máquina. Contou que o Otávio ligou para a loja. Contou que a loja disse que ele podia trazer.
Contou que o Otávio não
vai levar. — Ele fez massa depois? — Fez. Ficou boa. — Então não tem problema. — Vai enferrujar por dentro em seis
meses e ele não vai entender por quê — ele disse. Depois contou do Fritz Dobbert da Mateus Leme, que ele foi ver na
segunda porque o seu Aparício insistiu. Contou que o piano fica no hall, do lado da porta da rua, e que ninguém toca
aquilo. — Fica lá para quê? — Estava lá antes de todo mundo. Aí ninguém tira. — E é ruim ele não ser tocado? — É a
pior coisa que pode acontecer com um piano — ele disse. — Piano de escola de música dura trinta anos apanhando de
aluno. Todo dia alguém bate no mesmo dó, e ele aguenta, porque tudo ali está trabalhando: o feltro comprime e volta,
a corda estica e assenta, a madeira respira com a casa. Piano de hall de prédio ninguém abre, ninguém fecha, ninguém
erra uma nota nele. Aí o feltro apodrece parado, a corda oxida por baixo, a cola solta sozinha, e um dia alguém levanta a
tampa achando que tem um piano ali e não tem mais nada lá dentro. Passou um homem com dois sacos de pão. O
radinho da banca estava tocando alguma coisa de rádio AM que sem vento chegava inteira até o banco, e chegou. — O
ipê já estava com flor semana passada? — eu perguntei. Eu já tinha falado do ipê às dez e quatro. Foi a coisa mais
exposta que eu fiz naquela manhã: repetir um assunto na cara de um homem que lembra de tudo o que é dito perto
dele, num intervalo de trinta e nove minutos. — Não sei — ele disse. — Eu venho por baixo, pela Sete. D O Z E S E M A N
A S DE S I L Ê N C I O 261 E aí ele falou do ipê. Falou como quem recebe um assunto novo. Falou dos ipês da Avenida
Getúlio Vargas, que abrem quinze dias antes dos outros por causa do asfalto, e do fato de que o roxo abre primeiro e o
amarelo por último, e ocupou com isso alguma coisa entre quatro e cinco minutos que eu não tinha. Ele fez isso do
mesmo jeito que fez no sábado da chuva fina, quando eu disse que tinha dormido cedo na sexta e ele emendou com a
mola do pedal do Água Verde. Dez e cinquenta e sete. Ele levantou. Pegou a Gazeta do meio do banco, que ninguém
tinha lido, e dobrou de novo, embora já estivesse dobrada. Eu levantei junto e peguei a pasta pela alça. A alça é
remendada. Ele costurou aquilo com linha encerada em algum ano em que eu estava na mesma casa que ele, com seis
pontos grossos, e os seis pontos passaram um por um debaixo dos meus dedos, e a pasta pesava o que ela pesava. Eu
estiquei o braço. Foi a coisa mais perto que a gente ficou desde o sábado dos vinte e sete graus, e eu meço distância por
profissão: cinquenta centímetros entre a minha mão e a mão dele, com uma pasta de couro no meio. Ele pegou pelo
corpo da pasta. Com as duas mãos, uma de cada lado, do jeito que se pega uma coisa que tem líquido dentro. A alça
estava na minha mão. Ele podia ter pegado pela alça. Ele não abriu a fivela. Não passou o polegar no fecho, não
sopesou, não olhou para baixo, não fez a conferência que qualquer pessoa faz com qualquer bolsa que ficou três dias
fora de casa. Enfiou embaixo do braço esquerdo, por dentro do casaco do irmão, e ajeitou o zíper de baixo, que ele erra
sempre. Eu tinha conferido a fivela duas vezes na sexta-feira à noite. H E L E N A V A L E N Ç A 262 — O feltro tem que
ser de dez — ele disse. — Se ela comprar de cinco não adianta. — De dez. — A senhora vai querer pregar. Não deixa
pregar. — Não deixo. A gente foi andando até a esquina, ele do lado do canteiro e eu do lado da rua, com um metro
entre os dois ombros, e do outro lado a vitrine da farmácia tinha os mesmos três aparelhos de pressão de junho. Sem
vento, o 22 se ouve da Riachuelo. Eu ouvi o motor e a porta pneumática dele dois pontos antes, o que em oito sábados
nunca tinha acontecido, e por causa disso eu soube o que ia dizer com uma antecedência que eu não tinha em nenhum
outro sábado. Em oito sábados a despedida tinha sido uma palavra. Ele dizia sábado. Eu dizia sábado. É um acordo que
ninguém combinou e que os dois cumpriram oito vezes. — Até sábado — eu disse. Ele fez que sim com a cabeça. Uma
vez. Do jeito que se responde a comentário sobre o tempo. Depois atravessou a praça pelo remendo, e não tinha vento
nenhum naquele dia, e eu fiquei no meio-fio ouvindo os passos dele no petit-pavé até a esquina da banca, e depois da
esquina da banca mais um tanto, onde eu já não podia ver.