Por volta das quatro da tarde o sol entrou pelas telhas translúcidas e caiu atravessado em cima daquilo tudo,
e o galpão
ficou com aquela poeira de serragem suspensa que só aparece quando tem luz para revelar. O Renan chegou às quatro
e meia. Não avisou. Tinha vindo buscar o caderno, que ele tinha deixado dentro da caixa errada na quarta-feira, e a
caixa errada era a MIUDEZA 2, e a gente teve que abrir a MIUDEZA 2, o que é uma coisa que se faz de má vontade
quando a fita crepe já está passada. Ele achou o caderno. Não abriu. Ficou de pé no meio do galpão, com o caderno na
mão, olhando para as nove deitadas. — Um metro e vinte — ele disse. — Um metro e vinte e dois com os sarrafos. —
Trinta e dois dias. — Trinta e um. O contrato era de trinta. — Trinta e um. — Ele bateu com o nó do dedo na porta de
cima da pilha, duas vezes, sem energia nenhuma. — Guarapuava caiu na sexta. Remanejaram a verba, e Joinville sozinha
não paga o caminhão. — A gente cortou o metalon na terça de manhã. — Eu sei. Eu mandei cortar. —Ele olhou a pilha
mais um pouco. — Volta em algum lugar isso? — Nunca volta. — Nunca volta — ele repetiu, e guardou o caderno
debaixo do braço. A Cida foi embora. O Nivaldo foi tirar o carro do sol. Ficamos os dois no galpão com o portão de
enrolar levantado até a metade, com o barulho da Rua Chile entrando por baixo, ônibus e um cachorro em algum
quintal. — Você faz alguma coisa a partir de setembro? — ele perguntou. — Depende. D O Z E S E M A N A S DE S I L Ê N
C I O 151 — Casa de Máquinas. É a próxima. Em São Paulo. Eu não disse nada. Ele não ocupou o silêncio com nada
tampouco, que é uma coisa que quase ninguém sabe fazer. — Texto novo, do Bernardo. Ensaio a partir de oito de
setembro, estreia em dezembro, temporada até março. Seis meses. Contrato de seis meses fechados, sem prorrogação,
o Sesc entra com a sala. Quatrocentos e vinte lugares, boca de doze metros e um urdimento de verdade. — Seis meses.
— Seis meses. Paga o triplo disso aqui e hospedagem nos dois primeiros. — Ele olhou para as caixas encostadas na
parede como quem calcula volume de carga, que é o jeito que a gente olha para caixa. — Eu não convido cenógrafo por
gosto pessoal. Você põe uma porta na altura em que o corpo do ator não precisa corrigir. É uma coisa rara e é uma coisa
que eu preciso. — Você tem quanto tempo? — A ficha técnica vai num edital, e edital tem hora. Eu te digo a data
quando ela for minha. Ele foi até o portão de enrolar, abaixou para passar por baixo, e parou ali agachado, meio dentro
e meio fora, com o sol da rua na metade das costas. — Tem uma coisa só que eu preciso saber agora — ele disse. — Seis
meses é seis meses. Você largaria o apartamento? O latão tinha esquentado no bolso. 152 Capítulo 18 Quinta-feira. O
vento virou para o norte de madrugada e às oito e meia já faz onze graus, o que em julho, aqui, quer dizer dois ou três
dias assim e depois o frio de volta. Acasa é no Juvevê, muro baixo, cerca viva aparada em quadrado. O dono, Décio, uns
sessenta, abre a porta com a chaleira na mão e mostra a sala com o queixo. O piano é um Yamaha U1 preto, número de
série de setenta e seis, trazido usado do Japão em dois mil e quatro. Por fora está melhor do que a maioria: o laqueado
inteiro, dois riscos rasos na tampa, o estofado do banco original. Por dentro é um piano que ninguém abre há catorze
anos. — Ela parou em dois mil e onze — diz Décio. — Não foi briga. Foi indo. — Hm. — Mora em Florianópolis. Elias tira
o tampo superior, depois o frontal, depois o filete debaixo do teclado. Levanta as oitenta e oito teclas em blocos de
onze e deita cada bloco no assoalho, na ordem, em cima de um pano. O pó que se junta embaixo de tecla de piano
fechado é claro e liso, feltro moído pelo tempo, e sai com pincel e aspirador de mão. Uma regulagem não conserta
nada. Ela iguala. O nivelamento se faz com papeleta embaixo do pino de balanço — papel de cinco centésimos, de um
décimo, cartolina, couro fino — e uma régua de alumínio apoiada de ponta a ponta nas brancas. Catorze teclas estão
baixas, e baixa é fácil: põe papel. Três estão altas, D O Z E S E M A N A S DE S I L Ê N C I O 153 e alta dá trabalho, porque
tirar papeleta é abrir para descobrir quais foram postas na fábrica em setenta e seis e qual foi posta depois por alguém
que não anotou nada. Décio traz café e fica em pé atrás dele. — Isso aí muda o quê, exatamente? — Muda o que o dedo
sente. — Não tem dedo nenhum nesse piano faz catorze anos. Elias apoia a régua no trecho seguinte e mede. — Vou
precisar de mais luz. Décio traz um abajur de pé e liga numa extensão que vem da cozinha. — Anunciei ele ano passado
— diz. — Apareceu um moço, ofereceu mil e quinhentos. — É pouco. — É pouco. — Décio olha o piano do jeito que se
olha um carro na garagem. — Aí eu tirei o anúncio. Depois do nivelamento vem o afundamento: dez milímetros,
medidos com um disco de gabarito em cima da tecla, papeleta embaixo do pino da frente, tecla por tecla. Depois a folga
do pilotinho, que é o parafuso que empurra a báscula —e folga é o dedo andando de graça antes de o martelo começar
a andar. Quase todas têm. Ele acerta uma a uma com a chave de fenda comprida, encostando até sumir a folga e
parando antes de o martelo ficar pendurado. A distância de bote está em quarenta e um. Ele solta a barra de repouso
dos martelos e leva para quarenta e seis, que é onde o martelo pega impulso e a tecla para de exigir força. As fitas de
báscula estão ressecadas. Duas arrebentam entre os dedos quando ele encosta. Anota o jogo inteiro para trocar. H E L E
N A V A L E N Ç A 154 Cinco e vinte ele encaixa as teclas de volta, prova as oitenta e oito de ponta a ponta com o polegar
e fecha o frontal. Escapo, apanhador e sobra de toque ficam para segunda. No caderninho: nome, endereço, serviço,
9h00, 17h20. Na linha de baixo: fitas de báscula, jogo completo. Otávio fez macarrão para seis pessoas e come em pé
até resolver sentar. — Sábado é o sexto? — É. — Então é a metade. — Otávio enrola o garfo no prato. — Metade é
sempre a parte chata. Reforma, prestação, jejum. Elias come. — Terça eu fui lá ajudar a carregar. Na Júlia. — Otávio
estica o braço, pega o pote de mostarda escura e põe uma colherada do lado do macarrão. — Desmontagem. Carreguei
seis daquelas portas. Compensado de quinze com batente junto. — Hm. — A Cleide do Zé Renato viu a peça no sábado
e falou das portas a semana inteira, o Zé Renato disse. — Ele raspa o prato. — E falou que no fim o diretor subiu no
palco e agradeceu um por um, com o nome de cada um, o pessoal todo. Renan não sei o quê. Ela achou o fino. — Hm.
— É o do caderno. Anda com um caderno de capa dura debaixo do braço. Estava lá na terça, assinando papel. — Hm. —
Eu, se subisse num palco, esquecia todo mundo. — Otávio levanta com os dois pratos. — Tem sorvete. É de flocos, mas
tem. Elias lava a louça. Otávio enxuga duas coisas, desiste e vai para a sala; a televisão liga no meio de uma propaganda
de colchão. D O Z E S E M A N A S DE S I L Ê N C I O 155 Na porta da geladeira, preso por um ímã, há um bloco de papel
de uma empresa de desentupimento, com o telefone impresso em vermelho no rodapé de cada folha. Elias destaca
uma folha. Senta na ponta da mesa. Esquadreja o papel com a borda de madeira. Tira a caneta do bolso da camisa,
destampa e faz três riscos no canto da folha até a tinta pegar. Escreve: Você já tinha trabalhado com o diretor antes
dessa peça? Lê. Passa dois traços em cima de o diretor e escreve o Renan por cima, entre as linhas, em letra menor, do
jeito que se anota o número de série de um instrumento que já está catalogado com outro nome. Dobra o papel em
quatro, do jeito que dobra recibo, e põe no bolso da camisa. Fica com a mão em cima do bolso o tempo de a máquina
de lavar do apartamento de cima entrar na centrifugação, subir e passar. Tira do bolso e põe embaixo do bloco de ímã,
em cima da mesa. Vai até o quarto e volta com o caderno de agenda. Na última página, a quadriculada, risca o dia 17
com um traço da esquerda para a direita, como riscou o 16 e o 15 e todos os outros desde o 8. No canto de cima apaga
com o dedo o número a lápis e escreve 44. Fecha o caderno com o elástico e põe em cima da geladeira. Levanta o bloco,
tira o papel dobrado de baixo e vai até o lixo. Pisa no pedal. A tampa sobe. Ele solta o papel em cima da casca de cebola,
sem desdobrar, e tira o pé. A tampa desce sozinha