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O narrador descreve sua rotina de sábado, desde acordar cedo em um dia frio até sua jornada até um galpão onde verifica portas para um projeto. Ele menciona detalhes do transporte público e as interações com as pessoas ao longo do caminho, criando uma atmosfera de um dia comum, mas repleto de pequenas observações. O texto evoca sensações e imagens vívidas, refletindo sobre a simplicidade e a rotina do cotidiano.

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O narrador descreve sua rotina de sábado, desde acordar cedo em um dia frio até sua jornada até um galpão onde verifica portas para um projeto. Ele menciona detalhes do transporte público e as interações com as pessoas ao longo do caminho, criando uma atmosfera de um dia comum, mas repleto de pequenas observações. O texto evoca sensações e imagens vívidas, refletindo sobre a simplicidade e a rotina do cotidiano.

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eu vou sábado de manhã. dez horas Ela respondeu com um polegar às onze e dois.

No sábado eu acordei às seis, sem


despertador, com dois graus lá fora e o céu limpo pela primeira vez em muitos dias — daquele azul duro de agosto que
dói na testa. Esvaziei a bacia. Tomei banho. Vesti calça de trabalho, bota de trabalho e o casaco acolchoado que é meu.
Não tomei café. Não comi nada. Passei na padaria da esquina às sete e vinte e a moça do caixa pegou a pinça e eu disse
que era só um café, e ela me deu o café, e eu paguei, e joguei o copo cheio na lixeira do ponto sem ter bebido. Do
centro até Almirante Tamandaré são duas conduções. Uma até o Terminal Santa Cândida, que às sete e meia de sábado
é um lugar cheio de gente indo trabalhar em silêncio, e depois um metropolitano que sai com a porta apitando e sobe
pela Rodovia dos Minérios com o vidro embaçado por dentro. Eu limpei o meu com a manga e desisti depois de dois
quarteirões. Dezenove quilômetros. Cinquenta e cinco minutos com as duas. O galpão fica numa rua sem asfalto, atrás
de uma fábrica de blocos, e tem um portão de correr de chapa com um cadeado do tamanho da minha mão. O homem
se chama Wanderley, tem uns sessenta anos, e estava sentado numa cadeira de plástico com um rádio no colo quando
eu cheguei. — A senhora é da peça das portas? — Sou. — Vão levar hoje? — Vim conferir. Ele abriu o portão
empurrando com o quadril, porque o trilho está torto, e o galpão por dentro é frio de um jeito que prédio nenhum é:
frio de telha de fibrocimento com trinta metros de pédireito e cheiro de serragem velha e de óleo de empilhadeira.
Nossos vãos são os três do fundo à esquerda. H E L E N A V A L E N Ç A 298 As nove portas do Quem Bate estão deitadas
em pilha sobre dois estrados de madeira, com as folhas separadas por pedaços de manta, e as maçanetas embrulhadas
em jornal e amarradas com fita crepe, dezessete trouxinhas dentro de duas caixas de papelão. A estrutura de metal está
em pé encostada na parede, desmontada em nove peças, e sem as portas ela não é nada, é um monte de cano. — Fica
até trinta e um — ele disse. — Depois eu preciso do vão. — Trinta e um. — Trinta e um. Aí é o dia da mudança de uma
igreja que vem pra cá. Ele foi buscar a prancheta do termo lá na frente. Eu me agachei ao lado do estrado e fui
levantando a quina das folhas com os dois dedos, uma por uma, correndo a mão pela borda de baixo de cada uma até
achar a que tem a madeira selada e lixada e sem tinta. É a quarta de cima para baixo. Continua sendo o único lugar liso
daquele cenário inteiro. Tirei do bolso a maçaneta que está comigo desde dezessete de julho. Latão, pesada, fria do
jeito que latão fica no bolso quando faz dois graus. Fiquei com ela na mão, com o polegar na quina da base. Wanderley
acendeu a lâmpada do fundo, que é uma daquelas que demora, que acende cinza e vai chegando na cor devagar, e
enquanto ela chegava eu não fiz nada, e não tinha nada para fazer. Eram dez e cinco. Dezenove quilômetros dali tinha
um banco de concreto, terceiro a contar da banca, e eu tinha resolvido não ficar sabendo. 299 Capítulo 35 Um sifão
sanfonado custa vinte e três reais e a loja da Mateus Leme fecha ao meio-dia no sábado. Eu tirei o velho na sexta à
noite, com um alicate de pressão e uma toalha de rosto enrolada no cano para não marcar o cromado. O que saiu de
dentro dele depois de dois meses e meio de bacia azul embaixo da pia não interessa a ninguém. Lavei na área de
serviço, escorri de boca para baixo em cima de um pano, embrulhei em jornal e pus numa sacola de mercado junto com
o anel de borracha, porque no balcão eles pedem a peça velha, e quem chega sem a peça velha volta para casa com a
peça errada. De manhã eu desci com um cano dentro da bolsa. Era isso o que eu estava carregando: uma carteira, uma
chave e um cano. O ponto de ida fica na outra calçada. É a mesma linha e é outro ponto, com outro horário, e esse
horário eu nunca precisei decorar. A linha 22 passa pela Ferreira Bastos. Isso não é uma informação que eu recebi
naquela manhã. Está escrito no papel amarelado colado no vidro da frente, com o itinerário em letra de máquina, e
passa por baixo da minha janela quatro vezes por hora desde 2018. Entrei no de dez e dezenove. Passei o cartão,
empurrei a catraca com a coxa — aquela catraca velha que anda dois cliques e trava no terceiro —, e a cobradora,
sentada de lado com uma caixinha de moedas no colo e um caderno de capa dura em cima da caixinha, disse bom dia
sem levantar a cabeça. H E L E N A V A L E N Ç A 300 Ônibus de sábado de manhã não é ônibus de segunda. Vai com dez
ou doze pessoas e todas elas indo fazer uma coisa pequena que não deu para fazer na semana. O chão de borracha
canelada estava com aquela lama clara de dia de garoa, que não é lama, é o que a sola de todo mundo trouxe junta.
Cheirava a diesel frio e a roupa guardada. O motorista tinha um rádio ligado baixo, preso com abraçadeira na barra ao
lado da cabine, numa emissora que dava resultado de jogo de várzea e endereço de igreja, e uma foto de menina de uns
cinco anos plastificada e presa com fita no painel, do lado direito, virada para ele. Uma senhora ia com duas sacolas de
feira entre os pés, uma delas com um pé de couve saindo pela boca e dobrado para caber. Dois meninos de uniforme de
futsal ocupavam o fundo inteiro e falavam alto sobre um terceiro que não tinha vindo. Um rapaz dormia com o capuz na
cabeça e a testa apoiada na própria mão, que é uma coisa que só quem trabalha de madrugada consegue fazerem pé de
estrada esburacada. Um homem de uns sessenta ia em pé, segurando a barra do teto, com uma sacola de padaria na
outra mão, com banco vago à vontade. Gente que não senta porque desce logo. Chovia a garoa de agosto, que não
molha de uma vez, molha por acúmulo. Os vidros estavam embaçados dos dois lados do corredor, com aquele suor de
dentro que a gente vê e o filme de fora que a gente não vê, e o para-brisa trabalhava com um limpador só, o do
motorista, porque o do lado do passageiro estava parado no meio do curso desde antes de eu subir. Eu sentei atrás da
porta do meio, do lado esquerdo. Aquele banco estava vago porque a janela de correr por cima dele estava aberta um
palmo — alguém abriu, desceu e não fechou — e o ar que entrava por ali pingava no beiral de alumínio e molhava o
assento na altura da coxa. Em compensação, o mesmo ar secava uma

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