sai sozinho e bate no canteiro. O menino pega e vai embora a pé, com o skate debaixo do braço.
O rapaz da banca
começa a recolher as revistas da frente. Tira os pregadores um a um, sete, enrola o plástico e prende com dois deles.
Empilha as revistas dentro de uma caixa e leva para dentro. Elias não abre o jornal. Não olha para a esquina, não muda
de posição, não tira as mãos de cima da pasta. Fica com os dois pés inteiros no chão e as costas encostadas no espaldar
frio, e a água da garoa vai juntando na gola dobrada do casaco do irmão e escorrendo por dentro, um fio, na altura da
omoplata. Debaixo da marquise da farmácia junta gente: um casal com criança, um rapaz de mochila, um senhor de
boina que fica na ponta, meio corpo na chuva. Passa um ônibus de outra linha, verde, e não para; o senhor de boina
levanta a mão tarde demais e depois faz que não com a cabeça, para si mesmo, e volta para debaixo da marquise. Nos
ligustros podados em bola, a água fica em cima, na casca da folhagem, sem entrar. Um bem-te-vi cai num deles, sacode,
e a bola inteira solta o que tinha guardado de uma vez. Da araucária cai mais água, nas mesmas duas pedras. O 22
aparece na quadra de baixo e para no ponto da farmácia, em frente à marquise. A porta da frente abre. Sobe uma
senhora com carrinho de feira; o motorista espera ela acomodar o carrinho antes de fechar. Não desce ninguém. A
porta fecha, o ônibus sai puxando a água da sarjeta em leque e vira a esquina. Elias tira a pedra, junta as quatro folhas
encharcadas, dobra em quatro e empilha no canto do banco com a pedra em cima. Depois se levanta. 309 Capítulo 37
Na segunda-feira eu procurei a chave em quatro lugares antes de lembrar onde ela estava. Procurei na lata redonda de
amendoim, que é onde moram as pilhas usadas, os parafusos que sobraram de móvel montado e as chaves de coisa
nenhuma. Procurei na terceira gaveta do armário do corredor, embaixo dos sacos plásticos dobrados dentro de outro
saco plástico. Procurei no fundo da bolsa de trabalho, entre a trena e um estilete com a lâmina gasta. Procurei na lata
de moedas atrás do açucareiro, onde ela morou de junho a agosto, entre os botões e a chave de fenda pequena. Estava
no bolso do jaleco de pintura, pendurado atrás da porta do banheiro. Em catorze de agosto eu tinha ficado com aquilo
na mão sem ter onde botar, e botei ali, e ali é onde eu boto o que não tem lugar, porque jaleco de pintura não é roupa,
é armário com manga. Não foi uma decisão. Foi uma segunda-feira. A fechadura tinha girado fácil em junho e não girou
fácil agora. Uma fechadura de porta interna de apartamento de 1974 tem uma lingueta de meia-volta e um cilindro que
ninguém nunca lubrificou, e depois de setenta e cinco dias trancada, com a madeira inchada empurrando por dentro, a
lingueta fica presa contra o batente. Eu tive que puxar a porta na minha direção com a mão esquerda enquanto girava
com a direita. Girou no terceiro. Depois foi o ombro, e o estalo, e o estalo saiu do mesmo jeito. A metade que tinha
ficado do lado de dentro veio junto, colada na parte de baixo da porta, arrastada pela soleira. A outra eu tinha H E L E N
A V A L E N Ç A 310 rasgado em catorze de agosto, puxando por baixo, e amassado e jogado fora. Eu tinha empurrado
aquilo por baixo daquela porta numa quinta-feira de junho, às vinte e três e quarenta, e não tinha pensado nisso desde
então mais do que se pensa em qualquer coisa que a gente empurra por baixo de uma porta. Era do bloco de requisição
de material que a Fabiana comprou em maio para as compras do Marumbi. Autocopiativo, cinquenta jogos, via branca
para o fornecedor, via rosa para o arquivo. A rosa desbota. Dois meses no escuro e ela desbota assim mesmo, e além
disso tinha uma faixa cinza de pó atravessada onde a soleira raspou, e o canto de baixo amassado em leque. O rasgo em
diagonal levou o campo do fornecedor e parou antes da coluna da esquerda, que é onde fica escrito o que interessa.
SOLICITANTE: Júlia Sanches. Nome inteiro. Eu não escrevo o nome inteiro nem em recibo. SETOR: FUNDOS. QUANT.: 11.
DESCRIÇÃO DO MATERIAL: CAIXAS. PRAZO DE ENTREGA, VISTO DO RESPONSÁVEL: em branco os dois. A via branca
continuava presa no bloco pelos dois grampos de cima, na terceira gaveta, com a linha picotada intacta. Uma requisição
arquivada e não emitida. Se a Fabiana visse aquilo ela me matava, e a Fabiana morreria sem entender por quê. Dobrei
aquilo em quatro e botei no bolso, e é bom registrar o destino dela agora para não voltar ao assunto: foi para a máquina
de lavar dentro daquele bolso na quarta-feira e saiu de lá em uns quarenta pedacinhos rosa grudados na roupa preta, e
eu tirei um por um com fita crepe enrolada no dedo. O quarto estava quatro graus mais frio que o corredor. D O Z E S E
M A N A S DE S I L Ê N C I O 311 A persiana vertical continua quebrada no mesmo lugar, com duas lâminas presas na
diagonal, e às onze da manhã de agosto ela joga a faixa de luz na pilha do meio, um pouco mais alto do que jogava em
junho, na altura da terceira caixa em vez da segunda. Cheiro de papelão e pó parado. Não tem mais nada naquele
quarto. Nem cadeira, nem tábua de passar, nem caixa de ferramenta. Onze caixas encostadas na parede debaixo da
janela, em três pilhas, e o resto é chão. As etiquetas são todas dele, pincel atômico preto, caixa alta, aquele jeito de
fazer o R com a perna reta. Pilha da esquerda, de cima para baixo: DIVERSOS. Depois a sem etiqueta. Depois SALA 2.
Depois LIVROS. Pilha do meio: COZINHA. DIVERSOS. SALA 1. ROUPA DE CAMA. Pilha da direita, que é a de três:
BANHEIRO. QUARTO. VARANDA. Nunca tivemos varanda. Eu fui na sem etiqueta primeiro. É a segunda da esquerda, e
em cima dela tem uma só, e uma só é nada. Peguei a DIVERSOS de cima com as duas mãos e a DIVERSOS de cima pesa.
Papelão de mudança guarda o peso de um jeito mentiroso, porque o volume não avisa nada; aquela devia ter uns
quinze quilos e a fita crepe da tampa já não segurava mais, então o fundo é que estava segurando, e fundo de caixa
velha é uma promessa. Apoiei no chão, de lado, com o joelho. A sem etiqueta saiu quinze centímetros e parou. Não era
peso, era encaixe. Ela está entalada de verdade: a de baixo, a SALA 2, está estufada na tampa, e a sem etiqueta
acomodou nela por sete anos e meio até virar duas peças de um mesmo negócio. Eu puxei mais, com as duas mãos nas
laterais, e o papelão cedeu com H E L E N A V A L E N Ç A 312 aquele barulho de fibra abrindo, e o canto de cima direito
rasgou dois dedos. Parei ali, com a mão dentro do rasgo. Empurrei de volta. Encostei o rasgo com o polegar, do jeito que
a gente encosta papel rasgado, que não resolve nada. Botei a DIVERSOS em cima de novo, alinhada, com a etiqueta
virada para a frente como estava. Saí do quarto. Deixei a porta aberta e a chave na fechadura, do lado de dentro, e a
partir dali o corredor ficou com uma corrente de ar que não tinha antes. Na terça eu fui à papelaria da Amintas de
Barros comprar lâmina. Estilete de dezoito milímetros, lâmina de nove gomos, aço preto, e o meu estava com o
primeiro gomo lascado e virado desde a montagem. Comprei duas caixinhas com dez lâminas cada. Duas caixinhas com
dez lâminas cada dá cento e oitenta gomos. Eu não sei explicar as duas caixinhas e a moça do caixa também não
perguntou, porque na papelaria da Amintas todo mundo compra em quantidade de gente que trabalha com isso. Minha
mãe ligou à uma. Falou do preço do frango, que subiu, e do sobrinho da vizinha, que voltou a morar com a mãe aos
quarenta e um anos, e disse a frase completa sobre isso, que é “cada um sabe”, e a frase completa sobre isso na minha
mãe tem três palavras. — Você comeu? — Comi. — Comeu o quê? — Ovo. Ela ficou quieta o tempo de resolver se ovo é
comida. — Tem peixe aqui. — Eu sei que tem. D O Z E S E M A N A S DE S I L Ê N C I O 313 O Renan mandou uma
mensagem de uma linha às seis e vint