tenho fita crepe de quatro larguras.
Caneta que escreve eu tinha uma, uma BIC preta no fundo do pote, e ela só pegou
depois de eu rabiscar meia página da Gazeta da semana passada. A gente escreveu a tarde inteira, com intervalo para
comer o pão e para ele atender o Aparício, e o que saiu está aqui, com a ortografia e a numeração que tem. No alto,
letra dele, sem título nenhum: 30/8/2025 Depois, letra minha: 1. Elias volta na quarta, 3/9. Segunda e terça ele tem
serviço no Cabral e é mais perto de lá. Traz as duas malas e a caixa de ferramentas. A pasta fica na estante da sala, na
terceira prateleira. 2. Sifão: anel de vedação de 40 mm. Elias compra na segunda. A bacia sai depois. 3. Contas de 7/6 a
30/8: cada um pagou o que pagou e fica assim. Exceção: aquecedor, R$ 230,00, nota em cima da geladeira — Elias
devolve metade. Com o Otávio, Elias acerta gás e internet dos três meses e não entra em discussão sobre isso. O quatro
é dele, e o quatro está riscado. Dá para ler embaixo do risco: Contar ao Otávio. Ele escreveu, olhou, e passou o traço na
hora, porque o Otávio mora com ele desde sete de junho e não precisa que ninguém conte nada. Continua com a minha
letra: 5. Clínica. E para no ponto. É uma palavra sozinha numa linha, com um espaço branco de dois dedos depois dela, e
esse espaço é do tamanho exato do tempo que eu fiquei com a caneta parada em cima do papel. H E L E N A V A L E N Ç
A 348 Depois eu empurrei a caneta na mesa até encostar na mão dele, e o resto do cinco é a letra dele: Elias liga na
segunda de manhã e marca consulta para os dois, junto, no mesmo dia e no mesmo horário. Se não houver vaga em
setembro, marca em outubro e diz a data no dia em que souber, não depois. Leva os exames de 2018. O que vier a
gente escreve numa folha nova. No meio do cinco o telefone dele tocou. Era o Aparício, do prédio da Mateus Leme,
sobre o Fritz Dobbert que subiu para o 42, e ele atendeu e ficou de pé perto da janela explicando por três minutos e
meio que agora dava para mexer, que o feltro já tinha secado, que na quinta ele passava lá antes das nove. Anotou no
verso da mão. Eu fiquei sentada sozinha com a folha na frente, com o guardanapo duro do lado dela, e não li nenhuma
das duas coisas. Fiquei olhando o vinco. Quando ele desligou, sentou de novo, procurou onde tinha parado com o dedo
e continuou a frase no lugar exato onde a frase estava. 6. Teca. Elias vai à Vila Fanny antes de quarta, sozinho, e diz a ela
que o que ele pediu em 2019 não vale mais. 7. Persiana do quarto dos fundos. Chamar o Nivaldo. Orçamento antes. O
sete é meu. Aquela persiana está quebrada desde 2018 e entra uma faixa de luz cinza na diagonal em cima da pilha da
esquerda, e em sete anos ninguém nunca ligou para ninguém. Custou uma linha. 8. As nove caixas. Uma por sábado, os
dois na mesma sala. Se um não puder, fica para o sábado seguinte. Ninguém abre sozinho. 9. Sábado, das dez às onze,
no banco. Continua. Sem as cláusulas. D O Z E S E M A N A S DE S I L Ê N C I O 349 10. Contrato do apartamento vence
em 10/1. Avisar a imobiliária até 10/11. Renovar por um ano. 11. Esta folha se refaz quando precisar. Os dois na mesma
mesa. O oito eu ditei e ele escreveu, e a frase final é dele. Eu tinha aberto duas em cinco dias, sozinha, sentada no chão
com a porta do corredor aberta, e nenhuma das duas tinha dentro uma coisa que eu pudesse contar para alguém em
menos de meia hora. Sobraram nove. Uma delas não tem etiqueta e está entalada no meio da pilha da esquerda, e a
gente não fez menção nenhuma a ela na folha, nem eu nem ele. O onze é dele. Ele escreveu, leu do começo, e leu de
novo, e eu fiquei sentada do outro lado da mesa sem falar nada durante os dois minutos que isso levou, porque eu já
sabia que ele ia ler duas vezes e porque não é uma coisa que se comenta. Aí ele empurrou a folha e a caneta para o meu
lado da mesa. Eu assinei primeiro. Júlia Sanches, e a data por extenso, porque a minha letra fica melhor por extenso. Ele
assinou embaixo, nome inteiro e 30/8/2025, e acrescentou a hora, 16h40, que ninguém pediu. Não teve nada depois
disso. Ele juntou os pratos, eu levei os copos, e a folha ficou em cima da mesa até de noite, quando eu prendi ela no ímã
da geladeira junto com a nota fiscal do aquecedor. O guardanapo plastificado não dobra mais. Ficou dentro da gaveta
das pilhas, atravessado, empurrando o manual do aquecedor para o fundo. Às sete da noite o apartamento tinha virado
outra coisa. Quarto andar embaixo da laje: o calor entra o dia inteiro e sai às três da manhã. Eu abri as duas janelas e
não adiantou nada, porque não tinha vento. A mulher do 502 arrastou a cadeira dela para perto da janela, o que ela
nunca faz de noite. Da rua vinha som de gente na calçada, H E L E N A V A L E N Ç A 350 que aqui é um som de
novembro. Um carro passou com a música alta e o vidro aberto e a música durou o quarteirão inteiro, e não me
incomodou, e eu registro isso porque em qualquer outra noite teria incomodado. Ele foi pendurar o casaco fino atrás da
porta da cozinha e o gancho estava ocupado. Eu estava na pia. Ouvi a porta fechar, que é o que se faz para chegar no
gancho, e quando eu virei ele estava com o casaco cinza de lã na mão, na altura do peito, os quatro botões abertos, do
jeito que ele deixa. — Acabou o inverno — ele disse. — Ontem eu estava de meia dentro de casa. — Acabou assim
mesmo. Eu enxuguei a mão no pano e fui até lá e peguei pela gola, e por um segundo a gente estava segurando a
mesma lã, ele pela cintura e eu por cima, e depois ele soltou. Levei para o quarto. No armário tem oito cabides vazios
virados todos para o mesmo lado, e eu tirei um, e ele entrou atrás de mim com as três coisas que estavam nos bolsos:
uma tira de feltro verde de dez centímetros cortada torta, um parafuso de cabeça chata e um toco de lápis apontado
com estilete. Colocou os três em cima da cômoda, alinhados, com o lápis no meio. Ele não perguntou nada. Eu encaixei
o ombro do casaco na madeira, fechei o primeiro botão só para o pano não escorregar, e empurrei para o fundo, junto
com o meu casaco de lã e com o cobertor que fica em saco plástico. Sobraram sete cabides. O ventilador estava em
cima do armário, dentro de um saco de supermercado, com a grade cinza de poeira. É de 2019, tem três botões e o um
e o três não funcionam desde o primeiro verão. Ele D O Z E S E M A N A S DE S I L Ê N C I O 351 desceu, tirou do saco,
lavou a grade na pia do banheiro, secou com papel e ligou na tomada do quarto. Zumbe. O Otávio mandou mensagem
às nove e quarenta e dois. Uma interrogação, sozinha. Ele leu, virou a tela para mim, e respondeu “amanhã”, e o Otávio
respondeu com quatro interrogações. Às onze eu ainda estava na cozinha, com a luz do fogão acesa, e eu tirei a folha da
geladeira e acrescentei uma linha embaixo das duas assinaturas, com a caneta vermelha do Nivaldo, que é errado,
porque item depois de assinatura não vale: 12. Comprar ventilador. Prendi de volta no ímã e fui para o quarto e fechei a
porta, porque a luz do corredor incomoda. O ventilador ficou no dois.