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O texto descreve a conversa entre dois personagens sobre os problemas de um instrumento musical danificado e a necessidade de reparos. O narrador reflete sobre memórias e mudanças em seu ambiente, enquanto observa a rotina de um dia chuvoso. A cena se desenrola em um teatro, onde questões de produção e logística são discutidas, revelando a dinâmica entre os personagens e suas responsabilidades.

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O texto descreve a conversa entre dois personagens sobre os problemas de um instrumento musical danificado e a necessidade de reparos. O narrador reflete sobre memórias e mudanças em seu ambiente, enquanto observa a rotina de um dia chuvoso. A cena se desenrola em um teatro, onde questões de produção e logística são discutidas, revelando a dinâmica entre os personagens e suas responsabilidades.

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A madeira do tampo inchou — ele disse. — A dona quer saber se volta. — E volta? — Volta ao tamanho.

— Ele fez com


o queixo o gesto de quem indica um objeto que não está ali. — Não volta ao lugar. Ela vai secar e vai ficar do tamanho
de antes, e cada peça vai assentar dois milímetros para o lado de onde estava. Aí você tem um instrumento inteiro
certo, com tudo no tamanho certo, e ele não fecha mais. — E o que se faz? — Abre tudo e assenta de novo. Uma por
uma. — Uma pausa. — Ou toca assim e vai se acostumando, que é o que a maioria faz. Eu ia responder alguma coisa e
não respondi, porque nessa altura ele já tinha as duas mãos fora dos bolsos, uma de cada lado, mortas ao longo do
corpo, com aquela casca escura rachada, a um palmo e meio de mim, e eu estava olhando para elas com uma falta de
disfarce que me assustou depois, quando eu revi a cena a pé, na Alferes Poli, debaixo da chuva. Uma mulher entrou no
prédio da frente com duas sacolas de supermercado equilibradas no braço e a chave na boca. O portão fechou atrás
dela. E eu virei a cabeça, porque virar a cabeça naquele barulho é uma coisa que o meu corpo faz sem me consultar
desde 2017, e não tinha nada para ver, porque não tinha havido a segunda. A primeira também não tinha sido bem uma
primeira: foi um estalo curto de lingueta entrando de uma vez, um som de porta de casa, um som de qualquer prédio de
qualquer rua desta cidade. Depois nada. Só a chuva. Eu olhei o portão de ferro do prédio do primeiro ano com atenção,
do jeito que a gente olha uma coisa que está errada e ainda não se sabe onde. Levei um tempo. E o que estava diferente
eram três coisas pequenas e nenhuma delas nova: o arame de varal que D O Z E S E M A N A S DE S I L Ê N C I O 111
emendava a mola fazia anos tinha sumido, e no lugar dele a última espira estava torcida em gancho, no próprio aço, por
alguém que sabia dobrar aço; no canal do batente tinha uma tira de feltro cinza encaixada, com a ponta cortada reta; e
no pé da dobradiça de baixo tinha uma pilha de rodelas de couro e papelão calçando o pino, tão bem empilhadas que
de longe pareciam sujeira de anos. Alguém tinha finalmente falado com o síndico. Foi isso que eu pensei, e eu vou
escrever exatamente isso porque foi exatamente isso: alguém finalmente falou com o síndico, oito anos depois, e eu
não moro mais ali, e é sempre assim. Eu virei de volta para a faixa seca. E ele não estava olhando para o portão. Não
estava olhando para mim olhando o portão, que foi o que ele fez no primeiro sábado. Estava com o queixo baixo e os
olhos nos próprios sapatos, que eram os pretos de trabalho, encharcados, com a água entrando pela costura, e ficou
assim até eu falar outra coisa. Às dez e quarenta e cinco o homem da banca saiu com o cabo da vassoura e furou a
barriga d'água do toldo por baixo. Despencou tudo de uma vez, um balde inteiro, e respingou a faixa seca até a metade,
e nós dois recuamos ao mesmo tempo contra a parede da banca, e por uns segundos eu estive a menos de dez
centímetros do casaco do irmão dele. Deu para sentir o cheiro do casaco: lã molhada, e por baixo o cheiro de armário
embutido novo, verniz, casa alheia. Nenhum cheiro dele. Nada meu. Ficamos assim o tempo de o homem voltar para
dentro e fechar a portinhola. Aí o Elias deu meio passo para a direita e reconstituiu o palmo e meio. Não teve nada de
errado nesse meio passo. Era o meio passo correto. Era exatamente o que eu tinha comprado com quatro cláusulas e
uma caneta emprestada numa padaria, e ele estava me H E L E N A V A L E N Ç A 112 entregando a mercadoria inteira,
na medida, no prazo, sem falta e sem sobra, do jeito que aquele homem entrega tudo o que promete entregar. Eu olhei
o meu relógio. Dez e cinquenta. — Eu vou indo — falei. Ele levantou o rosto. — Ainda não deu onze. — Não deu. Ele não
disse mais nada. Não perguntou por quê, não disse aconteceu alguma coisa, não olhou para o meu relógio para conferir,
não fez a conta do 22 na frente de mim. Ajeitou o retângulo de jornal dentro do casaco com o dorso da mão direita,
porque a palma não devia estar servindo para muita coisa, e fez que sim com a cabeça uma vez. — Sábado — ele disse.
— Sábado. Eu abri o guarda-chuva de vareta quebrada ainda embaixo do toldo, o que dá azar, e saí para a chuva com o
outro fechado debaixo do braço. Atravessei a praça pelo meio, pelo remendo de cimento liso, que é a parte alagada, e a
água entrou pelo sapato pela terceira vez naquela manhã. Não olhei para trás na esquina. Não olhei para trás no
quarteirão seguinte, e o quarteirão seguinte é reto e comprido e teria dado tempo. Ele não veio atrás. Eu tinha escrito
onze horas. Ele estava cumprindo onze horas. P A R T E D O I S O que se afrouxa 114 Capítulo 14 Na terça-feira o teatro
estava apagado e eu fui lá por causa de um contrapeso. O Marumbi não tem função de segunda a quarta. Um teatro
apagado no meio da semana tem um cheiro que ele não tem em dia de sessão: o pó assenta, o látex do cenário sobe
por cima de tudo e o café da máquina do saguão desaparece. Entrei pela porta de serviço às duas da tarde, com a chave
que a Fabiana me deu em maio e que eu devia ter devolvido no dia da estreia. O contrapeso da porta dois é um saco de
chumbo de nove quilos preso num cabo de aço que corre por duas roldanas. Na sessão de domingo ele começou a
raspar no metalon na descida, e raspar é um barulho que a plateia não sabe nomear e escuta. Levei quarenta minutos
em cima de uma escada de seis degraus, com a lanterna na boca. Era uma arruela. Sempre é uma arruela. O Renan
chegou às três com a Fabiana e uma pasta de plástico transparente. Vieram por causa da itinerância de agosto: Ponta
Grossa, Guarapuava e Joinville, três fins de semana, caminhão baú de sete metros. Sentaram na terceira fila com a
planilha aberta entre os dois, e eu continuei no palco com a chave de boca na mão, o que quer dizer que eu ouvi tudo
sem estar na conversa. O problema é Guarapuava. A porta de carga do teatro de lá dá para um corredor com dois
cotovelos, e a nossa estrutura foi soldada em maio em módulos de três metros, porque em maio ninguém ia levar aquilo
para lugar nenhum. Três metros não faz a curva. Para fazer a curva é preciso cortar cada módulo ao meio e emendar
com D O Z E S E M A N A S DE S I L Ê N C I O 115 luva de encaixe: dois mil e quatrocentos, quatro dias de solda e uma
semana de teste com as nove folhas penduradas. — Ou vão seis — disse a Fabiana, sem maldade, porque ela é da
produção e é isso que a produção faz. — Não vão seis. — Renan. — Não vão seis, Fabiana. Ela anotou alguma coisa,
disse que ia pedir orçamento em dois lugares e foi embora às três e vinte com o celular já no ouvido. O Renan subiu no
palco. Em quatro anos e três produções eu nunca tinha visto aquele homem em cima de um palco meu. Ele dirige da
quarta fila, encostado no encosto da poltrona da frente, e quando precisa falar com ator ele atravessa por baixo, pela
plateia, e volta. Naquela terça ele subiu pela escadinha da coxia direita, pediu licença para o metalon como quem pede
licença para uma pessoa e foi olhar a solda do módulo do meio, agachado, com o joelho no chão do palco. — É aqui que
corta. — É aqui. — Dá para o Nivaldo fazer? — O Nivaldo solda melhor do que quem soldou isso. Ele passou o polegar
no cordão de solda, que é feio, e levantou. Ficou olhando as nove portas de baixo, que é uma altura de onde ninguém
vê aquele cenário, nem a plateia nem eu, e ficou ali o tempo de o refletor da cinco estalar duas vezes esfriando. —
Quinta você faz alguma coisa? — Quinta tem sessão. — A sessão acontece sem nós dois. Eu botei a chave de boca na
caixa. Ela fez barulho, e o barulho ocupou o espaço de uma resposta que eu não dei. — Tem a itinerância para resolver
— ele disse.

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