O cartãozinho era de retorno, daqueles de papel-cartão com o nome do consultório impresso e uma linha pontilhada, e
alguém do balcão tinha escrito à mão, com caneta esferográfica azul: 21/06/2018 — 16h30. Eu li a primeira vez em pé.
Foi rápido, foi da direita para a esquerda, foi do jeito que a gente lê no fim de um ensaio uma folha que alguém enfia na
sua mão, e o que eu li não foi nada disso. O que eu li foi BONFIM, ELIAS, e 2018. A segunda vez eu li sentada no chão da
cozinha, com as costas no armário de baixo e as folhas em cima dos joelhos, e a luz da cozinha é ruim, é uma lâmpada só
no meio do teto, e eu li com o papel inclinado. Li coluna por coluna, com o dedo. É um documento generoso, o laudo.
Ele imprime, do lado direito, o número que devia estar do lado esquerdo. Não deixa ninguém precisar perguntar nada a
ninguém. A terceira vez eu li só as datas. Nove de maio de dois mil e dezoito, oito e vinte da manhã. Abstinência: quatro
dias. Em maio de dois mil e dezoito a gente escolheu o papel do convite numa gráfica da Rua Cruz Machado, um sábado
de manhã, e ficou entre dois brancos que eram o mesmo branco, e ele deixou eu escolher, e a gente almoçou depois
num self-service e ele pagou. A gente casou num sábado de novembro. Quatro dias antes daquele exame ele estava
naquela casa. O que aconteceu depois disso não foi uma coisa; foram sete anos chegando de uma vez, como chega mala
de aeroporto, e eu fiquei sentada no chão daquela cozinha até o radinho passar da propaganda de colchão para o
programa da meia-noite. Eu disse “ano que vem”, só entre a gente, seis vezes em sete anos, e eu sei que foram seis
porque cada uma tem endereço. D O Z E S E M A N A S DE S I L Ê N C I O 243 A primeira foi na cozinha da minha mãe, na
Vila Fanny, secando prato de ceia, com o pano na mão, e eu disse rindo. A segunda foi na fila do cartório da renovação
do aluguel, em janeiro, com a senha 34 na mão, e a gente estava reclamando de reajuste. A terceira foi dentro do carro
alugado voltando de Antonina, na subida da serra, com a chuva batendo de lado. A quarta foi na porta aberta da
geladeira, com a lista de compras na mão. A quinta foi no escuro, depois de uma festa de aniversário de alguém, e eu
falei baixo. A sexta foi na sala de espera do hospital quando a minha mãe operou a vesícula, e eu falei porque falar de
futuro é o que se faz em sala de espera. Nas seis, ele respondeu antes de eu terminar a frase. Não foi uma vez. Foram as
seis. Eu chegava em “ano que” e a resposta já estava vindo — vamos ver, tá bom, acho melhor — e em sete anos eu li
aquela rapidez como um homem que concorda comigo. Ele assinou o guardanapo em quarenta segundos, e eu passei
um mês inteiro me perguntando por que ele tinha assinado tão rápido, e eu já tinha visto aquela velocidade seis vezes e
nunca tinha aprendido a lê-la. Ceia de dois mil e dezenove, casa da minha mãe. A tia Nezita perguntou por cima da
travessa de pernil, com aquela voz de quem está fazendo um carinho: e vocês, hein. Ele levantou, foi até o armário da
cozinha e ficou vinte minutos com a chave de fenda na dobradiça da porta de cima, que estava caindo fazia um ano.
Todo mundo achou ótimo. A minha mãe é o tipo de mulher que chama o genro de volta para a mesa quando a comida
esfria, e naquela noite ela não chamou. Churrasco na casa do Otávio, dois mil e vinte e dois, alguém apareceu com um
bebê de três meses e a sala inteira se organizou em volta daquilo. Ele ficou na churrasqueira das duas às sete da tarde.
Não sentou nenhuma vez. Serviu quarenta e duas pessoas, ou pareceu quarenta e duas, virou pão de alho para gente
que já tinha H E L E N A V A L E N Ç A 244 parado de comer, e quando eu levei uma cerveja para ele, ele estava com a
pinça na mão e a grelha vazia. Na subida de Antonina, no carro, a gente brincou de nome. Eu falei três, todos ridículos, e
ri dos meus mesmos. Ele falou um, que era o nome do pai dele, e depois olhou a estrada até o pedágio. Em dois mil e
vinte e três eu refiz a bateria inteira de exames, dois anos depois da primeira. Foi ideia minha e foi coisa de quatro
meses, entre encaixe de horário e jejum. Deu tudo normal. Eu cheguei em casa com os papéis, larguei em cima da mesa
e fui tomar banho, e quando eu voltei ele estava na cadeira da ponta lendo, e leu duas vezes, porque ele lê tudo duas
vezes, e eu vi ele voltar ao começo, e naquela noite eu achei bonito. Depois ele dobrou no meio, do jeito que ele dobra
tudo, e guardou. Em dois mil e vinte e um eu comprei um teste na farmácia da esquina numa quarta de manhã e deu
negativo. Contei para ele à noite. Ele perguntou uma coisa só, se eu estava bem, e eu disse que sim, e ele foi até o
corredor e sentou no chão, encostado na porta do quarto dos fundos, com os cotovelos nos joelhos, e ficou ali um
tempo. Eu levei um cobertor e sentei do lado. Naquela noite eu li