0% acharam este documento útil (0 voto)
0 visualizações1 página

28

O texto descreve um jantar entre duas pessoas, onde a conversa é marcada pela ausência de intimidade e pela troca de informações sobre trabalho e passado. A protagonista reflete sobre a relação com o acompanhante, que compartilha detalhes de sua vida profissional sem aprofundar sentimentos. O ambiente e as interações são observados com um tom melancólico, destacando a falta de conexão emocional entre os dois.

Enviado por

rosadeandrade86
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato DOCX, PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
0 visualizações1 página

28

O texto descreve um jantar entre duas pessoas, onde a conversa é marcada pela ausência de intimidade e pela troca de informações sobre trabalho e passado. A protagonista reflete sobre a relação com o acompanhante, que compartilha detalhes de sua vida profissional sem aprofundar sentimentos. O ambiente e as interações são observados com um tom melancólico, destacando a falta de conexão emocional entre os dois.

Enviado por

rosadeandrade86
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato DOCX, PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

é plastificado, com quatro pratos, e tem uma mancha de óleo permanente na altura do terceiro.

Ela trouxe pão de casca


dura, manteiga com sal grosso por cima e um vidrinho de berinjela em conserva antes de a gente pedir qualquer coisa.
Eu comi a berinjela. Comi três garfadas, no automático, olhando o cardápio, e na terceira eu parei com o garfo no ar por
causa do vinagre. Ele não come nada de vidro com vinagre. Não é frescura, é uma coisa de infância que ele explicou uma
vez com três palavras e nunca mais, e em sete anos aquilo virou lista de supermercado sem nunca ter virado conversa.
Eu tinha comprado alcaparra em junho e tinha comido alcaparra em pé na pia. Naquela quinta eu comi berinjela em
conserva numa mesa com duas pessoas e não sobrou nada para pensar sobre isso, então eu não pensei, e passei o
vidrinho para o lado dele. — Pode? — Pode. Pedi a sopa. Cappelletti in brodo, que naquele lugar vem numa tigela funda
de louça branca com borda azul e um caldo de galinha de verdade, escuro, que deixa a colher pesada. Ele pediu polenta
mole com galinha caipira, que veio numa panela de ferro para dois e que ele empurrou para o meio da mesa sem dizer
nada. Meia jarra de vinho da casa, tinto, num jarro de vidro grosso com o bico lascado. Água numa garrafinha de vidro
de duzentos e cinquenta mililitros, dessas de bar antigo. O trabalho levou dez minutos e ele não fingiu que levou mais.
Tirou o elástico do caderno de capa dura, botou o elástico no pulso — ficou lá a noite inteira — e desenhou os três
módulos no papel da mesa com a lapiseira, com a régua improvisada do canto do cardápio. Fez a estrutura em planta.
Fez o corredor de Guarapuava H E L E N A V A L E N Ç A 120 com os dois cotovelos, de memória, com as medidas que ele
tinha pedido por telefone na quarta e anotado no verso da própria mão em algum momento do dia, porque tinha
número azul no dorso da mão dele. — Corta a mil e quinhentos — ele disse. — O Nivaldo quer a mil e quinhentos. —
Então é a mil e quinhentos. — Você nem perguntou por quê. — Eu vi a mão dele na estrutura em junho — ele disse, e
riscou o segundo cotovelo. — Quem apoia a mão onde ele apoia sabe onde é que aquilo entorta. Acabou aí. Sobrou
uma hora e cinquenta. E aqui eu preciso ser exata, porque é a parte da noite que eu não consegui contar para ninguém
depois, nem para mim. Não teve nada. Nenhuma mão na minha mão. Nenhum elogio a nada que não fosse trabalho. Ele
não perguntou do meu casamento, não perguntou por que eu estava jantando fora numa quinta de temporada, não fez
uma única pergunta cuja resposta me obrigasse a escolher entre mentir e explicar. Ele não me olhou de um jeito que eu
pudesse descrever aqui e ser levada a sério. Ele me contou que trabalhou seis anos num escritório de projetos
detalhando esquadria. — Esquadria. — Porta, janela, batente, guarnição, dobradiça. — Ele girou o garfo. — A folha, o
marco e o rodapé de encontro. O resto do prédio era problema dos outros. — Seis anos disso. — Seis anos disso. Porta
de dois e dez é padrão porque em mil novecentos e cinquenta e pouco alguém mediu um homem alto e todo mundo
copiou. Eu desenhei umas quatro mil. — E aí? D O Z E S E M A N A S DE S I L Ê N C I O 121 — E aí o escritório quebrou em
dois mil e catorze e um amigo meu precisou de alguém para medir a boca de cena de um teatro em Londrina. Ele não
disse mais nada sobre isso. Não fez a curva que todo mundo faz, a de que a vida dele mudou, a de que ele descobriu o
que era mesmo dele, a de que foi a melhor coisa que já aconteceu. Comeu a polenta. Do outro lado do salão a dona
derrubou uma colher e xingou baixo. Quatro mil portas. Foi por isso que ele viu os dois centímetros da cinco em junho,
foi por isso que ele mede o peso de cada maçaneta com a mão desde 2021, e ele nunca tinha me contado, e não contou
naquela noite como quem entrega uma credencial: contou porque eu perguntei por que ele estava certo sobre a altura.
— Onde você aprendeu a fazer a sombra primeiro? — ele perguntou. — Meu pai revelava filme. — Revelava onde? —
Numa galeria da Marechal. Laboratório de quatro por quatro com uma cortina preta na porta e uma lâmpada vermelha.
— Eu botei a colher na tigela. — Eu ia lá nas férias. Ele me deixava sentar num banquinho e ficar olhando a bandeja. — E
aparece. — Aparece. Não é que a gente desenha a foto. Ela está inteira lá dentro do papel desde antes, e a gente só fica
sacudindo a bandeja até o escuro sair de onde tem que sair. — Quantos anos você tinha. — Sete, oito. — E depois?
Ninguém pergunta o depois. Todo mundo para no laboratório de quatro por quatro e na lâmpada vermelha, porque a
lâmpada vermelha é bonita e resolve a conversa. Ele perguntou o depois. H E L E N A V A L E N Ç A 122 — Depois fechou
— eu disse. — Em noventa e oito. Todo mundo comprou máquina digital e em três anos não tinha mais um laboratório
na cidade, e ele foi trabalhar no depósito de uma distribuidora de bebida e ficou lá até morrer. — Ele levava o material
para casa? — Levava. — Eu não sabia que eu sabia disso até dizer. — Tinha uma caixa de papel fotográfico vencido em
cima do guarda-roupa dele até 2016. Ele não disse nada bonito sobre isso. Não disse que triste, não disse que história,
não fez com a cabeça aquele movimento que as pessoas fazem para avisar que estão comovidas. Serviu vinho no meu
copo até a metade, sem perguntar, e serviu no dele até a metade, e comeu mais polenta. Às oito e meia, sem nenhum
comentário de nenhum de nós dois, começou a sessão a três quilômetros dali. Por volta das nove e pouco a Bel devia
estar atravessando o palco em nove passos com a mão na altura do quadril. Eu não falei disso. Ele também não, e ele
sabia a hora tanto quanto eu. — Você não vai mais depois da quarta sessão — eu disse. — Depois da quarta eu começo
a consertar o que não está quebrado. — É bonito isso. — Não é bonito. É que eu já estraguei duas peças assim. A dona
veio recolher a panela de ferro e perguntou se estava bom, e o rapaz passou um pano numa mesa vazia, e em algum
momento ela falou alguma coisa com a palavra casal dentro, de costas, indo para a cozinha, do jeito que se fala de duas
pessoas sentadas de frente uma para a outra numa cantina numa quinta-feira à noite. Ninguém corrigiu ninguém. Não
tinha para quem corrigir: ela já estava atrás da porta de vaivém.

Você também pode gostar