Nove de agosto amanheceu sem vento. Quem não mora aqui não entende o tamanho disso.
O vento em Curitiba é uma
coisa de fundo, como o motor da geladeira: ninguém repara nele até o dia em que ele para. Quando para, a cidade fica
com um problema de acústica. O som passa a viajar. Você ouve um portão a dois quarteirões, ouve a conversa de duas
pessoas do outro lado de uma praça palavra por palavra, ouve o ônibus muito antes de ver o ônibus. Entre as sete e as
oito da manhã daquele sábado eu ouvi, da minha cozinha, o rapaz da padaria puxando a grade, o carro do gás com o
alto-falante, e um cachorro que eu nunca tinha ouvido na vida, que devia morar a três ruas dali e que provavelmente
late todo santo dia. Três graus às sete. Treze às dez. Um céu azul sem uma emenda, daqueles que aparecem em
agosto,enganam a cidade inteira e duram um dia e meio. Na terça-feira ele passou no apartamento para buscar uma
ferramenta. Na quinta à noite eu abri um envelope pardo. Na sexta eu fiz uma lista. É só isso que vai ter aqui sobre a
quintafeira. A lista eu fiz na mesa da cozinha, com o pincel atômico de traço grosso que eu uso para etiquetar caixa,
porque a caneta esferográfica não estava onde deveria estar e eu não estava disposta a procurar. Quatro assuntos, com
duração estimada ao lado, do jeito que eu monto uma troca de cenário: H E L E N A V A L E N Ç A 252 O tempo — 4 (só
serve para começar) Cine Bandeirante — 15 502 — 10 Petit-pavé — 8 Dá trinta e sete. A hora tem sessenta. Eu fiz essa
conta no momento de escrever e não acrescentei nada. Eu ainda tenho a lista. Está numa gaveta. Sobre a pasta eu
tomei uma decisão às onze e meia da noite de sexta, que foi não botar numa sacola. Eu cheguei a pegar uma sacola de
tecido da feira, dessas com alça comprida, e a pasta entrava com folga. Uma pasta dentro de uma sacola é uma pasta
que alguém quis esconder de si mesma no caminho. Devolvi a sacola ao gancho e deixei a pasta em pé no chão,
encostada na parede do corredor. Ela tinha dormido em quatro lugares diferentes desde terça-feira e aquele foi o
último. A fivela eu tinha fechado no segundo furo, que é o furo que estava marcado no couro. Eu conferi duas vezes.
Cheguei na praça às nove e trinta e quatro. O banco estava seco. Foi a primeira vez em nove sábados que o banco
estava seco, e um banco de concreto seco em agosto é uma coisa que a gente não sabe usar: você senta e não acontece
nada, não sobe frio, não gruda, não molha, ele simplesmente aceita. Eu sentei no meu lado, que é o lado da banca. E aí
eu experimentei três posições para a pasta. A primeira foi deitada no assento, do meu lado esquerdo, com a lombada
para fora. Ficou parecendo que eu tinha trazido para abrir. A segunda foi no chão, encostada no pé do banco, do lado de
dentro, que é exatamente onde ele bota a pasta desde junho — e ficou parecendo outra coisa, que eu não vou tentar
nomear porque naquele momento eu também não nomeei; eu só tirei do chão em D O Z E S E M A N A S DE S I L Ê N C I
O 253 menos de dois segundos. A terceira foi em pé, apoiada na quina do assento, na ponta do banco, com a alça caída
para o lado de fora. Ficou a terceira. Sobraram vinte e quatro minutos. Eu contei os pregadores de madeira do plástico
da banca: sete na frente, dois na lateral, e o da lateral com a mola frouxa continua sendo o de baixo. Contei os ligustros,
que são quatro e que tinham sido podados na semana anterior, porque a bola de dois deles estava com corte novo e
clareando. A araucária não dá para contar nada. A pedra que calça jornal continua no canto direito do banco desde o dia
catorze de junho e ninguém nunca levou, o que diz alguma coisa sobre aquela praça e sobre pedras. Com sol e sem
vento a praça tem gente cedo. Uma mulher de agasalho fazendo a volta pelo perímetro, três voltas, sempre pelo lado
de fora do petit-pavé, na calçada de cimento, o que é a coisa mais sensata que eu vi alguém fazer naquela praça. Um
senhor com um rádio no ouvido, sentado no primeiro banco a contar da banca, que é um banco onde nunca ninguém
senta. No prédio de pastilha marrom da frente, no terceiro andar, segunda janela da esquerda para a direita, alguém
tinha aberto as duas folhas inteiras por causa do sol, e dava para ver, de baixo, um pedaço de teto e um fio de lâmpada,
e nada mais. Ele apareceu na diagonal, vindo do lado da Comendador, às nove e cinquenta e oito. Eu preciso ser exata
sobre o que aconteceu com a travessia dele, porque é a única prova que eu tenho. Ele atravessou a praça do jeito que
ele atravessa a praça. Passou por cima do remendo de cimento liso, que é por onde ele passa. Parou na banca, comprou
a Gazeta, dobrou em quatro no caminho. Chegou no banco, olhou para o assento seco, e ficou uns três segundos com o
jornal na mão sem saber o que fazer com um jornal