Depois a caixa de sapato dos recibos.
Depois a bolsa marrom, que é a bolsa que eu usava em junho, e dentro dela o
forro tinha um rasgo por onde passa moeda e passa papel, e eu enfiei a mão até o cotovelo dentro do forro de uma
bolsa às onze e quarenta da noite e tirei duas moedas de cinquenta centavos e um canudo de papel de bala. Depois a
cozinha. Atrás da porta da cozinha tem o gancho, e no gancho tem o casaco cinza de lã de quatro botões, e embaixo
dele tem uma jaqueta minha de sarja e um guarda-chuva. Eu peguei o casaco pelos ombros, com as duas mãos, e virei
os dois bolsos de fora para dentro. Tira de feltro verde. Um parafuso de cabeça chata. Um toco de lápis apontado com
estilete. As mesmas três coisas de duas semanas antes, na mesma ordem, e eu coloquei as três de volta nos mesmos
bolsos e pendurei o casaco no gancho alinhando as costuras, e se alguém tivesse me perguntado naquela hora se aquele
era o casaco certo eu teria respondido que sim, sem hesitar, com a segurança de quem está olhando para a coisa.
Aquele guardanapo apareceu duas semanas depois, e não fui eu que achei. À meia-noite e dez eu escrevi a quarta. vc
sabe onde foi parar o guarda Apaguei no meio da palavra, com aquela agilidade que eu já tinha reparado em junho e
que não melhorou nada desde então. Aí eu abri o armário debaixo da pia. Tirei os produtos de limpeza, o balde, a
escova, o vidro de álcool, e para tirar o vidro de álcool eu apoiei o joelho na bacia azul e a bacia virou. Um litro e meio
de água de sifão no piso da cozinha à meianoite e vinte, correndo direto para debaixo da geladeira, que é o ponto baixo
daquele cômodo. Peguei o pano velho. Sequei em quatro voltas, torcendo dentro da pia, e quando acabei sequei H E L E
N A V A L E N Ç A 294 também as laterais do armário e o rodapé, e coloquei a bacia de volta embaixo do fio d'água, com
o cabo virado para a frente, do jeito que ele deixou em junho. Na gaveta dos talheres tem o descascador e o diapasão. A
chave do quarto dos fundos estava na lata de moedas atrás do açucareiro, onde morou desde junho porque eu não
achei lugar melhor. Peguei a chave. Fui pelo corredor, que são quatro passos, e parei na porta. A via rosa continuava
entalada embaixo dela desde a semana três. Papel autocopiativo amarela de um jeito próprio, fica com a cor de dente, e
a parte de fora tinha uma linha de poeira acumulada na dobra. Eu me abaixei e puxei. Ela veio até certo ponto e rasgou
na diagonal, e ficou metade na minha mão e metade lá dentro, do outro lado, onde eu não vejo. Amassei a metade que
veio e joguei fora. Não devolvi a chave à lata: pus no bolso do jaleco de pintura, pendurado atrás da porta do banheiro.
Não achei o guardanapo. Fui dormir às duas e dez com a sala no chão. Na sexta-feira eu não arrumei nada. Isso é um
dado, não é uma queixa. Em junho eu limpei um apartamento inteiro em oito horas por não ter o que fazer com as
mãos, e na sexta-feira, quinze de agosto, eu passei por cima de quarenta livros e de uma gaveta virada na mesa umas
doze vezes ao longo do dia e não levantei um. O Otávio ligou às três da tarde. Foi a primeira vez em dez semanas que o
telefone tocou com o nome dele. — Você come pernil? — Como. — Porque eu comprei um pernil de quatro quilos e
meio. — Você mora sozinho, Otávio. D O Z E S E M A N A S DE S I L Ê N C I O 295 — É o que todo mundo diz. Ele falou seis
minutos sobre o pernil, sobre o açougueiro que jurou que quatro quilos e meio era uma peça pequena, sobre a bandeja
que não coube no forno e sobre o vizinho do 1203, que subiu para reclamar de barulho de furadeira num domingo em
2023 e nunca mais foi cumprimentado. Não disse o nome do irmão nenhuma vez, e um homem que fala seis minutos
sem dizer um nome está segurando o nome com as duas mãos. — Júlia. — Oi. — Ele não me pediu pra falar nada, tá? Eu
só ia dizer que ele... — Otávio. — Tá. — Obrigada pelo pernil. — Você nem comeu o pernil. Desliguei rindo, e a risada
acabou antes do telefone chegar na mesa. A Fabiana mandou mensagem às seis. O galpão de Almirante Tamandaré está
pago até trinta e um de agosto e alguém da produção precisa ir lá conferir o material do Quem Bateitem por item e
assinar um termo, porque o depósito não devolve caução sem termo assinado. O homem que abre o galpão trabalha de
segunda a sábado até o meio-dia. Ela escreveu que dava para ser na segunda. O Renan mandou às sete e dez. O
Bernardo tinha mandado a versão nova do texto e ele encaminhou por e-mail, sem pressa, e a mensagem tinha nove
palavras e nenhuma delas era sobre mim. Respondi obrigada. Foi tudo o que eu respondi para o Renan naquela semana.
Às oito eu comi dois ovos cozidos em pé na cozinha, com sal, olhando o pote de feijão de dez de junho, que tinha
passado o dia H E L E N A V A L E N Ç A 296 inteiro descongelando na bancada e agora estava com um pouco de água em
volta. Coloquei de volta no congelador. Ainda está lá. Às nove eu peguei a chave de fenda e me enfiei embaixo da pia
para apertar a porca do sifão, que é uma coisa que eu vi ser feita e que eu achava que sabia fazer. Apertei o quanto deu
com a mão e mais um pouco com o alicate. Saí de lá, lavei as mãos, olhei. O fio d'água tinha virado dois fios d'água. A
partir daquele dia a bacia enchia em doze horas em vez de vinte e quatro, e eu passei a esvaziar de manhã e de noite. A
quinta mensagem foi às dez e meia da noite de sexta. você contou da dora porque não aconteceu nada. se tivesse
acontecido você não contava. eu fiquei sete anos casada com o que você não fez Apaguei. A sexta foi quatro minutos
depois. faz dez semanas que tem uma bacia embaixo da pia Apaguei, e essa é a que eu tenho mais dificuldade de
explicar, porque das sete é a única que é só verdade. A sétima eu levei vinte e dois minutos escrevendo, o que dá umas
três palavras por minuto, e ela ficou assim: se você for amanhã eu vou. me manda qualquer coisa. uma palavra e eu vou
Fiquei com ela na tela. Cheguei a passar o polegar por cima do botão de enviar duas vezes, sem apertar, do jeito que se
passa a mão na quina de uma mesa. A cláusula dois já estava quebrada fazia dois dias, por mim, na Comendador Araújo,
com testemunha e tudo; não sobrava um único pedaço de contrato me impedindo de mandar aquilo. Eu apaguei do
mesmo jeito, caractere por caractere, segurando o botão, até a caixa ficar cinza com a palavra “Mensagem” escrita
dentro. Depois abri a conversa da Fabiana e escrevi