vou registrar isto agora para não ter que explicar depois. Eu sabia o que era.
Não descobri no meio, não me dei conta
em casa, não fui pega por nada. Eu sabia o que era ali, em cima daquele palco, com a caixa de ferramentas aberta e
cheiro de látex, no segundo exato em que ele largou o argumento de trabalho no chão em vez de defendê-lo, e mesmo
assim o que eu disse foi: — Oito horas. Na quarta-feira não aconteceu nada e eu vou contar a quartafeira mesmo assim.
Minha mãe ligou à uma da tarde. A torneira dela agora pinga em três tempos, que ela descreveu, e o homem dos cento
e vinte reais não atende mais. Falou do peixe. Perguntou se eu estava comendo. Perguntou do Elias e eu disse que ele
tinha ido a Piraquara de novo, e a mentira já está tão gasta de uso que sai sem eu precisar montar. — Aquilo é longe —
ela disse. — É. — Seu pai fazia isso. — Fazia isso o quê? — Ficava fora. — Mexeu em alguma coisa de metal do outro
lado. — Era do serviço. E mudou de assunto para o preço do quilo do filé de merluza. Minha mãe não termina frase que
ela mesma começou, e quem D O Z E S E M A N A S DE S I L Ê N C I O 117 convive com isso aprende a não puxar, do
mesmo jeito que se aprende a não pisar na tábua solta. À tarde eu fui ao galpão com o Nivaldo para medir onde
entrariam as luvas. Ele mediu, eu segurei a ponta da trena, a gente discutiu se cortava a quinhentos ou a mil e
quinhentos do encontro, e ele venceu, como vence sempre que tem razão e sempre que eu estou pensando em outra
coisa. — Quinta você vem? — Quinta eu não vou. — Ah. Foi só isso. O Nivaldo não pergunta. Riscou o metalon com giz
de cera amarelo nos dois pontos de corte, foi buscar a esmerilhadeira, e eu fiquei com a ponta da trena na mão sem ter
mais o que medir. Fumei um cigarro às seis da tarde encostada no portão do galpão, olhando os caminhões de brita
descerem para a rodovia. Foi o primeiro do mês e era mesmo o primeiro do mês, e eu fiquei com o filtro na mão uns
dois minutos depois de apagar, sem ter onde jogar, até achar uma lata. A chuva tinha parado na segunda e entrou
aquele frio de julho que é limpo: seco, sem vento, com o céu abrindo à noite e a calçada devolvendo o barulho do passo
da gente. Na quinta-feira às seis da tarde estavam sete graus, e o rádio da minha avó, que pega três estações e meia,
disse que ia a três de madrugada. Passei no teatro às seis e meia sem nenhum motivo. Conferi a arruela da dois, que
estava onde eu tinha deixado. A Cida já estava com a mesa de objetos montada, cada coisa dentro do seu contorno de
giz, e conferindo pela segunda das três vezes. O banheiro do camarim tem uma pia de louça com uma torneira que só
tem a de água fria e uma saboneteira de parede com sabonete líquido rosa, desses de escola. Eu lavei as mãos duas
vezes. Grafite entra na dobra do dedo e na cutícula e não sai com uma vez, e eu H E L E N A V A L E N Ç A 118 tinha o
lado de fora do dedo médio da mão direita preto desde segunda, do 2B. Esfreguei com o sabonete rosa e com a unha,
olhando para o ralo. É essa a extensão do que eu fiz para me arrumar naquela noite, e eu escrevo porque não me
favorece: não troquei de roupa, não passei em casa, não olhei duas vezes para espelho nenhum. Fui com a calça do
galpão. Lavei a mão duas vezes. A gente ia à Casa Bonatto, na Trajano Reis, que é onde o Renan leva todo mundo desde
sempre e onde eu já tinha ido em 2022 com a equipe inteira. Chegamos às oito em ponto, cada um a pé pelo seu lado, e
na porta tinha um papel de sulfite colado com fita crepe por dentro do vidro: FECHADO P/ REFORMA DA COZINHA.
VOLTAMOS DIA 21. As letras eram de pincel atômico e o segundo A estava aberto embaixo, do jeito que fica quando a
tinta acaba. Ele leu o papel inteiro, que tinha oito palavras. — Dia vinte e um — ele disse. — Dia vinte e um. Descemos a
Trajano Reis dois quarteirões, na direção do São Francisco, com aquele frio entrando pela manga, passando por três
lugares fechados e um cheio de gente de vinte anos. O quarto era uma cantina de nove mesas, com o nome escrito em
letra de acrílico em cima da porta e duas lâmpadas de tubo no teto, sem abajur nenhum, do tipo de luz que não perdoa
a cara de ninguém. — Aqui? — ele disse. — Aqui. Mesa de fórmica com papel branco por cima, preso nas quatro pontas
com clipes de metal. Uma televisão no alto do canto, sem som, passando um jogo de vôlei feminino que não interessava
a nenhuma das onze pessoas presentes. A dona tinha uns sessenta anos e um rapaz de uns vinte que devia ser filho ou
sobrinho. O cardápio