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O texto descreve uma cena dentro de um ônibus, onde o narrador observa passageiros e o ambiente ao redor enquanto se dirige a uma praça. Detalhes sobre as interações entre os passageiros e as características do local são destacados, criando uma atmosfera vívida. A narrativa é rica em observações visuais e sonoras, capturando a rotina e a dinâmica do transporte público.

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O texto descreve uma cena dentro de um ônibus, onde o narrador observa passageiros e o ambiente ao redor enquanto se dirige a uma praça. Detalhes sobre as interações entre os passageiros e as características do local são destacados, criando uma atmosfera vívida. A narrativa é rica em observações visuais e sonoras, capturando a rotina e a dinâmica do transporte público.

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faixa de uns vinte centímetros de vidro em volta da abertura. Era o único vidro transparente daquele lado do ônibus.

Sentei ali. O assento estava molhado e eu sentei. O ponto antes da praça é o do colégio. Ali subiram duas mulheres com
guarda-chuva fechado pingando, uma delas sacudindo o dela para fora antes de dobrar, e desceu o homem que tinha
perguntado à cobradora, uns três minutos antes, se aquele carro ia para o terminal. — Esse passa no terminal? — Esse
não. É o outro. — O outro. — O que sai da plataforma de trás. Esse aqui faz o bairro. Ele tinha agradecido duas vezes,
uma para ela e uma para o motorista, e tinha ficado de pé perto da porta a quadra inteira antes de descer, com a mão
na barra e o corpo já virado, do jeito de quem já perdeu ônibus mais importante do que aquele e aprendeu a não
discutir com nenhum. A porta do meio fecha em duas etapas: junta as folhas, dá um estalo, e só depois o ar sai com
aquele sopro comprido. Enquanto o ar sai, o motorista já está com a mão na alavanca. Do colégio até a praça é uma
quadra e meia. Tem um muro comprido pichado, um bar de porta de aço fechada com o toldo recolhido e as cadeiras de
plástico empilhadas e acorrentadas por dentro do vidro, uma oficina com a porta meio erguida e um homem agachado
lá dentro ao lado de uma roda no chão, um poste com três placas de aluguel de uma imobiliária que fechou. E aí a rua
abre. Depois eu fiz a conta. Muito depois, num papel, com uma caneta, sentada à mesa, do jeito que eu faço orçamento
de material. Uma face de praça de quarteirão dá uns cinquenta metros. Ônibus em rua de bairro, com pista molhada e
ponto logo adiante, H E L E N A V A L E N Ç A 302 anda a trinta por hora, o que dá oito metros e pouco por segundo.
Cinquenta dividido por oito. São seis segundos. Eu me endireitei no banco para que os meus olhos ficassem acima da
linha do embaçado. A praça entrou pela esquerda. Os quatro ligustros podados em bola estavam escuros de água, quase
pretos, do jeito que folha lustrosa fica na garoa. A araucária no canto. O petit-pavé com o remendo de cimento liso no
meio, brilhando mais que o resto, e uma poça comprida em cima do remendo porque cimento liso não escoa. Do outro
lado, o prédio de pastilha marrom, sete andares, portão de ferro fechado, bicicletário no lugar dos vasos. Terceiro
andar, segunda janela da esquerda para a direita, cortina de folhagem que não é minha. A marquise da farmácia depois
dele, com a luz acesa apesar da hora, os três aparelhos de pressão na vitrine e o cartaz de fralda geriátrica. Embaixo da
marquise não tinha ninguém, porque não eram onze horas. Os bancos passaram na ordem em que eles estão: o
primeiro, o segundo. Ele estava no terceiro. Casaco azul-marinho acolchoado, gola alta dobrada para cima, dois pés no
chão, as mãos em cima dos joelhos. O cabelo escuro de água, colado, do jeito que fica cabelo que está tomando garoa
há um tempo e não há dez minutos. Duas folhas duplas de jornal debaixo dele e a pedra em cima da ponta esquerda,
segurando, do mesmo jeito que segura desde junho. A pasta de partituras estava no banco, à direita dele, deitada de
lado sobre o jornal, com a alça remendada virada para cima. O lugar do outro lado estava vazio, e a garoa tinha molhado
o jornal daquele lado até escurecer.
Ele estava olhando para a frente, para o outro lado da praça, para a calçada da farmácia. Não olhou para o ônibus. Não
tinha motivo: aquele carro ia no sentido contrário, por dentro da praça, e o ponto dele é lá, na frente da farmácia, às
onze em ponto e às onze e vinte e quatro. A banca de jornal veio depois. Os pregadores de madeira segurando o
plástico por cima das revistas, sete na frente, dois na lateral. O homem estava dentro dela, de costas, mexendo em
alguma coisa na prateleira de cima. Foi nesse ponto que a campainha tocou. O som daquele ônibus é seco e curto, um
bipe só, e vem do teto, e por um instante ele não tem dono. Depois tem: o homem de sessenta anos passou a sacola de
padaria da mão direita para a esquerda, largou a barra do teto e começou a andar para a porta do meio, com aquele
passo de quem anda dentro de veículo em movimento, uma mão em cada encosto. Para descer na praça, indo naquele
sentido, você desce depois da esquina e volta uns trinta metros a pé. Eu tinha passado a alça da bolsa do ombro para a
mão. Os meus dois pés estavam virados para o corredor. A minha mão direita estava fechada na barra vertical do banco
da frente, e eu sei disso porque quando eu abri a mão, mais tarde, tinha uma faixa cinza atravessada na palma, do pó
que fica na pintura das barras, e eu limpei na calça. Eu não cheguei a levantar. A senhora das sacolas de feira puxou a
couve para dentro com dois dedos, para o homem passar. O rapaz do capuz não acordou. A cobradora escreveu alguma
coisa no caderno de capa dura, três ou quatro números, e fechou o caderno em cima da caixinha de moedas.

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