barbante, e no fundo, cobertos com um pedaço de lona verde de caminhão, uns dois metros cúbicos de alguma coisa
que já foi cenário e hoje é só a lona. Todo mundo que guarda ali guarda com a ideia de remontar. Eu trabalho nisso há
onze anos e vi uma remontagem acontecer duas vezes, e das duas o cenário teve que ser refeito porque a madeira tinha
empenado esperando. Quarta à tarde chuviscou o suficiente para a gente ter que cobrir a carga com lona na segunda
viagem e não o suficiente para molhar nada. Às seis eu entreguei a chave da sala varrida na administração do Marumbi
e assinei um papel de três vias dizendo que a sala estava nas condições em que foi recebida, o que é uma frase que
nenhum teatro do mundo nunca conseguiu dizer com verdade. Quinta, dezessete, o dia amanheceu sem geada e às
onze da manhã já dava para ficar sem casaco no sol, o que em julho em Curitiba é uma provocação. Fui para o galpão às
nove com a Cida e o Nivaldo. O resto da equipe já tinha acabado o contrato na quarta. As nove portas estavam deitadas
no chão de cimento queimado, no meio do vão, do jeito que tinham saído do caminhão na noite anterior, uma em cima
da outra, sem ordem nenhuma. A gente separou por número, botou manta de mudança entre uma e outra e refez a
pilha rente à parede do fundo, com um sarrafo embaixo para não pegar umidade do chão. Deitada, uma porta é uma
tampa. Não é porta. Nove tampas de dois e dez por oitenta, empilhadas, dão um metro e vinte de altura e ocupam
menos espaço do que qualquer pessoa imagina antes de fazer a conta. As maçanetas tinham que sair. Latão em galpão
dividido some, e latão de verdade, o que eu briguei quatro reuniões para conseguir, some mais rápido ainda. Foi a
última coisa a ser feita e demorou quase duas horas, porque maçaneta de latão maciço não é peça de cenário, é peça de
casa: espelho redondo com dois parafusos de cada lado, mais o parafuso de pressão da haste quadrada, mais a lingueta
H E L E N A V A L E N Ç A 148 com dois. O Nivaldo pôs a parafusadeira no torque três para não espanar e mesmo assim
espanou dois. Eu ia recebendo. Cada maçaneta desparafusada é uma coisa desproporcional na mão. A porta some e
sobra o peso. O que eu defendi nas quatro reuniões estava certo, aliás. Maçaneta de alumínio anodizado o ator abre
com dois dedos e o público ouve plástico. Latão maciço obriga o pulso a girar com o antebraço junto, que é como se
abre uma porta na casa de alguém. A Bel levou nove dias de ensaio para parar de abrir a três com a mão em concha.
Depois disso ela abria as nove como quem mora ali. Fora da porta, na palma da mão, uma delas é seiscentos gramas de
metal amarelo com o brilho comido no lugar exato onde o polegar de alguém encostava. Os parafusos foram para um
pote de requeijão com tampa, que é onde vão os parafusos desde que existe requeijão em pote. As maçanetas foram
para uma caixa de papelão, cada uma enrolada no seu pedaço de jornal. O Nivaldo contou no fim. — Deu oito. — Deu
oito. Ele olhou para a caixa, depois para mim, e não olhou para o bolso do meu casaco. — Escrevo nove? — Escreve
nove. Ele escreveu nove. Fechou a caixa com fita crepe, dois cortes com o dente porque a fita crepe rasga torto quando
se puxa com a mão, e passou o pincel atômico. A do bolso era a da sete. Eu tinha desparafusado ela sozinha, antes de
todo mundo, às nove e meia da manhã, e o Nivaldo estava do outro lado do galpão de costas e não estava de costas o
suficiente. D O Z E S E M A N A S DE S I L Ê N C I O 149 Guardei no bolso de dentro do casaco, que é onde eu boto o que
não pode amassar, embora latão não amasse. Ia ficar lá muito tempo. O resto do dia foi caixa. É sempre caixa no fim.
Dobradiça em caixa, ferragem miúda em caixa, sobra de tinta em lata dentro de caixa, pincel enrolado em jornal dentro
de caixa, os quatro rolos de fita silver que sobraram, o estilete, três esquadros, a serra copo, o resto do velcro, os
prendedores que não foram para o bolso do Zuza, dois metros de feltro adesivo, uma lâmpada de serviço, o cabo de aço
da cinta catraca. Caixa de papelão de supermercado, dessas de garrafa de dois litros, que é a única caixa que aguenta
ferragem e é a única que dá para conseguir de graça. Fita crepe em cima, três tiras, e depois o pincel atômico preto de
ponta chanfrada, e a gente escreve em caixa alta porque em caixa alta se lê de longe e de cabeça para baixo:
FERRAGEM. DOBRADIÇA. TINTA. PINCEL. MIUDEZA 1. MIUDEZA 2. FERRAMENTA. PANO. ELÉTRICA. MAÇANETA 9.
Empilhamos encostado na parede do fundo, debaixo da janela alta, porque três de altura é o máximo antes de a de
baixo ceder. Deu três pilhas: quatro, quatro e três. A Cida perguntou de longe, já com a bolsa no ombro: — Quantas
ficam? — Onze. A última eu não cheguei a escrever. O pincel atômico secou no meio da primeira letra, uma dessas
mortes de pincel atômico que não avisam, e eu sacudi, bati a ponta na palma da mão, tirei a tampa de trás e soprei, e
saiu só um risco fantasma que não é preto nem é nada. Não tinha outro pincel no galpão. Ela ficou sem etiqueta,
entalada no meio da pilha da esquerda, e não fazia diferença nenhuma porque eu sabia o que tinha dentro. H E L E N A
V A L E N Ç A 150 Por volta das quatro da tarde o sol entrou pelas telhas translúcidas e caiu atravessado em cima daquilo
tudo, e o galpão ficou com aquela poeira de serragem suspensa que só aparece quando tem luz para revelar. O Renan
chegou às quatro e meia. Não avisou. Tinha vindo buscar o caderno, que ele tinha deixado dentro da caixa errada na
quarta-feira, e a caixa errada era a MIUDEZA 2, e a gente teve que abrir a MIUDEZA 2, o que é uma coisa que se faz de
má vontade quando a fita crepe já está passada. Ele achou o caderno. Não abriu. Ficou de pé no meio do galpão, com o
caderno na mão, olhando para as nove deitadas. — Um metro e vinte — ele disse. — Um metro e vinte e dois com os
sarrafos. — Trinta e dois dias. — Trinta e um. O contrato era de trinta. — Trinta e um. — Ele bateu com o nó do dedo na
porta de cima da pilha, duas vezes, sem energia nenhuma. — Guarapuava caiu na sexta. Remanejaram a verba, e
Joinville sozinha não paga o caminhão. — A gente cortou o metalon na terça de manhã. — Eu sei. Eu mandei cortar. —
Ele olhou a pilha mais um pouco. — Volta em algum lugar isso? — Nunca volta. — Nunca volta — ele repetiu, e guardou
o caderno debaixo do braço. A Cida foi embora. O Nivaldo foi tirar o carro do sol. Ficamos os dois no galpão com o
portão de enrolar levantado até a metade, com o barulho da Rua Chile entrando por baixo, ônibus e um cachorro em
algum quintal. — Você faz alguma coisa a partir de setembro? — ele perguntou. — Depende.