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Elias realiza ajustes em um instrumento musical em sua casa, utilizando uma caixa de ferramentas e seguindo um processo metódico. Ele se prepara para o trabalho, lidando com os instrumentos e as cordas com cuidado, enquanto a casa permanece em silêncio. O ambiente é descrito com detalhes, refletindo a solidão e a rotina de Elias.

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Elias realiza ajustes em um instrumento musical em sua casa, utilizando uma caixa de ferramentas e seguindo um processo metódico. Ele se prepara para o trabalho, lidando com os instrumentos e as cordas com cuidado, enquanto a casa permanece em silêncio. O ambiente é descrito com detalhes, refletindo a solidão e a rotina de Elias.

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O elevador desce. Elias fica com a mão na maçaneta até o motor parar de zumbir no poço do prédio, e depois solta.

Na
mesa da sala está o copo que ele encheu no começo e não bebeu, com a bolha subida na parede de dentro, e a tábua de
pinho com o martelo deitado paralelo à borda. Nenhuma cadeira saiu do lugar a noite inteira. Ele não mexe no copo,
não junta as rodelas de couro, não acende a luz da sala, não tira o telefone do bolso. Vai até o quarto dos fundos, puxa a
caixa de ferramentas debaixo da cadeira e abre no chão. O rolo de fio calibre 17 está no compartimento de baixo,
dentro do saquinho de papel da loja do Rebouças, com a data escrita a caneta na dobra: 24/6. Ele confere o resto peça
por peça. Cortador. Torcedor de laço. Manivela de encordoamento. O gancho de levantar corda. Duas cunhas de
borracha, a chave de afinação, a chave de fenda, a flanela, o lápis. Veste o casaco azul-marinho do irmão, erra o cursor
de baixo do zíper, desfaz e refaz. Pega a agenda no peitoril e põe no bolso de dentro. Otávio saiu quando ela chegou e
ainda não voltou. Vinte e oito minutos a pé. Comendador Araújo, Visconde de Nácar, Riachuelo, e depois a subida até o
Largo, onde a Mateus Leme começa. Vento sul, seco, o tipo de frio que deixa uma faixa de gelo na beirada do para-brisa
dos carros parados. A caixa de ferramentas troca de mão a cada quarteirão. Na portaria, seu Jaime está em pé atrás do
balcão, com o rádio ligado baixo. D O Z E S E M A N A S DE S I L Ê N C I O 287 — A dona Ivone falou quinta. — Eu vim
hoje. — Ela viajou domingo. Volta domingo. — Eu sei. Jaime tira um envelope da caixa dos recados, com a chave dentro
e AFINADOR — 42 escrito por fora em pincel atômico, letra do Aparício. Empurra o caderno de visitantes por cima do
balcão. — Depois das dez o 44 reclama. — Não vai ter barulho. Elias assina, escreve a hora de entrada, devolve a caneta
com a tampa. No elevador há um aviso plastificado: OBRAS E MUDANÇAS — SEGUNDA A SEXTA, 8H ÀS 18H. O 42 cheira
a casa fechada, sabão em pó e fruta. Ele tira as botas na entrada e fica de meia. Acende só a luz do corredor. O Fritz
Dobbert subiu do hall no sábado, num carrinho de mudança, e está encostado na parede que não pega sol, com um
pano de crochê e três retratos em cima. Ele tira o pano e os retratos e põe os três na mesa de jantar, na mesma ordem.
A geladeira liga na cozinha. Há uma tábua do assoalho que estala a meio metro do pedal; ele acha na segunda vez e
passa a contornála. Tira o tampo superior e apoia em pé na parede, sobre a flanela dobrada, para não marcar o
assoalho. Tira o frontal com a chave de fenda. O parafuso da esquerda continua espanado e sai puxando, do jeito que
saiu em junho. Pisa o pedal do meio e prende na trava lateral. A cortina de feltro da surdina desce entre os martelos e
as cordas e fica. A corda do meio do fá sustenido: ele afrouxa a cravelha até o fio ficar mole, desenrola as espiras com a
mão, tira o becket do furo com o alicate, solta o fio de baixo da barra de pressão, desce até o pino de H E L E N A V A L E
N Ç A 288 fixação e o laço sai sozinho. Enrola a corda velha em três voltas e deixa no chão. Mede o comprimento novo
do pino até a cravelha, mais um palmo e meio para as espiras. Corta. Prende a ponta no torcedor e dá cinco voltas
apertadas, uma encostada na outra, sem cruzar. Encaixa o laço no pino de fixação, passa o fio por baixo da barra de
pressão, mete entre os dois pinos do cavalete e assenta contra a madeira com o cabo da chave, empurrando. De dia ele
daria três batidas. Recua a cravelha duas voltas, dobra a ponta a noventa graus, enfia no furo e enrola com a manivela.
Duas voltas e meia, descendo, encostadas, sem montar uma na outra. Sobe devagar, em três etapas, deixando o fio
dormir um pouco entre uma e outra. Corda nova é elástico: ela vai cair a semana inteira. O que assenta o fio nos apoios
e a cravelha no bloco é bater a tecla com força, sempre com a mesma força, oito vezes. Isso não se faz num prédio às
onze e meia da noite. Então ele levanta o fio com o gancho em cada vão — do pino ao cavalete, do cavalete à barra, da
barra à espira — e puxa até sentir o fio ceder e voltar ao lugar. Faz seis vezes, subindo o tom entre uma e outra. Leva o
dobro do tempo e não faz som nenhum, tirando um estalo fino no cavalete, que é o fio ocupando o encaixe. Solta a
trava da surdina. O feltro sobe. Duas cunhas nas laterais, a do meio livre. Ele bate a tecla uma vez, com meia força, com
a mão em cima do martelo. O batimento vem largo, cinco por segundo, e vai fechando conforme ele fecha a chave em
movimentos cada vez menores, até um giro que não dá para ver. O batimento afina, afina, e morre. Ele fica um tempo
com a mão parada na chave. Depois passa a cunha para o outro lado e faz o mesmo contra a corda da direita. Deixa dois
cents acima, que é o que ela vai perder até domingo.

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