à habilidade de processar as informações
de partes integrando-as em um contexto com significado. Há uma alteração no
processamento da informação em vários níveis (perceptivo, visuoespacial e
semântico verbal) que resulta em um processamento centrado nos detalhes, em
detrimento ao contexto global.
• Linguagem receptiva - está relacionada com o quanto se é capaz de compreender
o que ouve, lê, para, então, conseguir se comunicar em resposta, quer seja de
maneira verbal ou não verbal.
• Linguagem expressiva - habilidade de se expressar, verbalmente ou não, após
adquirir a capacidade de compreender não só o que ouve, mas conceitos sociais e
de adquirir experiências significativas. No Transtorno do Espectro Autista, a
compreensão e a linguagem pragmática (uso da linguagem nos mais diferentes
contextos sociais) estão sempre comprometidas, em maior ou menor grau.
Os déficits na comunicação verbal envolvem: atrasos na aquisição da fala que costuma
ser em grande parte dos casos o primeiro sinal de alerta, porém, nem todos apresentam
atrasos na aquisição da fala; ausência de atrasos significativos na aquisição de fala ou fala
adquirida dentro dos marcos do desenvolvimento, porém com particularidades como
repertório extenso sobre assuntos de interesse, vocabulário rebuscado, alteração de
prosódia, vocabulário repetitivo e monótono; alguns adquirem a fala, porém perdem essa
habilidade. O repertório verbal pode se apresentar ainda com inversão pronominal, uso
de palavras ou frases pouco usuais e/ou fora do contexto, ecolalias (repetição de palavras
ou frases que pode ocorrer de maneira imediata ou tardia), inabilidade em iniciar ou
manter um diálogo mesmo naqueles com fala estruturada. A dificuldade em
contextualizar a fala dificulta também a compreensão do sentido figurado da fala,
compreender piadas, por exemplo; habilidades importantes principalmente em contextos
sociais.
Os déficits nos comportamentos comunicativos não verbais envolvem: prejuízos na
qualidade do contato visual; na atenção compartilhada; em compreender e usar gestos e
expressões com função comunicativa; responder menos quando chamado; ausência ou
poucas expressões faciais e dificuldade em compreendê-las no outro.
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Com relação ao contato visual é importante contextualizar que é uma importante via para
a comunicação, relações sociais e interpessoais, experiências e aprendizado. Para pessoas
com TEA o contato visual pode ser desconfortável pois fornece muitas informações e
pode hiperestimular um cérebro já hiperexcitado.
• Funções executivas: Comumente são observados déficits atencionais,
no planejamento, sequenciamento e execução de tarefas, em inibir respostas
irrelevantes (controle inibitório), em monitorar suas ações bem como dificuldade
em encontrar caminhos diferentes para resolução de problemas, na flexibilidade
cognitiva, mémoria de curto prazo; comprometendo, assim, o ajuste do
comportamento às mais diversas situações sociais, a reciprocidade
socioemocional, entre outros.
Em relação aos padrões restritos e repetitivos de comportamentos, interesses ou
atividades, vale contextualizar sobre:
• Estereotipias: são ações repetitivas, frequentemente ritmadas, podendo ser vocais
ou motoras, com componentes sensoriais ou não. As estereotipias não são
exclusivas do TEA. No espectro autista costumam se apresentar em situações de
ócio, sobrecarga sensorial, em situações de extrema excitação assim como em
situações de frustração, mudanças de rotina, como uma forma de autorregulação
ou autoestimulação.
• Hiperfoco: é uma forma intensa de concentração em algo que seja um interesse
restrito e não é exclusiva do espectro autista. No TEA o hiperfoco pode ser um
refúgio durante estresse, situações desconfortáveis, momentos ociosos ou
simplesmente se comportar como um interesse restrito prazeroso. Há situações
nas quais o hiperfoco pode dificultar o aumento de repertório de novos
aprendizados, porém, quando explorado e trabalhado adequadamente, pode ser o
“ponto de partida” para aumentar o repertório de habilidades e competências. O
hiperfoco se não for adequadamente manejado, pode trazer prejuízos pois
distancia de contextos e interações sociais.
• Respostas atípicas sensoriais que envolvem hiper ou hiporreatividade a estímulos
sensoriais ou interesses incomuns por aspectos sensoriais do ambiente: Pessoas
com autismo apresentam de maneira mais ou menos intensa alterações na forma
como respondem aos estímulos do ambiente em uma ou mais portas sensoriais
(audição, olfato, visão, tato, paladar, propriocepção, sistema vestibular).
Exemplos: indiferença à dor; aversão ao toque enquanto outros procuram por
toques mais intensos; seletividade alimentar que pode ser consequente à aversão
a determinadas texturas, odores, paladar, percepção visual (mas pode ser também
consequentente à rigidez mental – insistência na mesmice: comer sempre o
mesmo alimento); alteração de equilíbrio, marcha na ponta dos pés, busca oral
(levar tudo à boca); busca sensorial (inquietude, “andar de um lado para outro”),
entre outros.
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Níveis do TEA
Os níveis de gravidade estão relacionados com a capacidade de comunicação social e o
comportamento rígido e repetitivo, o que vai impactar diretamente em quanto esta pessoa
será funcional e o apoio necessário para isto.
• Nível 1: indivíduos no TEA nível 1 de suporte apresentam bom funcionamento com
apoio. Na ausência de apoio, déficits na comunicação e interação social assim
como padrões comportamentais causam prejuízos notáveis. As pessoas que se
encontram no espectro do autismo nível 1 não apresentam atrasos
cognitivos/intelectuais e de aquisição de fala significativos.
• Nível 2: indivíduos no TEA nível 2 de suporte exigem apoio substancial. Há
prejuízos sociais aparentes mesmo na presença de apoio (funcionamento
mediano).
• Nível 3: indivíduos no TEA nível 3 de suporte exigem apoio muito substancial com
graves prejuízos em seu funcionamento. Apresentam déficits expressivos nas
habilidades de comunicação social verbal e não verbal. As pessoas que se
encontram no espectro autista nível 3 de suporte comumente apresentam
transtorno do desenvolvimento intelectual e inabilidades importantes nas
habilidades/atividades de vida diária.
O quadro se modifica ao longo da vida de acordo com diagnóstico e intervenção precoces,
processos maturativos decorrentes de experiências e intervenções vividas, resposta
individual às intervenções, deficiência intelectual associada (30-40%), aquisição de
linguagem verbal que está diretamente associada com melhores respostas sociais,
aquisição de comunicação não verbal que possibilite interações sociais e a presença de
comorbidades que são outras condições associadas que podem somar prejuízos e interferir
negativamente em planos de intervenção.
Prevalência do TEA
Segundo a OMS, estima-se que 1 a 2% da população mundial encontra-se no Espectro do
Autismo.
O que temos de dados de prevalência mais atual é um estudo divulgado em dezembro de
2021 pelo CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças), órgão ligado ao governo
dos Estados Unidos, em que se observou uma prevalência de 1:44, segundo análise de
dados de 2018. Os dados foram obtidos de 11 comunidades dos EUA na Rede de
Monitoramento de Autismo e Deficiências (ADDM) do CDC (Maenner et al. 2021).
Ainda segundo este estudo, o TEA continua mais prevalente em meninos, na proporção
de 4:1, embora a comunidade científica estude a possibilidade de critérios diferentes para
o diagnóstico do TEA feminino, especialmente nível 1 de suporte.
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O aumento da prevalência reflete certamente: a expansão e melhora dos critérios
diagnósticos após a quinta revisão do DSM (DSM-5), reconhecimento do TEA em
crianças previamente diagnosticadas com deficiência intelectual ou outra condição do
neurodesenvolvimento, maior conscientização da sociedade a respeito dos sintomas do
autismo fazendo com que mais famílias estejam atentas aos sintomas em seus filhos e
procurem por especialistas, profissionais mais capacitados, possíveis diferenças na
metodologia dos estudos, não ficando ainda claro um aumento real do autismo, porém, é
possível um verdadeiro aumento na prevalência de TEA associado a outros fatores de
risco.
Apesar dos avanços no entendimento da neurobiologia e genética do TEA, o diagnóstico
é clínico e isto também impacta em estudos de prevalência, uma vez que está relacionado
à consistência de um diagnóstico baseado na identificação, avaliação clínica e relato de
sintomas clínicos definidos pelo comportamento.
No Brasil não temos ainda um estudo consistente sobre a prevalência do autismo.
Causas
O Transtorno do Espectro Autista é clinicamente e etiologicamente heterogêneo, sendo
multigênico e multifatorial.
Estudos recentes têm demonstrado a forte influência genética no Transtorno do Espectro
Autista, com alta herdabilidade (81%) e 18 a 20% dos casos com causa genética somática,
ou seja, não hereditária, que são alterações novas que ocorrem apenas no indivíduo em
questão – “de novo” (Bai et al., 2019). A associação com alguns fatores de risco
ambientais necessitam de estudos mais consistentes. Estudos em gêmeos indicam risco
em gêmeos idênticos de 80%-90% e, em gêmeos fraternos, 40%. Os avanços tecnológicos
têm sido importantes para a identificação de genes relacionados ao TEA.
Pais que têm um filho no espectro do autismo apresentam um risco de 10 a 20% do
segundo filho estar no espectro, sendo este risco maior quando o primeiro filho é uma
menina. Quando se tem 2 filhos no espectro, o risco para o terceiro filho aumenta. Irmãos
podem apresentar alguns sintomas do TEA sem atingir critérios para diagnóstico e sem
apresentar prejuízos que os limitem, sendo descritos como fenótipo ampliado do autismo.
Embora uma única alteração genética seja suficiente para causar o TEA, na maioria dos
casos o que ocorre são alterações envolvendo distúrbios moleculares complexos em
múltiplos genes importantes para os processos biológicos, e também em genes que
controlam e interferem na expressão gênica durante o neurodesenvolvimento. Várias
variantes genéticas associadas ao TEA estão ainda relacionadas a outras condições do
neurodesenvolvimento, como Deficiência Intelectual (DI), Transtorno de Déficit da
Atenção e Hiperatividade (TDAH) e outras condições psiquiátricas como esquizofrenia,
depressão. Ainda é um grande desafio definir genes e suas respectivas variantes genéticas
que sejam de relevância clínica para associação com o TEA.
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Com relação aos fatores ambientais, os 2 fatores de risco mais importantes e já bem
estudados na literatura são a idade paterna acima de 40 anos (que estaria relacionada a
maiores riscos de mutações germinativas) e o uso de ácido valpróico na gestação, um
fármaco antiepiléptico que também é utilizado para tratamento de transtornos de humor,
entre outros. Outros fatores ambientais pré e perinatais como idade materna avançada,
infecções neonatais (em particular, rubéola, citomegalovírus, toxoplasmose), anóxia
neonatal, prematuridade, baixo peso ao nascimento, retardo de crescimento intrauterino
(RCIU), obesidade materna, diabetes gestacional, gestações múltiplas, são fatores
relacionados a risco aumentado de TEA, mas ainda carecem de mais estudos com
conclusões mais firmes. Estes fatores podem apresentar risco para o desenvolvimento
cerebral pré-natal ou afetar a função e expressão gênica em indivíduos com predisposição
genética ao espectro autista.
Vale reforçar que, em relação a vacinas, a literatura científica não apoia sua associação
como fator ambiental que aumentaria o risco de TEA. Crianças com autismo ou não
devem ser vacinadas de acordo com o esquema recomendado.
Diagnóstico precoce
O diagnóstico precoce é determinante para o desenvolvimento de habilidades e
competências em toda sua capacidade assim como para qualidade de vida da pessoa com
TEA e seus familiares.
Devemos estar atentos aos marcos evolutivos do desenvolvimento neuropsicomotor e de
habilidades socioemocionais, além de perdas de habilidades já adquiridas!
O modo como a criança interage, brinca, fala, se comporta, movimenta e aprende, oferece
pistas importantes sobre o seu desenvolvimento!!!
SINAIS DE ALERTA NOS 2 PRIMEIROS ANOS DE VIDA
• Prejuízos no contato visual que pode ser observado já nos primeiros meses de
vida;
• Ausência do sorriso social por volta dos 2 - 4 meses;
• Não apresentar reação antecipatória aos 4 meses;
• Poucas expressões faciais, pouco engajamento aos 6 meses;
• Não fazer trocas de turno comunicativas aos 9 meses, não balbuciar, imitação
pobre, não olhar para onde apontam ou quando chamado pelo nome (AC), não
responder às tentativas de interação aos 9 meses;
• Aos 12 meses não falar ao menos 2 palavras com função (como “mamãe” e
“papai”), apresentar déficits na atenção compartilhada e nos comportamentos
comunicativos não verbais (como apontar, fazer “tchau”, mandar beijos), não
brincar funcional, não compreender e seguir comandos;
• Com 18 meses não falar pelo menos 6 palavras com função, não saber partes do
corpo, não responder em reciprocidade;
• Com 2 anos não fazer frases simples de 2 palavras, não brincar simbólico.
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Em qualquer idade, perder habilidades já adquiridas, comportamentos rígidos,
restritos e repetitivos e prejuízos sociais são sinais de alerta para o TEA.
Seguem alguns desafios comumente presentes quando iniciamos a intervenção em
crianças com TEA:
• Engajamento: é a base para a aprendizagem em todas as áreas. É necessário se
conectar à pessoas, objetos, brinquedos, brincadeiras e entre eles para aprender.
O desenvolvimento da linguagem está diretamente relacionado com o
engajamento conjunto e compartilhado (Adamson et al., 2004). Atenção
compartilhada acontece com maior probabilidade quando em estado de
engajamento conjunto.
• Atenção compartilhada (AC): é a habilidade de coordenar a atenção entre dois
parceiros comunicativos sociais em relação a um terceiro referencial externo,
como um objeto, atividade (Tomasello, 2003), engajando, assim, em uma mesma
atividade com o outro, possibilitando o compartilhamento de experiências.
O desenvolvimento da AC começa desde o nascimento, com as primeiras interações
sociais. Por volta de 9 meses o bebê já começa a fazer AC. Com 11 meses, 80% dos bebês
são capazes de fazer AC e, por volta de 14 meses, 100% dos bebês devem fazer AC.
A atenção compartilhada é um dos pré-requisitos para o desenvolvimento da linguagem
(Kasari et al., 2012), habilidades sociais e emocionais; favorece aprendizados por
imitação e o desenvolvimento de funções executivas como planejamento e
monitoramento de ações. Está ainda relacionada com o entendimento acerca de
comportamentos inapropriados e/ou de riscos, quando a criança, por exemplo, toma a
iniciativa de fazer algo, mas logo olha para os pais/cuidadores para ver a reação deles em
relação a isso, entre muitos outros aspectos. Déficit nesta habilidade costuma ser um
preditor importante para o Transtorno do Espectro Autista.
A AC compreende componentes de resposta (compreensão da intenção do outro),
iniciativa e intenção comunicativa.
Dada a importância dessa habilidade para os mais diversos aspectos do desenvolvimento,
programas de ensino para atenção compartilhada devem ser prioridade no tratamento de
crianças com TEA.
• Habilidades de jogo: são habilidades que trabalham cognição, motor, linguagem,
social, resolução de problemas, flexibilidade, simbólico, entre outros. Devem
conter variações e o nível de complexidade deve ser avaliado de acordo com o
repertório comportamental de base da criança (Kasari et al., 2012).
• Imitação: é uma habilidade inata e essencial para os nossos inúmeros
aprendizados. Desde o nascimento vamos sendo apresentados às mais diversas
experiências, as quais possibilitam, por meio da observação dos outros, aprender
através da imitação de gestos, sons, fala, ações, comportamentos, atividades de
vida diária, entre outros, ao longo de toda a vida.
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• Trocas de turno comunicativas: consistem em atos comunicativos com trocas
interativas, relacionais. Envolve pedir o que deseja para um parceiro social e após,
aguardar a resposta e/ou a solicitação deste parceiro, favorecendo uma interação.
Comunicação social é troca. Os atos comunicativos podem ser verbais, vocais,
gestuais, por instrumentos de comunicação alternativas.
• Regulação: capacidade de se regular/monitorar em um dado contexto. Crianças e
adolescentes regulados estão em um melhor estado para aprendizagem. Sinais de
regulação: criança atenta, sem agitação psicomotora, com comportamentos
ajustados ao contexto.
Comportamentos-problema: inflexibilidade cognitiva, sobrecarga sensorial, quebra de
rotina, frustrações, espera prolongada, demandas com alto custo de resposta, fome, sono,
cansaço, dor, medo, incompreensão de regras e normas de convívio, distúrbios de sono,
efeitos colaterais de medicamentos, entre outros, podem desencadear comportamentos-
problema.
Transtorno do espectro autista feminino
O modelo genético que melhor explica a ocorrência do TEA, conhecido como “modelo
de copo”, seria uma provável explicação para a maior prevalência estimada no sexo
masculino, uma vez que meninas, para estarem no espectro, precisariam de mais variantes
genéticas associadas ou não a fatores ambientais para atingir o “limiar do copo” (Hoang
et al., 2018).
Mas, ainda assim, acredita-se que essa discrepância na prevalência esteja associada, em
grande parte, a subdiagnósticos, especialmente no caso de meninas/mulheres que se
encontram no espectro nível 1 de suporte, levando em conta que o diagnóstico no público
feminino é mais desafiador, por diferentes motivos.
O funcionamento cerebral feminino apresenta diferenças, mesmo que sutis, em sua
arquitetura e atividade, sendo importante destacar a maior densidade de neurônios em
áreas relacionadas à linguagem, associada à maior habilidade para imitação, habilidades
sociais, comunicativas e empatia. Isso prevê menores dificuldades para relações sociais,
interesses restritos que podem passar despercebidos ou não serem considerados
“atípicos”, menor tendência a comportamentos-problema (agressividade, inquietude e
comportamentos disruptivos em geral) e maior uso de estratégias de camuflagem social.
Em contraste à externalização, a internalização de dificuldades emocionais é mais
comumente observada entre as mulheres autistas quando comparadas aos homens com
TEA, o que as torna mais suscetíveis a quadros de ansiedade, depressão, automutilação,
distúrbios de alimentação. Esse é um ponto que pode de duas maneiras interferir no
diagnóstico assertivo de TEA: pode contribuir para que as meninas/mulheres recebam
um diagnóstico apenas da condição comórbida; e, por outro lado, pode reforçar aspectos
particulares de gênero no reconhecimento do autismo, já que as expressões
comportamentais dos homens com TEA tendem a chamar mais a atenção do que as das
mulheres (Jacquemont et al., 2014).
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Associa-se a essas particularidades o fato de a sociedade esperar comportamentos
distintos entre meninos e meninas. Uma menina que apresente alguma dificuldade na
comunicação e interação social, por exemplo, que não goste de toque, beijos ou brincar
com outras crianças, pode ser considerada somente uma criança mais tímida. Por outro
lado, meninos que se comportam de maneira mais retraída chamam mais a atenção de
todos.
Tudo isso contribui para que características mais sutis presentes em algumas meninas e
mulheres fiquem mascaradas, atrasando seus diagnósticos.
Os marcadores comportamentais utilizados como critérios diagnósticos para o TEA são,
em maioria, estabelecidos com base em populações predominantemente
masculinas previamente identificadas como autistas. Dessa forma, acredita-se que
meninas e mulheres podem ter menor probabilidade de atenderem a esses critérios, já
que a apresentação do TEA mais comumente observada entre o público feminino envolve
características autistas subjacentes (que não se manifestam claramente) semelhantes às
descritas nos critérios diagnósticos atuais.
É importante ainda no diagnóstico do TEA feminino considerar a maior tendência desse
público ao uso de estratégias de camuflagem social.
Camuflagem social refere-se a um conjunto de estratégias desenvolvidas pelo próprio
indivíduo com TEA a fim de “camuflar”/“mascarar” comportamentos característicos do
espectro autista, com o objetivo de se adaptar melhor e atender às expectativas dos mais
diversos contextos sociais (Hull et al., 2020).
Apesar de pode ser adotada por ambos os sexos, há um predomínio em meninas/mulheres
sem deficiência intelectual.
A camuflagem social pode se apresentar de três maneiras: compensação (prevê copiar
comportamentos e falas, criar um roteiro de uma possível interação social etc.);
mascaramento (monitoração das próprias expressões corporais e faciais, a fim de não
demonstrar que a interação social está exigindo um esforço desgastante) e assimilação
(que prevê atuação em determinado contexto social, por meio de estratégias,
comportamentos e até mesmo de outras pessoas, para passar a impressão de que a
interação social está sendo feita) (Hull et al., 2020).
A camuflagem social no contexto do TEA exige um esforço cognitivo considerável,
gerando constantemente exaustão emocional e até física, impactando frequentemente em
sofrimento psíquico. Sendo um fenômeno ainda pouco reconhecido por profissionais de
saúde, parece relacionar-se a uma menor frequência de diagnósticos de TEA e a um
número maior de diagnósticos errôneos.
Apesar das prováveis diferenças na apresentação das características, os critérios
diagnósticos para o TEA são os mesmos para ambos os sexos. Identificar o autismo nível
1 de suporte, tanto em meninas como em meninos, é naturalmente mais desafiador e pode
ficar ainda mais complexo no caso de meninas se pensarmos em todas essas
particularidades. Já as meninas com TEA nível 2 e 3 são diagnosticadas mais
precocemente, pois apresentam déficits e excessos comportamentais mais expressivos.
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Por tudo isso, um dos grandes desafios hoje ainda é treinar o olhar dos profissionais da
saúde que acompanham a criança, assim como orientar pais, familiares, educadores e a
sociedade em geral para que alguns sinais mais sutis não sejam ignorados e/ou justificados
como “comportamentos esperados entre meninas ou meninos”.
Tratamento no TEA
O tratamento no TEA deve ser individualizado, multidisciplinar e interdisciplinar, de
início imediato, contínuo e por tempo indeterminado com orientação de pais e
professores.
Segundo LeBlanc e Gillis (2012), para um melhor prognóstico e redução do custo social
e econômico para as famílias são necessárias ações precoces, prolongadas e
psicoeducacionais, sendo que as intervenções com resultados mais efetivos derivam da
terapia comportamental.
A intervenção comportamental intensiva e precoce (ou EIBI, do inglês Earl Intensive
Behavioral Intervention) pode produzir mudanças significativas no comportamento de
pessoas com TEA (Virués Ortega, 2010). Nesse sentido a intervenção deve ser
individualizada, com uma agenda de 15 a 40 horas semanais, por pelo menos dois anos
consecutivos, abrangendo várias áreas do desenvolvimento simultaneamente
fundamentados nos princípios de Análise do Comportamento (Green, 1996),
caracterizados como Análise do Comportamento Aplicada (Applied Behavior Analysis -
ABA) dedicada ao estudo de comportamentos socialmente aceitos (Baer et al., 1968).
Segundo Lovaas (1987) a terapia comportamental baseada nos princípios da ABA é o
tratamento mais indicado no espectro autista e deve ser realizada em todos os ambientes
(Loovas, 1987). Este tratamento tem sido o de escolha para o TEA (National Autism
Center, 2009). É realizada análise da função dos comportamentos relevantes, condições
de ensino, arranjos ambientais e variáveis motivacionais (consequências reforçadoras)
para promover o desenvolvimento desses comportamentos (se ausentes) e seu
fortalecimento, se eles ainda ocorrem de maneira incipiente (Skinner, 1968).
O ensino intensivo dentro da análise do comportamento aplicada passa por um processo
de progressão de habilidades e competências para preenchimento das lacunas no
desenvolvimento, redução gradual de apoios com foco na promoção de independência e
manutenção de aprendizados já adquiridos.
Treino parental deve ser incluído no plano de tratamento da criança e é fundamental para
o aumento do repertório de habilidades e generalização dos aprendizados.
Deve-se construir e manter um programa de rotina e previsibilidade que é fundamental
para nortear e evitar que a criança se desorganize e engaje em comportamentos
disruptivos, indesejados. É necessário construir e manter a rotina em todos os ambientes
que a criança frequenta.
O enriquecimento do ambiente é fundamental, oferecendo além de oportunidades de
aprendizagem, segurança, apoio, afeto e amor.
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Comunicação suplementar alternativa ou aumentativa pode ser necessária dentro do
programa de ensino para favorecer a comunicação funcional e contribuir para o
desenvolvimento e aumento do repertório verbal.
Exercícios físicos devem fazer parte da rotina das crianças e adolescentes com TEA
contribuindo para uma melhor qualidade motora e dos movimentos, além de ser
importante ferramenta para regulação emocional, para atenção, no manejo de ganho de
peso, entre outros.
É importante ainda uma rede de apoio para os cuidadores.
Não há tratamento medicamentoso para as características centrais ou sintomas alvo do
TEA, porém, por vezes, é necessário fazer uso do tratamento medicamentoso no sentido
de tratar comorbidades ou sintomas que estejam somando prejuízos, mesmo que
manejados em intervenções comportamentais multidisciplinares.
Pode ser necessário, na grande maioria dos casos, implementação de um plano de ensino
individualizado (PEI) com currículo e materiais adaptados assim como um acompanhante
especializado(a), o que está previsto na Lei 12.764, de 27 de dezembro de 2012 (Lei
Berenice Piana). Tanto o PEI, quanto o(a) acompanhante especializado(a) devem estar
alinhados com a equipe que assiste a criança ou o adolescente.
A falta de informação contribui para maiores desafios para as pessoas no espectro autista
e seus familiares.
Com informações qualificadas, apoio e tratamentos especializados e assertivos, estamos
contribuindo para o desenvolvimento do indivíduo no espectro do autismo em toda sua
potencialidade, assim como para melhor qualidade de vida.
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