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O texto narra a rotina de uma personagem que reflete sobre sua vida após a morte do pai e suas interações com a mãe. Ela menciona detalhes sobre um encontro marcado, suas escolhas de roupas e a importância de um vestido que nunca foi visto por seu ex-parceiro. A narrativa explora temas de memória, perda e a busca por novas identidades.

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O texto narra a rotina de uma personagem que reflete sobre sua vida após a morte do pai e suas interações com a mãe. Ela menciona detalhes sobre um encontro marcado, suas escolhas de roupas e a importância de um vestido que nunca foi visto por seu ex-parceiro. A narrativa explora temas de memória, perda e a busca por novas identidades.

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A segunda foi à uma da tarde, que é a hora da minha mãe desde que meu pai morreu.

Ela falou dezoito minutos do


homem da torneira, que voltou, cobrou os cento e vinte, apertou uma coisa e a torneira pingou de novo à noite, agora
mais devagar e mais alto, que segundo ela é pior. Perguntou se eu comia arroz. Perguntou se estava frio na Alferes Poli
de manhã. Não perguntou mais nada, porque ela não pergunta duas vezes, e eu fiquei com o telefone na mão depois de
desligar o tempo de o 22 passar embaixo da janela. A terceira não é uma pessoa, é um dia. Sábado, dois de agosto, dez
horas, terceiro banco a contar da banca. Eu sabia disso na quintafeira do mesmo jeito que eu sabia que era quinta-feira.
A cláusula cinco eu não precisei procurar. Eu não tenho o guardanapo — o guardanapo está com ele, no bolso de dentro
do casaco fino, desde a padaria — e mesmo assim eu sei o texto de cor, com as vírgulas: continuamos casados, nenhum
dos dois vai fazer, nestas doze semanas, nada que precise ser escondido do outro na décima terceira. Eu não me disse
que não era isso. Eu não me disse que era um jantar. Eu não me disse que ia ver no que dava. Não usei nenhuma dessas
frases comigo, e a única coisa que eu quero registrar deste capítulo é essa: eu sabia exatamente a que horas e em que
endereço, e sabia o nome que aquilo tinha, e fui assim mesmo. Às quatro da tarde eu voltei na produção com uma
pergunta inventada sobre a nota do latão. Ele estava sentado na ponta da mesa, com o caderno fechado. — Sexta — eu
disse. — Sexta. — Oito? — Oito. Foi isso. Eu saí, desci os degraus do sobrado e fui a pé até a Praça da Espanha sem
motivo nenhum, e comprei um pacote de pilha pequena que eu não precisava. H E L E N A V A L E N Ç A 206 Na sexta-
feira choveu de manhã e parou ao meio-dia. Eu lavei roupa, estendi no varal do banheiro, comprei pão, comi de pé, li
quarenta páginas de um livro sem entender três. Passei um pano no rodapé da sala, que é uma coisa que eu faço umas
duas vezes por ano e que naquele dia me pareceu urgente. Troquei a pilha do radinho da avó pela pilha que eu tinha
comprado sem precisar na quinta, e o radinho continuou pegando as mesmas três estações e meia, porque não era
pilha. Às três eu me sentei na mesa da cozinha com o caderno de croqui aberto e não desenhei nada. Fiquei olhando
para a folha o tempo de uma novela inteira acabar no aparelho de alguém do bloco de trás. Às cinco a mulher do 502
arrastou a cadeira dela fora de hora, o que nunca acontece, e eu levantei do sofá antes de saber por quê. Comecei a me
arrumar às seis e meia, com uma hora e meia sobrando, o que é uma quantidade de tempo perigosa. A primeira foi a
calça preta com a blusa de gola alta cinza. É a minha roupa de estreia alheia, de velório e de reunião com produtor. Fica
boa. Tirei em quatro minutos e joguei em cima da cama. A segunda foi o vestido de lã marrom, manga comprida, na
altura do joelho, comprado em 2019 numa liquidação de agosto. Vesti, fechei o zíper de lado com o braço torcido
daquele jeito, olhei o comprimento. É o vestido que eu usei no aniversário de trinta e seis dele, em fevereiro, na casa do
Otávio, com a lasanha que veio crua no meio. Tirei também. Levei um pouco mais de tempo, e não foi por causa do
zíper. E aí, com as duas em cima da cama e o armário aberto, eu parei e vi o critério. Não foi revelação nenhuma. Foi
igual a conferir uma soma e achar o erro: as duas coisas que eu tinha tirado do corpo naquela noite eram as duas que
ele conhecia. Não era caimento, não era cor, D O Z E S E M A N A S DE S I L Ê N C I O 207 não era o frio. Era que ele já
tinha visto, e o que ele já viu vem com ele junto. A terceira estava no fundo, na ponta da barra, no cabide de arame da
lavanderia. Camisa de crepe verde-musgo, botão de madrepérola, comprada numa quarta-feira de julho numa loja da
Trajano Reis, no caminho de nada, paga em duas vezes, guardada e nunca vestida. A etiqueta ainda estava presa na
costura de dentro, na altura da cintura, com aquele fio de náilon que arranha. Vesti a terceira e não tirei. Era a única das
três que ele nunca tinha visto. As outras duas eu tirei por causa disso, e na segunda eu ainda não sabia, e na terceira eu
sabia. Cortei a etiqueta e desci.

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