Na quinta-feira eu acordei às cinco e quarenta com a luz do corredor acesa, e a luz do corredor estava acesa porque eu
tinha chegado às onze e vinte da noite anterior, largado a bolsa na mesa e ido dormir de meia, sem passar por nenhum
interruptor. Fiquei deitada até a mulher do 502 arrastar a cadeira. Depois levantei, apaguei a luz do corredor e acendi a
da cozinha, que é a mesma quantidade de luz, só que em outro lugar. A primeira mensagem eu escrevi às seis e
cinquenta e um, com a jarra de café na mão esquerda e o telefone apoiado na bancada. o diapasão está na gaveta dos
talheres se você precisar Li uma vez. Apaguei. A segunda foi a mesma frase sem as três últimas palavras, porque as três
últimas palavras eram um convite e eu tinha percebido isso na primeira. Ficou assim: o diapasão está na gaveta dos
talheres. Apaguei essa também, e apaguei mais rápido, o que devia ter me dito alguma coisa naquele momento e não
disse. Tomei o café frio direto da jarra. Não comi. O apartamento estava do jeito de sempre, e isso era o mais estranho
da manhã. A bacia azul embaixo da pia com dois dedos. Os oito cabides virados para o mesmo lado. O sabonete dele na
saboneteira, seco, com uma rachadura no meio de tanto secar. Eu tinha ido à Comendador Araújo na quarta-feira dizer
a um homem as piores frases que já disseram nesta casa em sete anos, e a casa não sabia de nada. Minha mãe ligou à
uma da tarde. D O Z E S E M A N A S DE S I L Ê N C I O 291 — Você almoçou? — Estou almoçando. — Almoçando o quê?
— Sobra. — Sobra de quê? Eu estava em pé na frente da geladeira aberta com um pote de feijão de plástico na mão. Na
tampa tinha uma etiqueta com a data escrita a caneta: 10/6. Eu tinha feito cinco naquela noite de junho e aquele era o
último, com aquela crosta branca de gelo que faz em cima quando a comida fica muito tempo. — De feijão. Ela me
contou que a filha da vizinha passou no concurso da prefeitura em segundo lugar, e que segundo lugar não chama, e
que a mãe da moça já está dizendo por aí que chamou. Contou que o preço do ovo caiu e ninguém comenta, mas
quando sobe todo mundo comenta. Eu fui dizendo hum-hum e abrindo e fechando a tampa do pote com o polegar,
aquele estalo de plástico, umas vinte vezes. — Mãe. — Oi. E aí não veio nada. Eu fiquei com a boca aberta na frente de
uma geladeira aberta e não veio absolutamente nada, e ela esperou o tempo de uma respiração, que é o tempo que ela
espera, e emendou dizendo que a tinta da fachada dela está descascando do lado da janela e que ela vai deixar
descascar. — Se você quiser eu pego o ônibus e vou aí. — Não precisa. — Eu sei que não precisa. Desligamos. Coloquei o
pote de feijão em cima da bancada para descongelar e fui trabalhar em nada durante quatro horas. A terceira
mensagem foi às onze da noite de quinta. H E L E N A V A L E N Ç A 292 eu não vou pedir desculpa por quarta-feira. você
teve sete anos pra escolher a hora e escolheu nenhuma Essa eu deixei na tela um tempo comprido. Depois apaguei e fui
até a estante da sala, que é a parte da noite em que isso vira outra coisa. Porque na quarta-feira, em pé no corredor do
apartamento do Otávio, eu citei a cláusula cinco paraele. Citei de cabeça, com o dedo apontado, e disse “nada que
precise ser escondido do outro na décima terceira”. Ele não me corrigiu. O Elias corrige. Ele corrige a data de uma nota
fiscal, corrige o nome do fabricante de um piano que ninguém perguntou, corrige “quarta” para “quinta” quando você
erra a quarta na frase mais irrelevante do mundo. Eu falei a cláusula que ele escreveu com a minha caneta e ele ficou
olhando para mim sem dizer que estava certo nem que estava errado, e eu voltei de ônibus achando que estava certo.
Às onze e dez da noite de quinta eu quis o papel na mão. Comecei pela estante porque papel dobrado vive dentro de
livro. Tirei os livros da prateleira de baixo primeiro, uma braçada, e fui abrindo cada um pela lombada e sacudindo de
boca para baixo, o que fez cair um cartão de vacina do meu pai, um comprovante de depósito de 2016 e uma foto três
por quatro minha de quando eu tinha vinte e dois anos. Deixei tudo no chão. Passei para a prateleira do meio. Depois
para a de cima, em cima da cadeira, e a cadeira balançava porque o piso da sala tem uma barriga perto da janela.
Depois a gaveta do móvel do corredor, que é onde mora o que a gente chama de documento: contrato de aluguel
renovado sete vezes, manual da geladeira, garantia de um ferro de passar que a gente não tem mais, três canetas
mortas, um saquinho de parafusos, IPTU de anos que não existem mais. Tirei tudo. Virei a gaveta na mesa da sala e
espalhei com a lateral da mão.