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O documento descreve uma sequência de eventos em um ambiente de produção teatral, onde personagens interagem sobre questões técnicas e logísticas. Renan, um diretor, se envolve diretamente no processo, enquanto a protagonista reflete sobre sua vida pessoal e as relações familiares. A narrativa captura a rotina e a dinâmica de trabalho, entrelaçando momentos de tensão e trivialidades do cotidiano.

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O documento descreve uma sequência de eventos em um ambiente de produção teatral, onde personagens interagem sobre questões técnicas e logísticas. Renan, um diretor, se envolve diretamente no processo, enquanto a protagonista reflete sobre sua vida pessoal e as relações familiares. A narrativa captura a rotina e a dinâmica de trabalho, entrelaçando momentos de tensão e trivialidades do cotidiano.

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D O Z E S E M A N A S DE S I L Ê N C I O 115 luva de encaixe: dois mil e quatrocentos, quatro dias de solda e uma semana

de teste com as nove folhas penduradas. — Ou vão seis — disse a Fabiana, sem maldade, porque ela é da produção e é
isso que a produção faz. — Não vão seis. — Renan. — Não vão seis, Fabiana. Ela anotou alguma coisa, disse que ia pedir
orçamento em dois lugares e foi embora às três e vinte com o celular já no ouvido. O Renan subiu no palco. Em quatro
anos e três produções eu nunca tinha visto aquele homem em cima de um palco meu. Ele dirige da quarta fila,
encostado no encosto da poltrona da frente, e quando precisa falar com ator ele atravessa por baixo, pela plateia, e
volta. Naquela terça ele subiu pela escadinha da coxia direita, pediu licença para o metalon como quem pede licença
para uma pessoa e foi olhar a solda do módulo do meio, agachado, com o joelho no chão do palco. — É aqui que corta.
— É aqui. — Dá para o Nivaldo fazer? — O Nivaldo solda melhor do que quem soldou isso. Ele passou o polegar no
cordão de solda, que é feio, e levantou. Ficou olhando as nove portas de baixo, que é uma altura de onde ninguém vê
aquele cenário, nem a plateia nem eu, e ficou ali o tempo de o refletor da cinco estalar duas vezes esfriando. — Quinta
você faz alguma coisa? — Quinta tem sessão. — A sessão acontece sem nós dois. Eu botei a chave de boca na caixa. Ela
fez barulho, e o barulho ocupou o espaço de uma resposta que eu não dei. — Tem a itinerância para resolver — ele
disse. H E L E N A V A L E N Ç A 116 — Isso a gente resolve aqui em dez minutos. — Resolve. Ele não emendou nada. Não
disse mas é melhor com calma, não disse a Fabiana precisa até sexta, não inventou um terceiro assunto para pendurar
em cima do primeiro. Ficou de pé no meu palco com o caderno de capa dura debaixo do braço, e o que ele disse depois
de me dar razão foi: — Oito horas? Eu vou registrar isto agora para não ter que explicar depois. Eu sabia o que era. Não
descobri no meio, não me dei conta em casa, não fui pega por nada. Eu sabia o que era ali, em cima daquele palco, com
a caixa de ferramentas aberta e cheiro de látex, no segundo exato em que ele largou o argumento de trabalho no chão
em vez de defendê-lo, e mesmo assim o que eu disse foi: — Oito horas. Na quarta-feira não aconteceu nada e eu vou
contar a quartafeira mesmo assim. Minha mãe ligou à uma da tarde. A torneira dela agora pinga em três tempos, que
ela descreveu, e o homem dos cento e vinte reais não atende mais. Falou do peixe. Perguntou se eu estava comendo.
Perguntou do Elias e eu disse que ele tinha ido a Piraquara de novo, e a mentira já está tão gasta de uso que sai sem eu
precisar montar. — Aquilo é longe — ela disse. — É. — Seu pai fazia isso. — Fazia isso o quê? — Ficava fora. — Mexeu
em alguma coisa de metal do outro lado. — Era do serviço. E mudou de assunto para o preço do quilo do filé de
merluza. Minha mãe não termina frase que ela mesma começou, e quem D O Z E S E M A N A S DE S I L Ê N C I O 117
convive com isso aprende a não puxar, do mesmo jeito que se aprende a não pisar na tábua solta. À tarde eu fui ao
galpão com o Nivaldo para medir onde entrariam as luvas. Ele mediu, eu segurei a ponta da trena, a gente discutiu se
cortava a quinhentos ou a mil e quinhentos do encontro, e ele venceu, como vence sempre que tem razão e sempre que
eu estou pensando em outra coisa. — Quinta você vem? — Quinta eu não vou. — Ah. Foi só isso. O Nivaldo não
pergunta. Riscou o metalon com giz de cera amarelo nos dois pontos de corte, foi buscar a esmerilhadeira, e eu fiquei
com a ponta da trena na mão sem ter mais o que medir. Fumei um cigarro às seis da tarde encostada no portão do
galpão, olhando os caminhões de brita descerem para a rodovia. Foi o primeiro do mês e era mesmo o primeiro do mês,
e eu fiquei com o filtro na mão uns dois minutos depois de apagar, sem ter onde jogar, até achar uma lata. A chuva
tinha parado na segunda e entrou aquele frio de julho que é limpo: seco, sem vento, com o céu abrindo à noite e a
calçada devolvendo o barulho do passo da gente. Na quinta-feira às seis da tarde estavam sete graus, e o rádio da
minha avó, que pega três estações e meia, disse que ia a três de madrugada. Passei no teatro às seis e meia sem
nenhum motivo. Conferi a arruela da dois, que estava onde eu tinha deixado. A Cida já estava com a mesa de objetos
montada, cada coisa dentro do seu contorno de giz, e conferindo pela segunda das três vezes. O banheiro do camarim
tem uma pia de louça com uma torneira que só tem a de água fria e uma saboneteira de parede com sabonete líquido
rosa, desses de escola. Eu lavei as mãos duas vezes. Grafite entra na dobra do dedo e na cutícula e não sai com uma vez,
e eu H E L E N A V A L E N Ç A 118 tinha o lado de fora do dedo médio da mão direita preto desde segunda, do 2B.
Esfreguei com o sabonete rosa e com a unha, olhando para o ralo. É essa a extensão do que eu fiz para me arrumar
naquela noite, e eu escrevo porque não me favorece: não troquei de roupa, não passei em casa, não olhei duas vezes
para espelho nenhum. Fui com a calça do galpão. Lavei a mão duas vezes. A gente ia à Casa Bonatto, na Trajano Reis,
que é onde o Renan leva todo mundo desde sempre e onde eu já tinha ido em 2022 com a equipe inteira. Chegamos às
oito em ponto, cada um a pé pelo seu lado, e na porta tinha um papel de sulfite colado com fita crepe por dentro do
vidro: FECHADO P/ REFORMA DA COZINHA. VOLTAMOS DIA 21. As letras eram de pincel atômico e o segundo A estava
aberto embaixo, do jeito que fica quando a tinta acaba. Ele leu o papel inteiro, que tinha oito palavras. — Dia vinte e um
— ele disse. — Dia vinte e um. Descemos a Trajano Reis dois quarteirões, na direção do São Francisco, com aquele frio
entrando pela manga, passando por três lugares fechados e um cheio de gente de vinte anos. O quarto era uma cantina
de nove mesas, com o nome escrito em letra de acrílico em cima da porta e duas lâmpadas de tubo no teto, sem abajur
nenhum, do tipo de luz que não perdoa a cara de ninguém. — Aqui? — ele disse. — Aqui. Mesa de fórmica com papel
branco por cima, preso nas quatro pontas com clipes de metal. Uma televisão no alto do canto, sem som, passando um
jogo de vôlei feminino que não interessava a nenhuma das onze pessoas presentes. A dona tinha uns sessenta anos e
um rapaz de uns vinte que devia ser filho ou sobrinho. O cardápio

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