0% acharam este documento útil (0 voto)
0 visualizações1 página

38

O texto descreve uma manhã fria e seca, onde um personagem se prepara para o dia, lidando com objetos e tarefas cotidianas em sua casa. Ele reflete sobre sua rotina e a organização de seus pertences, enquanto se prepara para sair. A narrativa é rica em detalhes sobre o ambiente e as ações do protagonista, revelando uma atmosfera de introspecção e monotonia.

Enviado por

rosadeandrade86
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato DOCX, PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
0 visualizações1 página

38

O texto descreve uma manhã fria e seca, onde um personagem se prepara para o dia, lidando com objetos e tarefas cotidianas em sua casa. Ele reflete sobre sua rotina e a organização de seus pertences, enquanto se prepara para sair. A narrativa é rica em detalhes sobre o ambiente e as ações do protagonista, revelando uma atmosfera de introspecção e monotonia.

Enviado por

rosadeandrade86
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato DOCX, PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

Quinta-feira.

A chuva fina parou na terça de noite e no lugar dela veio o seco: dois graus às seis da manhã, geada no
gramado do fundo do vale, o céu sem uma emenda. Esse tempo aqui dura três, quatro dias. Chega inteiro no sábado.
Ele acorda antes do despertador e fica no escuro o tempo de a geladeira ligar e desligar. Depois senta, põe os pés no
chão e passa a mão embaixo da cama, no vão entre a perna e a parede, até o rodapé. A mão vai até o rodapé e volta. Ele
esfrega o polegar no indicador, tira o pó e limpa na calça. Não se abaixa. Não puxa a cama. Não acende o abajur que
está no chão. A pasta ficou na Alferes Poli, em cima da mesa da cozinha, ao lado da fruteira, com a alça para a esquerda.
Ele a pôs ali porque precisava das duas mãos para subir na cadeira e alcançar o vão acima da geladeira, onde os
sargentos do restauro passaram sete anos. Ficou onze minutos. Desceu os quatro andares com os três nos braços e não
voltou à mesa. A pasta tem três divisões e um bolso na aba. Na de trás, o Hanon do irmão, o Bach de capa amarela e as
Cirandas em fotocópia. No meio, as duas folhas pautadas com a cópia interrompida, a tabela de batimentos e o saco de
feltros. Na da frente, a pasta sanfonada dos recibos com a calculadora e um envelope pardo de vinte e três por trinta e
dois, canto amassado, nada escrito por fora. Em junho o envelope estava na de trás, deitado embaixo dos Czerny. Em
julho estava no meio. D O Z E S E M A N A S DE S I L Ê N C I O 247 Está na da frente desde o dia dezenove, com um dedo
de folga em cima, e a aba fecha por cima dele sem forçar. Otávio está na cozinha de camiseta, mexendo café com colher
de sopa. — Sábado eu ponho a prateleira de volta. A do teu quarto. — Hm. — Aí você bota as tuas coisas em cima. Fica
aquele buraco de quatro furos ali, parece casa de aluguel. — É casa de aluguel. — É do banco. — Otávio bate a colher na
borda. — Quer que eu ponha ou não? Elias enche o copo na torneira. Oito e vinte, Cristo Rei. Um Nardelli vertical de
sala, dois cachorros trancados na área e um tapete que abafa metade do que sai. Duas horas e quarenta. A dona paga
em dinheiro e pede recibo, e ele escreve o recibo apoiado na tampa fechada, com a folha em cima da flanela para não
marcar o verniz. Do Cristo Rei ao serviço da tarde, no Rebouças, dá para cortar por dentro. Ele corta. A Alferes Poli entra
na terceira esquina e sai na quinta, e o número fica no meio dessa quadra, do lado par. Uma e vinte. Tem um adesivo
novo de empresa de gás no vidro da portaria. Ele passa pela frente com a caixa na direita e não diminui o passo, não
olha para o interfone, não sobe o olho até o quarto andar. A janela do quarto andar, de qualquer maneira, à uma e vinte
de uma quinta-feira, é uma janela fechada igual às outras onze da fachada. Na esquina seguinte ele põe a caixa no chão
e troca de mão. É a única parada do trajeto. Duas e dez, no ponto do Rebouças, com quinze minutos de sobra, ele abre
o caderno em cima dos joelhos. Na página da quinta escreve o do Cristo Rei: nome, rua, Nardelli, 8h20, 11h00, valor, H E
L E N A V A L E N Ç A 248 recibo. Pula uma linha e escreve Mateus Leme com um traço na frente, sem hora. Depois vai à
última página, a quadriculada, e risca o dia 7 da esquerda para a direita, como riscou o 6, o 5 e todos os outros desde o
8. No canto de cima está 24, a lápis, escrito ontem por cima do que estava antes. Ele passa o dedo e o 24 sai, deixando o
borrão claro que fica. Não escreve o 23. Volta o caderno até o começo. A agenda é anual e as primeiras folhas ele copia
em janeiro, à mão, do caderno velho para o novo, junto com os telefones do homem das cordas e do reformador de São
José. Vem copiando desde dois mil e quinze. Na terceira folha,embaixo dos telefones, está a coluna. São pares. À
esquerda, mês e ano. À direita, um número. 9/18 — 4 2/19 — 74 7/19 gás — 1 11/20 mancha do teto — 218 3/22 — 12
6/23 — 340 1/24 — 9 10/24 — 31 Embaixo do último par, com outra ponta de lápis, mais grossa, escrito em junho: 12 ×
7 = 84, e um círculo em volta do 84. Debaixo do círculo há um par sem número. 6/25 — e o traço, e o espaço em branco
depois do traço. Ele tira o lápis de carpinteiro do bolso da camisa, apoia o caderno na coxa e escreve, depois do traço:
61. O ônibus encosta. Ele fecha o caderno com o polegar dentro e só tira o polegar quando senta. D O Z E S E M A N A S
DE S I L Ê N C I O 249 O Fritz Dobbert saiu do salão de festas em julho, quando entrou a máquina de lavar coletiva, e está
no hall, do lado da porta da rua, entre o painel de correspondência e o extintor. Seu Aparício destranca às seis e meia e
acende as duas lâmpadas. — Pensei que fosse setembro. — Mudei. — O senhor falou que se mexesse agora ia ter que
voltar. — Falei. Aparício olha o piano, olha a porta da rua, e vai buscar a chave da caixa de energia no bolso da própria
calça, que é onde ela fica. — Eu deito às dez. Deixa na portaria. Quatro abafadores não voltam: fá, fá sustenido, sol e lá
da segunda oitava. Não é o feltro. É a bucha da báscula — um pano fino enrolado dentro do furo por onde passa o pino
de centro, e pano, num hall com porta para a rua, num julho inteiro de chuva fina, incha. O pino é de um vírgula zero
setenta e cinco. Ele tira os quatro com o extrator, passa o alargador meia volta em cada bucha e põe pino de um vírgula
zero vinte e cinco. Depois segura a báscula pelo braço, deixa cair e conta o balanço: tem que oscilar cinco, seis vezes
antes de parar. Duas param na terceira. Ele alarga mais um oitavo e conta de novo. Fica bom. Fica bom até secar. Às oito
e dez ele começa a afinar. Enfia a tira de feltro entre as cordas do médio para cima, encaixa as cunhas no baixo e
trabalha a corda do meio de cada nota, e depois casa as outras duas com ela. Cravelha é um pino de aço cravado num
bloco de dez lâminas de madeira cruzadas. Quando a gente gira, o pino torce antes de andar. Quem afina a torção afina
uma coisa que volta sozinha em três semanas. Então ele passa um pouco além e traz de volta pela

Você também pode gostar