Contei bem.
Eu conto bem — é metade do meu trabalho convencer seis pessoas de que uma coisa que ainda não existe
vai funcionar, e a outra metade é fazer funcionar. Entre quarta e sexta tem quinta. Eu não usei a quinta. Cenógrafo tem
sempre mais material do que cena, e a decisão profissional, a decisão certa, a que qualquer um tomaria, é usar o que
serve à leitura do conjunto e guardar o resto no depósito. Nada do que eu disse naquele banco era mentira. Nem uma
frase, nem meia. Eu sei disso com a precisão de quem montou todas antes de sair de casa. Dez e cinquenta. Eu olhei o
relógio e ele não olhou o dele, e nenhum dos dois se mexeu. Abri a bolsa. O bolso interno é o que tem zíper, e o zíper
emperra sempre no mesmo dente, e a minha mão direita estava dura de quarenta minutos de sombra e demorou duas
tentativas. Tirei o programa e entreguei. Ele pegou com as duas mãos. Papel offset dobrado ao meio, oito páginas,
tipografia miúda, capa com o nome da peça em caixa alta e uma fotografia escura de ensaio em que não dá para ver o
cenário. Abriu. E leu. Leu do jeito que ele lê, do começo, sem pular a lista de patrocínio, sem pular o agradecimento à
companhia de dança do andar de cima. Chegou no fim da coluna, voltou ao alto da página e leu de novo, e dessa vez o
dedo dele acompanhou a coluna da direita linha por linha, porque com aquela mão ele não conseguia segurar o papel
esticado e ler ao mesmo tempo. Na terceira linha da coluna da direita está escrito Cenografia: Júlia Sanchez. — Com z —
ele disse. H E L E N A V A L E N Ç A 140 — Com z. — Vão corrigir? — Rodaram três mil. Está em cima de todas as mesas
do saguão desde o dia três. — Então não vão. — Então não vão. Ele ficou mais um tempo com a ficha técnica aberta. Um
homem lendo uma lista de vinte e dois nomes num banco de praça a quatro graus. — Cenotécnico é o Nivaldo. — É o
Nivaldo. — Ele é o que resolveu a porta sete. — Ele é o que resolveu a porta sete depois de perder a discussão comigo.
— Aham. — Ele desceu mais um pouco a lista. — Contrarregra é a que põe os objetos? — A Cida. Ela desenha o
contorno de cada objeto a giz na mesa da coxia e confere três vezes por sessão. — Isso é bom. — É muito bom. — E
operador de mesa de luz é o quê. É o que aperta na hora. — É o Zuza. São sessenta e oito deixas. — Sessenta e oito. —
Sessenta e oito. Ele perguntou o que faz um cenotécnico, o que faz uma contrarregra e o que faz um operador de mesa
de luz. Não perguntou o que faz um diretor. Todo mundo sabe o que faz um diretor. O nome do diretor está na primeira
linha da coluna da direita, acima de tudo, em corpo dois pontos maior que o resto. D O Z E S E M A N A S DE S I L Ê N C I
O 141 Ele voltou ao alto daquela coluna e desceu com o dedo pela terceira vez. Elias lê tudo duas vezes. Bula, contrato
de aluguel, mensagem minha. Sete anos e eu nunca tinha visto aquele homem ler uma coisa três. Depois dobrou o
programa na dobra que já tinha, sem fazer dobra nova, alisou com dois dedos de cima para baixo e me estendeu com as
duas mãos. — Guarda. — Fica com ele, se você quiser. — É seu — ele disse. — Está o seu nome. — Está o meu nome
errado. — Está o seu nome. Eu guardei no mesmo lugar de onde tinha tirado e fechei o zíper até o fim, e ele esperou
aquilo terminar antes de mexer no casaco. Nove dias eu tinha andado com um programa de peça amassando dentro de
um bolso por falta de destinatário, e o destinatário leu, perguntou o que faz cada um dos vinte e dois nomes, e
devolveu. Onze horas. A gente levantou junto. Ele procurou o cursor de baixo do zíper com a mão errada, achou na
segunda, e ficou de pé olhando a praça enquanto eu punha a bolsa no ombro. No banco ficaram os dois montes de
jornal, cada um com o amassado de quem tinha sentado em cima. Eu contei, porque eu conto. O meu tinha oito folhas
duplas. O dele tinha duas. — Sábado — ele disse. — Sábado. Fui eu que fui primeiro, e atravessei a praça pelo meio,
pelo remendo de cimento liso, que estava seco e claro e não tinha mais nada de geada. Na esquina da banca eu olhei
para trás. H E L E N A V A L E N Ç A 142 Na semana anterior eu não tinha olhado, e o quarteirão seguinte era reto e
comprido e teria dado tempo. Naquele sábado eu olhei, e foi por isso que eu vi. Ele não tinha saído do lugar. Estava de
pé na frente do terceiro banco, no sol que não esquenta nada, virado para a esquina onde eu estava. Não acenou. Não
deu um passo, não mexeu na Gazeta, não fingiu estar fazendo outra coisa. Estava esperando eu virar a esquina, e estava
fazendo aquilo do jeito de quem já fez. Eu virei a esquina. Aquele quarteirão é reto por trezentos metros e eu já tinha
andado nele outras vezes sem virar a cabeça uma única vez, e naquela manhã eu tinha contado tudo — as folhas dele,
as minhas, os minutos, os milímetros de unha — menos quantas vezes ele tinha ficado ali de pé esperando eu sumir.