cima até o braço cair sozinho.
Depois li a folha de instalação até o fim, inclusive a parte em polonês, que eu não leio, e
devolvi a peça para o rodapé do corredor, no lugar exato onde ela estava na fila, entre a maleta de churrasco e a panela
elétrica. Na quinta-feira o vento virou. Deu para descer sem casaco às dez da manhã, o que em Curitiba, em vinte e oito
de agosto, é uma informação que todo mundo comenta na fila da padaria — a moça do caixa comentou, o homem atrás
de mim comentou, e eu comentei também, dizendo a frase padrão, que é “não dura”. Voltei com pão e não comi. Às
duas da tarde eu fui para o quarto dos fundos e sentei no chão, encostada na parede da porta, de frente para as três
pilhas. A faixa de luz da persiana estava mais baixa que na segunda, porque era duas da tarde e não onze da manhã, e
cortava a pilha do meio no lugar onde não tinha mais caixa nenhuma em cima. Olhei para a da esquerda um tempo.
Para o canto rasgado da sem etiqueta, dois dedos de papelão aberto com a fibra à mostra, mais claro por dentro do que
por fora. Levantei, fui até a pilha do meio e passei a mão na de cima, que agora é a DIVERSOS, porque a COZINHA estava
no corredor com a lista escrita na aba. Essa é uma das minhas. Dá para ver: o rabicho da fita crepe está torto e curto,
com aquele fiapo em diagonal de quem corta com o dente porque está com as duas mãos ocupadas. Eu fechei seis
daquelas caixas e essa é uma delas, e eu não fazia a menor ideia do que tinha lá dentro. Puxei para o chão, virei de
frente e ajoelhei. Quebrei um gomo da lâmina no cabo do estilete, empurrei a lâmina nova para fora com o polegar até
travar, e encostei a ponta no vinco do meio. A fita crepe estava seca e abriu adiante da lâmina. H E L E N A V A L E N Ç A
318 Asabas subiram sozinhas. 319 Capítulo 38 Na sexta-feira eu passei sete horas sem conseguir escrever uma frase, e
eu desenho coisas que não existem desde os vinte e dois anos, por dinheiro. O vento virou de madrugada. Entrou pelo
norte, quente, e às cinco da manhã o apartamento estava com um cheiro que ele não tinha desde maio: cheiro de
poeira de peitoril esquentando. Abri a janela da sala pela primeira vez em três meses e o gancho estava emperrado de
tinta; tive que bater duas vezes com a base da mão. A mulher do 502 arrastou a cadeira às sete, como arrasta. Com a
janela aberta o barulho vem de fora e não de dentro do prédio, e é um barulho mais razoável, quase o barulho de uma
pessoa e não de uma implicância. A porta do quarto dos fundos estava aberta desde quarta. Duas caixas abertas no
corredor, com as abas para cima. Passei por elas quatro vezes indo pegar café e não fechei nenhuma. Fiz café às sete e
vinte e bebi às dez. Sentei na mesa da sala com o material do trabalho, que é o único material organizado que eu tenho:
bloco A4, bloco A3 de cento e oitenta gramas, rolo de vegetal, lapiseira 0.5 com grafite B, borracha de vinil, escalímetro,
e uma régua de cinquenta que tem uma falha de fábrica no vinte e três e que eu conheço. Um projeto começa sempre
do mesmo jeito, e o jeito não é bonito. Antes da primeira linha você precisa de três coisas. Uma medida, uma escala e
um lado. A medida é o que já está lá — a boca de cena, o pé-direito, os sessenta centímetros de coxia do Marumbi,
que fazem qualquer projeto meu ter sessenta centímetros de problema. A escala é a mentira combinada: um para vinte
e cinco, escrito no canto da folha, e todo mundo aceita porque está declarado. E o lado é de onde a pessoa vê. Sem o
lado não existe desenho. Existe uma lista de objetos. Eu já entreguei nove portas em pé sem parede nenhuma e o
Nivaldo construiu. Se não dá para construir, não está desenhado — eu falava isso para estagiário, com uma satisfação
que eu agora acho um pouco muito. Comecei pelo bloco pautado que sobrou da produção, com o timbre do Marumbi
no alto da folha. Eu sinto falta dele. Quatro palavras. Saiu na primeira tentativa, sem emenda, com a letra que eu uso
em lista de compras. Fiquei olhando aquilo pelo tempo de o 22 subir a rua. Depois risquei, não com um traço, com
aqueles vários traços curtos que a gente faz quando quer que não dê mais para ler por baixo. Eu sinto falta dele de
manhã, entre seis e quarenta e sete e vinte. Catorze palavras. Também saiu inteira. Também era verdade. Risquei. Eu
sinto raiva. Três. Eu sinto raiva de novembro de 2018 e não do envelope. Onze. Eu contei. Contar é uma coisa que eu
faço. Eu me sinto uma idiota nos jantares de família de sete anos. Doze, e essa eu risquei antes de terminar o ponto, e
mesmo assim ela ficou legível. Todas terminavam. Esse era o problema e eu levei umas duas horas para reparar nele: eu
escrevia sinto e a frase andava sozinha até o fim, com complemento, com data, com detalhe, e eu podia ficar ali
produzindo aquilo até a folha acabar. Eram nove no fim da